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Revista Brasileira de Zoologia

Print version ISSN 0101-8175

Rev. Bras. Zool. vol.23 no.2 Curitiba June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-81752006000200011 

Análise quali-quantitativa da ictiofauna acompanhante na pesca do camarão sete-barbas, na Armação do Itapocoroy, Penha, Santa Catarina

 

Quali-quantitative analysis of sea-bob-shrimp's ichthyofauna bycatch, at Armação do Itapocoroy, Penha, Santa Catarina

 

 

Joaquim O. BrancoI; José R. VeraniII

ICentro de Ciências Tecnológicas, da Terra e do Mar, Universidade do Vale do Itajaí. Caixa Postal 360, 88301-970 Itajaí, Santa Catarina, Brasil. E-mail: branco@.univali.br
IIDepartamento de Hidrobiologia, Universidade Federal de São Carlos. Rodovia Washington Luís, km 235, 13565-905 São Carlos, São Paulo, Brasil

 

 


RESUMO

A ictiofauna acompanhante na pesca de camarão sete-barbas foi estudada mensalmente entre agosto 1996 a julho 2003 nas áreas de atuação da pesca artesanal na Armação do Itapocoroy, Penha. Foram utilizadas duas redes-de-arrasto com portas, malha de 3,0 cm na manga e corpo e de 2,0 cm no ensacador, tracionada por baleeira com velocidade média de 2,0 nós. A temperatura e salinidade média da água de fundo mantiveram um padrão uniforme de flutuação sazonal, sem diferença significativa entre os anos de coleta. Das 60 espécies capturadas, 22 foram comuns ao longo do período de coleta. As famílias Sciaenidae, Carangidae e Clupeidae apresentaram o maior número de espécies contribuindo com 92,0% das capturas, onde Stellifer spp., Paralonchurus brasiliensis e Isopisthus parvipinnis foram mais abundantes nas coletas, apresentando ocorrência regular ao longo dos anos. Ocorreram flutuações sazonais na abundância e diversidade da ictiofauna com diferença significativa entre os anos de coleta e biomassa, bem como em número de exemplares. O monitoramento da pesca de arrasto direcionada ao camarão sete-barbas poderá contribuir na manutenção dos estoques e assegurar a subsistência das comunidades tradicionais no litoral catarinense.

Palavras-chave: Pesca artesanal.


ABSTRACT

The ichthyofauna bycatch in sea-bob-shrimp's fishery was monthly studied from August 1996 to July 2003, in the artisanal fishing grounds at Armação do Itapocoroy, Penha. It had been used two net-of-drag with doors, mesh of 3.0 cm in the sleeve and body and of 2.0 cm in the sacker, pushed for whaleboat with average speed of 2.0 km/h. Mean values of bottom water temperature and salinity remained uniform in a seasonal fluctuation, showing no significant differences among the studied years. A total of 60 species were collected, in which 22 were considered common species along the sampled period. Sciaenidae, Carangidae and Clupeidae families presented the highest number of specimens, accounting to 92% of catches, being Stellifer spp., Paralonchurus brasiliensis and Isopisthus parvipinnis, the dominant species, occurring regularly along the years. Seasonal fluctuations were observed in the abundance and diversity of ichthyofauna, with significant differences observed among the sampled years and biomass, as well as numerical abundance. The monitoring of trawling fishery targeting sea-bob-shrimp may contribute in a way to maintain the exploited stocks and guarantee the subsistence of traditional communities along Santa Catarina's coast.

Key words: Artisanal fishing.


 

 

A pesca com rede-de-arrasto com portas dirigida a camarões é considerada eficiente na obtenção da espécie-alvo, entretanto captura, acidentalmente, uma multiplicidade faunística, denominada fauna acompanhante, como peixes, crustáceos, moluscos, equinodermas e cnidários (RODRIGUES et al. 1985, GRAÇA-LOPES et al. 2002, BRANCO & FRACASSO 2004). O impacto dos arrastos na composição percentual das espécies que integram essa fauna, varia em função da área de pesca, profundidade e época do ano (CARRANZA-FRASER & GRANDE 1982, RUFFINO & CASTELLO 1992).

O descarte prolongado das espécies integrantes desses grupos, podem contribuir na perda de alimento e biodiversidade (CLUCAS 1997), reduzindo a biomassa e comprometendo a produtividade dos estoques pesqueiros (MURRAY et al. 1992), além de alterar o caráter das assembléias de peixes (HUDSON & FURNESS 1988, WASSENBERG & HILL 1989). Tais trocas têm o potencial de alterar as relações entre predador/presa e aumentar o suprimento de alimento para decompositores, modificando a estrutura e função das comunidades bentônicas (SAILA 1983, ALVERSON et al. 1994).

A ictiofauna acompanhante na pesca de camarões forma um conhecido e discutido recurso alimentar, sendo sub-aproveitado em muitos países e supervalorizado em outros. Grande parte dos peixes capturados é composta por indivíduos juvenis, o que pode comprometer a manutenção dos estoques em níveis sustentáveis. Dessa forma, o conhecimento da ictiofauna acompanhante é de fundamental importância, visto que a pesca de arrasto com portas é considerada predatória e freqüentemente realizada em criadouros de diversas espécies de peixes (COELHO et al. 1986, RUFFINO & CASTELLO 1992).Este trabalho tem como objetivo analisar quali-quantitativamente a ictiofauna acompanhante na pesca artesanal do camarão sete-barbas (Xiphopenaeus kroyeri Heller, 1862) na Armação do Itapocoroy, Penha, Santa Catarina.

 

MATERIAL E MÉTODOS

As coletas foram realizadas mensalmente na Armação do Itapocoroy, Penha (26º40'-26º47'S e 48º36'-48º38'W), durante o período de agosto 1996 a julho de 2003, sendo uma coleta por mês com duração de uma hora, em três áreas tradicionais de atuação da pesca artesanal do camarão sete-barbas (BRANCO & FRACASSO 2004): Ponta da Vigia com profundidade entre 10 a 15 m, nas próxima da Ilha Feia entre 8 a 12 m e entre essa e as Ilhas de Itacolomis com 12 a 18 m, onde o sedimento predominante dessas áreas foi síltico-argiloso.

Foram utilizadas duas redes-de-arrastos com portas (doublé rigged), malha de 3,0 cm na manga e corpo e de 2,0 cm no ensacador, tracionadas por uma baleeira com velocidade média de 2,0 nós (BRANCO et al. 2002). Paralelamente aos arrastos foram registradas a temperatura e a salinidade da água de fundo. O material capturado nos arrastos dirigido ao camarão sete-barbas foi acondicionado em caixa de isopor e resfriado com gelo. No laboratório, a identificação dos componentes da fauna acompanhante foi realizada de acordo com a bibliografia específica, sendo registrado nas coletas, o peso e contado o número de exemplares, bem como o peso do lixo inorgânico (plástico, lata e ferro) e do orgânico (algas e conchas, dentre outros).

Os peixes foram identificados (FIGUEIREDO 1977, FIGUEIREDO & MENEZES 1978, 1980, 2000, MENEZES & FIGUEIREDO 1980). Foram estimadas as médias mensais das CPUE em biomassa (kg/h) e em número de exemplares (N/h), com as informações das três áreas de coleta. A análise de variância paramétrica - ANOVA (Zar 1999) - foi aplicada aos dados das coletas e transformados pela logaritmização das CPUE em biomassa e em número de exemplares (logaritmo natural), anual e sazonalmente, sendo testados quanto à homogeneidade da variância (teste de Bartlett) e de normalidade da distribuição (prova de Kolmorov-Smirnov). Na existência de diferenças significativas, o contraste das médias (teste Tuckey-Kramer) foi aplicado para indicar quais médias foram significativamente distintas.

A partir do somatório das CPUE da fauna acompanhante nos sete anos de coleta, foi determinada a participação relativa da ictiofauna em relação aos demais grupos integrantes da pesca do camarão sete-barbas.

Considerando-se a ocorrência nas coletas ao longo do ano, as espécies de peixes foram classificadas em três categorias: regular (9 a 12 meses); sazonal (6 a 8 meses) e ocasional (1 a 5 meses) (ANSARI et al. 1995). O índice de diversidade de Shannon (H') e o índice de Equitabilidade de Pielou (J') foram calculados utilizando-se o número médio de exemplares dos sete anos de coleta (LUDWIG & REYNOLDS 1988).

Aplicando-se a análise de agrupamento foram estabelecidas as associações entre as espécies nos sete anos de coletas, utilizando-se o número de indivíduos por espécie e associação entre os meses e a abundância média de exemplares, considerando-se o fato de não existir um critério definitivo que permita estabelecer o melhor número de agrupamentos e o nível de similaridade que deve ser adotado na sua definição (CURI 1985). Procedeu-se a padronização dos dados com a transformação logarítmica [ln (x+1)], devido à ocorrência de distribuição contagiosa típica em peixes (COLVOCORESSES & MUSICK 1984).

Na seqüência, foi estabelecida pela distância Euclidiana a medida de semelhança entre os pares de espécies e agrupados pelo método de Ward, implementados no software Statistica 6. Foram eliminadas da análise as espécies com ocorrência inferior a cinco coletas por ano.

 

RESULTADOS

Variáveis ambientais

A temperatura média da água de fundo manteve um padrão de flutuação sazonal uniforme, não diferindo significativamente entre os anos de amostragem (F6-77 = 0,518; p > 0,05), onde os valores médios mais elevados foram registrados entre os meses de fevereiro e março, com temperaturas em torno de 25,7ºC e as menores, entre em junho a agosto, com valores oscilando entre 18,1 e 19,4ºC (Fig. 1).

 

 

A salinidade média da água de fundo manteve a tendência sazonal de flutuação, sem diferença significativa entre os anos de coleta (F6-77 = 1,798; p > 0,05), com os maiores teores médios ocorrendo entre os meses de verão e outono e os menores no final do inverno (Fig. 2).

Composição das capturas

A figura 3 mostra a variação da participação relativa em biomassa dos cinco grupos componentes da pesca de arrasto dirigida ao camarão sete-barbas na Armação do Itapocoroy, incluindo o lixo. Destes, a ictiofauna representou 39,57%, seguida da cnidofauna (18,10%), carcinofauna (16,73%), espécie-alvo Xiphopenaeus kroyeri (10,0%), malacofauna (4,34%) e equinofauna (1,50%), sendo o lixo orgânico e inorgânico representado por 9,76%.

 

 

Ictiofauna

Durante os sete anos de amostragem foi coletado um total de 92.700 peixes, pertencentes a 60 espécies, 53 gêneros e 28 famílias (Tab. I), sendo que 22 espécies foram comuns ao longo do período de coleta. As três famílias Sciaenidae (nove espécies), Carangidae (seis espécies) e Clupeidae (cinco espécies) foram as mais diversificadas, contribuindo com 92,0% do total capturado, enquanto que as outras 25 famílias, em conjunto, participaram com 8,0% da ictiofauna. Os Sciaenidae representaram mais de 82,0% dos exemplares, oscilando ao longo dos anos entre 75,15% e 93,52%. A ictiofauna acompanhante foi dominada, principalmente, por Stellifer spp. [Stellifer stellifer (Bloch, 1790), Stellifer rastrifer (Jordan,1889) e Stellifer brasiliensis (Schultz, 1945)], Paralonchurus brasiliensis (Steindachner, 1875), Isopisthus parvipinnis (Cuvier, 1830), Pellona harroweri (Fowler, 1917) e Trichiurus lepturus (Linnaeus, 1758) (Tab. I).

Quanto às categorias de ocorrência, as espécies consideradas regular apresentaram oscilação entre os anos de coleta, com as menores freqüências em 2000-2001 (7,69%) e as maiores em 1998-1999 (15,79%), com média no período de estudo em torno de 10,77%, enquanto que nas espécies consideradas sazonal as menores freqüências ocorreram em 1997-1998 (5,26%) e as maiores em 1999-2000 (17,14%) com média de 12,31%, já nas espécies ocasional as menores freqüências foram registradas em 1999-2000 (71,43%) e as maiores em 2000-2001 (82,05%), com ocorrência média de 76,92% (Tab. I).

Diversidade e equitabilidade

O índice de diversidade de Shannon (H') não diferiu significativamente entre os sete anos de amostragens (F6-77 = 1,652;p=0,05) (Tab. I), onde a maior diversidade foi registrada em 1998-1999 (1,975) e a menor em 1996-1997 (1,114). Esses valores quando agrupados mensalmente mostraram-se semelhantes (F11-72 = 1,731; p > 0,05), com as maiores médias ocorrendo nos meses de julho e fevereiro e as menores em setembro e novembro (Fig. 4).

 

 

O índice de equitabilidade de Pielou (J'), apesar de apresentar flutuações moderadas entre os anos de coleta, manteve-se estatisticamente semelhante (F6-77 = 1,374; p > 0,05), com a maior equitabilidade anual ocorrendo em 1998-1999 e a menor em 1996-1997 (Tab. I). Os valores médios mensais de equitabilidade seguiram o mesmo padrão de variação da diversidade (F11-72 = 1,094; p > 0,05), com os maiores valores registrados em agosto, outubro e julho e os menores em setembro e novembro (Fig. 4).

Captura por unidade de esforço

De acordo com a figura 5 as maiores taxas médias mensais em biomassa e número de peixes, capturados nos sete anos consecutivos de coleta, ocorreram no período de outubro a maio, com picos anuais alternando-se entre março, outubro, maio, fevereiro, abril e janeiro. Foram observadas diferenças significativas entre as CPUE em biomassa (F6-77 = 3,265; p < 0,05) dos anos 1996-1997/2001-2002 e 2001-2002/2002-2003, bem como em número de exemplares (F6-77 = 4,055; p < 0,01) entre 1997-1998/2001-2002 e 1996-1997/2001-2002, essas diferenças determinadas pelo teste de Tuckey-Kramer foram atribuídas, respectivamente, às menores taxas de captura nos anos de 2002-2003 e 2001-2002. Entretanto, quando analisados os dados das CPUE por mês de coleta (F11-72 = 0,574; p > 0,05) e estação do ano (F3-80 = 1,245; p > 0,05), não foram constatadas diferenças significativas em biomassa, porém em número de exemplares as diferenças revelaram-se significativas (F11-72 = 3,281; p < 0,05), principalmente nos meses de 1997-1998 e sazonalmente (F3-80 = 7,957; p < 0,001), com as menores médias ocorrendo durante o inverno (Fig. 5).

 

 

Associação faunística

Considerando-se a abundância média mensal dos 20 táxons selecionados, a análise de cluster separou, a um nível da distância de junção "3", os meses de coleta em três grupos (Fig. 6). O grupo I, formado pelos meses de abril, maio, junho, julho e agosto, período com os menores valores médios de captura, exceto em abril onde ocorreram freqüências elevadas de exemplares nas amostragens (Fig. 5). O grupo II, composto por setembro e outubro, pode ser considerado como época de média abundância. O grupo III, reunindo os meses de novembro a março, caracteriza-se pela ocorrência dos maiores valores médios em número de exemplares (Fig. 5).

A análise de Cluster, aplicada aos 20 táxons presentes em mais de cinco coletas por ano, gerou três agrupamentos a um nível da distância de junção "21" (Fig. 7). No grupo I, composto por 12 espécies, registram-se principalmente as de ocorrência ocasional nas coletas (Tab. I). O grupo II apresentou-se formado por quatro espécies que se alternaram entre a ocorrência ocasional e sazonal. Finalmente o grupo III reuniu duas espécies regulares: Isopisthus parvipinnis e Paralonchurus brasiliensis e o gênero Stellifer (Tab. I), que apresentaram ao longo dos sete anos as maiores abundâncias.

 

DISCUSSÃO

A ictiofauna rejeitada na pesca dirigida ao camarão sete-barbas é diversificada, superando freqüentemente a quantidade de camarão em condições de comercialização (COELHO et al. 1986). Essa tendência foi mantida na Armação do Itapocoroy, onde as 60 espécies de peixes representaram cerca de 40,0% da biomassa total capturada. Apesar da grande produção pesqueira, as comunidades de peixes da porção Sudoeste do Atlântico Ocidental são as menos conhecidas (LONGHURST & PAULY 1987), além do que o número de espécies presente nos arrastos vem apresentando oscilações entre as áreas de pesca no litoral de São Paulo, onde foram registradas 77 espécies (COELHO et al. 1986), 55 espécies (PAIVA-FILHO & SCHMIEGELOW 1986) e 92 espécies (GIANNINI & PAIVA-FILHO 1990) na Baía de Santos, São Paulo.

As dominâncias dos Sciaenidae, em número de espécies e de exemplares nesse estudo, são compartilhadas com outros pesquisadores das regiões Sudeste-Sul do Brasil (VAZZOLER 1975, PAIVA-FILHO et al. 1987, RUFFINO & CASTELLO 1992), bem como no litoral Norte Americano e Golfo do México (PELLEGRIN 1983). Segundo COELHO et al. (1986), quatro espécies dessa família contribuíram com mais de 60,0% do total de exemplares, enquanto que para PAIVA-FILHO & SCHNIEGELOW (1986), três a quatro espécies da ictiofauna representaram 50,0% da biomassa e sete aproximadamente 75,0%. Já na barra de Rio Grande, RS, a biomassa de seis espécies correspondeu a valores entre 72,4% e 83,4% das capturas (RUFFINO & CASTELLO 1992). A nível mundial, independentemente da família, essa tendência foi mantida, onde aproximadamente 50,0% da fauna acompanhante presente nos arrastos de camarão é representada por três a cinco espécies e 75,0% por sete a dez espécies (SLAVIN 1983).

As oscilações sazonais no número de espécies ao longo dos sete anos de amostragens refletem a elevada freqüência de espécies visitantes de ocorrência ocasional em trânsito pela área de estudo, onde uma pequena porcentagem da ictiofauna presente nos arrastos costeiros é dominante em número de exemplares e em biomassa, sendo na sua maioria constituída de espécies de ocorrência rara (PAIVA-FILHO & SCHMIGELOW 1986, COELHO et al. 1986, RUFFINO & CASTELLO 1992). Estes padrões sazonais na abundância da ictiofauna e também da carcinofauna, descritos na literatura e corroborado neste estudo, podem ser atribuídos, em parte, às características hidrográficas da região, que acarretam alterações no sedimento, temperatura, salinidade e instabilidade das regiões costeiras, e também aos eventos do ciclo de vida das espécies (BOSCHI 1969, CARRANZA-FRASER & GRANDE 1982, SAUL & CUNNINGHANN 1995).

Em geral, as maiores abundâncias em número de exemplares e CPUE da ictiofauna acompanhante do camarão sete-barbas na Armação do Itapocoroy ocorreram entre os meses de verão e primavera, enquanto que na região Sul, alternaram-se entre a primavera e outono (HAIMOVICI et al. 1996) e, no Sudeste, as maiores CPUE da população de Sciaenidae da Baía de Santos foram registradas durante o outono (GIANNINI & PAIVA-FILHO 1990).

Segundo GREENWOOD (1975), ocorre um incremento gradual na abundância, riqueza e diversidade de espécies com a redução da latitude, atingindo a maior diversidade na zona tropical. Neste estudo, os valores médios dos índices de diversida de e equitabilidade foram influenciados diretamente pelas flutuações sazonais das populações, variando em torno da amplitude esperada para a ictiofauna de regiões costeiras (ZANI-TEIXEIRA & PAIVA-FILHO 1981, PAIVA-FILHO & SCHMIEGELOW 1986, PAIVA-FILHO & TOSCANO 1987, YAÑEZ-ARANCIBIA et al. 1988, PEREIRA 1994), onde poucas espécies numericamente dominantes, aparentemente são características comuns em associações de peixes demersais (ANSARI et al. 1995).

Informações sobre análise de Cluster aplicada a comunidades de peixes demersais oriundas da pesca artesanal do camarão sete-barbas são raras na literatura nacional. Nesse estudo, os três grupos obtidos apresentam-se estruturados em função da ocorrência e abundância das espécies. As dominantes numericamente, como Isopisthus parvipinnis, Paralonchurus brasiliensis e o gênero Stellifer, ambas de ocorrência regular nas coletas, formaram um grupo independente dos demais taxa, enquanto que os dois maiores agrupamentos reuniram as espécies das categorias ocasional e sazonal. Tendências semelhantes foram registradas nas comunidades de peixes de regiões costeiras (FAGUNDES NETO & CAELZER 1991), de estuários (PEREIRA 1994) e de lagunas costeiras (MONTEIRO-NETO et al. 1990).

Os descartes da ictiofauna nas pescarias dirigidas aos camarões são responsáveis por aproximadamente um terço dos 27 milhões de toneladas descartadas anualmente nas pescarias mundiais (ALVERSON et al. 1994). O impacto da pesca do camarão sete-barbas sobre a ictiofauna na Armação do Itapocoroy assume dimensões preocupantes, seja pelo número elevado de espécies sem valor de mercado ou de juvenis das explotadas, obrigando o pescador a devolver ao mar, geralmente mortos, o excedente das capturas. Apesar dessa pressão, as espécies rejeitadas pela frota artesanal têm conseguido manter relativamente estável a diversidade biológica e populacional, respondendo satisfatoriamente à flutuação do esforço de pesca direcionado à espécie-alvo.

A fauna acompanhante rejeitada na pesca de arrasto deve ser considerada na obtenção das estimativas de captura (GULLAND 1966). No Brasil, apesar dos esforços de alguns pesquisadores e do governo, a estatística pesqueira de controle da produção incide apenas sobre a proporção aproveitada dessa fauna acompanhante que é desembarcada nos entrepostos. Além dessa perda de biodiversidade e proteína, a fauna acompanhante em conjunto com o lixo orgânico e inorgânico presente nos arrastos constituem um agravante a mais na pesca do camarão sete-barbas, visto que contribuem na obliteração das malhas da rede, causando redução na seletividade, aumento no consumo de combustível e desgaste do barco.

 

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Recebido em 01.VII.2005; aceito em 17.IV.2006.

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