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Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo)

versão impressa ISSN 0101-6083

Rev. psiquiatr. clín. vol.38 no.4 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832011000400010 

COMENTÁRIO DO LIVRO

 

Humilhação e vergonha, um diálogo entre enfoques sistêmicos e psicanalíticos

 

 

Valeria Bigliani Ferreira

Médica e psiquiatra pela Universidade de São Paulo. Ph.D. pelo King's College (Universidade de Londres), especializada em Psicanálise pela Tavistock Clinic. Atualmente trabalha como psiquiatra e terapeuta no Centro Berggasse 19

Endereço para correspondência

 

 

Autores: Carlos Guillermo Bigliani; Rodolfo Moguillansky; Carlos E. Sluzki

 

 

Vergonha e humilhação são emoções sociais centrais das que derivam sofrimentos pessoais e incontáveis conflitos interpessoais e sociais. Aparecem como pano de fundo de histórias bíblicas tais como o assassinato de Abel por Caim e se evidenciam na emergência de movimentos sociais como o nazismo como reação ao tratado de Versailles. Sendo um tema fascinante, surpreende que essas emoções tenham sido abordadas timidamente por diversas disciplinas.

Este livro surge de um intercâmbio "amistoso" entre ideias psicanalíticas e sistêmicas que, sustentadas pelos autores, se expressam em capítulos da autoria de cada um dos participantes que são seguidos da discussão dos outros dois.

Essa obra é produto de um seminário sobre o tema que foi realizado em São Paulo pelos autores. Eles têm uma história comum de formação como psiquiatras e psicoterapeutas na Argentina, onde Rodolfo Moguillansky permaneceu, tendo migrado Carlos Guillermo Bigliani para o Brasil e Carlos E. Sluzki para os Estados Unidos. Os dois primeiros desenvolveram seu trabalho teórico, clínico e docente prevalentemente no território da psicanálise, enquanto Sluzki contribuiu para os avanços da teoria e da prática da terapia sistêmica.

Bigliani apresenta no primeiro capítulo algumas reflexões sobre pontos de encontro e desencontro das distintas teorias que alimentam o trabalho dos autores. São apresentadas hipóteses sobre um período de fechamento da psicanálise ao território do intrapsíquico e sobre como isso pode ter facilitado que, como reação a essa hipervalorização do intrapsíquico, no início dos anos 1950 tenha se fortalecido uma concepção pragmática e criativa que enfatizou a análise das interações e dos sistemas dos quais faziam parte os sujeitos como principais determinantes da psicopatologia, deixando entre parênteses as determinações intrapsíquicas. Esse movimento fez com que muitos terapeutas deixassem de lado o "interior da mente", dedicando-se ao estudo dos sistemas de relações nos quais os pacientes se encontravam imersos e dos mecanismos mediante os quais o próprio sistema estaria doente e os faria adoecer e as formas de comunicação paradoxal como formas eficientes para adoecer. Boa parte do desenvolvimento da terapia familiar sistêmica é tributária desse movimento.

Diversos autores psicanalíticos destacaram também a importância da cultura, da sociedade, da família e do "outro" na constituição do sujeito e na produção de sua patologia, afastando-se das determinações estritamente intrapsíquicas. Além de Freud, com suas profundas reflexões sobre as massas, a cultura e a história, muitos outros teóricos da psicanálise passaram a reavaliar, dentro do conjunto de determinantes da patologia mental (séries complementares), as variáveis da família e da sociedade. Nesses espaços foram descritas, por exemplo, as resistências por repetições complementares, que se somariam, em sua sobredeterminação, às resistências intrapsíquicas descritas classicamente pela psicanálise, as estruturas vinculares de repetição melancolizadoras ou segregadoras e se enfatizou a questão da transmissão do psiquismo entre gerações.

O problema da humilhação transgeneracionalmente reforçada e como esse fato pode facilitar condutas suicidas é exemplificado com um case que envolve o fundador da psicanálise em suas reflexões suicidas com sua filha Ana durante a invasão de Viena pelas tropas alemãs. Discute-se também como as reiteradas experiências de humilhação às quais um adolescente pode ser submetido têm o potencial de facilitar sua transformação em um sujeito capaz de perpetrar crimes coletivos (vingador) ou em um suicida, e como as experiências de humilhação de um povo podem facilitar a produção de "homens (e mulheres) bomba". O problema do bullying escolar e empresarial e do o cyberbullying é visitado por meio de exemplos que consideram como os grupos refletem e potenciam a intolerância ao diferente, que também pode ser alimentada pelos Estados. O autor sugere que o desafio para poder produzir intervenções terapeuticamente eficientes é fazer uma análise na interseção dos processos intrapsíquicos e familiares com os processos coletivos e sociais. Bigliani revisa a problemática da vergonha mostrando com exemplos clínicos como essa emoção pode anunciar uma tentativa de diferenciação da submissão às pessoas ou aos valores de outros significativos. Ele mostra também como essa diferenciação pode gerar angústia, que leva à evitação da diferença procurada, estimulando um novo movimento regressivo da simbolização em direção ao narcisismo e à anulação dessa desejada diferença. Casos clínicos e discussões teóricas exemplificam alguns destinos para a vergonha, entre eles a fuga e a reclusão, a falta de vergonha, a vergonha permanente e a invasão do eu pela vergonha automática com descontrole corporal.

Sluzki nos lembra, em seu capítulo, que viver em sociedade requer a construção de uma identidade caracterizada, entre outras coisas, por uma seleção de comportamentos que evita a eclosão, no sujeito e nos outros, de emoções sociais desagradáveis e maximiza a eclosão de emoções sociais agradáveis. O autor nos convida a refletir sobre a noção de construção social do self (Mead, 1982) e sobre seu corolário, a teoria dos rótulos. Esta trata do impacto das profecias descritivas negativas realizadas pelos outros na construção da identidade dos sujeitos. Sluzki desenvolve essa última dimensão, a terapêutica, aplicada às emoções de humilhação e vergonha, e propõe uma forma criativa de intervenção terapêutica parcialmente estruturada para modular o sofrimento do eu ocasionado por elas. Em seu caminho, percorre temas éticos, políticos e religiosos envolvidos nessas dinâmicas, que marcam as relações dos sujeitos, das famílias e das nações. Ao tratar da construção de uma realidade compartilhada e da luta por posições privilegiadas, Sluzki destaca que a disputa pelo papel de vítima possui um papel fundamental nas narrativas interpessoais, institucionais e internacionais. Existem muitas situações clínicas em que essa disputa adquire dimensões específicas que merecem ser levadas em conta no processo de programar as intervenções terapêuticas. As narrativas traumáticas que ancoram os sujeitos (ou grupos, instituições e até mesmo nações) em práticas centradas na vergonha (e seu correlato, a retração social e a inação) ou na humilhação (e seu correlato, a vingança impune), uma vez reveladas, abrem as portas a alternativas terapêuticas enriquecedoras. Vale destacar que a ideia de transformar uma história que evoca vergonha em uma que permite recuperar a autoestima SEM passar por histórias intermediárias de humilhação (e seu correlato, as fantasias de vingança que a legitimam) costuma não ser viável por sua trivialidade – como se o terapeuta exortasse: "Não se sinta tão assim como se sente!" –, visto que não desafia o estilo estereotipado, ou seja, não modifica a relação entre o self e o outro nem favorece um equilíbrio ético entre responsabilidade própria e alheia. O mesmo se pode dizer de tentativas de mobilizar uma história da qual deriva a experiência de humilhação SEM incluir componentes de vergonha, na qual a passagem a histórias de reivindicação é trivial – como se o terapeuta recomendasse: "Não o mate, processe-o!" –, a menos que se resgate a humanidade da experiência de vergonha (tanto diante dos outros quanto do self).

Assim, ao tratar da direção do processo de mudança no contexto terapêutico, o autor propõe uma estrutura de passagem via intervenção psicoterápica de situações de vergonha a estados emocionais de humilhação (e vice-versa). Propõe resgatar o eu submisso a sentimentos negativos e autoacusações, redirecionando-os, e oferece com esse fim uma vasta exemplificação clínica. A transformação terapêutica de histórias de vergonha e humilhação em histórias que incluem responsabilidade, autoria e mudança é frequentemente longa e trabalhosa, dada a coesão sistêmica de toda narrativa, ainda mais as ligadas a experiências extremas ou a sintomas persistentes, assim como a vantagem social ou a pressão social que algumas podem gerar. As orientações terapêuticas propostas constituem uma possível diretriz para facilitar não só a desestabilização das histórias de vergonha ou humilhação, como também sua transformação em direção à solução de muitos conflitos presos nessa dinâmica.

Moguillansky sintetiza praticamente as bases teóricas da psicanálise, em especial os conceitos que posteriormente são usados para caracterizar humilhação e vergonha. Para ele, vergonha e humilhação são emoções fundamentais nas relações consigo mesmo e com os outros, operando sobre a autoestima (que se mede pela distância que sente o ego a respeito do ideal) e sobre a percepção da estima dos outros. Diante das perfeições que propõem os sistemas de ideais internalizados, o ego sente uma insuficiência, que experimenta como minusvalia ou desproteção (minusvalia estética: lindo/feio ou minusvalia ética: bom/ruim). O ego estaria, assim, condenado a não alcançar seu próprio ideal ou a nunca coincidir com ele. A vergonha é uma tomada de consciência de uma inadequação do ego perante o ideal.

A vergonha afetaria ao eu em virtude do juízo de atribuição (possuir ou carecer de algum atributo), enquanto na humilhação o eu se veria afetado em seu juízo de existência (ser ou não ser de

alguma maneira). No caso da humilhação, existiria uma distância dolorosa com o ideal como na vergonha, mas aqui o eu seria também afetado por uma ofensa causada por um efeito de poder do outro (ou outros), que provocaria uma coisificação do eu. A humilhação, ao produzir essa ferida narcísica do eu, pode levar o sujeito a uma identificação heroica (Lagache), de onde emergem desejos de destruir o outro ou a si mesmo (suicídio), podendo o perdão, nessas circunstâncias, autorizar o eu a um distanciamento e "cicatrização" da vivência de humilhação. Dois exemplos de psicanálise aplicada a um filme e a uma produção literária finalizam seu capítulo.

 

 

Endereço para correspondência:
Valeria Bigliani Ferreira
Rua Atlântica, 836
01440-000
São Paulo, SP, Brasil.
E-mail: biglicon@terra.com.br

Recebido: 10/6/2011
Aceito: 30/6/2011

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