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Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo)

Print version ISSN 0101-6083

Rev. psiquiatr. clín. vol.38 no.5 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832011000500002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Adaptação transcultural da Massachusetts General Hospital (MGH) Hairpulling Scale para o idioma português (Brasil)

 

Brazilian Portuguese cross-cultural adaptation of the Massachusetts General Hospital (MGH) Hairpulling Scale

 

 

Edson Luiz ToledoI; Rogéria TaraganoI; Táki Athanássios CordásII; Cristiano Nabuco de AbreuIII; Norman HearstIV; Maria Aparecida ContiV

IPrograma Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Proamiti-IPq-HC-FMUSP)
IIFMUSP, Departamento de Psiquiatria da USP, IPq-HC-FMUSP, Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim)
IIIHC-FMUSP, Proamiti-HC-FMUSP, Ambulim-HC-FMUSP
IVDepartamento de Medicina Comunitária e Familiar e Departamento de Epidemiologia e Bioestatística da Universidade da Califórnia
VFaculdade de Saúde Pública da USP, Ambulim-HC-IPq-FMUSP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

CONTEXTO: A tricotilomania (TTM) caracteriza-se pelo ato de arrancar, de forma recorrente, os próprios cabelos por prazer, gratificação ou alívio de tensão, acarretando perda capilar perceptível. A Massachusetts General Hospital (MGH) Hairpulling Scale é um instrumento utilizado recentemente em muitos estudos para avaliar sintomas de TTM.
OBJETIVO: O presente trabalho teve como objetivo adaptar essa escala para o idioma português.
MÉTODOS: Envolveu cinco etapas: (1) tradução; (2) retradução; (3) revisão técnica e avaliação das equivalências semântica e conceitual por especialistas em saúde mental; (4) avaliação do instrumento por estudantes, por meio da avaliação do grau de compreensão e (5) análise da consistência interna do instrumento pelo coeficiente alfa de Cronbach.
RESULTADOS: O instrumento foi traduzido e adaptado para o idioma português. Demonstrou ser de fácil compreensão e o valor da consistência interna correspondeu a 0,96.
CONCLUSÃO: O instrumento encontra-se traduzido e adaptado para o idioma português. São necessárias análises de equivalência de mensuração e reprodutibilidade.

Palavras-chave: Tricotilomania, adaptação transcultural, escalas, psicometria, estudos de validação.


ABSTRACT

BACKGROUND: Trichotillomania (TTM) is characterized by the act of pulling out, in a recurrent way, your own hair for pleasure, gratification or tension release, leading to a perceptible hair loss, and it is included in the Impulse Control Disorders Unclassified Elsewhere of the DSM-IV-TR (APA, 1994) section. The Massachusetts General Hospital (MGH) Hairpulling Scale is an instrument used recently in many studies to assess trichotillomania symptoms.
OBJECTIVE: The present paper aims to adapt this scale into the Portuguese language. To cross-culturally adapt the Massachusetts General Hospital (MGH) Hairpulling Scale to Portuguese and evaluate its internal consistency. This instrument aims to evaluate Trichotillomania.
METHODS: The work consisted of five steps: (1) translation; (2) back-translation; (3) peer review and evaluation of semantic and conceptual equivalences using experts; (4) instrument evaluation through a sample of students, by evaluating their level of understanding; and (5) analysis of the instrument’s internal consistency through Cronbach’s a-coefficient.
RESULTS: The instrument was translated and adapted to Portuguese, and shown to be easily understood, with an internal consistency value of 0.96.
DISCUSSION: The instrument is now translated and adapted to Portuguese. Measurement and reproducibility analyses are needed.

Keywords: Trichotillomania, cross-cultural adaptation, scales, psychometric, validity studies.


 

 

Introdução

No transtorno do impulso, o que se observa é a falência da resistência a um desejo e a realização de um ato, independentemente da capacidade de proporcionar ou não prazer1. A tricotilomania (TTM) é caracterizada por episódios periódicos de arrancar cabelos e que resulta em perda progressiva e notável deles. O indivíduo diagnosticado com TTM experimenta senso crescente de tensão antes do comportamento, alívio e satisfação ao finalizá-lo e, em alguns casos, pode experimentar culpa por tê-lo feito. Não sendo explicado por outro transtorno mental ou condição médica, frequentemente traz prejuízo no funcionamento social e ocupacional2. Estudos clínicos iniciais sugerem que a TTM é extremamente rara, entretanto avaliações recentes em populações não clínicas registraram taxa de prevalência em torno de 3%3, sendo prevalente no sexo feminino4.

Os estudos5-7 que exploram o impacto e os prejuízos psicossociais causados pela TTM confirmam a importância em promover e melhorar recursos no cuidado ao paciente, o que se desdobra em ações de promoção e aumento do repertório clínico, quer no diagnóstico ou na futura intervenção terapêutica. Transtornos de humor e ansiosos são frequentemente relatados, bem como o impacto diário no funcionamento geral, como afetos negativos, restrição das atividades recreativas e interação social, diminuição da produtividade no lar, trabalho e escola.

Um aspecto importante e pouco discutido da TTM é o seu impacto social e até mesmo econômico. Apenas para ilustrar, pesquisa com pacientes tricotilomaníacos tem demonstrado alta porcentagem de expressão de sintomas depressivos, bem como sentimentos de vergonha, irritabilidade e baixa autoestima.

Além disso, também há o registro da evitação social, com 60% deles recusando a procura por centros de estética ou lazer e 35% dos pacientes evitando intimidade sexual6. Seedat e Stein7 relataram que pacientes com TTM apresentavam prejuízos acadêmicos e profissionais, seja por baixa aspiração ou perda de dias na escola ou trabalho, e muitos pacientes evitavam procurar ajuda pelo fato de sentirem-se envergonhados ou amedrontados e, quando o faziam, era somente após nove anos de TTM.

Nossa experiência clínica tem demonstrado que o paciente com TTM frequentemente evita atividades sociais, como entretenimento, férias, cortar o cabelo, revelando baixa habilidade para a manutenção de relacionamentos íntimos. Não menos importante é o impacto econômico que a TTM pode acarretar no médio e longo prazo, seja limitando o avanço em sua carreira profissional, seja pelo investimento financeiro desmedido para esconder as falhas no cabelo ou uso de medicamentos.

A avaliação da TTM realizada por meio de uma escala de avaliação específica é de fundamental importância para um diagnóstico preciso. Atualmente, não há nenhuma avaliação ou conjunto de avaliações aceitos em língua portuguesa, embora vários métodos diferentes sejam utilizados, como a entrevista clínica, o automonitoramento, o autorrelato, o relato de sintomas comórbidos ou mesmo o uso de métodos objetivos e subjetivos que possam quantificar a quantidade de cabelo perdida3.

Algumas das propostas para a avaliação e mensuração dos comportamentos ligados à TTM já estão amplamente descritas na literatura. Serão descritos os principais instrumentos e suas características psicométricas.

a) Yale-Brown Obsessive Compulsive Scale (Y-BOCS) é uma medida clínica de severidade dos sintomas em pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Esse instrumento inclui 10 itens avaliados em uma escala Likert que varia de 0 ponto (nenhum sintoma) a 4 pontos (sintomas extremos). A avaliação total se dá por meio da soma dos 10 itens. As obsessões são aferidas do item 1 ao 5 e são utilizadas para avaliar a severidade da compulsão. Já a severidade dos sintomas compulsivos segue a mesma lógica e é representada pela soma obtida dos itens 6 a 108,9.

Vale ressaltar que uma adaptação da Y-BOCS intitulada Y-BOCS-TTM foi apresentada recentemente e substituiu os conceitos de "obsessão" por "pensamentos sobre arrancar cabelo" e "compulsão" por "arrancar cabelo". Semelhante à Y-BOCS, a versão para TTM também possui 10 itens, e do item 1 ao 5 avalia-se a severidade dos pensamentos repetitivos e do item 6 ao 10, a severidade dos comportamentos relacionados com a TTM10.

b) National Institute of Mental Health – Trichotillomania Impairment Scale (NIMH-TIS) oferece uma medida global de severidade da TTM, fornecendo uma ideia da gravidade ao se basear no grau da perda do cabelo verificada, na quantidade de dinheiro e tempo gastos arrancando ou escondendo o cabelo e no senso de controle do paciente sobre o comportamento. A avaliação varia de 0 = nenhum prejuízo, passando de 1-3 = prejuízo mínimo, de 4-6 = prejuízo moderado e, finalmente, de 7-10 = prejuízo de moderado a severo11.

c) National Institute of Mental Health – Trichotillomania Symptom Severity Scale (NIMH-TSS) é uma escala que avalia a severidade da TTM e também é derivada do Y-BOCS, pois é composta por seis itens que avaliam: o tempo gasto na última semana arrancando cabelo, o tempo gasto no dia anterior arrancando cabelo, quais os pensamentos ou sentimentos precederam o comportamento, tentativa para resistir ao desejo de arrancá-los, o quanto essa compulsão/hábito aborrece o paciente e o quanto arrancar cabelo interfere em sua vida diária. Os pensamentos ou sentimentos precedentes ao episódio e a tentativa de resistir ao desejo de arrancar (itens 3 e 4 da escala) são avaliados por uma escala Likert de 0 a 3 pontos e os itens 1, 2, 5 e 6 são avaliados por uma escala de 0 a 5 pontos. Pontuações mais altas indicam maior grau de severidade dos sintomas. O valor total de severidade é calculado somando-se os seis itens11.

d) Psychiatric Institute Trichotillomania Scale (PITS) é uma escala com seis itens que avalia os seguintes sintomas: número de locais de onde o cabelo foi arrancado na cabeça, duração do tempo gasto arrancando ou pensando em arrancar cabelos, frequência em resistir ao impulso de executar o ato, o quanto a TTM interfere ou impede de fazer alguma coisa, a angústia associada e, finalmente, severidade de perda de cabelo. Os itens são avaliados em uma escala Likert, que varia de 0 a 7 pontos, e os escores mais elevados indicam maior severidade dos sintomas. A avaliação total é calculada somando-se as respostas de todos os seis itens12.

e) Milwaukee Inventory for Styles of Trichotillomania – Adult Version (MIST-A) é uma escala que foi desenvolvida para avaliar os subtipos da TTM: o "automático" e o "focal". O MIST-A compõe-se de 15 itens, sendo 10 deles para o subtipo "focalizado" e os outros 5 para o "automático"13.

f) Minnesota Trichotillomania Assessment – II (MTA-II) é a única entrevista clínica estruturada que foi desenvolvida para gerar dados descritivos sobre os sintomas do comportamento de arrancar cabelos13. Essa avaliação contém perguntas pertinentes para avaliação da tricotilomania, segundo os critérios do DSM-IV-TR2, entretanto os dados de validação e confiabilidade não estão disponíveis, o que dificulta o seu uso como um instrumento diagnóstico14.

g) Clinical Global Impression (CGI) é uma avaliação clínica que verifica, de forma global, a severidade dos sintomas, resposta e eficácia do tratamento em pacientes com transtornos mentais, incluindo a condição/gravidade da TTM no momento em que é feita a avaliação. O grau de severidade da CGI é obtido usando-se uma escala Likert de 7 pontos, sendo 1 ponto para não doente, até 7 pontos para extremamente doente15.

h) Por fim, a Massachusetts General Hospital (MGH) Hairpulling Scale16,17 é um instrumento que apresenta sete itens que são obtidos por meio do autopreenchimento e são avaliados na escala Likert de pontos, variando de 0 a 4 pontos, ou seja, quanto maior sua pontuação, maior o grau de severidade dos sintomas da TTM.

A Massachusetts General Hospital (MGH) Hairpulling Scale, em seu estudo original, comprovou a existência de um único fator que respondeu por 88% da variância e sua consistência interna foi satisfatória (α = 0,89). Os sete itens que compõem a versão final da escala foram: frequência dos impulsos, intensidade dos impulsos, habilidade para controlar os impulsos, frequência do arrancar cabelo, tentativas para resistir ao ato de arrancar cabelo, controle sobre o ato de arrancar cabelo e angústia associada16.

Ainda em seu estudo de validação, a MGH-HPS17 foi comparada a outros instrumentos – PITS10 e CGS15 –, comprovando forte correlação (r = 0,63 p < 0,001; r = 0,75 p < 0,0001), respectivamente. Na reprodutividade, os dados foram igualmente satisfatórios (0,97, p < 0,0001).

Embora vários desses instrumentos sejam utilizados para avaliação da TTM, ainda não há um consenso acerca do mais adequado. Sendo a MGH-HPS um instrumento que poderá facilmente monitorar o curso da TTM e os efeitos no tratamento, somado ao seu formato autoaplicável, breve, de fácil administração, o que permite seu uso rotineiro, no ambiente clínico ou em protocolos de pesquisa, objetiva-se no presente estudo descrever sua adaptação transcultural para a língua portuguesa (Brasil).

 

Método

Realizou-se um estudo metodológico, de acordo com os critérios sugeridos por Herdman et al.18 e aplicados por Conti et al.19,20 e Teixeira et al.21.

Para tanto, foram cumpridas cinco etapas. A primeira etapa consistiu na tradução do instrumento original do idioma inglês para o português, feita por um profissional graduado em tradução e intérprete, com especialização em língua inglesa. Para a segunda etapa, a versão traduzida foi novamente vertida para o inglês, por um professor nativo de língua inglesa (NH).

A terceira etapa referiu-se à revisão técnica e à avaliação da equivalência semântica das versões, desenvolvida por três psicólogos, sendo um deles especialista na área de adaptação de escalas (MAC) e os outros dois com experiência em tricotilomania (ELT, ROT), priorizando-se o significado referencial e o significado geral dos itens que compõem o instrumento. Foram realizados ajustes e uma nova versão do instrumento foi elaborada. Na etapa seguinte (quarta), o instrumento foi apresentado a 12 especialistas da área de saúde mental para a avaliação da clareza e grau de compreensão de cada questão e do instrumento em sua íntegra. Foi solicitado que avaliassem o instrumento, questão a questão, e respondessem a uma escala verbal-numérica adaptada, de acordo com o procedimento realizado por Conti et al.19 e Teixeira et al.21.

Foram orientados para responder à seguinte questão: "Sua participação consistirá em seu preenchimento, após uma leitura criteriosa, avaliando o quanto você entendeu de cada item que compõe este questionário?" As respostas eram do tipo escala Likert: 0 – não entendi nada; 1 – entendi só um pouco; 2 – entendi mais ou menos; 3 – entendi quase tudo, mas tive algumas dúvidas; 4 – entendi quase tudo; 5 – entendi perfeitamente e não tenho dúvidas. Foi estabelecido que as respostas 0, 1, 2 e 3 seriam consideradas como indicadores de compreensão insuficiente. Foi solicitado, ainda, caso o especialista não compreendesse a questão ou a linguagem não parecesse adequada, que sugerisse alterações, justificando os motivos. Ao final, uma nova versão do instrumento foi formulada pelos pesquisadores, incluindo as alterações pertinentes.

Para a quinta etapa, o instrumento foi apresentado a 115 jovens, de ambos os sexos, com idade média de 23 anos (desvio-padrão: 3,7 anos), estudantes do ensino superior do curso de Administração. Os jovens foram selecionados de forma aleatória simples e concordaram em participar voluntariamente. Na instituição houve um sorteio para a seleção de quatro salas e todos os alunos, em período de aula, responderam ao questionário autoaplicado sob supervisão do último autor (MAC). Não houve recusa e/ou desistência. Para uma parcela do grupo (16 jovens), o instrumento foi aplicado na apresentação de uma escala verbal numérica adaptada21,22, de acordo com a metodologia descrita acima para os profissionais. E para o restante do grupo (99 jovens), o instrumento foi aplicado em sua íntegra, com a intenção de avaliar o grau de consistência interna das questões, por meio da análise do coeficiente alfa de Cronbach (Figura 1).

 

 

Ainda nessa etapa, para o segundo grupo de jovens (99 jovens), foi aplicado, concomitantemente, o Questionário de Saúde Geral de Goldenberg (QSG)23,24 na versão abreviada. Essa escala é composta de 12 itens, na forma Likert de pontos e avalia o bem-estar psicológico. Os itens negativos foram invertidos, de modo que quanto maior a pontuação, melhor o nível de saúde mental. Utilizou-se como o ponto de corte o valor correspondente a 20 pontos, e assim, aquele participante que não obteve o valor mínimo esperado foi excluído do estudo. A amostra final foi composta por 68 sujeitos (21 jovens excluídos).

Desenvolveram-se análise descritiva (média, desvio-padrão, proporção) e análise de inferência (alfa de Cronbach).

Foi solicitadas autorização e permissão do editor para a realização do estudo. O presente estudo está de acordo com a norma nº 196, inciso IX.2, letra "c", de 10/10/1996, do Conselho Nacional de Saúde e foi aprovado pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa (CAPPesp) da Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, conforme Protocolo nº 013/08.

 

Resultados

Tradução e adaptação transcultural

Na presente tradução, houve necessidade de alterar expressões e palavras e rever as conjugações verbais. Já para a adaptação transcultural, algumas expressões foram excluídas, conforme descrito a seguir.

Quanto ao título da escala, a palavra que mais se aproxima da tradução literal de "hairpulling" é "puxão de cabelo", dessa forma a palavra "pulling" foi traduzida como "arrancar", o que em português faz mais sentido, já que puxar necessariamente não significa arrancar. Assim, o título ficou: "Escala de Arrancar Cabelo" ou em sua forma abreviada: EAC-MGH.

Nas duas vezes em que a expressão "for the next three questions" é mencionada, optou-se pela inserção da numeração, de acordo com a questão a que ela se referenciava. Dessa forma, a apresentação ficou como: "para as questões 1, 2 e 3" e "para as questões 4, 5 e 6", respectivamente.

Na língua inglesa, o substantivo "hair" pode ser utilizado tanto para cabelo como para pelo, assim, na versão final, acrescentou-se a palavra "pelo", uma vez que em português a palavra "cabelo" refere-se ao conjunto de pelos da cabeça e especificamente pelo refere-se ao fio que cresce em outras partes do corpo. Assim, foi padronizada a expressão: cabelo e/ou pelo para a palavra "hair", uma vez que o comportamento tricotilomaníaco pode ocorrer em qualquer parte do corpo onde tenha cabelo e/ou pelo4.

Outra exclusão referiu-se aos sete subitens que descrevem o comportamento que será mensurado (frequência, intensidade, habilidade para controlar o impulso, tentativas de resistir, controle sobre o arrancar cabelo e angústia associada). Acreditamos que, ao citá-los, poderiam induzir à resposta, já que fazem referência ao que se está avaliando.

Após a versão da segunda etapa, retradução para o inglês (NH), e a versão final, achamos adequado manter as palavras impulsos e vontade, nas questões 1, 2 e 5, embora na versão original os autores utilizassem apenas a palavra "urges". Entendemos que impulsos e vontade estão dentro do contexto da escala, o que reforça seu significado conotativo e garante coloquialidade, reforçando sua compreensão.

Nas questões 1, 2, 3, 4, 5 e 6 da versão original, a expressão "on na average day" foi traduzida como "em um dia normal", novamente para garantir seu aspecto coloquial.

Outra alteração realizada foi a retirada da expressão "esta semana eu" (this week I) que inicia todos os itens. Optou-se em colocá-la em um novo parágrafo, logo após cada uma das sete perguntas, seguida do ponto de reticências (esta semana eu...). Dessa forma, evitou-se a repetição da expressão, o que deixou o instrumento mais compreensível.

Na questão 3, item 2, a expressão "some of the time" foi adaptada para "em alguma parte do tempo", o que garante seu caráter intensificador da afirmação.

Um fator importante a ser mencionado refere-se aos termos dos marcadores de frequência da escala. Na escala original, os autores deixam claro que a avaliação visa produzir escores com a frequência de ocorrência dos eventos, partindo-se da negativa do impulso até a total capacidade de resistir a ele. Assim, na versão original, as palavras "occasionally" (ocasional), "often" (frequentemente), "very often" (muito frequentemente) e "so often" (tão frequentemente) dos itens 1, 2, 3 e 4, referentes à pergunta 4, foram, na versão final, substituídas por: "poucas vezes", "frequentemente", "muito frequentemente" e "excessivamente", respectivamente. Entendemos que essas palavras expressam melhor a noção de quantidade de impulso relacionado ao comportamento em questão. Ainda nessa mesma questão, no item 4, na frase "This week I pulled my hair so often it felt like I was always doing it" (esta semana eu puxei tão frequentemente meu cabelo que sentia como se eu sempre estivesse fazendo isso), optou-se pela expressão "Esta semana eu arranquei o meu cabelo/pelo excessivamente, a ponto de sentir que estava arrancando-o sempre", portanto o deslocamento/ou substituição na construção da frase foi necessário para que a expressão mantivesse seu poder intensificador do comportamento de arrancar cabelo/pelo.

Na instrução original para as perguntas 4, 5 e 6: "... rate only the actual hairpulling", a tradução literal seria: "... taxe só o ato atual de puxar cabelo". A versão traduzida e adaptada ficou "... avalie somente o comportamento atual de arrancar o cabelo/pelo". Na comparação entre as etapas de tradução, retradução e versão final, houve a necessidade de alterar a expressão e palavra para facilitar a melhor compreensão semântica da instrução.

Nos enunciados das questões 4 e 6, o vocábulo "actually", que tem como significado literal "de fato" ou "realmente", foi adaptado com o sinônimo "efetivamente", por entendermos que se adéqua melhor às questões.

Já no enunciado da questão 5, com relação à mesma palavra "actually", optou-se em manter o seu significado literal "de fato", uma vez que, ao associá-la à palavra "tentativa", não dá margem à dúvida quanto ao ato de resistir ao comportamento de arrancar cabelo.

Na questão 7, a expressão "on edge" (impaciente) foi traduzida e adaptada como "com os nervos à flor da pele". Assim, mantemos o sentido figurado da expressão, pois dessa forma ficaria mais adequado ao propósito de estar mensurando a angústia associada ao comportamento de arrancar cabelo.

No enunciado da questão 7, o vocábulo "distress", que literalmente significa aflição, optamos pelo vocábulo "sofrimento", que melhor expressa o desconforto associado ao comportamento tricotilomaníaco e também evidencia o caráter mais objetivista, que em certa medida é uma das funções básicas do presente instrumento.

O termo "hairpulling", que aparece nas sete perguntas e seus itens, foi substituído pela expressão "arrancar o meu cabelo", pois nas frases expressa melhor a noção atemporal do ato de arrancar cabelo.

Compreensão verbal

Para os especialistas (n = 12), as questões demonstraram ser de fácil compreensão, registrando valor médio superior a 4,8 (valor máximo 5,0). O mesmo pode ser registrado para participantes (n =1 6), com média superior a 4,0 (Tabela 1).

 

 

Consistência interna

O instrumento demonstrou valores do coeficiente alfa de Cronbach satisfatório. Para todas as questões que compõem a escala, correspondeu a 0,96.

 

Discussão

Estudos de adaptação transcultural são essenciais para garantir a qualidade da informação que o instrumento almeja identificar. Esse ponto é sinalizado por Conti et al.20, já que os instrumentos de avaliação representam importante elo entre os dados coletados e seu conteúdo teórico. O presente estudo tomou esse cuidado, descrevendo o processo de adaptação transcultural da Massachusetts General Hospital (MGH) Hairpulling Scale (MGH-HPS) e apresentando dados que caracterizaram algumas de suas propriedades psicométricas.

O processo de adaptação transcultural envolveu etapas de tradução, retradução e três versões do instrumento para concluirmos a sua versão final. Constou de análises de compreensão verbal em duas avaliações (especialistas e estudantes), com resultados satisfatórios. Embora seja esperado que a população-alvo, ou seja, o indivíduo com TTM avaliasse o instrumento, esse procedimento não foi dotado. Mesmo assim o resultado final foi satisfatório. Quanto à estrutura do conteúdo, não foram necessárias mudanças estruturais, somente adaptações e exclusões de algumas expressões como "poucas vezes", "frequentemente", "excessivamente" e também na forma de apresentação das questões que compõem o instrumento. Assim, a EAC-MGH demonstrou ser de fácil compreensão e aplicação.

Na análise da consistência interna, o instrumento apresentou resultados satisfatórios (coeficiente α = 0,96), superando os valores descritos no estudo original (coeficiente α = 0,89). Observa-se que a consistência interna do instrumento respondeu, preservando a coerência e a integração dos itens que compõem o construto. Sendo assim, podemos inferir que a EAC-MGH identificou o mesmo construto apontado no estudo original.

Cabe aqui observar que a prevalência da TTM era uma condição extremamente rara nos anos 1970, com taxas em torno de 1% nos anos 1990. Entretanto, a TTM tem-se mostrado com prevalência crescente no século XXI, apresentando taxas em torno de 3%. Essa alta porcentagem nos leva a hipotetizar que a TTM tenha sido subvalorizada no passado como diagnóstico primário em saúde mental e que nos dias atuais, como maior acesso aos sistemas de saúde e de informação, tenha se tornado mais conhecida, não só pelos pacientes, mas também pela comunidade médica, o que pode ter corroborado para o aumento do registro de diagnósticos. Esse fato vem preocupando os profissionais da área de saúde mental e contribuindo significativamente para o crescente número de estudos de etiologia, prevalência e tratamento da TTM.

Pesquisas em grupos clínicos identificaram o gênero de pacientes que se apresentam para tratamento de TTM, que, em sua maioria, são do sexo feminino e primordialmente compostos por adolescentes e adultas14,25. Estudo prospectivo para demonstrar a incidência de transtornos mentais entre gêneros apresentou uma razão de 1,54 como medida de risco para as mulheres em relação aos homens26. Essa predominância de gênero também pode refletir uma diferença subjacente observada em pacientes com TTM, ou seja, maior aceitabilidade social da perda do cabelo e menor frequência na busca de ajuda médica, no sexo masculino9.

Embora o número de pessoas que buscam atendimento clínico seja diferente, as características fenomenológicas ainda parecem ser semelhantes entre homens e mulheres27,28. Dessa forma, o presente estudo apresenta a versão da EAC com características similares ao estudo original. Essa versão adaptada é de fundamental importância para o desenvolvimento de futuros estudos da área, com enfoque clínico e epidemiológico.

 

Conclusão

Foram realizadas a tradução e a adaptação da Massachusetts General Hospital (MGH) Hairpulling Scale para o idioma português e sua versão final encontra-se disponível no Anexo 1; as tabelas nas versões original, traduzida e retrotraduzida estão à disposição dos interessados com os autores. A análise da consistência interna comprovou boa concordância entre os itens, com valores muito próximos dos do estudo original. Os dados descritos são satisfatórios, o que possibilita a indicação da escala para o idioma português.

A realização de estudos futuros de validação de construto para análise confirmatória e exploratória dos itens será útil, o que possibilitará o uso da presente escala para a avaliação da TTM.

 

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Endereço para correspondência:
Edson Luiz Toledo
Av. Brigadeiro Faria Lima, 1911, cj. 903
Jardim Paulistano – 01452-001
São Paulo, SP, Brasil
E-mail: edsonltoledo@uol.com.br

Recebido: 3/7/2010
Aceito: 24/10/2010

 

 

Instituição onde o trabalho foi realizado: Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Amiti-IPq-HC-FMUSP).

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