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Educação & Sociedade

Print version ISSN 0101-7330

Educ. Soc. vol.24 no.83 Campinas Aug. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302003000200011 

Elites acadêmicas e escolarização dos filhos*

 

Academic elites and the schooling of their children

 

 

Zaia BrandãoI; Isabel LellisII

IProfessora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação da PUC-RIO. E-mail: zaia@edu.puc-rio.br
IIProfessora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação da PUC-RIO. E-mail: isabell@edu.puc-rio.br

 

 


RESUMO

Este artigo é o resultado de uma pesquisa do SOCED/PUC-RIO sobre as relações das elites acadêmicas com a escolarização dos filhos que cursam o ensino fundamental. Foi desenvolvida com base em um survey com 110 professores de uma tradicional universidade privada do Brasil. Fundamentada nas referências de Pierre Bourdieu e situando a população estudada no contexto da população brasileira (Pesquisa de Padrões de Vida/IBGE-1998) e no contexto dos professores universitários no Brasil (dados do INEP/MEC), a pesquisa oferece interessantes resultados para a discussão das estratégias educativas dessas elites. Um importante subproduto da pesquisa está nas questões levantadas sobre o fundamento empírico do conceito de capital cultural.

Palavras-chave: Elites e escolas. Trajetórias escolares. Herança social. Práticas culturais e escolarização.


ABSTRACT

This paper is the result of a research organized by SOCED/PUC-RIO on the relationship between the academic elites and the schooling of their primary school children. It is based on a survey of 110 teachers working in a traditional Brazilian private university. Grounded on Pierre Bourdieu's references and localizing the surveyed population in the context of the Brazilian population, (Pesquisa de Padrões de Vida [standards of living survey]/IBGE-1998) and of the Brazilian university teachers (data from INEP/MEC), this research offers interesting results to discuss the educational strategies of these elites. An important byproduct of this research is the questions raised about the empirical fundament of the cultural capital.

Key words: Elites and schools. School trajectories. Social heritage. Cultural practices. Schooling


 

 

Questões preliminares

A sociologia da educação no Brasil tem desenvolvido inúmeras pesquisas sobre o fracasso escolar entre as camadas populares. O sucesso escolar entre as elites, entretanto, não tem merecido a atenção dos sociólogos da educação, a não ser recentemente (década de 1990).1 Apesar da carência de estudos empíricos sobre o tema, desde o Relatório Coleman a relação entre sucesso escolar e a origem familiar de níveis socioeconômicos mais elevados tem sido admitida.

Para efeito deste estudo, perseguimos o objetivo de focalizar de maneira mais sistemática as práticas educacionais desses grupos, articulando abordagens micro e macrossociais utilizando-nos tanto de técnicas de survey como de entrevistas, a fim de levantar maiores evidências sobre as bases empíricas do sucesso escolar das famílias mais bem situadas nas hierarquias sociais. Como questão de fundo, está o interesse em oferecer subsídios para o debate e o avanço do conhecimento sobre os valores efetivamente agregados pelas escolas das elites. Sem incorrer no equívoco de supor ser possível delinear claramente a contribuição específica de cada uma das duas instituições (família e escola), procuramos analisar tanto o trabalho da escola como a ação familiar, ancorada no patrimônio cultural acumulado e permanentemente atualizado e potencializado pela estrutura de capital do grupo familiar (capital social, econômico, político simbólico etc.). Privilegiamos as relações entre famílias de alto capital cultural e escolas no sentido de analisar como as práticas culturais e sociais poderiam impactar os resultados escolares dos filhos.

Para tanto, em um primeiro movimento, realizamos entrevistas com 11 pais-professores universitários de uma instituição de alto prestígio na cidade do Rio de Janeiro, com um duplo objetivo: o de se constituir em fase de delineamento das características da população investigada a partir de um olhar mais próximo e o de definir melhor algumas hipóteses de trabalho, que nos serviram de roteiro para a elaboração de questões para o questionário. Sob a forma de temas mais ou menos detalhados, os roteiros utilizados constituíram-se em laboratório de perguntas e muito contribuíram para o mapeamento das configurações familiares e das condições e dos processos de escolarização das elites acadêmicas.

Por intermédio do questionário procuramos obter um perfil mais geral da população estudada, complementando as entrevistas que, como recurso que tem no discurso, na palavra e nas representações dos entrevistados seu principal material empírico, não permitem, senão imprecisamente, mapear regularidades e padrões de conduta.

O questionário foi estruturado com base nos seguintes eixos: caracterização dos pais quanto a volumes e estruturas de capital econômico, cultural e informacional, escolarização dos filhos, formas de acompanhamento escolar, investimentos educativos das famílias. Aplicado aos 110 professores e professoras daquela tradicional universidade privada, com filhos na faixa etária de 7 a 17 anos (ensino fundamental), o questionário foi construído sobre as referências da obra de Bourdieu, com a finalidade de obter dados que nos permitissem traçar o perfil socioeconômico cultural das famílias, o grau de envolvimento desses pais e dos filhos na escolaridade. Os dados obtidos foram cotejados com os da Pesquisa sobre Padrões de Vida, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PPV/IBGE, 1998), para situar as famílias estudadas no quadro das famílias brasileiras.

Obtivemos 50 retornos, o que pode ser considerado um bom resultado no contexto da investigação. O atraso na confecção do instrumento2 relacionado com o prazo de financiamento da pesquisa levou-nos a encaminhar os questionários já ao final do semestre, quando muitos dos professores estavam envolvidos com a correção de provas e os trabalhos dos alunos, e os professores horistas (contratados apenas pelas horas/aula) já não vinham regularmente à universidade.

Considerando que os dados levantados pelo questionário e pelas entrevistas possuem lógicas diversas, este texto tem como horizonte descrever o perfil das elites acadêmicas, as estratégias educativas das famílias, recorrendo às informações extraídas tanto dos questionários quanto dos dados mais finos obtidos pelas entrevistas. Como considerações finais levantaremos algumas das hipóteses sobre as mudanças e permanências do capital cultural das elites do Rio de Janeiro.3

 

Perfil das elites acadêmicas investigadas

O grupo estudado apresenta o mais elevado nível de capital acadêmico no contexto das universidades brasileiras (Tabela 1). Trabalha em uma das mais importantes universidades dentro do sistema universitário brasileiro, cujo prestígio data da década de 1960, quando se colocou entre as primeiras instituições responsáveis pela criação dos cursos de pós-graduação no Brasil.

 

 

Essa universidade apresenta um quadro bastante singular do ponto de vista da titulação acadêmica de seus professores: tem 24% mais doutores que a média das universidades privadas do país; tem o menor número de professores apenas com nível de graduação (32%), comparado com os 60% dos professores com apenas graduação entre as universidades privadas, como se pode ver na tabela acima. Mesmo se compararmos com a média de doutores das universidades federais (que têm os níveis mais elevados de professores titulados), a instituição investigada tem 7% mais doutores. Isso lhe confere uma posição muito destacada entre as instituições universitárias e, muito especialmente, entre as universidades privadas brasileiras. Mas há ainda um outro elemento que merece ser registrado: considerando que as médias de qualificação docente das universidades federais no Sudeste são superiores às médias das mesmas universidades no país como um todo e que o Sudeste é a região mais rica do país, destacando-se em todos os setores, fica evidente que os pais-professores estudados representam de fato uma parcela da elite acadêmica – 71% de doutores (amostra) contra 29% representantes da média de doutores das universidades federais do Sudeste do país.

Quanto à posição socioeconômica que os professores estudados ocupam na estratificação da população brasileira, os dados (Tabela 2) indicam ainda uma situação privilegiada, pois praticamente a totalidade (98%) pertence aos estratos A e B superiores, segundo o Critério Brasil (IBGE). Isso significa que eles são simultaneamente elites acadêmicas e econômicas. Entretanto, em face da grande concentração de renda no Brasil, é importante levar em conta que, no interior do estrato A, as diferenças são enormes e, se redistribuíssemos o contingente desse estrato em uma pirâmide, esse grupo se encontraria nos níveis mais baixos da estratificação interna do estrato.

 

 

O fato de o grupo estudado possuir essas características de estrutura e volume de capitais pode estar significando, nos termos de Bourdieu, uma grande capacidade de ampliação e conversão de diferentes capitais (econômico, cultural, acadêmico, social, simbólico etc.), potencializando a mobilidade e a capitalização de recursos na luta concorrencial por melhores posições no espaço social. São condições altamente rentáveis, como background social dos herdeiros dessas elites acadêmicas.

 

Gênero e estratificação

Nossa amostra incluiu 75% de homens e 24% de mulheres, sendo o corpo docente da universidade estudada constituído por 63% de homens e 37% de mulheres. No entanto, ao passo que 76% dos professores são doutores, apenas 37% das professoras o são. Ou seja, em que pesem os avanços da escolaridade feminina no Brasil, as mulheres, mesmo na carreira acadêmica, encontram-se em desvantagem com relação aos seus colegas do gênero masculino, pois a relação titulação/gênero é ainda claramente favorável ao gênero masculino, como a tabela a seguir indica.

 

 

Uma razão para a estratificação por gênero na pós-graduação está, de um lado, no fato de que os professores freqüentemente obtêm o doutorado mais cedo que as professoras e, de outro lado, na aceitação social da dupla jornada das mulheres como natural, obrigando-as a postergar investimentos profissionais. O fato de a universidade investigada contar com 2/3 de seus docentes na faixa etária de mais de 40 anos, indicando um quadro de professores mais maduro, pode ajudar também a compreender a qualificação acadêmica mais tardia entre as mulheres, quando comparada com a dos colegas do sexo masculino. Para essas gerações, ainda eram fortes as representações sociais de gênero fundadas em relações hierárquicas, dentro do grupo familiar, priorizando sempre os investimentos na carreira do homem; a ocupação de posições inferiores pelas mulheres nos postos de trabalho, mesmo quando possuíam qualificações equivalentes às dos colegas de gênero masculino, era um fato considerado normal.

 

Patrimônio familiar

A tabela a seguir oferece um panorama completo da escolarização dos(as) professores(as) investigados(as) e de seus parceiros. Como o negrito indica, o nível de escolaridade de ambos os parceiros é bem alto: entre os do gênero masculino 77% são doutores, e entre os do gênero feminino 56% obtiveram os graus de mestre e doutor.4 Cabe lembrar que são comuns casamentos entre professores universitários, e mesmo no meio acadêmico quase sempre a mulher subordina seus interesses às necessidades de qualificação do cônjuge. Esta tendência foi confirmada pelas entrevistas, pois, dos 11 professores entrevistados, 5 têm ou tiveram cônjuges da mesma profissão.

 

 

Apesar do elevado nível de titulação, e de as profissões dos cônjuges dos professores entrevistados serem profissões de prestígio social (medicina, engenharia, arquitetura), 16% das mães de nossa amostra não têm nível superior, numa geração em que o nível universitário já se havia tornado bastante comum entre as mulheres brasileiras.

Essas elites acadêmicas provêm, ainda, de um rico patrimônio familiar. Seus pais pertencem às elites do ponto de vista cultural e profissional. Nasceram no início dos anos de 1930 quando, normalmente, apenas os jovens das famílias de status social elevado conseguiam freqüentar o ensino superior no Brasil.

Entre os avós de ambos os lados (pais e mães) encontram-se porcentuais de diplomados em nível superior bastante elevados (Tabelas 5A e 5B); mais de 60% dos avôs dos filhos dessa elite acadêmica têm diploma universitário (64% pelo lado paterno e 61% do lado materno). Entre as avós, de ambos os lados, 19% e 25,5% delas também cursaram o nível superior, sendo que pertencem a uma geração em que o nível superior para mulheres ainda era uma marca de distinção, significando a posse de capital intelectual e simbólico, normalmente associado a capital econômico.

 

 

 

 

Quando analisamos a posição social dessas famílias do ponto de vista da ocupação dos avós (Tabelas 6A e 6B), outra dimensão vem se agregar ao patrimônio familiar: tanto do lado paterno como do lado materno quase 60% dos avós são profissionais liberais ou empresários, e os cerca de 40% restantes são funcionários públicos ou têm ocupações técnicas de nível médio. Com isso queremos chamar a atenção para o fato de que, mesmo para a geração desses avós, as posições que em princípio não implicam formação de nível superior – técnicos e alguns funcionários públicos – podem ter significado acesso a padrões de vida muito superiores aos da maioria da população brasileira. Isso permite afirmar que a elite acadêmica que estudamos parece ter sido criada em ambientes familiares, em princípio bastante favoráveis ao desenvolvimento de uma rica estrutura e volume de capitais.

 

 

 

 

Além de serem "herdeiros", no sentido de estratos privilegiados culturalmente, esses pais-professores foram socializados em um ambiente otimizado pelos recursos materiais e sociais que a posição de seus pais na hierarquia ocupacional teria facilitado, na maioria dos casos.

Mas a população estudada não só provém de estratos sociais mais elevados como é a elite escolar em duplo sentido: pelos diplomas e pelas posições dominantes no sistema de ensino (Nogueira, 2000). Seu elevado capital escolar confere-lhes um acurado sentido do jogo desenvolvido no campo escolar, com desdobramentos bastante positivos sobre a gestão da escolarização da prole. Portanto, não só são herdeiros, no sentido estrito do termo, como a maioria absoluta ampliou significativamente o patrimônio cultural e escolar: formaram-se nas melhores universidades e, no caso dos professores, cerca de 50% obtiveram seus Ph.D. no estrangeiro; mais de 60% são fluentes em inglês e quase 20%, em francês. Essa rica estrutura de capital intelectual, cultural e lingüístico forma um importante background para a educação dos filhos.

 

Estratégias educativas

Essas elites acadêmicas estudaram em escolas privadas e matriculam seus filhos no mesmo tipo de escola; as exceções estão entre aqueles que matriculam os filhos nos Colégios de Aplicação das universidades públicas ou no Colégio Pedro II. No entanto, surpreendentemente, as dez principais escolas do Rio de Janeiro, do ponto de vista dos rankings dos vestibulares das principais universidades, estão modestamente representadas nos dados levantados nos questionários. Como poderiam as elites acadêmicas escolher matricular seus filhos fora do elenco das mais afamadas escolas?

Um outro resultado também surpreendente se encontra em alguns indicadores a respeito das relações desses pais com as escolas de seus filhos. Eles parecem não guardar grandes expectativas a respeito do trabalho das escolas – o que de certa forma estaria indicado no fato de não procurarem as chamadas "melhores escolas" (as que mais aprovam nos vestibulares mais concorridos). Seu capital pedagógico parece dotá-los de bastante confiança em seus "trunfos" para a escolarização dos filhos, o que se expressa de certa forma pelos dados obtidos pelo survey: os professores investigados evidenciaram pouco interesse em conhecer as equipes técnico-pedagógicas das escolas, e só vão à escola quando convocados. Avaliam negativamente as reuniões de pais promovidas pela escola e acompanham o desempenho dos filhos principalmente por meio dos boletins escolares e das informações dos estudantes. Ter o "senso do jogo" significa ter a capacidade de acionar estratégias corretivas e mesmo preventivas em face do primeiro sinal de risco de insucesso, como é o caso da aula particular, prática a que recorrem esses pais com muita freqüência.

No contexto das entrevistas, contudo, marcado por uma necessidade de projetar uma identidade de quem domina as regras do jogo escolar, as características educativas dos estabelecimentos serviram de argumentação para justificar as escolhas das escolas, ou para justificar a mudança de uma escola para outra, estratégia muitas vezes utilizada como preventiva do insucesso. Entre as críticas que balizaram os processos de transferência, sobressaíram os seguintes motivos: insatisfação com a qualidade do trabalho pedagógico, ausência de regras disciplinares, falta de qualificação dos professores, ausência de cobrança do dever de casa, remetendo para uma acentuada capacidade de discriminar as escolas mais adequadas a seus projetos.

Essas representações se fazem acompanhar também por um conjunto de imagens a respeito da escola que melhor convém a seus filhos, imagens nas quais pesam sentimentos impregnados de cultura psicológica. Mesclando critérios subjetivos com razões objetivas, apareceram nas entrevistas expectativas que expressam a valorização em face do desenvolvimento integral da personalidade do filho, presentes também nos questionários. Valorização da segurança emocional e autonomia intelectual, do respeito à liberdade e ao ritmo de cada aluno coexistem com a defesa de princípios como a importância de regras e limites, da criação de hábitos de estudo, da aprendizagem de saberes escolares, conferindo complexidade a expectativas e desejos desses grupos. Entre a crença na tradição e o apelo à inovação pedagógica, esses pais transitam com muita desenvoltura no interior da cultura escolar, como afirmamos antes, o que não significa que a relação com a escolarização dos filhos passe ao largo de tensões e conflitos.

Os filhos desenvolvem uma série de atividades extra-escolares – esportes, línguas estrangeiras, artes... Todos os entrevistados sem exceção afirmaram que pagam cursos fora do horário escolar, mesmo para os filhos que estudam em escolas de tempo integral ou de jornada mais extensa como são as escolas bilíngües, caso de quatro entrevistados. Se, à primeira vista, essas atividades podem estar representando uma estratégia educativa de valorização da cultura livre de que fala Bourdieu, e certamente estão, expressam também um poderoso instrumento de conhecimento – reconhecimento – distinção.

Apenas um pai, professor da área de Administração, não acusou investimento em atividades extra-escolares para os filhos. Seu relato sinaliza para condições de trabalho e de vida mais difíceis (é professor horista em várias instituições de ensino superior), o que o obrigou a transferir dois de seus três filhos da escola particular para uma escola pública de grande prestígio.

 

Recursos sociais e familiares

Essas famílias se encontram, como assinalamos, bem providas de volume e estrutura de capitais, tais como: econômico, acadêmico, intelectual, lingüístico, simbólico, social etc. Representam, assim, no contexto brasileiro, um dos grupos mais bem informados e preparados para as disputas por melhores posições sociais. Os filhos desses professores têm em casa acesso aos mais variados materiais culturais e didáticos (enciclopédias, Internet, jogos educativos) e raramente repetem o ano, graças às estratégias preventivas acionadas pelas famílias; entre elas a ênfase na disciplina de estudo, o reforço escolar, a supervisão mais próxima, a intensificação dos horários de estudo, a redefinição de prioridades com relação às atividades extra-escolares. Os filhos viajam bastante, sinalizando para a exposição a experiências ricas e diversificadas nos vários espaços sociais nos quais circulam.

Monitoramento, estratégias preventivas, investimento nas atividades escolares e extra-escolares do(s) filho(s) caracterizam o comportamento das elites acadêmicas no sentido de proporcionar o bem-estar da prole e defender os filhos de um mau julgamento por parte da instituição escolar. Ou seja, esse grupo desfruta de condições excepcionais para recorrer a um sem-número de recursos em favor do permanente ajustamento da escolarização de seus filhos e o faz, aparentemente, envolto em um sentimento de certa forma blasé. Certamente, esta seria uma diferença-chave se compararmos com as práticas educativas de outras frações de camadas médias, que se caracterizariam por uma relação com a cultura mais laboriosa, forçada e ansiosa (Bourdieu, 1974).

Quando passamos às redes de circulação social em que os agentes se reconhecem como pares ou como vinculados a determinado grupo (Nogueira & Catani, 1998),os entrevistados convergem para a centralidade da escola na constituição das amizades de seus filhos, sendo intensa e freqüente a convivência nos fins de semana com colegas, configurando o sentimento de pertença a determinado grupo, visto como "possuidor de histórias semelhantes", nas palavras de uma das mães-professoras entrevistadas.

 

Algumas reflexões sobre o capital cultural das elites

Como assinalamos no início deste texto, dois resultados desta pesquisa merecem maior atenção e mais investigações:

• o fato de os filhos dessas elites acadêmicas não estarem matriculados nas dez primeiras escolas do ranking dos vestibulares das principais universidades;

• e de aparentemente colocarem expectativas limitadas a respeito do trabalho desenvolvido pelas equipes pedagógicas das escolas.

Estariam essas duas atitudes articuladas no sentido da pouca expectativa a respeito dos valores realmente agregados pelas escolas, para além do patrimônio cultural herdado e incorporado pelos filhos? Ou expressariam projetos educativos nos quais o sucesso acadêmico pode ser relativizado, e a escolarização mais direcionada para a valorização da personalidade dos filhos, de suas potencialidades? Ou, ainda, seriam indícios das radicais transformações sociais que nestas últimas décadas implicaram a consciência da diminuição da importância das credenciais escolares como recurso para a disputa das melhores posições na estrutura ocupacional?

A expectativa dos pais dessas elites acadêmicas com relação ao que seja a "boa escola" é tema que merece novas pesquisas. Talvez percebam entre as atuais gerações de universitários não só indícios de uma crise de confiança na universidade como instância de formação profissional, como também dos problemas que mesmo os bons estudantes enfrentam para conseguir um lugar promissor nas carreiras que escolheram.

 

Permanências e mudanças no capital cultural das elites

As tradicionais práticas sociais das elites descritas por Bourdieu em La distinction (1979) precisam ser reavaliadas entre nós, com base em novas pesquisas empíricas que focalizem tais práticas entre os diversos tipos de elites brasileiras (empresariais, intelectuais, artísticas, políticas etc.). Essa pesquisa nos forneceu dados empíricos preliminares indicando transformações nos tipos de consumos culturais, normalmente atribuídos a setores das elites de elevado capital cultural e acadêmico. Nesta direção, as preferências culturais descritas por Bourdieu como sinais de "distinção" na sociedade francesa dos anos de 1960 não parecem dar conta dos padrões de práticas culturais que traçamos, com base no material coletado pelo nosso survey e pelas entrevistas que realizamos com alguns sujeitos da pesquisa. Essas preferências não corresponderiam às descritas para as elites culturais tradicionais.

Além da distância cultural que nos separa das gerações que se formaram nos anos de 1930 no Brasil das atuais gerações de acadêmicos e do contexto do final da década de 1990 no Brasil, é preciso estar alerta para as diferenças entre a realidade francesa descrita por Bourdieu, no seu já clássico estudo das elites francesas (Bourdieu, 1979). A literatura, a música clássica, a arte erudita que servem de base às suposições de consumo cultural das elites têm sido objeto de problematização entre estudiosos das questões da cultura nas sociedades ocidentais contemporâneas (Clanclini, Ortiz, Sarlo e muitos outros).

Entre as práticas de lazer dos pais-professores universitários destacaram-se: a caminhada em áreas públicas de lazer, o cinema, ida a restaurantes com amigos, bem como reuniões (almoços) nos fins de semana na casa de familiares ou amigos. Este dado revela a necessidade de buscar outras referências de análise que dêem conta de uma relação mais contextualizada com a cultura, seja ela letrada ou de massa, entre as elites intelectualizadas.

As mídias, a cultura de massa e a "cultura jovem" (Groppo, Castro) têm tido uma crescente influência sobre os padrões de consumo cultural dos grupos dominantes. Tais transformações precisam ser pesquisadas para que se delineiem novas interpretações sobre o teor e o sentido dessas transformações. A Sociologia da Educação carece de maior clareza sobre as características das práticas culturais e sociais dos diferentes setores das elites. A censura velada sobre o caráter "politicamente incorreto" do interesse nos estudos das elites criou um profundo abismo entre o conhecimento acumulado sobre a escolarização das camadas populares e a ignorância disfarçada sobre a escolarização das elites, entre nós. Os recentemente divulgados resultados do pisa, indicando o baixo desempenho dos jovens das elites brasileiras nas avaliações sobre a escolaridade em vários países, são um eloqüente sinal da necessidade de aprofundar o estudo em tela. Muitas das reconhecidamente boas escolas entre nós parecem estar encontrando dificuldades crescentes em lidar com o impacto dessas transformações sobre o comportamento e os interesses dos seus estudantes.6 A distância que separa as práticas sociais e culturais desses jovens das expectativas e exigências dessas escolas parece indicar que parte do trabalho pedagógico bem-sucedido dessas escolas encontrava no patrimônio cultural herdado e incorporado pelos seus estudantes no meio familiar a estrutura com que sempre contaram para garantir o bom desempenho de sua clientela.

Além do material empírico que selecionamos, a nossa própria experiência acadêmica permite aferir a sobrecarga imposta pela luta concorrencial no âmbito das carreiras acadêmicas, com encargos simultaneamente profissionais e burocráticos implicando, com freqüência, a extensão da jornada de trabalho para o âmbito da vida familiar com implicações sobre as agendas sociais, sobre o cotidiano, sobrecarregando as agendas familiares. Uma boa parte desses acadêmicos dedica mais tempo a leituras técnicas do que às culturais. A grande pressão pelo incremento da produção acadêmica obriga-os a ocupar cada vez mais tempo com o preenchimento de demandas de financiamento não só das pesquisas como também de eventos e viagens para expor a produção e melhorar os indicadores do Curriculum Lattes.7

Ao mesmo tempo, o cotidiano nas grandes metrópoles está se tornando cada vez mais dispendioso, difícil e violento. Esses fatores certamente têm influído na mudança dos padrões de lazer e na circulação nas grandes cidades.

 

Observações finais

O material empírico levantado por alguns dos poucos trabalhos disponíveis sobre a escolarização das elites (Nogueira, 2002; Grün, 2002) indica que as escolas que atendem aos filhos das elites empresariais têm tido dificuldade em sintonizar com os novos perfis das famílias e desses estudantes. Nossa hipótese é de que esse tipo de dificuldade pode ser mais generalizado. Esta é a razão por que o SOCED atualmente dá continuidade ao programa de pesquisa sobre a escolarização das elites, focalizando duas escolas privadas do Rio de Janeiro que gozam de grande prestígio como padrão de ensino e educação.

• Estariam de fato diminuindo as expectativas das elites com relação ao trabalho desenvolvido pelas escolas?

• Que tipo de escolarização tem sido oferecido pelas melhores escolas do Rio de Janeiro à sua clientela? Que tipo de elites escolhe uma das mais importantes escolas confessionais privadas dessa cidade e quais as que optam por uma importante escola bilíngüe? Há diferenças marcantes entre as clientelas dessas duas escolas?

• Os professores dessas escolas acionam estratégias pedagógicas específicas e diferentes daquelas que empregam com estudantes de camadas médias e populares? Caso o façam, em que se diferenciam?

Essas são algumas das questões que pretendemos explorar em nossa atual pesquisa.

Algumas lições foram tiradas desta experiência. A primeira é a da impossibilidade de transferir resultados de pesquisa gerados em outros contextos sociais para o nosso caso, dada a diferença de padrões de consumo cultural. Neste sentido, nossa análise certamente terá que problematizar os princípios teórico-empíricos que regem as interpretações dos perfis dos herdeiros, pois Bourdieu emprega o conceito de cultura em uma perspectiva restrita, no sentido de práticas culturais e produtos simbólicos socialmente valorizados e preferencialmente ligados ao gosto "cultivado" e às práticas culturais eruditas. A outra se refere à necessidade de trabalhar com a escolarização das elites na sua heterogeneidade, uma vez que os volumes e as estruturas de capitais combinados das diferentes frações desse grupo social geram expectativas diferenciadas acerca do papel da escola na reprodução social desses setores. E, finalmente, a consciência de que a articulação de níveis de análise (obtidos pela entrevista e pelo questionário) representa, de fato, um salto qualitativo para a pesquisa em educação, marcada ainda por falsas oposições e pelo barateamento na própria utilização da entrevista.

 

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Recebido em dezembro de 2002 e aprovado em março 2003

 

 

* Este artigo apresenta uma síntese da pesquisa de caráter exploratório "Trajetórias escolares e processos de socialização" desenvolvida nos anos de 1999 e 2000. Coordenada pelas professoras Zaia Brandão e Isabel Lellis, contou com a participação de Patricia Lacerda Eliane Christo, Marcel de Toledo, Cynthia Paes de Carvalho, Marisol Barenco, Maria Muanis, e teve apoio do CNPQ e da FAPERJ.

Notas

1. Maria Alice Nogueira (UFMG), uma das pioneiras entre nós na pesquisa sobre a temática, lançou recentemente, com Ana Almeida, uma coletânea sobre o tema, onde dominam os trabalhos de pesquisadores estrangeiros. Ver a respeito: Almeida & Nogueira (2002).
2. Um importante subproduto do trabalho da equipe do SOCED foi o aprendizado da produção do instrumento em consonância com os pressupostos teórico-empíricos da obra de Bourdieu. Este processo foi relatado detalhadamente pela dissertação de mestrado de um dos membros da equipe. Ver a respeito Lacerda (2000).
3. Este tema está sendo trabalhado de forma mais sistemática pela atual pesquisa do SOCED: A escolarização das elites, com o financiamento do CNPq.
4. Apenas 24% da nossa amostra é composta por professoras.
5. A atual pesquisa do SOCED, que desenvolve trabalho de campo em algumas escolas de alto prestígio no Rio de Janeiro, obteve alguns indicadores neste sentido, que entretanto estão sendo cuidadosamente reavaliados levando em conta características de atenção e aprendizado, próprias das novas gerações, as quais se diferenciam fortemente das experiências vividas pelos pesquisadores quando estudantes secundários.
6. O "Curriculum Lattes" é o instrumento padronizado do CNPq que, desde a última década, permite às agências de financiamento científico a avaliação não só da produção acadêmica como do ritmo comparativo dos grupos de pesquisa.
7. Provavelmente fazendeiros.