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Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo)

Print version ISSN 0101-6083

Rev. psiquiatr. clín. vol.38 no.4 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832011000400004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Validação de escalas para avaliação do amor patológico

 

Validation of scales for pathological love assessment

 

 

Marina Perito BertiI; Monica Levit ZilbermanI; Eglacy Cristina SophiaI; Clarice GorensteinI; Ana Paula PereiraI; Andréa LorenaI; Cidália MelloII; Táki Athanássios CordásI; Hermano TavaresI

IInstituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/HCFMUSP)
IIDepartamento Municipal de Saúde de Miracatu/SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

CONTEXTO: Diversas metodologias foram desenvolvidas para validar instrumentos psicométricos. No entanto, na literatura científica, há escassez de instrumentos para avaliar os relacionamentos amorosos.
OBJETIVO:
O presente trabalho tem como objetivo validar para o português o conteúdo dos instrumentos autoaplicáveis Love Attitudes Scale (Escala de Atitudes do Amor – Hendrick et al., 1998), Relationship Assessment Scale (Escala de Avaliação do Relacionamento – Hendrick, 1988) e Adult Attachment Types (Tipos de Apego do Adulto – Hazan et al., 1987), levando em consideração o contexto cultural brasileiro e, consequentemente, possibilitando que o estudo do amor patológico seja viável na população brasileira.
MÉTODOS:
Tal processo envolveu quatro etapas: (1) tradução para o português, (2) retrotradução, (3) apresentação da versão corrigida para profissionais de saúde mental e estudantes universitários e (4) aplicação da versão final em amostra da população-alvo utilizando uma escala analógico-visual.
RESULTADOS:
As escalas foram facilmente compreendidas e discriminaram significativamente indivíduos com amor patológico de voluntários saudáveis.
CONCLUSÃO:
Nossos resultados mostram que a versão brasileira desses instrumentos é válida e pode ser usada em investigações envolvendo relacionamentos amorosos.

Palavras-chave: Amor, escalas, comportamento compulsivo, validação, tradução.


ABSTRACT

BACKGROUND: Several methodologies were developed to validate psychometric instruments. However, there are, in the scientific literature, a lack of instruments to evaluate romantic relationship.
OBJECTIVE: The present work aims at validating into Portuguese the content of the self-report Love Attitudes Scale (Escala de Atitudes do Amor – Hendrick et al., 1998), the Relationship Assessment Scale (Escala de Avaliação do Relacionamento – Hendrick, 1988), and the Adult Attachment Types (Tipos de Apego do Adulto – Hazan et al., 1987), taking the Brazilian cultural context into consideration, thus rendering the study of pathological love in the Brazilian population feasible.
METHODS: Such process involved four stages: (1) translation into Portuguese, (2) back translation, (3) presentation of the translated version to mental health professionals and university students, and (4) application of the final version in a sample of the target population using a rating scale.
RESULTS:
The scales were easily understood and significantly discriminated individuals with pathological love and healthy volunteers.
DISCUSSION:
Our results show that the Brazilian version of these instruments is valid and may be used in investigations involving romantic relationships.

Keywords: Love, scales, compulsive behavior, validation, translating.


 

 

Introdução

O amor patológico é caracterizado pelo comportamento de prestar atenção e cuidados ao parceiro de maneira repetitiva e desprovida de controle em uma relação amorosa, sendo essa conduta prioritária para o indivíduo em detrimento de outros interesses antes valorizados1-3.

O amor patológico pode ocorrer associado a outros transtornos psiquiátricos, a sintomas depressivos e ansiosos primários1,4-6 ou isoladamente, em personalidade vulnerável7,8, com baixa autoestima7,9,10 e sentimentos de rejeição, abandono e raiva6,7,11. Fatores familiares também podem estar associados ao seu desenvolvimento, como pais usuários de álcool ou drogas e histórico de negligência física e/ou emocional durante a infância4.

O diagnóstico de transtornos psiquiátricos é feito com base em sintomas e síndromes clínicas, visto que não existem, até o momento, marcadores biológicos ou outras representações mensuráveis objetivas para esse fim. Nos anos 1960 e 1970, foram desenvolvidos estudos que evidenciaram grandes variações que ocorrem nos diagnósticos clínicos quando diferentes psiquiatras avaliam um mesmo grupo de indivíduos, em virtude das diferenças de critérios diagnósticos que cada profissional adota e à maneira como cada um deles obtém informações dos indivíduos que estão sendo avaliados. A partir de então, foi desenvolvida uma série de entrevistas psiquiátricas padronizadas, ou instrumentos, visando aumentar a concordância entre investigadores, além de possibilitar comparações de resultados.Atualmente, a utilização desses instrumentos tornou-se obrigatória em qualquer pesquisa na área de psiquiatria12.

O presente trabalho tem como objetivo validar para o português três dos instrumentos utilizados em pesquisas relacionadas ao amor patológico: 1) Love Attitudes Scale13 (Escala de Atitudes do Amor): 24 itens, divididos em seis estilos de amor, resultando em escores que indicam o estilo predominante do indivíduo, como proposto por Lee14: Eros (itens 1 a 4: atração física; comprometimento mútuo; seguro; não inclui possessividade), Ludus (itens 5 a 8: sedução; liberdade sexual; encara o amor como um jogo), Estorge (itens 9 a 12: afinidade; surge, geralmente, a partir de uma longa amizade), Pragma (itens 13 a 16: avaliação dos pretendentes antes de se envolver; encara o amor como uma questão prática), Mania (itens 17 a 20: obsessão; ciúme; indivíduo se sente forçado a atrair continuamente a atenção do parceiro) e Ágape (itens 21 a 24: proteção e cuidado; apoio incondicional; altruísmo); 2) Relationship Assessment Scale15 (Escala de Avaliação do Relacionamento): sete itens, resultando em um escore que varia de 7 a 35 e avalia a satisfação no relacionamento; apresenta boa consistência interna (alfa = 0,86) e validade preditiva, distinguindo significativamente os casais que permanecem unidos daqueles que rompem; 3) Adult Attachment Types16 (Tipos de Apego do Adulto): três afirmativas que representam tipos de apego do indivíduo em relação ao parceiro, baseando-se no apego materno vivenciado na infância. A teoria do apego foi proposta por Bolwby17 e, posteriormente, classificada por Ainsworth et al.18 em: apego seguro (mãe disponível às necessidades da criança: indivíduo apto a vivenciar um amor saudável), apego ansioso com evitação (rejeição damãe quando o indivíduo a procurava para obter proteção: indivíduo tenta viver de maneira autossuficiente) e apego ansioso/resistente ou ambivalente (mãe esteve disponível em algumas situações e não em outras: indivíduo sofre de ansiedade de separação na vida adulta).

Todos esses estudos foram desenvolvidos em outros países eculturas. Tendo em vista que instrumentos estrangeiros recebem forteinfluência do contexto cultural em que foram desenvolvidos, nem sempre a colocação de um conceito pode ser reproduzida de uma cultura para outra19. É necessário, portanto, que os instrumentos de avaliação citados sejam validados para o português e para a realidadebrasileira, a fim de que sejam sensíveis ao nosso contexto cultural.

 

Métodos

1) Tradução dos instrumentos originais para o português, realizada por um tradutor/psicólogo. 2) Retrotradução feita por outro tradutorprofissional. 3) Apresentação das versões corrigidas a cinco profissionais de saúde mental e cinco universitários para que sugerissem modificações quando a linguagem não lhes parecesse adequada. 4) Aplicação das versões finais (juntamente com uma escala verbalnumérica de cinco pontos, utilizada para avaliar a compreensãodos instrumentos) a 39 indivíduos: 19 recrutados entre pacientes com diagnóstico de amor patológico do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Amiti) e 20 entre voluntários saudáveis, sem patologia psiquiátrica, conforme avaliação pelo SCID20. 5)Análise estatística (nível de significância: p = 0,05) incluindo: testes de normalidade para cada item das escalas (Skewness); comparação demográfica entre as amostras (t de Student: variáveis contínuas/distribuição normal; qui-quadrado: variáveis categoriais; Mann-Whitney: variáveis ordinais/contínuas não paramétricas); análise de covariância (ANCOVA) para comparação das escalas entre os grupos, considerando dados demográficos significativamente diferentes como covariáveis; correlação de Spearman (variáveis não paramétrica) e Pearson (variáveis normais) para verificar associaçãoentre variáveis (escolaridade, pontuação, compreensão); consistênciainterna (alfa de Cronbach); regressão logística incluindo estilos de amor (Escala de Atitudes do Amor) significantes a 10% e dadosdemográficos significativamente diferentes.

 

Resultados

A análise estatística mostrou que os grupos são homogêneos, exceto pela escolaridade (Tabela 1). Indivíduos com amor patológico têm escolaridade significativamente maior do que os voluntários saudáveis.

 

 

Escala de Atitudes do Amor

Houve diferenças significativas de estilos de amor entre os grupos, exceto por Ludus e Pragma (Tabela 1). O grupo saudável foi caracterizado por Eros (70%), enquanto o grupo com amor patológico, por Mania (74%).

ANCOVA revelou que Eros foi influenciado pela escolaridade (R = 0,495; p = 0,001).

A regressão logística foi utilizada para verificar os estilos que distinguiram os grupos ao nível de significância de 10%, incluindo, portanto, Eros, Estorge, Mania e Ludus, controlados para aescolaridade (Ágape não foi incluído por causa de sua significante correlação com Mania: R = 0,544; p < 0,001). O modelo final foi significativo (R2 = 0,871; χ2 = 41,27; p < 0,001) e incluiu Mania (e, portanto, Ágape) e Eros.

As médias de compreensão ficaram entre 3,8 e 5,0. Houve diferenças entre os grupos no entendimento dos itens 1, 2, 4, 5 e 8, porémos voluntários saudáveis apresentaram melhor entendimento. Foramfeitos, então, testes de correlação de Spearman para analisar a correlação entre pontuação e compreensão dos itens 1, 2, 4, 5 e 8 (separadamente para cada grupo e para o total da amostra), verificando-se que não houve interferência da compreensão desses itens na pontuação.

A consistência interna da escala foi avaliada para cada subescala que representa os diferentes estilos de amor (itens 1-4: Eros; itens 5-8: Ludus; itens 9-12: Estorge; itens 13-16: Pragma; itens 17-20:Mania; itens 21-24: Ágape). Eros obteve consistência razoável (alfa = 0,741), porém a questão 4 ("Meu parceiro se encaixa nos meus padrões ideais de beleza física.") não contribuiu para o conceito.Ludus apresentou a mais baixa consistência (alfa = 0,448). Pragma obteve coeficiente alfa razoável (alfa = 0,648), bem como todos os seusitens. Estorge, Ágape e Mania foram as subescalas que apresentaram maior consistência (alfa de 0,898, 0,881 e 0,867, respectivamente). Dessas, apenas a questão 11 ("Nosso amor é de fato uma profunda amizade, não uma emoção misteriosa e mística."), de Estorge, não apresentou desempenho adequado.

 

Escala de Avaliação do Relacionamento

O nível de satisfação no relacionamento foi mais alto no grupo saudável: 85% dos indivíduos obtiveram escores acima de 20, comparado a somente 16% do grupo com amor patológico.

Todos os itens da escala distinguiram significativamente indivíduos saudáveis daqueles com amor patológico, exceto pelo item 6 (Tabela 1). Não houve diferença significativa entre os grupos quanto à compreensão dos itens (médias de compreensão entre 4,5 e 4,9). Para ambos os grupos, houve correlação negativa entre escolaridade e os itens 2 (R = -0,39; p < 0,05), 3 (R = -0,47; p < 0,01), 5 (R = -0,44; p < 0,01), 7 (R = -0,34; p < 0,05) e o escore total (R = -0,345; p < 0,05). A correlação de Spearman mostrou que o item 6 não se correlaciona com os demais e os itens 4 e 5 não se correlacionam entre si. A consistência interna da escala foi de 0,85 e os itens 1, 2, 3 e 5 foram os mais consistentes.

 

Tipos de Apego do Adulto

Houve diferenças significativas quanto ao tipo de apego entre os grupos(χ2 = 9,25; p = 0,01) (Tabela 1). Oitenta por cento dos indivíduos saudáveis apresentaram o tipo de apego seguro, enquanto 45% dos normais apresentaram o tipo de apego ansioso/resistente e 40%, o tipo seguro.Não houve diferença significativa quanto à compreensão dos itens entreos grupos (médias de compreensão entre 4,2 e 4,7), apesar da associaçãosignificativa entre escolaridade e tipo de apego (F = 6,98; p < 0,01).

 

Discussão

O instrumento Escalas de Atitude do Amor mostrou discriminar corretamente indivíduos saudáveis daqueles com amor patológico. Como era esperado, o grupo com amor patológico é predominantemente caracterizado por Mania (e Ágape, dada a significativa correlação observada entre esses estilos), enquanto o grupo saudávelapresenta, em sua maioria, o estilo de amor Eros. No entanto, em se tratando de um instrumento de autopreenchimento, procurou-se investigar se esses conceitos sofriam influência da escolaridade sobre o endosso, descobrindo-se que apenas Eros apresentou tal correlação. Por outro lado, verificou-se, ao fazer o teste de regressão logística, que os estilos predominantes nos grupos (Mania e Eros) se mantiveram significativos quando controlados para a escolaridade.

No que diz respeito à compreensão dessa escala, ambos os gruposapresentaram bom entendimento, mas cabe observar que os indivíduos com amor patológico, embora com maior grau de instrução emrelação aos saudáveis, tiveram maior dificuldade com as questões 1, 2,4, 5 e 8. Por outro lado, não houve interferência da compreensão napontuação dessas questões. Propõe-se que tal dificuldade de compreensão possa ser inerente ao quadro clínico, não estando relacionada à escolaridade. Segundo essa hipótese, os indivíduos com amor patológico não se identificariam com determinados conceitos que pareceriam corriqueiros para indivíduos saudáveis, por exemplo, o exprimido na questão 5 (a questão com maior problema de compreensão) que diz: "Eu acredito que o que o meu parceiro não sabe sobre mim não vai machucá-lo.". Indivíduos que sofrem de amor patológico podem não entender esse conceito, porque acreditam que deva haver uma espécie de "fusão" entre os parceiros, na qual não é permitido haver segredos. Quanto à consistência interna da escala, Estorge, Mania eÁgape mostraram-se os conceitos mais sólidos, fato que se sobrepõe à constatação anterior de que são justamente esses estilos, exceto por Estorge, que, de fato, diferenciaram os indivíduos com amor patológico dos saudáveis. Eros demonstrou consistência razoável, com exceção do item 4 ("Meu parceiro se encaixa nos meus padrões ideais de beleza física."). Visto que esse estilo de amor tende a relacionar-se diretamente à atração física entre os parceiros, esse item poderia ser reformulado com algo menos restritivo do que "padrões ideais". Ludus obteve baixa consistência em dois de seus itens, 5 ("Eu acredito que aquilo que o meu parceiro não sabe sobre mim não vai machucá-lo.") e 8 ("Eu gosto do 'jogo da sedução' tanto com meu parceiro quanto com outros."). A baixa consistência da questão 8 possivelmente se deve à expressão "jogo da sedução", que já havia gerado dúvidas anteriormente na etapa da revisão das escalas feita pelos profissionais da saúde. Pragma obteve alfa razoável e todos os itens contribuíram de forma significativa. Nesse caso, o conceito poderia ser melhorado aumentando o número de itens relacionados a esse estilo.

No que diz respeito à Escala de Avaliação do Relacionamento,como esperado, confirmou-se que os voluntários saudáveis mostraram-se mais satisfeitos em seus relacionamentos do que os indivíduoscom amor patológico. Os itens da escala demonstraram discriminarcorretamente os grupos, com exceção do item 6, provavelmente pelofato de esse item exprimir um conceito não necessariamente relacionado às demais questões, pois refere-se à intensidade do amor peloparceiro ("Quanto você ama o seu parceiro?"). Indivíduos com amorpatológico estão frequentemente insatisfeitos na relação e, ainda assim,referem amar com grande intensidade. Esse item deveria ser pontuadoseparadamente das demais questões, de maneira a não interferir noescore total da escala. Quanto à compreensão dos itens que compõema escala, tanto indivíduos com amor patológico quanto voluntáriossaudáveis obtiveram entendimento muito bom. A correlação negativaentre os itens 2, 3, 5 e 7 e o escore e a escolaridade mostrou que, nesses itens, o grupo com amor patológico (maior escolaridade) pontuamenos (menor satisfação) do que o grupo de voluntários saudáveis,influenciando diretamente no escore total. Além disso, os itens 1, 2, 3, 5 e 7 são os mais consistentes da escala, enquanto os itens 4 e 6 nãocontribuem para a sua solidez. A baixa consistência do item 6 podeser explicada pelo fato, já mencionado, de esse item não expressar umconceito que caracterize necessariamente satisfação no relacionamento,principalmente no caso dos indivíduos com amor patológico. Já a baixaconsistência do item 4 ("Com que frequência você desejaria não ter começado esse relacionamento?") também pode ser explicada por motivosemelhante, já que os indivíduos com amor patológico, em sua grandemaioria, não se arrependem de ter iniciado um relacionamento com oparceiro, mesmo considerando que ele os faz sofrer. Ao montar-se ummodelo adaptado da Escala de Avaliação do Relacionamento, somentecom as questões de maior consistência (1, 2, 3, 5 e 7), obteve-se maiorsignificância no que diz respeito às diferenças entre indivíduos comamor patológico e saudáveis, demonstrando que esses itens são os quediferenciam de maneira mais eficiente o conceito de amor patológico.

Quanto ao instrumento Tipos de Apego do Adulto, observou-seque os indivíduos com amor patológico são, mais frequentemente,caracterizados pelo tipo de apego ansioso/ambivalente. No entanto,uma proporção razoável de indivíduos com amor patológico apresentou o tipo de apego seguro. A hipótese é de que isso tenha ocorridopelo fato de a escala ser formada por apenas um item para representarcada um dos tipos de apego. Para melhorar a estrutura psicométrica daescala, o ideal seria aumentar o número de itens para cada categoria deapego, de maneira a formar escores para cada uma delas, visando discriminar o maior número possível de pessoas. A associação verificadaentre escolaridade e tipo de apego se explica pelo fato de que o gruposaudável, que possui menor escolaridade, foi predominantementecaracterizado pelo tipo de apego seguro (80%), o que não indica,a princípio, uma relação direta entre escolaridade e tipo de apego. Apesar disso, a escala mostrou-se de fácil entendimento, não havendodiferenças de compreensão entre indivíduos saudáveis e aqueles comamor patológico, ou entre indivíduos com diferentes tipos de apego.

Para o presente estudo, no que diz respeito às característicaspsicométricas das escalas, não foi possível a comparação dos instrumentos traduzidos e adaptados com os instrumentos originais, visto que nem mesmo em seu país de origem esses instrumentos foram submetidos a estudos anteriores de validade e confiabilidade.

Apesar do número limitado de indivíduos da amostra, as versõestraduzidas e adaptadas neste trabalho apresentaram validade de critérioe validade de construção satisfatórias, visto que discriminam significativamente indivíduos com amor patológico de indivíduos saudáveis,assim como são capazes de mensurar corretamente a satisfação no relacionamento, o tipo de apego e o estilo de amor do indivíduo. Além disso, apresentaram boa aplicação e entendimento nas amostras avaliadas.

Tais achados justificam a utilização desses instrumentos validados para o português em pesquisas de investigação do amor patológico, ou outras que necessitem averiguar características pessoais relacionadas ao amor e aos relacionamentos.

Estudos posteriores mais aprofundados deverão determinar as características psicométricas desses instrumentos para a populaçãobrasileira quanto à confiabilidade teste/reteste e a confiabilidade entre avaliadores. Novos testes com amostras mais homogêneas quanto à escolaridade também poderão apresentar resultados mais consistentes.

 

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Endereço para correspondência:
Marina Perito Berti
Rua Gaspar Fernandes, 68, Ipiranga
01549-000 – São Paulo, SP
E-mail: mapberti@gmail.com

Recebido: 10/7/2010
Aceito: 21/10/2010

 

 

Instituição onde o trabalho foi realizado: Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP – Laboratório de Psicofarmacologia (LIM23).

 

 

 

 

 

 

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