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Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul

Print version ISSN 0101-8108

Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul vol.33 no.2 Porto Alegre  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-81082011000200005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Tradução e adaptação transcultural para o português brasileiro da Scale for Quality of Sexual Function (QSF)

 

Translation and cross-cultural adaptation into Brazilian Portuguese of the Scale for Quality of Sexual Function (QSF)

 

Valeska Martinho PereiraI; Adriana Cardoso de O. e SilvaII; Antonio Egidio NardiIII; Lothar A. J. HeinemannIV

I Pesquisadora, Laboratório de Pânico e Respiração, Instituto de Psiquiatria (IPUB), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Mestranda, Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental, IPUB, UFRJ.
II Pós-doutora, Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental, IPUB, UFRJ. Professora, Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, RJ.

III Livre-docente, Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental, IPUB, UFRJ. Professor titular, Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental, IPUB, UFRJ. Coordenador, Laboratório de Pânico e Respiração. Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Translacional em Medicina (INCT-TM).
IV Professor, Berlin Center for Epidemiology and Health Research, Berlim, Alemanha. Professor, Preventive Medicine, Berlin Center for Epidemiology and Health Research.

 Correspondência

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: Apesar do papel fundamental da função sexual na qualidade de vida da população, há uma escassez na literatura brasileira de instrumentos específicos para sua avaliação e que possam ser utilizados tanto para homens quanto para mulheres. A adaptação da Scale for Quality of Sexual Function (QSF), uma escala unissex, é um passo importante na obtenção de instrumentos que permitam a comparação de resultados entre diferentes populações.
OBJETIVO: Descrever o processo de tradução e adaptação semântica da QSF para o português brasileiro.
MÉTODOS: A adaptação do instrumento envolveu cinco fases: 1) duas traduções independentes, 2) uma versão de consenso realizada por tradutores e especialistas, 3) avaliação da versão gerada por mais um especialista que não participou das etapas anteriores, 4) retrotradução com avaliação do autor da escala original e, por fim, 5) aplicação da versão obtida em um grupo experimental.
RESULTADOS: São descritas todas as etapas de adaptação do instrumento. A participação de especialistas tanto da área de saúde mental quanto de sexualidade humana, desde a primeira fase do processo, contribuiu para discussões amplas, que permitiram a melhor adequação dos itens, tanto conceitual quanto culturalmente. Participaram da aplicação experimental sujeitos de diferentes níveis de escolaridade de ambos os sexos, não sendo detectadas dificuldades na compreensão dos itens.
CONCLUSÃO: Por meio dos procedimentos adotados, foi possível elaborar uma versão da QSF em português brasileiro.

Descritores: Escalas, psicometria, disfunção sexual fisiológica, disfunções sexuais psicogênicas, sexualidade.


ABSTRACT

INTRODUCTION: Despite the important role played by sexual function in quality of life, there is a scarcity of instruments in the Brazilian literature specifically designed to assess this aspect, and especially of instruments that can be used with both men and women. The adaptation of the Scale for Quality of Sexual Function (QSF), a unisex scale, is an important step in the production of instruments that allow to compare results obtained in different populations.
OBJECTIVE: To describe the translation and semantic adaptation of the QSF into Brazilian Portuguese.
METHODS: Instrument adaptation involved five phases: 1) two independent translations, 2) a consensual version produced by translators and experts, 3) evaluation of this version by a different expert, not involved in the previous phases, 4) back translation with evaluation by the author of the original scale, and, finally, 5) application of the final Brazilian Portuguese version in a experimental group.
RESULTS: All stages of the adaptation process are described. The participation of experts from the fields of both mental health and human sexuality since the first stage of the process contributed to broader discussions, which allowed to achieve the best possible adequacy for each item, both conceptually and culturally. The experimental application of the final, adapted version of the scale involved both men and women with different educational backgrounds and levels. No difficulties were faced by this group in understanding the items included in the scale.
CONCLUSION: The procedures and process herein described successfully allowed to develop a Brazilian Portuguese version of the QSF.

Keywords: Scales, psychometrics, physiological sexual dysfunction, psychological sexual dysfunctions, sexuality.


 

Introdução

Apesar de seu importante papel na qualidade de vida de homens e mulheres, muitas vezes a saúde e satisfação sexual não são corretamente avaliadas por médicos e demais profissionais da área de saúde. Além da questão cultural e de tabus relacionados ao tema, é possível que a falta de instrumentos validados, destinados a avaliar a qualidade e satisfação subjetiva dos indivíduos, contribua para que casos de disfunção passem despercebidos e sem tratamento adequado.

Embora existam alguns estudos restritos a populações específicas, ainda são escassos no Brasil estudos epidemiológicos consistentes avaliando a prevalência das disfunções sexuais na população brasileira. Alguns desses estudos sugerem uma prevalência entre 35,9 e 49% em mulheres1,2. Já entre os homens, os estudos apontam uma taxa de 45% para a prevalência de algum grau de disfunção erétil3-5 e de 15,8 a 30% para ejaculação precoce6. A correlação entre aumento de idade e diminuição na função sexual dos indivíduos e seu consequente impacto na qualidade de vida também têm sido relatados na literatura7-9.

A Scale for Quality Sexual Function (QSF)10 foi desenvolvida para avaliar a função sexual tanto de homens quanto de mulheres. Trata-se de um instrumento autoaplicável, único para os sexos masculino e feminino, objetivo, de administração e correção rápidas. Consiste em 32 itens específicos e oito questões gerais, divididos em quatro domínios: Qualidade de Vida Psicossomática, Atividade Sexual, (Dis)função Sexual – Autorreflexão e (Dis)função Sexual – Visão do Parceiro.

A QSF apresentou valor de consistência interna de 0,8 para a escala total, e apenas uma das subescalas apresentou valor de consistência interna de 0,57, abaixo do considerado aceitável pelos autores10. Os valores de consistência para as subescalas foram como segue: 0,90 para Qualidade de Vida Psicossomática, 0,82 para Atividade Sexual, 0,75 para (Dis)função Sexual – Autorreflexão e 0,57 para (Dis)função Sexual – Visão do Parceiro.

Recentemente, duas escalas largamente utilizadas em estudos internacionais sobre funcionamento sexual foram adaptadas/validadas para a população brasileira: o Female Sexual Function Inventory11 e o Female Sexual Function Index12,13. Esses instrumentos são ferramentas importantes para a avaliação clínica de problemas sexuais e facilitam a introdução do tema no setting terapêutico. Apesar disso, nota-se uma escassez de instrumentos de avaliação da função sexual na literatura brasileira.

A utilização de instrumentos já conhecidos e amplamente adotados em estudos realizados em diferentes regiões do globo permite que os dados obtidos sejam comparados entre diferentes culturas. Nota-se, na literatura, o crescente aumento das escalas adaptadas transculturalmente para a população brasileira14-23.

O presente estudo teve como objetivo realizar a adaptação semântica, para o português brasileiro, da QSF. Nosso artigo abre a possibilidade de estudos futuros para a avaliação dos parâmetros psicométricos da escala na população-alvo, disponibilizando, assim, mais um instrumento de medida específico para a área da sexualidade humana.

 

Metodologia

Para a realização da tradução e adaptação transcultural da QSF, foram adotadas as cinco fases recomendadas internacionalmente24. Na primeira fase, a tradução da língua-fonte para a língua-alvo foi realizada por dois tradutores experientes, fluentes no idioma do instrumento original e com conhecimentos biomédicos. Neste estudo, os tradutores possuíam também conhecimentos em saúde mental e na área de sexualidade humana.

Os tradutores, ainda nessa etapa, realizavam o registro de qualquer dificuldade encontrada na realização da tradução de cada item, mencionando também o motivo da dificuldade. Em situações em que uma tradução mais literal não se adequasse ao novo contexto linguístico devido a questões culturais, alternativas deveriam ser propostas pelos tradutores e listadas junto às opções literais. No processo de tradução, houve, ainda, a possibilidade de propor formulações alternativas para os itens, visando melhor adequação cultural, desde que mantido o sentido original do item.

A segunda fase consistiu em uma sessão de consenso, onde se reuniram os dois tradutores, o coordenador da pesquisa e mais um profissional, especialista no construto a ser avaliado. Foram, então, analisados os itens, um a um, considerando todas as propostas fornecidas pelos dois tradutores e as ponderações realizadas pelo terceiro profissional (especialista), e também possíveis sugestões realizadas pelo coordenador do estudo. Após longa discussão, foi gerada uma nova formulação, chamada de "versão de consenso", decorrente desse processo, que representaria, com a concordância de todos os participantes da reunião, a versão da escala em português brasileiro.

Posteriormente, na fase 3, foi incluído um novo profissional, especialista na área do construto a ser avaliado pelo instrumento e que não participou das fases anteriores. Esse profissional, também bilíngue, teve como função realizar uma revisão crítica da versão de consenso da escala, sugerindo, quando necessário, alterações para obter melhor adequação técnica.

Na quarta etapa, foi realizada a retrotradução, por tradutor independente que não havia participado das fases precedentes. O produto foi, então, comparado com os itens do instrumento original, buscando-se identificar discrepâncias. Essa etapa foi realizada pelo tradutor em conjunto com o coordenador do estudo.

Finalizada essa fase, foi realizada uma pré-testagem do instrumento traduzido/adaptado, com aplicação experimental em um grupo de 18 voluntários, todos sem problemas de saúde mental, buscando-se identificar possíveis problemas na compreensão dos itens ou qualquer outra dificuldade na realização da tarefa. A aplicação experimental foi realizada com pessoas representativas de diferentes extratos da população-alvo, para garantir que fatores não relacionados ao construto que se deseja medir não interfiram na determinação das respostas emitidas25. A seleção dos sujeitos que participaram da pré-testagem considerou o questionamento presente na literatura quanto à efetividade de escalas que tiveram o estudo de seus parâmetros psicométricos realizado com população clínica para posterior rastreamento populacional26.

O procedimento de triagem dos sujeitos voluntários para a aplicação experimental busca evitar esse tipo de problema, sendo a presença de transtorno mental considerada como um critério de exclusão. Todos os participantes dessa etapa foram entrevistados com o Mini International Neuropsychiatric Interview27 (MINI), versão 5.0.0, para que fosse identificada a presença (ou não) de transtornos mentais. Apenas os voluntários que não apresentaram transtornos foram incluídos no grupo experimental.

A aplicação experimental teve início com os participantes respondendo o instrumento na versão preliminar, decorrente da elaboração da versão de consenso dos itens. A administração da escala foi em grupo, em modo autoaplicável, sem limite de tempo. As escalas respondidas foram, então, analisadas, verificando-se a ocorrência de omissões de respostas e, em caso positivo, avaliando-se em que itens a omissão ocorreu, para posterior investigação de possíveis dificuldades quanto ao entendimento da questão.

Após ser concluída a aplicação experimental, os participantes foram questionados quanto ao entendimento que tiveram de cada um dos itens, buscando-se assegurar que o sentido dos mesmos houvesse sido bem compreendido. Confusões, quando detectadas, foram registradas para posterior busca por uma melhor solução.

Finalmente, os voluntários foram convidados a oferecer sugestões que pudessem tornar os itens mais claros e facilitar sua compreensão, além de considerações sobre como tornar a escala melhor.

 

Resultados e discussão

A Tabela 1 apresenta os itens conforme constam no instrumento original e também as propostas elaboradas pelos dois tradutores bilíngues (T1 e T2). Segundo a metodologia adotada, partindo das propostas elaboradas, foi formada uma versão de consenso. Participaram da construção dessa versão os dois tradutores bilíngues, o coordenador do estudo e um profissional especialista no construto a ser mensurado pelo instrumento.

A maioria dos itens traduzidos apresentou diferenças entre T1 e T2. Somente os itens 18, 25, 33, 34, 35 e 36 apresentaram concordância exata entre os dois tradutores. No item 33, embora "gender" seja melhor traduzido como "gênero", a palavra "sexo" é mais comum e largamente utilizada em diversos formulários e questionários, sendo plenamente compreendida pelos indivíduos.

Para os itens 17, 21 e 22, as propostas foram bem semelhantes, diferindo apenas no plural de alguns termos. Nesses dois itens, optamos pelos que mais se aproximavam da tradução literal do item na escala original. No item 2, a expressão "Tenho sentido" foi escolhida por sugerir a ideia de frequência da ocorrência da dor. No item 6, a versão fornecida por T1 foi escolhida por sua estrutura estar mais simples, sem redundâncias.

No item 10, a palavra "lacking" pode ser entendida como "faltando", "falta de algo" ou "sem"; entretanto, em português, a expressão "sem vitalidade" foi considerada mais próxima da linguagem coloquial.

A proposta de T2 foi escolhida para o item 12 porque o termo "impaired" significa comprometido, debilitado, passando a ideia de que o funcionamento não se encontra no seu estado normal, ou seja, há um prejuízo da função. No item 13, a tradução literal do termo "urination" seria "micção", porém essa palavra não é muito utilizada na língua portuguesa; portanto, foi selecionada a versão que utilizou o termo "urinar", por estar condizente com a linguagem cotidiana utilizada pelos falantes da língua-alvo.

Nos itens 14 e 15, a proposta de T1 foi escolhida, já que o termo "common" também pode ser entendido como "rotineiro", "habitual"; durante a discussão da elaboração da versão de consenso, ela pareceu mais próxima ao sentido proposto pelo autor na versão original da escala.

Apesar de o item original conter a palavra "personally", que, em português, seria "pessoalmente", ao compor a frase para o item 16, a inclusão do termo fez com que ela perdesse proximidade com o que é usado na linguagem coloquial brasileira; portanto, a proposta de T1 foi escolhida.

Os itens 19 e 20 sugerem uma comparação entre o desejo sexual do entrevistado e o de seu parceiro(a). Dentre as duas propostas, a versão de T2 foi selecionada por manter o sentido do item original, pretendido pelo autor. Nos itens 23 e 24, "sexual dreams" poderia ser traduzido literalmente como "sonhos sexuais", porém, na língua portuguesa, a expressão "sonhos eróticos" é mais utilizada, tendo sido, portanto, mantida essa versão. Nesses mesmos itens, por orientação do especialista no construto, foi acrescentado o termo "sexuais" logo após a palavra "desejos", ficando, assim, a linguagem mais familiar aos respondentes.

Para o item 26, foi adotada uma composição das propostas de T1 e T2, já que o termo "desejado" poderia ser entendido como relacionado ao parceiro, e não ao ato sexual em si. No item 27, "as usual" é uma expressão que tem por significado "como de costume". Apesar de "usualmente" ser um sinônimo, essa não é uma palavra comum em português.

A expressão "tomar a iniciativa", no item 28, é mais utilizada coloquialmente e atinge mais facilmente a população-alvo. No item 31, o objetivo é investigar se existe lubrificação e se esta é suficiente durante o intercurso sexual. T1 foi quem mais se aproximou do sentido pretendido pelo autor. No item 32, ambas as traduções foram condizentes com o sentido original, porem a versão de T2 foi escolhida por sugestão do especialista no construto.

Em alguns dos itens (3, 4, 5, 7, 8, 9, 26 e 30), a versão de consenso foi uma combinação das traduções de T1 e T2. Nos itens 37 e 38, a proposta de T1 foi escolhida em função da expressão "ultimo mês", já que os autores consideraram que esta seria mais adequada do que "mês passado". Também no item 38, a versão de T1 foi escolhida por seguir um padrão estabelecido no item 37, usando "relações sexuais", e não "contatos", visto que o entendimento do que seria uma relação e um contato sexual poderia causar prejuízo no entendimento da questão.

No item 39, o tempo verbal utilizado no item original não encontra correspondência na língua portuguesa, e a palavra "intimate" não possui uma tradução literal. O objetivo do autor é investigar há quanto tempo o indivíduo mantém relações íntimas com o parceiro, e o verbo "ter" da versão elaborada por T2 pareceu mais adequado. No item 40, a proposta de T1 foi escolhida por se aproximar da tradução literal do item.

A versão de consenso formada por todo esse processo foi, então, encaminhada para um especialista, também bilíngue e que não participou das fases anteriores do estudo, junto com cópia dos itens originais do instrumento, para avaliação e emissão de possíveis sugestões. Nessa fase, não foi apontada pelo especialista a necessidade de alteração dos itens formados. Acreditamos que isso se deva ao fato de, na fase anterior, já termos incluído no grupo de consenso um especialista no construto, e também ao fato de os tradutores bilíngues serem especialistas em saúde mental.

A escala formada em português brasileiro foi, então, retrotraduzida por um tradutor independente que não participou das fases precedentes. A retrotradução gerada foi comparada com o instrumento original pelo coordenador do grupo em conjunto com o tradutor, e não foram identificadas discrepâncias.

Em seguida, para identificar possíveis dificuldades na compreensão do instrumento, foi realizada aplicação experimental com 18 sujeitos, sendo nove mulheres e nove homens. Esses sujeitos foram divididos em três grupos de aplicação, de acordo com o nível de escolaridade, havendo três homens e três mulheres em cada um dos grupos: nível básico, nível médio e nível superior.

Os sujeitos foram convidados a responder o instrumento em sua forma autoadministrada, sem limite de tempo. Após a aplicação, foi realizada discussão com os respondentes dentro de cada um dos grupos, segundo a escolaridade. Nessa discussão, foi solicitado que os participantes informassem o que entenderam de cada item, e era facultado que fornecessem sugestões de alteração na redação dos mesmos.

Posteriormente, os mesmos respondentes foram reunidos em dois grupos distintos, dessa vez heterogêneos quanto ao nível de escolaridade e homogêneos quanto ao sexo, ficando um grupo composto pelas nove mulheres e outro pelos nove homens. Foi realizada nova discussão quanto ao entendimento dos itens.

De acordo com as discussões realizadas, foi possível perceber que eventuais omissões se deveram a fatores como "vergonha", principalmente em respondentes mulheres (total de 10 omissões) e naqueles com menor nível de escolaridade (total de cinco itens). Não foi relatada qualquer dificuldade de entendimento pelos participantes. Quando solicitada uma versão alternativa para o item original em português, a nova formulação proposta pelos respondentes se mostrou adequada ao sentido do item original, demonstrando boa compreensão do significado expresso.

Não foi detectada, na aplicação experimental, necessidade de alterações nos itens. A versão em português brasileiro foi, então, traduzida novamente para o inglês e enviada ao autor do instrumento original para avaliação do mesmo, tendo sido considerada aprovada.

 

Conclusão

Poucos temas em saúde mental são tão desafiadores para os profissionais da área como a sexualidade humana. Além da dificuldade de discutir o tema com os indivíduos, devido ao fato de que o tema ainda é considerado tabu, ainda não existem medidas fisiológicas e marcadores biológicos que auxiliem no diagnóstico preciso das disfunções sexuais. Os diagnósticos, basicamente clínicos, contam principalmente com o autorrelato dos pacientes, que, muitas vezes, omitem informações por vergonha ou medo da avaliação negativa do profissional de saúde.

As escalas psicométricas preenchem uma importante lacuna na facilitação desse processo. Além disso, por serem instrumentos padronizados, válidos e com boa fidedignidade, permitem a comparação de dados entre sujeitos, viabilizando o estabelecimento de normas para a população-alvo.

Instrumentos autoaplicáveis constituem uma grande ferramenta na identificação de problemas sexuais e facilitam a introdução do tema no setting terapêutico. Além disso, podem também ser utilizados como instrumentos de coleta de dados em pesquisas, colaborando para a expansão do conhecimento na área do construto medido.

Ao realizar a adaptação de uma escala desenvolvida para outro contexto social, é necessário buscar, mais do que equivalência literal, equivalência semântica15 entre o que foi proposto pelo autor no instrumento original e o que é culturalmente difundido e conhecido na população-alvo. Como descrito em detalhe acima, a adaptação transcultural da QSF seguiu cinco etapas24 (tradução, reunião de consenso, avaliação por especialista, retrotradução e aplicação experimental), todas essenciais para a geração bem-sucedida de uma versão em outro idioma.

Os resultados obtidos em cada fase do processo foram satisfatórios e sugerem que a metodologia adotada foi fundamental para os resultados obtidos. A aplicação experimental da versão final em um grupo de sujeitos de ambos os sexos e com diferentes níveis de escolaridade confirmou que os objetivos foram atingidos, ou seja, o instrumento não apresentou problemas de compreensão ou outras dificuldades para sua execução. Desse modo, nosso estudo permite concluir que foi formada, com sucesso, a versão em português brasileiro da QSF.

 


 

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Referências

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Correspondência:
Valeska Martinho Pereira, Laboratório de Pânico e Respiração, Rua Visconde de Pirajá, 407/702, CEP 22410-003, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Tel.: (21) 2521.6147, Fax: (21) 2523.6839.
E-mail: valeskapereirapsi@gmail.com

 

O presente estudo foi realizado no Laboratório de Pânico e Respiração do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Translacional em Medicina (INCT-TM).

Apoio financeiro: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.

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Recebido em 13/07/2010. Aceito em 21/07/2010.