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Archives of Clinical Psychiatry

Print version ISSN 0101-6083

Rev. psiquiatr. clín. vol.35  suppl.1 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832008000700011 

REVISÃO DA LITERATURA

 

Uso de álcool, tabaco e outras drogas entre estudantes universitários brasileiros

 

The use of alcohol, tobacco and other drugs among Brazilian college students

 

 

Gabriela Arantes WagnerI; Arthur Guerra de AndradeII

IPós-graduanda do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
IIProfessor-associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP); professor titular da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

CONTEXTO: Pesquisas têm demonstrado que a entrada na universidade é um período crítico, de vulnerabilidade para o início e a manutenção do uso de álcool e outras drogas. No Brasil, grandes levantamentos domiciliares e entre estudantes do ensino médio foram realizados nos últimos 20 anos; porém, os levantamentos referentes ao consumo de drogas entre universitários são representados por dados dos últimos dez anos.
OBJETIVOS: Revisar a evolução desses estudos e relacioná-los aos principais resultados encontrados, referindo a necessidade de novos levantamentos para estimativa do perfil e prevalência dos universitários diante do consumo de drogas no contexto estudado.
MÉTODOS: Revisão bibliográfica das bases de dados MEDLINE, LILACS, PubMed e Scirus de 1997 a 2007.
RESULTADOS: Foram encontradas 12 publicações referentes ao consumo de drogas entre universitários brasileiros. Estão apresentados como estudos de prevalência de uso e estudos de comportamentos de risco, os quais não caracterizam fidedignamente essa população.
CONCLUSÕES: Há necessidade de estudos que viabilizem a comparação dos resultados, possibilitem adequações de programas de prevenção nessa comunidade, auxiliem na melhoria da qualidade de vida e desenvolvam novas frentes preventivas. A repetição poderá informar como as variáveis se comportam ao longo do tempo e se possibilitam avaliar tendências vindo a constituir estudos seriados.

Palavras-chave: Álcool, drogas ilícitas, tabaco, estudantes universitários, Brasil.


ABSTRACT

BACKGROUND: Research has demonstrated that entrance into college is a critical period in which the student is vulnerable to initiating and continued alcohol and other drug usage. There have been large household surveys and surveys among high school students in Brazil during the last 20 years however, research regarding drug consumption among college students is represented by data solely from the last ten years.
OBJECTIVES: The goal of this study was to review the evolution of these studies and to relate them to the principal results found in reference to the need for new research by which to profile university students with respect to drug consumption.
METHODS: A literature review of the databases MEDLINE, LILACS, PubMed, and Scirus from 1997 to 2007.
RESULTS: Twelve publications regarding drug consumption among Brazilian college students were found. They are presented as studies of prevalence in usage, and of risk behavior but, do not characterize this population faithfully. CONCLUSIONS: There is a need for further studies which allow comparisons between surveys in order to make adjustments in prevention programs of this community possible; that promote the improvement of quality of life; and that develop new preventive efforts. Follow-up surveys can bring new light to bear on how the variables behave over time and make tendency evaluations possible, which in turn could constitute studies in series.

Key-words: Alcohol, illicit drugs, tobacco, university students, Brazil.


 

 

Introdução

O ingresso na universidade, ainda que traga sentimentos positivos e de alcance de uma meta programada por estudantes do ensino médio, por vezes pode se tornar um período crítico, de maior vulnerabilidade para o início e a manutenção do uso de álcool e outras drogas (Peuker et al., 2006). A avaliação de atitudes e comportamentos ligados ao uso de álcool e outras drogas fornece informações valiosas quanto ao entendimento do comportamento desse grupo de indivíduos. Com esse objetivo, levantamentos estatísticos quanto ao uso de drogas, tanto em universidades internacionais como também nas universidades brasileiras, têm sido realizados (Andrade et al., 1997; Kerr-Corrêa et al., 1999; Pope et al., 2001 Fiorini et al., 2003; Murphy et al., 2005; Stempliuk et al., 2005; Boland et al., 2006; Lucas et al., 2006).

Esses estudos, apesar de suas limitações, viabilizam a comparação dos resultados, possibilitam adequações de programas de prevenção nessa comunidade, auxiliam na melhoria de qualidade de vida e desenvolvem novas frentes preventivas (Stempliuk et al., 2005). A repetição dos estudos pode informar como as variáveis se comportam ao longo do tempo e se possibilitam avaliar tendências vindo a constituir estudos seriados (Grisso, 1993; Pope et al., 2001).

Isso pode ser observado, por exemplo, com outros estudantes – os de ensino fundamental – nas pesquisas realizadas por Galduróz et al. (2004) em diferentes capitais brasileiras nos anos de 1987, 1989, 1993 e 1997 (Galduróz et al., 2004). Essa série de levantamentos possibilitou detectar a tendência do aumento de uso de drogas na vida de diversas substâncias como maconha, ansiolíticos, anfetamínicos e cocaína. Já entre universitários, um estudo avaliou a tendência de uso de drogas no decorrer de 30 anos de análise em uma população universitária da Inglaterra e concluiu que o uso semanal de álcool pôde ser considerado estável em todos os anos estudados, e que algumas drogas ilícitas, como o LSD e os derivados do ópio, atingiram seu pico de uso em 1978 e decaíram no decorrer dos períodos. Porém, os derivados anfetamínicos, como o MDMA ou ecstasy, apresentaram aumento significativo na última década e são as drogas mais usadas entre essa classe de estudantes, com exceção da maconha (Pope et al., 2001).

Estudos epidemiológicos transversais têm sido a metodologia de escolha para o levantamento de uso de drogas entre estudantes do ensino fundamental, médio e superior no Brasil. As informações sobre uso de drogas em uma determinada população auxiliam e definem o tipo de intervenção que deve ser realizada. Para que isso ocorra, há a necessidade do conhecimento específico da evolução do uso de determinadas substâncias em certos ambientes e como estão funcionando os programas de prevenção já existentes (Andrade et al., 1997; Carlini et al., 1989 e 1990b; Galduróz et al., 2004; Stempliuk et al., 2005).

Segundo os dados publicados no Relatório Mundial de Drogas de 2007 da Organização das Nações Unidas (ONU), no Brasil, o aumento do uso de cocaína, de 0,4% (em 2001) para 0,7% (em 2005), é considerado um dado importante, assim como o aumento do uso de maconha. A maconha foi a droga ilícita que apresentou o maior incremento de uso nos últimos anos, tendo sua porcentagem de uso aumentada de 1%, em 2001, para 2,6% em 2005. A ONU considera que esse aumento é um reflexo da facilidade de obtenção da droga no país. As anfetaminas também demonstraram aumento de uso entre a população brasileira, apresentando índices de prevalência semelhantes aos da América do Norte e da África (WDR, 2007).

Em 2007, a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) publicou uma cartilha avaliando o consumo de álcool entre a população brasileira. Nesse estudo, foi encontrado que o uso regular de bebidas alcoólicas pelos adolescentes começa aos 14,8 anos e pelos adultos jovens, aos 17,3 anos. Esses números foram obtidos após desconsiderar jovens adultos que haviam iniciado o consumo após os 18 anos, ou seja, apontando uma redução nas idades médias dos jovens adultos. Pela vulnerabilidade dessa população, é fundamental monitorar de perto esse fenômeno. Segundo a Senad, estudos futuros poderão mostrar se vai ser possível reverter essa tendência com a implantação de eventuais políticas públicas em relação ao álcool. Vale a pena ressaltar que não houve diferenças entre os gêneros, quanto à idade de início de uso e quanto ao padrão de consumo nos adolescentes estudados (Senad, 2007).

Como conseqüências do consumo de drogas entre estudantes universitários, podemos citar: acidentes automobilísticos, violência, comportamento sexual de risco, prejuízos acadêmicos, diminuição da percepção e estresse (Silva et al., 2006; Pillon et al., 2005; Pechansky et al., 2004; Carlini-Contrim et al., 2004). Em outro estudo foi descrito que o consumo abusivo de álcool entre estudantes universitários está relacionado com a diminuição da expectativa de vida dessa população. Segundo os autores, isso ocorre porque os comportamentos de risco associados ao consumo de álcool e drogas podem afetar o senso global de "bem-estar" (Murphy et al., 2005). Os levantamentos realizados entre estudantes universitários suecos constataram que a média entre o volume de bebida consumida e a freqüência de episódios de binge drinking está associada à ocorrência de eventos negativos e à insatisfação com os hábitos de consumo dos estudantes (Bendtsen et al., 2006).

 

Metodologia

A proposta inicial deste artigo foi a de realizar uma revisão dos estudos sobre consumo de drogas ilícitas, álcool e tabaco entre estudantes universitários brasileiros. O objetivo principal foi o de avaliar o desenvolvimento desses estudos em nível nacional e as suas características nos últimos dez anos (1997-2007). Para tanto, foram realizados levantamentos bibliográficos em bancos de dados MEDLINE, LILACS, PubMed e Scirus, utilizando como descritores os seguintes termos: drug, illicit drug, university students, Brazil, alcohol e tobacco. Foram incluídos nesta revisão estudos estatísticos e sobre fatores de risco associados ao consumo de drogas entre estudantes universitários.

 

Resultados

Foram encontradas, ao todo, 13 publicações referentes ao uso de drogas entre estudantes universitários brasileiros no período escolhido. Apesar de estudos transversais serem a metodologia de escolha para avaliação do consumo de drogas entre estudantes universitários, infelizmente os trabalhos realizados nesse grupo de indivíduos são poucos e não representativos.

Estudos de prevalência

Entre os estudos de prevalência, encontram-se os realizados na Universidade de São Paulo (USP), Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade de Alfenas (Unifenas), Universidade Federal de Alfenas (Unifal), Universidade Federal do Ceará (UFC) e Faculdades de Medicina da Bahia (Andrade et al., 1997; Kerr-Corrêa et al., 1999; Matos e Souza et al., 1999; Fiorini et al., 2003; Lucas et al., 2006; Lemos et al., 2007; Wagner et al., 2007), nos quais as análises estatísticas realizadas, o tipo de amostragem e a qualidade de levantamentos de dados são compatíveis com as realidades encontradas entre estudantes do ensino médio brasileiro (Carlini, 1989, 1990b; Galduróz et al., 2004) (Tabela 1).

 

 

Em relação aos estudantes da Universidade de São Paulo, as tendências, os padrões de uso e os perfis foram avaliados por Andrade et al. (1997) e Stempliuk et al. (2005). O estudo inicial (1997) apresentou dados interessantes sobre o uso de drogas ilícitas na vida (38,1%), nos últimos 12 meses (26,3%) e nos últimos trinta dias (18,9%). O uso foi maior entre o sexo masculino e em alunos que moram sem as famílias. Verificou-se que o álcool e o tabaco são substâncias mais consumidas, e as suas prevalências de uso nos últimos 12 meses foram de 82,3% para o álcool e 29,6% para o tabaco (Andrade et al., 1997).

Em 2001, com o intuito de comparar e iniciar estudo seriado quanto ao consumo de drogas na Universidade de São Paulo, foi desenvolvido o segundo levantamento. Basicamente esse estudo comparou o padrão e as atitudes diante do uso de drogas ao primeiro levantamento, identificou grupos específicos mais expostos aos problemas e as drogas mais utilizadas, além de fornecer subsídios para ações preventivas nessa população. Os dados demonstraram que em 2001 houve aumento da aprovação do consumo de cocaína, crack, maconha, anfetaminas e inalantes. Segundo os autores, não há explicação para o aumento da aprovação de consumo de cocaína e crack, uma vez que o consumo manteve-se estável entre os anos de 1996 e 2001 (Stempliuk et al., 2005).

A comparação das pesquisas realizadas entre os períodos revelou mudanças consideráveis no comportamento e no consumo de substâncias psicoativas. Os padrões de uso diversificaram-se e observou-se aumento significativo no consumo de bebidas alcoólicas (88,5% para 91,9%), tabaco (42,8% para 50,5%), maconha (31,3% para 35,3%), alucinógenos (6,1% para 11,4%), em relação ao consumo na vida (Andrade et al., 1997; Stempliuk et al., 2005). As mulheres passaram a consumir mais tabaco, maconha, anticolinérgicos e inalantes e continuaram sendo as maiores consumidoras de tranqüilizantes e anfetamínicos no período (Wagner et al., 2007).

Desse mesmo banco de dados, foi possível extrair informações sobre diferença entre gêneros na prevalência do uso de drogas entre estudantes universitários. Nesse estudo, observou-se que a maior diferença entre os gêneros foi relatada no consumo de drogas nos últimos 30 dias, com aumento significativo no consumo de tabaco entre homens (de 19,6% para 23,5%), maconha (de 15,8% para 20,5%), anfetaminas (de 1,1% para 3,2%) e inalantes (de 4,0% para 7,9%) (Wagner et al., 2007).

Em 1999, Kerr-Corrêa et al. estudaram a prevalência de uso de drogas entre estudantes de medicina da Unesp. Para tal, a pesquisadora utilizou uma amostragem de nove faculdades paulistas, com os alunos matriculados do primeiro ao sexto ano no ano de 1994. Nesse estudo não se observaram diferenças estatisticamente significantes entre os alunos da Unesp e os demais alunos de medicina de outras escolas da capital e interior do estado. A análise do uso de álcool e drogas entre estudantes de medicina das escolas estudadas em relação ao uso na vida, uso nos últimos 12 meses e nos últimos 30 dias, em relação ao total de respostas obtidas, tipo de substâncias e ano do curso médico indicou maiores prevalências das seguintes substâncias: álcool, tabaco, solventes, maconha, tranqüilizantes e cocaína. O uso de benzodiazepínicos foi caracterizado por apresentar maior tendência de uso nessa classe, principalmente nos últimos anos da graduação. Isso foi explicado pela facilidade de obtenção da prescrição do próprio medicamento no hospital, estresse de final de curso e sobrecarga de plantões, com mudanças de turno freqüentes e rápidas que atrapalham o ritmo do sono (Kerr-Corrêa et al., 1999).

No mesmo ano (1999), Matos e Souza et al. também estudaram a prevalência de uso de drogas entre estudantes de medicina da Universidade Federal do Ceará. Esse estudo comparou o consumo entre os primeiros cinco anos letivos da faculdade e relacionou-os com o desempenho acadêmico dos alunos. Entre os resultados encontrados, observou-se associação entre substâncias psicoativas. As mais importantes foram: álcool e tabaco ou álcool e "lança-perfume". Em relação ao aumento no consumo de substâncias no decorrer das atividades acadêmicas, encontrou-se aumento significativo no consumo de álcool nos últimos 30 dias (de 57,7% para 80,3%) no decorrer do curso médico. Além disso, em 31,5% da amostra, o álcool acarretou problemas, como falta de atenção, sono, ausência, atrasos, saídas mais cedo das aulas, reclamações ou dormir no decorrer das aulas, alguma vez na vida durante as atividades acadêmicas (Matos e Souza et al., 1999).

O uso de drogas entre estudantes universitários da cidade de Alfenas (Minas Gerais) foi avaliado em 2003. Nesse levantamento foi medido o consumo de drogas entre estudantes de duas universidades, sendo uma delas universidade federal (Universidade Federal de Alfenas) e a outra, particular (Universidade de Alfenas). A amostra estudada foi de aproximadamente 1.500 estudantes e os resultados demonstraram que há um consumo significativo de drogas lícitas e ilícitas. Foi observado que 55% dos estudantes usavam algum tipo de droga, porém entre a amostra coletada, os estudantes revelaram que já consumiam álcool e tabaco antes de ingressarem na universidade. O artigo sugere que o ambiente universitário não representa necessariamente o ponto de partida para o consumo de drogas (Fiorini et al., 2003).

Entre os estudantes das Faculdades de Medicinas de Salvador (Bahia), o levantamento realizado no ano de 2005 concluiu que os estudantes de medicina daquele estado fazem uso esporádico e recreacional de drogas, com exceção do álcool, utilizado de forma regular entre os alunos. As evidências encontradas pelos pesquisadores citam a necessidade de que as escolas formalizem serviços de apoio psicológico aos graduandos, principalmente quando se observa dependência química entre eles (Lemos et al., 2007).

Na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Amazonas, foi realizado um levantamento com 521 estudantes. O uso de álcool na vida foi relatado por 87,7% dos estudantes e o de tabaco, por 30,7%, sendo o maior consumo entre estudantes do sexo masculino. As drogas ilícitas mais utilizadas foram: solventes (11,9%), maconha (9,4%), anfetaminas e ansiolíticos (ambos com prevalência de 9,2%), cocaína (2,1%) e alucinógenos (1,2%). O uso abusivo de álcool foi relatado por 12,4% dos entrevistados, desses, 47,8% relataram haver ingerido bebidas alcoólicas até a embriaguez em algum momento na vida; 6,1% o haviam feito em um período de 1 a 5 dias no último mês; 4%, de 6 a 19 dias no último mês, e 2,9%, de 20 dias ou mais no último mês (Lucas et al., 2006).

Estudos de comportamento

As informações obtidas por intermédio da relação entre comportamento de risco e uso de drogas no ambiente escolar são necessárias para o desenvolvimento de medidas de educação e prevenção. Os principais resultados encontrados em cinco publicações estão descritos na tabela 2.

 

 

Os comportamentos de risco relacionados à sexualidade e a acidentes de trânsito no contexto universitário foram estudados entre estudantes de medicina da USP – campus Ribeirão Preto. Os autores descreveram em sua pesquisa que estudantes do sexo masculino têm maior freqüência de relações sexuais, com diferentes parceiros, sem uso de preservativos quando estão sob o efeito de substâncias psicoativas. O mesmo estudo determinou que, entre os universitários, 23,5% dirigem após consumirem bebidas alcoólicas; entre esses, 17% se envolveram em acidentes de trânsito (Pillon et al., 2005).

Quanto à violência, sabe-se que ela está presente em usuários de drogas ilícitas e consumidores de álcool. Entre universitários, o comportamento agressivo não é identificado somente entre os dependentes, ele também pode ser encontrado em consumidores ocasionais de bebidas alcoólicas. Segundo os dados demonstrados, 16,5% dos estudantes já brigaram por estarem sob efeito de alguma substância psicoativa e 21% já ameaçaram pessoas com armas de fogo (Pillon et al, 2005).

No contexto da Universidade de São Paulo, os comportamentos de risco foram estudados em 2000 por Barria et al. e em 2006 por Silva et al. Utilizando o banco de dados coletados por Andrade et al.(b), em 1997, Barria et al. estudaram uma amostra populacional representativa dos alunos de ciências biológicas, especificamente das unidades: Escola de Educação Física, Escola de Enfermagem, Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Faculdade de Medicina, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Faculdade de Odontologia, Faculdade de Saúde Pública, Instituto de Biologia e Instituto de Psicologia. Segundo esses autores, o consumo de drogas entre estudantes está relacionado a uma vida social mais intensa, talvez porque, fora de casa ou em grupos, o acesso às drogas seja mais fácil, ou então porque esses indivíduos são, devido à educação que receberam ou ao meio onde estão inseridos, mais "abertos" e com menos "tabus" em relação a esse consumo (Barria et al., 2000).

Silva et al., em 2006, utilizando o banco de dados obtido por Stempliuk et al., em 2005, estudaram o estilo de vida a situação socioeconômica e o uso de álcool, tabaco, medicamentos e drogas ilícitas nos últimos 12 meses entre universitários. O estudo constatou que, entre os alunos com alguma religião, o consumo de álcool foi de 83,1%, o de tabaco, 20,7% e o de drogas ilícitas, 24,6% nesse período. O uso de álcool apresentou relação com o tipo de religião praticada, mas não com o uso de drogas ilícitas e tabaco. Nesse caso, 87,5% dos católicos usaram álcool nesse período somente 62,3% dos protestantes fizeram tal uso (Silva et al., 2006).

Em 2001, Rondina et al. realizaram um estudo correlacionando o perfil psicológico e o consumo de tabaco entre estudantes universitários dos cursos de Administração de Empresas e Turismo das Faculdades Afirmativo (FAFI), e dos cursos de Pedagogia, Ciências Sociais e Comunicação Social da Faculdade Unirondon em Cuiabá (Mato Grosso), no ano de 1999. Os resultados desse estudo sugeriram a hipótese de que universitários fumantes tendem a ser descuidados consigo próprios e com a sua saúde. O estudo concluiu que universitários fumantes, em relação a não fumantes, são mais propensos a adotarem o estereótipo social de masculinidade. O consumo diário foi associado à tendência de conformismo social e à necessidade de aceitação e aprovação social (Rondina et al., 2001).

Entre os estudos de comportamento sobre o consumo de álcool e estudantes universitários, Peuker et al., em 2006, publicaram a correlação entre o beber problemático e suas conseqüências em estudantes de vários cursos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Segundo os autores, a população universitária apresenta padrões típicos de uso de álcool e fatores de risco que diferem da população geral, sendo o consumo dessa substância sempre favorecido de forma indireta. Isso porque ela se influencia mutuamente em termos de beber, pela modelagem, pela imitação ou pelo reforçamento do comportamento de beber. A seleção dos colegas, a escolha do tipo de substância, o padrão de uso e a forma como o consumo de seus pares são percebidos influenciam diretamente no perfil do universitário bebedor e representam fatores de risco importantes. Faz necessário destacar que neste trabalho se constatou que 44,2% dos participantes poderiam ser caracterizados como bebedores problema, segundo o questionário AUDIT (Peuker et al., 2006).

Alguns estudos de prevalência citados anteriormente também discutem as questões relacionadas aos comportamentos de risco em relação aos estudantes universitários. Entre eles, citam-se os resultados encontrados por Kerr-Corrêa et al., em 1999. Nesse trabalho, descrevem-se diferenças qualitativas sobre o consumo de drogas entre estudantes de medicina da Unesp. As poucas horas de lazer e as poucas atividades culturais e esportivas entre os estudantes levariam a comportamentos de risco em relação à exposição e ao consumo das drogas. Esses dados também foram discutidos por Stempliuk et al. (2005) ao analisar a amostra populacional da USP. Segundo o autor, conseqüências adversas a respeito do consumo de drogas são de conhecimento dos alunos de graduação e são freqüentes entre os usuários. Nesse levantamento, 9,95% dos estudantes relacionam o uso de drogas com distúrbios do sono, 5,39% com a redução do desempenho acadêmico, 5,13% relatam alterações nos hábitos alimentares e 2,31% com a inibição da performance sexual (Kerr-Corrêa et al., 1999; Stempliuk et al., 2005).

 

Discussão

Os estudos sobre o consumo de álcool, tabaco e drogas ilícitas entre universitários têm aumentado nos últimos anos de forma acelerada, na tentativa de compreender as características de consumo e o perfil da população de interesse, visando extrapolar dados para a população geral e aprimorar programas de prevenção existentes em instituições de ensino superior. Todos os estudos encontrados nesta revisão bibliográfica trazem informações importantes que corroboram com outros dados encontrados na literatura internacional.

Entre os mais importantes, vale discutir a questão da prevalência de consumo de drogas encontrada entre estudantes da Universidade de São Paulo (USP). As pesquisas realizadas nessa universidade diferem das demais pelo número de alunos e por contemplar uma amostragem representativa de todos os cursos da graduação. Esses dados permitem avaliar as tendências de uso de drogas em jovens de diferentes faixas etárias, excluindo as características individuais dos cursos de graduação, o que não é encontrado, por exemplo, nos estudos realizados na Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) e Universidade Federal do Amazonas (UFAM), nos quais somente alunos de graduação dos cursos de ciências da saúde ou medicina foram avaliados.

O interessante nesse tipo de abordagem é a possibilidade de comparar os dados encontrados em uma população específica, como no caso de estudantes universitários, aos levantamentos realizados em âmbito nacional pelo Cebrid e Senad. Por exemplo, no levantamento realizado por Fiorini et al. (2003), os estudantes de graduação relataram que já consumiam álcool antes de ingressarem na universidade. Esse dado concorda perfeitamente com os dados obtidos pela Senad em 2007. Quando se avaliaram padrões de consumo de álcool entre brasileiros, os jovens relataram início de uso de bebidas alcoólicas entre 14,8 anos e 17,3 anos de idade, período relativamente anterior ao ingresso no curso superior, que se caracteriza, geralmente, a partir dos 18 anos (Fiorini et al., 2003; Senad, 2007).

Ainda discutindo-se as prevalências, há características semelhantes entre os universitários da UFAM, Unesp e UFC (Kerr-Corrêa et al., 1999; Matos e Souza et al., 1999; Lucas et al., 2006). Os três estudos avaliaram estudantes da área de saúde e, apesar de o número de indivíduos pesquisados ser diferente, as prevalências de uso são muito semelhantes. Nota-se que as drogas de preferência de uso no decorrer do curso médico são álcool e tabaco. Todos os alunos, em todas as pesquisas, citaram queixas em relação ao desempenho acadêmico decorrente do consumo de substâncias e há considerável aumento de consumo de medicamentos de prescrição controlada (benzodiazepínicos e anfetaminas) nos anos finais do curso. Esses dados deveriam receber atenção especial e novos levantamentos para o entendimento desse comportamento deveriam ser realizados.

Os estudos de comportamento de risco entre a classe universitária caracterizam-se pelos aspectos: violência, relações sexuais sem proteção e direção perigosa. Todos eles aprofundam-se nas questões relativas a esses parâmetros que, talvez, sejam os mais importantes a serem discutidos pela necessidade de avaliar e/ou implantar programas de prevenção nessa população específica.

Em levantamentos internacionais (Murphy et al., 2005), a relação do senso global de "bem-estar" e do consumo de substâncias psicoativas por jovens universitários é estudada detalhadamente, visando ao desenvolvimento de novas frentes de conscientização dos jovens. O mesmo pode ser encontrado, por exemplo, no estudo realizado por Barria et al. (2000). Em ambos, a avaliação da qualidade de vida social desses estudantes, o consumo de drogas e os meios em que estão inseridos são estudados crescentemente, demonstrando que jovens em idade universitária estão sim expostos a riscos graves de comportamento, e que isso pode, certamente, afetar a vida social deles.

A inter-relação álcool versus levantamentos nacionais é bem detalhada quando relacionada aos estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As características encontradas em relação à diferença de consumo nesses jovens e a população geral são citadas e a avaliação das questões de "bebedores problema" entre universitários é discutida como fator preponderante para o entendimento das características deles. Esse resultado não corrobora com aqueles encontrados nas demais universidades brasileiras estudadas e o aumento de consumo de bebidas alcoólicas entre mulheres foi referido por não se encontrar diferença entre os gêneros. Além do mais, observou-se que 21,7% dos estudantes experimentaram a sensação de perda de controle para pararem de beber e 25,4% deixaram de fazer o que era esperado em virtude do consumo de álcool (Peuker et al., 2006).

Portanto, novos estudos são necessários para uma melhor compreensão dessas diferenças e de como as sensações buscadas no uso de determinada substância estão associadas indireta ou diretamente à busca de uma sensação de bem-estar e alívio de estresse da situação acadêmica.

 

Conclusões

Os estudos encontrados nos últimos dez anos entre universitários brasileiros não são representativos do universo desses estudantes, mas sugerem que o problema de uso de drogas e álcool nessa população é preocupante e novos levantamentos precisam ser realizados para podermos compreender melhor as expectativas desse grupo, assim como auxiliar na prevenção dos fatores de risco.

 

Referências

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Endereço para correspondência:
Gabriela Arantes Wagner
Rua Costa Aguiar, 1375, ap. 71, Ipiranga
04204-001 – São Paulo, SP
E-mail: gabrielaaw@usp.br

Recebido: 26/09/2007
Aceito: 20/02/2008

 

 

Instituição: Departamento de Fisiopatologia Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).