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Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo)

versão impressa ISSN 0101-6083versão On-line ISSN 1806-938X

Rev. psiquiatr. clín. vol.36 no.6 São Paulo  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832009000600001 

ARTIGO ORIGINAL

 

"Life Chart" retrospectivo: instrumento para assinalar graficamente a presença e a evolução do impacto funcional de episódios afetivos maníacos e depressivos

 

Retrospective Life Chart: instrument to graphically mark the presence and the evolution of functional impairment in manic and depressive episodes

 

 

Elisa BrietzkeI; Ledo Daruy FilhoII; Rodrigo Grassi-OliveiraII

IPrograma de Atendimento do Transtorno do Humor Bipolar (PROTAHBI) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
IIGrupo de pesquisa em Neurociência Cognitiva do Desenvolvimento da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

CONTEXTO: Entre os instrumentos utilizados, em pesquisa e na prática clínica, para representar e detalhar o curso longitudinal do transtorno bipolar, o Life Chart tem sido o mais utilizado. Além de ser comprovadamente de fácil aplicação, possui fidedignidade em relatar o histórico clínico do paciente.
OBJETIVO: Apresentar o Life Chart Retrospectivo em sua versão em português.
MÉTODOS:
Foram realizadas tradução e retradução, revisão e avaliação de equivalência semântica, idiomática, experimental ou cultural e conceitual.
RESULTADOS: Estão apresentados em forma de gráfico.
CONCLUSÃO: A partir do desenvolvimento dessa versão do Life Chart para o português, os estudos realizados no Brasil podem fazer uso dos mesmos parâmetros de registro que os estudos internacionais.

Palavras-chave: Transtorno bipolar, curso, mania, depressão, funcionalidade.


ABSTRACT

BACKGROUND: A life chart is a widely used instrument both in research and clinical practice to document the longitudinal course of bipolar disorder, being easy to apply and accuratly reports the clinical history.
OBJECTIVE: The goal of this paper is to present the Brazilian Portuguese version of the Retrospective Life Chart.
METHODS:
Translation and retrotranslation, review, and semantic, language, cultural and conceptual equivalence were done.
RESULTS:
Results are presented in graphic format.
DISCUSSION: The Portuguese version of Life Chart will allow that studies conducted in Brazil to use the same parameters that are used in international research.

Keywords: Bipolar disorder, course, mania, depression, functionality.


 

 

Introdução

O transtorno bipolar (TB) é um transtorno do humor caracterizado por episódios de depressão, mania ou hipomania. Nas descrições clássicas, esses episódios são intercalados por períodos de remissão dos sintomas1. As novas evidências, porém, sugerem um curso longitudinal marcado, como regra, pela cronicidade e evolução a um quadro de comprometimento cognitivo e sistêmico2. A potencial predição da evolução do TB para cada paciente individual, porém, só é possível a partir da documentação do curso da doença, especialmente dos seus episódios.2

A documentação da evolução do TB por meio de métodos gráficos foi desenvolvida pela primeira vez por Kraepelin em 19213. É interessante notar que documentar adequadamente o curso do transtorno já era uma preocupação desse pesquisador pioneiro e que, ainda hoje, seus registros são usados para a observação dos casos. O uso desse tipo de método possibilita a visualização de diferentes padrões de doença, por meio da caracterização e do registro dos diferentes episódios, sendo, ao mesmo tempo, rápido, fácil de aplicar e flexível4,5. Um dos mais importantes instrumentos desse tipo é o Life Chart, que pode ser aplicado de forma flexível a diferentes contextos clínicos e de pesquisa e possibilitando incluir como fonte de informação o relato do paciente, de familiares ou da equipe de saúde.

Denicoff et al.6 estudaram as propriedades desse instrumento e demonstraram dois aspectos principais. O primeiro é que a confiabilidade interobservador é muito alta. O segundo é a validade do método, demonstrada por meio da associação significativa do Life Chart com o Beck Depression Inventory, Hamilton depressão, Young Mania Rating Scale (YMRS) e Global Assessment Scale. Um estudo posterior confirmou esses resultados e encontrou forte correlação entre o Life Chart e os escores da YMRS e Global Assessment Functioning6.

Um instrumento com essas características pode ser usado prospectiva ou retrospectivamente. O modelo para seu uso retrospectivo foi primeiramente desenvolvido por Post et al.4. Esse trabalho serviu de modelo para o Life Chart mais utilizado no momento: a versão do National Institute of Mental Health (NIMH). Quando utilizada retrospectivamente, a base da definição de um episódio está mais no prejuízo funcional do que no questionamento específico de cada sintoma necessário para definir o diagnóstico de episódios maníacos e depressivos pelos manuais de classificação. Assume-se que o prejuízo funcional é uma informação mais facilmente lembrada do que a presença de diferentes sintomas em diversos períodos de tempo. Nesse modelo, os episódios maníacos e depressivos são medidos em uma escala de três pontos: leve: com apenas sofrimento subjetivo e nenhum ou mínimo prejuízo funcional; moderado: com claro prejuízo no funcionamento usual do paciente; grave: envolvendo incapacitação ou resultando em hospitalização.

Os estudos mais recentes a realizarem aferição de episódios prévios por meio do Life Chart incluem informações dos registros em prontuários e de afetivogramas preenchidos pela equipe de saúde, de familiares e do próprio paciente7. É interessante notar que a maioria dos pacientes bipolares consegue completar o Life Chart retrospectivo dos últimos seis anos de forma autoaplicada, necessitando de um mínimo de auxílio da equipe de saúde8.

Atualmente, o NIMH fornece gratuitamente o manual de preenchimento do Life Chart e as versões retrospectivas e prospectivas. No Brasil, existe uma tradução de um modelo mais antigo de Life Chart utilizado pelo NIMH9, porém sem validação.

Assim, constata-se que o registro formal, adequado e criterioso dos episódios da doença é fundamental para a realização de estudos que pretendam avaliar o curso do TB e que, portanto, a disponibilidade de uma ferramenta válida e confiável tem importância inestimável para os grupos de pesquisa que pretendam realizar estudos longitudinais nessa patologia. Entre esses instrumentos, o Life Chart desenvolvido pelo NIMH é o mais utilizado em todo o mundo para o registro do curso do TB. O objetivo desse estudo foi realizar a adaptação e tradução do inglês para o português e a retradução do português para o inglês do Life Chart.

Os autores do presente artigo obtiveram autorização do NIMH para realizar a tradução do Life Chart para o português brasileiro.

 

Metodologia

O processo utilizado para a tradução e adaptação foi baseado na metodologia descrita por Grassi-Oliveira et al.10. A primeira etapa consistiu na tradução do instrumento original do inglês para o português, realizada por um médico psiquiatra, bilíngue e com experiência na temática (Transtornos de Humor). Na segunda etapa,o instrumento foi novamente traduzido para o inglês por um psiquiatra e tradutor bilíngue que não conhecia o instrumento original. A terceira etapa consistiu na revisão técnica e equivalência semântica realizada, independentemente, por dois profissionais: um professor de língua portuguesa com especialização em inglês e um psiquiatra, bilíngue, especializado em criação e adaptação de escalas e testes na área da psicologia. Os profissionais consultados apontaram modificações e sugeriram correções no instrumento traduzido, objetivando adequar a versão traduzida à população a ser estudada. Uma versão final, corrigida, foi produzida com base nessas sugestões (Figuras 1 e 2). Considerou-se que o significado geral da versão em português deveria transcender a literalidade dos termos e assertivas e considerar os aspectos culturais da população-alvo. O objetivo foi produzir um instrumento pertinente, adequado e aceitável. Durante o processo de tradução, foram observados os seguintes aspectos:

Equivalência semântica: avaliação da equivalência gramatical e de vocabulário. As palavras que não possuíam uma tradução literal com significado semelhante foram traduzidas para os termos em português que apresentavam equivalência de significado.

Equivalência idiomática: tradução de certas expressões idiomáticas que não pode ser feita de forma literal, devendo equivaler no seu sentido. As expressões foram traduzidas pelo seu sentido na língua inglesa.

Equivalência experimental ou cultural: coerência entre os termos utilizados e as experiências vividas pela população à qual se destina, dentro do seu contexto cultural.

Equivalência conceitual: muitos itens utilizados nos instrumentos podem equivaler-se semanticamente, sem, contudo, apresentar equivalência de conceito. Os termos podem representar conceitos diferentes em contextos específicos. A equivalência conceitual foi revisada na etapa em que a tradução foi revisada pelo comitê.

 

Conclusões

O Life Chart é um instrumento adequado para o uso em pesquisas e na prática clínica. A partir do desenvolvimento dessa versão do Life Chart para o português, os estudos realizados no Brasil podem fazer uso dos mesmos parâmetros de registro que os estudos internacionais.

 

Referências

1. Fountoulakis KN. The contemporary face of bipolar illness: complex diagnostic and therapeutic challenges. CNS Spectr. 2008;13:763-74, 777-9.         [ Links ]

2. Soreca I, Frank E, Kupfer D. The phenomenology of bipolar disorder: what drives the high rate of medical burden and determines long-term prognosis? Depress Anxiety. 2008 (in press) DOI: 10.1002/ da.20521.         [ Links ]

3. Livianos-Aldana L, Rojo-Moreno L. Rating and quantification of manic symptoms. Acta Psychiatr Scand Suppl. 2001:409:2-33.         [ Links ]

4. Post RM, Roy-Byrne PP, Uhde TW. Graphic representation of the life course of illness in patients with affective disorder. Am J Psychiatry. 1988;145:844-8.         [ Links ]

5. Roy-Byrne P, Post RM, Ohde TW, Porcu T, Davis D. The longitudinal course of recurrent affective illness: Life chart data from research patients at NIMH. Acta Psychiatr Scand Suppl. 1985;317:1-34.         [ Links ]

6. Denicoff KD, Leverich GS, Nolen WA, Rush AJ, McElroy SL, Keck PE. Validation of the prospective NIMH-Life-Chart Method (NIMH-LCM-p) for longitudinal assessment of bipolar illness. Psychol Med. 2000;30:1391-7.         [ Links ]

7. Rucci P, Frank E, Kostelnik B, Fagiolini A, Mallinger AG, Swartz HA. Suicide attempts in patients with bipolar I disorder during acute and maintenance phases of intensive treatment with pharmacotherapy and adjunctive psychotherapy. Am J Psychiatry. 2002;159:1160-4.         [ Links ]

8. Honig A, Hendriks CH, Akkerhuis GW, Nolen WA. Usefulness of the retrospective Life-Chart method manual in outpatients with a mood disorder: a feasibility study. Patient Educ Couns. 2001;43:43-8.         [ Links ]

9. Amaral J, Lafer B, Sachs G. Uso do afetivograma e de algoritmos no tratamento dos pacientes com transtorno bipolar. Rev Psiq Clín. 1999;26(6).         [ Links ]

10. Grassi-Oliveira R, Stein L, Pezzi J. Tradução e validação de conteúdo da versão em português do Childhood Trauma Questionnaire. Rev Saúde Pública. 2006;40:249-55.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Elisa Brietzke
Rua Ramiro Barcelos, 2.350
90035-003 - Porto Alegre-RS
Telefone: (11) 3079-9519
E-mail: elisabrietzke@hotmail.com

Instituição onde o trabalho foi elaborado: Grupo de Pesquisa em Neurociência Cognitiva do Desenvolvimento da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS)

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