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Archives of Clinical Psychiatry

versão impressa ISSN 0101-6083

Rev. psiquiatr. clín. v.35 n.2 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832008000200005 

RELATO DE CASO

 

Tratamento homeopático da depressão: relato de série de casos

 

Homeopathic treatment of depression: series of case report

 

 

Ubiratan Cardinalli AdlerI; Nielce Maria de PaivaII; Amarilys de Toledo CésarIII; Maristela Schiabel AdlerIV; Adriana MolinaV; Helena Maria CalilVI

IMédico homeopata, mestre em Ciências, doutorando do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM)
IIMédica homeopata, assistente de Pesquisa Clínica – Pós-graduação em Homeopatia da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ)
IIIFarmacêutica homeopata, doutora em Saúde Pública, professora de Pós-graduação em Homeopatia da FMJ
IVMédica homeopata, mestre em Ciências, professora da Pós-graduação em Homeopatia da FMJ
VFarmacêutica homeopata, mestre em Ciências, professora da Pós-graduação em Homeopatia da FMJ
VIMédica psiquiatra, chefe da disciplina de Psicofarmacologia do Departamento de Psicobiologia da Unifesp/EPM

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

CONTEXTO: Não há estudos metodologicamente adequados sobre a eficácia da homeopatia na depressão. Relatos de casos clínicos são os primeiros degraus da evidência clínica, a caminho de estudos controlados.
OBJETIOS: Relatar resultados preliminares do tratamento homeopático de pacientes com depressão no SUS de Jundiaí.
MÉTODOS: Revisão dos prontuários dos casos novos, atendidos entre março e dezembro de 2006. O diagnóstico foi confirmado por entrevista estruturada. Os pacientes receberam homeopatia individualizada e a evolução foi avaliada pela escala de Montgomery & Åsberg (MADRS).
RESULTADOS: Foram tratados 15 casos e observou-se resposta terapêutica (redução maior que 50% dos escores de depressão) em 14 pacientes (93%), após uma média de sete semanas de tratamento; um paciente apresentou piora clínica e foi encaminhado ao tratamento convencional. O escore média (± dp) na Escala de Avaliação de Depressão de Montgomery-Åsberg diminuiu de 24,9 (± 5,8) a 9,7 (± 8,2, p < ,0001) na segunda avaliação, resultados mantidos no decorrer da terceira e quarta consultas.
CONCLUSÕES: Os resultados sugerem que a homeopatia pode ser uma alternativa terapêutica no tratamento da depressão, mas estudos randomizados e controlados são necessários para se testar a eficácia e segurança do tratamento homeopático dos transtornos depressivos.

Palavras-chave: Homeopatia, depressão, SUS, relato de série de casos.


ABSTRACT

BACKGROUND: Evidence for the efficacy of homeopathy for depression is limited due to lack of clinical trials of high quality. Case reports are the first steps of clinical evidence, towards controlled trials.
OBJECTIVES: To report preliminary results of homeopathic treatment of depression in Jundiai's public health system, Sao Paulo.
METHODS: Review of the medical records of new patients, treated between March and December 2006. Their diagnosis was confirmed by a semi-structured interview. Patients received individualized homeopathy and their response was measured by the Montgomery & Åsberg depression scale (MADRS).
RESULTS: Fifteen patients were treated and response (more than 50% decrease of MADRS scores) was observed in 14 patients (93%), after an average of seven weeks of treatment; one patient had clinical worsening and was refered to conventional antidepressant therapy. The MADRS mean scores (± dp) decreased from 24.9 (± 5.8) to 9.7 (± 8.2,
p < .0001) in the 2nd evaluation, and these results signifcance were sustained through the 3rd and 4th assessments.
DISCUSSION: these results suggest that homeopathy may be an alternative therapeutics for depression, but randomized and controlled studies are needed to test the efficacy and safety of the homeopathic treatment of the depressive disorders.

Key-words: Homeopathy, depression, public health system, series of case reports.


 

 

Introdução

O tratamento convencional da depressão com antidepressivos apresenta resposta terapêutica, ou seja, redução maior que 50% do escore basal1 em torno de 50% a 60% dos pacientes tratados2. Os antidepressivos não impedem altos índices de recorrência da doença3,4, produzem efeitos adversos freqüentes e clinicamente relevantes5, sendo até evitados por pacientes mais idosos após uma experiência negativa com seu uso6.

A depressão é um dos principais motivos para o uso de terapias alternativas e complementares nos Estados Unidos7 e o tratamento homeopático é uma das alternativas terapêuticas procuradas por esses pacientes.

A Homeopatia é uma terapêutica desenvolvida pelo médico alemão Christian Friedrich Samuel Hahnemann (1755-1843), reconhecida como especialidade médica no Brasil desde 1980, reconhecimento reafirmado em 2002, por meio da Resolução CFM nº 1634/2002.

A recém-publicada Portaria nº 971 do Ministério da Saúde (DOU, Seção 1, nº 84, 04/05/2006, p. 20) aprovou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), estabelecendo diretrizes para a incorporação da Homeopatia ao SUS e para avaliação da atenção homeopática em parceria com instituições formadoras, universidades, faculdades e outros órgãos dos governos federal, estaduais e municipais.

Antecipando-se à Portaria 971, em agosto de 2003 a Faculdade de Medicina de Jundiaí, São Paulo, inaugurou o único curso de Especialização em Homeopatia no país oferecido por uma Faculdade de Medicina e aprovado pelo Conselho Estadual de Educação (http://www.fmj.br).

A partir de fevereiro de 2004, o ambulatório-escola de Homeopatia passou a funcionar como um serviço de atenção secundária à saúde, recebendo encaminhamentos da rede básica, direcionados para a primeira especialidade ou projetos de pesquisa dos preceptores, como é o caso do ambulatório de homeopatia e transtornos depressivos.

Se ainda não existem evidências científicas favoráveis ao uso da Homeopatia na depressão, também não as há em contrário, pois os poucos estudos clínicos existentes não são metodologicamente adequados8.

Assim apresentamos a seguir uma série de casos clínicos de depressão tratados exclusivamente com Homeopatia no Ambulatório de Homeopatia e Transtornos Depressivos no SUS de Jundiaí.

 

Metodologia

Foram revisados os prontuários dos pacientes que tiveram sua primeira consulta entre março e dezembro de 2006.

Pacientes encaminhados ao ambulatório de Homeopatia e transtornos depressivos pelo sistema de referência e contra-referência do SUS de Jundiaí passaram por uma pré-consulta, na qual foram submetidos a uma entrevista clínica estruturada para o diagnóstico da depressão, segundo os critérios do DSM-IV (SCID9).

Aqueles que preencheram os critérios diagnósticos de um episódio depressivo foram esclarecidos sobre a falta de evidências científicas da efetividade da Homeopatia no tratamento da depressão e, após terem assinado um termo de consentimento livre e esclarecido, foram agendados para o início do tratamento homeopático, no primeiro horário disponível. Antidepressivos eventualmente em uso foram descontinuados de forma gradual até a ocasião da primeira consulta homeopática.

Nos casos relatados, as consultas ocorreram aproximadamente a cada sete semanas e foram precedidas por uma avaliação do escore de depressão por meio da aplicação da escala de Montgomery & Åsberg (MADRS).

A escala MADRS foi escolhida por sua maior sensibilidade às mudanças na sintomatologia depressiva10,11. Nessa escala, escores menores ou iguais a 10 caracterizam a remissão do episódio depressivo1.

Cada paciente recebeu um medicamento individualizado para o seu caso de doença, preparado e administrado de acordo com a metodologia hahnemanniana12.

Utilizou-se a análise unidirecional de variância de medidas repetidas com última observação levada à diante (LOCF) para comparação das avaliações em quatro períodos. Quando se identificaram diferenças significativas, aplicou-se uma análise post hoc, usando-se o teste de Bonferroni para comparações múltiplas13. Valores de p menores que 0,05 foram considerados significativos.

Este relato de casos clínicos foi aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa da FMJ.

 

Resultados

Nos sete meses entre março e outubro de 2006, foram atendidos 15 casos novos, dos quais apenas um do sexo masculino. A idade variou de 23 a 70 anos, com média de 43,1 anos, e a escolaridade, do 1º grau incompleto até o mestrado. A tabela 1 resume as características sociodemográficas dos pacientes atendidos.

 

 

A tabela 2 resume as comorbidades apresentadas pelos casos relatados e a respectiva medicação convencional (quando em uso).

 

 

O tempo transcorrido entre a primeira consulta e o primeiro retorno foi, em média, sete semanas (4 a 22 semanas). Os 15 pacientes compareceram ao primeiro retorno, dos quais 12 foram reavaliados em relação ao escore de depressão. Treze pacientes compareceram ao segundo retorno, que ocorreu, em média, 7,5 semanas (4 a 14) depois do primeiro, sendo todos avaliados em relação ao escore MADRS. Apenas cinco pacientes já compareceram a um terceiro retorno.

Dos 15 casos relatados, 14 (93%) apresentaram resposta terapêutica, e destes 13 (87%) evoluíram com remissão do episódio depressivo. Um paciente referiu piora da ideação suicida na quarta semana, sendo medicado com fluoxetina e encaminhado ao ambulatório de saúde mental, onde voltou a fazer tratamento convencional, com melhora do quadro depressivo.

A tabela 3 traz a duração da depressão e do episódio depressivo, os escores de depressão MADRS pré-tratamento (basal) e no primeiro e segundo retornos, bem como o medicamento homeopático utilizado no tratamento de cada paciente.

 

 

O escore MADRS apresentou redução da média basal de 24,87 (± 5,81) para 9,73 (± 8,16) no primeiro retorno (p < 0,0001). A tabela 4 apresenta a média dos escores MADRS em cada tempo de avaliação, considerando-se a última observação levada adiante (LOCF).

 

 

A figura 1 ilustra a evolução da média dos escores de depressão (LOCF) no decorrer do tratamento homeopático.

 

 

Durante o período de tratamento relatado, alguns casos também apresentaram modificações importantes nas comorbidades. Os pacientes nº 1 e nº 5 emagreceram 15 e 8 kg, respectivamente. A paciente de nº9 apresentou remissão das crises de pânico e a paciente de nº4 apresentou rebrotamento capilar na área de alopecia.

 

Discussão

Séries de casos clínicos estão no penúltimo degrau dos níveis de evidência científica, ficando acima apenas da opinião de especialistas. No ápice da escala estão os estudos randomizados e controlados e suas respectivas revisões sistemáticas14.

Uma revisão sistemática recente8 encontrou apenas dois estudos randomizados sobre o tratamento homeopático da depressão como principal diagnóstico. Em ambos foram identificados problemas metodológicos, como a não-descrição da randomização e número insuficiente de pacientes recrutados, impedindo quaisquer conclusões sobre a eficácia do tratamento.

Entre as causas apontadas para a escassez de publicações de qualidade que avaliem o tratamento homeopático da depressão, incluem-se:

  • Dificuldade em se desenvolver redes de tratamento homeopático que permitam estudos com um grande número de pacientes.
  • Falta de uma massa crítica de pesquisadores em homeopatia.
  • Ausência de financiamento adequado para apoiar estudos de boa qualidade, em um ou múltiplos centros.
  • Desafios próprios à metodologia homeopática dentro da pesquisa em medicinas alternativas e complementares (CAM), como a individualização do medicamento15.

A melhora observada nos casos relatados pode ser resultado da remissão espontânea do episódio depressivo, ou mesmo do efeito placebo, responsável, em média, por 30% de resposta terapêutica em pacientes com depressão16. Para avaliar a eficácia do tratamento homeopático, propusemos um estudo randomizado, controlado e duplo-cego, comparando o uso da homeopatia com placebo no tratamento da depressão, mas este não foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (parecer CONEP nº 316/2005). O braço placebo não foi aceito, tendo a CONEP sugerido a realização de um grupo-controle ativo, tratado com um antidepressivo consagrado.

Apesar dos questionamentos que possam ser feitos acerca da validade de estudos sobre novas medicações contra depressão que não incluam um grupo placebo16, readequamos nosso projeto para comparar o tratamento homeopático a um controle ativo (estudo em andamento), pois entendemos ser necessária a avaliação científica e imparcial da Homeopatia oferecida no SUS, conforme preconizam as diretrizes do Ministério da Saúde.

 

Agradecimento

À Farmácia HN-Cristiano, de São Paulo, pela doação dos medicamentos homeopáticos.

 

Referências

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Endereço para correspondência:
Helena Maria Calil
Rua Napoleão de Barros, 925, Vila Clementino
04024-002 – São Paulo, SP
E-mail: hmcalil@psicobio.epm.br

Recebido: 28/05/2007
Aceito: 20/07/2007