SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.27 issue2Ética, capitalismo e arqueologia pública no BrasilEntre o uso social e o abuso comercial: as percepções do patrimônio cultural subaquático no Brasil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

História (São Paulo)

On-line version ISSN 1980-4369

História vol.27 no.2 Franca  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-90742008000200003 

PATRIMÔNIO HISTÓRICO

 

Restauro arquitetônico: a formação do arquiteto no Brasil para preservação do patrimônio edificado1

 

 

Ana Paula Farah

Professora Mestre – PUCCAMP – Campinas/SP – Centro Universitário Barão de Mauá – Ribeirão Preto/SP – Doutoranda – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade de São Paulo – USP – 05508.080 – São Paulo – SP – Brasil. E-mail: anafarah@uol.com.br

 

 


RESUMO

Este artigo tem por objetivo discutir a formação do arquiteto, nas escolas brasileiras, para que tenha base adequada e o conteúdo para atuar ao patrimônio construído e em construções de interesse para preservação; a discussão se estende também aos cursos de pós-graduação tanto no âmbito "lato sensu" quanto "stricto sensu". Serão analisadas as conseqüências da falta do ensino da disciplina de restauro arquitetônico na graduação e pós-graduação, que tem tido por resultantes a destruição de documentos históricos que dá base para memória coletiva, afetando a transmissão do legado das pessoas para as gerações futuras. Pretende-se evidenciar que se houver sólida formação do arquiteto no âmbito do restauro arquitetônico, os profissionais terão instrumentos teóricos, críticos e técnicos para que os bens culturais sejam, de fato, preservados.

Palavras-chave: Restauração arquitetônica; Formação do arquiteto; Patrimônio cultural.


ABSTRACT

This article investigates the architect's education within Brazilian schools, so that an adequate basis and content can be found that enables the professional to act in the preservation of constructed heritage as well as other buildings of interest. The discussion also extends to the postgraduate courses such as the masters degree denominated "lato sensu" as well as that known as "stricto sensu". The consequences of the lack of the teaching of a discipline involving architectural restoration will be analyzed at the undergraduate and masters degree levels. Such consequences have resulted in the destruction of historical documents that are the basis of the collective memory, affecting the transmission of the people's legacy to future generations. It intends to prove that if there were a solid education of the architect in the area of architectonic restoration, the professionals would have the theoretical, critical and technical instruments necessary to indeed preserve the cultural assets.

Keywords: Architectonic restoration; The education of architects; Cultural heritage.


 

 

As questões sobre o ensino de arquitetura vinculados ao tema do patrimônio construído vêm sendo discutidas ao longo dos anos, principalmente na Europa. A primeira iniciativa de relevo para formar arquitetos especialistas para atuar no campo disciplinar da restauração foi feita através do "Curso Internacional de Especialização" promovido em 1965, iniciativa da Facoltá di Architettura da Università degli Studi di Roma em conjunto com o International Centre for the Study of the Preservation and the Restoration of Cultural Property - ICCROM 2. Desde então, esse tipo de iniciativa vem amadurecendo aos poucos e se tormando mais numeroso. Em maio de 2004, foi elaborado em Viseu (Portugal), um Manifesto sobre o Ensino de Arquitetura no século XXI, por meio do CEU (Council for European Urbanism)3. É uma carta de princípios em que se afirma que os futuros profissionais, os arquitetos contemporâneos, devem estar preparados para responder aos complexos desafios do século XXI, evidenciando a necessidade de se trabalhar conjuntamente a Arquitetura e o Urbanismo; neste sentido, alguns princípios importantes foram enunciados:

Preservar e restaurar [regenerate] os recursos naturais e culturais existentes;

• Identificar os conhecimentos e as habilidades [skills] que constituem o diversificado patrimônio da humanidade;

• Construir cidades, vilas, povoados e áreas rurais [countryside] duradouros e sustentáveis, contribuindo para a continuidade e coerência dos lugares;

• Promover [facilitate] o engajamento cívico, a diversidade social e a vitalidade econômica, associados à preservação dos ecossistemas e da identidade local;4

• Pesquisar e aprender com as experiências bem sucedidas do passado, os fracassos, e suas conseqüências imprevistas.

Existe uma explícita menção à atuação desses princípios no campo disciplinar, tão complexo, da Restauração Arquitetônica. Nesse sentido, existe de fato a preocupação com o ensino e a formação do arquiteto, para que tenha instrumentos para os desafios da complexidade do século XXI.

No Brasil, embora as práticas de restauro se tenham iniciado, de maneira sistemática, com a criação do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN, antigo SPHAN)

na década de 30 do século passado, e no ensino se tenham tornado mais efetivas com a criação, em 1981, de um dos cursos mais importantes do país na área, o "Curso de Especialização em Conservação e Restauração de Monumentos e Conjuntos Históricos (CECRE)" através de um acordo entre a Universidade Federal da Bahia (UFBA), o Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN) e a UNESCO, sediado na Faculdade de Arquitetura da mesma universidade, no qual se mantém até os dias atuais5, só a partir de 1996 conteúdos ligados à preservação foram introduzidos no currículo mínimo dos cursos de graduação em Arquitetura e Urbanismo, com base na matéria referente ao patrimônio construído, por meio da Portaria 1770 de 21 de dezembro de 1994 (revogada com poucas alterações pela Resolução CNE/CES Número 06 de 02 de fevereiro de 2006)6.

Através dessa portaria, os currículos dos cursos passariam a ser estruturados por meio de Matérias de Fundamentação, Matérias de Profissionalização e o Trabalho Final, e a matéria referente ao patrimônio estaria imbuída nas matérias de profissionalização por meio da disciplina de Técnicas Retrospectivas7. A formação no âmbito do patrimônio continua, porém, falha, pois essa portaria menciona a "matéria", mas não a obrigatoriedade de uma ou mais disciplinas, o que dificulta o cumprimento da exigência desse conhecimento para atuar no campo disciplinar.

Percebemos um amadurecimento, nesse sentido, sobre a salvaguarda do patrimônio construído, porém ainda há muitas mudanças a serem feitas no tocante a esse tema. Primeiramente, não se dá a devida importância à base teórica da formação do arquiteto para que depois atue no campo profissional.

[...] a historiografia pode prescindir da conservação e da restauração; já as ações de preservação não deveriam prescindir, jamais, da história e historiografia, e os profissionais atuantes na preservação, mesmo não sendo todos historiadores, deveriam possuir uma "visão histórica" e sólida formação no campo – para entender e respeitar aquilo que é relevante do ponto de vista histórico-documental –, pois a ausência de uma consciência histórica pode trazer, e na maioria dos casos traz, conseqüências da maior gravidade nas ações sobre os bens culturais.8

Maria Elisa Meira cita a importância dessa matéria sob a denominação da disciplina Técnicas Retrospectivas, na formação, nas responsabilidades e nas competências do profissional de arquitetura para atuar no mercado de trabalho.

reforça na escola as preocupações com o ambiente de vida, ressaltando os aspectos que a sociedade espera ver atendidos e que pertencem ao domínio da competência do arquiteto e urbanista. Constituindo-se como campo de conhecimento essencial, as tarefas relativas às técnicas retrospectivas ganham destaque entre as demais, posicionando-se num conjunto de atividades antes privilegiadas. Essa nova posição permite rever o quadro atual dos cursos de arquitetura e urbanismo, em que os temas ligados a novas construções predominam, ocupando a maior parte do tempo do estudante.9

Mediante a análise de intervenções recentes no patrimônio construído, verifica-se que a falta do ensino, na graduação de arquitetura e urbanismo, da disciplina de restauro arquitetônico resulta em profissionais não habilitados a trabalhar num tecido urbano pré-existente, há a destruição de documentos importantes existentes no ambiente construído, dado que os monumentos são objetos de valor documental e formal, afetando, assim, a memória coletiva e a transmissão do conhecimento para as gerações futuras. A deturpação da memória acarreta danos para cultura e identidade da sociedade.

A memória é parte constituinte da identidade, e através dela o indivíduo (re) vivencia experiências, dialogando com a sociedade à qual pertence. Essas experiências necessitam de suporte do espaço físico. A memória coletiva permite que o indivíduo tenha acesso ao seu processo de identificação10, isso, por sua vez, advém da necessidade de um passado que une o tempo, que está perto e não está morto11. Para o entendimento da memória, individual ou coletiva, estabelecendo a relação direta com o patrimônio, devemos compreender a preservação desse passado (o tempo está no presente, perto e não distante longínquo) de forma condizente com a importância da preservação da nossa identidade, para a persistência de nossas vidas e da sociedade, visto que a memória enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem e no objeto12; melhor dizendo, se não houver a preservação do nosso patrimônio edificado não conseguiremos atingir o entendimento de nós mesmos.

Ao analisar os pontos negativos desse rompimento, ou a destruição no âmbito da memória, enquanto componente norteador desse processo de identificação tanto do indivíduo quanto da sociedade, afirmamos que quando essa sociedade deturpa sua cultura e sua memória, destrói os instrumentos que são seus próprios meios de expressão como seres vivos, com incidência sobre a memória individual ou coletiva, podendo gerar problemas para a identidade13, acarretando um dano irreversível para cultura de uma sociedade, de um povo ou de uma nação.

Através dessas considerações, entendemos que é de suma importância que o arquiteto tenha formação em restauro arquitetônico na graduação e que se prolongue na pós-graduação, para a preservação dos aspectos documentais, materiais, formais, memoriais e simbólicos do nosso patrimônio histórico, sendo essencial à nossa identidade.

Segundo Cesari Brandi14, a atuação de restauro deve-se afastar de atos arbitrários, filiando-se ao pensamento crítico e às ciências, evitando, assim, procedimentos baseados unicamente no empirismo. Restauro é um ato crítico; ou seja, antes de qualquer tipo de intervenção que se faça num bem cultural, é necessário ancorar a ação nos campos disciplinares afeitos à restauração, como história, filosofia, sociologia, etc.

A ancoragem nesses campos disciplinares é essencial para aqueles que atuam na preservação de bens culturais, pois possibilita que se supere atitudes ditadas unicamente por predileções individuais, que qualquer ser pensante possui, e que se aja de acordo com uma deontologia profissional, alicerçada em uma visão histórica, associada a estudos multidisciplinares, justamente para se minimizar o risco de atitudes individualistas e de interpretações parciais15.

A partir dos anos 60 do século XX16, principalmente na Itália, tem sido discutido em eventos científicos o ensino de restauro arquitetônico, tanto no âmbito da formação técnica e de graduação, quanto nos cursos de pós-graduação, como especialização e aperfeiçoamento e, mais além, mestrado e doutorado.

Um dos temas em discussão é a preocupação e o aprimoramento dessa disciplina (tanto no conteúdo quanto na prática). Segundo Olivia Rabbi17, consiste em uma "redefinição" da formação desses profissionais: ensino artístico e técnico; entre a tradição e a modernidade; relação professor-aluno; a capacidade de a escola confrontar com a realidade profissional; presença no currículo didático e do ensino evidente da atualidade cultural18. Nesse sentido, é necessário reformular o modo de pensar que envolve cada um desses problemas supracitados para que exista uma reestruturação no currículo básico na graduação em Arquitetura e Urbanismo.

Essa redefinição deverá ser tomada principalmente no que se refere ao conteúdo, sempre com um estreitamento entre a teoria e a prática19, incluindo esses tipos de discussões, em maior freqüência, para o aprimoramento do campo disciplinar.

Segundo Giovanni Carbonara20, a Itália desde 1990, passa por uma reforma universitária21, na qual houve algumas mudanças, principalmente na permanência (tempo do curso) dentro da universidade. Primeiramente, foi a mudança na duração do curso, passa-se de cinco anos para três anos, o qual introduz uma formação de base de três anos e após esse ciclo o desenvolvimento da "laurea specialistica" (graduação especializada) de dois anos. Com isso, iremos encontrar no mercado de trabalho um novo profissional22, podendo ou não ser uma opção adequada à problemática desse campo, não sabendo ao certo como atuar no campo teórico e no prático.

Ao mesmo tempo que essa mudança na graduação tenha sido positiva, no sentido de pelo menos o profissional ter adquirido esse conteúdo no curso de graduação, segundo Carbonara23, resulta danosa em relação à formação da pós-graduação, criando-se assim uma "confusão" entre conteúdo oferecido tanto na graduação (graduações especializadas em restauro) quanto nos cursos de aperfeiçoamento, especializações, mestrados e doutorados. Esse é um dos principais problemas no campo do ensino de restauro arquitetônico, a definição do seu conteúdo programático nos vários níveis de formação. No âmbito da graduação, não é possível transmitir todo o conhecimento dessa disciplina, por isso a importância de haver uma pós-graduação nesse campo específico.

Tomando-se por base as colocações existentes na publicação de Chiara Lumia24, a maior dificuldade é o problema da formação do arquiteto. Chiara Lumia realiza várias entrevistas com os principais teóricos de restauro da atualidade italiana abordando a questão da formação do arquiteto no campo do restauro arquitetônico. A pergunta formulada foi: Em relação ao plano da formação, qual é o perfil formativo, institucionalizado ou não, que vocês aconselham a responsabilidade de quem deva ocupar-se das intervenções sobre o construído, também em relação às reformas atuais ainda indefinidas25.

Segundo Carbonara26, o problema da formação do arquiteto no âmbito do restauro arquitetônico requer um trabalho mais aprofundado, o qual compara com a formação no campo da medicina, em que se necessita de uma formação de base, e de uma especialização. A formação do arquiteto-restaurador exige, antes de tudo, uma formação de arquiteto e sua prática e, depois, uma especialização nas áreas específicas, não relegando a responsabilidade somente aos cursos de "post lauream" para tal formação27. Devemos amadurecer isso no contexto brasileiro, evidenciando, porém o número reduzido dos cursos de pós-graduação no país.

Com base na minha experiência, além da consideração de caráter geral, o restaurador deveria ser formado, antes de tudo como um verdadeiro arquiteto, não como arquiteto incompleto ou simples conservador, e depois especialista no campo específico; deveria ter seguido um curso de arquitetura de cinco anos (e não de 3 anos, como se pensa), que lhe confere a base cultural ampla, bom conhecimento histórico, competência técnica e, segundo Luigi Pareyson, a capacidade "formativa", exercida sobre a projetação do novo. Somente depois, talvez seguido de uma intermediária experiência profissional, deveria aproximar-se mais decisivamente do campo de restauro, restabelecendo em nova forma, propriamente conservativa, todas as competências projetuais adquiridas, enriquecidas com as outras especialidades relativas aos materiais, as tecnologias, as questões de princípio e de métodos. Este e não outro deveria ser o passo sucessivo, baseado de um incremento de escolaridade e não sobre improváveis abreviações ou antecipações de especialistas, como vemos nos cursos de graduação de bens culturais28.

Interessante observar as questões levantadas por Carbonara no que diz respeito à graduação em Bens Culturais, prática que está começando a se desenvolver no contexto brasileiro29. Não se sabe ao certo qual profissional atuará no mercado de trabalho.

Seguindo o mesmo viés de pensamento, conforme Salvatore Boscarino30, outro tema importante a ser discutido e analisado é a formação dos responsáveis no âmbito do restauro arquitetônico, que não podem ser resolvidos com alguns cursos fora da universidade; isto é, são necessários cursos no âmbito da graduação que abrangem conteúdos condizentes e da pós-graduação, tanto nas especializações quanto nos mestrados e doutorados, sendo o arquiteto o responsável para as atividades que concerne os bens monumentais.

Nota-se um outro problema muito danoso à formação, a introdução dessa disciplina de restauro em outros cursos como os de Letras, Engenharia e o de Bens Culturais, que Carbonara já havia mencionado. E mais uma vez a confirmação da responsabilidade de que só o próprio arquiteto é capaz de atuar no restauro arquitetônico.

De acordo com Amadeo Bellini31, é necessário ter uma graduação especializada em arquitetura no que se refere ao restauro arquitetônico, a qual permite introduzir todas as disciplinas cabíveis ao campo disciplinar do restauro para superar a distinção entre os monumentos (bens culturais), das obras arquitetônicas de menor valor. Portanto, Bellini ressalta a importância da graduação especializada32.

Na mesma linha de pensamento, Bellini enfatiza a preocupação dos outros cursos, não sendo o de arquitetura, na formação desses profissionais para trabalharem no campo do restauro e destaca ainda a questão da prática do arquiteto, principalmente no que se refere aos procedimentos da atuação. O profissional necessita de uma experiência prática no campo do restauro, para que haja um conhecimento maior para essa atuação.

[...] os campos da competência são hoje exageradamente vastos para pensar numa figura única (do arquiteto), e já nas faculdades se criaram cursos para design, para arquitetura de interiores e para paisagismo. Também a graduação pode ter uma caracterização própria com a formação do perito, do conhecedor da construção, com a competência que vão da análise ao canteiro de obras. Os cursos de graduação em Conservação de Bens Arquitetônicos das Faculdades de Arquitetura, não me refiro àquelas da Faculdade de Letras, individuaram um percurso substancialmente válido, que provavelmente requer ainda algum complemento, que por sua vez, do curso de 4 anos, com a falta de reconhecimento que possibilita o desenvolvimento da atividade profissional como arquitetos, são muito limitados [..][..], e seria dramático que quem devesse dirigir o projeto não tivesse uma preparação específica ao projeto de arquitetura. Não se trata de fracionar a figura do arquiteto, ou melhor, de distinguir a preparação de quem pretende ocupar-se prevalentemente do novo e daquele que se ocupará prevalentemente da requalificação do preexistente, com uma acentuação de conhecimento em um setor e no outro, sem formar verdadeiros e próprios especialistas no sentido tradicional do termo33.

Através das palavras de Bellini, vemos a importância de uma formação de base do arquiteto, referente aos conceitos de restauro arquitetônico, não permitindo assim uma distinção entre profissionais que queiram ocupar-se somente do novo e daqueles que deverão realizar intervenções no pré-existente; ou seja, o arquiteto deverá ter uma formação no campo disciplinar do restauro para que tenha instrumentos e repertórios ao projetar o novo ou intervir em algo já existente.

Para Paolo Torsello34, como enfatizam os outros autores, restauro é um campo disciplinar altamente especializado, por esse motivo requer preparação cuidadosa teórica, técnica e prática. Torsello critica a crescente demanda do "mercado", à qual corresponde uma grande oferta de trabalho e uma baixa qualidade profissional e destaca que, ao mesmo tempo em que se disponibilizam cursos de alta qualidade para a formação dos arquitetos, também se deve pensar em relação à formação dos outros profissionais que atuam nesse campo.

A reforma universitária portanto, abre nova oportunidade de formação, certamente de relevante interesse em âmbito de princípio, mas a pergunta é: saberemos acertar? Além disso: é suficiente melhorar a preparação dos arquitetos restauradores e formar bons especialistas, sem mudar também a formação dos quadros nos outros setores envolvidos nesta delicada disciplina?35

Outro ponto importante na discussão é a questão com o âmbito técnico da disciplina e também a preocupação não somente com a formação dos arquitetos, mas também dos profissionais que atuam nessa área como historiadores, químicos, físicos, geólogos, arqueólogos, engenheiros, etc., numa gama da atuação interdisciplinar.

Mediante essa discussão que acontece atualmente no âmbito italiano e tentando trazer essa experiência para o contexto brasileiro, percebe-se a importância da formação do arquiteto na área do patrimônio arquitetônico. Nota-se que a responsabilidade para atuar nesse campo cabe primeiramente ao profissional com a formação em arquitetura, que deve ter o papel de articulador das demais competências envolvidas. É de suma importância a disciplina de restauro arquitetônico no curso de graduação na faculdade de arquitetura e urbanismo para qualquer tipo de intervenção que se faça no contexto urbano, tanto novo quanto preexistente.

Portanto, percebemos a importância da obrigatoriedade do tema como disciplina stricto sensu, no âmbito da formação do arquiteto-urbanista do século XXI, a qual se deva uma definição do conteúdo coerente para que constitua a base sólida de sua formação.

Agradecimentos

À Profa.Dra.Beatriz Mugayar Kühl (orientadora), pelo apoio e dedicação à minha pesquisa, ao Prof. Ms. Romeu Duarte, pela força e apoio à minha pesquisa e também pela amizade presente nas lutas do patrimônio, ao Prof. Arquiteto Adriano de Alencar Sales e ao Prof. Ms. Henrique Telles Vichnewski, pela luta diária da questão do ensino de Arquitetura e Urbanismo, às arquitetas Lara Melo Souza e Cristiane Bardese, amigas pela luta incansável da preservação do patrimônio e ao aluno Bráulio Campana, pelas várias discussões de intervenções em edifícios pré-existentes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARÉVALO, Marcia Conceição da Massena. Lugares de Memória ou a Prática de Preservar o invisível através do concreto. Disponível em <http://www.anpuh.uepg.br/historia_hoje/vol3n7/marcia.htm> Acesso em 13 de abril.2008.         [ Links ]

Andrade, Antonio Luiz Dias de. Um Estado completo que pode jamais ter existido. São Paulo, 1993. Tese de Doutorado apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.         [ Links ]

Arantes, Antonio Augusto. Produzindo o Passado: estratégias de construção do patrimônio cultural. São Paulo: Brasiliense / Secretaria de Estado da Cultura, 1984.         [ Links ]

Boito, Camillo. Os Restauradores. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.         [ Links ]

Brandi, Cesare. Teoria da Restauração. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004.         [ Links ]

Carbonara, Giovanni. Avvicinamento al restauro. Teoria, storia, monumenti. Napoli: Liguori Editore, 1997.         [ Links ]

CARBONARA, Giovanni. Riforma Universitaria. Ripercussioni alla formazione specialistica. In: ARKOS: Scienza e Restauro, Anno. n., 2002. p. 10 -17.         [ Links ]

Choay, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade / Ed. Unesp, 2001.         [ Links ]

JOKILEHTO, Jukka. Sull'insegnamento nel campo del restauro dei monumenti in vari paesi. In: Restauro, Anno 16. N. 94, 1987. p. 99 – 104.         [ Links ]

KESSEL, Zilda. Memória e Memória Coletiva. Disponível em <http://www.museudapessoa.net/oquee/biblioteca/zilda_kessel_memoria_e_memoria_coletiva.pdf >Acesso em 13 abril. 2008.         [ Links ]

Kühl, Beatriz Mugayar. Arquitetura do ferro e arquitetura ferroviária em São Paulo. Reflexões sobre a sua preservação.São Paulo: Ateliê Editorial / FAPESP / Secretaria da Cultura, 1998.         [ Links ]

Kühl, Beatriz Mugayar. Tutela dei beni Culturali: Le disposizioni in Brasile. In: ARKOS: Scienza e Restauro, Anno 3. n.3, 2002. p. 45 -51.         [ Links ]

KUHL, Beatriz Mugayar. História e Ética na Conservação e na Restauração de Monumentos Históricos. Revista CPC, 2005, v. 1, n. 1. Disponível em <http://www.usp.br/cpc/v1/php/wf07_revista_interna.php?id_revista=2&id–conteudo=6&tipo=5> Acesso em 06 nov. 2007.         [ Links ]

LEMOS, Carlos A. C. O que é Patrimônio Histórico. São Paulo, Brasiliense, 1981.         [ Links ]

LUMIA, Chiara. A proposito del Restauro e della Conservazione – Colloquio con Amadeo Bellini, Salvatore Boscarino, Giovanni Carbonara e B. Paolo Torsello. Roma: Gangemi Editore, 2003.         [ Links ]

MENESES, Ulpiano Bezerra de. A História, Cativa da Memória? Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais. In. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 1992. p.9 – 23.         [ Links ]

OLIVEIRA, I. C. E. e PINTO, V. P. (Org.). A Educação do Arquiteto e Urbanista: diretrizes, contexto e perspectivas. Piracicaba: Editora da Universidade Metodista de Piracicaba, 2001.         [ Links ]

PEDRETTI, Bruno (org.). Il progetto del passato – Memoria, conservazione, restauro, architettura. Milano: Edizioni Scolastiche bruno Mondatori, 1997.         [ Links ]

QUENDOLO, Alessandra. Introduzione allo studio del Restauro Architettonico- Fondamenti e Percorsi Bibliografici. Milano: Edizioni Unicolpi, 1999.         [ Links ]

RABBI, Olivia. Le "Nuove Radici Antiche" nella formazione dell'architetto del duemila. In: Tema: tempo materia architettura, N. 4, 1998, p. 74 – 76.         [ Links ]

RIEGL, Alóis: El culto moderno a los monumentos – caracteres y origem. Madrid Visor, 1987.         [ Links ]

RUSKIN, Jonh. Le sette lampade dell' architettura. [tradizione: Renzo Massimo Pivetti]. Milano: Jaca Book, 1997.         [ Links ]

SAMPAIO, Júlio Cesar Ribeiro. A conservação na formação do arquiteto: o caso do curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora. In. I Jornada do Patrimônio Cultural no Espírito Santo, 2006. Vitória, Anais, UFES, 2006. CD-ROM.         [ Links ]

SCHICCHI, Maria Cristina. Ensino e Projeto e Preservação: reflexões e Práticas Didáticas. In. II Seminário DOCOMOMO BRASIL – III Projetar, Porto Alegre, 2007         [ Links ]

Torsello, B. Paolo et alli. Che cos'è il restauro?. Venezia: Marsilio,2005.         [ Links ]

Viollet-Le-Duc, Eugène Emmanuel. Restauração.São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.         [ Links ]

FARAH, Ana Paula. Architectonic Restoration: the education of the architect in Brazil in light of the preservation of its constructed heritage. História, v.27, n.2, p.31-47, 2008.         [ Links ]

 

NOTAS

1 Essa pesquisa está sendo desenvolvida no âmbito do Doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo sob a orientação da Profa. Dra. Beatriz Mugayar Kühl, deixando em evidência que a mesma está somente no início do seu desenvolvimento, principalmente no que se refere aos conceitos e suas complexidades.

2 GAZZOLA, Piero, Training architect-restorers. In UNESCO. Preserving and restoring monuments and historic buildings. Paris: UNESCO,1972, p. 257. Apud. SAMPAIO, Júlio Cesar Ribeiro. A conservação na formação do arquiteto: o caso do curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora. In. I Jornada do Patrimônio Cultural no Espírito Santo, 2006. Vitória, Anais, UFES, 2006. CD-ROM.

3 Esse manifesto está no site oficial. Disponível em

< http://www.ceunet.org/viseu.htm> Acesso em 22 de junho de 2008, 11:45 e também a versão traduzida para o português em <http://www.vivercidades.org.br/publique222/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1090&sid=21 > Acesso em 23 de julho de 2008, 07.50.

4 Manifesto sobre o Ensino de Arquitetura no século XXI, traduzida por Mauro Almada. Disponível <http://www.vivercidades.org.br/publique222/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1090&sid=21 > Acesso em 23 de julho de 2008, 07.50.

5 SAMPAIO, Júlio Cesar Ribeiro. A conservação na formação do arquiteto: o caso do curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora. In. I Jornada do Patrimônio Cultural no Espírito Santo, 2006. Vitória, Anais, UFES, 2006. CD-ROM. p.05.

6 Idem.

7 SCHICCHI, Maria Cristina. Ensino e Projeto e Preservação: reflexões e Práticas Didáticas. In. II Seminário DOCOMOMO BRASIL – III Projetar, Porto Alegre, 2007.

8 Kühl, Beatriz Mugayar. Op.cit. p. 17.

9 MEIRA, Maria Elisa. Técnicas Retrospectivas: manutenção e reabilitação da paisagem construída. In. OLIVEIRA, I. C. E. (Org.); PINTO, V. P. (Org.). A Educação do Arquiteto e Urbanista: diretrizes, contexto e perspectivas. Piracicaba: Editora da Universidade Metodista de Piracicaba, 2001, pp. 39-44. Apud. SAMPAIO, Júlio Cesar Ribeiro. A conservação na formação do arquiteto: o caso do curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora. In. I Jornada do Patrimônio Cultural no Espírito Santo, 2006. Vitória, Anais, UFES, 2006. CD-ROM.

10 ARÉVALO, Marcia Conceição da Massena. Lugares de Memória ou a Prática de Preservar o invisível através do concreto. Disponível em < http://www.anpuh.uepg.br/historia_hoje/vol3n7/marcia.htm > Acesso em 13 de abril de 2008, 11:45.

11 ARÉVALO, Marcia Conceição da Massena. Op. cit.

12 Segundo a interpretação de Márcia Conceição da Massena Arévalo através dos pensamento de Pierre Nora. Op.cit.

13 Kühl, Beatriz Mugayar. História e Ética na Conservação e na Restauração de Monumentos Históricos. In. R. CPC, São Paulo, v.1, n.1, p. 16-40, nov. 2005/ abr. 2006. p. 35.

14 Teórico do Restauro e Crítico de Arte, no qual criou o Instituto Centrale del Restauro em Roma em 1939 e um dos expoentes mais importantes da teoria "moderna" do restauro no século XX.

15 Kühl, Beatriz Mugayar. Op.cit. 25.

16 JOKILEHTO, Jukka. Sull'insegnamento nel campo del restauro dei monumenti in vari paesi. In: Restauro, Anno 16. N. 94, 1987. p. 99 – 104. Nesse artigo, o autor descreve as experiências em vários países europeus e disserta sobre a Finlândia, diagnosticando seus problemas e algumas soluções tomadas para o melhoramento desse campo disciplinar.

16 RABBI, Olivia. Le "Nuove Radici Antiche" nella formazione dell'architetto del duemila. In: Tema: tempo materia architettura, N. 4, 1998, p. 74 – 76.

17 Claro que nesse caso específico, não estamos falando somente do ensino do restauro arquitetônico, mas do ensino que engloba todas as disciplinas referentes à formação do arquiteto.

18 Um dos princípios básicos no Manifesto sobre o Ensino de Arquitetura no século XXI, traduzida por Mauro Almada. Op. Cit.

19 CARBONARA, Giovanni. Riforma Universitaria. Ripercussioni alla formazione specialistica. In: ARKOS: Scienza e Restauro, Anno. n., 2002. p. 10 -17.

20 Essa reforma universitária veio para resolver alguns problemas das universidades italianas e um exemplo que podemos citar é o prolongamento excessivo do tempo dos estudos (duração da graduação) e uma enorme presença de estudantes fora do curso e estudantes que abandonam. Por isso, cursos foram reduzidos a três anos. Isso resulta num "irreal" diploma de graduação.

21 Pensando no âmbito brasileiro, do qual não encontramos uma exata disciplina que aborde as questões do restauro arquitetônico na graduação, essa reforma universitária ocorrida no final dos anos 90 na Itália seria um bom exemplo a ser seguido em nosso país, para que possamos iniciar uma cultura em relação à recuperação, preservação e conservação do nosso patrimônio arquitetônico. Isso pensando no âmbito da graduação.

22 CARBONARA, Giovanni. op.cit. p. 10 -17.

23 LUMIA, Chiara. A proposito del Restauro e della Conservazione – Colloquio con Amadeo Bellini, Salvatore Boscarino, Giovanni Carbonara e B. Paolo Torsello. Roma: Gangemi Editore, 2003. p.89 -93.

24 LUMIA, Chiara. op. cit. p. 89. "Sul piano della formazione, invece, quale profilo formativo, istituzionalizzato o no, consigliereste a chi voglia occuparsi d'interventi sul costruito, anche in relazione alle riforme attualmente in via di definizione?" Tradução feita pela autora.

25 LUMIA, Chiara. op. cit. . p. 89.

27 Esse é um dos principais objetivos propostos neste trabalho. A importância de haver uma formação de base no curso de arquitetura e urbanismo para atuar nessa área específica.

28 LUMIA, Chiara. op. cit. . p. 89. Tradução feita pela autora.

29 Hoje no Brasil já existe uma Graduação Tecnológica em Conservação e Restauro de Bens Culturais da Universidade Estácio de Sá no Rio de Janeiro e um o curso Superior de Tecnologia da Conservação e

Restauração de  Imóveis em Ouro Preto. Como o próprio Carbonara comenta sobre esse tipo de curso, qual é a responsabilidade desse profissional? Em que campo poderá atuar? Bens móveis, bens imóveis? Essas são uma das problemáticas desse campo nos dias atuais.

30 LUMIA, Chiara. op. cit. p. 90-91.

31 LUMIA, Chiara. op. cit. p. 91-92.

32 No âmbito italiano, existe a graduação especializada, como já citada no corpo do texto. Isso é o que ressalta do prof. Amadeo Bellini no que se refere á formação do arquiteto para preservação.

33 LUMIA, Chiara. op. cit. p. 91-92.

34 LUMIA, Chiara. op.cit. p. 92-93.

35 LUMIA, Chiara. op.cit. p. 93. Tradução feita pela autora.

 

 

Artigo recebido em 10/2008.
Aprovado em 11/2008.