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Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo)

versão impressa ISSN 0101-6083versão On-line ISSN 1806-938X

Rev. psiquiatr. clín. v.34  supl.1 São Paulo  2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832007000700007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Perspectivas históricas da influência da mediunidade na construção de idéias psicológicas e psiquiátricas

 

 

Carlos S. AlvaradoI; Fátima Regina MachadoII; Wellington ZangariIII; Nancy L. ZingroneIV

IProfessor-assistente de Pesquisa em Medicina Psiquiátrica, Division of Perceptual Studies – University of Virginia (EUA)
IIProfessora, Faculdade de Comunicação e Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
IIIPesquisador, Laboratório de Estudos em Psicologia Social da Religião do Instituo de Psicologia da Universidade de São Paulo
IVProfessora-assistente de Pesquisa em Medicina Psiquiátrica, Division of Perceptual Studies – University of Virginia

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

CONTEXTO: A psicologia e a psiquiatria têm sido, ao longo do tempo, influenciadas pelos fenômenos estudados pelos pesquisadores dessas áreas. Diversas idéias sobre a mente e suas patologias foram desenvolvidas no contexto dos estudos de histeria, de dupla e de múltipla personalidades e dos fenômenos hipnóticos.
OBJETIVOS: Neste estudo, propomos que a mediunidade tenha influenciado tanto a psicologia quanto a psiquiatria de diferentes modos. Os fenômenos mediúnicos, tais como os transes e as mensagens verbais ou escritas atribuídos a espíritos de mortos, contribuíram para o desenvolvimento de vários importantes conceitos durante o século XIX e daí por diante.
MÉTODOS: Revisamos a literatura histórica da psiquiatria e da psicologia relacionada à mediunidade para identificar discussões sobre a mediunidade.
RESULTADOS: A mediunidade foi usada para defender ampla variedade de idéias sobre a mente subconsciente por pesquisadores como William B. Carpenter, Frederic W. H. Myers e Joseph Grasset. Tanto Pierre Janet quanto Théodore Flournoy se serviram da mediunidade para ilustrar formas de dissociação. Da mesma forma, a psicopatologia foi relacionada de diferentes modos à prática mediúnica, como foi discutido por Jean-Martin Charcot, Pierre Janet e Gilbert Ballet.
CONCLUSÕES: Apesar de a mediunidade ser apenas um dos fatores que afetou a construção de conceitos como o de subconsciente, dissociação e psicopatologia, é necessário que sua influência seja mais reconhecida do que o é atualmente na historiografia da psicologia e da psiquiatria.

Palavras-chave: Mediunidade, psiquiatria, psicologia, espiritismo, pesquisa psíquica, psicopatologia.


 

 

Todos os que estão familiarizados com as histórias da psicologia e da psiquiatria reconhecem a importância de ampla variedade de fenômenos específicos e condições para o desenvolvimento de conceitos de mente e saúde mental. Tal foi o caso, durante o século XIX, da histeria, da dupla personalidade e da hipnose (Crabtree, 1993; Ellenberger, 1970; Gauld, 1992; Hacking, 1995). Tanto a histeria quanto a hipnose forneceram um foco para o desenvolvimento de explicações orgânicas e psicológicas que, independentemente de sua validade, alteraram profundamente o curso da psicologia e da psiquiatria (Carroy, 1991, 1993; Micale, 1995; Wright, 1980).

Além disso, a histeria e a hipnose serviram como verdadeiro material de aprendizagem relativamente à criação iatrogênica de fenômenos, com base nos quais, em contrapartida, psicólogos e psiquiatras aprenderam muito sobre os potenciais da mente humana. Isso tem sido discutido em relação ao influente trabalho do neurologista francês Jean-Martin Charcot (1825-1893) (Didi-Huberman, 2003) e relacionado aos debates sobre a natureza da hipnose entre as escolas francesas rivais de Salpêtrière e Nancy (Nicolas, 2004).

Os fenômenos anteriormente mencionados influenciaram a psicologia e a psiquiatria ao apresentarem aos pesquisadores grande variedade de possibilidades teóricas. Esse foi também o caso de uma série de outros fenômenos e condições, entre os quais está a mediunidade.

Essa perspectiva é consistente com a tendência de que as historiografias da psicologia e da psiquiatria têm tido ao sustentarem que os fenômenos do mesmerismo (comentado mais adiante), do espiritismo e da pesquisa psíquica1 foram agentes de mudança na história conceitual das idéias de compreensão da mente (Alvarado, 2002; Crabtree, 1993; Ellenberger, 1970; Le Maléfan, 1999; Shamdasani, 1993). Seguindo essa perspectiva, sustentamos (com toda a consciência de que esta não é uma idéia original) que os fenômenos mediúnicos, tais como os transes e as manifestações verbais ou escritas atribuídos a espíritos dos mortos, contribuíram para o desenvolvimento de conceitos como o de mente subconsciente*, processos de dissociação e concepções teóricas relacionadas à psicopatologia durante os séculos XIX e XX2 . Nossa apresentação não incluiu, por opção, uma aprofundada análise histórica do contexto que permitiu a eclosão dos conceitos apresentados. Os interessados nessa análise podem recorrer, por exemplo, à obra de Taylor (1999), de Crabtree (1993) e de Ellenberger (1970).

 

Emergência da mediunidade durante o século XIX3

Na primeira parte do século XIX, nos Estados Unidos, paralelamente ao florescimento de novos movimentos religiosos, como a Igreja Mormon (1830) e a Igreja Adventista (1831), crescia um grande interesse no chamado "transe mesmérico" – mais tarde chamado de transe hipnótico – especialmente nos intitulados "clarividentes mesmeristas". As raízes desse interesse remontam ao século XVIII.

O mesmerismo surgiu na Europa e teve seu auge no século XVIII. O termo "mesmerismo" está ligado às práticas de Franz Anton Mesmer (1734-1815), médico alemão que vivia na Áustria e fazia constante pesquisa sobre o "fluido universal" ou, como ele denominava, "magnetismo animal", um tipo de força que controlaria o bem-estar humano. O desequilíbrio dessa força causaria doenças que poderiam ser curadas com a utilização de ímãs ou objetos magnetizados para o tratamento terapêutico. Com o tempo, porém, Mesmer começou a perceber que, mesmo sem os ímãs ou objetos magnetizados, poderia curar as pessoas, pois o que agia realmente era o magnetismo animal emanado do magnetizador que se desprendia das extremidades de seus nervos através dos dedos (Buranelli, 1975, p. 110). Observou-se que havia pessoas que, sob esse efeito mesmérico, tinham a capacidade de fazer adivinhações, sendo por isso chamadas de "clarividentes mesmeristas". Acreditava-se que esses clarividentes recebiam mensagens divinatórias de espíritos.

Andrew Jackson Davis, um aprendiz de sapateiro que vivia em Poughkeepsie, Nova York (EUA), foi um dos mais conhecidos dentre aqueles que poderiam ser chamados de clarividentes mesmeristas. Em 1845, tendo se oferecido como voluntário em uma sessão de hipnotismo, Andrew entrou facilmente em transe hipnótico. Foi convidado a se tornar assistente do hipnotizador e começou a diagnosticar e a curar enfermidades enquanto hipnotizado. Passou a prescindir do magnetizador – como ainda era chamado o hipnotizador – e conseguia provocar o próprio transe. Além dos diagnósticos e curas, passou gradualmente a tratar, durante o transe, de temas a respeito da origem, função e funcionamento do Universo. Dizia ser inspirado pelo espírito de Emmanuel Swedenborg (1688-1772) – engenheiro e vidente sueco – que supostamente lhe transmitia ensinamentos. Alegando ser inspirado por esse espírito-guia, escreveu um livro a respeito do mundo dos espíritos, preparando o terreno para o que viria a ser, logo depois, o espiritismo4.

Como foi dito, em meados do século XIX fervilhavam especulações em torno da possibilidade de comunicação com os mortos nos Estados Unidos. O ápice desse momento se deu com a família Fox, que marcou de modo mais ou menos formal o início das chamadas sessões mediúnicas, base para o que foi denominado, posteriormente, de espiritismo. Em 1847, a família Fox – composta por cinco pessoas: o Sr. e a Sra. Fox e as filhas, Leah, então com 23 anos, Margaret, com 15 e Katherine, com 12 – se mudou para o povoado de Hydesville, localizado no Condado de Wayne, em Nova York. Em 1848, começaram a ocorrer fenômenos estranhos em sua residência: batidas estranhas nas paredes da casa onde viviam começaram a ocorrer constantemente, sempre quando as duas filhas menores estavam presentes. Logo as meninas estabeleceram um código para travar comunicação com o autor dessas "batidas" – chamadas raps – por meio de quantidades de sons ouvidos após perguntas que eram feitas ao suposto autor destas. Começava a nascer o código do espiritismo (Fantoni, 1981, p. 221). A história a respeito dos raps se espalhou pela vizinhança. Muitas pessoas passaram a freqüentar a casa em busca de comunicações com os espíritos ou apenas por curiosidade. Sendo a família de religião metodista, foi expulsa de sua Igreja em Hydesville, pois aqueles estranhos eventos foram atribuídos à possessão demoníaca. Os Fox se mudaram para Rochester, onde os "fenômenos" continuaram a acontecer. Começaram a realizar sessões sistematicamente, durante as quais se ouviam os raps, observava-se o golpear da mesa ao redor da qual era feita a sessão e, até mesmo, a movimentação dessa mesa, que muitas vezes, segundo testemunhas da época, rodopiava pela sala, tendo, por isso, ficado conhecidas como "mesas girantes" (Wantuil, 1958).

Sessões espíritas começaram a ocorrer por todo o país e também na Europa e no Brasil, onde as notícias sobre esses fatos chegariam por volta de 1870 (Hess, 1987, p. 472). Durante as sessões, algumas pessoas sentiam o leve movimentar de algumas mesas e ouviam os raps, enquanto outras não conseguiam perceber nem provocar nada. Essas pessoas com maior sensibilidade para tais eventos se destacavam entre as outras e foram chamadas de médiuns, ou seja, eram consideradas intermediárias entre este mundo e o mundo dos espíritos.

Em 1854, o pedagogo francês Hippolite Leon Denizard Rivail, acadêmico que dizia não acreditar na comunicação com os espíritos, foi convidado a colher relatos das ocorrências em vários centros espíritas espalhados pela Europa e Estados Unidos e tentar unificar as informações obtidas por meio dos supostos contatos com os espíritos, a fim de codificar esse tipo de prática e os ensinamentos transmitidos. Ao realizar a pesquisa, Rivail passou a acreditar na mediunidade e publicou, em 1857, O Livro dos Espíritos (1944a), adotando o pseudônimo Allan Kardec, que teria sido seu nome em sua antiga reencarnação druida. Segundo Kardec, esse livro teria sido ditado pelos espíritos. Outros livros foram escritos por ele posteriormente, sempre com a orientação espiritual, tais como O Livro dos Médiuns (1955), O Evangelho segundo o Espiritismo (1944b), A Gênese (1944c) e Céu e Inferno (1944d).

Enquanto isso, nos Estados Unidos, a carreira mediúnica das irmãs Fox foi declinando. Em 1888, encontravam-se em situação miserável. Chegaram a confessar que os raps ouvidos em sua casa quando crianças eram fraudulentos e fizeram uma demonstração pública de como provocavam aqueles sons através do estalar habilidoso das juntas dos pés. Pouco tempo depois, porém, retiraram tudo o que disseram sobre a fraude, alegando terem recebido US$ 1.500,00 para prestar tais declarações falsas (Broughton, 1991, pp. 59-60). De qualquer modo, a idoneidade das irmãs Fox ficou para sempre comprometida. Não se pode negar, no entanto, que o episódio por elas protagonizado em meados do século XIX contribuiu para o estabelecimento formal da mediunidade e deu o primeiro impulso ao espiritismo como movimento religioso, ainda que este não tenha desenvolvido um sistema formal de crenças ou organização hierárquica peculiar às "religiões convencionais".

 

Mediunidade e mente subconsciente

A partir da década de 1870, diferentes edições do livro De L’Intelligence, do crítico, filósofo e historiador francês Hippolyte Taine (1828-1893), incluíram discussões da mediunidade como sinalizadora de níveis ocultos da mente. Taine continuou a afirmar na edição de 1892 que as manifestações dos espíritos mostravam "a co-existência, no mesmo instante, no mesmo indivíduo, de dois pensamentos, duas vontades, duas diferentes ações", uma consciente e outra não-consciente que, conseqüentemente, era "atribuída a seres invisíveis" (Taine, 1892, Vol. 1, p. 16).

Ao mesmo tempo em que devemos nos recordar de que a mediunidade ajudou a fornecer indícios para a existência da mente subconsciente em um momento em que tal conceito era muito menos aceito do que o é na atualidade, é necessário lembrar que durante os séculos XIX e XX surgiram muitas idéias diferentes sobre o subconsciente (Crabtree, 1993; Ellenberger, 1970) e que todas elas foram evocadas na tentativa de explicar a mediunidade por muitos teóricos, uma tarefa realizada de modos distintos e, por vezes, opostos. Limitaremos a discussão a dois conceitos principais: o primeiro, ao qual o historiador Marcel Gauchet (1994) referiu-se como sendo o "inconsciente cerebral", ou as idéias neurológicas do subconsciente como uma ação reflexa automática, e o segundo, um conceito oposto, de um subconsciente psicológico e auto-reflexivo. Sustentou-se que esses diferentes conceitos representariam fenômenos que se expressariam por meios não-parapsicológicos (em que os médiuns usariam, ainda que subliminarmente, seus sentidos e a ação de seus músculos) e por meios parapsicológicos (em que os médiuns produziriam tais fenômenos por meios ainda não compreendidos cientificamente). Algumas dessas idéias foram usadas para explicar as mesas girantes enfatizando os movimentos involuntários das mãos das pessoas que participavam nas sessões mediúnicas sentadas ao redor da mesa5.

O físico e matemático Jacques Babinet (1794-1872) sustentava que as mesas se moviam por meio de "pequenos movimentos chamados... movimentos involuntários" (1854, p. 408). Esses movimentos, afirmou Babinet, aparecem quando a imaginação, a fascinação pelo maravilhoso e as reações emocionais produziam uma "trepidação nervosa nas mãos dos operadores acompanhada de uma espécie de concordância geral em seus impulsos motores individuais mínimos..." (Carpenter, 1853, p. 410). Apesar de uma orientação menos fisiológica que Faraday e Chevreul, Richet articulou e estendeu esses pressupostos de modo mais claro ao alegar que os médiuns "transformam seus pensamentos, involuntária e inconscientemente, em movimentos das mãos..." (1886, p. 86). Além disso, Richet argumentou que os fenômenos do espiritismo representavam uma oportunidade única para estudar o impacto dos pensamentos inconscientes (p. 86). Richet aponta para o fato de os movimentos demonstrarem que "fora da consciência normal e dos pensamentos regulares dos médiuns, há a existência simultânea de um outro pensamento coincidente que segue seus próprios 'ciclos'..." (p. 87).

Ao final do século XIX, o médico e fisiologista inglês William B. Carpenter (1813-1885) discutiu o conceito de cerebração inconsciente em seus Principles of Mental Physiology (1874), no qual ele assume que as mesas girantes e outros fenômenos mediúnicos seriam o resultado de ações reflexas inconscientes que simulariam a inteligência mesmo fora da ação da autoconsciência. Nos Estados Unidos, Dyer D. Lum (1840-1893) devotou o capítulo 4 de seu livro, The Spiritual Delusion, ao conceito de cerebração inconsciente na mediunidade (1873). Lum sustentou que, com a prática, as manifestações mediúnicas assumiam "cada vez mais um caráter de 'ação reflexa'" (p. 210).

Um modelo posterior e mais complexo envolveu o conceito de criatividade fisiológica inconsciente. O médico francês Joseph Grasset (1849-1919) postulou a ação coordenada de diversos hipotéticos centros do sistema nervoso para explicar os automatismos mediúnicos e a personificação (1904). Ele especulou a existência de "polígonos", uma rede de vários centros ou estruturas mentais envolvidas em muitas manifestações psicológicas e psicofisiológicas. O sistema, de acordo com Grasset, teria um centro superior que seria conectado com vários centros inferiores relacionados às imagens, às ações motoras e a muitas outras funções psicofisiológicas. Durante os estados de doença ou patologia, ou mesmo durante outras condições, tais como o transe mediúnico, o sistema poligonal poderia produzir fenômenos complexos, como a coordenação subconsciente dos movimentos necessários para a escrita automática (psicografia) ou idéias necessárias para criar as comunicações mediúnicas. Segundo Grasset, esse sistema poderia agir sobre si mesmo ou em colaboração com os polígonos dos participantes que formavam o círculo mediúnico. Sustentava que nenhum dos processos envolveria a mediunidade "genuína" no sentido de comunicações verídicas ou fenômenos físicos objetivos que poderiam ser explicados de outras formas.

Apesar de os estudiosos mencionados não acreditarem em fenômenos como a telecinesia (com exceção de Lum), outros estenderam suas idéias de ação reflexa tanto à telecinesia como a outras manifestações físicas cujas ocorrências, alegava-se, se dariam fora do corpo do médium. Em seu livro Philosophy of Mysterious Agents, o médico Edward Coit Rogers (1826-1860) postulou que a mediunidade poderia ser explicada pela "ação do cérebro sem o governo e o poder de controle da mente" (1856, p. 176). Essa seria uma ação puramente reflexa, sem consciência, que seria supostamente processada por centros cerebrais inespecíficos. A ativação desses hipotéticos centros era favorecida pelos estados inativos da mente, tais como o transe mediúnico. Durante esse estado, uma "ação reflexa" produzia aparentes comunicações de espíritos e a projeção da força nervosa capaz de realizar fenômenos físicos6 .

O inglês Frederic W. H. Myers (1843-1901), estudioso de temas clássicos e pesquisador psíquico, postulou um modelo diferente7 ao assumir a existência de um subconsciente mais inteligente e pessoal que fisiológico em um modelo que incluía os fenômenos parapsicológicos. Em um artigo de 1884, sobre a escrita automática (psicografia), Myers propôs que "alguns dos efeitos que os espíritas atribuem aos espíritos estão relacionados à ação inconsciente da mente dos próprios escritores" (1884, p. 237). Em um trabalho posterior, ao discutir um caso de comunicações inteligentes, Myers sustentou que os detalhes das comunicações iriam para além da simples cerebração inconsciente. Defendia que esse era um exemplo "no qual a ação cerebral inconsciente não está subordinada à consciência, não depende, para sua manifestação, do direcionamento da atenção consciente para algum lugar, mas se apresenta como co-ordenada com a ação consciente e como sendo capaz de forçar-se à atenção da mente consciente" (1885, p. 24). Além disso, o conteúdo do caso sugeria telepatia, um elemento que expandiria o escopo do subconsciente psicológico aos processos parapsicológicos. Myers veio a acreditar que uma compreensão desses fenômenos exigia a existência de um self secundário "o qual, aparentemente, não é nem efêmero, nem meramente incidental – um delírio ou um sonho –, mas poderia possuir, por um momento, um tipo de individualidade contínua, uma atividade dirigida a um propósito" (1885, p. 27). O self secundário – escreveu Myers nesse segundo trabalho – estaria relacionado com o manejo da informação telepática.

Levando sua análise para mais adiante, Myers sustentou que os automatismos poderiam ser os portadores de mensagens dos automatismos da própria mente e considerou o reconhecimento dessa qualidade dos automatismos como condução de mensagem um importante desenvolvimento conceitual. Estava, no entanto, realmente mais interessado em fazer notar que algumas dessas mensagens fossem verídicas (1889, p. 525). As produções automáticas da Sra. Newnham, discutidas em seu artigo de 1885, pareciam mostrar a transmissão de pensamento de seu esposo, o Reverendo Newnham8.

A existência do subconsciente foi também aceita por outros pesquisadores psíquicos como Aksakof (1906), que defendeu o ponto de vista espírita. Alguns, como Hyslop, discutiram a comunicação dos espíritos sob o princípio de que o subconsciente do médium poderia estar envolvido no processo. Isso poderia ocorrer pela "intrusão do subliminal de seus próprios hábitos na mensagem" (1910, p. 219). Em sua perspectiva, muitas comunicações consistiam em imagens telepáticas de um espírito ao espírito-controle do médium que, então, retransmitiria a mensagem ao médium. Essas imagens poderiam ser "transferidas para o subconsciente do médium e, assim, modificar seu estrato..." (1912, p. 88).

As idéias sobre espíritos de Myers e Hyslop, entretanto, permaneceram nos confins da pesquisa psíquica e não tiveram influência importante sobre a psicologia nem a psiquiatria. Os escritos mais gerais de Myers sobre o self subliminar, entretanto, influenciaram muitos dos interessados na mente subconsciente. Cabtree (2003) afirmou que os primeiros textos de Myers sobre escritura automática mediúnica influenciaram o interesse inicial de Janet pelos processos subconscientes.

 

Dissociação e mediunidade

O interesse nas mesas girantes estava relacionado à dissociação ou à idéia de que os pensamentos, lembranças, atos motores e sensações físicas poderiam se separar de nossa consciência pessoal. O fato de que as pessoas poderiam produzir movimentos automáticos sem que estivessem conscientes disso foi considerado como apoio ao conceito de dissociação (Janet, 1889; Myers, 1885).

As mais impactantes das formas de dissociação relacionadas aos médiuns, no entanto, eram as alterações na consciência e na memória que sugeriam que mais de um fluxo de pensamento ocorreria de modo simultâneo na mente do médium. Fenômenos desse tipo foram observados também durante o século XIX em contextos não-mediúnicos, em casos de personalidades secundárias (Alvarado, 1995; Hacking, 1995). Relatos desses fenômenos incluem o surgimento de personalidades diferentes das habituais que se manifestavam espontaneamente, como no conhecido caso de Félida X (Azam, 1887)9.

Além desses fenômenos, os médicos e outros profissionais estavam interessados na mediunidade como uma manifestação da dissociação. Carpenter (1853) apresentou algumas discussões seminais a respeito do tema, sem usar o termo "dissociação". Ele sustentava que sob certos estados, tais como os obtidos em alguns cultos religiosos, como o mediúnico, a mente era afetada por uma idéia dominante de modo que perdia "por algum tempo seu poder de direcionamento volicional pelo self..." (p. 510). Carpenter acreditava que se as atividades automáticas da mente dos indivíduos estavam sem qualquer direcionamento, a mente poderia ser possuída por sugestões externas. Na visão de Carpenter, os médiuns eram "simplesmente pessoas que estavam possuídas por certas ‘idéias dominantes’..." (p. 547). Essa questão de se as comunicações viriam de personalidades independentes (espíritos) ou se seriam criações da mente dos médiuns era algo recorrente na literatura sobre mediunidade10.

O trabalho do psiquiatra francês Pierre Janet foi particularmente importante para conectar a mediunidade à dissociação11. Em seu livro L’Automatisme Psychologique, de 1889, um dos principais clássicos sobre a dissociação, Janet discutiu a questão em duas partes. A primeira parte aborda o automatismo total ou completo, enquanto a segunda versa sobre automatismos parciais. A mediunidade, bem como as mesas girantes e as varinhas dos rabdomantes, foi apresentada, no capítulo 3, na segunda parte do livro, como uma ilustração do automatismo parcial. Janet sustentava que a mediunidade, como a histeria e o sonambulismo hipnótico, mostrava a "desagregação da percepção pessoal e(...) a formação de várias personalidades que são desenvolvidas tanto sucessiva quanto simultaneamente" (1889, p. 413). Como escreveu posteriormente: "Não há dúvida... de que o estado sonambúlico, ou seja, a existência secundária e alternativa, esteja presente nos médiuns..." (p. 410). Janet acreditava que os médiuns perfeitos exibiam divisões da consciência nas quais as "duas personalidades se ignoram completamente e se desenvolvem independentemente uma da outra" (p. 419)12.

A idéia de que os médiuns eram propensos à dissociação e que produziriam personalidades secundárias foi discutida por muitos outros estudiosos. Em uma discussão sobre a médium Leonora E. Piper, Myers defendeu que as expressões vocais pronunciadas durante o transe, tais como as que ela apresentava, "constituem uma de muitas classes de fenômenos que ocorrem em sujeitos saudáveis sem invadirem seus estados de consciência normais ou formarem parte da cadeia de memória habitual" (1890, p. 437)13.

Uma outra personalidade influente, William James, escreveu sobre esse tópico14. Em seu monumental livro The Principles of Psychology, James (1890a, Vol. 1) discutiu o "fluxo do pensamento" ou aquilo a que ele se referia como o "estudo da mente desde dentro" (p. 224)15. Ao escrever um dos últimos capítulos sobre a consciência do self (capítulo 10), James argumenta que uma personalidade mediúnica bem desenvolvida não teria memória durante a consciência primeira. Na visão de James, algumas das escritas e falas automáticas representavam a fase baixa da mediunidade porque "o self normal não está excluído da participação consciente durante sua produção, embora sua iniciativa pareça vir de outro lugar" (p. 393). O transe é completo na fase alta e não há memória "até que o próximo transe chegue" (p. 394)16.

Outro colaborador para essa literatura foi o psiquiatra francês Gilbert Ballet (1853-1916), que descreveu a mediunidade como um processo dissociativo. Ele e Dheur escreveram: "A personalidade consciente de um médium atribui os fenômenos produzidos por... uma personalidade secundária, que não está consciente, a seres imaginários (um espírito)" (Ballet e Dheur, 1903, p. 264). Em 1913, fez notar que uma médium que ele estudara "banira de seu campo de consciência boa parte dos processos psíquicos que ela atribuía a espíritos..." (Ballet, 1913, p. 503). Especulações adicionais relacionadas a tal fato constam na tabela 1.

 

 

Uma outra importante figura ligada à relação entre mediunidade e dissociação foi o psicólogo suíço Théodore Flournoy (1854-1920), um dos pioneiros tanto da pesquisa psi quanto da psicologia da religião, que trabalhou, entre outros, com a médium Hélène Smith (pseudônimo de Catherine Élise Muller, 1861-1929) (1900)17. A médium alegava ser a reencarnação de uma princesa indiana do século XV e também de Maria Antonieta, rainha consorte da França ao final do século XVII, além de poder viajar espiritualmente para o planeta Marte, de onde teria trazido ao conhecimento terrestre, por meio de desenhos e descrições, o estilo de vida dos marcianos e o idioma por eles utilizado. Flournoy interessou-se pelo caso e sobre ele realizou uma profunda e detalhada avaliação, valendo-se inclusive de especialistas em diversas áreas do conhecimento para auxiliar em suas observações, como o eminente lingüista Ferdinand Saussure, a quem convidou para realizar um estudo da alegada língua marciana. Flournoy chegou a dois tipos distintos de interpretação, ambos profundamente interligados posto serem resultado do psiquismo profundo dos médiuns. Por um lado, certas habilidades, como as demonstradas pelos médiuns durante seus períodos de transe, como a facilidade de Hélène para a pintura, a dança e a "língua marciana", seriam o "produto da imaginação da mente subconsciente dos médiuns ao elaborarem lembranças e inquietações latentes" (Flournoy, 1899, p. 144). Não é difícil verificar que a obra teórica de Flournoy se aproxima das concepções psicodinâmicas como as produzidas por Freud e Jung, não sendo raro encontrar referências a eles em seus escritos. Mas se, por um lado, Flournoy aceitava a existência de um processo não-consciente de elaboração criativa de personalidades e dados a ela relacionados, por outro admitia a possibilidade de que os médiuns teriam a capacidade de obter informações para além do uso dos sentidos, ainda que essas fossem apresentadas por essas pessoas como se espíritos dos mortos estivessem em sua origem. Para Flournoy, portanto, somam-se às habilidades criativas subconscientes as capacidades propriamente parapsicológicas como instrumentos necessários e suficientes para que seja possível a personificação de uma pessoa falecida, inclusive com a apresentação de informações aparentemente apenas conhecidas pelo morto enquanto vivo e por aqueles que privavam de sua vida mais íntima. Assim, o tema da personificação tornou-se ainda mais complexo quando se sustentou que a telepatia e outros fenômenos poderiam estar envolvidos nas produções dissociativas da mediunidade.

O classicista e banqueiro inglês Walter Leaf (1852-1927) especulou que as afirmações verídicas da Sra. Piper poderiam ser consideradas como a produção da personalidade secundária dos médiuns e uma combinação de diferentes modos de adquirir informação. O pressuposto por trás dessa especulação é de que a mente subconsciente da Sra. Piper estava ativamente engajada na produção de uma nova e convincente personalidade. Tal personalidade secundária seria criada e mantida de alguma forma disponível para a mente, o que incluía a dissociação, os recursos histriônicos, bem como recursos de tomada de informação, tais como a telepatia e as dicas sensoriais de diferentes tipos. A telepatia era um conceito novo dentre tais idéias. Posteriormente, outros autores defenderam a existência de processos dissociativos e o subconsciente parapsicológico na mediunidade, acreditando-se serem os responsáveis pela produção tanto de efeitos mentais quanto de efeitos físicos (Flournoy, 1911; Morselli, 1908; Sudre, 1926).

Uma contribuição posterior do estudo da mediunidade foram as idéias do papel da iatrogenia nos fenômenos dissociativos (Alvarado, 1991). Vários estudiosos da hipnose comentaram sobre como a sugestão ou a expectativa poderia modelar ou mesmo "educar" os sujeitos hipnotizados e, assim, moldar sua atuação de acordo com as idéias do hipnotista (Delboeuf, 1886)18.

Outros ofereceram especulações semelhantes nos últimos anos do século XIX. O médico alemão Albert F. von Schrenck-Notzing (1862-1929) escreveu que a mediunidade é um processo delicado de abertura para "influências sugestivas" (1972, p. 133). Baseando-se no seu trabalho com Hélène Smith, Flournoy (1902) defendeu que a investigação de um médium pelo mesmo pesquisador por um longo período "inevitavelmente acaba por moldar o mais do que sugestionável subconsciente de seu sujeito..." (p. 116), de modo a limitar os fenômenos pela rotina. Nos Estados Unidos, o psicólogo Tanner (1910) acreditava que os pesquisadores da Sra. Piper educaram seus espíritos-guia de modo a "tingi-los nas tonalidades do espiritismo" (1910, p. 311)19. Tais visões contribuíram para documentar posteriormente as variedades criativas da dissociação.

 

Mediunidade e psicopatologia

Em 1910, um psiquiatra francês escreveu que "os salões espíritas são a ante-sala do asilo" (Lévy-Valensi, 1910, p. 715). Essa acepção expressava a idéia prevalente entre muitos médicos desde o século XIX de que a mediunidade era uma condição psicopatológica.

Houve muitas publicações tentando relacionar a mediunidade à psicopatologia (Brown, 1983; Le Maléfan, 1999; Moreira-Almeida et al., 2005; Owen, 1990, pp. 139-151; Shortt, 1984). Em um artigo sobre as "Causas das Doenças Mentais", publicado em 1859 no North American Review, sustentou-se que o cérebro poderia se desequilibrar em virtude de fortes emoções e traumas. Em relação aos médiuns, haveria "muita excitação doentia e nada natural e os cérebros de muitos são agitados para além de suas capacidades de manutenção da saúde, motivo pelo qual alguns se tornam doentes" (Causes of Mental Disease, 1859, p. 334). Como se argumentou na revista médica inglesa Lancet: "Podemos encontrar a contrapartida do médium miserável nos pacientes histéricos semi-iludidos e semi-artificiais..." (The Delusions of Spiritualism, 1860, p. 466).

A alusão à histeria nos faz lembrar da importância do diagnóstico de histeria nas histórias da psiquiatria e da psicologia. Apesar de a histeria como enfermidade ter uma longa história (Gilman, et al., 1993), ressurgiu no século XIX, quando o trabalho de Charcot (1872-1873, capítulos 9-13) e outros (Gilles de la Tourette, 1891; Richer, 1885) popularizaram esse diagnóstico. Essa entidade protéica, considerada capaz de explicar todos os tipos de fenômenos e sintomas mentais e somáticos, foi usada por alguns para explicar casos antigos de sonambulismo magnético (Briquet, 1859, p. 412), hipnose (Charcot, 1882) e possessão demoníaca (Richer, 1885, Apêndice). A mediunidade rapidamente se converteu em um outro exemplo de histeria e, mais genericamente, de insanidade20.

Nos Estados Unidos, os médicos George M. Beard (1839-1883) e William A. Hammond (1828-1900) eram ativos indutores da patologia da mediunidade. Beard fez referência às "estranhas atuações das médiuns histéricas..." (1874, p. 2). Da mesma forma, em seu livro Spiritualism and Allied Causes of Nervous Derangement, Hammond (1876, p. 256) afirmou: "Na maioria das sessões mediúnicas das quais participei, há manifestações de fenômenos histéricos". O religioso, poeta e médico norte-americano Frederic Rowland Marvin (1847-1919) defendeu a existência de uma síndrome particular que chamava de "mediomania" em seu curto livro The Philosophy of Spiritualism and the Pathology and Treatment of Mediomania (1874). Seguindo as antigas idéias da causação uterina das afecções e, particularmente, da histeria, Marvin acreditava que a mediunidade representava um caso de patologia uterina21.

Janet (1889) notou que os médiuns eram propensos a "acidentes nervosos", tais como convulsões, tremores, crises nervosas e movimentos coréicos. Como grande variedade de automatismos era realizada sem o conhecimento consciente e com anestesia parcial, a mediunidade era vista por Janet como uma manifestação inferior da psique humana. Janet dizia que muitos médiuns eram "neuropatas, se não eram francamente histéricos" (p. 404). Acreditava que a mediunidade "depende de um estado mórbido particular" similar à histeria ou que pode desenvolver-se posteriormente para a histeria e outros tipos de distúrbios. Mas Janet (1889, p. 406) defendia que a "mediunidade é um sintoma e não uma causa". Ele continuou a discutir essas idéias durante o século XX.

Muitos outros médicos franceses continuaram essa tradição psicopatológica durante um bom período do século XX. Em seu livro Les Altérations de la Personnalité, Alfred Binet (1857-1911) relatou que "de tempo em tempo a maioria discreta dos autores não pode evitar afirmar que um excelente médium tinha tido uma crise nervosa..." (1892, p. 299). Consistentemente com essa visão, Grasset (1904) acreditava que "médiuns pertencem à família neuropática" (p. 256).

Importantes, ainda, foram os trabalhos dos médicos franceses Paul Duhem, Gilbert Ballet (1853-1916) e Joseph Lévy-Valensi (1879-1943). Duhem (1904, p. 131) classificou os médiuns em três categorias: os fraudulentos, os insanos e os mentalmente degenerados ou mentalmente fracos. Ballet acreditava que enquanto todos os médiuns eram dissociados, apenas um pequeno número deles cruzava a linha da insanidade quando, paulatinamente, se degeneravam para a condição de alucinados que colocam as próprias vidas em risco (Ballet e Dheur, 1903)22.

Ballet (1913), em um posterior trabalho, propôs o diagnóstico de psicose alucinatória crônica. Esse consistia na dissociação como um traço essencial, acompanhado de idéias de perseguição, megalomania e alucinações. Ballet usou casos de mediunidade para dar apoio ao diagnóstico. Ele acreditava que a dissociação dos médiuns poderia se tornar uma psicose alucinatória crônica graças à prática habitual da mediunidade e à influência das predisposições individuais inespecíficas (1913, p. 503).

Lévy-Valensi (1910) não considerava a mediunidade necessariamente patológica, mas afirmava que os médiuns poderiam ter predisposição que os permitia facilmente cruzar a fronteira da insanidade, produzindo o que ele chamou de delírio espírita. O delírio, ele pensava, expressava-se após longo período de prática da mediunidade. Consistia de alucinações de diferentes tipos, sensações eróticas e problemas com as funções genitais, comportamentos de luta com perseguições alucinatórias e facilidade de espalhar a ilusão a outras pessoas. Ele apresentou uma lista de 17 médiuns dos quais seis se tornaram insanos em virtude da prática da mediunidade.

As discussões desses temas continuaram até tempos recentes (Ehrenwald, 1948; Encausse, 1943, entre outros). Por exemplo, em seu livro Telepathy and Medical Psychology, o psiquiatra Jan Ehrenwald (1900-1988) escreveu sobre a mediunidade de Eileen Garrett (1893-1970). Ehrenwald referia-se ao temperamento parapsicológico como tendo algumas similaridades com a histeria e a esquizofrenia, mas não que tivessem o mesmo significado. O temperamento mediúnico representa um tipo em si mesmo, mas que pode colocar a pessoa "à beira da desordem mental" (p. 181).

As discussões sobre mediunidade e psicopatologia eram mais complicadas que simples atribuições de distúrbios. Como Le Maléfan fez notar em seu livro Folie et Spiritisme (1999), foram propostos diferentes modelos de patologia entre os médicos franceses. Por exemplo, Janet via a mediunidade como sintoma e não como causa de patologia, enquanto Ballet via a patologia como efeito das práticas mediúnicas. Enquanto as especulações do relacionamento causal e fenomenológico da mediunidade e da patologia variaram de acordo com o teórico, nosso ponto neste trabalho é reconhecer a influência que a mediunidade teve no diagnóstico e na nosologia psiquiátrica23.

 

Conclusões

Fenômenos como a escrita automática, o aparecimento de personalidades de espíritos e das mesas girantes estavam entre as manifestações que influenciaram a psicologia e a psiquiatria. As ações dos médiuns, tais quais interpretadas pelos clínicos e pelos pesquisadores, permitiram o desenvolvimento de grande variedade de conceitos. Neste trabalho enfatizamos os conceitos de mente subconsciente, dissociação e psicopatologia. Trabalhos de grande repercussão, como os produzidos por Ballet, Carpenter, Flournoy, Janet e Myers, entre outros, apoiaram alguns desses conceitos e, em contrapartida, da mesma forma influenciaram muitos outros. É importante, no entanto, tomar tal influência em seu contexto. A entrada da mediunidade nesse processo foi apenas um de vários outros fatores, dentre os quais podemos incluir a histeria e a hipnose. Mas mesmo sendo um entre outros fatores, é importante reconhecer sua existência, o que infelizmente foi negligenciado no passado. Tal consideração da mediunidade nesse panorama vai além de fornecer uma nova forma de explorar o subconsciente. Como sustentou Ellenberger: "Um novo sujeito, o médium, tornou-se disponível para as investigações psicológicas experimentais que envolveram um novo modelo de mente humana" (1970, p. 85). O estudo da mediunidade não se limitou a mero instrumento para desenvolver o conceito de subconsciente. Os médiuns, na esteira de outros indivíduos – como os sonâmbulos magnéticos e aqueles dos casos de múltiplas personalidades que surgiram fora do contexto da hipnose –, tornaram-se parte de um pequeno grupo de indivíduos especiais que levaram estudiosos da mente a vislumbrar regiões invisíveis da psique. Isso, como discutimos, teve implicações para a dissociação e as considerações diagnósticas.

Focalizamos duas concepções gerais envolvendo a mente subconsciente. Uma foi a de postular todos os fenômenos mediúnicos originados no subconsciente, ou seja, essa região da mente foi considerada responsável pela produção dos automatismos motores e sensoriais (com ou sem a presença de fenômenos parapsicológicos), mas sem a intervenção de espíritos desencarnados. Por outro lado, o subconsciente era visto como mediador das influências dos espíritos, o meio no qual a ação dos agentes desencarnados era processada e manifestada por meio do médium.

A primeira perspectiva, como visto no trabalho de Myers e Janet, foi de grande impacto no meio científico. Mas houve diferenças entre suas propostas. Enquanto Myers via a mediunidade como normal e "sobrenatural" no sentido de fornecer indícios para os fenômenos parapsicológicos, Janet tinha uma visão diferente, segundo a qual a mediunidade (e outros fenômenos dissociativos) era considerada patológica e não fornecia indícios para manifestações paranormais. Apesar de esse tópico estar fora do escopo deste trabalho é interessante notar que a abordagem de Janet era a mais aceita oficialmente tanto pela psicologia quanto pela psiquiatria. Em outras palavras, enquanto a psicologia e a psiquiatria eram influenciadas pela mediunidade, esses campos rejeitaram os fenômenos físicos e mentais que eram tão importantes para o espiritismo e a pesquisa psíquica24. Despida dos fenômenos verídicos ou sobrenaturais, a mediunidade forneceu estudos de caso para o posterior desenvolvimento de aspectos selecionados da teoria mental dinâmica convencional.

Mas, além dessa questão, ou da explicação final da mediunidade, é claro que aqueles de nós interessados na história da psicologia e da psiquiatria não devem negligenciar os médiuns em seus estudos de desenvolvimento intelectual dessas disciplinas.

 

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Endereço para correspondência:
Carlos S. Alvarado
Parapsychology Foundation, Inc.
228 East 71st Street
New York, NY 10021, EUA
Email: alvarado@parapsychology.org

 

 

* O uso do termo "subconsciente" neste trabalho é preferido ao uso do termo "insconsciente" pelo fato histórico de que os próprios autores discutidos o empregavam, ainda que em nosso meio o termo "inconsciente" seja muito mais popular graças à divulgação da obra de Freud e de outros autores de vertente psicanalítica.
1 A pesquisa psíquica é uma disciplina estabelecida por cientistas, sábios e artistas oficialmente em 1882, quando da fundação da Society for Psychical Research, em Londres, cujo objetivo era o de investigar cientificamente as alegações do espíritas, mesmeristas e daqueles que afirmavam ter capacidades telepáticas, entre outras. Posteriormente, sobretudo durante os anos de 1930, o termo parapsicologia começou a ser mais usado para se referir a essa disciplina, agora com métodos mais próximos à metodologia científica da época, com ênfase na pesquisa experimental.
2 Para uma revisão, ver Brown (1970, capítulos 3-6), Doyle (1926, Vol. 1, capítulos 1-3), Hardinge (1870, pp. 21-28), Inglis (1992, capítulo 21) e Podmore (1902, Vol. 1, capítulos 6-7, 11). Crabtree (1993, pp. 196-212) discute fenômenos em que se alega a ação de espíritos dos mortos e na literatura mesmérica. Apesar de não haver estudos históricos da mediunidade propriamente dita, há muitos estudos históricos do espiritualismo, espiritismo e da pesquisa psíquica, que fornecem muita informação sobre esse tópico. Além da primeira referência desta nota, ver os trabalhos de Biondi (1988), Braude (1989), Edelman (1995), Hazelgrove (2000), Inglis (1984), Kerr (1972), Machado (1997), Moore (1977), Oppenheim (1985), Owen (1990), Parra (1997) e Zangari (1996, 1999, 2003, 2005). Almeida e Lotufo Neto (2004) discutem material relevante para este trabalho.
3 Esta seção é baseada em trechos da dissertação de mestrado A causa dos espíritos: um estudo sobre a utilização da parapsicologia para a defesa da fé católica e espírita no Brasil, defendida por Machado, F.R. em 1996, pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-SP.
4 Vale notar que "há diferenças entre o chamado espiritualismo, desenvolvido principalmente na Inglaterra e Alemanha, e o chamado espiritismo kardecista, disseminado amplamente no Brasil. Os espiritualistas compartilham com os espíritas a crença na existência e na possibilidade de comunicação e ação dos espíritos desencarnados em nosso meio, mas ao contrário dos espíritas, os espiritualistas não crêem na reencarnação. Há também outras divergências quanto às informações supostamente transmitidas pelos espíritos aos médiuns acerca do mundo espiritual" (Machado, 2003, p. 17).
5 O físico inglês Michael Faraday (1791-1867) apresentou um estudo empírico para sustentar essa hipótese. Como ele sustentou: "... acredito que as pessoas não têm a intenção de mover a mesa, mas obtêm esse resultado por uma ação como que involuntária..." (2000, p. 158). Na década de 1850, Chevreul afirmou que as perguntas dirigidas à mesa "estimulariam na pessoa que age sobre ela, sem sua consciência, um pensamento cuja conseqüência seria o movimento muscular capaz de fazer bater em uma das pernas da mesa" (1992, p. 239).
6 Posteriormente, o filósofo alemão Karl Roben Eduard von Hartmann (1842-1906) conectou, de alguma forma, a projeção da força nervosa que causaria os fenômenos físicos fora do corpo do médium com uma consciência (inconsciente) sonambúlica. Esta, ele escreveu, teria lugar "quando a consciência e as proibições reflexas de parte do cérebro deixam de agir e, por conseguinte, deixam de dar sustentação a ela..." (1885, p. 442)
7 Myers influenciou particularmente o desenvolvimento de idéias como mente subconsciente e dissociação em relação com a mediunidade e outros fenômenos estudados pelos estudiosos da pesquisa psíquica. Para uma discussão da vida e obra, ver Crabtree (1993, capítulo 16), Gauld (1968, pp. 38-44, 89-114, 116-136, capítulos 12-13), Kelly (2001) e Kelly e Alvarado (2005).
8 Apesar de Myers (1903) ter se convencido de que os espíritos poderiam se comunicar por meio dos médiuns, correlacionava esse processo à mente subliminar. Ao escrever seu conhecido livro Human Personality and Its Survival of Bodily Death, referiu-se à Sra. Piper como um caso em que a mente subliminar era usada pelos espíritos desencarnados para se comunicarem (Myers, 1903, Vol. 2, p. 250), ainda que também tenha discutido a crença na possibilidade da possessão direta da médium por um espírito desencarnado.
9 Em seu livro Mesmerism, Lang (1843) registrou a produção das personalidades secundárias que ocorreram sob hipnose. Tanto Charles Richet quando Albert de Rochas (1837-1914) usaram com sucesso a hipnose para produzir alterações de personalidade (De Rochas, 1887, pp. 268-271; Richet, 1883). Janet relatou alterações similares com a famosa paciente/sujeito Léonie Leboulanger (1837). Em seu estado normal, ela era séria, calma, triste e tímida. Sob hipnose, Léonie era alegre e expansiva, com uma "singular tendência à ironia e aos gracejos mordazes" (Janet, 1889, p. 129).
10 Capron (1885) sugeriu que o médium poderia ter sido levado a "imaginar que o doce espírito estava com ele" (p. 213). De modo semelhante, o espiritualista Thomas P. Barkas (1819-1891) mencionou a possível ação que o cérebro "poético" dos médiuns poderia ter desempenhado em algumas comunicações forçadas (1862, p. 134). No final do século XIX, Richet (1886) especulou a existência de um "personagem inconsciente" no médium que poderia consistir em uma "série de idéias completamente diferentes da série de idéias da personagem consciente, que ignora tudo que está em seu inconsciente" (p. 93). O pressuposto aqui foi de que o médium, como os pacientes de Janet e outros, tinha um potencial dramático e imaginativo capaz de criar comunicações em seus próprios subconscientes sem a ajuda dos espíritos desencarnados.
11 A importante carreira de Janet em psiquiatria foi discutida por (1993, capítulo 15) Ellenberger (1970, capítulo 6) e van der Hart e Friedman (1989). Le Maléfan (1999, pp. 66-84) discutiu as idéias de Janet acerca da mediunidade.
12 É provável que o livro de Janet tenha sido a publicação de maior impacto sobre a dissociação no final do século XIX. Mesmo alguém como Alfred Binet (1857-1911), que discordava de algumas das interpretações de Janet, fez notar que L’Automatisme Psychologique apresentava notáveis estudos de hipnose e, mais amplamente, sobre o "desdobramento" da personalidade (1890, p. 199). O livro foi extensamente citado pelos estudiosos do tema e marcou o contexto para a consideração da mediunidade como parte do domínio dos estudos dissociativos. Janet mostrou que a mediunidade poderia ser utilizada pelos clínicos e pesquisadores para ilustrar aspectos do funcionamento da mente, sobretudo as manifestações dissociativas como os automatismos motores.
13 Outros apresentaram interessantes alterações, semelhantes àquelas vistas em pacientes com dissociação. Richet relatou que a voz da Sra. Piper mudava, tornando-se mais masculina e apresentava sotaques de negros, de franceses e de americanos (Leaf, 1890, p. 619). Notou-se também que Piper pigarreou "em uma voz masculina e com características nitidamente alteradas e feições enrijecidas" (Lodge, 1890, p. 444) e que toda a sua "personalidade parecia sofrer alteração intermitente" (Myers, 1890, p. 437).
14 Sobre as idéias de James sobre a consciência, ver Taylor (1983, 1996). O envolvimento de James na pesquisa psíquica foi discutido por Murphy e Ballou (1960) e Knapp (2003). A respeito da importância e do impacto do clássico Principles of Psychology, de James, ver Johnson e Henley (1990).
15 Em uma seção do livro, em que enfatizou a constante mudança do pensamento, James seguiu Janet ao discutir as personalidades secundárias como uma "interrupção" dos pensamentos do self normal. Os pensamentos, no entanto, "ainda... formam as unidades da consciência, tendo memórias contínuas, fala, escrita e a capacidade de inventar nomes diferentes para si mesma ou adotando nomes que lhes são sugeridos..." (1890 Vol. 1, p. 227). A mediunidade era vista por James como um outro exemplo de personalidade secundária. Como escreveu, as manifestações mediúnicas que aparentemente advêm de pessoas públicas mortas "são o trabalho de uma fração inferior da mente natural do próprio sujeito, sem qualquer controle do restante..." (Vol. 1, p. 228).
16 James (1890a, Vol. 1, p. 396; 1890b, pp. 658-659) expressou sua pessoal convicção de que as manifestações da médium Sra. Piper eram verídicas em certas ocasiões. Apesar de esse aspecto da observação de James ter sido geralmente negligenciado fora da pesquisa psíquica, não há dúvida de que suas idéias sobre a mediunidade nos Principles of Psychology foram muito lidas.
17 Sobre a vida e obra de Flournoy, Claparéde (1923). Caratelli (1996, capítulo 3) e Shamdasani (1994) discutem sua obra em pesquisa psíquica com ênfase na mediunidade.
18 Em uma discussão sobre o uso da hipnose para explorar as personalidades secundárias, Janet sustentou que o sonambulismo poderia ser influenciado por um hipnotista e por outras pessoas, um processo que poderia levar a "sempre verificar suas próprias idéias" (1889, p. 128). Da mesma forma, a mediunidade foi usada por alguns para ilustrar tal idéia. Um exemplo foi William James, que especulou que as afirmações de alguns médiuns poderiam ter se desenvolvido "depois de um conjunto de padrões fixados pelos preconceitos do meio social" (1890a, Vol. 1, p. 228). Na visão de James, o médium desempenha um papel "porque é isso que se espera dele em um dado contexto e realiza essas coisas com a fragilidade ou com a vivacidade proporcionada aos seus talentos histriônicos" (1890a, Vol. 1, p. 394).
19 A crença de que as idéias podem modelar as características dos fenômenos mediúnicos foi discutida por muitos na literatura da pesquisa psíquica (Bozzano, 1929, pp. 92-100; Lebiedzinski, 1924; Maxwell, 1905, pp. 68-69; Ochorowicz, 1896; Sudre, 1926, pp. 77-79).
20 O próprio Charcot (1888) já havia ligado a mediunidade à histeria. Ele relatou o caso de uma menina de 13 anos e meio de idade, chamada Julie, que havia sofrido dos nervos desde a infância. Ela começou a se desenvolver como médium após ter participado de sessões de mesas girantes com sua família. Julie passou a escrever mensagens dos espíritos. Em uma sessão, ela havia terminado de escrever uma mensagem quando foi tomada por uma espécie de convulsão: "Então, Julie, com uma risada estridente, volta-se imediatamente e, como uma louca... corre para dentro e para fora de sua casa, manifestando gritos inarticulados, então rola e rola pelo chão, apresentando uma série de paroxismos histéricos caracterizados principalmente pelas contorções..." (p. 67). A menina teve de ser hospitalizada. Charcot considerava que esses casos ocorriam quando as pessoas com predisposições nervosas se envolviam com sessões mediúnicas e outras práticas congêneres.
21 Essas idéias devem ser compreendidas no contexto das crenças na inferioridade fisiológica da mulher quando comparada ao homem (Russett, 1989; Smith-Rosenberg e Rosenberg, 1973). Wood sustenta que no século XIX, nos EUA, a "análise médica das mulheres começa e termina com a consideração de um órgão único para ela, nominalmente seu útero (1974, p. 3). "Os nervos do útero", escreve o autor de The Diseases of Woman, their Causes and Cure Familiarly Explained, "estão relacionadas com quase todos os órgãos do corpo, assim como com a medula espinhal. Isso explica a razão de eles terem tamanha ação" (Hollick, 1855, p. 40). Para um exemplo da discussão britânica da variedade das condições nervosas e mentais como indícios dos problemas dos ovários, ver Lightfoot (1857).
22 Esses autores apresentaram o caso de um médico de 29 anos de idade que acreditava manter contato com os espíritos. O médico tornou-se um médium psicógrafo e usou a prancheta para produzir as mensagens dos espíritos. Seu desenvolvimento como médium, posteriormente, incluiu ouvir as vozes de espíritos, perceber os pensamentos e as predições oriundas dos espíritos e fenômenos físicos como os estalidos nos móveis. As vozes se desenvolveram a tal ponto que, sob a influência delas, ele tentou o suicídio. A personalidade do paciente começou a desaparecer e ele referia a si mesmo em terceira pessoa. Posteriormente, dedicou-se a propagar o espiritismo, abandonando tanto a medicina quanto sua esposa. O caso foi apresentado pelos autores como mostra da "progressiva desagregação da personalidade e do aumento das alucinações" (Ballet e Dheur, 1903, p. 271).
23 Sobre idéias da patologia mediúnica no Brasil, ver Moreira-Almeida et al., (2005), Giumbelli (1997) e Zangari (2003, 2005). Existe, ainda, uma crença difundida de que aqueles que acreditam e mantêm algum interesse no espiritualismo, em geral, e nas práticas mediúnicas, em particular, estão sujeitos às doenças mentais de diferentes modalidades (Beard, 1879; Burlet, 1863; Hammond, 1876). Ver o caso de Charcot (1888) mencionado anteriormente, de uma médium de 13 anos e meio de idade cujos irmãos, por contágio mental, desenvolveram histeria compulsiva. Viollet (1910) argumentou que aquelas pessoas que são atraídas às sessões espíritas apresentam "predisposições nervosas hereditárias(...) em seus cérebros(...) [que podem] levá-las ao caminho da psicose degenerativa(...)" (p. 7). Essas pessoas, algumas vezes, apresentam sonambulismo espontâneo. "Elas se tornam sujeitos nas mãos dos médiuns(...) ou revelam-se, espontaneamente, médiuns de mesas girantes ou de fala" (p. 11). Field (1888) aceitava a idéia de que a excitação gerada pelas sessões mediúnicas poderia causar insanidade. Ele afirmava, no entanto, que muitas das ilusões atribuídas ao espiritismo poderiam ter uma causa mais geral em alguns casos, tais como a masturbação (p. 493). Em uma discussão posterior, O’Donnell (1920) sustentou que ninguém que atendesse às sessões mediúnicas habitualmente poderia escapar dos seus efeitos patológicos, "e se eles não aparecem tornando-os completamente dementes, eles certamente degeneram e os tornam distantes do normal" (p. 107). Houve casos, além disso, de pessoas que foram declaradas insanas apenas por terem crenças espíritas (Haber, 1986; Owen, 1990, pp. 154-167). Em complemento à variedade de modelos causais apresentados na associação mediunidade-patologia, há pelo menos dois exemplos de literatura específica que foram discutidos de várias formas. Brevemente, esses dois grupos afirmavam a natureza paranormal da mediundidade, mas enquanto alguns aceitavam a patologia (Lombroso, 1892), outros a repeliam (Delanne, 1902). Para uma discussão dessa última posição no Brasil, veja o repúdio do advogado e escritor Carlos Imbassahy (1884-1969) às alegações da conexão entre práticas espíritas e insanidade (1949).
24 Sobre a rejeição dos fenômenos parapsicológicos pela ciência, veja Brown (1983), Le Malefán (1999), Méheust (1999), Oppenheim (1985) e Zangari (1996).

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