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Archives of Clinical Psychiatry

versión impresa ISSN 0101-6083

Rev. psiquiatr. clín. vol.37 no.1 São Paulo ene. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832010000100003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Envolvimento religioso e fatores sociodemográficos: resultados de um levantamento nacional no Brasil

 

Alexander Moreira-AlmeidaI; Ilana PinskyII; Marcos ZaleskiII; Ronaldo LaranjeiraII

IProfessor adjunto de Psiquiatria e Semiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Juiz de Fora, MG
IIUnidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (Uniad), Departamento de Psiquiatria, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

CONTEXTO: As relações entre envolvimento religioso e saúde têm sido objeto de crescente interesse, mas há carência de estudos fora dos Estados Unidos e da Europa.
OBJETIVOS: O presente estudo descreve o envolvimento religioso na população brasileira e sua relação com variáveis sociodemográficas.
MÉTODOS: Numa amostra probabilística da população brasileira (n = 3.007), variáveis sociodemográficas e de envolvimento religioso foram avaliadas.
RESULTADOS: Cinco por cento dos brasileiros declararam não ter religião, 83% consideraram religião muito importante para sua vida e 37% frequentavam um serviço religioso pelo menos uma vez por semana. As filiações religiosas mais frequentes foram Catolicismo (68%), Protestante/Evangélica (23%) e Espiritismo Kardecista (2,5%). Dez por cento referiram frequentar mais de uma religião. De modo semelhante a estudos em outros países, maior idade e sexo feminino se associaram a maiores níveis de religiosidade subjetiva e organizacional, mesmo após o controle para outras variáveis sociodemográficas. Entretanto, nível educacional, renda e raça negra não se associaram de modo independente a indicadores de religiosidade.
CONCLUSÃO: Este estudo mostra altos níveis de religiosidade entre os brasileiros e sugere que religiosidade, em diferentes culturas, pode relacionar-se de modo diferente com outras variáveis. Para uma melhor compreensão da influência da religiosidade na saúde, é necessário expandir esse tipo de estudo para outras culturas.

Palavras-chave: Religião, raça, gênero, idade, Brasil.


 

 

Introdução

Religiosidade e espiritualidade têm sido objeto de um crescente interesse entre clínicos e pesquisadores na área de saúde. Centenas de estudos têm sido publicados investigando as relações entre envolvimento religioso e saúde física e mental. Tais estudos indicam uma associação positiva entre religiosidade e melhor saúde e qualidade de vida. A religiosidade tem sido reconhecida como uma importante fonte de apoio entre pessoas lidando com situações estressantes1,2. Assim, várias organizações de liderança na área de saúde3-6 têm incluído recomendações de avaliações da espiritualidade como parte integrante de um adequado cuidado aos pacientes. Para aprimorar os cuidados prestados e a pesquisa na área, torna-se essencial saber como o envolvimento religioso é distribuído nas populações clínicas e na população geral. Estudos populacionais têm evidenciado altos níveis de religiosidade/espiritualidade nos Estados Unidos (EUA) e níveis menores mas ainda significantes em países europeus7. Vários estudos realizados nos EUA têm encontrado uma associação positiva entre envolvimento religioso e gênero feminino, maior idade e etnia afro-americana8,9. Contudo, há uma carência de estudos neste tópico realizados nos EUA7. Não se sabe se essas associações de religiosidade com gênero, idade e raça também ocorrem em outras culturas. É desconhecida a existência de qualquer estudo nacionalmente representativo realizado sobre esse tema na América Latina, onde a religiosidade é uma característica cultural muito importante. O Brasil é o maior e mais populoso país da America Latina, contudo ainda não foi publicado um estudo com amostra nacionalmente representativa investigando o envolvimento religioso na população geral brasileira10.

O principal objetivo deste estudo é descrever o envolvimento religioso em uma amostra probabilística da população brasileira e as relações entre variáveis de envolvimento religioso e sociodemográficas como gênero, raça, idade, renda e nível educacional.

 

Método

Uma amostra probabilística representativa da população brasileira acima de 13 anos foi selecionada. A população institucionalizada e índios vivendo em aldeias não foram incluídos. Utilizou-se uma amostra probabilística estratificada em três estágios: 1) seleção de 143 cidades usando o método "probability proportional to size" (PPS); 2) seleção de dois setores censitários para cada cidade, também usando PPS e 3) dentro de cada setor censitário oito casas foram selecionadas por amostragem randomizada simples, seguida pela seleção de um residente a ser entrevistado usando a técnica do "aniversário futuro mais próximo".

Houve uma taxa de resposta de 66% e a amostra final foi composta de 3.007 indivíduos (2,346 adultos3 > 18 anos e 661 adolescentes de 14 a 17 anos) de 143 cidades. Houve uma sobrecota de adolescentes para proporcionar resultados mais confiáveis para esse grupo etário. Entretanto, os resultados apresentados neste artigo foram ajustados para não resposta, gênero, idade e região. Participantes foram submetidos a entrevistas face a face realizadas por pesquisadores treinados com questionário padronizado. As entrevistas foram realizadas na casa dos participantes, entre novembro de 2005 e abril de 200611.

Participantes foram entrevistados com base em um questionário sociodemográfico que investigou idade, gênero, raça, renda familiar, nível educacional, ocupação, estado civil, região do Brasil onde o indivíduo vive e reside em áreas rurais ou urbanas.

Três dimensões religiosas foram investigadas: filiação, religiosidade organizacional e subjetiva. Filiação religiosa foi avaliada usando duas questões. 1) Qual é sua religião? Afro-brasileira (umbanda e candomblé), Espiritismo Kardecista, Catolicismo, Protestantismo, outra e nenhuma religião. 2) Algumas pessoas já declararam que frequentam mais de uma religião, eu vou ler novamente a lista de religiões e gostaria que você me avisasse quando eu falar o nome de uma outra religião que o(a) Sr(a). também costuma frequentar de vez em quando.

Religiosidade subjetiva foi avaliada pela questão: "O quanto é importante a religião na sua vida?" ("muito importante", "um pouco importante", "indiferente", "não é realmente importante", "não é nem um pouco importante").

A frequência aos serviços religiosos foi a medida de religiosidade organizacional: "Com que frequência vai a serviços religiosos?" (> 1 vez por semana, 1 a 2 vezes por mês, algumas vezes por ano, raramente, nunca).

Participantes foram recrutados com base na assinatura do termo de consentimento informado. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

As análises estatísticas foram realizadas no Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) 13. Primeiro, apresentou-se uma análise descritiva das três dimensões do envolvimento religioso investigadas. Após, realizou-se uma regressão logística com a amostra adulta usando variáveis sociodemográficas (idade, gênero, raça, renda familiar, nível educacional, ocupação, estado civil e região do Brasil onde o indivíduo vive) como preditores da frequência religiosa e da religiosidade subjetiva em uma análise multivariada. Para a regressão logística, foram dicotomizadas as variáveis de envolvimento religioso: frequência (> 1 vez por semana e < 1 vez semana) e importância da religião ( muito importante versus não muito importante). Os resultados para a regressão logística foram apresentados como odds ratios(OR) com 95% de intervalo de confiança (IC). O nível de significância adotado foi de 95%.

 

Resultados

A tabela 1 apresenta a distribuição das variáveis de envolvimento religioso, indicando uma população altamente religiosa e que em torno de 10% frequenta serviços religiosos em mais de uma denominação religiosa.

 

 

A tabela 2 apresenta os resultados de uma regressão logística multivariada para determinar quais variáveis sociodemográficas podem independentemente predizer envolvimento religioso. Idade, gênero e região foram as únicas variáveis significativamente associadas com frequência religiosa após controlar para os outros fatores sociodemográficos. A importância dada à religião foi independentemente associada com idade, estado civil, raça, gênero e região. Maior idade e sexo feminino foram correlacionados com maiores níveis de religiosidade. As outras variáveis sociodemográficas não mostraram um padrão consistente de associação com envolvimento religioso.

 

 

Discussão

Os resultados do presente estudo evidenciam um alto nível de envolvimento religioso na população brasileira: 95% têm uma religião, 83% consideram religião muito importante e 37% frequentam serviços religiosos pelo menos uma vez por semana. Esses achados parecem ser ainda maiores que dados da população geral dos EUA: 89% têm uma religião, 57% consideram religião muito importante e 31% frequentam pelo menos uma vez por semana12. Além dos EUA, é difícil encontrar dados confiáveis sobre o envolvimento religioso obtidos de amostras nacionalmente representativas de outros países. Dados disponibilizados pelo European Values Study Group e World Values Survey Association são uma notável exceção13,14. Excluindo Malta (67,2%) e Romênia (51,3%), nos outros trinta países europeus investigados as taxas de pessoas referindo que religião era muito importante na vida delas eram usualmente muito menores que 50%, e a média global europeia foi de 20,9%. A despeito de uma grande variação entre os países investigados, a frequência à igreja foi também menor que nos resultados deste estudo. Levantamentos em vários países (Itália, Portugal, Malta, Irlanda, Irlanda do Norte, Polônia, Croácia) indicam que mais de 50% da população frequenta serviços religiosos mais que uma vez ao mês, contudo a média europeia foi de 31,6%. Com relação ao pertencimento a uma denominação religiosa, os resultados não foram tão diferentes dos dados brasileiros, variando de 98,7% (Malta) a 24,9% (Estônia), uma média de 72,2% dos europeus13.

As duas principais limitações do presente estudo se referem ao fato de esse levantamento não ter sido planejado para investigar especificamente religiosidade e por explorar apenas três dimensões de religiosidade. Contudo, as três variáveis de religiosidade estudadas são bem aceitas na literatura, sendo atualmente medidas padrão e consistentemente associadas a desfechos em saúde.

Agora serão discutidos dados relacionados a questões religiosas investigadas em 35 países pelo mundo (excluindo Brasil, América do Norte e Europa, discutidos acima), incluindo nações como China, Índia, Japão, Argentina, México, África do Sul, Singapura e Arábia Saudita13: 87,8% dos respondentes referiram pertencer a uma denominação religiosa (n = 56.136), 41,9% frequentam serviços religiosos pelo menos uma vez por semana (n = 57.483) e 79,1% consideram-se pessoas religiosas (n = 52.981). Essas taxas globais são levemente menores que os dados do presente estudo sobre o envolvimento religioso dos brasileiros. Contudo, existe uma ampla variação desses achados entre os diversos países. Menores taxas de frequência religiosa (< 10% ao menos uma vez por semana) no Azerbaijão, no Vietnã, no Japão e na China; e altas taxas (> 50%) na Tanzânia, na Uganda, na África do Sul, em Porto Rico, nas Filipinas, no Paquistão, na Nigéria, no México, na Indonésia e em Bangladesh13.

O sincretismo religioso tem sido objeto de vários estudos sociológicos, contudo, dentro do conhecimento que se tem, este estudo apresenta pela primeira vez dados quantitativos sobre o sincretismo religioso em uma amostra nacionalmente representativa da população brasileira. Pouco mais de 10% relataram frequentar mais do que uma religião. Essa cifra provavelmente subestima o sincretismo religioso no Brasil, pois muitas pessoas podem aderir a alguma tradição religiosa mesmo sem frequentá-la formalmente. Música e literatura religiosas, bem como programas de rádios e TV, são populares no Brasil e não foram avaliados nesta pesquisa. Assim, essa dupla filiação religiosa merece ser mais bem investigada em futuros estudos e deve ser levada em consideração quando analisando dados de envolvimento religioso no Brasil.

Com relação às variáveis sociodemográficas, os achados da população brasileira se alinham com os dados disponíveis de outros países (principalmente EUA), indicando que as mulheres7,8 e os idosos possuem maior envolvimento religioso7,9. Os indivíduos com mais de 60 anos declaram os maiores níveis de importância para a religião, mas este não foi o caso para a frequência religiosa. Os indivíduos de maior idade podem ter alta religiosidade, mas podem não ser capazes de frequentar assiduamente serviços religiosos em razão de limitações físicas.

Levantamentos conduzidos nos EUA geralmente relatam maiores níveis de envolvimento religioso em afro-americanos8. Contudo, esse não parece ser o caso no Brasil, onde os negros apresentaram níveis de envolvimento religioso similares aos dos brancos. Uma possível explicação para essa discrepância pode ser o maior nível de miscigenação racial no Brasil em comparação com os EUA15. Contudo, indivíduos agrupados como "outras raças" (basicamente asiáticos [1,3%] e índios [1,5%]) consideram religião menos importante na vida deles em comparação com outros grupos raciais.

Alguns autores propõem que religiosidade tende a ser maior entre indivíduos de camadas mais pobres. Entretanto, em nossa amostra, indicadores de níveis socioeconômicos como renda, nível educacional e ocupação não se associaram de modo consistente com envolvimento religioso. Halman e Draulans7 também não encontraram correlação entre religiosidade e desenvolvimento econômico e educacional em países europeus.

 

Conclusões

Esta amostra nacionalmente representativa demonstra que o Brasil, o segundo país mais populoso da América, apresenta, como os EUA, altos níveis de envolvimento religioso. Em sintonia com os estudos prévios, gênero feminino e maior idade se correlacionaram com maiores níveis de religiosidade. Contudo, diferindo dos estudos norte-americanos, os afro-descendentes não apresentaram maior religiosidade. Do mesmo modo, renda, nível educacional, ocupação e estado civil não apresentaram associações consistentes com religiosidade.

Posto que religiosidade possui várias conexões com saúde, incluindo níveis globais de saúde, mortalidade e uso de serviços de saúde1, é muito importante compreender a distribuição da religiosidade na população como um todo e em relação com variáveis sociodemográficas. Nossos achados mostram que a religiosidade se mantém importante para a maioria dos seres humanos, inclusive os brasileiros. Essa importância é ainda maior entre mulheres e idosos, dois grupos com necessidades específicas de cuidados em saúde e para quem a religiosidade é frequentemente um importante modo de lidar com situações estressantes como o adoecimento. Faz-se mister expandir para outras culturas os estudos sobre a religiosidade da população e suas relações com saúde, tendo em vista reconhecer e abordar adequadamente as necessidades particulares de populações específicas.

 

Agradecimentos

Este trabalho recebeu apoio da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) (financiamento 017/2003).

Os autores declaram não possuir conflitos de interesse em relação a este estudo.

 

Referências

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Endereço para correspondência:
Alexander Moreira-Almeida
Rua da Laguna, 485/104
36015-230 - Juiz de Fora, MG
Fax: (32) 3216-7122
E-mail: alex.ma@ufjf.edu.br

Recebido: 6/11/2008
Aceito: 18/3/2009