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Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo)

Print version ISSN 0101-6083

Rev. psiquiatr. clín. vol.40 no.3 São Paulo  2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832013000300006 

SÉRIE MENTE-CÉREBRO

 

A importância da consciência ternária* para superar as inadequações da psiquiatria contemporânea

 

 

Claude Robert Cloninger

Wallace Renard Professor of Psychiatry, Genetics, and Psychology, Washington University School of Medicine

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os seres humanos evoluíram em etapas, de modo que nossa consciência desenvolveu três componentes centrais – aprendizagem processual de hábitos e habilidades, aprendizagem semântica de fatos e proposições e autoconsciência de uma identidade que se desenvolve ao longo do tempo e do espaço. Consequentemente, a consciência humana implica o crescimento de nossa subjetividade, integrando esses três aspectos da aprendizagem e da memória. A psiquiatria contemporânea é substancialmente comprometida por um viés antiespiritual que está implícito nas abordagens operacionais de diagnóstico, pesquisa e tratamento. A subjetividade humana não pode ser devidamente desconstruída em uma coleção de objetos independentes entre si, livres de qualquer contexto psicossocial, tal como a que é habitualmente assumida em uma abordagem do tipo "menu chinês" utilizada para o diagnóstico e entrevistas estruturadas. Perspectivas materialistas predispõem os indivíduos a assumirem uma visão de separação que compromete o bem-estar tanto dos profissionais de saúde mental quanto de seus pacientes. O progresso no diagnóstico psiquiátrico, bem como nas formas de tratamento, requer abordagem centrada na pessoa, capaz de respeitar e valorizar a subjetividade humana e promover o cultivo de virtudes tais como esperança, amor e coragem, bem como o uso criterioso de outros métodos psicobiológicos de tratamento. O funcionamento saudável requer o desenvolvimento da autotranscendência, além do autodirecionamento e da cooperatividade. Sem a autotranscendência as pessoas estão consumindo mais recursos do que a terra pode repor. A busca do bem-estar individual, na ausência do bem-estar coletivo, é uma ilusão autodestrutiva. Consequentemente, a psiquiatria contemporânea precisa centrar sua atenção na compreensão da consciência humana por meio de uma via ternária equilibrada, em vez de tentar reduzir as pessoas a objetos materiais separados.

Palavras-chave: Consciência ternária, autodirecionamento, cooperatividade, autotranscendência, psiquiatria.


 

 

Introdução

Os seres humanos desenvolveram a capacidade para uma consciência ternária, isto é, o conhecimento dos componentes físico, mental e espiritual que constituem nosso ser1. Há consenso de que percebemos o mundo material por meio dos sentidos físicos, bem como de que somos capazes de adaptação mediante processos cognitivos inteligentes. No entanto, há grande controvérsia sobre a validade da distinção entre os fenômenos mentais ("mente 1") e espirituais ("mente 2")2. Na terminologia de Chalmers, a "mente 1" se refere ao raciocínio intelectual baseado na aprendizagem semântica, enquanto a "mente 2" se refere a criatividade, livre arbítrio, dons e outras habilidades autotranscendentes, como a percepção extrassensorial (PES)3. Neste artigo introdutório, consideraremos, inicialmente, as evidências objetivas da evolução da consciência ternária nos seres humanos. Em segundo lugar, consideraremos as razões históricas e metodológicas que fizeram da espiritualidade um assunto controverso em profissões ligadas à saúde mental. Depois, serão considerados os mecanismos psicológicos que motivam a persistência de paradigmas materialistas inadequados. Finalmente, se descreverá por que uma abordagem mais geral em psiquiatria, baseada na consciência ternária, é crucial para o progresso da psiquiatria enquanto um campo científico, bem como terapêutico.

 

Evidências objetivas da evolução de uma consciência ternária em seres humanos

A possibilidade de vida após a morte é o mais antigo de todos os mistérios, como mostram os rituais de sepultamento dos primeiros Homo sapiens4. Na verdade, o questionamento a respeito da espiritualidade surgiu com o desenvolvimento da linguagem narrativa, da arte e da ciência. A arte, a ciência e a espiritualidade humanas são todas expressões básicas da autoconsciência, exclusivas dos seres humanos modernos4-6. Assim, uma característica fundamental dos seres humanos é a nossa necessidade de explorar e compreender as fronteiras das relações entre corpo, pensamento e espiritualidade. Em outras palavras, os seres humanos possuem um impulso natural para desenvolver a consciência ternária.

Os seres humanos têm sido descritos – apropriadamente – como a "evolução consciente de si mesmo", como afirmou o antropólogo Sir Julian Huxley7. Desse modo, é natural que os seres humanos busquem compreender a natureza do cosmos e seu lugar nele, para que consigam satisfazer suas necessidades e viver bem, com saúde e felicidade. Para atingir tal objetivo, é necessário reconhecer que a experiência consciente dos seres humanos inclui o aprendizado sobre como se adaptar a uma ampla gama de circunstâncias. De fato, os seres humanos precisam se adaptar a cinco tipos principais de situações: sexual, material, emocional, intelectual e espiritual5. Entre essas cinco situações adaptativas, a espiritualidade é a que se desenvolveu mais recentemente, e sua evolução pode estar incompleta, resultando, assim, em diferenças marcantes entre pessoas em relação a traços como altruísmo e dons como clarividência ou percepção extrassensorial. Exemplos extraordinários de tais dons paranormais são descritos e discutidos detalhadamente em outra publicação2 e questionam o viés contra a possibilidade desses fenômenos na psiquiatria contemporânea.

Espiritualidade é definida como a busca por aquilo que está além da existência humana6. A experiência pessoal direta do transcendente é uma parte importante e satisfatória na vida da maioria das pessoas. A maioria das pessoas tem tido experiências de pico, de inseparabilidade ou sentimentos oceânicos, independentemente de suas crenças ou dúvidas religiosas5,8. Por exemplo, muitos indivíduos relatam: "às vezes tenho sentido como se eu fosse parte de algo, sem limites ou fronteiras no tempo e espaço" ou "frequentemente me sinto tão conectado com as pessoas ao meu redor que é como se não houvesse separação entre nós". Além disso, as pessoas passam mais tempo, em média, fazendo orações ou meditando do que tendo relações sexuais5,9. O fato de que tais experiências autotranscendentes sejam um aspecto tão frequente e inspirador da vida humana sugere que a ciência jamais poderá compreender bem a natureza humana sem investigar os fenômenos autotranscendentes. Reconectar ciência e espiritualidade é importante para haver entendimento racional e abrangente da humanidade e do mundo10 e, como se verá mais adiante, essa reconexão é realmente essencial para o futuro progresso do diagnóstico, da pesquisa e do tratamento psiquiátrico.

 

Por que a consciência espiritual é controversa?

As necessidades espirituais humanas têm suscitado questões perenes acerca de como se pode compreender as experiências de quase-morte e as possibilidades de vida após a morte, como a reencarnação, espíritos dos mortos e estados de possessão espiritual ou mediunidade. Essas questões espirituais básicas têm implicações importantes para nossa perspectiva sobre a vida, de modo que não surpreende que as respostas sugeridas tenham levado a muita especulação e controvérsia. Por exemplo, Freud expressou dúvidas sobre quaisquer crenças em vida após a morte, porque isso poderia ser explicado como a busca em satisfazer fantasias ligadas aos nossos desejos. Contudo, seu ceticismo sobre a espiritualidade humana era baseado em um erro lógico6. Apenas porque desejamos algo não significa que isso seja falso ou uma fantasia. As pessoas frequentemente desejam comida para satisfazer sua fome, mas isso não quer dizer que essa comida não seja real. As necessidades e desejos das pessoas existem porque possuem função real. A maturidade de um ser humano exige a integração de toda a gama de suas necessidades sexuais, materiais, emocionais, intelectuais e espirituais de forma coerente e baseada na realidade11.

Aquilo em que as pessoas acreditam e as suposições que elas fazem a respeito da vida e da natureza humana são altamente dependentes das influências culturais. Indivíduos que vivem em uma única cultura ou que rejeitam investigar as outras podem ter dificuldades em reconhecer a estreita influência de sua cultura particular em sua forma de pensar. Na verdade, os pressupostos materialistas dominantes nas culturas ocidentais contemporâneas são atípicos em relação a outras culturas modernas. Ao redor do mundo, a crença em espíritos e em reencarnação é comum e não está associada a evidências de pensamento mágico ou fantasia12. Tais fatos, contudo, não nos dizem se esses fenômenos espirituais são verdadeiros, mas apenas que culturas diferentes possuem pressupostos diferentes. Como resultado, uma pessoa comprometida com a ciência precisa estabelecer fatos confiáveis a respeito dos fenômenos espirituais e testar modos alternativos de explicar tais fatos.

Alguns de nossos maiores cientistas foram intensamente preocupados em entender o fenômeno espiritual, incluindo Newton e Wallace. No final do século XIX havia interesse bastante difundido, entre os acadêmicos, a respeito de tais fenômenos, até que muitos supostos médiuns foram descobertos como fraudes13. Desde então, tem havido grande resistência entre os acadêmicos mesmo em considerar a possível realidade de vida após a morte, como sugerido por médiuns e clarividentes. Apenas os cientistas empíricos mais corajosos, como Hans Eysenck e Ian Stevenson, têm declarado seus achados que corroboram as habilidades paranormais, como percepção extrassensorial ou lembranças de vidas passadas12,14. Embora haja exceções notáveis, como Francis Collins15, atualmente a maioria dos principais cientistas dos Estados Unidos é altamente materialista e rejeita a crença em qualquer coisa transcendente, como acreditar em Deus ou em vida após a morte16. Como consequência, há grande pressão social entre os cientistas para reduzir todas as explicações científicas a mecanismos materiais e a rejeitar a consideração de quaisquer fenômenos que não possam ser explicados por mecanismos materialistas. Assim, consideram tais fenômenos como uma tolice impossível ou resultado de inadequado rigor científico na observação do fenômeno. Apesar da persistente pressão dos materialistas16, uma maioria crescente de pessoas da população geral, mesmo as não religiosas, possui consciência espiritual sobre algo além da existência humana8. Enquanto aproximadamente 75% da elite acadêmica nos Estados Unidos rejeitam fenômenos transcendentais, mais de 85% da população geral os aceitam16,17. O interessante é que a rejeição de tais fenômenos por parte dos acadêmicos é relacionada mais ao seu contexto social do que à sua inteligência ou capacidade científica17,18. Suas razões para a falta de fé são, com frequência, profundamente pessoais e filosóficas, como o questionamento sobre a origem do mal no mundo19.

Felizmente, progressos substanciais estão ocorrendo (em níveis filosóficos e empíricos), a fim de reparar a lacuna explicativa (explanatory gap) entre as descrições físicas e subjetivas da consciência, na compreensão das relações mente-corpo. Não obstante, a responsabilidade dos paradigmas alternativos é demonstrar a maior utilidade e poder explicativo dos modelos mais abrangentes que admitem os três componentes dos seres humanos – corpo, pensamentos ("mente 1") e psique ("mente 2")5. O principal problema dos modelos alternativos tem sido o fato de que os fenômenos paranormais envolvem, com frequência, funções verdadeiras com pensamento mágico e/ou fraude. Naturalmente, é um erro de lógica concluir que nada é real porque alguns exemplos não são. Mas como os cientistas podem excluir o ruído das alegações enganosas de algumas pessoas que falsamente proclamam habilidades paranormais?

Quando eu estava desenvolvendo uma medida de espiritualidade, chamada de escala de autotranscendência, como um componente do Inventário de Temperamento e Caráter20, fiquei embaraçado ao observar que crenças em habilidades paranormais, como PES, eram um indicador confiável de altos escores em autotranscendência, como descrevi anteriormente2. A crença em PES é uma característica da autotranscendência, assim como o são as experiências de pico de infinitude e inseparabilidade5. Considerei eliminar exatamente esses itens paranormais a fim de evitar a crítica dos materialistas, mas escolhi respeitar a verdade e a confiabilidade de meus achados, descrevendo sem preconceitos os fenômenos que eu observava. Estou satisfeito por ter agido assim, pois de outro modo teria negligenciado ou me equivocado em relação a alguns fenômenos clinicamente importantes ligados à expressão da espiritualidade.

Alta autotranscedência é caracterizada por criatividade e sabedoria quando está combinada com alto autodirecionamento. Ao contrário, quando combinada com baixo autodirecionamento é caracterizada por pensamento mágico e aberrações perceptuais5,21. Em outras palavras, a apreciação das maravilhas e dos mistérios da vida sempre promove sentimentos bons, mas alguns pensamentos que fazem uma pessoa se sentir bem podem ser apenas fantasias e autoengano. Consequentemente, as experiências paranormais podem ser produzidas tanto por extroversão saudável quanto por psicoticismo não saudável, utilizando a terminologia de Hans Eysenck14. Pessoas que desfrutam vidas realistas e produtivas devem combinar a investigação imaginativa com um teste de realidade rigoroso, como fazem os artistas criativos, os cientistas e os místicos. Da mesma forma, para resultados reproduzíveis em ciência, pessoas que relatam experiências paranormais precisam ser avaliadas em relação à maturidade e à integração de sua personalidade.

A natureza dual da autotranscendência constitui o ponto crucial do desafio científico no estudo dos fenômenos espirituais em relação à consciência. Há fenômenos transcendentes genuínos e reproduzíveis que precisam ser mais bem compreendidos, mas também há muita superstição e engano. O desonesto torna difícil e desafiadora a identificação do honesto. Contudo, constitui grave erro de lógica rejeitar o que é real por causa de alguns exemplos de fraude ou fantasia. Alguns casos de fenômenos espirituais são difíceis de rejeitar se analisados por pessoa livre de preconceitos, como aqueles documentados ao longo desse corajoso e informativo livro2 e da presente série de artigos resultante de estudos sobre a relação mente-cérebro. Edgar Cayce, por exemplo, é um caso particularmente bem documentado de dom paranormal (i.e., transcendente)18. É importante reconhecer que até mesmo esses exemplos marcantes não são perfeitamente precisos, assim como observadores de eventos reais também não são consistentemente precisos.

 

O que motiva a persistência de paradigmas materialistas inadequados?

É útil lembrar a alegoria da caverna de Platão, em que os observadores, em sua maioria, são como prisioneiros condenados a olhar para as sombras que representam a realidade, enquanto poucos encontram seu caminho para uma visão direta e não distorcida da realidade22. Na alegoria de Platão, os prisioneiros estão acorrentados às suas cadeiras, logo não podem virar-se e sair.

Quais são as correntes que prendem as pessoas para que elas persistam numa adesão orgulhosa a paradigmas materialistas inadequados? As correntes são, principalmente, o condicionamento social de atitudes e crenças dentro de uma cultura ou profissão, frequentemente reforçadas pela relutância em admitir erros passados e abrir mão do orgulho e do poder que vem ao lado da ilusão da expertise acadêmica. Resumindo, é a combinação do condicionamento, do desejo excessivo de controle e do orgulho falso. Como resultado, mudanças de paradigma geralmente dependem da extinção da "velha guarda" e da emergência de uma nova geração de pensadores que estão abertos a uma abordagem radicalmente nova23.

Frequentemente é difícil, mesmo para as pessoas desprovidas de preconceito, reconhecer como estão acorrentadas a formas obsoletas e ineficazes de pensamento. Há um viés disseminado contra a espiritualidade na psiquiatria e na psicologia que é o resultado do desejo de reproduzir o rigor e a precisão das ciências físicas, bem como resultado da influência de céticos religiosos como Freud e Skinner2. Esse viés é disfarçado de forma atrativa sob o manto do positivismo e do operacionalismo, os quais apelam para aspirações de status e respeito por meio de pretensões de objetividade e rigor. Contudo, a epistemologia "operacionalista" contemporânea não contempla a necessidade crucial de valorização do contexto psicossocial e da subjetividade na psiquiatria24-26. Até mesmo os criadores da abordagem checklist, na Universidade de Washington, tinham entendimento do processo de diagnóstico psiquiátrico mais centrado na pessoa do que aquele implementado no DSM, em 198027. A subjetividade humana não pode ser adequadamente desconstruída em uma coleção de objetos mutuamente independentes sem o contexto em uma consciência subjetiva de uma pessoa, como geralmente assumido na abordagem do tipo "menu chinês" para o diagnóstico e entrevistas estruturadas28,29. Consequentemente, o diagnóstico médico do tipo checklist é um claro exemplo do viés antiespiritual na psiquiatria contemporânea, tal como aquela popularizada em versões sucessivas do DSM, desde 1980 até o presente momento30,31. Essa perspectiva nos influencia, sutilmente, a pensar os episódios da narrativa da vida de uma pessoa como objetos separados ou como coleção de objetos. Por sua vez, essa abordagem objetiva nos condiciona a uma perspectiva desumanizante, uma visão de separação, a qual estigmatiza a outra pessoa como um objeto defeituoso. Uma visão de separação emerge sempre que negligenciamos as conexões espirituais imateriais que unem todas as coisas em uma unidade holística em uma consciência subjetiva.

Empiricamente não há fronteiras nítidas ("zonas de raridade") separando as síndromes clínicas da psiquiatria32,33. Quando existe qualquer separação, ela é incompleta (tanto fraca quanto transitória)34,35 e podemos explicá-la como uma configuração metaestável de um sistema dinâmico não linear5. Até o DSM-IV reconhece explicitamente que seus "transtornos" não deveriam ser considerados como tendo fronteiras nítidas, mas, apesar disso, requer números específicos de itens de um "menu chinês" como pontos de corte, proporcionando, assim, uma ilusão de separação precisa onde, de fato, não há30. Essas distinções ilusórias são, então, reificadas na prática, tanto que o DSM é descrito como a "Bíblia" da psiquiatria contemporânea.

Por que pessoas inteligentes continuam repetindo seus erros seguidamente? Sugiro que a principal razão pode ser encontrada em uma fraqueza dos indivíduos com perfis organizados de caráter, que são os perfis socialmente favorecidos nas culturas ocidentais seculares36. As pessoas nascem com necessidade natural por virtudes, tais como justiça e igualdade, que são expressadas na medida do desenvolvimento da autoconsciência37. No entanto, nas culturas ocidentais as normas sociais favorecem o aumento do autodirecionamento e da cooperatividade, juntamente com a diminuição da autotranscendência entre os 20 e os 45 anos de idade. Apenas mais tarde, quando as pessoas enfrentam situações derradeiras, como sua própria mortalidade, é que a autotranscendência volta se elevar36. Infelizmente, perfis organizados de caráter não são autotranscendentes, mas sim motivados amplamente por seus próprios interesses e por aqueles comuns às pessoas próximas a eles. Como resultado, esses indivíduos lutam para manter o poder e a riqueza, independentemente das consequências disso para as pessoas que estão distantes. Elas querem acreditar que seus esforços manterão as condições que as levaram ao sucesso, de modo que são facilmente manipuladas pelas desinformações de outros indivíduos que ocupam posições de poder e de influência.

Dessa forma, escolhemos líderes com caráter organizado, os quais, frequentemente, servem a interesses especiais mais do que buscam o bem-estar daqueles a quem deveriam servir. Pessoas que são consideradas experts querem manter seu status, de modo que persistem no paradigma que lhes ofereceu a influência obtida. A resistência à mudança de paradigmas científicos inadequados é semelhante à negação da mudança climática por líderes do governo que pretendem continuar com os padrões de consumo que apoiam seu domínio contínuo, mesmo que isso possa precipitar a extinção em massa do planeta. Os fenômenos espirituais realmente importam: a menos que a humanidade se torne mais autotranscendente, estaremos arriscando nossa própria extinção38.

 

A importância crucial da consciência ternária para o progresso da psiquiatria

Infelizmente a abordagem operacional da medicina incorpora um forte viés para enxergar pessoas adoecidas como objetos defeituosos. Isso ocorre porque essa perspectiva está baseada no pressuposto de que os sinais e sintomas da doença podem ser desconstruídos em objetos descontextualizados e independentes uns dos outros29. Os pacientes da psiquiatria contemporânea frequentemente se queixam da falta de empatia e de compaixão dos psiquiatras, os quais não os escutam mais do que precisam para poder renovar ou mudar suas prescrições de psicotrópicos. Outros reclamam que os profissionais, com seus tratamentos coercitivos e excessivamente medicamentosos, os reduzem a zumbis, ou seja, a um corpo sem alma ou livre-arbítrio39.

Em outras palavras, os diagnósticos operacionais e as terapias somáticas, sozinhos, falham em reconhecer ou promover o papel essencial das virtudes humanas como a esperança, a coragem e o amor no desenvolvimento (ou na recuperação) do bem-estar40. Tal desenvolvimento do bem-estar é a nobre jornada do herói. Essa jornada acontece por meio da autoconsciência, na medida em que nossa identidade pessoal cresce na conscientização de como se adaptar às provas e oportunidades da vida.

Em qualquer cultura os indivíduos mais saudáveis e mais felizes possuem uma configuração de personalidade "criativa", caracterizada por alto desenvolvimento do autodirecionamento, da cooperatividade e da autotranscendência, como mensurado pelo Inventário de Temperamento e Caráter5,41. No entanto, como mencionado anteriormente, estudos longitudinais conduzidos em culturas seculares revelam aumento no autodirecionamento e na cooperatividade, porém diminuição na autotranscendência, especialmente entre a faixa etária que vai da adolescência aos 45 anos. Isso significa que a influência da cultura secular frequentemente age reduzindo a autotranscendência até a meia-idade, mesmo que ela se caracterize como uma perspectiva de vida mais unificada e mais feliz em todas as configurações dos demais traços de personalidade41.

Na população em geral, o baixo desenvolvimento da autotranscendência é caracterizado por sentimentos de infelicidade, diminuição da autoestima, sentimentos de vazio e alienação em relação às outras pessoas e ao mundo como um todo. A negligência dos fenômenos transcendentes por parte da ciência pode ter um preço elevado, especialmente em esforços para reduzir a consciência ao estado de zumbi, restrita unicamente a mecanismos físicos no qual a subjetividade, o autodirecionamento e o livre-arbítrio são considerados como ilusões3.

A importância de todos os três traços de caráter é evidenciada pelos achados da "terceira onda de psicoterapias", que buscam solucionar as limitações das abordagens "comportamental" e "cognitivo-comportamental" anteriores5,11,42. As terapias cognitivo-comportamentais são efetivas na promoção do autodirecionamento e, até certo ponto, da cooperatividade, porém não abordam a autotranscendência. Em contraste, a terceira onda de psicoterapias, como a Terapia Cognitivo-Comportamental baseada em mindfulness, a Terapia Comportamental Dialética e a Terapia de Aceitação e Compromisso, reduz as desistências de tratamento e melhora os resultados em relação à saúde física, mental e social. Isso acontece porque incluem elementos de mindfulness e práticas espirituais relacionadas, que também promovem a autotranscendência5,11,42.

 

Conclusão

Os psiquiatras contemporâneos precisam ser claramente lembrados de que o materialismo estrito é um paradigma inadequado e enganador – o imperador doente e nu de nossa era científica excessivamente materialista2. A fim de restaurar o equilíbrio da investigação científica, precisamos simplesmente reconhecer que a consciência dos seres humanos possui uma natureza ternária que se desenvolveu hierarquicamente no decorrer de nossa longa história de evolução. Tal fato incluiu a aprendizagem procedimental de hábitos e habilidades de nossos primeiros ancestrais vertebrados, a aprendizagem semântica de símbolos e fatos em macacos antropoides e primeiros humanos e a aprendizagem autoconsciente da linguagem narrativa, da arte, da ciência e da espiritualidade em seres humanos modernos1,4.

Em minha opinião, a melhor maneira de servir à verdade científica é por meio de investigação sem preconceitos das poderosas interações entre os mecanismos materiais, cognitivos e espirituais, posto que os componentes ternários da consciência jamais operam isolados uns dos outros43. Um cientista não pode controlar o que não mede ou o que escolhe ignorar por negar sua realidade. Em contraste, podemos evitar as armadilhas do reducionismo usando uma abordagem psicobiológica integrativa, permanecendo atentos a toda gama de fenômenos que podem nos informar sobre a natureza ternária da consciência humana.

 

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Endereço para correspondência:
Claude Robert Cloninger.
Washington University School of Medicine, 660 South Euclid Avenue
St. Louis, MO 63131, United States.
E-mail: crcloninger44@gmail.com

Recebido: 12/4/2013
Aceito:15/4/2013

 

 

Tradução: Letícia Oliveira Alminhana e Tiago Tatton
Revisão da tradução: Alexander Moreira-Almeida
* O termo original "ternary awareness" não possui tradução exata para a língua portuguesa. Optamos aqui por "consciência ternária", porém outras traduções (desde que contextualizadas) são aceitáveis, tais como "cognição ternária" ou "compreensão ternária"

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