SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.28 issue3Review of the book entitled Affect dysregulation and disorders of the self author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul

Print version ISSN 0101-8108

Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul vol.28 no.3 Porto Alegre Sept./Dec. 2006

https://doi.org/10.1590/S0101-81082006000300020 

RESENHA

 

The God delusion

 

 

Renato Zamora Flores

PhD. Professor, Departamento de Genética, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS.

Correspondência

 

 

Richard Dawkins
New York, Houghton Mifflin Company, 2006

 

 

"As realizações dos teólogos não fazem nada, não afetam nada, não significam nada. Afinal, o que faz alguém pensar que 'teologia' é um campo do conhecimento?" (Richard Dawkins1)

Em 15 de setembro de 2001, apenas 4 dias após o ataque ao World Trade Center em Nova York, Richard Dawkins - biólogo evolucionista, hoje com 65 anos de idade, professor de entendimento público da ciência na Universidade de Oxford - publicou um contundente artigo no renomado jornal inglês The guardian, com o impressionante título de "Os mísseis desgovernados da religião", onde afirmava:

"Os executores da ação não agiram de forma insensata, e é certo que não foram covardes. Ao contrário, reuniram inteligência e coragem com uma eficiência insana, e vale a pena tentar entender de onde veio essa coragem. Veio da religião. Religião é também a fonte fundamental da discórdia no Oriente Médio... Encher o mundo de religião, ou religiões do tipo abraâmico, é como forrar as ruas de armas carregadas. Não se surpreendam se forem usadas2."

Sem perder a coragem e a criatividade que o caracterizam desde seu primeiro livro, O gene egoísta3, lançado 30 anos atrás, o cientista britânico lança, agora, uma densa e sólida obra crítica sobre as bases lógicas e científicas do pensamento religioso: "a ilusão de Deus" (The God delusion). O título é um pouco mais sarcástico do que parece. Como o autor explica, já na introdução, o termo se refere a uma crença persistente e falsa, mantida mesmo em face ao confronto com fortes evidências contrárias, especialmente vista como sintoma de uma doença psiquiátrica. Esta é uma adequada definição para delírio.

Não há dúvidas de que é cientificamente impossível demonstrar a inexistência de qualquer entidade de maneira inequívoca, quer seja Deus, anjos, fadas ou o saci-pererê. Dawkins, todavia, apresenta uma proposta mais coerente do ponto de vista científico. Ele sugere uma reflexão comparativa entre dois modelos. O modelo tradicional, denominado "hipótese divina", pode ser assim descrito: existe uma inteligência super-humana e sobrenatural que deliberadamente projetou e criou o universo e tudo nele contido, inclusive nós mesmos.

E, a seguir, propõe uma hipótese alternativa, que é explicitada nos 10 capítulos do livro: as formas de inteligência criativa, com complexidade suficiente para projetar qualquer coisa, surgiram apenas depois de um longo processo de evolução gradual. Se inteligências criativas surgiram bem depois do início do universo, não podem ser responsáveis por sua criação.

 

COMPARAÇÃO DE HIPÓTESES

Com uma clareza incomum entre cientistas contemporâneos, Dawkins examina as principais argumentações para ambas as hipóteses no decorrer da obra. É evidente que se trata de uma defesa de sua posição teórica, mas isso não é, per se, um erro científico. O que se deseja verificar é se a argumentação respeita as regras lógicas e não falseia ou omite informações, e neste aspecto o autor é muito eficiente.

Ao examinar os argumentos sobre a existência de Deus, o primeiro a tombar no campo de batalha é São Tomás de Aquino, que, no século 13, formalizou a argumentação sobre o tema. De fato, em um exame contemporâneo da argumentação do santo, Dawkins expõe sua fragilidade. Dos cinco argumentos para justificar a existência da divindade, três (a prova do movimento, a prova da causalidade eficiente e a prova da contingência) são versões diferentes da mesma idéia: nada se move sem uma causa, nada é causado por si mesmo, e houve um tempo em que não havia objetos físicos. Deus foi o criador de tudo, obviamente... Mas a idéia de Deus não é imune a essa regressão ao passado. Se houve um tempo em que nada havia, de onde surgiu a divindade, pergunta Dawkins? Alem disso, assumindo, em benefício da discussão, que tenha havido um criador, não se depreende daí que ele possua quaisquer das propriedades místicas atribuídas ao Deus de Abraão: onisciência, bondade, criatividade, entendimento de preces, perdão de pecados e conhecimento íntimo da mente de todos os seres humanos.

O quarto argumento sequer é um argumento. Ele parte da idéia de que percebemos que certos entes são mais belos, mais nobres, etc., do que outros. Assim, deve existir algo que seja absoluto, em termos de beleza, nobreza ou qualquer outra virtude, e esse algo é Deus. Não se pode avaliar, hoje, como esse argumento pareceu lógico há mais de 600 anos. Atualmente, ele é bem tolo, pois, conforme Dawkins, poderíamos argumentar que as pessoas variam em relação ao mau cheiro que exalam. Assim, deve existir um fedorento solitário, como o máximo da perfeição em mau cheiro, e este ser poderia ser chamado de Deus.

O quinto e último argumento é o mais atual de todos, pois trata do problema do "projeto": as coisas no mundo, especialmente as coisas vivas, comportam-se como e parecem ser o resultado de um planejamento, o que nos leva à idéia do planejador ou projetista. Esse argumento é tão forte que inspirou o reverendo William Paley em seu sucesso de vendas do século 19, A teologia natural, que introduz a metáfora do Deus relojoeiro, já devidamente fustigada por Dawkins em um livro de 1986, The blind watchmaker ("O relojoeiro cego")4.

O sucesso do argumento é de tal monta que é, ainda hoje, a principal ferramenta retórica dos criacionistas, um conjunto heterogêneo de fundamentalistas de diversas religiões abraâmicas - islamismo, catolicismo e protestantismo - que defendem que a existência da vida, dos seres humanos e, especialmente, da mente humana não pode ser produto de processos não-inteligentes, como a evolução por seleção natural, e são, indiscutivelmente, um produto de uma inteligência criativa.

O principal defensor e modernizador das teses criacionistas, nos meios acadêmicos, é o bioquímico Michael Behe, autor de A caixa preta de Darwin5, que já foi duramente criticado por Dawkins anteriormente. Dessa vez, conforme descrito detalhadamente em The God delusion, Behe sofreu um importante revés jurídico, em um rumoroso processo movido por pais de alunos que se opunham ao ensino do "projeto inteligente" (nome dado à versão mais moderna do criacionismo) em escolas públicas e que obtiveram, no final de 2005, uma sentença favorável.

"O ensino do 'projeto inteligente' é uma idiotice de tirar o fôlego", afirmou o juiz responsável pelo caso e, para preservar a separação entre igreja e estado como determinam as constituições federal e estadual do EUA, proibiu o ensino de idéias criacionistas nas aulas de ciência do condado de Dover, na Pensilvânia. Behe testemunhou como perito e passou por diversos constrangimentos técnicos, como a enfática conclusão do magistrado ao declarar que, apesar de todos os esforços de seus defensores, o "projeto inteligente" não é ciência e não pode ser dissociado de suas bases religiosas6.

Na lista de argumentos da existência divina analisados por Dawkins, há ainda um que merece ressalva: o argumento da experiência pessoal. Diversas pessoas crêem em uma divindade, pois acreditam que tiveram uma visão dela, que ela lhes falou diretamente ou que tiveram uma experiência transcendente de contato íntimo. Trata-se de um argumento forte para seu defensor, mas bastante insuficiente para terceiros, especialmente aqueles com algum conhecimento de psicologia. Dawkins relata o caso de um estuprador que recebia ordens de Jesus para matar mulheres; cita o presidente norte-americano George W. Bush, que teria declarado que Deus lhe mandara invadir o Iraque; e comenta que os manicômios estão repletos de pessoas que pensam ser outras pessoas, pensam poder ler pensamentos ou crêem que o mundo inteiro conspira contra elas. Por fim, cita o filósofo e escritor Sam Harris:

"Temos denominações para pessoas que têm muitas crenças para as quais não há qualquer justificativa racional. Quando suas crenças são extremamente comuns, chamamo-los religiosos; fora isso, provavelmente serão rotulados de delirantes, psicóticos ou loucos... Sem dúvida, há uma sanidade nos números"7.

 

POR QUE SOMOS UMA ESPÉCIE RELIGIOSA

Nos estudos biológicos da religiosidade, um dos aspectos no qual há menos consenso é sobre qual, dentre três hipóteses, seria a mais relevante para explicar por que a religiosidade se espalhou por todas as culturas humanas. O modelo mais óbvio é o de uma vantagem seletiva direta. Religiões abraâmicas, por exemplo, incentivam a reprodução com bastante ênfase. Quer por aumentar a adaptação de genes que predisponham a um cérebro religioso, quer pelo efeito da educação religiosa, há um valor adaptativo, em seu sentido darwiniano, da crença religiosa.

Um segundo modelo enfatiza a seleção de grupo. Trata-se da idéia de que aderir a uma religião ou crença não aumentaria o valor adaptativo do indivíduo em relação aos demais membros de seu grupo, mas aumentaria as chances de sobrevivência de seu grupo em relação a outros grupos que não possuíssem essa característica. Uma crença em um Deus protetor e exigente, por exemplo, aumentaria a coesão grupal e a capacidade de resistir a estressores ambientais.

Todavia, a opção de Dawkins é pelo terceiro modelo, o de que o comportamento religioso pode ser explicado como um subproduto de outras características mentais não diretamente ligadas à experiência religiosa. Não é uma idéia nova, mas, em The God delusion, encontramos algumas idéias originais e passíveis de testes empíricos, baseadas no desenvolvimento do pensamento infantil. Para Dawkins, crianças seriam intuitivamente "teístas", pois suas mentes estariam preparadas para identificar um planejamento no funcionamento do mundo. Por exemplo, para que servem as nuvens? Ou rochas pontudas servem para os animais se coçarem quando têm coceiras. Crianças seriam, então, teleologistas congênitos, e alguns não conseguem abandonar essa fase quando crescem.

Talvez o aspecto mais inspirador da nova obra de Dawkins seja o de desmistificar o preconceito sobre as crenças religiosas como portadoras de um status especial, que não permite que pessoas educadas discutam sobre os aspectos racionais e irracionais das religiões dos outros. Uma citação do jornalista H. L. Mencken (1880-1956) é bastante apropriada: "Devemos respeitar a religião de um indivíduo, mas apenas no mesmo sentido que respeitamos sua crença de que sua esposa é bonita e de que seus filhos são inteligentes".

Ateus não são piores ou melhores do que religiosos, apesar de, com freqüência, Hitler e Stalin serem citados com exemplo da maldade atéia. Stalin indiscutivelmente era ateu, provavelmente por ter estudado em um seminário quando criança, mas há dúvidas sobre a posição de Hitler. Em muitos textos, ele se declara católico. Católico, sem dúvida, era o papa Pio XII, que persistentemente se recusou a posicionar-se contra os nazistas, o que criou uma situação constrangedora para a igreja católica contemporânea. Religiosos são, também, Saddam Hussein* e Osama bin Laden.

 

REFERÊNCIAS

1. Dawkins R. The emptiness of theology. Disponível em: http://www.simonyi.ox.ac.uk/dawkins/WorldOfDawkins-archive/Dawkins/Work/Articles/emptiness_of_theology.shtml

2. Dawkins R. Religion's misguided missiles - promise a young man that death is not the end and he will willingly cause disaster. Disponível em: http://www.guardian.co.uk/wtccrash/story/0,,552388,00.html

3. Dawkins R. The selfish gene. Oxford: Oxford University Press; 1976.

4. Dawkins R . The blind watchmaker: why the evidence of evolution reveals a universe without design, 1986 . New York: WW Norton; 1986.

5. Behe M. A caixa preta de Darwin. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1996.

6. Kitzmiller V. Dover Area School District - Dover, Pennsylvania Intelligent Design Case Available from: http://www.talkorigins.org/faqs/dover/kitzmiller_v_dover.html

7. Harris S. The end of faith: religion, terror and the future of reason. New York: WW Norton; 2004.

 

 

Correspondência:
Renato Zamora Flores
Departamento de Genética - Instituto de Biociências - UFRGS
Av. Bento Gonçalves, 9500, Prédio 43323, Sala 109
Caixa Postal 1503
CEP 91501970 - Porto Alegre, RS

 

*Nota dos Editores: resenha ecrita quando Saddam Hussein não havia sido enforcado

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License