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Educação & Sociedade

Print version ISSN 0101-7330

Educ. Soc. vol. 19 n. 62 Campinas Apr. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73301998000100013 

Avaliando a avaliação da aprendizagem - um novo olhar

Célia Pezzolo de Carvalho*

 

 

O livro Avaliando a avaliação da aprendizagem - um novo olhar, de Mere Abramowicz, (Lúmem Editora, 198 páginas) desenvolve-se em cinco capítulos. No primeiro apresenta justificativa do interesse pelo tema. Professora-fundadora de uma faculdade particular noturna, em bairro de classe média-baixa na área urbana-central da cidade de São Paulo, durante 13 anos acompanhou o cotidiano da instituição, como docente, como chefe de departamento do censo de pedagogia, como integrante da comunidade escolar em vários momentos e circunstâncias. A investigação, realizada como tese de doutorado, está ligada à prática de educador e de avaliador, e busca refletir sobre a realidade da faculdade particular noturna e seus alunos trabalhadores sob a ótica da forma como se processa a avaliação da aprendizagem. Envolve-se, portanto, com pelo menos três questões graves da história da escola brasileira, pouco estudadas e prenhes de preconceitos: o processo de avaliação, o ensino superior particular e o período noturno na educação escolar.

No segundo capítulo examina cada uma dessas questões a que chama de vertentes do estudo. A primeira é a avaliação da aprendizagem. Recorre à literatura revisando os principais estudos, desde os clássicos como Tyler, Gagné, Bloom, publicados no Brasil a partir da década de 1970, chegando aos autores nacionais mais recentes. Prioriza a avaliação emancipatória, modelo que utilizará no trabalho. Em seguida, analisa a situação do ensino universitário, cuja democratização significou uma expansão do ensino particular noturno, de modo bem específico nas áreas de humanidades e, principalmente, na licenciatura. Através da citação de autores caracteriza o curso particular noturno como resposta às demandas da sociedade, deixando de afirmar que ele faz parte integrante da política educacional brasileira. Como terceira vertente, enfoca o trabalhador-estudante e os estudos mais relevantes sobre essa categoria, que é numerosa. Cita trabalhos que analisam esse aluno, descrevendo detalhes e evidencia a pequena produção acadêmica sobre o tema.

O terceiro capítulo é reservado à apresentação e à discussão da metodologia. A opção é pela abordagem qualitativa sob forma de estudo de caso e define o objeto da pesquisa como sendo a percepção avaliativa da aprendizagem por trabalhadores-estudantes do curso de pedagogia da instituição. Discute a vertente qualitativa da avaliação da aprendizagem e a articulação entre as abordagens qualitativas e quantitativas. Aceita caminhar pela linha da subjetividade, privilegiando o contexto, os processos, os pequenos números, o caso único, transcrevendo sempre falas dos pesquisados. Descreve a instituição onde o trabalho foi desenvolvido, procurando entender sua história. Encontrou pouca matéria escrita, evidenciando, assim, a precariedade da memória. A faculdade funciona exclusivamente no período noturno e foi criada em 1968, funcionando desde 1973. Quanto aos alunos, procurou delinear o perfil aplicando, nos três anos anteriores à pesquisa, um questionário de caracterização do aluno candidato ao vestibular da faculdade. Os questionários cobriram seis vestibulares (semestrais) e possibilitaram traçar as principais características do alunado: responsáveis pela própria manutenção, participantes do orçamento familiar, trabalhadores do setor terciário, com idade superior aos colegas dos cursos diurnos, trajetória escolar descontínua, passando por modalidades de suplência e cursos noturnos de 1º e 2º graus. A expectativa para fazer o curso superior é adquirir melhores condições de trabalho, de vida e ascensão social.

A autora coteja os dados com os de dois trabalhos sobre o curso noturno, que cita no segundo capítulo - prática que adota para conferir os dados subseqüentes da pesquisa. Trabalha, portanto, com uma análise comparativa de três perfis de trabalhadores-estudantes de cursos superiores noturnos, conseguindo uma caracterização que afirma ser mais precisa. Ficam destacados os aspectos de maturidade, responsabilidade, esforço, condição de imprescindibilidade do trabalho, uma trajetória pessoal e escolar difícil. Quanto aos professores, a autora procedeu da mesma maneira - aplicou um questionário de caracterização. Constatou que 70% dos professores cursaram faculdades particulares e têm mais de 20 anos de prática docente. Muitos lecionam uma grande variedade de disciplinas e em mais de uma instituição. Aparece, então, a figura do "trabalhador-professor", com mais de um emprego, com trabalho diurno e noturno, com dupla ou tripla jornada de trabalho. Quem vai ensinar no curso noturno é portador de condições quase tão precárias quanto seus alunos. É praticamente inexistente sua produção científica e não há tempo para o preparo das aulas.

A autora aplicou questionário de avaliação do aluno e do professor, com questões abertas, percorrendo aspectos da avaliação, como os principais procedimentos utilizados, o significado para o aluno, os papéis desempenhados por alunos e professores, as reações e as causas do sucesso e do insucesso, a participação e a satisfação.

No capítulo quatro, cada um desses aspectos é exaustivamente analisado, de forma cuidadosa e procurando extrair o maior contingente de indícios. Chega a conclusões intrigantes a respeito dessas categorias escolhidas. Mostra, por exemplo, que a dimensão de controle pelas provas e notas é predominante à avaliação no processo, segundo o aluno. Porém, a mesma questão quando respondida pelo professor revela uma variedade de procedimentos que não é relatada pelos alunos. Percebe-se que há contradição entre a representação do aluno e do professor quanto à avaliação. O professor, de certa forma, idealiza e justifica seu papel. O aluno não participa concretamente da avaliação porque ela não tem sido instrumento de aprendizagem. O que fica comprometida é a qualidade do ensino e, portanto, frustrada a expectativa do aluno quanto aos resultados do curso feito; frustrações essas que nem sempre são bem percebidas, dados os mecanismos de alienação inculcados pela própria escola.

No último capítulo, a autora, apoiando-se nos Estatutos do Homem, de Thiago de Mello, foge do acadêmico, da análise fria do panorama educacional, e sonha com um processo de avaliação que realmente seja indicador da aprendizagem: criativo, acompanhante, comprometido com um horizonte transformador.

O livro é bem construído, denota um trabalho grande de pesquisa e de "garimpo" das representações do aluno-trabalhador. Mapeia bem uma certa realidade do ensino superior noturno e a farsa da chamada democratização do ensino. O trabalho que dá origem ao texto foi originalmente tese de doutorado. Traz, portanto, o ranço de citações, longas e repetidas, possibilitando que a autora se esconda e se solte pouco. Como tem longa vivência do tema, aprofundada pelas leituras e reflexões, esperava-se ouvir o que ela tem a dizer, de forma mais livre, menos presa à rotina acadêmica. E que exercitasse mais sua crítica da situação vivida e dos autores lidos.* Apesar desses reparos, o livro merece ser lido por aqueles que trabalham com o ensino noturno, para instigar as reflexões e a crítica, e por todos os que batalham por uma escola pública de qualidade.

 

 

* Educadora, é professora-doutora do Departamento de Psicologia e Educação e co-coordenadora do LEC (Laboratório de Ensino de Ciências) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto.