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Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul

Print version ISSN 0101-8108

Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul vol.28 no.1 Porto Alegre Jan./Apr. 2006

https://doi.org/10.1590/S0101-81082006000100006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Adaptação transcultural para o português do Social Phobia Inventory (SPIN) para utilização entre estudantes adolescentes*

 

Adaptación transcultural al portugués del Social Phobia Inventory (SPIN) para utilización entre estudiantes adolescentes

 

 

Liliane VileteI; Ivan FigueiraII; Evandro CoutinhoIII

IMestre, Escola Nacional de Saúde Pública - Fundação Oswaldo Cruz (ENSP-FIOCRUZ), Rio de Janeiro, RJ. Médica, Instituto de Psiquiatria - Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ
IIDoutor, IPUB-UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Professor adjunto, Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal, UFRJ, Rio de Janeiro, RJ
IIIDoutor, Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, BA. Pesquisador titular, Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos, ENSP-FIOCRUZ, Rio de Janeiro, RJ

Correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: É crescente o interesse em estudar a Fobia Social, sobretudo em faixas etárias jovens, requerendo instrumentos de autopreenchimento para identificação do transtorno. Esse estudo consistiu na adaptação transcultural do Social Phobia Inventory (SPIN) para sua utilização entre adolescentes estudantes brasileiros.
MÉTODOS: O processo de adaptação envolveu quatro etapas: tradução; retroversão; apreciação das versões com elaboração de uma versão de consenso; e pré-teste comentado.
RESULTADOS: Para cada item do instrumento, são apresentados os resultados das quatro etapas e a versão final do instrumento em português.
DISCUSSÃO: É importante a utilização de mais de uma tradução e retroversão para possibilitar a comparação dos itens e a identificação de erros e assim permitir a escolha dos termos mais adequados. A realização do pré-teste comentado em um grupo semelhante à população alvo possibilita a melhor adequação do instrumento à população em que será utilizado.
CONCLUSÃO: Instrumentos elaborados em língua estrangeira necessitam de processo cuidadoso de adaptação transcultural para sua utilização em uma realidade sociocultural distinta.

Descritores: Transtornos fóbicos, tradução, questionário, SPIN, fobia social.


RESUMEN

INTRODUCCIÓN: Es creciente el interés en estudiar la Fobia Social, sobre todo en el franjas de la edad de los jóvenes, requiriendo instrumentos de auto relleno para la identificación del trastorno. Ese estudio consistió en la adaptación del Social Phobia Inventory (SPIN), para su utilización entre los adolescentes estudiantes brasileños.
MÉTODOS: El proceso de adaptación abarca cuatro etapas: Traducción, Retroversión, apreciación de las Versiones, con elaboración de otra versión de Acuerdos y preteste comentado.
RESULTADOS: Para cada ítem del instrumento, son presentados los resultados de las cuatro etapas y la versión final del instrumento en portugués.
DISCUSIÓN: Es importante la utilización de más de una traducción y retraducción para posibilitar la comparación de cada ítem y la identificación de los errores, permitiendo que se elijan los términos mas apropiados. La realización del preteste comentado, en un grupo semejante a la población meta posibilita la mejor adecuación del instrumento de la población en que será utilizado.
CONCLUSIÓN: Instrumentos en lengua extranjera necesitan de un proceso cuidadoso de adaptación transcultural para su utilización en una realidad socio cultural distinta.

Palabras clave: Trastornos fóbicos, traducción, cuestionario, SPIN, fobia social.


 

 

INTRODUÇÃO

A fobia social é definida como um medo acentuado e persistente de situações sociais e de desempenho, as quais o indivíduo enfrenta com grande sofrimento e/ou evita, levando a um conseqüente prejuízo no seu funcionamento acadêmico, social ou ocupacional1. Esse transtorno vem sendo descrito como tendo, mais freqüentemente, início na adolescência e curso crônico2-4 e como sendo precedente de outras comorbidades, como transtorno de somatização, depressão maior, transtorno obsessivo-compulsivo, distimia e abuso de álcool e outras substâncias5. Entretanto, apenas uma pequena parcela dos adolescentes fóbicos sociais procuram tratamento6.

É crescente o interesse em estudar este transtorno entre faixas etárias jovens, por se questionar se a intervenção precoce em uma condição potencialmente tratável poderia ajudar a prevenir tais complicações tardias.

Devido à praticidade dos instrumentos de autopreenchimento, reduzindo custo e tempo de pesquisas, vários questionários para a detecção da fobia social vêm sendo desenvolvidos em outros países. São numerosas as vantagens de utilizarmos instrumentos de medida já validados e amplamente utilizados por outros pesquisadores. Além de nos poupar tempo e dinheiro - uma vez que a concepção, desenvolvimento e consolidação de um novo instrumento é muito trabalhosa e dispendiosa -, permite-nos também comparar os resultados obtidos em pesquisas com populações distintas7,8. No entanto, para que tais instrumentos sejam utilizados em diferentes realidades socioculturais, é necessário um processo de tradução e adaptação abrangentes, na tentativa de alcançar uma equivalência cultural, com posterior estudo de sua validade nesta nova população9.

Historicamente, a adaptação de instrumentos elaborados em outro idioma se detinha à simples tradução do original ou, excepcionalmente, à comparação literal deste com versões retraduzidas8. Atualmente, no entanto, é reconhecido que, se medidas devem ser usadas através de culturas, os itens não devem ser apenas bem traduzidos lingüisticamente, mas devem também ser adaptados culturalmente, para manterem a validade de conteúdo do instrumento em um nível conceitual10,11. Apesar do avanço das reflexões a esse respeito, ainda não existe consenso quanto à melhor estratégia de adaptação, existindo, na literatura, diferentes propostas metodológicas para a realização desse processo7,8,10-13.

No contexto brasileiro, desconhecemos estudos de base populacional sobre a fobia social nessas faixas etárias jovens. Além disso, até o momento da realização deste presente trabalho, nenhum instrumento de autopreenchimento para a detecção da fobia social havia sido validado para a população brasileira. Recentemente, foram publicados os estudos sobre as versões em português dos instrumentos SPAI (Social Phobia and Anxiety Inventory) e SPAI-C - desenvolvidos para indivíduos maiores de 14 anos e para crianças, respectivamente14-17.

Com a intenção de, em posterior estudo, podermos utilizar um instrumento de autopreenchimento para a estimativa da prevalência da fobia social entre uma população de adolescentes da rede de pública de ensino do município do Rio de Janeiro, optamos por realizar a tradução, a adaptação cultural e a validação do Social Phobia Inventory (SPIN) para esta população.

O SPIN é um instrumento originalmente de língua inglesa e consiste de apenas 17 itens, que abarcam três importantes dimensões que definem a fobia social: o medo, a esquiva das situações e os sintomas de desconforto físico. Engloba tanto situações de desempenho quanto de interação social. Para cada item do questionário, solicita-se ao indivíduo que ele indique o quanto as situações ou sintomas descritos o incomodaram na última semana, devendo este marcar uma entre as cinco opções, que variam de "Not at all" a "Extremely". A pontuação para cada uma das gradações varia, portanto, de 0 a 4, e a pontuação total irá variar de 0 a 68. A avaliação psicométrica realizada pelos autores do instrumento, com 353 indivíduos com média de idade de 36 anos, demonstrou boa consistência interna (a de Cronbach variando de 0,82 a 0,94) e boa confiabilidade teste-reteste do instrumento, através do método desenvolvido por Bland & Altman18 e do coeficiente de correlação de Spearman (variando de 0,78 a 0,89). A validade de critério, utilizando a entrevista clínica como padrão-ouro, estimou uma sensibilidade variando de 0,73 a 0,85, e especificidade, de 0,69 a 0,84 sendo proposto o uso do escore 15 como ponto de corte para diferenciar fóbicos sociais e voluntários saudáveis. Demonstrou, ainda, boa capacidade de discriminação entre a efetividade de diferentes tratamentos19.

O instrumento foi escolhido não só por suas boas propriedades psicométricas, mas, sobretudo, por sua simplicidade e aparente melhor adequação à faixa etária da população do estudo, o que pôde ser percebido durante visita ao campo para conhecimento da população-alvo. Os conceitos apreendidos foram considerados pertinentes à nossa cultura (equivalência conceitual), e seus itens foram considerados adequados quanto à sua capacidade de representar tais conceitos na população em que pretendemos utilizá-lo (equivalência de itens).

Neste artigo, apresentamos detalhadamente o processo de tradução e adaptação cultural do SPIN para a língua portuguesa, para sua utilização entre adolescentes brasileiros da rede pública de ensino do Rio de Janeiro.

 

METODOLOGIA

O processo de adaptação transcultural envolveu quatro etapas: tradução; retroversão; apreciação das versões com elaboração de uma versão de consenso; e pré-teste comentado com elaboração da versão final (ver figura 1).

 

 

Inicialmente, foram feitas duas traduções do SPIN para o português (T1 e T2) por dois psiquiatras com experiência em fobia social, com língua materna portuguesa e fluência na língua inglesa. Essas versões foram realizadas de forma independente pelos dois profissionais, sem que eles tomassem conhecimento da tradução feita pelo colega. Ambos estavam orientados sobre a população-alvo em que o instrumento seria utilizado (adolescentes da rede de ensino público), tendo sido indicada a necessidade de utilização de palavras simples e familiares a esse meio. Também estava indicada a necessidade de que as traduções fossem semânticas, e não apenas literais, e que se procurasse utilizar palavras que produzissem o mesmo impacto no nosso contexto cultural, visando à reprodução de uma mesma resposta emocional. Isso porque palavras com um mesmo significado literal possuem impactos distintos (por exemplo: medo, pânico, pavor). Foi-lhes solicitado, também, que pontuassem cada item de acordo com sua impressão subjetiva do grau de dificuldade/facilidade que haviam tido na sua tradução, utilizando uma escala numérica que variava de 0 (muito difícil) a 100 (muito fácil). Os itens assim ditos "problemáticos" poderiam ser reavaliados atentamente na etapa de apreciação e elaboração de versão de consenso, bem como levados à discussão durante a fase pré-teste, considerando que poderiam acarretar uma dificuldade maior de compreensão pela população-alvo.

Cada uma das traduções foi, então, retrovertida de forma independente por um tradutor bilíngüe diferente (R1 e R2). Ambos eram de língua materna inglesa, com fluência na língua portuguesa e residentes no Brasil - um com formação em medicina e outro sem formação profissional na área da saúde. Os tradutores responsáveis pela retrotradução não tinham conhecimento da versão original em inglês.

Essas versões e retroversões foram, então, apreciadas pelos autores, através da comparação com o texto original para correção de discrepâncias e elaboração de uma versão de consenso (VC). Para compor essa versão, foram selecionados de cada tradução em português (T1 e T2) os itens que melhor pareciam corresponder ao objetivo definido inicialmente, isto é, que resguardassem as equivalências semântica (as palavras têm o mesmo significado?), idiomática (existe equivalência de gírias e expressões coloquiais?), conceitual (existe homogeneidade de conceitos entre as culturas?) e de experiência dos termos (segundo Beaton et al.11) e que se apresentassem com vocabulário simples e direto. Alguns itens da versão de consenso foram compostos por uma combinação de termos dos itens das duas versões.

Com a versão de consenso, um pré-teste foi realizado, com a participação de adolescentes de uma escola politécnica e de um ambulatório de psiquiatria infanto-juvenil, com idades entre 13 e 18 anos, para a avaliação da compreensão e verificação da aceitabilidade do instrumento e para a realização de correções necessárias. Vinte adolescentes comentaram as questões da versão de consenso, apontando dificuldades e sugerindo termos de mais fácil compreensão. A partir dessas sugestões, foi elaborada a versão final (VF) em português do questionário SPIN, incluindo algumas explicações entre parênteses para aquelas expressões consideradas de difícil compreensão.

As etapas do processo e a versão final em português foram aprovadas pelos autores da versão original.

 

RESULTADOS

O quadro 1 apresenta os itens da versão original, das traduções (com respectivos "graus de facilidade"), das retrotraduções e da versão de consenso do SPIN (antes de alterações do pré-teste).

As versões feitas por ambos os tradutores para o enunciado e para as categorias do instrumento, bem como para os itens 3, 5, 6, 8, 10, 14 e 15, foram idênticas ou praticamente idênticas. No item 14, priorizamos a versão cujos termos foram retrotraduzidos com maior proximidade dos termos originais, uma vez que não se observou diferença entre as versões em termos de simplicidade ou melhor adequação à faixa etária que se pretendia estudar.

Nos outros itens, também, ou foi priorizada uma versão sobre a outra, ou ambas foram combinadas na versão de consenso, sempre com o objetivo de se conseguir maior clareza do item.

No primeiro item, optamos por simplificar a expressão "people in authority" com a utilização apenas da palavra "autoridades", de uso corriqueiro em nosso meio. Com a permissão dos autores da versão original, também foram incluídos exemplos de autoridades para a população-alvo (escolares), indicando-os entre parênteses.

No item 2, ainda que "corar" nos tenha parecido mais usual do que "ruborizar", também optamos por acrescentar uma explicação ao termo, incluindo, entre parênteses, a expressão "ficar vermelho", em virtude da possibilidade de limitação de vocabulário da população-alvo.

No item 4, priorizamos a tradução T1 sobre a T2, por considerarmos mais simples a expressão "não conheço" do que "desconheço".

Já no item 7, optamos pela tradução T2 para o termo "distress" ("mal-estar"), aparentemente mais apropriado do que o termo "angústia".

No item 11, utilizamos ambos os termos escolhidos pelos tradutores para a palavra "speeches" ("discursos ou palestras"), também acrescentando, entre parênteses, exemplos de situações potencialmente vividas pela população-alvo.

No item 13, a expressão "palpitações do coração" nos pareceu mais explícita do que "palpitações cardíacas", sendo escolhida, portanto, a versão T1.

Também no item 17, optamos por uma combinação das duas versões. Da primeira versão, por acreditarmos que seria redundante traduzirmos separadamente "trembling" e "shaking", consideramos que a utilização apenas do termo "tremer" já estaria apropriada para indicar corretamente a situação que se desejava investigar. E, da segunda, preferimos novamente a expressão "me causa mal-estar" ao invés de "é angustiante para mim".

Durante a realização do pré-teste comentado com os 20 adolescentes participantes, novas alterações foram feitas, na tentativa de adequarmos ainda mais o questionário à compreensão da população-alvo. Alguns adolescentes sugeriram que, na primeira coluna da gradação de sintomas, fosse substituída a expressão "nem um pouco" pela de igual valor "nada", expressão esta que havia sido sugerida pelo tradutor 2, mas que havia sido preterida em função da retroversão literal obtida pela primeira versão. Como nosso objetivo era de equivalência semântica e não literal, a expressão "nada" foi considerada definitiva, acatando a sugestão do pré-teste. Os adolescentes foram também interrogados quanto à possibilidade de utilização dos termos "intimidar" ou "amedrontar" nos itens 3 e 10, em substituição ao termo "assustar", mas, ainda assim, houve preferência pelo último, que foi, então, mantido. Foi sugerida pelos participantes a troca da expressão "o medo de constrangimento" pela semelhante, mas, segundo indicaram, de mais fácil compreensão, "o medo de ficar constrangido". "Palpitações" foi o termo que mais gerou dúvida entre os adolescentes, que chegaram a explicá-lo de maneiras bastante curiosas: "quando o coração dói"; "quando o coração fala, isto é, quando o coração dá palpite". Por esta razão, também incluímos na versão final uma explicação entre parênteses para a expressão, indicando: "batidas fortes e rápidas do coração". Não houve dificuldade aparente de nenhum outro termo durante o pré-teste.

A versão final do SPIN elaborada após o pré-teste, e com o layout utilizado nos trabalhos de campo em estudos posteriores, pode ser vista em Anexo.

 

DISCUSSÃO

Ainda não há consenso sobre qual a melhor maneira de se realizar uma adaptação transcultural, uma vez que pouca pesquisa vem sendo feita nesse campo para delinear o que é essencial e o que é suplementar nesse processo10. No entanto, cada vez mais algumas diretrizes vêm sendo seguidas, e nós optamos pela utilização de dois tradutores e dois retrotradutores independentes, para possibilitar a comparação entre as versões, a identificação de erros em alguns itens e a escolha dos termos mais adequados. Como também vem sendo proposto atualmente na literatura8,10-12, valorizamos a equivalência semântica, e não a literal entre os termos, uma vez que nem sempre a literal se mostra mais vantajosa em expressar conceitos ou situações da nova população que se deseja estudar.

Uma maneira que pode facilitar a tradução para termos de melhor adequação à população geral, evitando-se jargões e termos técnicos (por exemplo, palpitações "cardíacas"), é a utilização de um tradutor para o português sem formação na área de saúde, o que não foi feito nesse processo por razões práticas, com a utilização de dois autores desse estudo na tradução. No entanto, os termos inadequados para a população-alvo puderam ser revistos e substituídos durante a aplicação do pré-teste.

A "gradação de facilidade" feita pelos tradutores é uma avaliação subjetiva que não foi utilizada como critério para a escolha dos itens da versão final. Foi utilizada apenas como uma maneira de ressaltar os itens "problemáticos" para sua apreciação no pré-teste.

Não foi aceita a inclusão de expressões como gírias, embora algumas tenham sido sugeridas no pré-teste pelos adolescentes (por exemplo, "medo de pagar mico"), para evitar regionalismos e permitir uma maior utilização do instrumento no contexto nacional, e também pelas mudanças que as gírias tendem a sofrer ao longo do tempo.

Optamos também por alterarmos ao mínimo a estrutura do instrumento original, não incluindo ou excluindo itens da escala, a fim de não promovermos maiores alterações das propriedades psicométricas e permitirmos a comparação das duas versões.

Na versão em português, também utilizamos os mesmos pesos dos itens do instrumento original.

Quanto ao título do instrumento, embora o termo "inventário" seja uma palavra pouco conhecida por nossa população-alvo, optamos por não adaptarmos "inventory" a "questionário", para não alterarmos as iniciais da sigla da escala original e permitir sua melhor distinção de outros instrumentos de fobia social - como, por exemplo, do Social Phobia Screening Questionnaire (SPSQ). Sugerimos aos pesquisadores, portanto, que utilizem a versão em português do SPIN e expliquem o título do instrumento (com os objetivos deste) à população que se deseja estudar, a fim de evitar possíveis más interpretações.

A adaptação transcultural tenta assegurar uma consistência na validade de conteúdo e de face entre as versões do questionário (original e na língua-alvo), não garantindo, entretanto, que serão preservadas a confiabilidade e a validade de critério da versão original. Diferenças sutis nos hábitos de vida nas diferentes culturas podem levar um item do questionário a ser mais ou menos difícil de ser compreendido, podendo alterar as propriedades psicométricas e estatísticas do instrumento. Portanto, para que a adaptação transcultural seja plenamente alcançada, é também necessário um estudo de equivalência de mensuração, com avaliação da confiabilidade e validade da nova versão. O estudo de confiabilidade do SPIN foi descrito em artigo já publicado pelos autores20, e o artigo sobre o estudo preliminar de sua validade de critério21 se encontra em fase de elaboração.

 

CONCLUSÃO

Instrumentos elaborados em língua estrangeira necessitam de processo cuidadoso de adaptação transcultural para sua utilização em uma realidade sociocultural distinta. As etapas percorridas para a elaboração da versão brasileira do SPIN permitiram a disponibilização de mais um instrumento para a avaliação da fobia social em grupos populacionais, com boa compreensão e aceitação entre os adolescentes da rede pública de ensino.

 

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Correspondência:
Liliane Vilete
Av. Venceslau Brás, 71, fundos
CEP 22290-140 - Rio de Janeiro - RJ
Fone: (21) 2295.5549
E-mail: lilianevilete@hotmail.com

Recebido em 20/06/2005.
Aceito em 17/02/2006.

 

 

* Este trabalho é baseado na tese acadêmica intitulada "Tradução, adaptação para o português e estudo da qualidade de um instrumento para a identificação da fobia social em uma população de adolescentes", defendida em 2002 na Escola Nacional de Saúde Pública, Rio de Janeiro, RJ.

 

 

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