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Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul

versão impressa ISSN 0101-8108

Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul vol.33 no.1 Porto Alegre  2011

https://doi.org/10.1590/S0101-81082011000100001 

EDITORIAL

 

Abuso e negligência na infância e comportamento suicida: pode a epigenética interligá-los?

 

Childhood abuse/neglect and suicidal behavior: an epigenetic relationship?

 

 

Humberto CorreaI; Felipe Filardi da RochaII

I Programa de Medicina Molecular, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG. Departamento de Saúde Mental, Faculdade de Medicina, UFMG
II Departamento de Saúde Mental, Faculdade de Medicina, UFMG

Correspondência

 

 

O suicídio é um importante problema de saúde pública no Brasil e na maioria dos países do mundo, sendo responsável por cerca de 1 milhão de óbitos a cada ano1-3. Considerado globalmente, esse número é maior do que o relativo às mortes em acidentes automobilísticos e guerras. Ou seja, no mundo morrem mais pessoas por suicídio do que por acidentes automobilísticos e guerras, somados. No entanto, as políticas de saúde – e a opinião pública de forma geral – mostra uma preocupação substancialmente menor para com o suicídio, faltando muitas vezes dados epidemiológicos confiáveis, programas de esclarecimento para a população, treinamento adequado dos agentes de saúde para lidar com o problema, além de incentivo para pesquisas que abordam o tema1-5.

No Brasil ocorrem cerca de 9.000 mortes por suicídio a cada ano, sendo que, na faixa etária de 15 a 24 anos, um impressionante aumento da mortalidade, de 1.900%, foi observado entre os anos 1980 e 20001. A despeito disso, a comunidade científica brasileira pouco publica seus achados relativos a suicidologia em periódicos nacionais4. Há múltiplas explicações para isso, mas acreditamos que um ponto importante é a falta de visibilidade internacional de muitos deles3. Nos últimos anos, entretanto, observamos um avanço significativo dessa visibilidade em vários periódicos. Periódicos como a Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul estão indexadas, entre outras fontes, na Scientific Electronic Library Online (SciELO), representando segurança e um incentivo para que grupos de pesquisa nacionais e internacionais aqui publiquem seus achados.

Confirmando essa tendência, nesta edição temos o prazer de compartilhar dados de pesquisadoras da Universidade de Minho, Portugal6. Silva & Maia abordam aspectos pouco explorados da suicidologia, avaliando o comportamento suicida em pacientes com obesidade mórbida que sofreram experiências adversas, incluindo abuso emocional, físico e sexual, na infância. Trata-se de tema importante, principalmente por ser ainda pouco estudado, apesar das crescentes evidências das elevadas taxas de autoextermínio associado aos transtornos alimentares7,8, bem como da associação entre abuso infantil e comportamento suicida9,10.

No artigo, as autoras nos mostram resultados interessantes. Primeiro, confirmando resultados da literatura, elas demonstram a importância do comportamento suicida nesse grupo de pacientes, já que 25% dos obesos mórbidos por elas estudados tinham história de pelo menos uma tentativa de suicídio. Em segundo lugar, as autoras puderam mostrar que pacientes que passaram por adversidades na infância apresentavam maior risco de tentar suicídio. Finalmente, mas não menos importante, mostraram que, quanto mais adversidades sofridas, maior o risco de se fazer uma tentativa de suicídio6.

Nós hoje sabemos que o comportamento suicida é, pelo menos parcialmente, geneticamente determinado, sendo sua herdabilidade estimada em cerca de 50%11. Nós sabemos também que alguns genes parecem estar mais intimamente associados ao comportamento suicida. Entre eles, podemos citar o gene do transportador de serotonina, que tem um polimorfismo em sua região promotora (5-HTTLPR) consistentemente associado ao comportamento suicida em diversos grupos diagnósticos12-14.

Isso levanta um ponto fundamental: como esses abusos na infância poderiam predispor ao comportamento suicida, que, como sabemos, é, ao menos em parte, geneticamente determinado? Ou seja, como integrar determinantes ambientais, psicológicos e biológicos na compreensão desse complexo comportamento? Acreditamos estar hoje em um momento cujo avanço da ciência permite essa integração. O artigo de Silva & Maia nos dá a oportunidade de refletir sobre isso.

Comecemos por alguns dos estudos de essencial importância. Caspi et al.15 mostraram que o 5-HTTLPR parece ser um dos inúmeros fatores genéticos capazes de explicar como reações aos estressores ambientais podem resultar em transtornos depressivos e comportamento suicida, aparentemente modulando a capacidade do indivíduo de suportar e/ou lidar com fatores externos adversos.

Dando continuidade à nossa discussão, Roth et al.16 mostraram que ratas criadas em um modelo que simulava maus-tratos tinham menores níveis de fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) no córtex pré-frontal. Os pesquisadores avaliaram o gene codificador do BDNF e não observaram diferenças entre o grupo de ratas adequadamente criadas e o de ratas criadas em condições de maus-tratos. Como explicar essa diferença nos níveis de BDNF? Os pesquisadores mostraram então que as ratas que passaram por maus-tratos tinham genes mais metilados, reduzindo a expressão gênica e a quantidade de BDNF. Essas ratas, ao serem tratadas com zimelidina, um antimetilador, apresentaram uma restauração dos níveis de BDNF, o que mostra a relação de causa e efeito entre metilação e níveis de BDNF. Esse estudo mostra de forma clara, em um modelo animal, como uma experiência de vida estressante precoce pode levar a alterações moleculares nos genes do indivíduo, alterações essas, entretanto, epigenéticas, não herdadas e não herdáveis.

Em seres humanos, temos hoje também abundantes evidências de como influências ambientais podem levar a alterações a nível molecular. McGowan et al.17 estudaram a região do hipocampo de amostras cerebrais de suicidas e encontraram uma associação entre maior metilação da região promotora do gene que sintetiza RNA ribossômico e história de negligência e/ou abuso identificada no perfil psicopatológico do indivíduo. A metilação impede a síntese proteica, interferindo, assim, na expressão de genes na região, fato que resulta em menores volumes do hipocampo17. A redução do hipocampo em crianças vítimas de maus-tratos já era conhecida, mas estudos como esse ajudam a interligar os fatos, auxiliando na compreensão do fenômeno9,10.

E a questão da obesidade nos pacientes estudados no artigo de Silva & Maia publicado na última edição? Pouco se tem de concreto, porém alterações no eixo hipotálamo-pituitária-adrenal têm sido vinculadas aos cuidados maternos, com efeito direto na programação gênica dos receptores para glicocorticoides. Abusos na infância com aumento do risco de autoextermínio demonstram direta associação com redução da expressão e transcrição do RNA mensageiro do receptor para glicocorticoide 1F18. Se essas alterações explicam ou não o maior índice de autoextermínio em obesos mórbidos é uma pergunta que ainda deverá ser respondida.

Outra hipótese que pode ajudar a elucidar essas associações é o estudo da impulsividade19,20. Trabalhos têm mostrado que maus-tratos na infância são fatores de risco para o desenvolvimento de características impulsivas, principalmente na adolescência19. O componente impulsivo tem sido associado ao comportamento suicida11,19,20, a alterações genéticas em genes pertencentes principalmente à via serotoninérgica13 e também ao ganho de peso, devido à dificuldade de inibir respostas inadequadas a curto prazo em detrimento de ganhos e gratificações em um período maior21,22. As conexões entre esses fatores podem ser complexas. No entanto, podemos facilmente tecer algumas considerações. Como não são todas as pessoas que apresentam associação positiva entre esses genes estudados e a impulsividade, deve haver uma contribuição aditiva entre eventos adversos na infância e determinado polimorfismo. Tomando-se como exemplo o 5-HTTLPR, o alelo S está associado à redução da substância cinzenta na amígdala, regiões do córtex pré-frontal e região dorso-lateral, achados consistentes com a neurobiologia da impulsividade11,13,14. Crianças com a variante S, ao receberem maus-tratos na infância, estariam submetidas a mais uma alteração neurobiológica, coincidindo com uma estrutura associada à impulsividade (o hipocampo) que já se mostrou alterada após a metilação da região promotora do gene que sintetiza RNA ribossômico, após história de negligência e/ou abuso.

Ainda estamos no começo da compreensão desses mecanismos, mas podemos perceber que achados científicos que, antigamente, pareciam isolados, agora ganham conexões mediante o fenótipo estudado no artigo de Silva & Maia: o comportamento suicida. Desejamos que a suicidologia continue despertando o interesse das diversas áreas do conhecimento, criando associações entre fenômenos, explicando contradições e buscando explicações, para que possamos agir, de forma eficaz, nesse problema que resulta em transtornos sociais, econômicos e familiares.

 

Referências

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Correspondência:
Humberto Correa, Av. Prof. Alfredo Balena, 190/2002, Belo Horizonte, MG. Tel./fax: (31) 3409.9785/9786.
E-mail: correa@task.com.br

 

 

Os autores declararam que não há conflitos de interesse associados à publicação deste editorial.

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