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Educação & Sociedade

Print version ISSN 0101-7330On-line version ISSN 1678-4626

Educ. Soc. vol.39 no.145 Campinas Oct./Dec. 2018  Epub Feb 22, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/es0101-73302018188083 

IMAGENS E PALAVRAS

A CONSTRUÇÃO DA PEDAGOGIA SOCIALISTA

Raphael Alves Feitosa1 

1Universidade Federal do Ceará, Departamento de Biologia - Fortaleza (CE), Brasil. E-mail: raphael.feitosa@ufc.br

No centenário da Revolução de 1917, a obra lançada pela editora Expressão Popular traz à tona vinte e quatro textos de autoria de Krupskaya (1869-1939), além de quatro anexos1 ligados ao tema e que ajudam o leitor a compreender o contexto histórico da época de publicação dos originais. Os escritos selecionados perfazem textos que vão de 1899 a 1938, portanto desde o período da Rússia czarista, passando pelo período da Revolução de 1917, até a época dos sovietes. Essa empreitada contou com a organização de Luiz Carlos de Freitas e Roseli Salete Caldart e a participação no processo de tradução de termos do idioma russo para o português de Natalya Pavlova e do próprio Luiz Carlos de Freitas.

Antes de expor o conteúdo desses escritos, torna-se relevante discorrer brevemente sobre a sua autora. Krupskaya “nasceu em 26 de fevereiro de 1869 em São Petersburgo, no calendário ocidental, correspondente a 14 de fevereiro no calendário russo, oriunda de uma família com heranças nobres, porém pobre. Seu pai foi um militar russo e sua mãe professora” (SILVA, 2012, p. 2). Ainda adolescente, a educadora soviética iniciou o trabalho no magistério aos 14 anos, como professora particular, bem como colaborou com aulas voluntárias em escolas noturnas para operários. Krupskaya concluiu o magistério e continuou atuando como professora até ir para a prisão na Sibéria, cumprindo pena como presa política (MUÑOZ-MUÑOZ, 2010).

Nesse inóspito local, ela se casou com Vladimir Ilyich Ulianov, mais conhecido como Lenin. Com ele viveu até o dia de sua morte, acompanhando-o em cada exílio, da Sibéria à Suíça (MC NEAL, 1973). Na Rússia pós-Revolução de Outubro, “foi responsável pela organização e desenvolvimento do sistema de ensino. Foi Krupskaya, também, quem iniciou a organização do sistema de bibliotecas da União Soviética” (ABREU; LIMA, 2013, p. 126).

A decisão dos organizadores do livro em seguir a cronologia de publicação dos textos é interessante para situar o leitor no pensamento e na maturação intelectual das exposições feitas por Nadejda. No entanto, torna-se árduo buscar entre os escritos selecionados temas que são relevantes para a educação socialista. Esse resenhista imagina que devido ao hercúleo esforço para compilar uma obra de origem soviética, não foi possível incluir um índice remissivo. Acredito que a incorporação de tal ferramenta editorial facilitaria a leitura de quem vasculha por temas que perfazem o livro, ao ser destacada a localização de um termo relevante e não um tópico ou subtítulo.

Analisando os pontos principais da obra aqui resenhada, é comum em todos os textos a preocupação de Krupskaya em articular o trabalho como princípio educativo, o qual é apontado como fundamento para que a criança e o jovem possam “ter um desenvolvimento pleno e multilateral” (KRUPSKAYA, 2017, p. 28). Ela dispõe sobre a dicotomia entre a escola de ensino e a escola do trabalho. A primeira pode ser entendida como sendo a visão tradicional para essa instituição, de origem pequeno-burguesa, organizada pelos estados capitalistas, “uma escola da disciplina coercitiva, que suprime a independência da criança, impede o desenvolvimento da personalidade humana, distorce-a” (KRUPSKAYA, 2017, p. 140). Em oposição dialética, a escola do trabalho deve ser estreitamente ligada à vida dos jovens e adultos, com os interesses dos educandos. Continua a autora, uma escola que abre para o ser humano “diferentes esferas de aplicação das suas forças, é uma escola que ensina a vida coletiva, que coloca ante as crianças objetivos elevados e que, pela primeira vez, cria condições para o desenvolvimento da personalidade humana” (KRUPSKAYA, 2017, p. 140).

Dentro da proposta da autora, é nítido o valor atribuído ao papel do professor no processo de construção da auto-organização escolar, a qual vai além da simples escolha de representantes escolares. A educadora soviética indica que “ela deve ser parte integrante da vida escolar. Com a ajuda da auto-organização as crianças aprendem a encontrar formas de ação conjuntas, as quais devem refletir na vida comum e no trabalho coletivo da comunidade escolar” (KRUPSKAYA, 2017, p. 115). Essa escola do trabalho formaria o homem revolucionário em articulação com o trabalho físico e intelectual, de ensino politécnico.

Diante dessa visão de escola, Nadejda Krupskaya e seus camaradas do NARKOMPROS (Comissariado do Povo para a Instrução) desenvolvem a estratégia pedagógica de um ensino por complexos, em oposição ao ensino por disciplinas, como forma de agregar uma educação para a multilateralidade. Ao sistema de ensino por complexos é flagrantemente dedicado um texto da obra (Sobre os complexos) e também um anexo datado em 1924.

Outro destaque da obra é a retomada da visão da autora sobre os discursos de Lenin, personagem que sempre é lembrado por Krupskaya. Ao longo da obra aflora a visão pedagógica, artística e política desse intelectual. Sobre isso, vale ressaltar o respeito atribuído à teoria para a práxis educativa, sendo o ponto primordial desse pensamento a indicação de que “nossos ensinamentos não são um dogma, mas um guia para a ação” (KRUPSKAYA, 2017, p. 217). Todos os textos da educadora soviética mostram que sua atividade foi dirigida a fazer do marxismo um guia para ação da classe trabalhadora.

Segundo a própria autora, Lenin era opositor ao menosprezo da teoria. No título Lenin como propagandista e agitador, consta: “Ele lutou para que a agitação não fosse reduzida a uma palavra de ordem, mas sim, que ela fosse ligada fortemente com o trabalho de esclarecimento” (KRUPSKAYA, 2017, p. 220). A famosa frase atribuída ao maior artífice da Revolução de 1917 - “Sem teoria revolucionária, não pode haver também movimento revolucionário” - é também lembrada no livro. Abraçando esse aspecto, da teoria como relação indissociável e guia para a práxis, Krupskaya destacou o papel de Lenin como propagandista das massas.

Dentro da ligação da autora com o líder revolucionário soviético, um assunto que é digno de nota é a discussão sobre a importância da cultura proletária - não apenas a escolar - como motor para a mudança revolucionária. Em especial, aqui trato da arte, vista como uma forma de convencer as massas, “com sua forte influência sobre o lado emocional” (KRUPSKAYA, 2017, p. 100). O proletariado, no capitalismo, sempre esteve segregado do mundo das artes, sendo necessário, na revolução, dar espaço para as massas desenvolverem sua cultura. No entanto, nos alerta Krupskaya, não se trata de repetir a cultura burguesa, e sim de criar uma verdadeira arte proletária, a qual esteja diretamente ligada à nova vida soviética. “A arte pode crescer somente da vida. Quanto mais profunda for a compreensão desta vida, mais forte será a vivência do artista, e mais plenamente ela será refletida em suas obras” (KRUPSKAYA, 2017, p. 102).

Outro ponto relevante do livro gira em torno da função da escola e sua conexão à luta de classes e a outros aspectos estruturais, tema esse que, muitas vezes, não é explorado pelas perspectivas pós-modernas que vem dominando o cenário educacional nos últimos anos. A educadora soviética mostra seu pensamento sobre a atual escola (burguesa), indicando que no “Estado burguês - seja uma monarquia ou uma república, não importa - a escola é um instrumento de subjugação intelectual de amplas massas nacionais” (KRUPSKAYA, 2017, p. 65).

Ao ler a obra, esse resenhista achou que ela surge num momento oportuno dentro do contexto histórico atual brasileiro, a onda conservadora e golpista de desvalorização social dos profissionais da educação e de ataques que a educação nacional vem sofrendo nos últimos meses; foi revigorador ler a obra aqui resenhada. O papel de destaque atribuído pela autora ao professor é descrito como: “A grande maioria do magistério está próxima da classe operária e dos trabalhadores camponeses, e vive seus interesses” (KRUPSKAYA, 2017, p. 137). Essa consideração, de um lado, é acalentadora, pois reforça o reconhecimento histórico da relevância social desses profissionais. Por outro lado, de certa forma, causou um impacto a esse resenhista a repercussão que a docência pode causar na sociedade, por isso, veio à tona parte do peso dessa responsabilidade. Todavia, nos admoesta a autora, é fundamental a organização coletiva, a resistência, a esperança e a práxis revolucionária dos educadores e educadoras para o enfrentamento das novas tarefas históricas que nos aguardam.

Referências

ABREU, M.G.R.; LIMA, F.C.S. O pensamento pedagógico socialista: reflexões sobre a experiência educacional desenvolvida na Rússia pós-revolucionária sob a orientação de Pistrak. Educação e Emancipação, São Luís, v. 6, n. 1, p. 119-138, jan./jun.2013.DOI: http://dx.doi.org/10.18764/Links ]

KRUPSKAYA, N.K. A construção da pedagogia socialista. São Paulo: Expressão Popular, 2017. [ Links ]

MUÑOZ-MUÑOZ, A.M. Nadezhda Konstantinovna Krupskaia (1869-1939): feminista y bibliotecaria. In: MUÑOZ-MUÑOZ, A.M.; BALLARÍN DOMINGO, P. (Orgs.). Mujeres y libros: homenaje a la profesora a Ia profesora Dña. Isabel de Torres Ramírez. Granada: Universidad de Granada, Servicio de Publicaciones, 2010. p. 143-156. [ Links ]

MC NEAL, R.A. Letter from Trotsky to Krupskaya, 17 May 1927. International Review of Social History, v. 18, n. 1, p. 111-119, 1973. Disponível em: <Disponível em: https://doi.org/10.1017/S0020859000004223 >. Acesso em: 10 nov. 2017. [ Links ]

SILVA, V.R. Uma mulher, a biblioteconomia e as bibliotecas soviéticas. Múltiplos Olhares em Ciência da Informação, Belo Horizonte, v. 2, n. 1, p. 1-14, 2012. [ Links ]

1.Proclamação do comissariado do povo para a educação (1917); Deliberação do comitê executivo central de toda a Rússia (1918); Declaração sobre os princípios fundamentais da escola única do trabalho (1918); e Carta metodológica - Primeira carta: sobre o ensino por complexos (1924).

Recebido: 20 de Novembro de 2017; Aceito: 30 de Novembro de 2017

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