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Educação & Sociedade

Print version ISSN 0101-7330

Educ. Soc. vol.25 no.86 Campinas Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302004000100014 

IMAGENS & PALAVRAS

 

Qualidade na educação da primeira infância: perspectivas pós-modernas*

 

 

Lara Simone Dias

Mestranda em Educação pela UNICAMP e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Infantil (GEPEDISC) da mesma Instituição. E-mail: laradias@unicamp.br

 

 

Qualidade na educação da primeira infância coloca em discussão o modelo dominante da Educação Infantil na atualidade. Para Dahlberg, Moss & Pence, autores deste trabalho, a educação e o cuidado da criança pequena têm se voltado para a promoção do desenvolvimento e para a melhoria do desempenho escolar, constituindo menos uma atenção à primeira infância e mais uma prevenção contra problemas sociais futuros. Em detrimento de uma dimensão ética, apresenta uma preocupação tecnico-gerencial, centrada na previsibilidade e padronização dos resultados desejáveis.

Em substituição a esse discurso, os autores não propõem um outro que venha a excluí-lo. Ao contrário, buscam a multiplicidade de linguagens, valorizando o diálogo e a diversidade de pensamento. Ao renunciarem à pretensão de ditar uma nova verdade, mantêm-se coerentes com a perspectiva que apresentam: a da pós-modernidade. A postura de não falar em um modelo substitutivo não se deve à ausência de uma proposta outra, mas a uma tentativa de romper com a visão modernista de um único caminho possível e verdadeiro, e de evitar a prática da prescrição.

A concepção de criança é revista e considerada um aspecto-chave, uma vez que entendem que ela direciona a prática pedagógica e que, esta, por sua vez, é capaz de cristalizar uma dada imagem sobre a infância. Os autores opõem-se às noções de criança, dominantes na prática pedagógica, que vêem-na passiva e incapaz: um ser natural, à mercê de um desenvolvimento universal e biologicamente determinado, tábula rasa, cujo preenchimento depende do conhecimento dos adultos, um ser inocente ou suprimento para a força de trabalho. Dahlberg, Moss & Pence abordam a criança como um sujeito histórico, co-construtora de conhecimento e de identidade, em sua interação com os adultos e com as demais crianças. Tal visão contribui para uma criança rica em potencialidades e competências, ativa e ansiosa para se engajar no mundo. A infância, por sua vez, é entendida não como um acontecimento estático, mergulhado em um vazio social, mas sim como um fenômeno contextualizado e, por isso, tratado em relação a temas sociais, políticos e econômicos do mundo contemporâneo, como a democracia e as mudanças no capitalismo.

A obra traz uma discussão abrangente e compromissada com a infância, tendo como tema central a qualidade nos serviços a ela dedicados. Não se trata de um esforço em atingir a qualidade, mas de uma problematização do tema. Segundo os autores, o conceito de qualidade atingiu tal dominância na atualidade que passou a ser aceito como algo objetivo, real e reconhecível. Os autores entram nessa discussão por acreditarem que, ao contrário, qualidade seja um conceito subjetivo e construído com base em valores, crenças e interesses. Além disso, o processo de definir qualidade, dominado por um pequeno grupo de especialistas, excluiria uma série de interessados no trabalho com a primeira infância.

Como o conceito e a linguagem da qualidade não abarcam questões como diversidade, perspectivas múltiplas, subjetividade e contextualização, emerge a necessidade de se formular um novo conceito: o de construção de significado. Esta nova abordagem envolve reflexão crítica e diálogo, baseados na experiência humana concreta, e não em abstrações, categorizações e mapeamentos, próprios do discurso da qualidade. Seu ganho mais evidente parece ser o de mobilizar os interessados pelo trabalho com a primeira infância e de tratá-los como agentes de mudança.

A documentação pedagógica entra em cena por seu importante papel no discurso da construção de significados, proporcionando o envolvimento dos profissionais no diálogo e na negociação sobre o trabalho pedagógico e permitindo que assumam a responsabilidade na condução de suas práticas e na adoção de valores e linguagens. A observação, como um deslocamento da teoria para a prática, é entendida não como um mapeamento objetivo da realidade - posto que os significados não são dados, e sim construídos -, mas como um processo de co-construção, baseado em situações concretas e locais.

Ao se deslocar a atenção do conceito de qualidade para o conceito de construção de significado, surgem novas respostas a antigas questões, como a do significado e propósito das instituições dedicadas à primeira infância. Referidas como serviços, tendem à entrega de um produto, à educação da criança de forma padronizada. Dahlberg, Moss & Pence pensam as instituições dedicadas à primeira infância como fóruns na sociedade civil, entendidos como instituições comunitárias de solidariedade social, onde crianças e adultos participem juntos de projetos de importância cultural, social, política e econômica. Além de desempenharem importante papel de intervenção sobre a realidade, a proposta de tais fóruns favorece a visibilidade, a inclusão e a participação da criança pequena na sociedade.

Lidando com a tensão entre a teoria e a prática, os autores relatam três experiências pedagógicas vinculadas à perspectiva da pós-modernidade: os trabalhos em Estocolmo, Meadow Lake (Canadá) e Reggio Emilia (Itália). São experiências singulares que, assim como inspiraram a produção do presente livro, pretendem motivar os profissionais da Educação Infantil para o trabalho desafiador que esta abordagem sugere.

Além dos profissionais da área, também se valerão desta obra pais, pesquisadores, políticos e todos aqueles interessados em repensar a perspectiva da modernidade na Educação Infantil.

 

 

* Resenha do livro de G. Dalhberg, P. Moss e A. Pence (Porto Alegre: Artmed, 2003).