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Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul

Print version ISSN 0101-8108

Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul vol.26 no.2 Porto Alegre May/Aug. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-81082004000200014 

CARTAS AOS EDITORES

 

Carta 3: PANDAS e a hipótese imunológica no transtorno obsessivo-compulsivo

 

PANDAS y la hipótesis inmunológica en el trastorno obsesivo-compulsivo

 

 

Sr. Editor,

O tema PANDAS realmente ainda é controverso na literatura, o que felizmente nos oportuniza discutir com a comunidade científica novas alternativas de se entender as doenças psiquiátricas. O retorno da psiquiatria aos modelos médicos sem dúvida ganhou força com a introdução de classificações categoriais (como os DSMs e CIDs) e com a introdução de psicofármacos como ferramentas importantes de tratamento. Esses adventos repercutiram enormemente nos avanços tecnológicos das abordagens diagnósticas complementares (exames de neuroimagem, genética molecular, etc.) e terapêuticas, aspectos que, por certo, ainda merecem maiores e melhores investigações. O estudo da etiologia das doenças psiquiátricas, contudo, ainda engatinha. Poucas evidências contundentes temos de aspectos causais de transtornos psiquiátricos, a não ser por relatos de casos isolados ou suposições teoricamente embasadas. Mas estamos no caminho certo.

Em 1632, no Dialogo dei massimi sistemi (Diálogo sobre os grandes sistemas do universo), quando Galileu defendeu o heliocentrismo, foi condenado pela Inquisição à prisão domiciliar e proibido de publicar livros por defender uma hipótese, na época, absurda e herege. Por ocasião da condenação, diz a lenda que ele então teria dito Eppur si muove (No entanto, se move). Longe de estar igualando o conceito de PANDAS a tamanha genialidade, o objetivo de citar Galileu refere-se ao fato de, no início, novas hipóteses serem vistas como improváveis ou impossíveis.

O método científico proporciona, destarte, que achados positivos e negativos relativos ao mesmo evento proposto possam ocorrer, motivo pelo qual o homem recorre ao artifício da estatística, tomando certas inferições como verdadeiras, baseadas num modelo de formulação de hipóteses. Essas hipóteses muitas vezes partem de observações despretensiosas e ocasionais. Infelizmente, as interpretações humanas são sujeitas a vieses, como, por exemplo, o fato de valorizarmos com primazia os aspectos positivos de um estudo e menosprezamos os achados negativos, ou o fato de ignorarmos o total de variáveis possivelmente envolvidas na hipótese. Contudo, reconhecemos que, dentro do método científico, os achados negativos são fundamentais para se encontrar a verdade.

Veja que a relação entre processos infecciosos e TOC não é tão recente. Quando Esquirol, em 1838 (apud Berrios1), classificou os fenômenos obsessivos como uma forma de monomania, definiu esta monomania como "uma enfermidade crônica do cérebro, sem febre, caracterizada por uma lesão parcial do intelecto, das emoções ou da vontade". Nesse sentido, "[...] o sujeito se encontra ligado a atos que não provêm de sua razão ou emoção, os quais são rechaçados por sua consciência e que sua vontade não pode interromper".

Mesmo a evidência atual de que os sintomas de TOC melhoram com medicações que inibem a recaptação da serotonina2,3 pode ser questionada, pois os benefícios obtidos com o aumento da neurotransmissão serotoninérgica não provam, necessariamente, que as anormalidades nesse sistema seriam a única causa dos sintomas do TOC, pois esses neurônios serotoninérgicos também modulam as funções de vários outros sistemas (dopaminérgico, noradrenérgico, etc.). Assim, hipotetiza-se que cada paciente com TOC, dependendo do sistema de neurotransmissão e das vias neuronais que utiliza ou que estão disfuncionais (quer seja por motivos imunológicos ou outros desconhecidos), pode apresentar uma diversidade de sintomas e responder mais ou menos a um determinado fármaco ou combinação de fármacos ou estratégias terapêuticas. Isso evidencia a heterogeneidade da doença que hoje chamamos de TOC, mas que na realidade poderia representar várias doenças sob esse título, ou uma doença com vários subtipos. Da mesma forma, o transtorno de Tourette pode ser introduzido a este modelo.

Mais pesquisas sobre o tema PANDAS, com metodologias adequadas e tamanhos amostrais suficientes, ainda são requeridos para que possamos entender melhor a hipótese complexa da etiopatogenia imunológica nos transtornos psiquiátricos.

Nesse sentido, sentimo-nos privilegiados pela oportunidade de ter nosso artigo de revisão lido e construtivamente analisado, pois o estímulo àqueles que iniciam na arte de pesquisar ficou certamente enriquecido.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Berrios GE. Historia de los trastornos obsesivos. In: Ruiloba JV, Berrios GE, eds. Estados obsesivos. 2ª ed. Barcelona: Masson; 1995. pp. 1-14.

2. Piccinelli M, Pini S, Bellantuono C. Efficacy of drug treatment in obsessive-compulsive disorders: a meta-analytic review. Br J Psychiatry 1995;166:424-43.

3. Stein DJ, Spadaccini E, Hollander E. Meta-analysis of pharmacoterapy trials for obsessive-compulsive disorder. Int Clin Psychopharmacol 1995;10:11-8.

 

 

Ygor Arzeno Ferrão
Aluno de Doutorado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP); Médico do Hospital Psiquiátrico São Pedro.

Ramiro Ronchetti
Professor Adjunto do Departamento de Clínica Médica, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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