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Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul

Print version ISSN 0101-8108

Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul vol.26 no.2 Porto Alegre May/Aug. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-81082004000200011 

ENTREVISTA

 

Conversando com Cláudio Laks Eizirik, primeiro editor da revista

 

 

 

 

 

Entrevista concedida em 25 de julho de 2004 ao editor e aos membros do Conselho Editorial (foto): Antonio Marques da Rosa, Jacó Zaslavsky, Letícia Kipper, Anna Luiza Kauffmann, Júlio Chachamovich e Gustavo Schestatsky.

O Dr. Cláudio Laks Eizirik foi o primeiro editor da Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, fato que nos deixa muito orgulhosos no momento em que a Revista completa seus 25 anos de existência. Possui uma expressiva atuação institucional que dispensaria apresentações, pois já ocupou diversos cargos de direção e coordenação, tendo prestado inúmeros serviços à psiquiatria, à psicanálise, ao ensino, à pesquisa e à cultura. É detentor de grande capacidade aglutinadora e integradora nas instituições. É membro do conselho editorial e consultivo de diversas publicações nacionais e internacionais. Além de ser conhecido em nosso meio, em nível nacional e internacional, possui uma extensa e qualificada produção científica, com publicações de artigos e livros em diversos idiomas.

Entre as titulações e funções exercidas por Eizirik, podemos citar: Professor Adjunto do Departamento de Psiquiatria da UFRGS, Psicanalista Didata da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, Presidente eleito da Associação Psicanalítica Internacional, Ex-Presidente da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, Ex- Presidente da Fepal, Ex-Chefe do Departamento de Psiquiatria da UFRGS, Ex-Diretor da Faculdade de Medicina da UFRGS, Ex-Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria da UFRGS.

Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (R): Em nome do Conselho Editorial da Revista de Psiquiatria do RS e da Sociedade de Psiquiatria do RS (SPRS), agradecemos ao Cláudio pela disponibilidade em conversar conosco sobre a Revista, que agora completa um quarto de século e que o teve como primeiro editor.

Inicialmente, pediríamos que nos relatasses como se originou a Revista.

Cláudio Laks Eizirik (C): É uma satisfação estar aqui com vocês. Estava olhando o primeiro e o último número da Revista e percebi, com emoção, que o que eu tinha proposto no primeiro editorial felizmente aconteceu, ou seja, a Revista não deixou de ser publicada periodicamente pelas sucessivas diretorias durante todos esses anos. Em determinado momento, uniram-se a Sociedade de Psiquiatria do RS, a Clínica Pinel e o Centro de Estudos Luís Guedes, que passaram a publicar uma revista que se chamava Revista de Psiquiatria Dinâmica, de cujo Conselho Editorial eu participei por um período e que tinha o Carlos Gari Faria como editor. Mais adiante, o então diretor da Clínica Pinel, Marcelo Blaya, comunicou-nos que a Clínica Pinel não desejava mais continuar fazendo parte da revista e queria fazer a sua própria. Então, depois de algumas conversações entre as partes interessadas, inevitavelmente se desfez aquele acordo.

Foi então que Hans Ingomar Schreen, presidente da SPRS, juntamente com seu diretor científico, José Ricardo Pinto de Abreu, tiveram a iniciativa de começar uma revista da SPRS e me convidaram para ser o editor. Então, convidei um grupo de colegas para trabalhar. Foram eles: Antônio Carlos Jardim Pires, Cláudio Maria da Silva Osório, Ivete Enk, José Ricardo Pinto de Abreu, Juarez Guedes Cruz e Maria Lucrécia S. Zavaschi. Formamos o Conselho Editorial e começamos a planejar a Revista.

Criamos um Conselho Consultivo com os colegas: Carlos Gari Faria, David Zimmerman, Hans Ingomar Schreen, Isaac Pechansky, Manuel Albuquerque, Milton Shansis, Odon Cavalcanti Monteiro e Roberto Pinto Ribeiro.

Os sumários em inglês eram feitos pela Cristina Heuser, e a secretária era a Dalva dos Anjos, com quem trabalhei por vários anos.

Em março de 1979, ela ficou pronta. Recebemos a Revista da gráfica Grafosul, na Rua General Vitorino, numa manhã de segunda ou terça-feira. Assim nasceu a Revista. Lembro que tínhamos uma sessão curiosa nesse primeiro número: "Avalie seus conhecimentos". Também tínhamos resenhas de livros.

 

R: Como era a linha editorial da Revista da SPRS nessa época? Era diferente daquela da Revista de Psiquiatria Dinâmica, que a antecedeu?

C: A Revista de Psiquiatria Dinâmica era uma revista mais focalizada. Buscávamos, na nova Revista (a da SPRS), ter uma revista mais ampla. A idéia era ter uma revista que fosse aberta a todas as tendências e que desse espaço para todas as correntes da psiquiatria gaúcha da época.

 

R: E de lá para cá, ao longo desses 25 anos, qual a tua impressão sobre a evolução da Revista?

C: Eu acho que houve um grande desenvolvimento da Revista. Eu não posso fazer uma avaliação dos 25 anos porque teria que ver o que cada editor foi trazendo, alguma coisa peculiar, ou como cada comitê foi introduzindo suas mudanças. Houve um momento em que começaram os "Ciclos de Debates", na gestão do Mabilde, que foram muito importantes. Na gestão em que Sérgio Lewcowikz foi o editor, por exemplo, houve a organização do Conselho Internacional e, conseqüentemente, a busca pelas indexações nos anos seguintes.

Ao mesmo tempo em que foram sendo feitas essas melhorias, ao longo desses anos, o que me parece bastante importante é o fato da Revista permanecer com um valor documental histórico da nossa psiquiatria. Por exemplo, de todas as Jornadas de Psiquiatria do RS saía uma síntese no número seguinte da Revista. Também grandes eventos eram documentados na Revista, tais como visitas de colegas de destaque, como Gavíria, Antonino Ferro, Otto Kernberg, Glenn Gabbard e outros. Isso além de o colega ser convidado para escrever algum artigo para publicação.

Era uma maneira, então, de registrar também os acontecimentos científicos da psiquiatria do RS. Um testemunho histórico.

A minha impressão é de que essa linha se manteve. Naquele período de 25 anos atrás, os psiquiatras eram poucos. A orientação básica era psicodinâmica. Não havia grande desenvolvimento de outras áreas. As áreas de psicofarmacologia, terapias cognitivo-comportamentais, a pesquisa, as neurociências, são todas posteriores. Fica evidente que a Revista foi se ampliando também pela introdução dessas novas áreas no nosso meio.

A Revista mantém esse espírito agregador, que é uma coisa muito difícil. E ela tem uma característica que eu acho muito importante: acredito que ela seja a única revista brasileira de psiquiatria em que há um espaço claro para o pensamento psicanalítico, para as psicoterapias dinâmicas, para o desenvolvimento desta área. Eu acho que esse é um diferencial, a convivência com diversas áreas do pensamento científico.

Nos últimos anos, por exemplo, cada vez mais se vêem artigos de pesquisas, que era uma coisa que praticamente não existia naquela época. Então a Revista, além de ser um órgão científico, também é um documento, e agora é distribuída para todo o Brasil.

 

R: De que maneira a pesquisa e as publicações científicas poderiam interferir na citada "crise da psicanálise" e, por extensão, da psicoterapia de orientação psicanalítica?

C: Eu estou terminando de escrever uma entrevista para uma revista chamada Revista Latino-Americana de Psicopatologia Fundamental, que é editada em São Paulo, e uma das perguntas é assim: "Há evidências de que a psicanálise funciona como um método terapêutico?" Ou seja, deve-se cobrar evidências de que os métodos funcionam.

Eu acho que se deve cobrar evidências de eficácia de todos os métodos. Nessa entrevista eu dou uma referência bibliográfica de 2003 do International Journal, uma ampla pesquisa sobre a efetividade da psicanálise na Alemanha, coordenada pela Marianne Leutzinger-Bohleber, e sugiro que as pessoas leiam esse trabalho, que documenta muito bem, entre tantos outros, por que a psicanálise funciona. Então, eu acho que as pesquisas são muito importantes e que nós precisamos divulgar seus resultados. Inclusive os problemas, as dificuldades em se fazer pesquisa nessa área. Precisamos de uma avaliação crítica do nosso trabalho clínico. Toda essa controvérsia sobre a efetividade de muitos tratamentos vem mudando de acordo com novos estudos — por exemplo, as meta-análises e as novas revisões. A certeza sobre uma determinada técnica pode ser substituída pela incerteza de uma nova série de estudos. Assim, a pesquisa, as discussões, a investigação sistemática, com uma metodologia específica, é muito útil para questionar e/ou validar métodos de tratamento. Tanto a pesquisa qualitativa quanto a quantitativa podem ajudar no nosso diálogo com as outras disciplinas. E nos ajudar, inclusive, a trazer tranqüilidade aos terapeutas no momento de enfrentar determinados questionamentos sobre a eficiência do tratamento.

Se eu indico um determinado tratamento, o paciente poderá perguntar: "Em que o senhor se baseia para dizer que a terapia cognitivo-comportamental é adequada para o meu caso?". Ou a psicanálise, ou o antidepressivo. Temos que poder dizer: "Eu me baseio num conhecimento atual e numa longa experiência clínica, que diz que, para tal situação, está indicado tal tratamento". Entendo a pesquisa como um importante recurso para enfrentar esta situação de crise da psicanálise e das psicoterapias de orientação psicanalítica.

 

R: Qual a relação entre as publicações científicas na psiquiatria e na psicanálise? O que tu pensas sobre a neurociência?

C: A neurociência, mais especificamente a neuropsicanálise, é uma área ainda polêmica em muitos setores. Parece-me que ela pode produzir avanços científicos muito estimulantes. Como diz o nosso amigo Ricardo Bernardi: "A psicanálise se desenvolveu no diálogo com outras disciplinas, e não isoladamente, embora tenha períodos de maior isolamento".

Precisamos desenvolver diálogos tanto com as neurociências como com as áreas humanísticas: com a literatura, com a filosofia, com a crítica literária, com a história.

Minha visão é de que devemos ter um diálogo duplo: por um lado, com a neurociência ou com a parte dita "científica", e por outro lado, com as humanas. Se formos demais para um lado, corremos o risco de perder a mente, e se formos demais para o outro lado, corremos o risco de perder o cérebro. O desafio é manter o equilíbrio. Ter a postura do Freud, que era um homem da ciência e um homem das humanidades, simultaneamente.

O mesmo cuidado deve-se ter com a linha editorial de uma revista, porque se ela se submete a uma orientação única, também não está servindo à educação continuada dos leitores e, portanto, não está apreendendo o estado atual da ciência. Nosso desafio é ter a capacidade de manter a mente aberta para os desenvolvimentos dos diversos setores da psiquiatria.

 

R: Que influência teria uma revista em incitar seus leitores a escrever e publicar artigos científicos?

C: Sei, através de conversas com vários editores de muitas revistas, que às vezes é um grande problema conseguir trabalhos de qualidade. Atualmente, a grande maioria das revistas já tem — inclusive a nossa — "Revisão por Pares". Ter seu trabalho criticado anonimamente, me parece que já faz parte, atualmente, da mentalidade dos leitores. Compreende-se que isso é um sinal da vitalidade e da seriedade de uma revista.

Penso que é preciso estimular as pessoas a publicar. Por um lado, a revista tem que ser qualificada e, com isso, ser rigorosa na seleção dos artigos a serem publicados; por outro lado, ela deve acolher e enviar algum parecer sobre os trabalhos recebidos, até mesmo para não desestimular seus leitores a escreverem e enviarem seus trabalhos para publicação. É um dilema. À medida que a revista cresce, ela fica exigente e, por exigente, rejeita mais trabalhos, o que pode inibir colaboradores.

 

R: Existem relativamente poucos trabalhos com metodologia científica nas revistas de psicanálise. Tu acreditas que esses trabalhos vêm sendo publicados em revistas como a nossa, que contemplam mais as linhas de estudos, incluindo a psicanálise, a psicoterapia?

C: Aqui nós temos uma questão complexa. Há vários tipos de pesquisa: a pesquisa conceitual, a pesquisa empírica, o estudo de caso. O International Journal of Psychoanalysis, por exemplo, tem um setor de pesquisa, mas ele também tem um setor de trabalhos teóricos — este, por exemplo, também não deveria ser uma forma de pesquisa conceitual?

A psicanálise tem uma abrangência de formas de pesquisa muito ampla. Eu penso que as revistas psicanalíticas abrigam trabalhos de pesquisas. Há campo para a publicação de todas as revistas.

Na IPA nós temos dois comitês de pesquisa. Um que se chama de pesquisa conceitual e um de pesquisa empírica. Recentemente, tivemos um livro editado pela Marianne Leutzinger-Bohleber, a quem citei há pouco, que é sobre métodos de pesquisa em psicanálise, muito interessante. Enfim, eu acho que é um campo a ser mais e mais desenvolvido.

 

R: E tu vês alguma diferença entre pesquisas sobre psicanálise e em psicanálise?

C: Uma pesquisa que é feita sobre um caso clínico pode ser valiosa e pode ser totalmente inútil, dependendo da qualidade que ela pode trazer, assim como uma pesquisa feita sobre a efetividade do tratamento psicanalítico ou sobre a transmissão de determinado conteúdo psicanalítico na formação pode ser valiosa ou pode não ser. O que existe são boas e más pesquisas. Precisamos de pesquisas bem feitas, que tragam algum conhecimento, que tenham uma metodologia sólida. Não estou de acordo com uma divisão excludente que diz assim: "Só assim é pesquisa", porque senão nós teremos que dizer assim: "Só é psicanálise tal coisa e só é psicoterapia tal coisa". Existem vários modelos. Existem modelos de formação, existem modelos diferentes de prática e existem aplicações. Então, temos que ter muito cuidado com essas posturas que fecham as portas e que dizem: "Só isto que é ciência, e isto não é ciência". A ciência é muito ampla, não?

Outra questão é que nós estamos ao mesmo tempo sendo avaliados pelos mesmos critérios das outras áreas médicas, mas somos de uma área diferente. Então isso é uma questão que muitos psiquiatras protestam, não aceitam, e muitos da medicina também não, mas, de qualquer maneira, eu penso que nós precisamos ter boas revistas, em que se possam publicar trabalhos de psicoterapia e de psicanálise que sejam reconhecidos.

Estamos sob uma espécie de ditadura das agências financiadoras, que estabelecem uma coisa altamente perigosa que é a questão numérica. Então, tu tens que ter um número "x" de trabalhos publicados, o que numa área básica é muito fácil, pois de uma única pesquisa tem-se material para inúmeros artigos. Já na psicoterapia de orientação psicanalítica e na psicanálise, isso não ocorre; os resultados são lentos, a metodologia é trabalhosa e exige cuidados, o que acaba prejudicando as publicações psicanalíticas. Já não se tem muita pesquisa, então não se tem muita citação, dificultando o denominado índice de impacto. Caberia uma questão: como se pode medir o real impacto de um estudo qualitativo que muda nossa forma de entender uma situação clínica e propõe uma nova maneira de interpretar um fenômeno clínico? Serão apenas os números, ou precisamos refinar e sofisticar nossos processos de avaliação?

 

R: Cláudio, o que tu pensas, por exemplo, da publicação eletrônica?

C: Eu não tenho muita experiência com isso. Mas é interessante.

 

R: A partir desta próxima edição, a Revista de Psiquiatria do RS terá dois tipos de publicação: uma impressa, na língua portuguesa, e outra publicação eletrônica, em inglês, para ser acessada através do site do SciELO, nossa mais recente conquista.

C: Acho essa uma boa idéia. Facilita o diálogo com o resto do mundo e divulga o conhecimento científico rapidamente. Naturalmente, deve-se ter um cuidado com as questões de confidencialidade do material clínico.

 

R: Bem, Cláudio, nosso diálogo foi muito gratificante e novamente queremos te agradecer pela possibilidade de termos podido conversar contigo sobre a Revista e ouvir tuas idéias sobre as publicações concernentes à nossa área de atuação profissional.

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