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Serviço Social & Sociedade

versão impressa ISSN 0101-6628versão On-line ISSN 2317-6318

Serv. Soc. Soc.  no.127 São Paulo set./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.082 

ARTIGOS

Trajetória acadêmica de professoras aposentadas do Serviço Social

Teaching and the academic career of retired teachers of social work

Paula Fabrícia Brandão Aguiar Mesquita1 

1Assistente social, doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará - UFC, pós-doutorado em Serviço Social pela UECE, Fortaleza/CE, Brasil; bolsista Capes. paulafbam@gmail.com

Resumo:

A discussão deste texto originou-se de uma pesquisa de pós-doutoramento, no qual se investigam as docentes aposentadas do curso de Serviço Social da UECE. A curiosidade advém de compreender as trajetórias dessas professoras, pioneiras do curso, e perseguir o sentido que atribuíram à prática docente. Foram revelados a relevância da experiência profissional como condição para o magistério, a ausência de mestrado e doutorado na sua formação, além de fortes traços humanistas em seus discursos.

Palavras-chave: Docência; Trajetória acadêmica; Serviço Social

Abstract:

The following discussion stemmed from a post-doctoral research, which investigates the retired teachers of UECE's Social Service course. Curiosity is derived from the understanding of the trajectories of these teachers, the pioneers of this Course, and from the pursuit of the meaning which they have granted to teaching practice. The relevance of professional experience has been revealed as a condition for teaching; the inexistence of Masters and Doctorate degrees in their training, plus strong humanistic traits in their speeches.

Keywords: Teaching; Academic career; Social Service

Introdução

A curiosidade sobre o tema se precipitou ainda na minha tese sobre o envelhecimento feminino, na qual buscava dar conta de uma "nova velhice" protagonizada por mulheres cearenses com idade superior a 60 anos que usufruíam de grande liberdade e de autonomia na condução de suas vidas pessoais e profissionais. Ali havia uma fenda, apontada por elas, de que essa liberdade só era possível por pertencerem a uma das primeiras gerações de mulheres a adentrarem os muros da Universidade, a terem uma profissão e hoje possuírem aposentadorias.

Essas observações foram guardadas para que pudessem depois ser trazidas à luz em um novo estudo reflexivo sobre mulheres em decurso de envelhecimento, mas, dessa vez, demorei o olhar, observando ao redor. Percebi que as professoras que ministraram aula ainda na minha graduação, continuavam retidas nas salas de aula. Havia, supostamente, dificuldade em sair da universidade, e muitas delas esperavam a aposentadoria compulsória. Os discursos eram estes: o fato de considerarem um absurdo ter que "apagar as luzes" no auge do conhecimento; ou, ainda, aquelas que avaliavam a sala de aula como um estímulo, por encontrarem semestralmente alunos com ideias novas e que não saberiam como seria depois da aposentadoria.

O Serviço Social é fortemente ancorado por um quadro de professoras, e muitas delas aposentam-se quando não há mais possibilidade de continuar, quando são obrigadas a deixar compulsoriamente o trabalho. Pelos meus estudos anteriores, observei que muitas mulheres de outras áreas queriam a aposentadoria na primeira oportunidade que tinham, quando agregavam tempo de serviço. Haveria alguma diferença da docência na universidade para outros trabalhos? Que sentido as professoras do Serviço Social atribuíam ao seu trabalho como docentes e ao de assistente social nas instituições públicas? Qual seria o ethos profissional e que marcas traziam da sua formação?

O caminho para esta pesquisa foi composto de muitas recusas! As professoras aposentadas com quem mantive contato recusaram-se, peremptoriamente, a dar entrevistas sobre o tema. Justificavam esse comportamento por não terem interesse em falar sobre suas carreiras, sobretudo por já fazer tanto tempo que estavam afastadas, ou, ainda, porque estavam ocupadas cuidando de netos ou de outros parentes; outra disse que não era a pessoa certa para falar sobre docência, uma vez que, na primeira oportunidade que teve de sair, o fez, por considerar a docência algo trabalhoso, dentre outras justificativas. Desse modo, o assunto foi parecendo um tabu.

Logo após mais de dez ligações, e antes de desistir do tema, tracei uma estratégia: pedi para duas professoras, que estavam há bastante tempo no curso, fazer contato com algumas das aposentadas, que falassem da minha pesquisa, e só então eu ligaria, caso houvesse interesse. Isso é um recurso por vezes empregado nas Ciências Sociais, oportunidade em que os pesquisadores procuram a autoridade de um terceiro para conseguir entrevistados para suas investigações. Alguns definem como padrinhos/madrinhas de campo, e assim compreendo. Foram feitas quatro entrevistas ao todo. E desse modo essa pesquisa foi desenvolvida! Três professoras foram sensibilizadas por essas "madrinhas" de campo, e com outra consegui marcar falando diretamente. As entrevistas em profundidade foram utilizadas como instrumento para adentrar esse universo, investindo em pontos fortes da pesquisa, até o escasseamento das dúvidas. São entrevistas mais longas, a exemplo da primeira, na qual cheguei à residência da professora às 17 horas e só saí depois das 20 horas.

O objetivo era, sobretudo, compreender quem são essas docentes, suas trajetórias como professoras universitárias, motivações e interesses na área e como recordam na aposentadoria. A pesquisa efetivou-se com professoras aposentadas, com idade de 69 e 82 anos, tendo como critérios para a escolha: ser professora aposentada do curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará; ter trajetória considerada relevante para o curso; ter disponibilidade para a entrevista, compreendida como um processo reflexivo, de abordagem das memórias e de construção de sentidos das suas biografias.

Das docentes entrevistadas, três eram cearenses, formadas no Instituto Social,1 vinculado à Igreja Católica, e não possuíam mestrado. Apenas uma formou-se em uma universidade do Sudeste do país e possuía mestrado. Todos os nomes foram alterados, embora as interlocutoras advertissem que não era necessário, mas preferi assim, para que houvesse maior liberdade para falar sobre suas trajetórias e a universidade na qual lecionaram.

Rememorando trajetórias: a formação em Serviço Social e os caminhos da docência

Que sujeitos são esses que passam 2/3 de suas vidas entre carteiras e cadernos, entre provas e notas, entre currículos e giz? (Stano, 2001, p. 8)

O fato de ser professora universitária carrega em si alguma diferença de outras áreas de atuação profissional. Essa era uma hipótese que precisava ser analisada com suporte na perspectiva das narrativas e trajetórias de vida dessas mulheres. Não cansei de olhar em volta, sobretudo em busca de explicações para questões mais gerais. Fui cindindo pequenas peças que posteriormente se juntaram e, quando menos esperava, estava de posse de um todo imbuído de sentido. Assim, observei, não veem a hora de se aposentar por tempo de serviço, ao contrário de grande parte dos professores de universidade, os quais, quanto mais acumulam conhecimento, mais dificuldade têm de procederem o afastamento.

Todas as docentes entrevistadas tiveram papel importante na formação e consolidação do curso de Serviço Social na UECE, tanto por terem sido professoras por mais de trinta anos, quanto pelo fato de haverem ocupado, durante certo tempo, posições de chefia, coordenação e cargos de destaque nas pró-reitorias daquela instituição. Seus nomes foram trocados, conforme já enfatizado, mas preferi assim, por eu saber que, mesmo sem querer, a memória deixa escapar fatos pessoais e subjetivos que poderiam trazer algum mal-estar.

O que significa a docência no ensino superior de Serviço Social? Como surgiu essa perspectiva profissional em suas vidas? Precipito-me em dizer que as características das professoras entrevistadas divergem muito daquelas requisitadas hoje. Isso reflete uma conjuntura nacional em todas as instituições. Na avaliação de Cunha (2010), foi somente no final dos anos 1960 que foram instituídas as pós-graduações no Brasil, bem como os planos de cargos e carreiras das universidades, que passaram a incentivar os docentes a cursar uma pós-graduação. Já nos anos 1980 houve um rompimento com a figura cristalizada de "como ser professor", tendo ocorrido uma busca por profissionalização e qualidade no processo educativo. Agregou-se à Constituição Federal de 1988 o padrão de qualidade como princípio da educação e o resgate dos concursos públicos.

As professoras que iniciaram a docência em Serviço Social em meados dos anos 1960 precisavam ter boa experiência profissional, como condição sine qua non para ensinar. Todas eram muito atuantes em seus empregos como assistentes sociais, trabalhando nas instituições2 do estado e do município de Fortaleza, em hospitais e em projetos sociais importantes e pioneiros na cidade. Elas, unanimemente, citaram o projeto de Aldaci Barbosa como importante para a sua iniciação profissional, revelando ter sido um projeto que trouxe gente do Brasil e do mundo para conhecer a experiência delas e para escutar Aldaci:

O meu primeiro trabalho como assistente social foi no Pirambu com Aldaci Barbosa; ela formou uma equipe para trabalhar lá na comunidade. Foi um trabalho de base bastante interessante. Trabalhava eu [cita nome de várias professoras da UECE]. Depois, Aldaci Barbosa, que já estava no Instituto Social, levou quase toda a equipe para lá, para dar aula no Serviço Social. [Ana]

Isso reflete como era a chegada delas à sala de aula por meio de convites formulados por professoras ou mesmo pela diretora da instituição, ainda o Instituto Social do Ceará, dona Áurea Bessa. Elas precisavam ter certa experiência profissional para ser docentes. Era a experiência que ocupava o lugar do conhecimento teórico e as titulações, exigidos na contemporaneidade.

Nunca é demais lembrar que, naquele momento, ainda não havia concurso público para o curso de Serviço Social no Ceará; esse programa de graduação ainda não estava vinculado à universidade. Os convites eram assim feitos:

Terminei Serviço Social em 1977, quando foi em 78, um ano depois de formada, Aurinha, uma professora adoeceu, e dona Áurea, que era diretora da escola, me convidou pra substituir a Aurinha, e eu fui e fiquei. Como substituta, quando apareceu concurso eu fiz, não era nem externo ainda, era concurso interno. E aí pronto: fiquei no Serviço Social de 1978 a 2000. Me aposentei por tempo de serviço em 2000. Sou de 1946, me aposentei em 2000, tinha 54 anos. [Luíza]

A docência... Eu recebi um convite, porque a pessoa que saiu, passou num concurso, aí eu fui. Depois eu entrei na questão do movimento social. Naquela época era o trabalho com as associações, comunidade, conselhos, então a gente trabalhava muito com eles [...]. Eu comecei pelo Instituto Social, aí depois a UECE assumiu [o curso] porque nós éramos da universidade federal, mas eles nunca encaparam. Quando houve a organização da UECE, aí eles nos chamaram porque precisavam das unidades que estavam isoladas, para que elas se agregassem e formassem o corpo da UECE. Aí depois nós fomos para o campus do Itaperi. [...]. E na época o reitor era o dr. Danísio. Então nós fomos para o Itaperi, e lá a dona Áurea [diretora] era uma mulher incrível, apesar de ser freira. Ela dizia: "Se agregar a uma universidade é outra coisa, o campo amplia, nós não podemos mais ficar isolados!". Antes, nós éramos também sustentadas pela diocese e pela Secretaria de Educação. [Marta]

Eu comecei a dar aula quando ainda estava na Barão de Studart. Depois todas nós fomos para UECE, numa situação difícil porque a gente renovava o contrato de três em três meses, não era substituta, não era nada. Sei lá como é que foi aquilo, a incorporação pela UECE... Sei que a cada três meses a gente estava renovando o contrato. Depois houve a regularização e nos efetivamos em 1981. Não lembro o ano que entrei. Essa memória aqui não lembra, mas ainda era ligado à diocese, a direção era de religiosas, freiras. [Ana]

A docência universitária, ao contrário dos outros níveis de ensino, se constituiu tendo como base a profissão paralela que o docente exercia no mundo do trabalho. As professoras atuavam como assistentes sociais e, além disso, davam aulas no curso de Serviço Social. As entrevistadas, portanto, possuíam dois empregos e, até a aposentadoria, se mantiveram em ambos. Cunha (2010, p. 26) expressa que isso ocorreu também em outros cursos e universidades:

A ideia de que quem sabe fazer, sabe ensinar, deu sustentação à lógica do recrutamento dos docentes da educação superior. Além disso, a universidade, pela sua condição legitimadora do conhecimento profissional, tornou-se tributária de um poder com raízes nas macroestruturas sociais do campo do trabalho, dominadas, fundamentalmente, pelas corporações.

Há uma particularidade em relação a elas - o fato de o Serviço Social não ter sido uma primeira escolha para profissão: duas tinham uma formação anterior, uma na área de saúde e outra na de humanas. A terceira conta que por acaso se inscreveu em Serviço Social, pois queria Sociologia, e a última conta que sonhava em ser engenheira, mas por conta de o curso ser noturno, a mãe não permitiu. Esse quadro não indica, no entanto, uma visão descomprometida em relação ao ofício, depois de adquirido. Pelo contrário, elas revelaram não haver conflito algum com o fato de terem seguido as carreiras como assistentes sociais e docentes.

Absoluta [coincidência ter cursado Serviço Social]. Pensei: "Vou fazer, se eu não passar, faço outra". Foi desse jeito. [...] Mas o que a profissão fazia estava muito em mim. Talvez se eu tivesse feito Sociologia, tivesse sido menos feliz. Acho que eu sou assistente social e fui muito bem resolvida, acho que fiz um trabalho, eu não sou angustiada, não tenho minhas culpas, tenho clareza que trabalhamos em cima das contradições, das possibilidades. Eu não sou uma profissional que tenha grilo. Você foi minha aluna, você sabe disso. [...] Eu fui docente a vida toda, você notou. A docência está em mim. Ela não vem com o Serviço Social. [Laura]

Por que eu ia fazer era Engenharia, eu tinha muita facilidade pra matemática e tudo, minhas três melhores amigas fizeram para Medicina. E eu ia fazer pra Engenharia. Mas naquela época eu, pelo fato de ser filha única, tive uma criação muito rígida e só tinha cursinho pra Engenharia à noite, aí minha mãe não deixou. Eu disse: "Mas mamãe, e agora?". Eu não sei qual foi a informação que ela teve, e ela sugeriu Serviço Social. Aí eu fiz! Isso nos anos 1960, ainda na Aldeota, ainda era a dona Áurea Bessa, uma pessoa extraordinária. Então eu fiz o Serviço Social. Agora era assim: bons professores, ótimos professores, pessoas bem atualizadas. A dificuldade do Serviço Social era mais a questão da bibliografia; a gente tinha que estudar filosofia, isso e aquilo, para dar conta. Mas eu gostei. [Marta]

Então, primeiro parece ter sido forjada uma identidade profissional como assistente social. Há um ethos profissional que constitui essa profissão, numa dimensão interventiva e política muito forte. O Estado brasileiro, visando se legitimar, incorporou parte das demandas dos trabalhadores por via de leis sindicais, sociais e trabalhistas, que demandam ao emergente serviço a função de executor de políticas sociais, imagem existente até hoje.

O Serviço Social carrega o caráter contraditório da profissão, conforme já exposto: a ação do assistente social surge da iniciativa de grupos católicos e sua base social; e se legitima das demandas oriundas das classes sociais que dependem do trabalho para viver. É daí que Fátima Grave Ortiz (2010) revela existir no Serviço Social um ethos profissional que se compõe de fortes matizes constituídos desde sua gênese e que marcam a profissão até hoje. Primeiro que comporta a ambiguidade do assistente social que se inscreve na divisão social e técnica do trabalho e, ao mesmo tempo, é expressão do laicato que a manteve fortemente atrelada à vocação, ao apostolado, deixando suas marcas até hoje. Sentem-se essas marcas no arranjo teórico-doutrinário que impregnou a profissão, podendo ser observados até os anos 1960, no Seminário de Araxá, os princípios do humanismo cristão.

O intenso caráter vocacional tem rebatimentos na profissão ainda nos nossos dias, seja pela dificuldade dos profissionais em reconhecerem amplamente o seu lugar no exercício profissional e na imagem que, segundo a autora, vigora até nossos dias, de que "não precisa de tanto estudo para ser assistente social", denotando um amplo segmento de indivíduos desde primeiras-damas até apresentadores e pessoas que fazem caridade, que se autodenominam como "quase assistentes sociais".

Também faz parte desse ethos profissional o perfil eminentemente feminino. Iamamoto e Carvalho (1986) já refletiam sobre essa questão e afirmavam que a mulher aparecia como aquela que teria qualidades natas para responder às demandas da questão social pela sua naturalização, moralização e "psicologização" dos problemas sociais. A mulher seria ideal em decorrência da vocação para tarefas educativas, de caridade, e que necessitavam de muita paciência e do prazer em servir.

Nos primeiros quadros brasileiros, conforme esses autores, exigem-se representantes do bem e da moral. As candidatas deveriam portar cartas de recomendação, comprovantes de idoneidade, deviam ter de dezoito a quarenta anos, e ter cursado o ensino fundamental. Houve clara tentativa de constituir uma elite virtuosa em torno da profissão.

Conversando com uma professora que está próxima de se aposentar, ela contou que, certa vez, trabalhava numa instituição estatal de Fortaleza e, numa seleção profissional para ocupar determinado cargo de assistente social, ela escolheu uma profissional. Em seguida, foi chamada pela direção do curso, ainda vinculada à Igreja Católica, questionando sua escolha, pois a moça selecionada possuía uma moral questionável, uma vez que tinha "tomado o marido de outra mulher". Iamamoto e Carvalho (1986), ao traçarem o perfil das recrutadas para o curso de Serviço Social nas primeiras escolas, denunciavam a importância que tinham a idoneidade e a formação moral da mulher:

A formação moral seria o coroamento do trabalho de preparação do assistente social, pois, na falta de uma formação moral solidamente edificada sobre uma base de princípios cristãos, a ação seria falha, devido à ausência dos elementos que garantem uma ação educativa, que é visada pelo serviço social. (p. 230)

A terceira tendência alertada por Ortiz (2010) é com relação à subalternidade, se comparada a outras profissões. São determinantes para isso as próprias demandas expressas ao profissional, como a sua capacidade de dar respostas qualificadas.

Iamamoto (1992) já advertia sobre a relevância de compreender a prática social que oscilava entre o messianismo e o fatalismo, sendo ambos aparentemente opostos e, no entanto, estreitamente vinculados. Os dois portam o caráter de investir na prática, concepções naturalizadas e idealistas da vida social. Ali já dizia que era importante entender a prática profissional como expressão da prática social e apostar na recuperação da prática crítica com suporte no pensamento crítico marxista.

Foi possível observar todas essas questões nas docentes entrevistadas, um perfil de profissionais com fortes traços humanistas e que buscavam ajudar o próximo, com uma exceção apenas. É relevante lembrar o fato de o Serviço Social ser um curso interventivo cuja prática se articula à discussão teórica.

Eu já estava como assistente social antes de entrar na universidade. Eu dava aula de manhã e à noite na universidade. E à tarde trabalhava como assistente social. Eu visitava doente no hospital, o acompanhante, eu via o sofrimento daquelas pessoas no hospital, eu acompanhava. Eu levava isso pra sala de aula, eu cansava de dizer: "Gente, você tem que ir para prática, para o dia a dia, porque aí você não vai ter aquele negócio da teoria ser uma coisa e a prática outra. Não é. A prática expressa a teoria que você assumiu, ela não é outra coisa. Você pode é querer ter assumido outro tipo de prática, mas aquela concepção tua tá lá na tua prática. Ela se expressa na tua prática quer você goste dela ou não. Então eu levava sempre exemplo para sala de aula". Elas diziam: "Professora, parece que a gente tá vivendo lá contigo". Eu levava muito o lado da realidade mesmo das pessoas, as suas dores, os seus sofrimentos, seus anseios. Então quando eu saí da universidade, continuei meu trabalho, porque chegou o tempo que eu achei que já tinha dado minha contribuição lá e eu tinha uma parcela do lado de cá pra continuar. [Luíza]

As professoras proferiram que a sua intervenção como assistentes sociais por vezes denotava um peso superior à docência, ou seria mesmo igualmente importante. Uma delas sequer aceitou dar entrevista para falar da docência, avaliando que não teve esse encanto por ensinar. Pelo contrário, o que a motivou foi a prática de assistente social, trabalhar diretamente ajudando e fazendo a diferença na vida dos outros.

Outra narrou que era igualmente importante, mas passou bastante tempo na entrevista discorrendo sobre sua prática como assistente social, presente a tônica educativa e a tutela do cliente que precisava de intervenção moral:

Quando me formei, fui para o Estado. Essa época era muito fácil! Eu estava em casa e me chamaram para que eu levasse os documentos para a instituição e pronto. Eu trabalhei no Bom Pastor, na Casa do Menino Deus, trabalhei em comunidades, mas o meu enfoque era o desvio de comportamento das clientes do Bom Pastor, das meninas abandonadas; tinha casos incríveis: era a questão dos pais com as filhas, essas coisas todas. Eu peguei casos lá de duas meninas irmãs que tinham sido abusadas pelo pai, uma estava grávida e a criança morreu. [...]

Foi muito interessante nossa passagem por lá, nós qualificamos muito lá no Bom Pastor, era qualificação, ajudando as freiras a montarem uma pequena empresa sobre a questão de sorvetes, picolés; nós tivemos orientação de um economista, as freirinhas fizeram isso e se deram muito bem. Aí depois, com o tempo, a coisa foi evoluindo e agora não sei como está.

Depois trabalhei com umas colegas numa creche que era assim um sítio enorme, as criancinhas lá dentro eram muito bem tratadas as bichinhas, mas as mães não vinham visitar. Nosso trabalho lá era treinar o pessoal que cuidava das crianças, formar para adquirir mais informações, para lidar com essas crianças que eram muito carentes. A minha parte era com relação aos filhos com a mãe. Depois de um ano, conseguimos que as mães começassem a se voltar para os filhos. Chegava o momento em que as adolescentes já tinham idade de sair e continuavam lá, então elas iam tomando o espaço. As mães tinham medo de perder o emprego, porque as patroas podiam não gostar do fato de terem filhos. Nós fizemos elas conversarem com as patroas, e elas ficaram muito surpresas com as patroas que eram super-receptivas. Então nós também proporcionamos vários cursos para elas; elas se tornaram cabeleireiras para sobreviver. [...] Também trabalhei no Pirambu, com o padre Hélio e a Aldaci Barbosa, sempre com mães. Lá as mães tinham catorze, quinze filhos, a gente levava os acadêmicos de medicina para orientar. [Marta]

Percebi, efetivamente, como o cariz caritativo, humanista ou de ajuda marcou a formação delas de modo determinante. Ao ouvi-las, me remeti diretamente a Iamamoto e Carvalho (1986, p. 240), ao abordarem esse caráter que marcou a formação dos profissionais:

[...] a mística que se procurava criar em torno da profissão: os modernos agentes de caridade e da justiça social [...] a tutela social que irão estabelecer com relação à população cliente será vista pelos assistentes sociais como um ato de humanismo, despido de cidadania histórica e social, como necessidade natural e cristã sem ligação com a correlação de forças sociais e o confronto de classes. Assim, dentre as características especiais que a profissão necessitará manter, a vocação pessoal tem um papel determinante.

Claro está que essa marca se reporta a uma geração de assistentes sociais formados nos idos dos anos 1960, nos institutos chefiados por líderes católicos ou, ainda, com a base confessional das grandes universidades. Assim é que minha interlocutora, que cursou Serviço Social em uma universidade fora do Ceará, revelou:

Eu sempre fui atuante, monitora da diretora, então me deu uma crise institucional aquele tradicionalismo todo do Serviço Social. E [saí e] falei que não ia mais voltar [para o curso]. A professora me mandou recado e eu voltei, fiz uma catarse e voltei pro curso. Quase abandonei o Serviço Social. Não dava resposta para o que eu queria, eu era muito peituda, enfrentava a professora mais danada! [...] Ela era advogada, mas era uma generala, daquelas de sapato grosso, aquelas velhas... Os alunos tinham pavor a ela, os alunos assistiam aula um aqui e outro ali! Eu era pinto; lembra de mim como professora? Mas nem chego aos pés do que ela era. Eu tirei sete [na disciplina dela, o que] foi um notaço!

Esses depoimentos falam por si, revelando a formação bastante tradicional que essas profissionais tiveram quando ainda cursavam Serviço Social. Essa formação subsidiou toda a sua prática profissional e docente, uma vez que elas fizeram apenas um aperfeiçoamento lato sensu. Todas possuíam especialização; apenas uma tinha mestrado.

As professoras foram indagadas também sobre se consideravam que ser professora universitária representava certo status social, pessoal e profissional. Consoante Pimenta e Anastasiou (2002) avaliam, os docentes no ensino superior, ao preencherem uma ficha sobre qual é a sua profissão, indicam primeiro sua atividade como autônomos, por vezes, seguida de professor universitário.

Quando exercem a docência no ensino superior simultaneamente a suas atividades como profissionais autônomos, geralmente se identificam em seus consultórios, clínicas, escritórios como professor universitário, o que indica clara valorização social do título de professor. É frequente o uso dessa identificação nas placas, cartões e receituários de médicos, advogados, dentistas, arquitetos. Entretanto, o título de professor sozinho sugere uma identidade menor, pois socialmente parece se referir aos professores secundários e primários. (p. 35)

Foi assim que as professoras também admitiram certo status profissional no fato de ser professora universitária. "Não deixa de ser, embora eu nunca tenha sido muito ligada nisso!", declarou Ana. E, considerando essa mesma linha de pensamento, foram as outras:

Num país marcado pela exclusão, pela desigualdade, não deixa de ser um prestígio social, pois quem ocupa determinada profissão é considerada importante, embora eu não ache isso. Mas a sociedade como um todo, quando você diz que "eu sou professora da universidade", a pessoa considera aquilo importante, tem um peso social sim! [Luíza]

A valorização do professor é uma questão importante. Pode-se ganhar pouco, mas aonde você chega, aonde você vai, o professor tem prestígio, reconhecidamente. Me lembro que o meu marido uma vez teve um problema no trânsito. Nessa época ele ensinava na universidade, era engenheiro, aí ele parou o carro, o guarda olhou assim e disse: "Você é professor, não é?". Ele disse: "Sou". Ele conheceu pela caixinha de giz que ele levava no carro, entende, e falou: "Pode ir!". Aí meu marido disse: "Isso é que é prestígio, meu Deus!". Sim, há muito respeito pelo professor. [Marta]

A docência do ensino superior revela um lugar de prestígio e status social. Todas querem agregar ao seu cartão de visitas esse título, mas o que é um professor universitário? Como se constitui um docente do ensino superior?

Não existe uma formação para ser professor universitário, conforme avalia Pimenta e Anastasiou (2002, p. 36):

[...] há certo consenso de que a docência do ensino superior não requer formação no campo do ensinar. Para ela seria suficiente o domínio de conhecimentos específicos, pois o que identifica é a pesquisa e/ou o exercício profissional no campo.

Há, sobretudo, uma espécie de intuição, de autodidatismo, para que o professor universitário passe por um processo de socialização. Aos professores, de acordo com as autoras, embora possuam experiência profissional significativa, lhes falta o preparo com relação ao processo de ensino e aprendizagem.

O que a lei preconiza, a exemplo da LDBEN n. 9.394/1996, que regulamenta o sistema federal de ensino, é que a preparação para o magistério superior far-se-á na pós-graduação, nos programas de mestrado e doutorado; ou seja, para ser professora da universidade o caminho de preparação seria pela pós-graduação, o que tem aumentado a demanda por cursos stricto sensu, bem como a exigência das instituições universitárias e de fomento à pesquisa, no que concerne ao fato de que os professores sejam mestres e, cada vez mais, doutores. Para essa análise, nos parece suficiente a perspectiva dos pontos aqui levantados, uma vez que não seria possível o esgotamento da docência do ensino superior neste trabalho.

Cunha (2010) acentua que até o final dos anos 1960 foi instituída a pós-graduação no Brasil, e os planos de cargos e carreiras passaram a incentivar os docentes a fazer uma pós-graduação. Já nos anos 1980 houve um rompimento com a figura cristalizada de "como ser professor" e ocorreu uma busca por profissionalização com qualidade no processo educativo. Agregaram-se à Constituição Federal de 1988 o padrão de qualidade como princípio da educação e o resgate dos concursos públicos.

É gerada a compreensão da indissociabilidade de ensino, pesquisa e extensão, sendo eleita como lugar de formação para o exercício do magistério a pós-graduação stricto sensu. Assim, a autora questiona se só os conhecimentos em pesquisa seriam suficientes para garantir um ensino de qualidade. Há certo consenso de que o professor qualifica sua carreira na pós-graduação. Houve uma corrida por cursos de mestrado e doutorado, motivada por cotas percentuais estipuladas pelas universidades para adquirir status.

A realidade dessas professoras do Serviço Social ainda era diversa dessa apresentada. Conforme já mostrado, elas tinham formação acadêmica em Serviço Social. Apenas uma concluiu mestrado; as demais cursaram especialização. Quando entraram na docência da universidade, não havia ainda um programa de pós-graduação consolidado em Fortaleza. Precisavam ir para o Sul, o que tornava a empreitada bem mais difícil, pois eram mulheres com filhos pequenos. O que era bastante difundido na época eram cursos de curto prazo com professores trazidos do Sul e Sudeste do país.

Eu não tenho mestrado, nem doutorado, tenho pós-graduação [especialização]. Quando os cursos de mestrado e doutorado chegaram aqui, eu já estava quase me aposentando, e eu estava mais na parte administrativa, na pró-reitoria [...]. Mas a parte acadêmica foi assim: eu fiz muitos cursos de Filosofia com o professor Manfredo, fiz vários cursos na área de Filosofia. Eu fiz curso até com aquele menino que foi ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro; fiz também com outro que já morreu, Álvaro Moisés, que veio aqui várias vezes dar curso. Havia muito curso, muita coisa assim. [Marta]

O que significou ser professora da UECE? As docentes mostraram que eram bastante comprometidas com a formação dos alunos e que a prática era importante para que pudessem dar respostas efetivas às dúvidas que os alunos pudessem ter em campo de estágio.

A docência tem um diferencial, embora ela vá trabalhar com a habilidade, a técnica, a metodologia, a autonomia... que isso também as outras profissões vão trabalhar; as docentes também tiveram essa base do método, da técnica, da teoria, do conhecimento, da doutrina [...] a docência tem algo a mais porque ela não pode ver só o lado da formação profissional, da técnica. O aluno vai aprender a fazer uma entrevista, uma visita, uma anamnese, dar um diagnóstico social. Isso é importante, a profissão se exerce a partir de alguma atividade, que a caracteriza. A docência vai além porque ela tá lidando com a formação do caráter, principalmente porque nossos jovens estão chegando na universidade muito cedo, com dezessete anos já estão entrando na universidade. Com dezessete anos ainda é adolescente, com todas as sua dúvidas e inquietações, tudo. Ele tá se firmando como adulto, é um adulto em formação. O professor não pode ver o lado apenas da habilidade técnica, embora seja importante, mas acho que tem que ter um olhar na formação do caráter, dos valores que aquela profissão vai exigir dele. [Luíza]

Teve uma mudança: na época não tinha a exigência de ter um doutorado. Tinha que ter experiência, e depois o seguinte: não existia mestrado, doutorado. Assim, não podiam nem exigir, pois aonde tinha isso era no Sul. Algumas se dirigiram para o Sul, fizeram lá, mas era uma coisa mais complicada. Eu não podia sair porque eu tinha filhos. Agora o perfil da professora eram meninas estudiosas, mais novas, quer dizer, as mais antigas. Por exemplo, a dona Sara Fiúza, uma mulher que tinha uma formação sólida, fez curso nos EUA, sabia inglês, era intelectualmente bem preparada! Depois teve a Aldaci Barbosa, uma mulher extraordinária, foi a mulher que implantou o trabalho de comunidade, era respeitada mundialmente, vinha gente de outros países ouvir a experiência dela. Não sei se hoje existe mais uma experiência daquela. [Marta]

Eu gostei muito de estar no magistério, uma oportunidade de estar na formação. A gente tinha muito essa preocupação não só com a formação intelectual, mas também com a formação profissional mesmo, em transmitir. No estágio, era importante transmitir esses valores, todas essas questões. Acho que pesou muito porque eu já tinha uma prática muito fundamentada, porque eu tinha muita experiência. No Pirambu, trabalhei muito com Serviço Social de caso, muita visita domiciliar, depois no hospital, e habitação também era trabalho de comunidade. [...] Eu acho que a prática, a experiência de prática, de estágio, de trabalho social, de campo, é muito importante, porque você não fica tateando [colocou as mãos rodando em cima da cabeça], tem experiência para contar, para mostrar. E se acontecer tal coisa, o que eu vou dizer, fazer? [Ana]

Esse discurso é revelador do modo de ser professora para as interlocutoras e os sentidos que atribuem à docência além do aprendizado técnico. A discussão que aproxima o magistério da vocação é contestada por uma delas, que mostra um aspecto relevante da atividade docente: "Não sou daquelas que acha que docência é vocação. Docência não é só dar aula, é viver essa troca, entender que o conhecimento é uma troca, que há essa devolutiva. Isso faz a diferença!". Para ela, a "nova turma [professoras atuais] é muito desencantada", e diz:

Eu sou mestre, não sou doutora. Eu fui muito bem resolvida como professora porque eu adoro dar aula [...]. Eu tanto gosto de trabalhar como assistente social quanto como professora. Eu fiz trabalho comunitário a minha vida toda, o trabalho na universidade é também com massa, com jovem. Eu tenho mais paciência com jovem que com velho. Então eu gosto disso, de trocar ideia, eu não acho que dou, eu troco. [Laura]

Laura enfatiza que esse era o perfil da professora de sua época. Contudo, é bastante enfática com relação à universidade e à docência hoje, atribuindo a importância de ser doutora para compor os quadros da universidade. Faz a defesa de que, no cenário da UECE, atualmente, composta por programas de pós-graduação, a docente precisa mesmo ter o doutorado. Outra professora também exprime os perfis diferenciados da professora de ontem e hoje:

É muito difícil você dar assim uma característica única, porque naquele tempo era necessário ser profissional [ter experiência prática], mas também hoje tem aquele profissional que está no doutorado, mas tem aquela bagagem de valores, de amadurecimento, de experiência de vida. Tanto aquelas que vinham da experiência prática como as de hoje que vêm com a experiência de mestrado e doutorado. Vai depender muito de cada uma, da postura e da formação de cada uma. Afinal, pode ver um profissional que tenha experiência e essa experiência não ser tão boa, que permita realmente um amadurecimento profissional, uma capacidade técnica. Eu acho que não é só isso não; não é só estar diante da prática profissional que vai te dar uma postura profissional, comprometida, ética, humana... Depende mais da experiência de vida, formação, amadurecimento como ser humano. Você pode vir do doutorado e ter a mesma bagagem de entendimento humano que um que vem lá da realidade profissional, que massacrou as pessoas, Deus sabe o que fez! [Luíza]

Considerações finais

Neste ano comemoramos os oitenta anos do curso de Serviço Social no Brasil. É mister ter a oportunidade de olhar de modo demorado toda a história percorrida pela profissão, analisando marcos teóricos e acadêmicos do ontem e hoje. Este artigo revela uma oportunidade de entrar nessa história. O caso é analisar as trajetórias acadêmicas das primeiras docentes do Serviço Social da UECE, conhecido como o grupão, que durante muito tempo sustentou a graduação.

A pesquisa de pós-doutorado revelou um objeto que se mostrou inusitado, não tendo sido encontrada, até este momento, uma referência similar no Serviço Social. Por que estudar as docentes aposentadas desse curso na UECE? Essas mulheres fazem parte da primeira geração a adentrar as universidades e a ter uma formação que as capacitou a trabalhar fora de casa, ainda nos anos 1960. Também foram elas que assumiram a formação de tantas outras profissionais durante quase trinta anos, nos períodos de consolidação do curso na UECE, o único do Ceará que formava assistentes sociais.

Essas questões, por si, já despertam interesse em desvelar quem foram essas pioneiras da UECE, como se deu a formação delas, o ethos profissional, as singularidades de serem docentes no início dos anos 1960 e o sentido que atribuíram à docência em Serviço Social. Surpresa para mim, quando percebi que parte dessas pessoas tinha idade hoje igual ou superior a setenta anos, tinham deixado para trás a docência junto com a aposentadoria e sequer desejavam falar sobre o assunto. Assustadores foram esses primeiros tempos de pesquisa, quando me vi sem perspectiva de encontrá-las. Conheci, contudo, quatro mulheres de grande relevância para o curso, que, além de pessoas cativantes, deixaram-me em êxtase após cada entrevista e maravilhada em poder recordar com elas momentos tão singulares de cada uma. Esse encontro foi muito feliz e revelou uma pesquisadora-professora, em início de carreira na UECE, escafandrista no baú da história.

As docentes revelaram um tempo em que a formação profissional do Serviço Social ocorria em aliança com as forças hegemônicas da sociedade naquele momento - a Igreja e o Estado -, porém com uma exceção: foram formadas no Instituto Social, nos idos dos anos 1960, numa formação promovida pelas religiosas que primavam pela relevância de valores morais, conservadores, e também por professores de outras áreas que lecionavam disciplinas de Filosofia, Sociologia e outras. Como se pode vislumbrar, essa base teve grande influxo no modo pelo qual atuaram como profissionais e docentes, com intenso aspecto humanista, associado a práticas que visavam a ajuda e o bem-estar do outro.

Essas disposições também revelam aspectos subjetivos, pois elas procuraram romper com esse conservadorismo do curso, em um movimento que se perpetuou em todo o país. Assim mesmo, conta uma delas que rompeu com essa formação, abandonando o curso e voltando, posteriormente, mas tendo condições de traçar um caminho próprio, crítico, vinculado aos movimentos sociais e entidades da categoria.

Elas eram docentes em parte do seu tempo e no outro atuavam como assistentes sociais de órgãos públicos, em serviços com a comunidade, e esse trabalho deu substância à sua docência. Contrariamente ao perfil que hoje é requerido para entrar na universidade, no curso de Serviço Social, que é quase unanimemente o de doutora, elas se formavam também na prática profissional, acumulando um capital cultural que se dava com suporte na experiência. Eram outros tempos! As docentes aposentadas não revelam uma crítica sobre o atual perfil professoral do curso. Uma delas chega a lembrar que o fato de ter a prática profissional mais consolidada que talvez as atuais professoras, uma vez que dessas últimas as exigências acadêmicas e os prazos requeridos não permitem conciliar outra atividade com a docência, não quer dizer que sejam melhores. E, na sua avaliação, havia pessoas com experiências práticas, mas que não eram boas.

As entrevistadas não têm mais atividades ligadas à docência e procuram investir mais em si mesmas e nas suas famílias. Não demonstraram saudades da época da docência. Durante os primeiros três anos após a aposentadoria, ainda ficaram, de certo modo, ligadas à universidade, participando de bancas de monografias, comissões, mas atualmente possuem atividades voltadas para a cultura e o lazer, sendo que a leitura continua sendo um hábito importante entre elas.

Essa pesquisa permitiu revelar alguns aspectos de uma curiosidade científica, explorada no estudo de campo e nas atividades que fizeram parte desse estágio pós-doutoral em Serviço Social, requerendo um olhar para trás, por cima dos ombros dessas interlocutoras. Tendo sido feita de modo quase artesanal, os enredos emocionaram, provocaram e fizeram com que me sentisse orgulhosa de participar dessa história.

1A Escola de Serviço Social em Fortaleza (CE) foi fundada em 25 de março de 1950, por Maria Áurea Bessa, Norma Cabral e Nair Studart, da Ação Católica do Ceará. Era vinculada ao Instituto Social de Fortaleza, administrado pelas religiosas da Congregação da Sociedade das Filhas do Coração de Maria, por meio da Associação de Educação Familiar e Social (Abesf), entidade mantenedora, fundada em 1949, sob orientação da Igreja Católica. Nesse período, a sede era em um prédio da arquidiocese, localizada à avenida Barão de Studart, 1685, bairro Aldeota (Silva, 2010). Em 1956, a Escola de Serviço Social foi agregada à Universidade Federal do Ceará, período no qual o curso pagava uma pequena taxa a essa instituição. Apenas em 5 de março de 1975 foi transferido para a UECE. Esse percurso do Serviço Social para se institucionalizar como curso universitário seguiu um árduo caminho até sua consolidação.

2Reservo-me a não descrição dos trabalhos nos quais atuaram como assistentes sociais, embora tenham mencionado, para evitar que a identidade possa ser mais facilmente reconhecida. Quando for necessário, o farei sem relacionar ao nome da interlocutora.

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Recebido: 01 de Maio de 2016; Aceito: 04 de Junho de 2016

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