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Revista Brasileira de Zoologia

versión impresa ISSN 0101-8175

Rev. Bras. Zool. vol.10 no.1 Curitiba  1993

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-81751993000100001 

Herman Lent Homenagem da Sociedade Brasileira de Zoologia

 

 

José Jurberg

Fundação Instituto Oswaldo Cruz, Caixa Postal 926, 21041-210 Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

 

 

 

Herman Lent nasceu em 03 de fevereiro de 1911 na cidade do Rio de Janeiro. Médico aos 23 anos pela Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, nunca exerceu a medicina, pois desde 1931, ainda no segundo ano da Faculdade, começou a freqüentar o curso de Aplicação do Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos no qual se diplomou em 1932, quando ainda cursava o quarto ano da Faculdade de Medicina. Logo começou o trabalho como voluntário no laboratório de Helmintologia sob a orientação de Lauro Travassos.

Herman Lent permaneceu ininterruptamente trabalhando em Manguinhos por 49 anos, pois em 1º de abril de 1970, por perseguição do então Ministro da Saúde, F.P. da Rocha Lagoa, teve seus direitos políticos cassados por dez anos e aposentado compulsoriamente junto a outros nove pesquisadores num episódio que mais tarde ele próprio tornou conhecido ao publicar o "Massacre de Manguinhos".

Perseguido e impedido de trabalhar, pois até o seu acesso à biblioteca do Instituto Oswaldo Cruz foi proibido, ele nunca esmoreceu pois, apesar de todas as dificuldades criadas, seus trabalhos científicos continuaram a ser publicados, já não mais com a mesma intensidade. Desde 1934 quando saiu seu primeiro trabalho nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz intitulado "Sobre dois novos gêneros da subfamília Trichostrongylinac Leiper, 1908 parasitos de Tinatnus solitarius Vieill" em colaboração com Teixeira de Freitas, publicou até hoje 195 trabalhos. Sua média de publicações até 1964 era de 4,9 trabalhos por ano.

Profissionalmente se caracterizou pela sua constância no binômio pesquisa e ensino. Em 1933, começou a lecionar Helmintologia e mais tarde Entomologia nos cursos do Instituto Oswaldo Cruz. Ensinou Zoologia, Biologia e Parasitologia em diversas Universidades do país e no exterior: Escola de Ciências da Universidade do Distrito Federal (1935-1937); Parasitologia nos cursos de Saúde Pública do Ministério da Saúde (1940,1942,1964); Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro (1940); Chefe Honorário do Laboratório de Parasitologia do Instituto de Higiene de Asunción, Paraguay (1943-1944); Professor dos Cursos de Especialização e Pós-Graduação nas Universidades de Asunción, Paraguay (1943); da Bahia (1949); do Paraná (1962); do Rio de Janeiro (1963); Professor de Biologia do Colégio Pedro II do Ministério da Educação e Cultura (1954-1967); Professor contratado da Universidade de Los Andes-Mérida, Venezuela (1972-1974); Research Associate do American Museum of Natural History - New York, USA (1975).

Pelo Ato Institucional nº 5 da Revolução de 1964 Herman Lent estava proibido de ter contato com estudantes, acesso ao laboratório e à biblioteca do Instituto Oswaldo Cruz. Em 1972 parte para Venezuela para lecionar na Universidade de Los Andes onde durante dois anos colabora nos cursos de Pós-Graduação; de sua estadia fica a marca além dos trabalhos publicados o prazer de ver reconhecido com seu nome o Laboratório de Entomologia daquela Universidade.

Durante dez anos trabalhei ao lado de Herman Lent, no mesmo laboratório. Tentei entrar em Manguinhos em 1960, via um Curso de Entomologia que não se efetivou, pois só eu havia me inscrito e, sem o conhecer fui convidado a ser seu estagiário após uma breve entrevista na qual declinei minha inexperiência em entomologia. Iniciei meu aprendizado ao seu lado, no convívio diário da bancada, apoiado por Hugo de Souza Lopes que orientou meu primeiro trabalho. Neste período, a Fundação Ford propiciava a Herman Lent, condições financeiras para implantar um mestrado em que o aluno com vocação desenvolveria seu trabalho de tese fazendo cursos avulsos nas áreas de apoio ao trabalho. Assim publiquei meu primeiro trabalho com Herman Lent mas o mestrado não foi adiante já que em 1964 F.P. da Rocha Lagoa assumiu a direção do Instituto Oswaldo Cruz, e queria ele próprio gerenciar as verbas da Fundação Ford o que contrariava o espírito dos auxílios, que eram dados aos pesquisadores de renome e não à Instituição.

A seção de Entomologia ocupava o segundo andar do Pavilhão Mourisco, onde estava situada a Coleção Entomológica, localizada na sala 31, com uma fantástica armação de ferro que permitia ter três andares, com um elevador próprio para deslocar as gavetas com insetos. Era chefiada por Hugo de Souza Lopes tendo Herman Lent como chefe da Divisão de Zoologia, o grupo de Pesquisadores contava com Angelo Moreira da Costa Lima, Sebastião José de Oliveira, Fábio Leoni Werneck, Ornar Tavares, Dario Mendes, Orlando Vicente Ferreira, Renato Lion de Araújo e Marcos Kogan e um grupo de estagiários do qual eu fazia parte. Em 1970 com o massacre de Manguinhos só eu e Orlando V. Ferreira ficamos para cuidar daquele fabuloso acervo da Coleção Entomológica e equipamentos. Pouco a pouco tudo foi sendo desmontado, os estagiários se foram e a coleção foi transferida para um prédio abandonado com a perda de centenas e centenas de exemplares.

Mais tarde em 1975, impossibilitado de concretizar no Brasil um dos seus grandes projetos, publicar uma monografia sobre os Triatomídeos do mundo, embarca para os Estados Unidos da América para trabalhar como Research Associate no American Museum of Natural History - New York, onde materializa seu sonho, em colaboração com Peter Wygodzinsky, seu antigo colaborador. Em 1979 saiu publicado pelo "Bulletin of the American Museum of Natural History" o que hoje é considerada a bíblia dos Taxonomistas em Triatominae "Revision of the Triatominae (Hemiptera, Reduviidae) and their significance as vectors of Chagas' disease". Foram 40 anos coligindo dados para concretizar esta obra, que infelizmente nossa instituição não pode ter o privilégio de editá-la.

As dificuldades de comunicação e publicação dos trabalhos científicos das Sociedades de Biologia filiadas a "Societé de Biologie de Paris", que a 2ª guerra Mundial trouxe ao Brasil, fizeram com que um grupo de pesquisadores da Sociedade de Biologia do Brasil, constituída pelas Seções do Rio de Janeiro e Belo Horizonte, editasse uma nova revista onde pudessem divulgar os resultados de suas pesquisas. Nasceu assim a Revista Brasileira de Biologia, tendo Herman Lent como um de seus fundadores e seu editor até 1981, quando à Revista foi doada a Academia Brasileira de Ciências, que o tinha acolhido desde a sua saída de Manguinhos, em abril de 1970.

O gosto pela editoria se mesclou com suas atividades de pesquisa: foi editor das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (1955, 1959, 1964), membro do Conselho de Redação da Revista Ciência publicada no México desde 1942, compilador da Bibliografia Brasileira de Zoologia sobre a Doença de Chagas publicada pelo Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação do CNPq, editor das "Atas do Simpósio da Biota Amazônica" em sete volumes publicadas pelo Conselho Nacional de Pesquisas em 1967; Membro do Editorial Board da Revista Biotrópica publicada nos Estados Unidos (1969-1975), Presidente da Comissão de Redação dos Anais da Academia Brasileira de Ciências de 1968-1981; Chefe de Seção de História Natural da Grande Enciclopédia Delta Larrousse (12 volumes) publicada em 1970; consultor em Biologia da obra "Os Cientistas", publicada pela Editora Abril Cultural em 1972.

Em 1972 foi agraciado com o prêmio Costa Lima, de Entomologia, da Academia Brasileira de Ciências, dedicado ao entomólogo de maior projeção e escolhido através do voto de um colégio eleitoral constituído por expoentes da entomologia brasileira. Receber este prêmio naquele período de exceção tinha duplo significado, coroava uma vida dedicada a luta em prol da verdade, da justiça e distinguia o especialista granjeado de fama mundial pela qualidade de seus trabalhos. Juntava este laurel a outros: diploma e medalha comemorativa do 50º Aniversário da Fundação Oswaldo Cruz (1950); Medalha Carlos Chagas comemorativa ao cinqüentenário da descoberta da Doença de Chagas (1909-1959); Medalha Pirajá da Silva comemorativa do cinqüentenário da identificação do Schistosoma mansoni; Diploma e Medalha Carlos Chagas da Universidade de Minas Gerais (novembro/59); Medalha comemorativa do Sétimo Congresso Internacional de Medicina Tropical e Malária (setembro/63); Medalha Rocha Lima comemorativa da descoberta da Rickettsia prowazeki causadora do tipo exantemático (1961-1966); Medalha comemorativa do primeiro centenário de Vital Brazil (1965); Medalha Guilherme Guinle comemorativa do 25º aniversário do Instituto de Biofísica (1971); Medalha e Diploma do 30º aniversário do CNPq.

Herman Lent é membro titular da Academia Brasileira de Ciências desde 1966, sócio fundador das: Sociedade Brasileira de Zoologia, Sociedade Brasileira de Microbiologia, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência; além de sócio-efetivo da Associação Médica Fluminense; da Sociedade de Biologia do Rio de Janeiro; da American Society of Parasitologists; da Sociedad Chilena de História Natural; da Academy of Zoology (Agra-India); da Sociedad Chilena de Entomologia; da Sociedade Brasileira de Parasitologia; da Association of Tropical Biology; da Federation Latino Americana de Parasitologia e Membro do Conselho Científico da Revista Ciência Hoje.

Em agosto de 1986 o presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Prof. Sérgio Arouca resgatou o compromisso assumido em sua campanha para a Presidência da FIOCRUZ e contratou todos os pesquisadores cassados, Herman Lent foi o único a não aceitar a reintegração, permanecendo na Universidade Santa Úrsula, o que não impediu de aceitar o convite para participar como membro do Conselho Técnico Científico da FIOCRUZ.

Hoje Herman Lent ocupa o cargo de Professor Titular na Universidade Santa Úrsula onde leciona Helmintologia, foi Decano e é Conselheiro do Conselho de Ensino e Pesquisa. Quando todas as portas se fechavam para os cassados já que eles não podiam trabalhar em órgãos do governo ou nos que de alguma forma recebiam auxílios do governo, a Madre Maria de Fátima Maron Ramos chanceler da Universidade Santa Úrsula, convidou-o para se integrar nos trabalhos de pesquisa e ensino, assim como a Hugo de Souza Lopes e Arthur Domingos Machado Filho. Um pouco de nossa vergonha foi resgatada pela coragem da Madre Maria de Fátima, em tomar essa atitude antes da anistia.

Esta homenagem que a Sociedade Brasileira de Zoologia presta a um de seus fundadores reflete uma preocupação de nossa geração em saldar uma dívida, registrando o nosso reconhecimento por aquele que sempre lutou em prol de nossa ciência, da justiça e da liberdade. Sinto-me um privilegiado em poder desfrutar dessa amizade há 32 anos. Continuamos publicando juntos. Seu afastamento de Manguinhos serviu para alicerçar mais o nosso trabalho.

 

 

Foto da primeira página de autoria de José Jurberg