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Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo)

Print version ISSN 0101-6083

Rev. psiquiatr. clín. vol.39 no.3 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832012000300002 

ARTIGO ORIGINAL

 

O estigma da esquizofrenia na mídia: um levantamento de notícias publicadas em veículos brasileiros de grande circulação

 

The schizophrenia stigma and mass media: a search for news published by wide circulation media in Brazil

 

 

Francisco Bevilacqua Guarniero; Ruth Helena Bellinghini; Wagner Farid Gattaz

Departamento e Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

CONTEXTO: O estigma que pesa sobre as doenças psiquiátricas é o mais forte impedimento para que o paciente busque tratamento, mais até que a dificuldade de acesso aos serviços de saúde. A esquizofrenia também é a doença mais usada hoje como metáfora na mídia, aparecendo rotineiramente associada a crimes e violência.
OBJETIVOS: Avaliação da presença do estigma estrutural na mídia brasileira por meio do levantamento de notícias em imprensa e internet que utilizam o termo "esquizofrenia" e correlatos ("esquizofrênico/a") sob três aspectos: (a) uso médico e científico; (b) atribuição do diagnóstico de esquizofrenia a suspeitos de crimes com pouco ou nenhum rigor médico ou científico; (c) uso metafórico.
MÉTODOS: O estudo foi realizado em três etapas: levantamento de notícias, classificação dos itens encontrados e análise do contexto em que foram publicados. O levantamento foi realizado em dois períodos - 2008 e 2011 -, sendo o primeiro restrito ao jornal Folha de S. Paulo e o segundo ampliado para os portais dos principais veículos impressos brasileiros.
RESULTADOS: Foram encontrados 229 textos, distribuídos da seguinte forma: 89 (39%) registros em ciência e saúde, com tendência à impessoalidade; 62 (27%) registros em crime e violência, em que o "diagnóstico" de esquizofrenia é feito por leigos e "corroborado" por uma arqueologia da vida do suspeito que arrola toda sorte de comportamentos fora de padrão; 78 (34%) de uso metafórico, sempre de caráter depreciativo.
CONCLUSÕES: A maioria dos textos encontrados (a) não dá voz ao portador de esquizofrenia e a seu sofrimento, (b) banaliza a doença psiquiátrica ao empregá-la fora de contexto para caracterizar decisões políticas e econômicas contraditórias ou de caráter duvidoso e (c) reforça o estigma que pesa sobre o portador de esquizofrenia ao personalizá-lo apenas nos raros casos de violência em que se supõe seu diagnóstico.

Palavras-chave: Estigma social, esquizofrenia, preconceito, meios de comunicação de massa, imprensa.


ABSTRACT

BACKGROUND: Schizophrenia is the most common illness used today as a metaphor in the media and routinely appears associated with crime and violence with no medical or scientific rigor, reinforcing the stigma against this disorder.
OBJECTIVES: Evaluation of the presence of structural stigma in the Brazilian media by means of a survey of printed news and the Internet using the term "schizophrenia" and its correlates under three aspects: (a) medical and scientific uses, (b) assigning a diagnosis of schizophrenia to crime suspects with little or no medical or scientific rigor, and (c) the metaphorical use.
METHODS: The study was conducted in three stages: search for publications, classification of items found and analysis of the context in which they were published. The survey was conducted in two periods: 2008 and 2011, the first being restricted to the newspaper Folha de S. Paulo and the second extended to the homepage of the main Brazilian print media.
RESULTS: We found 229 texts, distributed as follows: 89 (39%) records as science and health, with a tendency to impersonality; 62 (27%) records as crime and violence, in which the "diagnosis" of schizophrenia is given by lay people and "supported" by an archeology of the life of the suspect which enlists all sorts of non-standard behavior; and 78 (34%) records of metaphorical use, always with a negative meaning.
DISCUSSION: Most of the texts found (a) does not give voice to people with schizophrenia and their suffering, (b) trivializes the use of this psychiatric illness out of context to describe contradictory or of dubious character political and economic decisions, and (c) reinforces the stigma that lays over the bearer of schizophrenia individualizing them only in rare violent cases with a supposed diagnosis.

Keywords: Social stigma, schizophrenia, prejudice, mass media, press.


 

 

Introdução

O estigma associado aos transtornos mentais é o principal obstáculo para que seus portadores procurem tratamento. Essa falta de visibilidade faz com que os governos, em geral, aloquem poucos recursos para a saúde mental e seus portadores enfrentem o isolamento social e dificuldades para encontrar moradia e trabalho. Além disso, recebem atendimento de saúde de pior qualidade1, pois os clínicos tendem a pensar que seus sintomas físicos são "produto de uma mente perturbada"2.

No campo da saúde mental, a esquizofrenia apresenta forte estigma, motivando campanhas favoráveis aos seus portadores e combatendo o uso impróprio do termo em vários países3,4. Não é de hoje que o vocabulário popular se apropria e distorce diagnósticos médicos, muitas vezes usando-os para rotular e segregar alguma parcela "indesejável" da sociedade. As expressões "débil mental", "imbecil", "idiota" e "cretino" são, em sua origem, termos médicos que até a década de 1960 indicavam diferentes graus de deficiência mental e a última, a condição dos que sofrem deficiência mental em decorrência de hipotireoidismo. A palavra mongolismo só deixou de ser sinônimo de síndrome de Down por pedido oficial do governo da então República Popular da Mongólia encaminhado às autoridades médicas. A política já se apropriou sucessivamente do cancro (sífilis), da tuberculose, do câncer e, mais recentemente, da esquizofrenia, que é a doença mais usada hoje como metáfora negativa na mídia5. O uso inadequado reforça o estigma que pesa sobre o paciente. Em A doença como metáfora, Susan Sontag escreve a respeito do câncer: "A morte é agora um acontecimento agressivamente sem sentido, de modo que uma doença largamente considerada como sinônimo de morte é tida como algo que se deve esconder"6. A ameaça que paira sobre o paciente psiquiátrico e sua família não é da morte física, é a da exclusão, a morte social.

A sociologia descreve uma forma de preconceito e discriminação chamada de estigma estrutural7, objeto do presente estudo. É o estigma formado a partir de forças sociais ou políticas bem determinadas e está representado nas ações e mensagens de instituições privadas ou governamentais que restringem as oportunidades dos grupos estigmatizados. Um exemplo claro eram as limitações de direitos civis impostas a afrodescendentes, como a impossibilidade de votar, em diversas nações ocidentais, no período que se seguiu à abolição da escravidão. Dessa forma, é o mesmo que ocorre quando uma instituição, em vez de um indivíduo, promove mensagens estereotipadas, preconceituosas e/ou discriminatórias sobre os transtornos mentais e seus portadores. A mídia hoje é instituição forte e presente, e a análise das notícias sobre transtornos mentais publicadas em jornais pode ser utilizada como medida do estigma estrutural nesses veículos de comunicação5.

A literatura médica demonstra a presença do estigma estrutural, em especial contra a esquizofrenia, nos meios de comunicação de massa ao redor do mundo8, apresentando-o sob duas facetas: em primeiro lugar, a atribuição do diagnóstico de esquizofrenia em casos cotidianos sem nenhum rigor médico ou científico - diagnósticos dados pela opinião leiga de autoridades policiais, vizinhos ou familiares de personagens de histórias reais; em segundo lugar, um uso recorrente metafórico do termo "esquizofrenia", com significados depreciativos como contraditório, insano, incompreensível5,9. Além disso, os artigos científicos mais atuais sobre o tema chamam a atenção para a baixa frequência de histórias jornalísticas positivas sobre a esquizofrenia e a alta prevalência de notícias relacionando violência e transtorno mental10. Constata-se, ainda, a ausência de discussão aprofundada com especialistas no campo da saúde mental e o caráter impessoal das reportagens de cunho científico, como o desenvolvimento de novas medicações ou opções de tratamento.

Apesar dos vários estudos realizados no exterior, a atenção dedicada ao tema no Brasil ainda é pequena. Com custo baixo e execução simples, um levantamento no acervo eletrônico de veículos impressos de maior circulação do território brasileiro pode fornecer um retrato da presença do estigma estrutural no nosso meio. A esquizofrenia é o transtorno mental de escolha, porque, a despeito de mudanças políticas voltadas para a saúde mental, seus portadores convivem diariamente com o duplo desafio de lutar contra os sintomas incapacitantes provocados pela sua condição e contra os efeitos injustos dos estereótipos e preconceitos criados ao seu redor11. Consequentemente, eles são condenados a um quase inevitável círculo vicioso de marginalização, alienação, pobreza e exclusão social12.

 

Métodos

O presente estudo foi realizado em três etapas: levantamento de notícias, classificação dos itens encontrados e análise do contexto em que foram publicados.

Primeira etapa: levantamento de notícias

O levantamento de notícias foi realizado em duas fases: a primeira restringiu-se ao jornal impresso Folha de S. Paulo, selecionado por ser o jornal de maior circulação diária em território nacional, com média diária de 295.482 exemplares em 2009, de acordo com o Instituto Verificador de Circulação (IVC). O período de 12 meses, de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2008, foi selecionado aleatoriamente13. Foram excluídos itens em duplicata ou que eram muito curtos para posterior classificação. Esse levantamento foi realizado como parte de trabalho de conclusão de curso apresentado ao Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo14.

Na segunda fase, foram coletadas, por meio de busca simples na internet, as reportagens, editoriais, textos de blogs e colunas que apresentassem as palavras "esquizofrenia/esquizofrênico(a)" no período selecionado aleatoriamente de 1º de janeiro de 2011 a 31 de dezembro de 2011. A busca foi realizada nos sites dos jornais Folha de S. Paulo (Folha), O Estado de S. Paulo (Estadão), O Globo (Globo) e das revistas semanais Veja e Época13,15-18.

Segunda etapa: classificação dos achados

Para ambas as fases de levantamento de itens do estudo, após a leitura deles, os elegíveis foram divididos da seguinte forma para análise5,9: (i) ciência e saúde; (ii) crime e violência e (iii) uso metafórico.

Para efeito desse estudo, o item ciência e saúde foi assim subdividido: etiologia, de base científica ou não, para esquizofrenia, por exemplo, causa biológica ou genética, causa ambiental e investigação e atualização diagnóstica, bem como culpa do indivíduo portador, falha no processo de criação ou culpa da família; tratamento e recuperação: avanços no tratamento, recuperação e reabilitação de portadores de esquizofrenia, incluindo medicações, estudos científicos e depoimentos de portadores; ação afirmativa: necessidade de políticas públicas para melhorar a qualidade de vida dos portadores de esquizofrenia e combate ao preconceito e discriminação; diversos: obras artísticas cuja temática incluísse esquizofrenia de alguma forma e outros não possíveis de classificar em outro lugar.

Em caso de uso metafórico, o item publicado foi classificado quanto ao sentido: uso metafórico positivo ou uso metafórico depreciativo.

Terceira etapa: análise do contexto

Após a classificação, todos os itens foram analisados quanto ao contexto de publicação.

 

Resultados

Levantamento e classificação

No levantamento da primeira fase do estudo, após o acesso ao sistema do portal digital da Folha, foram encontrados 56 itens de publicação, dos quais 45 foram incluídos na análise, entre reportagens, entrevistas, colunas, notas, editoriais. Esses achados puderam ser classificados como: 20 itens na categoria ciência e saúde (44,5%); 6 itens, em crime e violência (13,3%) e 19 de uso metafórico dele (42,2%). Dentre os 20 que se referiam ao uso médico, eles se distribuíam entre as categorias propostas da seguinte maneira: 11 referentes à etiologia (55%); duas, a tratamento e recuperação (10%); sete, a diversos (35%). Não foram encontrados itens que pudessem ser classificados como de ação afirmativa. Todos os 19 itens encontrados de uso metafórico do termo esquizofrenia foram considerados como depreciativos.

No levantamento da segunda fase do estudo, foram encontrados 184 registros elegíveis que continham os termos "esquizofrenia" e "esquizofrênico(a)". Desses, 69 (37,5%) pertenciam à categoria de ciência e saúde; 56 (30,4%) encaixavam-se nos registros de crime e violência e 59 (32,6%) usavam a esquizofrenia como metáfora. Desses 184 textos, apenas 13 (7%) apresentam o paciente de maneira neutra ou positiva. Um resumo dos achados em ambos os levantamentos encontra-se na tabela 1.

 

 

Análise do contexto

Exemplos retirados dos veículos analisados para análise do contexto encontram-se no quadro 1. A seguir, subdividimos a análise de acordo com a classificação proposta.

Ciência e saúde

As notícias sobre genes, estudos com células-tronco e avanços da neurociência de alguma forma associadas a doenças como a esquizofrenia são frequentes na mídia, mas primam pela impessoalidade e, na maioria das vezes, pertencem ao território da ciência básica. No período de janeiro a dezembro de 2011, destacam-se seis itens que exploram a relação entre Cannabis e esquizofrenia.

Crime e violência

No levantamento de notícias da Folha durante o ano de 2008, as seis notícias de violência e criminalidade são casos esporádicos, remetendo a um suposto diagnóstico de esquizofrenia para suspeitos de crimes, bem como ao uso de tal diagnóstico como defesa jurídica; o "diagnóstico" é realizado com base em depoimentos de leigos ou da própria pessoa acusada do crime. Na comparação dos achados referentes à Folha, o número saltou de 6 em 2008 para 15 em 2011, uma variação de 150%. No levantamento total dos veículos em 2011, foram elencados 56 registros, sendo apenas 9 deles sobre casos esporádicos; os 47 restantes foram sobre casos notórios da imprensa nacional e internacional, a saber: caso Wellington Oliveira ("o massacre do Realengo"), com 31 ocorrências (55,35%); caso Glauco, 9 ocorrências (16,09%); caso Behring Breivik ("o atirador norueguês"), 6 ocorrências (10,71%); caso Jared Lee Loughner (o atirador de Tucson), 1 ocorrência (1,78%).

Uso metafórico

O uso metafórico da palavra "esquizofrenia" e, principalmente, "esquizofrênico(a)", nos sentidos de "absurdo", "incoerente" e "contraditório", é recorrente nas colunas de política (o governo, o Judiciário, as relações Brasil-Estados Unidos, a Grã-Bretanha e até a Comunidade Europeia são tachados de esquizofrênicos por diferentes autores e editorialistas), de economia (a política cambial, a política econômica; esquizofrenia financeira), mas, principalmente, nas editorias de artes e espetáculos. São apontados como esquizofrênico(a)s nesses textos: o Festival de Cinema de Gramado; o show da cantora Cyndi Lauper (que passa de "clássicos a platitudes pop"); o ritmo do musical Evita; Batman; o ator (que se despe de si mesmo para vestir um personagem, segundo a atriz Bruna Lombardi); a infelicidade de hoje (segundo o cineasta e colunista Arnaldo Jabor); Rose, a vizinha do personagem Charlie Harper na série Two and a Half Man; a cantora Madonna (que na adolescência não se decidia entre ser freira e popstar, segundo ela mesma); e o jornal The New York Times (por cobrar pelo acesso online, mas distribuir conteúdo gratuitamente nas redes sociais). Não foram encontrados itens com uso metafórico positivo.

 

Discussão

A maioria dos textos encontrados (a) não dá voz ao portador de esquizofrenia e a seu sofrimento, (b) banaliza a doença psiquiátrica ao empregá-la fora de contexto para caracterizar decisões políticas e econômicas contraditórias ou de caráter duvidoso e (c) reforça o estigma que pesa sobre o portador de esquizofrenia ao personalizá-lo apenas nos raros casos de violência em que se supõe esse diagnóstico psiquiátrico.

É no contexto de violência e criminalidade que se dá a mais intensa estigmatização do portador de esquizofrenia. Por mais que os especialistas em saúde mental se esforcem em afirmar que esse paciente raramente é violento19, apenas após a ocorrência de crime bárbaro, da comoção causada pela matança de crianças no ambiente escolar ou de adolescentes em idílica ilha no verão nórdico é que psiquiatras são ouvidos para falar desse doente, a saber, o raro portador de esquizofrenia que comete ato violento20. O impacto de um fato violento notório mostra reflexo importante no aumento do uso do termo "esquizofrenia" no contexto de violência e criminalidade, como observado no presente estudo no caso do veículo "Folha de S. Paulo" após o chamado "massacre do Realengo". Esse caso também evidencia o que se pode chamar de uma arqueologia do assassino, supostamente esquizofrênico, em que são elencados comportamentos tidos como "aberrantes" (não bebia, não fumava, não jogava bola, não usava bermuda, não namorava, era religioso, passava muito tempo na internet, gostava de games violentos) como se fossem preditivos, isolada ou coletivamente, de perfil violento e do possível diagnóstico de esquizofrenia. Outra característica notável dos textos que tratam desses crimes é a transformação do binômio transtorno mental-inteligência numa contradição velada. Breivik, o atirador norueguês, escreve "num inglês perfeito" e parece "inteligente e consciente de seus atos"; Oliveira é descrito como "frio e calculista" no planejamento de seu ato violento. Importante ressaltar uma peculiaridade no caso Wellington Oliveira: o episódio ocorre quando a mídia debate insistentemente os casos de bullying dentro e fora do país e há uma tentativa clara no noticiário de forçar uma relação causa-efeito (bullying na infância - assassinato das crianças como forma de vingança).

Uma questão importante é saber se a cobertura jornalística simplesmente reflete as estatísticas de criminalidade ou não e, em caso negativo, se estaria exercendo influência sobre a percepção do público ao associar violência a transtornos mentais. Talvez a longa tradição ocidental de violência e criminalidade ligada aos portadores de transtornos mentais tenha sedimentado estereótipos de periculosidade para essa população21,22. Entretanto, embora a literatura relate uma associação entre comportamento violento e esquizofrenia, com um risco de duas a seis vezes maior nos indivíduos com esse transtorno do que na população geral não acometida, há estudos afirmando o contrário22. Além disso, a literatura mostra que crimes violentos ocorrem principalmente entre os pacientes com esquizofrenia que tenham abuso de substâncias e estão sem tratamento apropriado23. Ou seja, o tratamento médico adequado reduziria a violência de pacientes psicóticos. Análises mais complexas demonstram que transtornos mentais são preditores mais fracamente associados à violência que idade, gênero ou etnia, mas o público tende a ver mais frequentemente portadores de transtornos mentais como um perigo à sua segurança24. Portanto, poderíamos argumentar que o ambiente cultural, e nele incluída a cobertura jornalística, é um fator social que favorece essa visão negativa sobre os transtornos mentais e que se opõe aos dados disponíveis na literatura médica.

Falham nos textos encontrados tanto os especialistas quanto os jornalistas. Os psiquiatras porque, quando chamados a dar seu parecer especializado - geralmente em meio à comoção provocada por um crime - desfiam jargões e classificações técnicas sem a menor preocupação em explicar os conceitos envolvidos, como se ele e seu interlocutor compartilhassem saberes. Além disso, estudo recente demonstrou que psiquiatras brasileiros estigmatizam portadores de esquizofrenia, em especial no que se refere à atribuição de estereótipos, como o de periculosidade, ainda que o façam com menor intensidade que profissionais de países desenvolvidos25,26. Do lado dos jornalistas, há a tendência à generalização de casos isolados, mas cabe uma ressalva. Ao contrário dos especialistas, esses profissionais não saem de suas graduações especializados em política, esportes, saúde ou cinema, mas aprendem na prática diária, quando isso é possível. Além disso, em coberturas extensas como as que se seguem a crimes de comoção nacional ou a longa doença de um político ou artista, nem sempre é o repórter da área de saúde o deslocado para acompanhar os fatos. Portanto, na maioria das vezes, o que o especialista tem diante de si na hora de uma entrevista é um profissional tão leigo quanto a população espectadora, com os mesmos preconceitos e estereótipos sobre o paciente psiquiátrico que a população em geral. E, talvez, um desses preconceitos seja o de que o portador de esquizofrenia não leia jornais, não ouça rádio e não assista à televisão e que, se o faz, seja incapaz de perceber que é dele que se fala.

No cenário internacional, a mídia parece estar pouco disposta a analisar seu papel na perpetuação do estigma que pesa sobre a esquizofrenia. Um encontro promovido na Grã-Bretanha para discutir o tema frustrou-se com a completa ausência dos grandes jornais - que declinaram do convite alegando não ter nada a acrescentar ao debate -, mas mostrou o pensamento que pauta boa parte da imprensa, nas palavras de Steve Hewlett, diretor de programação da Carlton Television. Depois de afirmar saber que as notícias sobre atos violentos perpetrados por pacientes psiquiátricos despertam o medo no público, Hewlett prosseguiu: "É muito mais fácil reforçar as opiniões dos seus telespectadores do que ir contra elas. Editores de jornal tentam se conectar a seus leitores mostrando que os compreendem. É fácil para eles dizer: Entendemos o seu medo, sabemos que está cheio de doidos por aí prontos para atacar. Estamos aqui para mudar essas coisas e proteger você"27.

A impessoalidade das matérias das editorias de ciência e saúde é predominante - é sobre a esquizofrenia, e não sobre o paciente de esquizofrenia, que se fala. Elas apresentaram avanço significativo na forma de retratar as causas do transtorno, ao não atribuir "culpas" de forma errônea e aleatória. Nesse sentido, os veículos analisados estão em compasso com as mais recentes publicações científicas em neuropsiquiatria, mesmo quando o tema é abordado por colunistas não especializados na área. Entretanto, são matérias em sua maioria que não incluem o personagem nem dão voz ao paciente. O destaque aqui é para a genética, a química, a célula do paciente, que é despersonalizado. São poucas as reportagens com exemplos positivos, em que o portador de esquizofrenia é mostrado em tratamento ou em recuperação. São raras as reportagens sobre a dificuldade de acesso a tratamento especializado (há uma exceção em meio ao noticiário sobre o crime do Realengo) ou que retratem o sofrimento de pacientes e suas famílias. São inexistentes os registros de ações afirmativas, ou seja, necessidade de políticas públicas para melhorar a qualidade de vida dos portadores de esquizofrenia e combate ao preconceito e discriminação.

A linguística pode fornecer indícios do estigma sobre determinados grupos, como os doentes, considerando-se que doenças temidas são usadas como metáforas de caráter negativo, como, por exemplo, ocorreu com a tuberculose no século XIX ou o câncer no século XX6. Estudos posteriores sobre o câncer indicam que o desenvolvimento do conhecimento científico dessa doença foi acompanhado da redução nas percepções negativas sobre ela28. O mesmo ocorreu com a aids, e os termos "canceroso" e "aidético" foram banidos dos textos jornalísticos - que, no entanto, ainda abusam do uso metafórico da esquizofrenia e dos termos "viciado" e "drogado" para indicar o dependente químico. O uso impróprio dessas metáforas é um reflexo das crenças em vigor na sociedade a respeito dos grupos estigmatizados, e doenças envoltas em mistério seriam mais suscetíveis a esse tipo de uso, chamado de metafórico5. Por esse raciocínio, os transtornos mentais hoje teriam mais chances de aparecerem como metáforas nos meios de comunicação de massa, tanto pelo estigma que carregam como pela menor compreensão que a medicina tem sobre eles em relação aos seus outros objetos de estudo. Em uma ampla análise de jornais norte-americanos, foi observado que a esquizofrenia substituiu o câncer como metáfora nos veículos estudados e que esse uso impróprio contribui para a perpetuação do estigma e da falta de compreensão sobre esse transtorno psicótico29.

Na análise realizada, pôde-se observar o uso não médico do termo esquizofrenia de forma depreciativa e recorrente nas duas fases de levantamento. Ele está presente tanto na fala dos entrevistados como da equipe de jornalistas do veículo analisado, sem preocupação com possíveis efeitos deletérios. Se houvesse preocupação em relação aos seus efeitos negativos, o mesmo poderia ser evitado, ainda que na fala dos entrevistados. Se registramos avanço no uso dos termos "câncer" e "aids", estes parecem ter sido substituídos por "esquizofrenia", em concordância com estudos de notícias publicadas em jornais de paí­ses do hemisfério norte5. Hoje é consenso entre os psiquiatras que estudam a questão do estigma dos transtornos mentais que o uso metafórico da esquizofrenia é indevido e reforçador de estereótipos e preconceitos4. Entender o conceito de esquizofrenia de maneira inadequada dificulta sua aceitação social e contribui para a relutância de uma parcela considerável de seus portadores em procurar auxílio para a sua condição. A mídia teve papel decisivo tanto na divulgação de informações sobre o câncer como da aids e, dessa forma, contribuiu e ainda contribui para a prevenção e detecção precoce dessas doenças. Pode ter a mesma participação no combate ao estigma que pesa sobre o paciente psiquiátrico e, em especial, sobre o portador de esquizofrenia.

Diante desse cenário, faz-se necessária mobilização, em especial dos profissionais de saúde mental, para a redução da estigmatização da psiquiatria e dos transtornos mentais, com destaque para a esquizofrenia, como acontece no panorama mundial4,30. Um requisito básico de tais programas é se pautarem na multiplicidade e na versatilidade de intervenções, de modo a atingir os mais diversos setores culturais da sociedade e sensibilizar o maior número de pessoas possível. São intervenções educacionais e de disponibilização de recursos em saúde mental de caráter generalizado e contínuo, de forma a se tornarem integrantes da cultura e das práticas em saúde pública, uma vez que intervenções pontuais, isoladas ou de curta duração têm demonstrado efeito limitado no combate ao hábito social historicamente enraizado de estigmatizar os portadores de transtornos mentais.

No caso dos meios de comunicação de massa, a experiência canadense é um exemplo a ser conhecido. Com estratégia voltada para os jornais locais de maior circulação, seu objetivo era aumentar o número de reportagens positivas sobre esquizofrenia, bem como o seu tamanho, e para isso foram oferecidos: premiação nacional para reportagens sobre esquizofrenia; conferências e eventos para esclarecimento da imprensa; sugestões de pautas diretamente a repórteres e editores. Os participantes da intervenção ficaram à disposição da imprensa como consultantes, a fim de servir de fonte de informação rápida aos repórteres. Na média, o número de reportagens positivas aumentou em 33% e sua contagem de palavras, em 22% por reportagem; entretanto, o número de matérias negativas também cresceu, em 25%, e sua contagem de palavras por reportagem dobrou. A constatação foi que o comitê de intervenção conseguiu influenciar o noticiário local de forma positiva, mas não o noticiário global: casos notórios à época vindos de fora fluíram para as redações por meio de fontes internacionais que atribuíam o diagnóstico de esquizofrenia a acusados de atos de violência30.

 

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Endereço para correspondência:
Francisco Bevilacqua Guarniero
Rua Catalão, 203, Sumaré
01255-020 - São Paulo, SP
E-mail: fguarniero@gmail.com

Recebido: 5/4/2012
Aceito: 4/5/2012

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