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Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul

versión impresa ISSN 0101-8108

Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul v.28 n.1 Porto Alegre ene./abr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-81082006000100008 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Memória, humor e emoção*

 

Memoria, humor y emoción

 

 

Giovanni Kuckartz PergherI; Rodrigo Grassi-OliveiraII; Luciana Moreira de ÁvilaIII; Lilian Milnitsky SteinIV

IPsicólogo, Mestrando em Psicologia Social e da Personalidade, PUCRS, Porto Alegre, RS
IIMédico psiquiatra, Mestre em Psicologia Social e da Personalidade, o do Pós-Graduação em Psicologia, PUCRS, Porto Alegre, RS
IIIPsicóloga, Mestre em Psicologia Social e da Personalidade, PUCRS, Porto Alegre, RS
IVPsicóloga, PhD em Psicologia, Professora do Pós-Graduação em Psicologia, PUCRS, Porto Alegre, RS

Correspondência

 

 


RESUMO

O número de estudos que visam compreender as interações entre processos cognitivos e afetivos vem aumentando nos últimos anos, principalmente em função das suas inúmeras implicações práticas, com destaque para a psicoterapia e a área forense. O presente artigo tem por objetivo apresentar algumas das possíveis interações entre processos afetivos e a memória. Inicialmente são assumidas definições para os termos emoção, humor e afeto. Depois, são abordadas as relações entre humor, emoção e memória, descrevendo-se os principais fenômenos investigados nessas áreas. Para cada fenômeno descrito, são expostos fundamentos empíricos e teorias explicativas. Ao final, são discutidas limitações e implicações dos estudos sobre as relações entre humor, emoção e memória, apontando-se para a necessidade de um maior consenso entre os pesquisadores da área.

Descritores: Memória, estresse emocional, humor.


RESUMEN

El número de estudios que visan comprender las interacciones entre procesos cognitivos y afectivos viene aumentando en los últimos años, principalmente en función de sus incontables implicaciones prácticas, con destaque para la psicoterapia y el área forense. El presente artículo tiene por objetivo presentar algunas de las posibles interacciones entre procesos afectivos y la memoria. Inicialmente se asumen definiciones para los términos emoción, humor y afecto y para los sistemas de memoria. Enseguida, se abordan los fenómenos de la memoria congruente con el humor, memoria dependiente del humor, memorias autobiográficas súper generalizadas y del impacto de la emoción/estrés sobre los sistemas de memoria semántica y autobiográfica. También se exponen algunos hallazgos experimentales y teorías explicativas de tales fenómenos. Al final, se discuten implicaciones de las investigaciones en el área de emoción vs. cognición.

Palabras clave: Memoria, estrés emocional, humor.


 

 

INTRODUÇÃO

Este artigo tem por objetivo apontar algumas das possíveis relações entre processos emocionais e de memória, bem como algumas implicações destas interações. Para tanto, iniciaremos com a definição de termos relevantes para a presente proposta.

Uma primeira definição a ser feita diz respeito aos termos "emoção", "humor" e "afeto". No presente trabalho, optamos por utilizar uma convenção que tem sido usada na literatura para distinguir estes três termos. Nessa convenção, "emoção" é compreendida como possuindo um caráter de reatividade, geralmente breve, intensa e circunscrita, relacionada a um evento ambiental específico1. "Humor", por sua vez, é concebido como sendo uma característica mais estável e constante, tendendo a ser mais abrangente e não tão vinculado a circunstâncias específicas2. Por fim, "afeto" é um termo utilizado para se referir à capacidade de subjetivação e expressão da resposta emocional; seria a qualidade e o tônus emocional que acompanham uma idéia ou representação mental, ou, em outras palavras, o componente emocional de uma idéia3.

Gostaríamos de ressaltar que algumas das pesquisas citadas no presente artigo não trabalham com essas definições, utilizando os termos "humor", "emoção" e "afeto" em diferentes sentidos. Contudo, optamos por manter a nomenclatura presente nos trabalhos originais, tecendo comentários críticos quando cabível.

O presente artigo será apresentado da seguinte forma: primeiramente, abordaremos as relações entre humor e memória e, em seguida, as interações entre emoção e memória. Por fim, serão discutidas algumas implicações dos estudos sobre emoção e cognição para áreas aplicadas, destacando-se as contribuições oferecidas para prática da psicoterapia e da psicologia/psiquiatria forense.

O processo de busca das referências que comporiam o presente artigo foi realizado da seguinte maneira: pesquisou-se nas bases de dados MEDLINE e PsycINFO as palavras-chave mood and memory e emotion and memory. Foram incluídos tanto artigos quanto capítulos de livro, já que a proposta do artigo era realizar uma revisão teórica o mais abrangente possível, sem pretensões de ser exaustiva.

 

HUMOR E MEMÓRIA

Nesta seção, serão abordados três fenômenos, quais sejam: memória congruente com o humor (MCH), memória dependente do humor (MDH) e memórias autobiográficas supergeneralizadas (MAS). Para cada um destes fenômenos, serão apresentados fundamentos empíricos e teorias explicativas.

Memória congruente com o humor

O fenômeno da MCH pode ser definido como a tendência de codificar ou recordar materiais quando nos encontramos em um estado afetivo consistente com a valência afetiva desses conteúdos2. Isso significa que, por exemplo, um indivíduo que se encontra em um estado afetivo de alegria irá codificar e/ou recuperar mais facilmente, e em maior número, as informações que contenham um afeto positivo do que aquelas que contenham materiais depressivos e afetos negativos. O processo de MCH pode ser dividido em dois momentos: (1) codificação congruente com o humor e (2) recuperação congruente com o humor.

Na codificação congruente com o humor, a informação é aprendida de forma mais eficaz devido a sua valência afetiva, que é consistente com o estado de humor do indivíduo no momento da aprendizagem. Em dois experimentos desse tipo4,5, participantes foram primeiramente induzidos a um determinado estado de humor através de métodos como hipnose ou através da escuta de músicas carregadas afetivamente. Esse procedimento era seguido por uma etapa de aprendizagem, onde os participantes tinham a tarefa de memorizar listas de palavras tristes ou alegres. Em um momento posterior, quando os indivíduos já se encontravam em um estado de humor eutímico, foram testadas suas memórias para os materiais aprendidos. Em ambos os experimentos, observou-se um aumento significativo nos índices de recordação em condições de codificação congruente com o humor (por exemplo, palavras tristes quando o humor induzido era de tristeza), em relação às condições de incongruência com o humor (por exemplo, palavras alegres quando o humor induzido era de tristeza).

Segundo Forgas6, a explicação para resultados, como os acima descritos, está no fato de que os indivíduos que se encontram em um estado particular de humor geram mais associações para as informações que vão ao encontro desse humor, codificando-as mais eficazmente. Corroborando com essa hipótese, estão os achados de que participantes alegres ou tristes passam um tempo maior estudando materiais que são congruentes com seus humores e menos tempo com materiais incongruentes6,7.

Já a recuperação congruente com o humor tem como característica um aumento na recordação de materiais com o mesmo tom afetivo do estado de humor atual da pessoa8. Segundo Ellis & Moore2, a recuperação congruente com o humor é menos freqüentemente observada, e seus exemplos são menos conclusivos quando comparados à codificação congruente com o humor. Os estudos apresentados como evidência de recuperação congruente com o humor podem apresentar vieses, já que a valência afetiva do material está quase sempre associada ao estado de humor do indivíduo no momento do evento. Nas pesquisas típicas envolvendo a recuperação congruente, o estado de humor do indivíduo é avaliado ou induzido. Um experimento demonstrando esse tipo de processo de MCH foi conduzido por Johnson et al.9. Nesse estudo, os participantes - estudantes de graduação - estavam divididos em uma amostra clínica de deprimidos e não-deprimidos. No experimento, era fornecida uma série de tarefas aos participantes, e, ao final, era pedido que eles lembrassem o conteúdo das tarefas em que tinham obtido sucesso ou fracasso. Como esperado, as tarefas em que houve fracasso foram mais lembradas pelos participantes deprimidos, e as tarefas onde houve sucesso foram mais lembradas pelos indivíduos não-deprimidos. Ou seja, a recordação está afetada pelo estado de humor atual da pessoa, relacionado à valência afetiva do material utilizado8.

Em relação à MCH, pode-se concluir que, em geral, seus efeitos ocorrem sob influência da maior parte dos estados de humor, porém, na depressão clínica e na depressão induzida, seus efeitos parecem ser ainda maiores8,10. Outro fator que parece interferir decisivamente na MCH é a força afetiva do material a ser estudado. Por exemplo, Rinck et al.11 observaram os efeitos clássicos do humor congruente quando as palavras que eram estudadas tinham um alto tom afetivo, ou seja, eram muito carregadas emocionalmente, possuindo elevada valência afetiva. Porém, quando as palavras possuíam um médio tom afetivo, eram encontrados efeitos de incongruência com o humor. Assim, de modo geral, pode-se concluir que a MCH depende de materiais intensamente carregados de emoção.

Memória dependente do humor

A MDH se refere a um aumento da probabilidade de o indivíduo lembrar materiais que foram aprendidos em um estado particular de humor2. Assim, se uma pessoa ouve uma determinada história enquanto se encontra em um humor triste ou depressivo, como, por exemplo, em um funeral, esta história (independentemente de seu tom afetivo) será mais facilmente lembrada quando o indivíduo estiver novamente em um estado de humor triste.

A MDH se diferencia da MCH porque, na primeira, o importante é a consistência do estado de humor na codificação e recordação. Na segunda, por sua vez, a questão crucial é a consistência entre o humor no momento da codificação e/ou recuperação e o conteúdo afetivo das informações a serem aprendidas e/ou recuperadas.

O estudo clássico feito por Bower et al.12 fornece um bom exemplo de um típico experimento analisando a MDH. Nessa pesquisa, era pedido aos participantes que estudassem duas listas de palavras emocionalmente neutras, uma enquanto estavam felizes e outra enquanto estavam tristes. Mais tarde, os participantes lembravam o maior número de palavras que conseguissem, em qualquer um dos dois estados de humor (feliz ou triste). Assim, o estado de humor da recordação poderia ser consistente ou inconsistente com o estado de humor da codificação do material. Com esse procedimento, os autores observaram que indivíduos que se encontravam no mesmo estado de humor, tanto na codificação quanto na recuperação, recordavam mais palavras do que os indivíduos que se encontravam em estados de humor diferentes.

As explicações para a MDH concentram-se em duas áreas. A primeira diz respeito a aspectos específicos de estados de humor, abrangendo tanto metodologias utilizadas em sua indução quanto a intensidade dos estados de humor experimentados pelos participantes. A segunda explicação para o fenômeno da MDH, por sua vez, está relacionada ao tipo ou natureza do material utilizado na testagem da memória.

Quanto a aspectos específicos dos estados de humor, a MDH não é afetada de forma significativa pelo tipo de procedimento de indução de humor13, embora apenas alguns estados tenham sido experimentalmente examinados. A MDH tem maior probabilidade de ocorrência quando, nos estudos, são induzidos estados contrastantes (por exemplo, tristeza versus felicidade), preferencialmente àqueles estados de humores neutros14. Assim como na MCH, a MDH fica mais evidente quando os estados de humores são mais intensos15. Pesquisadores levantaram a hipótese de que humores mais intensos levam a associações intensas com os materiais, e, assim, quando o estado de humor na recuperação das informações combina com aquele da codificação, o estado de humor funciona como uma importante pista para recuperar os materiais de memória16.

Em relação ao tipo ou natureza do material a ser memorizado, Ucros14 concluiu que a MDH é menos provável de ocorrer com testes de memória feitos em laboratório do que com eventos reais de vida que possuem um maior significado. Corroborando essa conclusão, Eich et al.17 solicitaram aos participantes que primeiro gerassem eventos autobiográficos em um estado de humor particular, para depois recordarem esses eventos alguns dias depois. Como resultado, os autores encontraram que, quando em estado de humor consistente na geração e recuperação, os participantes recordavam melhor as memórias anteriormente geradas.

A maioria dos estudos citados valeu-se da utilização de procedimentos artificiais de laboratório para indução dos estados afetivos, quando da investigação dos fenômenos da MCH e da MDH. Tais manipulações de indução, contudo, não levam a alterações duradouras, caracterizando os estados obtidos mais como uma reação emocional ao procedimento do que propriamente uma modificação estável do humor. Em outras palavras, é difícil afirmar com precisão se os resultados obtidos a partir de alterações momentâneas do estado afetivo seriam verificados também quando os humores investigados sofrem modificações naturais, as quais se caracterizam por uma maior estabilidade. Além disso, um outro fator de confusão presente nos estudos onde o "humor" é induzido experimentalmente é o de que os participantes podem responder aos testes de memória influenciados por suas expectativas quanto às intenções do pesquisador, gerando um possível viés nos resultados obtidos.

Memórias autobiográficas supergeneralizadas

As memórias autobiográficas (ou episódicas) são lembranças que o sujeito possui acerca de si próprio e de sua vida. Neste tópico, abordaremos especificamente uma das características das memórias autobiográficas de pessoas com depressão. Assim, os estudos a seguir apresentados investigam a memória em indivíduos com alterações patológicas e duradouras do humor, as quais vão além de circunscritas modificações produzidas em laboratório. Particularmente, explanaremos sobre as MAS, que se referem a uma propensão de indivíduos depressivos a recordarem do próprio passado de uma maneira demasiadamente sintética, genérica e inespecífica. Em outras palavras, pacientes com depressão possuem grande dificuldade para se lembrarem de eventos específicos que ocorreram ao longo de sua história de vida, restando apenas lembranças nebulosas e difusas acerca de suas trajetórias. Assim, fica caracterizada uma tendência de processamento mnemônico supergeneralizado17.

As MAS possuem uma série de implicações, que vão desde a etiologia até a manutenção de quadros depressivos. No presente artigo, optamos por abordar três destas implicações, quais sejam, (1) déficits nas habilidades de resolução de problemas, (2) dificuldade para imaginar o futuro e (3) facilitação do cometimento de atos suicidas e para-suicidas. Esta divisão em três implicações das MAS foi realizada para fins didáticos, uma vez que, na prática, os referidos processos não ocorrem de maneira independente18.

A hipótese de que uma propensão a recuperar memórias autobiográficas de maneira supergeneralizada levaria a déficits nas habilidades de resolução de problemas foi testada por Goddard et al.19. Em seus experimentos, adultos com o diagnóstico de depressão maior e participantes-controle sem este diagnóstico foram avaliados em termos de suas capacidades para resolver problemas (mensurada através da efetividade das soluções oferecidas para lidar com situações sociais propostas) e de recuperar memórias autobiográficas específicas. Em linhas gerais, os dados obtidos indicaram que os indivíduos com maior tendência a uma recordação supergeneralizada tendiam a apresentar soluções menos efetivas para as situações propostas durante a tarefa de resolução de problemas. Em outras palavras, os resultados de Goddard et al.19 apontaram para uma estreita relação entre desempenho deficitário em tarefas de resolução de problemas e recuperação supergeneralizada da memória autobiográfica, observações estas corroboradas por outros estudos20.

Uma outra implicação das MAS para os transtornos depressivos envolve a habilidade para imaginar o futuro. É com base na lembrança de eventos passados que fundamentamos nossas expectativas sobre o futuro21. Portanto, quando o passado é recuperado de maneira difusa e inespecífica, as projeções acerca do que está por vir possivelmente também o serão.

Dados empíricos, que corroboram a existência de associação entre MAS e dificuldades para imaginar o futuro, foram apresentados por Williams et al.22. Em seus experimentos, indivíduos que tentaram suicídio (a maioria com diagnóstico de depressão) e indivíduos-controle, sem história de depressão, foram testados quanto a suas habilidades de recuperar memórias autobiográficas específicas e de construir (isto é, imaginar) cenários futuros de maneira detalhada.

Conforme o esperado, foi verificado que o grupo de pacientes suicidas apresentou maiores índices de recuperação de MAS e construiu cenários futuros mais genéricos. Além disso, foi evidenciada uma importante relação entre a inespecificidade das memórias recuperadas e dos cenários imaginados, sugerindo que uma recordação não-específica da memória autobiográfica limita a capacidade de imaginar o futuro de maneira detalhada.

A terceira implicação das MAS é fruto de uma associação entre os déficits nas habilidades de resolução de problemas e as dificuldades para imaginar o futuro, que pode levar a um maior risco de suicídio.

Sabe-se que as pessoas que cometem atos suicidas usualmente encontram-se numa situação de grande desesperança, ou seja, possuem uma visão muito negativa do futuro, associada a uma incapacidade percebida do indivíduo para modificá-lo num sentido favorável23.

Tendo em vista que projeções acerca do futuro são estabelecidas com base em lembranças do passado, é razoável supor que, quanto menos precisas forem as recordações, menos acuradas serão as expectativas quanto ao que está por vir22. Neste sentido, a recuperação inespecífica da memória poderia ter um papel fundamental na gênese das crenças centrais de indivíduos suicidas, uma vez que está na base da elaboração de projeções demasiado nebulosas acerca de circunstâncias vindouras, dificultando o estabelecimento de expectativas mais realísticas acerca do futuro. Além disso, as MAS promovem uma percepção de estaticidade da situação atual, uma vez que, com habilidades de resolução de problemas deficitárias, não há como ter perspectivas de mudanças e/ou melhorias iminentes.

Diversos estudos investigaram a qualidade da recuperação da memória autobiográfica em indivíduos suicidas. Em tais pesquisas, foram sistematicamente verificados maiores índices de recordações supergeneralizadas de indivíduos que já tentaram suicídio em relação a controles24,25.

Vale ressaltar, contudo, que o estudo da memória em pessoas que sofrem de transtornos depressivos possuem algumas limitações. Em primeiro lugar, a maioria dos estudos não controla a utilização de medicações, fator este que pode interferir de maneira significativa nos resultados. Em segundo lugar, a recorrência dos episódios de humor pode afetar o processamento de informações do indivíduo. Assim, estudos que contam tanto com participantes deprimidos pela primeira vez quanto com participantes com recorrência de episódios depressivos podem levar a resultados enviesados. Por fim, o fato de os transtornos de humor possuírem uma tendência à cronicidade dificulta que os pesquisadores diferenciem os papéis exercidos pelos processos de codificação e recuperação, na medida em que o humor do indivíduo é, de modo geral, semelhante nestes dois momentos26.

 

EMOÇÃO E MEMÓRIA

A palavra "emoção" tem sido usada para se referir a um estado afetivo presente durante a codificação e/ou recuperação da memória12,17. Do ponto de vista experimental, refere-se ao estado afetivo/fisiológico que um indivíduo apresenta na vigência de um teste de memória sob condições de estresse27.

Os pesquisadores interessados em estudar o efeito da emoção na memória devem poder separar "emoção" de outros importantes fatores, potencialmente influenciadores, como o fato de os eventos emocionais serem recontados diversas vezes ou serem únicos e inusuais. Em virtude de sua natureza fisiológica, medidas de parâmetros fisiológicos durante a ativação emocional ou o uso de escalas específicas para padrões comportamentais são uma boa opção para esses estudos. Apesar desses parâmetros serem respeitados, os estudos produzem resultados inconsistentes quanto à influência da emoção na memória, quais sejam: (1) facilitação da memória, (2) prejuízo da memória ou (3) facilitação de alguns aspectos da memória e prejuízo de outros.

Assim, as teorias que tentarem abarcar a conexão entre memória e emoção deverão buscar explicar essas inconsistências, além de considerarem as questões fisiológicas e comportamentais envolvidas na aquisição, codificação, consolidação e recuperação de informações. Por esse motivo, as variáveis neurobiológicas não podem ser desconsideradas no estudo da memória e emoção.

A emoção pode ser manipulada experimentalmente apresentando-se, por exemplo, uma seqüência de slides representando eventos estressores e potencialmente emocionais, como um assalto ou ameaça, com a intenção de simular uma situação de testemunho real dessas situações28. Esse tipo de manipulação tende a prejudicar o desempenho em testes de recordação e reconhecimento para informações apresentadas nos slides. Contudo, quando a emoção é manipulada apresentando-se palavras ou figuras com diferentes cargas emocionais, o efeito na memória tende a ser facilitado para essas palavras ou figuras29.

A memória de reconhecimento, por sua vez, pode ser influenciada de três diferentes maneiras: (1) palavras emocionais são mais falsamente reconhecidas que as não-emocionais29,30; (2) palavras emocionais são reconhecidas de maneira menos discriminada que as não-emocionais31; (3) informações não-emocionais, quando associadas com um contexto emocional durante a codificação, tendem a incrementar a performance de recordação32 e reconhecimento33. Resumidamente, parece ser ponto pacífico que os processos de recordação são facilitados pela emoção. Todavia, quanto aos processos de reconhecimento, os achados são mais conflitantes.

A emoção poderia afetar os processos de recordação e reconhecimento a partir dos processos de codificação de três diferentes formas: (1) a emoção poderia estreitar o foco da atenção34, o que levaria a um aumento da memória para conteúdos emocionais, com uma diminuição para detalhes mais periféricos28; (2) níveis moderados de emoções potencializam o processo de codificação e, subseqüentemente, a performance da memória; todavia, níveis extremos de emoções prejudicam essa performance35; (3) em nível neurobiológico, os processos emocionais são mediados pela amígdala, e, quando esta se torna ativa, suas conexões anatômicas com o córtex podem facilitar o processamento de quaisquer estímulos que sejam apresentados. Adicionalmente, conexões anatômicas da amígdala com o hipocampo poderiam influenciar diretamente a memória semântica. Assim, quanto mais ativa a amígdala no momento do aprendizado, maior a intensidade da memória armazenada para aqueles fatos que apresentam conteúdo emocional36.

Em estudos onde palavras de diferentes cores e com diversos significados emocionais são mostradas a algumas pessoas (Paradigma de Stroop), que foram orientadas para apenas relatarem a cor da palavra, independente do seu significado, o nome da cor das palavras emocionais demorava mais a ser dito em relação à cor das palavras neutras37,38. Quando esse experimento era aplicado em indivíduos com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), estes levavam muito mais tempo para nomear a cor de palavras emocionais relacionadas com o trauma (consideradas como negativas) do que a de palavras neutras ou emocionalmente positivas39,40. Isto sugere que talvez o estresse crônico tenha um papel diferente do estresse agudo na influência dos processos mnemônicos.

Os estudos que abordam o impacto de eventos estressantes sobre a memória podem ser exemplificados pelo trabalho de Schmidt41, que estudou as lembranças autobiográficas do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Esse autor verificou que muitas pessoas reportavam memórias detalhadas das conseqüências dos eventos; todavia, essas memórias não eram consistentes (não eram memórias fotográficas), além de apresentarem uma pobreza na memória para detalhes periféricos, ainda que houvesse um aumento para os detalhes centrais42. Tais dados sugerem que a pergunta "a emoção melhora ou piora a memória?" não pode ser respondida de forma absoluta - é preciso que sejam consideradas as particularidades dos achados descritos na literatura. Em linhas gerais, as evidências apontam para a idéia de que há uma boa memória para o "significado" desses eventos emocionais. Por outro lado, fortes emoções parecem alterar o processamento mnemônico, levando a uma perda para detalhes periféricos. Dessa forma, não há prejuízo ou facilitação global da memória traumática, mas, sim, diferentes processamentos agindo simultaneamente para detalhes periféricos e centrais.

Além disso, é interessante compreendermos os efeitos da emoção sobre a memória a partir de uma relação curvilínea, não-linear43. Segundo esta relação, o aumento dos níveis de estresse contribuiria para melhoria da memória até certo patamar. Passando deste ponto, os efeitos prejudiciais se intensificariam, provocando uma piora nas lembranças, possivelmente relacionada à sua fragmentação.

Por fim, podemos nos questionar: será que a emoção tem seus efeitos mais robustos na memória de recordação por afetar principalmente as etapas de codificação? Os menores efeitos da emoção na memória de reconhecimento tornar-se-iam mais robustos se os estudos controlassem o significado idiossincrático do material a ser memorizado pelo participante da pesquisa? Estas são algumas perguntas intrigantes e que merecem maior atenção dos pesquisadores.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Muitas são as implicações dos estudos que investigam as relações entre o funcionamento mnemônico humano e processos emocionais. Dentre as principais áreas aplicadas, em que tais estudos possuem importantes implicações, podemos citar a psicoterapia e a área jurídica/forense. Por exemplo, um psicoterapeuta deve "confiar" quando um paciente deprimido relata que toda sua vida é marcada por uma avalanche de desgraças, sem que tenha lhe acontecido nada de bom? E se este mesmo paciente afirma que está fazendo com que ambos percam o seu tempo, pois não há nada que se possa fazer para melhorar, que conhecimentos o terapeuta necessitaria para lançar mão de uma adequada intervenção?

Por outro lado, pensemos numa testemunha de um crime violento, que tenha ficado traumatizada com o evento. Naturalmente, seu depoimento é crucial para o processo judicial. Será que se pode confiar plenamente na memória desta testemunha? Em caso afirmativo, qual seria a melhor forma para se interrogá-la?

Muitos estudos conduzidos até o presente momento trouxeram aos pesquisadores mais perguntas que respostas - o que não significa, absolutamente, que conhecimentos valiosos não tenham sido construídos. As pesquisas investigando as relações entre emoção e memória ofereceram sustentação para o desenvolvimento de estratégias fundamentalmente práticas, tais como: a terapia anamnésica para pacientes suicidas44; a terapia de exposição para indivíduos traumatizados45,46; e a entrevista cognitiva, que visa a obtenção de relatos mais acurados e detalhados de testemunhas47.

Avanços metodológicos e definições conceituais mais amplamente aceitas pelos pesquisadores mostram-se imprescindíveis, uma vez que dados muitas vezes inconsistentes encontrados na literatura podem ser devidos à falta de consenso entre aqueles que estudam um mesmo fenômeno utilizando-se de diferentes rótulos, ou entre aqueles que estudam fenômenos distintos sob um mesmo rótulo. Diferentes direções de pesquisa são necessárias, pois só assim será possível apreender de maneira mais elaborada um fenômeno tão complexo e multifacetado quanto a relação entre memória e emoção.

 

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Correspondência:
Lilian Milnitsky Stein
Av. Ipiranga, 6681, prédio 11, sala 933
90619-900 - Porto Alegre - RS
Fone: (51) 3320.3633
E-mail: lilian@pucrs.br

Recebido em 28/03/2005.
Aceito em 04/11/2005.

 

 

* O presente trabalho foi realizado pelo Grupo de Pesquisa em Processos Cognitivos (GPPC), Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Porto Alegre, RS, e recebeu apoio do CNPq e da CAPES.