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História (São Paulo)

On-line version ISSN 1980-4369

História vol.22 no.1 Franca  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-90742003000100010 

RESENHAS

 

 

Célio Ricardo Tasinafo1

 

 

JENKINS, L. R. Churchill. Tradução de Heitor Aquino Ferreira. Rio de Janeiro:Nova Fronteira, 2002, 897 p.

 

"...nunca fugir, não se abater, desesperar jamais."

 

Estas palavras finais, do último importante discurso de Winston Churchill (1874 — 1965) em sua segunda passagem pelo cargo de primeiro-ministro inglês, devem ter acompanhado lord Jenkins durante todo o período em que se dedicou à pesquisa e à escrita da biografia do mais conhecido líder britânico do século XX. Isto porque a tarefa certamente não foi das mais simples, mesmo para um experiente biógrafo e político — o autor escreveu também biografias de Willian Gladstone, Herbert Henry Asquith e Clemente Attlee, ao mesmo tempo em que acumulou profundo conhecimento sobre as engrenagens da política de seu país, tendo sido membro da Câmara dos Comuns por várias legislaturas e ocupado pastas ministeriais por quatro vezes, entre 1964 e 1976.

Se biografar qualquer pessoa comporta todas as principais dificuldades do trabalho historiográfico atual, como lembra Jacques Le Goff no prefácio de São Luís, no caso do biografado ser Winston Churchill tais dificuldades, por uma série de motivos, parecem se potencializar. A principal delas reside no grande número de biografias e estudos que centram suas análises sobre aquele político, fato lembrado pelo próprio Jenkins no prefácio do livro, quando informa o leitor de que existem cerca de dez vezes mais obras sobre Chuchill do que sobre Gladstone — este um político que também esteve por mais de quarenta anos no Parlamento britânico e que tem sido considerado o principal governante da Inglaterra vitoriana (p. viii).

Entre aquelas obras incluem-se verdadeiros "monumentos," como os oito volumes da biografia oficial escrita a princípio conjuntamente pelo filho, Randolph Churchill, e por sir Martin Gilbert, mas terminada apenas pelo último e publicada entre 1966 e 1988; além de muitas fontes documentais já publicadas: cartas, discursos e as várias memórias de Churchill — um livro abrangendo sua juventude e a estréia na política e outros seis volumes específicos sobre a sua atuação na Segunda Guerra.

Entretanto, o grande volume de estudos e informações tornou-se um trunfo para o biógrafo. Em vez de se preocupar com a "descoberta de fatos novos sobre Churchill" (p. ix), ou mesmo procurar realizar apenas análises "densas" de momentos pontuais da trajetória do biografado — como faz, com méritos, John Lukcas em dois livros, O duelo Hitler versus Churchill, 10 de maio — 31 de julho de 1940 e Cinco dias em Londres, maio de 1940 —, Jenkins ocupou-se em (re)interpretar/(re)analisar cuidadosamente toda a trajetória política de Churchill. Tal objetivo torna o livro uma referência importante tanto para os interessados na história européia e inglesa do século passado, quanto para aqueles que buscam especificamente compreender a política liberal parlamentar, da qual a Inglaterra é incontestavelmente o maior paradigma. Para o público brasileiro, o livro é ainda mais importante, dada a inexistência de traduções em português da maior parte das obras sobre Churchill.

Apesar de não fazer revelações significativas sobre a vida pessoal/política de seu biografado, o relato de Jenkins sobre a longa carreira de Chuchill — desde o seu ingresso no 4º Batalhão de Hussardos, baseado em Bombaim em 1895, até a sua morte em janeiro de 1965 — é bastante informativo, uma vez que o autor escapou à tentação de promover "um julgamento" geral da atuação de seu personagem. Assim, o texto é bem mais esclarecedor, particularmente quando comparado com o de outros autores que se preocuparam demasiadamente em lustrar apologeticamente a imagem póstuma do "gigante" que "salvou o mundo do nazismo" — caso da enorme obra de Randolph Churchill/Martin Gilbert; ou como o de biógrafos revisionistas que procuraram derrubar a estátua do líder de seu pedestal — caso de John Charmley, que "acusa" Churchill de "incoerente" e "inconseqüente" em suas ações, por ter contribuído para o desmoronamento do domínio inglês sobre a Índia, em 1947, apesar de ter lutado, nos anos de 1930, pela permanência daquele domínio.

O êxito da abordagem de Jenkins se deve ao fato de ele não ter tomado as características pessoais de Churchill como os únicos elementos determinantes de suas ações. Sem deixar de notar as idiossincrasias, a tenacidade (por vezes, pura teimosia), a capacidade de trabalho e mesmo os gostos sibaritas (que só o poder poderia satisfazer) de seu biografado, o autor constantemente relaciona o personagem com a ampla rede de circunstâncias que pesaram nas escolhas feitas e nas decisões tomadas, todas elas fundamentais para que chegasse e se mantivesse à frente do governo inglês por dois longos e importantes períodos (maio de 1940 a julho de 1945 e outubro de 1951 a abril de 1955). Em outras palavras, o livro de Jenkins é um grande exemplo de esforço, e em geral de sucesso, na busca de esclarecer as relações entre as iniciativas pessoais e as necessidades sociais — procedimento que Lucien Febvre, em sua biografia de Martinho Lutero, classificou como um dos objetivos mais importantes da história.

Neste sentido, os capítulos mais emblemáticos da obra são: "O último ano da paz", "Guerra quieta com a Alemanha e paz inquieta com Chamberlain" e "Pelo desastre dos Fiordes ao Triunfo em Downing Street" (pp. 489 — 539). Em uma narrativa ágil, que a tradução brasileira preservou com rara fidelidade, Jenkins descreve as idas e vindas da política britânica, entre 1938 e 1940, e particularmente as dissensões internas ao partido conservador, aproveitadas com habilidade por Churchill e que lhe permitiram subir ao posto de primeiro–ministro em 1940, substituindo o também conservador Neville Chamberlain.

Se hoje, quase sessenta anos após o fim da Segunda Guerra, parece-nos "natural" que o obstinado Churchill fosse o principal líder inglês naquela época, até as vésperas da eclosão da guerra, essa circunstância era tida como pouco provável até mesmo por ele. Durante a década de 1930, longe de ser reconhecido como um comandante político-militar excepcional, o personagem era mais lembrado por seus "desastres" anteriores, a exemplo do gigantesco fracasso das tropas inglesas durante a Primeira Guerra Mundial, na região dos Dardanelos (1915), quando era o primeiro lord do Almirantado (ministro da Marinha); e a manutenção do padrão-ouro, quando era ministro do Tesouro, em 1925. Além disso, durante a maior parte da administração de Chamberlain (1937 — 1940), Churchill era um líder sem grande densidade partidária por opinar em dissonância com a maioria do Partido Conservador, defendendo, por exemplo, a permanência do rei Eduardo 8º como chefe de Estado, quando de seu envolvimento com a norte-americana divorciada Wallis Simpson; por divergir das propostas de autogoverno para a Índia, e principalmente defender, contra todas as tendências políticas, o rearmamento da Inglaterra.

Contrariando as expectativas, portanto, foi justamente uma das opiniões que o isolavam no Partido Conservador, liderado por um Chamberlain entusiasta da já frágil Liga das Nações, que o tornou um dos mais proeminentes membros do gabinete quando Hitler ordenou a invasão da Polônia, em setembro de 1939. Desafeto do então primeiro-ministro, foi chamado a exercer novamente as funções de chefe supremo da Royal Navy, vinte e cinco anos após ter deixado de forma bastante humilhante aquele posto. Uma vez no gabinete, Churchill valeu-se de toda a sua experiência política para assumir o total controle do governo — atuou então, segundo Jenkins, de acordo com o grande "gosto pessoal pelo poder", mas também segundo a convicção de que não haveria chance para o mundo se os nazistas triunfassem. Conseguiu êxito completo ganhando o apoio de todas as correntes conservadoras e, dos trabalhistas, tornando-se o mandatário-mor de um gabinete de coalizão quando o comando do "antigo pacifista" Chamberlain foi posto em xeque, ante os primeiros reveses das tropas britânicas nos embates com os alemães.

Portanto, narrando as minúcias do jogo político e o lugar que Churchill ocupava em seu interior, Jenkins consegue superar uma explicação dos êxitos e dos fracassos de seu personagem considerando apenas suas características pessoais. Consegue também escapar a uma outra tentação comum aos biógrafos de grandes homens: a de tributar suas realizações a um "destino manifesto", em virtude de sua origem promissora e educação exemplar. Para ele, a depender de tais fatores, Churchill teria sido um "fracasso": tinha uma origem "vulgar" (era filho de um político que não lhe legou qualquer espólio eleitoral ou financeiro), além de ter tido uma educação formal que ele mesmo considerava deficitária (capítulos 1 e 2).

A fuga dos clichês presentes nas biografias dos estadistas só foi possível devido à documentação excepcional à disposição do autor e à eficiência em seu uso. Cartas, atas das reuniões ministeriais — em que é possível vislumbrar quanto de desacordo havia no interior de gabinetes aparentemente uníssonos e harmoniosos — diários, anais parlamentares:tudo é mobilizado para explicar os posicionamentos de Churchill nas mais diversas ocasiões. Demonstrando quase que passo a passo o caminhar das questões políticas protagonizadas por seu biografado, Jenkins transforma seu livro em uma peça exemplar do velho adágio de que a política se assemelha a um céu repleto de nuvens, cujas configurações se modificam a cada minuto.

Todavia, se o lord — biógrafo utiliza originalmente a massa de informações contidas nos livros e documentos, e constrói um trabalho inédito sem "fatos novos", ele praticamente incorpora sem qualquer crítica as idéias veiculadas por Churchill em algumas de suas memórias, embora também permita que o leitor perceba quanto as informações e análises contidas naqueles livros eram peças políticas com finalidades bastante circunstanciais. Dessa forma, na narrativa dos primeiros anos de atuação política do biografado (capítulos 4 a 12), bem como nos trechos relativos à Primeira Guerra Mundial (capítulos 13 a 18), a despeito do uso de múltiplas outras fontes, Jenkins incorpora as declarações de Churchill em suas obras My Early Life (1930) e The World Crisis and The Aftermath, esta última publicada entre 1923 e 1931.

Contudo este procedimento não se repete no trato das memórias de Churchill sobre a Segunda Guerra, The Second Worl War — obra que valeu o Premio Nobel de Literatura ao líder inglês. Nesta abordagem, Jenkins chega a "desmentir" algumas das afirmações como, por exemplo, a de que em maio de 1940 o gabinete não teria discutido a não permanência da Inglaterra no conflito. Amparado nas atas das reuniões do ministério, o biógrafo demonstra que tal discussão tinha sim sido realizada e que o ministro do Exterior, lord de Halifax, era um dos partidários da saída de seu país do conflito, em troca do compromisso dos alemães de não "destruírem" o que ainda restava do império alémmar inglês (capítulo 31). Jenkins demonstra, portanto, que mesmo depois da ascensão de Churchill, havia importantes segmentos políticos ingleses que não concordavam com o discurso do primeiro-ministro quando da apresentação do ministério, discurso que passou para a história como um dos mais célebres dos tempos contemporâneos: "Desejo dizer à Câmara..., que nada tenho a oferecer senão sangue, trabalhos, suor e lágrimas... Perguntai, qual é a nossa política? Eu vos direi, guerrear: na terra, no mar e no ar, com todo o nosso poder e com a fortaleza que Deus nos pode dar..." (p.542). Hoje, assim como no livro de memórias de Churchill, a opção pela guerra parecia ser a única possível; o trabalho cuidadoso de Jenkins mostra que não era este um caminho unanimemente vislumbrado em 1940, quando uma vitória alemã se afigurava muito mais provável do que uma vitória inglesa.

O estudo de Jenkins nos revela ainda a importância da produção de obras como um ofício imbricado na atividade política e indispensável à sobrevivência dos Churchills. Minuciosamente levanta, tanto quanto possível, todos os contratos de publicação de livros e artigos firmados por seu biografado, e demonstra quanto os recursos obtidos com aqueles contratos eram fundamentais para a manutenção do político e de sua família (capítulos 2, 22 e 41, principalmente). Ser escritor, representante de um distrito eleitoral na Câmara dos Comuns, e por duas vezes chefe de governo eram facetas de uma mesma realização. Por conseguinte, além de convencer os seus contemporâneos quanto à necessidade, a justiça e a eficácia de suas ações e pontos de vista — o que fez em discursos no Parlamento, em comícios eleitorais, e depois pelo rádio — Churchill preocupou-se em argumentar com as gerações futuras, publicando os mesmos discursos ou escrevendo livros de história ou de memórias. De alguma forma, portanto, parece que era bem mais séria do que supõe Jenkins a afirmação de Churchill, ainda durante a Segunda Guerra, de que "quanto ao julgamento da história não tinha preocupações, pois ia escrever ele mesmo uma boa parte dela." (p. 750).

Tendo produzido obras para explicar sua atuação, rebater críticas e reafirmar posicionamentos políticos, ao mesmo tempo em que apresentou tais obras como circunstanciados relatos históricos, Churchil forneceu vasta munição para que sua atuação continue a ser objeto de amplos debates entre historiadores — envolvidos certamente não apenas em discussões histórico-historiográficas, mas principalmente políticas. O próprio livro de Jenkins — presidente da Comissão da Europa entre 1977 e 1981 — insere-se, como não poderia deixar de ser, nesses debates. Seu interesse em demonstrar quanto Churchill foi um partidário da unidade européia em seus últimos anos de vida, evidencia isto.Sem especificar cuidadosamente qual a dimensão que o seu biografado dava ao seu projeto de unidade, entre 1955 — 1965, Jenkins parece, antes de tudo, usar da autoridade do "mais grandioso ser humano que jamais ocupou o n°10 de Downing Street" (p. 836), para corroborar posições que são as suas no atual cenário político inglês.

 

NOTA

1 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – Unicamp – 13083-970 – Campinas – SP. Bolsista FAPESP.

 

 

Resenha enviada em 05/2003. Aprovada em 05/2003