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História (São Paulo)

On-line version ISSN 1980-4369

História vol.28 no.1 Franca  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-90742009000100025 

ARTIGOS

 

A correspondência de Simón Bolívar e sua presença na literatura: uma análise de O General em seu labirinto de Gabriel García Márquez1

 

Simon Bolivar's correspondence and its presence in literature: an analysis of The General in His Labyrinth by Gabriel Garcia Márquez

 

 

Fabiana de Souza Fredrigo

Professora Doutora - Departamento de História - Faculdade de História - Universidade Federal de Goiás - UFG - 74001-970 - Goiânia - GO - Brasil. E-mail: fabianafredrigo@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Simón Bolívar, uma das lideranças mais importantes das independências na América do Sul de colonização espanhola, deixou um epistolário com 2815 cartas. Ao partir do propósito em expor o projeto narrativo epistolar, um dos temas de destaque, no decorrer da leitura, foi o da renúncia do general. As diversas solicitações de renúncia ao cargo administrativo e as justificativas que as acompanhavam levaram-me à análise do que denominei por memória da indispensabilidade. Depois da investigação desse discurso no epistolário, as relações com a literatura e a biografia foram fundamentais para ampliar a compreensão acerca da composição dessa memória da indispensabilidade nas epístolas. Para este artigo, pretende-se cotejar as cartas de Simón Bolívar e o romance de Gabriel García Márquez, O General em seu labirinto. A hipótese é a de que o texto literário, além de usar o epistolário bolivariano para construir seu personagem e a cena romanesca, acrescenta possibilidades explicativas sobre o projeto de memória conduzido pela escrita de cartas, na mesma medida em que reforça o culto ao general Libertador.

Palavras-chave: Memória; Cartas; História; Literatura.


ABSTRACT

Simon Bolivar, one of the most important South American leaders of independence within the areas of Spanish colonialism in South America, left behind an epistolary of 2815 letters. Our proposal starts off with the display of the narrative epistolary project and soon encounters one of its highlights in the course of the reading, which is the general's own resignation. The several requests of resignation from his administrative position, and the justifications that followed them had taken me to the analysis of what I called the memory of the indispensability. After investigating this speech in the epistolary, the relationship between literature and the biography had been fundamental in improving our understanding of the substance of this memory of the indispensability in the epistles. This article intends to compare Simon Bolivar's letters and Gabriel Garcia Marquez's novel, The General in His Labyrinth. The hypothesis is that the literary text, besides using Bolivar's epistolary to construct its character and the romantic scenario, opens possibilities of explanations concerning the project of memory arising from the writings in the letters, at the same measure in which it strengthens the cult of the Liberating General.

Keywords: Memory; Letters; History; Literature.


 

 

A correspondência enquanto gênero se caracteriza pela interrupção, pela exigência de continuidade, pela pausa entre uma e outra carta, pela obsessão pelas cartas extraviadas e pela angústia do corte.
[...]

A escrita é um resumo da vida, condensa a experiência e a torna possível (PIGLIA, 2006: 46-51).

 

I.

Simón Bolívar, um dos mais celebrados líderes das independências na América do Sul de colonização espanhola, foi um dedicado missivista2. A escrita de cartas serviu a um propósito muito maior do que a comunicação cotidiana, necessária num cenário de guerra. Ela representou a aposta na possibilidade de controlar o tempo, transformando o sujeito missivista num indivíduo singular porque ele se mostrou capaz de significar sua própria trajetória, fundindo-a com o destino da América liberta. Ao fazer isso por meio de sua correspondência, o general emprestou sentido às relações e experiências de todo um grupo: os militares que o acompanharam nas campanhas pela independência e, em seguida, foram os políticos estreantes das repúblicas emergentes, no século XIX.

Um tema fundamental no epistolário bolivariano refere-se aos pedidos de renúncia do cargo administrativo. Não se sabe ao certo o número de renúncias oficialmente encaminhadas por Simón Bolívar ao Congresso. Na anotação de Gabriel García Márquez, as renúncias foram tantas que se incorporaram ao "cancioneiro popular". Em todo caso, é possível ter a dimensão da constância dessa solicitação pela própria explicação do missivista, quando encaminhava mais um de seus pedidos. Numa carta endereçada ao presidente do Congresso da Grã-Colômbia, em 1824, Simón Bolívar escrevia:

Por quatorze anos consecutivos tenho me submetido com o entusiasmo mais sincero ao serviço da causa da Colômbia. Apenas tenho visto essa triunfante em suas diferentes épocas, quando acreditei ser meu dever renunciar ao mando. Assim o fiz pela primeira vez em dois de janeiro de oitocentos e quatorze em Caracas. Em oitocentos e dezenove em Angostura, em oitocentos e vinte e um em Cúcuta, e mais tarde no mesmo Congresso quando fui nomeado presidente. Agora a república da Colômbia está toda livre, com exceção de um banco de areia em Puerto Cabello (Carta para Congresso da Grã-Colômbia. Pativilca, 09/01/1824. Tomo IV, R. 1.035. Rascunho)3.

Ao aparecer prematuramente no epistolário e manter-se tema invariável, a renúncia consistiu-se no instrumento por meio do qual o general pôde testar sua legitimidade. É fundamental que se tenha claro que, embora restrito ao grupo, o discurso da renúncia enquanto recurso epistolar alcança uma abrangência e uma materialidade que deságuam no projeto de memória a ser consumido pela posteridade. É a partir da fusão entre a necessidade de legitimidade, determinada pelo jogo político do presente, e o desejo de memória, delimitado pela perspectiva de futuro, que o missivista constrói e solidifica a memória da indispensabilidade4.

Premido pela necessidade e pelo desejo, Simón Bolívar partiu para o exílio derrotado por seus contemporâneos, sem, contudo, assistir à presença e à perenidade de sua memória na história - essa foi uma de suas maiores vitórias. Simón Bolívar permanece como importante liderança não por ter libertado parte da América, afinal, essa liberdade tantas vezes foi contestada e desdenhada pelos inimigos, amaldiçoada pelos povos das nascentes repúblicas e fruto de desencantamento por parte do próprio missivista. Simón Bolívar permanece na memória social e política latino-americana por conta das expectativas e das esperanças que gerações posteriores puderam cultivar em torno de sua figura e da versão histórica dada à sua causa.

A figura do líder, construída ainda em vida por esse ator missivista, responde aos elementos que constituem, no imaginário ocidental, os heróis: singularidade, exemplaridade, abnegação, desengano, proscrição e, por fim, vitória gloriosa. Esses elementos são os mesmos que possibilitam edificar o ciclo de admiração, que sustenta o culto: o herói abandonou tudo que lhe importava em nome de uma causa, lutou vigorosamente por tal causa e, apesar dos inimigos ferrenhos, contava com a providência divina, pois seria seu destino realizar a causa, vivenciou momentos de desengano e abandono que, embora tenham lhe causado ressentimento, não o permitiram abandonar a causa que era seu destino e, por fim, alcançou glórias eternas concedidas pelas gerações futuras que puderam desfrutar das benfeitorias emergentes com a vitória justa do herói. Com interesses políticos capazes de ressaltar esses elementos constitutivos do imaginário e a ajuda do trabalho historiográfico, dentre outros, a figura do "general em seu labirinto" foi alçada à categoria de referência obrigatória na memória do continente5.

 

II.

Gabriel García Márquez percebeu a importância do uso da renúncia para Simón Bolívar e tentou compreendê-lo: para o literato, o ato constante de explorar a renúncia ao cargo administrativo identificava a ambição pessoal do general. Partindo desse interesse literário numa "figura histórica", a pretensão deste artigo é cotejar o epistolário bolivariano e o romance de Gabriel García Márquez, O General em seu labirinto. A hipótese é a de que o escrito literário usa o epistolário bolivariano para construir o "personagem Bolívar" em seus últimos dias e, ao fazer isso, acrescenta possibilidades explicativas sobre o projeto de memória conduzido por meio da escrita de cartas.

Ao pensar sobre as relações entre história e literatura, é essencial anotar que a construção literária engendra forma distinta para tornar o "real" tangível, se comparada à construção de sentido histórico. Para a literatura, é possível referenciar-se em uma leitura do mundo cujo anseio é estabelecer ligações, também, com o que nem sempre é compreensível. Nesse sentido, estranhamente à primeira vista, a literatura pode transformar o fantástico em cognoscível. Se o seu desejo é lançar luz à compreensão, essa compreensão não exige uma narrativa ordenada que pactue com a verdade. Apresentar os homens e o cenário que os circunda pode ser objeto trivial, tratando-se, muito particularmente, da literatura contemporânea. A densidade psicológica e a inversão de sentido narrativo passam a ser os trunfos para se "contar uma boa história". Uma boa história pode ser contada de maneiras distintas, com finais imprevisíveis e verdades questionáveis.

A literatura contemporânea admite sem problema e sem dilema que a vida não pode se submeter à arte, então, a grandiosidade da experiência vivida, se condensada na escrita, deve causar choque e estranhamento. Portanto, não é "função" da literatura repor peças, cenários e pessoas em lugar determinado: os vestígios da experiência servem para aprofundar a sensação de náufrago nos contemporâneos. Para a história, a relação com o incompreensível não tem como ir ao encontro do desejo orientador em explorar uma possível racionalidade a ser aplicada ao acontecimento para que esse se encadeie a uma referência contextual que, por sua vez, faça do tempo o articulador de sentido entre passado e presente. Tais comparações entre história e literatura impingem-lhes, respectiva e diametralmente, o domínio da "verdade" (ciência) e o da "ficção" (arte). Entretanto, tal dicotomia não é simples e não deve ser tomada como regra para orientar o conhecimento engendrado por essas escritas, mesmo considerando a presença do inverossímil como importante nutriente para a criação literária.

O pacto entre a literatura e sua criação advém da possibilidade criativa que "imagina" o mundo: tudo pode caber numa realidade inventada. Para a literatura, os acontecimentos podem literalmente ser inventados ou tomados emprestados da história, dependendo do gênero literário. Nessa última circunstância, a história, transformada em "histórias", pode servir de palco a roteiros inusitados, cujo objetivo, muitas vezes, é fazer o leitor embaraçar-se entre o "real vivido" e o "real apreendido" - não é casual o fato de a aproximação do "romance histórico" ser acompanhada por uma dúvida corrosiva que obriga o leitor a divisar o que "aconteceu mesmo" e o que é fruto da mente criativa do narrador. Desse modo, o compromisso literário é de outra ordem, quando comparado ao compromisso histórico.

A despeito de todas as críticas que se possa fazer à busca pela verdade, ela ainda é partícipe na construção de sentido histórico, permanecendo no horizonte da escrita da história, apesar das discussões contemporâneas indicarem a capacidade de (re)construção do historiador. Há diferenças entre admitir que o "fato contado" compõe-se pela retórica, indicando que a estrutura linguística não é objetiva e imparcial, e considerar que o "fato contado" pode ser todo ele inventado, apontando para a importância do estilo de escrita e da capacidade de se comunicar por meio de um texto que prescinde de associações ordenadas com o que se conhece.

Ainda mais: o tempo é um ordenador para a história, embora ele não seja restritivamente o "tempo cronológico". Apesar de estar ciente quanto ao deslocamento constante da fronteira entre presente e passado, uma vez que o "instante" que mal acabou de se viver virou memória, o historiador não se desvinculou da necessidade de apontar recortes temporais ordenados. Assim mesmo, o historiador controvertido assinala a impossibilidade de controle: os tempos se confundem, conduzindo os homens a uma certeza desconcertante, a existência do devir que embaralha o tempo - se a história é a ciência da mudança, a mudança aponta para a "coisa que não é mais", que está no "decurso". O escrito literário pode zombar do tempo e não há melhor ambiente para a percepção do devir do que a literatura. Um texto literário pode, simplesmente, suprimir o tempo ordenado, pode ainda apresentar em suas páginas a "mecânica" da memória, sem que com ela estabeleça qualquer grau de tensão, pois a memória (com seu tempo particular) pode ser a ordenadora de um longo texto literário. Dessa forma, o importante é salientar que história e literatura buscam verdades diferenciadas, constatação que não faz da literatura uma invenção desconectada do real, nem da história uma presa ingênua da verdade - trata-se de fugir à dicotomia incapaz de expressar a riqueza desses campos em construir vislumbres do real.

A leitura de Gabriel García Márquez muito contribuiu para a avaliação do epistolário. O romance O General em seu labirinto expressa o encontro e o diálogo entre história e literatura. A partir do diálogo, essas escritas produziram uma profícua relação que, convictamente, alargou os horizontes de compreensão do personagem histórico e do projeto narrativo deixado por ele. Assim, é salutar a confiança no diálogo, pois, mesmo que não responda a todas as dúvidas do historiador, ele oferece complexidade ao debate na medida em que permite expor as distintas metodologias, cuja finalidade é tangenciar o conhecimento. O historiador, mesmo que lide com a literatura, continua a fazer perguntas de historiador, continua a observar o real com os olhos de historiador, todavia, enriquece sua análise quando se depara com um olhar que, distinto do seu, lança problemáticas comuns e aponta possibilidades para a reflexão em torno dessas problemáticas (BERBERT JR., 2004).

 

III.

Na obra literária, Simón Bolívar é o homem vaidoso e ambicioso que precisa usar a renúncia como um recurso político. No fim de seus dias, o general é apresentado como um homem só, derrotado e ressentido. Sua morte na quinta de San Pedro Alejandrino, residência próxima à Santa Marta, teria poucos acompanhantes, boa parte deles generais proscritos como o próprio Bolívar. Na narrativa de Gabriel García Márquez:

O fim era uma questão de dias, de horas talvez. Aturdido com a má notícia, Montilla deu um soco na parede nua, e machucou a mão. Nunca mais, pelo resto da vida, tornaria a ser o mesmo. Tinha mentido muitas vezes ao general, sempre de boa fé e por razões de política miúda. A partir daquele dia passou a mentir por caridade, e instruiu nesse sentido os que tinham acesso a ele.

Nessa semana chegaram de Santa Marta oito oficiais de alta patente expulsos da Venezuela por atividades contra o governo. Entre eles se encontravam alguns dos grandes da gesta libertadora: Nicolás Silva, Trindad Portocarero, Julian Infante. Montilla lhes pediu que não somente ocultassem ao general moribundo as más notícias, como que melhorassem as boas, para alívio do mais grave de seus muitos males. Eles foram mais longe, e lhe fizeram um relato tão animador da situação de seu país que conseguiram acender em seus olhos o fulgor de outros dias (MÁRQUEZ, 1989: 254-255).

Presentes na narrativa de Gabriel García Márquez, as construções em torno da figura de Simón Bolívar, especialmente às que se referiam ao ressentimento de seus últimos tempos contraposto à ambição e ao poder de antes, aproximavam o romance das biografias. Quando a fonte passa a ser o epistolário, é impossível negar que o estilo narrativo do missivista, revelador de seu empreendimento em reescrever acontecimentos e doar sua memória à posteridade, denotava certo grau de ambição e vaidade. Comparada ao epistolário, a leitura de Gabriel García Márquez exigiu reconhecer que a urdidura literária apreende um "outro" Simón Bolívar, mas que, de alguma maneira, era um "outro" que também podia ser identificado nas cartas. Importante acrescentar que o cotejamento foi feito pelo literato também. Gabriel García Márquez qualifica seu romance como um "romance histórico". Numa espécie de posfácio, ele informa o seu conhecimento da documentação bolivariana, o que permite considerar que ele teve acesso à correspondência de Simón Bolívar e a utilizou para a composição literária de seu personagem.

Duas leituras podem ser feitas de O General em seu labirinto: a leitura daquele leitor que nunca tomou contato com qualquer fonte (pública ou particular) relacionada à Simón Bolívar e a daquele leitor que tomou contato com algum tipo de fonte vinculada a Bolívar. Dessas leituras e suas articulações, emerge uma maneira diferente de olhar para a obra literária. No primeiro caso, a despeito do encaixe da criação literária no gênero de romance histórico, a tendência é absorver o livro como se ele nada indicasse para além de mais uma versão em torno da figura de Simón Bolívar. No segundo caso, a tendência é considerar que a obra literária pode indicar caminhos, ou seja, apontar possibilidades para desvendar um personagem. Partindo da segunda experiência de leitura, surpreendente foi encontrar em O General em seu labirinto elementos que estão presentes no epistolário. Esses elementos, recorrentes na documentação, na historiografia e na literatura, reagiram de acordo com cada ambiente em que tiveram de se adaptar.

O fascínio com o Bolívar de Gabriel García Márquez advinha da certeza de que o literato, tendo escolhido escrever sobre os últimos dias de um homem da primeira metade do século XIX, manifesta em seu texto o reforço do culto em torno da figura de Simón Bolívar e, para tanto, elabora sua escrita a partir de importantes referenciais de memória deixados pelo general. Não é preciso ler toda a obra de Gabriel García Márquez para concluir que é ele um autor impregnado e marcado pela história política de seu país de nascença, a Colômbia. Segundo o literato, não foram as glórias de Simón Bolívar que o levaram à escrita do romance histórico. As justificativas de Márquez estão marcadas por sua biografia:

Mais que as glórias do personagem, me interessava então o rio Magdalena, que comecei a conhecer em criança, viajando da costa caribe, onde tive a sorte de nascer, até a cidade de Bogotá, distante e turva, onde me senti mais forasteiro do que em qualquer outra, desde a primeira vez. Em meus anos de estudante, eu o percorri onze vezes nos dois sentidos, naqueles navios a vapor que saíam dos estaleiros do Mississipi condenados à nostalgia, e com uma vocação mítica a que nenhum escritor poderia resistir (MÀRQUEZ, 1989: 267).

Essa justificativa não deve iludir o leitor. Não era sobre um viajante qualquer e sua travessia no rio Magdalena que Gabriel García Márquez escrevia. A empreitada de escrever um romance histórico foi tomada pelo seu autor como uma "temeridade literária" (MÁRQUEZ, 1989: 268). Se a imagem do rio lhe trazia lembranças de infância, certo é que a figura de Simón Bolívar lhe interessava e muito, era uma referência de sua terra natal. A despeito do rio, o primeiro agradecimento de Gabriel García Márquez foi para Álvaro Mutis, escritor idealizador do projeto de um romance que tratasse da última viagem de Bolívar pelo Magdalena. Foi essa idéia, ouvida durante muitos anos, que mobilizou García Márquez, além do incômodo de que tal projeto caísse nas catacumbas do esquecimento:

Durante muitos anos ouvi de Álvaro Mutis o projeto de escrever a viagem final de Simón Bolívar pelo rio Magdalena. Quando publicou El último rostro, que era um fragmento antecipado do livro, o relato me pareceu tão maduro, e o estilo e o tom tão apurados, que me preparei para o ler completo daí a pouco tempo. Entretanto, dois anos depois, tive a impressão de que ele o havia lançado ao esquecimento, como nos acontece a tantos escritores, mesmo com sonhos mais amados, e só então ousei pedir que me permitisse escrevê-lo. Foi um bote certeiro depois de uma tocaia de dez anos (MÁRQUEZ, 1989: 267).

O romance conta uma história e opina sobre ela em várias passagens, situação que confirma o quanto o autor bebeu nas fontes do culto estabelecido em torno de Simón Bolívar. Aliás, em seus agradecimentos, há uma nota particular não a um historiador qualquer, mas a um historiador bolivariano, Vinício Romero Martinez. A passagem no romance sobre o desentendimento entre Simón Bolívar e Francisco de Paula Santander é esclarecedora:

Também não era verdade que a origem da discórdia fossem os privilégios concedidos ao general Páez, nem a desventurada constituição da Bolívia, nem a investidura imperial que o general aceitou no Peru, nem a presidência e o senado vitalícios que sonhou para a Colômbia, nem os poderes absolutos que assumiu depois da Convenção de Ocaña. Não: não foram esses, nem tantos outros, os motivos causadores da terrível ojeriza que azedou ao longo dos anos, até culminar no atentado de 25 de setembro. "A verdadeira causa foi que Santander não pôde nunca assimilar a idéia de que este continente fosse um único país", disse o general. "A unidade da América ficava grande nele". Fitou Lorenzo Cárcamo estirado na cama como no último campo de batalha de uma guerra perdida desde sempre, e pôs fim à visita.

- Claro que nada disso vale depois de morta a defunta - disse.

Quando Lorenzo Cárcamo o viu levantar-se, triste e desamparado, percebeu que as recordações lhe pesavam mais do que os anos, tal como a ele. Ao lhe reter as mãos entre as suas, percebeu, mais, que ambos tinham febre, e se perguntou de qual dos dois seria a morte que os impediria de se verem de novo.

- O mundo está perdido, velho Simón - disse Lorenzo Cárcamo.

- Perderam o mundo para nós - disse o general. - O remédio agora é começar do princípio.

- É o que vamos fazer - disse Lorenzo Cárcamo.

- Eu não - disse o general. - Só falta me jogarem no caixote de lixo (MÁRQUEZ, 1989: 123).

Primeiro, atente-se para a existência de um narrador. Não que a ausência de um narrador impeça a influência do autor nos caminhos de um romance, mas um narrador acrescenta força ao personagem. Sua importância no interior da narrativa é contabilizada pela cumplicidade estabelecida entre o narrador e o personagem. Na medida em que o primeiro atua como a figura que se encontra acima do enredo, sendo conhecedor de seu final, pode intervir e justificar seu personagem em nome do desfecho do romance. O narrador usa seu poder de predizer, calcular, conjeturar e insinuar sobre o que há de vir. A trama narrativa depende de seus subterfúgios, que podem contribuir ou não com os subterfúgios do personagem principal. A escolha de um personagem que contasse a sua história seria menos vigorosa, em especial se esse personagem fosse Simón Bolívar. No caso do texto em questão, a presença do narrador concede a Bolívar a exata universalidade da qual era merecedor. Esse tipo de estratégia permite cultuar o personagem sem que o personagem seja o ordenador do próprio culto. Nesse sentido, O General em seu labirinto é a expressão do cuidado que ainda hoje se guarda, mesmo que literariamente, ao arguir a personalidade histórica de Simón Bolívar.

Oportunamente, o trecho que pretende explorar o desentendimento entre os antigos amigos (Bolívar e Santander) chama a atenção à questão da unidade. Desse trecho, duas interessantes alusões podem ser retiradas. A primeira delas é inequívoca, mas merece relevo: não era possível escrever sobre Simón Bolívar e não trazer à tona o ideal que ainda mobiliza políticos contemporâneos, a unidade americana. Da perspectiva em que se constrói a narrativa, a Santander caberia a pecha do político que pensou pequeno, por isso não conseguiu sonhar com um grande futuro para a América. Junto com os inimigos de Bolívar, o mundo perdeu-se e essa constatação, advinda das dolorosas lembranças (entre elas, a da perda de uma amizade que fora responsável pelas glórias da Grã-Colômbia), pesava bem mais ao general do que os anos em seu calendário particular.

O mesmo fragmento aponta para um general absolvido e que indicava o caminho a ser trilhado por seus seguidores: o recomeço. A segunda possibilidade analítica permite ao narrador insinuar a batalha perdida do general. Assim, embora absolvido, o general estava derrotado. Não lhe sobravam nem campos de batalha e nem aliados capazes de fazer fulgir novamente sua legitimidade. O narrador insinua e o próprio general, então personagem, confirma a sua derrota, afinal, "nada disso vale depois de morta a defunta". Esse trecho é esclarecedor do motivo da divisão de papéis: o narrador fortalece o personagem e a narrativa, conferindo maior espaço ao autor para influir na composição e julgamento das figuras que desfilam em seu romance.

O romance histórico exigiu de Gabriel García Márquez grande pesquisa, o que o aproximou de historiadores e profissionais liberais6. A contragosto de seu autor, o rigor do romance foi mantido por uma caçada feita por pesquisadores aos "anacronismos" e "imperfeições" no texto literário. Por parte do romancista, anacronismos e imperfeições, na realidade, "disparates", acrescentariam "gotas de humor involuntário - e talvez desejável - ao horror deste livro" (MÁRQUEZ, 1989: 270). A propósito do rigor do romance histórico, apesar de considerar a importância da consulta e do manuseio da documentação produzida por Simón Bolívar e em torno dele, Gabriel García Márquez sugere a distinção entre o seu "fazer literário" e o "fazer historiográfico". A complexidade do empreendimento a que se impôs Márquez só foi suavizada por seu conhecimento de que o período de Bolívar no rio Magdalena foi pouco documentado. O livro O General em seu labirinto é efetivamente um romance histórico, mas não é história:

Por outro lado, os fundamentos históricos me preocupavam pouco, pois a última viagem pelo rio é o tempo menos documentado da vida de Bolívar. Só escreveu então três ou quatro cartas - um homem que deve ter ditado mais de dez mil - e nenhum de seus acompanhantes deixou memória escrita daqueles quatorze dias aventurados. No entanto, desde o primeiro capítulo tive de fazer alguma consulta ocasional sobre seu modo de vida, e essa consulta me remeteu a outra, depois a outra mais e a outra mais, até mais não poder. Durante dois longos anos fui me afundando nas areias movediças de uma documentação torrencial, contraditória e muitas vezes incerta, desde os trinta e quatro volumes de Daniel Florêncio O'Leary até os recortes de jornais menos imaginados. Minha absoluta falta de experiência em matéria de investigação histórica tornou ainda mais árduos os meus dias.

Este livro não teria sido possível sem a ajuda dos que trilharam antes de mim esses territórios, durante século e meio, e me tornaram mais fácil a temeridade literária de contar uma vida com documentação tirânica, sem renunciar aos foros desaforados do romance (MÁRQUEZ, 1989: 267-268).

As descrições do personagem no livro contemplam um homem abatido, que caminhava para a morte. Não causa espanto essa caracterização. Entretanto, um grau de surpresa é atribuído ao sempre presente adendo ao homem fisicamente decadente: apesar da doença, Simón Bolívar tinha movimentos decididos e alma capaz de restaurar suas forças, mesmo após uma noite inteira de delírio. Assim, a escolha de Gabriel García Márquez é a de apresentar um general perdido, decadente, sem apoio, ressentido, doente; mas um general que conservava no espírito o sinal da liderança forte e vigorosa:

- Vamos embora - disse - voando, que aqui ninguém gosta de nós.

Por ter ouvido dizer aquilo tantas vezes e em ocasiões tão diversas, José Palácios não achou que fosse valer, embora os animais estivessem preparados nas cocheiras e a comitiva oficial começasse a se reunir. Ajudou-o a se enxugar de qualquer jeito, e lhe pôs o poncho dos paramos sobre o corpo nu, porque a xícara castanholava com o tremor das mãos. Meses antes, ao vestir a calça de camurça que não usava desde as noites babilônicas de Lima, descobrira que ia diminuindo de estatura à medida que perdia peso. Até sua nudez era diferente: tinha o corpo pálido e a cabeça e as mãos queimadas de sol. Completara quarenta e seis anos no último mês de julho, mas já sua áspera grenha caribe ficara cinzenta: tinha os ossos desmantelados pela decrepitude prematura, e todo ele se via tão desfeito que não parecia capaz de durar até o próximo julho. No entanto, seus movimentos decididos davam a impressão de pertencer a outra pessoa menos gasta pela vida, e caminhava sem cessar ao redor do nada. Bebeu a tisana em cinco goles que por pouco lhe empolaram a língua, fugindo a seu próprio rastro de água nas esteiras esfiapadas do assoalho, e foi como beber o filtro da ressurreição (MÁRQUEZ, 1989: 11-12).

A figura de Bolívar que domina o romance é a do homem doente e alquebrado que, no entanto, se é capaz de enfrentar corajosamente a morte, o mesmo não faz com o seu ressentimento. Tanto a tristeza quanto a ausência de gratidão pública - desejo que suas cartas expressam ter sido buscado no decorrer de seus quarenta e sete anos - não possuía medicamento eficaz. Estratégia astuta e do ponto de vista narrativo interessante, O General em seu labirinto acompanha o período de 1830, fazendo algumas remissões aos anos anteriores. Foi concedido ao personagem, Simón Bolívar, a rememoração de suas glórias passadas, da tentativa frustrada de seu assassinato em 1828 e dos desentendimentos com Santander, o "Cassandro"7. O personagem de Gabriel García Márquez, conturbado ora por sonhos, ora por delírios, ora por lembranças suscitadas por um cheiro, um gosto ou uma visita também contava a sua história, sempre reforçada pelo narrador. As evocações de Simón Bolívar recheiam o livro:

La Florida de San Pedro Alejandrino, a uma légua de Santa Marta, nos contrafortes da Sierra Nevada, era uma fazenda de cana-de-açúcar com um engenho para fazer rapadura. Na berlina do Senhor Mier, lá se foi o general pelo caminho empoeirado que dez dias depois seu corpo, sem ele, iria percorrer em sentido contrário, embrulhado na velha manta dos paramos, em cima de um carro de boi. Muito antes de ver a casa, sentiu a brisa saturada de melaço quente, e sucumbiu às insídias da solidão.

- É o cheiro de San Mateo - disse.

O engenho de San Mateo, a vinte e quatro léguas de Caracas, era o centro de suas saudades.
[...]

O quarto que lhe destinaram foi responsável por outro extravio de memória, pelo que o examinou com uma atenção meticulosa, como se cada objeto lhe parecesse uma revelação. Além da cama de dossel, havia uma cômoda de mogno, uma mesa-de-cabeceira também de mogno com um tampo de mármore, e uma poltrona estofada de veludo vermelho. Na parede junto à janela havia um relógio octogonal de algarismos romanos, parado a uma hora e sete minutos.

- Já estivemos aqui antes - disse (MÁRQUEZ, 1989: 252-253).

As lembranças - que também no texto literário ocupavam-se em vincular um passado glorioso, um presente amargurado e um futuro incerto - apareciam no romance para indicar que, apesar da distância e da diferença do Bolívar e da América de outros tempos, aquele personagem ainda era Bolívar e o lugar em que ele estava ainda era a América. A narração da entrada de Bolívar em Cartagena é ilustrativa:

A população do recinto amuralhado, convocada por um édito urgente, se reunira na rua. As tardes começavam a ser demoradas e diáfanas no solstício de junho, e havia grinaldas de flores e mulheres vestidas à moda madrilenha nas sacadas, e os sinos da catedral e as músicas de regimento e as salvas de artilharia troavam até o mar, mas nada chegava a mitigar a miséria que queriam esconder. Cumprimentando com o chapéu, do coche desconjuntado, o general não podia deixar de se ver sob uma luz de comiseração, ao comparar aquela recepção indigente com sua entrada triunfal em Caracas, em agosto de 1813, coroado de louros numa carruagem puxada pelas seis donzelas mais formosas da cidade, e em meio à multidão banhada em lágrimas que naquele dia o eternizou com seu nome de glória: o Libertador. Caracas era ainda uma cidadezinha remota da província colonial, feia, triste, pobre, mas as tardes do Ávila8 eram dilacerantes na nostalgia. Aquela e esta não pareciam ser duas lembranças de uma mesma vida (MÁRQUEZ, 1989: 173).

A imagem criada por Gabriel García Márquez encontra amparo em narrações presentes no epistolário. Diante da indigência da recepção popular, nada espontânea porque fora convocada por um édito9, alguém como Bolívar, que tinha sido recebido com altas pompas pelas vitórias de Boyacá e Ayacucho, só podia cultivar a comiseração. No romance, a imagem lastimável, tanto dos manifestantes quanto do próprio general, era complementada pelo aceno com o chapéu e pelo coche desajeitado. Os louros e a carruagem puxada pelas donzelas mais belas eram lembranças passadas que tornavam compreensível a sensação de comiseração. O literato foi certeiro tanto na utilização do vocábulo indicativo de auto-piedade e ressentimento, quanto na comparação entre a chegada de Bolívar à Cartagena, em 1830, e a entrada triunfal em Caracas, no ano de 1813.

Em uma carta para Domingo Caycedo10, que Bolívar escrevera quando de sua passagem por Mompox, anterior à passagem por Cartagena citada por Márquez, o tom do general também mudara: não carregava mais as exclamações e o exagero de outrora. O missivista, em carta datada de 21 de maio de 1830, mostrava-se agradecido pelas manifestações, sem afirmar, como era de seu costume, o "desejo veemente" dos povos em comemorar o seu "triunfo", ou ainda, sem recorrer à descrição dos "arcos triunfais, das flores jogadas por belas damas e da alegria dos manifestantes". A carta para Caycedo é uma carta que alude à benevolência - palavra que, se pode indicar estima, associa-se também à complacência, expressão a qual o general não recorreu quando da descrição de sua recepção em Santa Fé, após a vitória de Boyacá, em 1819, em carta endereçada para Antonio Zea11. Assim, a relação com o epistolário se sustenta: embora Bolívar faça questão de ratificar na missiva de 1830 que foi recepcionado com benevolência, é evidente que nem a recepção e nem a sua avaliação da recepção comparavam-se às atividades no passado. Adicione-se que o general escrevia para Domingo Caycedo, homem que ocupara a presidência deixada por ele, assim, qualquer notícia enviada tornar-se-ia oficial para os que estavam em Bogotá:

Minha viagem tem sido boa até aqui, tanto porque não tive nenhum incômodo, como pelo excesso de benevolência com o qual têm me recebido este povo do Magdalena. Aqui, sobretudo, têm me tratado melhor do que nunca, e como essas demonstrações são gratuitas e em demasia, têm enchido o meu coração do mais terno reconhecimento. Desde o dia que deixei o cargo, tenho recebido as demonstrações mais lisonjeiras, e com mais prazer ainda, quando foi você quem deu o exemplo: assim, até agora, não tenho porque para me arrepender de ter deixado o mando supremo (Carta para Domingo Caycedo. Mompox, 21/05/1830. Tomo VII, R. 2.711, p. 480. Xerox do original).

No período abordado pelo romance, Simón Bolívar entregara a presidência a Domingo Caycedo e, para acalmar as mazelas da rebelião na Venezuela, aceitara o acordo com António Páez12. Por conta do acordo firmado, Bolívar devia partir da Colômbia, daí sua viagem pelo Magdalena. Em tais circunstâncias, o general experimentava o abandono, encontrava-se difamado e enxovalhado pelo adjetivo de tirano e pelas acusações quanto ao pretenso desejo de se coroar:

Sempre encarara a morte como um risco profissional sem remédio. Tinha feito todas as guerras na linha de perigo, sem sofrer um arranhão, e movia-se em meio ao fogo contrário com uma serenidade tão insensata que até seus oficiais se conformaram com a explicação fácil de que se julgava invulnerável. Saíra ileso de todos os atentados contra ele urdidos, e em vários salvou a vida por não estar dormindo em sua cama. Andava sem escolta, comia e bebia sem nenhum cuidado com o que lhe ofereciam por onde andasse. Somente Manuela sabia que seu desinteresse não era inconsciência nem fatalismo, mas melancólica certeza de que havia de morrer na cama, pobre e nu, e sem o consolo da gratidão pública (MÁRQUEZ, 1989: 16).

As acusações de prevaricação contra a república incomodavam o missivista e, assim sendo, não podiam passar ao largo da narrativa literária. Dentre os inúmeros exemplos a não serem seguidos, Bolívar citara, no epistolário, Augustín Iturbide. No romance, ao comentar com um visitante francês sobre o fuzilamento de Iturbide, o Bolívar de Gabriel García Márquez teria dito:

Minha testa não será jamais manchada por uma coroa [...] Aí está Iturbide para me refrescar a memória [...] Admira-me que um homem comum como Iturbide fizesse coisas tão extraordinárias, mas Deus me livre da sorte, como me livrou de sua carreira, embora eu saiba que nunca me livrará da mesma ingratidão (MÁRQUEZ, 1989, p. 127).

Nas cartas escritas entre os anos de 1824 e 1825, ao lado de San Martín e O'Higgins, Iturbide era exemplo de má conduta. Para o missivista, a má sorte do imperador, que teve como clímax o seu fuzilamento em 1824, advinha do fato de esse político não ter sido um "amante da liberdade". Por esse motivo, ainda de acordo com o missivista, Iturbide era o único responsável pela perda de sua glória13.

Pontuada a ligação do epistolário com as cartas, interessa o final dos trechos citados do romance, nos quais o romancista empresta ao seu personagem uma melancólica certeza, a da ingratidão. A vida de glórias terminaria com a incompreensão do povo que ele havia lutado para libertar. Aí há um destino, um desígnio que retirava de Simón Bolívar suas forças. A ingratidão pública e o não reconhecimento de seus vinte anos de serviço à pátria eram motivos para delírios, assim como foram assunto para inúmeras missivas. Se, ao final da vida, algo paralisava Bolívar não era exatamente a doença, mas o ressentimento. Não fosse isso, desde que reconhecido como importante liderança, estaria ele disposto a proteger a pátria. O oferecimento de seus serviços à pátria, mesmo sabendo-se incapaz fisicamente, esteve abundantemente presente nas cartas de seu último ano de vida:

Vocês verão meu proclama: ainda que pareça oferecer muito, não ofereço nada, senão servir como soldado. Não quero admitir o mando que me conferem as atas, porque não quero passar por um chefe de rebeldes e nomeado militarmente pelos vencedores14. Tenho oferecido servir ao governo porque não posso me isentar em perigos semelhantes. Se me derem o exército aceitarei e se me mandarem à Venezuela, eu irei. Entretanto se fizerem as eleições conforme a lei, e se por acaso for nomeado constitucionalmente pela maioria dos sufrágios, aceitarei se me convencerem de que a minha eleição foi verdadeiramente popular. Mas, meu amigo, você que conhece a constituição que temos e os novos inconvenientes que se multiplicaram nesses últimos dias, [diga-me] como é possível que alguém se comprometa a servir contra tantas probabilidades. Só um prodígio de circunstâncias favoráveis poderia me fazer decidir. Vocês dirão que é preciso viver; e eu digo o mesmo que é preciso que eu viva: não sei se me equivoco, mas creio que valho o mesmo que cada um e, como cada um, devo pretender minha honra, meu repouso, minha vida. Eu não posso viver entre assassinos e facciosos; eu não posso ser honrado entre semelhante canalha, e não posso gozar de repouso em meio de alarmes. A ninguém pedem tantos sacrifícios como a mim, e isso para que todos façam o que lhes interessa. Aqui não há equidade, meu amigo: em conseqüência, eu devo tomar por mim mesmo a parte da minha justiça. Eu estou velho, enfermo, cansado, desenganado, hostilizado caluniado e mal pago. Eu não peço por recompensa mais do que o repouso e a conservação de minha honra: por desgraça é o que não consigo (Carta para Pedro Briceño Méndez. Cartagena, 20/09/1830. Tomo VII, R. 2.747, p. 530-531. Original).

Velho, cansado, desenganado, hostilizado, caluniado e mal pago, mas disposto a servir como soldado. O oferecimento era simbólico, Bolívar não tinha como servir para acalmar as guerras internas. Não tinha como servir porque fora abandonado pelo vigor físico, e, ainda mais grave, perdera a legitimidade e o poder. A figura literária fantasmagórica do general revelava o descrédito no fim de seus dias - assim como era uma revelação o ressentimento presente em suas cartas dos anos de 1829 e 1830. Diversificada pela descrição da natureza, dos transeuntes e da cidade, a saída de Simón Bolívar de Santa Fé de Bogotá é narrada da seguinte maneira no romance:

A primeira jornada foi a mais ingrata, e assim teria sido mesmo para alguém não tão doente quanto ele, pois se sentia amargurado com a hostilidade insidiosa que percebera nas ruas de Santa Fé na manhã da partida. Apenas começava a clarear em meio ao chuvisco, e só encontrou no caminho algumas vacas extraviadas, mas o rancor de seus inimigos pairava no ar. Apesar da precaução do governo, que mandara conduzi-lo pelas ruas de menor movimento, o general chegou a ver alguns dos insultos pintados nos muros dos conventos.
[...]

Em nenhum lugar se sentira tão forasteiro como nessas ruelas ermas com casas iguais de telhados pardos e jardins internos com flores cheirosas, onde se cozinhava a fogo lento uma comunidade aldeã, cujas maneiras alambicadas e cujo dialeto ladino mais serviam para ocultar do que para dizer. E, contudo, embora lhe parecesse uma burla da imaginação, era essa mesma cidade de brumas e sopros gelados que escolhera antes de conhecê-la para edificar sua glória, que amara mais do que qualquer outra, e idealizara como centro e razão de sua vida e capital da metade do mundo.

Na hora das contas finais, parecia o mais surpreendido pelo próprio descrédito. O governo postara guardas invisíveis até nos lugares de menor perigo, e isso impediu que saíssem no seu encalço as maltas coléricas que o haviam executado em efígie na noite anterior, mas em todo trajeto se ouviu um mesmo grito distante: "Longaniiiiizo!15" A única alma que se compadeceu dele foi uma mulher de rua que disse ao vê-lo passar:

- Vá com Deus, fantasma! (MÁRQUEZ, 1989: 45-47).

Aquele que julgava conhecer a América e ser responsável por sua liberdade era caracterizado como um forasteiro - a caminhada para o desterro (que a morte impediria) afirmava sua condição de forasteiro e explicitava a sua incompreensão dos novos tempos. Entre seus contemporâneos, o projeto de Bolívar estava efetivamente derrotado. Proscrito e sem acreditar numa possível saída para a América libertada da Espanha, mas cativa das oligarquias, foi o missivista quem, em meio à desilusão, decidiu o que fazer: "porque sou incapaz de fazer a felicidade do meu país me nego a mandá-lo" (Carta para Estanislao Vergara16. Cartagena, 25/09/1830. Tomo VII, R. 2.749, p. 535. Original.). Não era ele, Simón Bolívar, desnecessário. Ao contrário, se ia embora, era para salvar a pátria e guardar sua glória de maiores ataques. Numa das últimas missivas da coletânea, o homem que renunciou inúmeras vezes, fazia de novo, mas, deixando registrado que, embora proscrito, era ele quem se negava a mandar.

Numa outra carta, endereçada a Flores17, em novembro de 1830, Simón Bolívar escrevia sobre sua doença e sobre a impossibilidade de oferecer seus serviços. Nomeado presidente da Nova Granada, após um golpe dos bolivaristas, notícia que se digna a oferecer, termina sua carta indicando que ele escolhia o seu próprio destino. Descontente por se encontrar como liderança entre golpistas, sem apoio do Congresso, e mediante o seu conhecimento arquivado sobre as revoluções, o general pretendia manter-se a salvo e longe do poder por uma decisão de sua inteira responsabilidade:

Falarei a você ao fim de mim: fui nomeado presidente de toda Nova Granada, mas não pela guarda de assassinos de Casanare e Popayán; e, entretanto, Urdaneta está desempenhando o Poder Executivo com os ministros eleitos por ele. Eu não aceitei este cargo revolucionário porque a eleição não é legítima; logo depois fiquei doente, o que não me deixa servir nem como súdito. No entanto, tudo isso acontece assim, as eleições ocorrem conforme a lei, ainda que fora do tempo em algumas partes. Asseguram que terei muitos votos e pode ser que seja eu que consiga mais e então veremos o resultado. Você pode considerar se, um homem que tirou das revoluções todas as conclusões anteriores, terá vontade de se afogar novamente, depois de ter saído do ventre da baleia: isso é claro (Carta para J.J. Flores. Barranquilla, 09/11/1830. Tomo VII, R. 2781, p. 589. Retirada do Boletim Histórico, n. 1, Fundação John Boulton).

Trechos de cartas endereçadas a Briceño Méndez e a Rafael Urdaneta aparecem no romance para explicar a hesitação do líder revolucionário em aceitar a presidência da Grã-Colômbia, uma vez vitorioso o golpe de seus aliados. As anotações de Gabriel García Márquez coincidem com a interpretação retirada da análise do epistolário. Também o autor-narrador de O General em seu labirinto mostra seu espanto com o tom de comando que algumas missivas de Simón Bolívar assumiram em tal contexto:

Em carta que mandou dois dias depois ao general Briceño Méndez escreveu: "Não quis assumir o poder que as atas me conferem porque não quero passar por chefe de rebeldes e ser nomeado militarmente pelos vencedores. Contudo, nas duas cartas que ditou nessa mesma noite a Fernando para o general Rafael Urdaneta, teve o cuidado de não ser tão radical.

A primeira foi uma resposta formal, cuja solenidade era por demais evidente no cabeçalho: "Excelentíssimo Senhor". Nela justificava o golpe pelo estado de anarquia e abandono em que ficara a república com a dissolução do governo anterior. "O povo nesses casos não se engana", escreveu. Mas não havia nenhuma possibilidade de aceitar a presidência. A única coisa que poderia oferecer era sua disposição de retornar a Santa Fé para servir como simples soldado.

A outra era uma carta particular, como já indicava a primeira linha: "Meu querido general". Extensa e explícita, não deixava a menor dúvida sobre as razões de sua incerteza. Como dom Joaquín Mosquera não havia renunciado a seu título, amanhã poderia fazer-se reconhecer como presidente legal e colocá-lo na posição de usurpador. Assim, reiterava o que dissera na carta anterior: enquanto não dispusesse de um mandato diáfano, emanado de uma fonte legítima, não havia possibilidade alguma de assumir o poder.

As duas cartas foram pelo mesmo correio, junto com o original de uma proclamação na qual pedia ao país que esquecesse suas paixões e apoiasse o novo governo. Mas punha-se a salvo de qualquer compromisso. "Embora pareça oferecer muito, não ofereço nada", diria mais tarde. E reconheceu ter escrito algumas frases cujo único propósito era lisonjear quem esperava por isso.

O mais significativo da segunda carta era o tom de comando, surpreendente para uma pessoa desprovida de todo o poder.
[...]

Nesses dias costumava repetir com renovada ênfase uma antiga frase sua: "Estou velho, doente, cansado, desiludido, fustigado, caluniado e mal pago". Entretanto, ninguém que o visse teria acreditado. (MÁRQUEZ, 1989: 205-207).

O escrito literário e as cartas apresentam contradições compreensíveis que se completam e emprestam sentido ao cuidado com a correspondência. De um lado, a doença e a perda de legitimidade eram fatos inegáveis - a indicação de Bolívar para assumir a presidência, com o golpe dos bolivaristas, fora apenas um gesto de respeito militar, que restava entre seus poucos amigos. De outro lado, apesar da incontestável força dos acontecimentos, a fórmula para uma memória que matizasse a perda de legitimidade e denunciasse as conspirações injustas contra o Libertador foi doada pelo próprio missivista. Em suas cartas, escritas entre os anos de 1829 e 1830, embora não fosse possível mais esconder a doença e o ressentimento, era possível apresentar-se como um general vigoroso. A despeito do seu fastio e das perseguições, o missivista era capaz de fazer exalar autoridade de sua correspondência:

Estou cansado e enfastiado das calúnias. Penso em retirar-me do mando político, mas não do militar. Com isto, se ganha e não se perde. Outro magistrado, se for bom, será sustentado por mim, meus amigos e o exército. Será forte pelas leis e por nossa autorização. Eu lhe emprestarei toda a minha influência: influência que ninguém pode me emprestar. Eu me apoio agora neles (os generais) e depois se apoiarão em mim. O governo sobre todos. Páez não será mais o fantasma das crianças. Eu irei para Venezuela e seremos camaradas. Minha glória se salvará e a Colômbia também. (Carta para Mariano Montilla. Popayán, 30/11/1829. Tomo VII, R. 2.640, p. 402. Original).

Eu não estou só muito cansado do governo, mas sim sou perseguido por ele; por conseguinte, farei tudo o que for possível para separar-me do mando, ficando só com o exército, se quiserem me dar. Sinto muito dar-lhe esta notícia, mas devo fazê-lo para seu governo18. Provavelmente será o general Sucre o meu sucessor, e também é provável que o sustentemos entre todos; de minha parte ofereço fazê-lo com alma e coração. (Carta para J.J. Flores. Popayán, 05/12/1829. Tomo VII, R. 2.642, p. 404. Retirada de Asesinato Del gran Mariscal de Ayacucho. A.Flores, p. 383).

Juro a você e prometo com a mais pura sinceridade que teria o maior gosto e seria uma honra para mim sustentar a sua autoridade. Neste caso, teria a Colômbia dois grandes apoios: o governo seria tão forte como o exército e ambos se apoiariam mutuamente com benefício do estado. Sobre esse ponto, tenho meditado muito, pelo que estou resoluto a não desistir dessa resolução. Mas se empenham-se em me fazer voltar ao cargo, podem contar que eu não o admitirei, ainda que isso resulte na ruína da república. Minha honra e minha glória exigem este ato solene de absoluto desprendimento, para que o mundo veja que na Colômbia há homens que depreciam o poder absoluto e preferem a glória à ambição. Por outro lado, com isso deixarei lesados meus inimigos; e também meus companheiros de armas verão que não seguiram a quem não merecia, e se gabarão por eu não ter sido o que têm me acusado (Carta para António Páez. Popayán, 12/12/1829. Tomo VII, R. 2650, p. 410-411. Original).

Se as cartas de Bolívar contavam a história do herói injustiçado, no romance, essa figura se completa: o general tinha a "aura mágica" e os males do corpo eram sempre contrapostos à força do espírito. São muitas as passagens de O General em seu labirinto que confirmam esse tipo de construção do perfil de Simón Bolívar. O homem público vigoroso - que se revelava mais abatido pelo ressentimento do que pelos males físicos - aparecia tanto no epistolário quanto no romance. Destacando-se por ser dono de um "halo mágico", a densidade psicológica atribuída ao General por García Márquez quer sugerir que Simón Bolívar escolhe como morrer. Do ressentimento não podia se livrar, mas morria como tinha vivido: morria colocando-se como soldado a serviço da pátria - inestimável serviço literário prestado ao culto bolivariano. No romance, a indigência do corpo não excluía a tensão de energia que dele emanava:

Não trazia nenhuma insígnia de seu posto nem lhe restava o menor indício da imensa autoridade de outros dias, mas o halo mágico do poder o tornava diferente em meio ao ruidoso séqüito de oficiais. Dirigiu-se à sala de visitas, caminhando devagar pelo corredor atapetado de esteiras que margeava o jardim interno, indiferente aos soldados da guarda que se perfilavam à sua passagem. (MÁRQUEZ, 1989: 39).

Empinou-se para se despedir do presidente interino, e este correspondeu com um abraço enorme, que permitiu a todos comprovar como era mirrado o corpo do general, e como se via desamparado e inerme na hora da despedida [...] Procurou ajudá-lo, conduzindo-o pelo braço com a ponta dos dedos, como se fosse de vidro, e surpreendeu-se com a tensão de energia que lhe circulava debaixo da pele, como uma torrente secreta sem qualquer relação com a indigência do corpo. Delegados do governo, da diplomacia e das forças militares, com barro até os tornozelos e as capas ensopadas pela chuva, o esperavam para acompanhá-lo na primeira jornada. Ninguém sabia ao certo, porém, quem o acompanhava por amizade, quem para protegê-lo e quem para ter confirmação de que ia embora mesmo (MÁRQUEZ, 1989: 42) .

Em sua passagem pelo povoado de Honda, o romance narra duas importantes cenas, uma num rio e outra numa festa. Em ambas, apesar da proximidade da morte e da imagem esquálida do corpo, a entrega à atividade física representava, mais do que a presença de alguma energia no corpo, a capacidade espiritual do general em se refazer dos reveses. Note-se que o encaminhar da narrativa articula vivências no passado e no presente. Depois disso, a proposital junção entre esses tempos assume um sentido específico, que é o de demonstrar que algo concedia unidade entre o Bolívar do passado e o do presente: a sua energia, isso porque ela era mais do que física, tal energia era peça integrante de seu caráter:

Longe iam os dias em que apostava atravessar uma torrente llanera com uma das mãos amarradas e ainda assim ganhava do nadador mais destro. Dessa vez, de qualquer modo, nadou sem cansaço durante meia hora, mas os que viram suas costelas de cachorro e suas pernas raquíticas não entenderam como podia continuar vivo com tão pouco corpo. (MÁRQUEZ, 1989: 79)

Longe ficavam os anos ilusórios em que todo mundo caía vencido, e só ele continuava dançando até o amanhecer com o último par no salão deserto. Pois a dança era para ele uma paixão tão dominante que dançava sem dama quando não havia, ou dançava sozinho a música que ele próprio assobiava, e exteriorizava seus grandes júbilos subindo para dançar na mesa da sala de jantar. Na última noite de Honda já tinha as forças tão reduzidas que precisava se refazer nos intervalos aspirando os vapores do lenço embebido em água-de-colônia, mas valsou com tanto entusiasmo e com maestria tão juvenil que, sem querer, destruiu as versões de que estava à morte (MÁRQUEZ, 1989: 81).

No que se refere aos pedidos de renúncia, O General em seu labirinto é rico em passagens. O ano era 1830, o lugar era Santa Fé de Bogotá. Depois de uma manifestação contrária ao general a poucos quarteirões de onde ele estava acomodado com a sua comitiva, Bolívar anunciou:

- Muito mal devem andar as coisas - disse -, e eu pior que as coisas, para tudo isso acontecer a um quarteirão daqui e me fazerem acreditar que era uma festa.

A verdade é que mesmo os seus amigos mais íntimos não achavam que fosse deixar o poder nem o país. A cidade era pequena e a gente bisbilhoteira demais para desconhecer as duas grandes falhas de sua viagem incerta: não tinha dinheiro para chegar a parte alguma com séqüito tão numeroso e, tendo sido presidente da república, não podia sair do país antes de um ano sem permissão do governo, a qual nem sequer tivera a malícia de solicitar. A ordem de arrumar a bagagem, dada de modo ostensivo, para ser ouvida por todo mundo, não foi entendida como prova terminante nem pelo próprio José Palácios, pois em outras ocasiões chegara ao extremo de desmanchar uma casa para fingir que partia, o que sempre fora uma manobra política certeira. Seus ajudantes militares sentiam que os sintomas do desencanto eram por demais evidentes no último ano. Entretanto, de outras vezes tinha acontecido, e quando menos se esperava o viam despertar com ânimo novo, para retomar o fio da vida com mais ímpeto que nunca. José Palácios, que sempre acompanhara de perto essas mudanças imprevisíveis, o dizia à sua maneira: "O que o meu senhor pensa, só o meu senhor sabe".

Suas renúncias recorrentes se haviam incorporado ao cancioneiro popular, desde a mais antiga, anunciada no próprio discurso com que assumiu a presidência: "Meu primeiro dia de paz será o último do poder." Nos anos seguintes, tornou a renunciar tantas vezes, e em circunstâncias tão diversas, que nunca mais se soube quando era de verdade. A renúncia mais ruidosa de todas tinha sido dois anos antes, na noite de 25 de setembro, quando escapou ileso de uma conspiração para assassiná-lo, dentro do próprio quarto de dormir do palácio do governo. A comissão do congresso que o visitou de madrugada, depois de ele ter passado seis horas sem agasalho debaixo de uma ponte, encontrou-o embrulhado numa manta de lã e com os pés numa bacia de água quente, mas não tão prostrado pela febre quanto pela decepção. Anunciou-lhes que a trama não seria investigada, que ninguém seria processado, e que o congresso previsto para o ano-novo se reuniria de imediato para eleger outro presidente da república.

- Depois disso - concluiu - deixarei a Colômbia para sempre.

Contudo, a investigação foi feita, julgaram-se os culpados com um código de ferro, e quatorze foram fuzilados em praça pública. O congresso constituinte marcado para 02 de janeiro só se reuniu dezesseis meses depois, e ninguém tornou a falar em renúncia. Mas não houve por essa época visitante estrangeiro, interlocutor casual ou amigo de passagem a quem ele deixasse de dizer: "Vou para onde gostem de mim" (MÁRQUEZ, 1989: 21-23).

Numa leitura rápida, três são as impressões retiradas deste trecho literário: primeiro, havia descrença generalizada quanto à possibilidade concreta de Simón Bolívar deixar a Colômbia e o mando; segundo, a renúncia e o anúncio de que se retiraria do país configuravam um tipo de "manobra política certeira" utilizada de forma recorrente; e, terceiro, a renúncia e a saída da América vinham associadas ao desencanto que, entretanto, se via atrelado a um "ânimo novo", nascido sobrenaturalmente. Essa síntese indica que o romance permite amparar a tese de que um projeto de memória foi construído por meio da escrita de cartas. No interior desse projeto, a renúncia torna-se peça fundamental na medida em que tece a memória da indispensabilidade, medindo a legitimidade política do general. Ainda que o literato não tivesse por obrigação proceder à crítica das fontes e, portanto, o uso do epistolário pudesse vir acompanhado pela "liberdade de dar asas à imaginação", certamente, o texto de O General em seu labirinto rende glórias à memória construída pelo ator histórico em vida. Assim como a historiografia, a literatura oferece contribuição ao culto contemporâneo em torno de Simón Bolívar - tendo sido intencional ou não contribuir com o culto, a constatação é que a obra literária, a partir do momento que alcança o domínio público, tem em seus leitores os "reais" e exigentes decifradores.

Num outro trecho de O General em seu labirinto, reaparece a análise do descrédito conferido à possibilidade de Bolívar deixar o mando. Dessa vez, tal análise vem acompanhada por alusões à doença do general e aos seus atos formais, detectados por meio dos pedidos de renúncia encaminhados ao congresso:

[...] não houve agonia mais frutífera do que a dele. Enquanto o acreditavam à morte em Pativilca, atravessou mais uma vez os cumes andinos, venceu em Junín, completou a libertação de toda a América espanhola com a vitória final de Ayacucho, criou a República da Bolívia e ainda foi feliz em Lima como nunca fora nem voltaria a ser com a embriaguez da glória. Assim, os repetidos anúncios de que afinal ia deixar o poder e o país por motivo de doença, e os atos formais que o pareciam confirmar, não passavam de repetições desmoralizadas de um drama demais visto para merecer crédito (MÁRQUEZ, 1989: 24).

Os biógrafos de Bolívar marcam o ano de 1825 como o momento em que a sua saúde passaria a incomodar de forma mais intensa e rotineira. As missivas escritas entre os anos de 1825 e 1828 não se referiam, rotineiramente, aos incômodos da saúde debilitada. Simón Bolívar mais silenciava do que se expunha no que dizia respeito à sua saúde. Mesmo entre os anos de 1829 e 1830, não eram longas as passagens acerca dos males que lhe acometiam. O quase silêncio no epistolário acerca dos males que o atacavam surgia como um vestígio importante e, ao lado do extenso e exaustivo discurso da renúncia, indicava que não escrever sobre o seu estado de saúde podia ser uma manifestação explícita do desejo de Bolívar de continuar sendo visto como o homem público de todas as causas, aquele que poderia ser chamado em qualquer contexto, qualquer que fosse a dificuldade. Dividir relatos sobre o seu estado de saúde era uma ação concedida apenas àqueles que o missivista considerava amigos muito próximos e leais e, ainda, dependia de circunstâncias especiais.

Silenciar - ou, na melhor das construções, escrever pouco e ligeiramente - sobre o seu estado de saúde também configurava uma peça importante no interior do projeto narrativo: era preciso que os interlocutores de Simón Bolívar continuassem acreditando e apostando em sua vitalidade física. Entre outros fatores, de sua vitalidade física dependia a vitalidade política. De um doente às vésperas da morte não havia o que temer, em especial, se sua honra, sua glória e seu projeto político estivessem desacreditados. Por esse motivo, as cartas finais de Simón Bolívar assumiam maior dramaticidade e narravam, um pouco mais detidamente, sua péssima situação física. Nessa circunstância final, a narrativa epistolar associava a doença ao descrédito político e ambos confirmavam então a necessidade da renúncia e permitiam desaguar o ressentimento.

Assim, as fases silenciosas sobre a doença se altercavam, demonstrando a impossibilidade de onisciência do missivista e seu respeito aos manuais de escrita de cartas dos oitocentos (GAY, 1999). Nas missivas redigidas no início dos anos vinte, quando o assunto era a sua saúde, o modelo era o seguinte: Simón Bolívar iniciava-as agradecendo a preocupação de seus interlocutores e não gastava muito mais do que um parágrafo para dar notícias de seu incômodo. Nas cartas a seguir, ambas de 1824, pode-se confirmar a ocorrência dos males anotados por Gabriel García Márquez - que, no romance, foram atribuídos aos sóis mercuriais:

Meu querido presidente:

À noite, tive a satisfação de receber a sua carta e o seu ofício pelo qual me felicita e, ao mesmo tempo, se compadece pela indisposição que sofri. Agradecido como devo à sincera expressão de amizade e de consideração por sua parte, retorno minhas graças a tão distinto amigo. Muito sinto o sucesso dos Granadeiros do Rio da Prata, pois isso indica um estado de anarquia continuado e perene (Carta para Marquês de Torre Tagle19. Pativilca, 07/01/1824. Tomo IV, R. 1033, p. 09-12. Retirada de O'Leary, XXIX, p. 361).

Com Santander, no mesmo mês e ano, Bolívar estendeu-se um pouco mais. Permitiu ao amigo uma exceção, pois lhe deu informes mais detalhados sobre o seu mal-estar. Com certeza, a narrativa dessa missiva deixa entrever a confiança que Bolívar depositava no vice-presidente. Na carta para Santander, o missivista escreve sobre seu desejo de se liberar do cargo de mandatário superior no Peru e associa tal desejo aos desgastes físicos que vinha sofrendo:

Além disso, não quero me encarregar tampouco da defesa do Sul, porque nela vou perder a pouca reputação que me resta com homens tão malvados e ingratos. Eu creio que disse a você, antes do que agora, que os quitenhos são os piores colombianos. O fato é como eu sempre pensei, que se necessita de um rigor triplo [comparado ao] do que se empregaria em outra parte. Os venezuelanos são uns santos comparados a esses malvados. Os quitenhos e os peruanos são a mesma coisa: viciosos até a infâmia e baixos ao extremo. Os brancos têm caráter de índios, e os índios são todos inescrupulosos, todos ladrões, todos embusteiros, todos falsos sem nenhum princípio de moral que os guie. Os guayaquilenos são mil vezes melhores.

Por tudo isso eu irei para Bogotá tão logo eu possa me restabelecer de meus males que, nesta ocasião, têm sido muito graves, resultantes de uma longa e prolongada marcha que fiz na serra do Peru, cheguei aqui e fiquei gravemente enfermo. O pior é que o mal tem resistido e os sintomas não indicam seu fim. É uma complicação de uma irritação interna e de reumatismo, [provoca] febres e males da urina, vômito e cólicas. Tudo isso em conjunto me deixa desesperado e me aflige muito. Eu já não posso fazer um esforço sem padecer infinito. Você não me conheceria porque estou muito acabado e muito velho, e em meio de uma tormenta como essa, represento a senilidade. Além disso, me atacam, de quando em quando, alguns ataques de demência mesmo quando estou bem, perco inteiramente a razão sem sofrer nenhum ataque sequer pequeno de enfermidade e de dor. Este país com seus soroches nos páramos renova tais ataques quando atravesso as serras. As costas provocam muitas enfermidades e moléstias porque é o mesmo que viver na Arábia deserta. Se vou convalescer em Lima, os negócios e as tramóias voltarão a me deixar enfermo; assim penso dar tempo ao tempo, até o meu completo restabelecimento (Carta para Francisco de Paula Santander. Pativilca, 07/01/1824. Tomo IV, R. 1.034, p. 12-15. Original).

A última renúncia, penosa e necessária para Bolívar, e as esperanças renovadas (pela possibilidade de que o Congresso Nacional aprovasse seu nome como mandatário supremo) apareceriam em O General em seu labirinto com uma lancinante narrativa, permitidas apenas às cartas particulares de Bolívar e ao foro do romance:

Reiterando a sua renúncia, o general indicou Dom Domingo Caycedo para presidente interino enquanto o congresso escolhia o titular. Em primeiro de março deixou o palácio do governo pela porta de serviço, para não topar com os convidados que estavam homenageando o seu sucessor com uma taça de champanhe, e foi em carruagem alheia para a quinta de Fucha, um remanso idílico nos arredores da cidade, que o presidente provisório lhe emprestara. A simples certeza de ser um cidadão comum agravou os estragos do vomitivo. Sonhando acordado, pediu a José Palácios que preparasse o necessário para começar a escrever suas memórias. José Palácios trouxe tinta e papel de sobra para quarenta anos de recordações, e ele preveniu Fernando, seu sobrinho e secretário, que se preparasse para atendê-lo desde a segunda-feira seguinte, às quatro da madrugada, a hora mais propícia para pensar, com seus rancores em carne viva.
[...]

Os que o visitaram nos dias seguintes tiveram a impressão de que estava refeito. Sobretudo os militares, seus amigos mais fiéis, que o instaram a permanecer na presidência, ainda que por meio de uma quartelada. Ele os desanimava com o argumento de que o poder da força era indigno de sua glória, mas não parecia afastar a esperança de ser confirmado pela decisão legítima do congresso (MÁRQUEZ, 1989: 29-30).

Vários são os elementos que chamam a atenção na narrativa romanceada de García Márquez. A saída pela porta dos fundos, a condução emprestada, a ausência de Bolívar em uma comemoração que, depois de tantas, não era direcionada a ele ou às suas glórias, o desejo do general em expor seus rancores por meio da escrita de suas memórias. Simón Bolívar não precisou redigir memórias, tinha ainda a quem destinar suas epístolas. Em cartas endereçadas, em seus últimos dias, ao amigo José Fernandez Madrid20, indicava as diretrizes para a sua defesa frente aos seus contemporâneos, à posteridade e à história.

Desde agora você deve contar [com o fato de] que não serei mais presidente, seja o que for, e me porei em posição de não sofrer mais vexações saindo do país, com o ânimo de seguir para onde possa, segundo minha escassa fortuna. Sobre esse ponto você saberá mais na próxima correspondência.

Tinha pensado em lhe remeter os documentos de minha vida pública, mas soube pelo coronel Wilson21 que o general, seu pai, tem a obra em dezesseis volumes, e que você pode pedi-los emprestado para responder às calúnias que estão inventando sobre mim.

Não vacile em negar positivamente todo fato contrário ao que você conhece do meu caráter.

Primeiro, nunca tentei estabelecer na Colômbia nem mesmo a constituição boliviana: tampouco fui eu quem fez isso no Peru; o povo e os ministros o fizeram espontaneamente. Sobre isso leia o manifesto de Pando daquele tempo, e esse é um canalha que não ocultaria nada para favorecer-me.

Segundo, tudo o que é pérfido, dúbio ou falso que me atribua, é completamente calunioso. O que tenho feito e dito, tem sido com solenidade e sem nenhuma dissimulação.

Terceiro, negue você redondamente todo ato cruel por parte dos patriotas, e se o fui cruel alguma vez com os espanhóis foi por represália.

Quarto, negue você todo ato interessado de minha parte, e pode afirmar sem ocultar que tenho sido magnânimo com a maior parte de meus inimigos.

Quinto, assegure você que não tenho dado nem um passo na guerra, de prudência ou razão para que se possa me atribuir covardia. O cálculo tem dirigido minhas operações nesta parte, e ainda mais, a audácia.
[...]

Enfim, meu querido amigo, os documentos de minha vida dão muitos meios de defesa, ainda que faltem a maior parte dos primeiros períodos de minha história; mas como são nos últimos anos os que mais me atacaram, você encontrará sempre argumento nos fatos que se tem visto e estão escritos.
[...]

Remeto a você a gazeta de hoje, pela qual se informará de algumas explicações satisfatórias e verá, ao mesmo tempo, que deixei o mando para o senhor Caycedo por causa dos males que padeço, ainda que não sejam graves. Não voltarei a tomar mais o mando, porque isso é insuportável sob todos os aspectos para mim. Por fortuna, não se dirá que abandonei a pátria, sendo ela que tem me renegado do modo mais escandaloso e criminoso como não se tem visto nunca. Eu não sou tão virtuoso como Fócio22, mas meus serviços se igualam com os dele, e embora não me creia tão desgraçado como ele, algo se parece na ingratidão de nossos concidadãos. (Carta para José Fernandez Madrid. Fucha, 06/03/1830. Tomo VII, R. 2680, p. 449. Original)

Parte da correspondência de Simón Bolívar perdeu-se, assim mesmo, há cartas de novembro e de dezembro de 1830. O general ditou cartas praticamente até o fim de sua vida. A correspondência seria responsável pela construção de um projeto futuro que, embora não estivesse ao alcance de um decreto seu para realizar-se, representava um horizonte alentador, com a qual o missivista fizera um pacto, arriscando-se até o fim de seus dias. Ademais, a escrita era catarse: por meio das palavras, o herói se humanizava. O ressentimento era verdadeiro, tinha de ser expurgado.

 

IV.

Cotejar a correspondência bolivariana com a literatura amplia a compreensão quanto ao ressentimento e à desilusão do general - que, ao mesmo tempo, é "figura histórica", personagem de romance e "persona missivista". O diálogo entre a história e a literatura ilumina a circunstância na qual Simón Bolívar esteve imerso. A escrita dramática, que toma conta do epistolário e aparece no romance de Márquez, não é carente de sentido: o missivista assistiu ao desmantelamento de seu mais caro projeto político; a unidade da Grã-Colômbia desfez-se e os comandantes desse processo foram os seus companheiros de outrora. Em Nova Granada, o federalismo conquistou espaço na Constituinte de 1830 e, embora Bolívar não vivesse para assistir ao retorno de Santander de seu desterro, esse não só retornou como assumiu a presidência do país. Realmente instigante e despercebido numa versão oficial, convicta de que as cartas serviam apenas para a confirmação de dados, é a delicada construção narrativa epistolar que fez do discurso da renúncia e do ressentimento peça importante para a construção da memória da indispensabilidade.

Por fim, há que se demarcar a existência de um paradoxo: o discurso da renúncia sinalizava muito claramente o desejo da construção da memória da indispensabilidade. Já o discurso do ressentimento, muito mais difícil de permanecer sob o controle do missivista, embora quisesse também atuar no sentido de atestar a indispensabilidade, era o indicativo da derrota do indispensável. Com o ressentimento, o general humanizava-se e, uma vez humano, tornava-se mortal e substituível. O ressentimento revelou a perda da legitimidade e a necessidade de substituição da liderança, a despeito de todos os incontáveis protestos do missivista. Mesmo assim, a memória heróica, elaborada e conservada no epistolário, salvou Simón Bolívar do esquecimento póstumo: o general deixou seu labirinto e entrou para a história.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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PIGLIA, Ricardo. O último leitor. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.         [ Links ]

 

NOTAS

1 Esse artigo é parte da Tese de Doutorado intitulada História e memória no epistolário de Simón Bolívar (1799-1830), defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual Paulista (UNESP).

2 O epistolário de Simón Bolívar conta com 2.815 cartas, escritas entre os anos de 1799 e 1830. A coletânea utilizada na investigação foi organizada por Vicente Lecuna, o mesmo que cuidaria da restauração da Casa Natal do Libertador na Venezuela e que se tornaria o guardião da documentação e da memória do Libertador. Teve-se acesso à segunda edição das Cartas del Libertador, publicada em sete tomos, entre os anos de 1964 e 1969.

3 A ABNT é omissa quanto à citação de documentos tais como as cartas. Em virtude da particularidade dessa documentação (que exige deixar explícito o destinatário, o lugar e a data da escrita da carta) e do fato de esta pesquisa ter lidado com uma coletânea organizada por terceiros, o que lhe obrigava, ainda, a indicar o tomo em que se encontrava a epístola, o número de seu registro e o tipo do documento (se era original ou cópia, anotando de onde era retirada, se de arquivo público, pessoal ou de jornais de época), estabeleceu-se uma forma de citação peculiar. Para que os leitores não perdessem nenhuma informação, padronizou-se a citação das epístolas da seguinte forma: Carta para (destinatário), Lugar e data de sua escrita, Tomo (I ao VII), R. (Registro, equivalendo ao número da carta na coletânea), p. (página da carta na coletânea), tipo.

4 Esse termo é de minha autoria e serviu ao propósito de explicar o discurso da renúncia, apresentando, em conjunto, os outros elementos retóricos a ele associados - a morte, o ressentimento, a doença e a solidão. Sua primeira aparição foi na já referida tese de doutorado.

5 Neste artigo, não há espaço para discutir os sustentadores da memória bolivariana, mas não é possível duvidar da existência do culto - basta observar as tentativas inauditas do governo chavista. Para uma aproximação do tema historiográfico, ver: Nikita Harwich. Um heróe para todas las causas: Bolívar en la historiografia, 2003.

6 Nos agradecimentos, Gabriel García Márquez faz referência aos historiadores colombianos Eugenio Gutiérrez Celys, Fabio Puyo e Gustavo Vargas. Também cita o historiador bolivariano radicado em Caracas, Vinicio Romero Martinez. Ainda fazem parte da lista de agradecimentos: um ex-presidente, Belisario Betancur, dois embaixadores, José Eduardo Ritter (embaixador da Colômbia no Panamá) e Aníbal Noguera Mendoza (embaixador da Colômbia em Porto Príncipe), um linguista, Roberto Cadavid, um geógrafo, Gladstone Oliva, um astrônomo, Jorge Pérez Doval, e o que o autor chama de um "parente oblíquo do protagonista", Antonio Bolívar Goyanes.

7 Apelido que, segundo Gabriel García Márquez, Bolívar teria dado a Francisco de Paula Santander após sua briga com o vice-presidente da Grã-Colômbia. Esse apelido não aparece no epistolário. Provavelmente, Márquez retirou tal informação das Memórias de O'Leary ou do Diário de Bucaramanga, de Peru de la Croix - fontes que o autor informa ter consultado.

8 Referência ao Pico do Ávila, próximo à Caracas.

9 A região de Cartagena era governada por Mariano Montilla, amigo antigo de Bolívar e bolivarista convicto. Daí, a conclamação da população por meio de um édito.

10 Domingo Caycedo ocupava a presidência do Congresso da Colômbia, que tinha sido instaurado em janeiro de 1830. Até março daquele ano, Bolívar permaneceu "nominalmente" como ditador e, em março, entregou o poder que passou para Caycedo e, depois, Mosquera.

11 As referências ao triunfo, às belas damas, aos arcos e à alegria dos populares estiveram presentes numa carta endereçada a Antonio Zea, escrita de Puente Real, em 26/09/1819, quando Bolívar narrara sua entrada em Bogotá, após a vitória em Boyacá. Pode-se comparar o tom e a composição narrativa das cartas de Zea e Caycedo. Da comparação, fica a conclusão sobre o entusiasmo da primeira frente ao agradecimento contido da segunda. Estabelecida a comparação, apesar do agradecimento formal, o ressentimento, embora não evidente, encontra-se implícito.

12 Em fins de 1829, António Páez liderava mais um movimento autonomista (o anterior havia sido a La Cosiata). Desde novembro desse ano, Páez passou a desconhecer a autoridade de Bolívar e das instituições de Bogotá, instaurando na prática a separação da Venezuela à Grã-Colômbia. Bolívar, então muito doente, perdera o apoio militar e, consequentemente, o político, uma vez que a sua última tentativa centralizadora - posta em prática logo após a dissolução da Convenção de Ocaña, quando se atribuiu poderes de chefe supremo - falhara. Para a manutenção da unidade entre a Venezuela e a Nova Granada, António Páez impôs a condição de que Simón Bolívar abandonasse a Colômbia, queria governar seu território sem maiores influências. Uma Assembléia Nacional reunida em Caracas comunicou à Nova Granada essa decisão e declarou que Simón Bolívar estava proscrito. Para provocar o desencanto completo ao general, Joaquín Mosquera, partidário das fileiras santanderistas, foi eleito presidente do congresso na Nova Granada. Em março de 1830, Páez era eleito presidente da Venezuela por meio das assembléias eleitorais.

13 Pode-se encontrar tais referências nas cartas escritas para Riva Aguero (13/04/1824) e para Sucre (20/01/1825).

14 Em setembro de 1830, Urdaneta e outros companheiros de Bolívar foram vitoriosos num golpe, ocorrido em Bogotá e que derrubou o presidente Joaquín Mosquera, eleito em maio de 1830. Rafael Urdaneta assumiu a presidência.

15 Gabriel García Márquez esclarece que Longanizo foi o apelido dado a Simón Bolívar pelos granadinos. Esse apelido era o mesmo conferido a um indigente louco que era famoso porque perambulava pelas ruas com uniformes conseguidos em casas de belchior.

16 Militar, diplomata e político (Bogotá, 1792-1857). Participou da Campanha de Cúcuta sob as ordens de Bolívar, em 1813. Foi designado para as campanhas do Sul e do Apure. Representou, como deputado, a província de Casanare no Congresso de Angostura. Atuou em missões diplomáticas na Europa ao lado de Peñalver. (Diccionario de Historia de Venezuela. Disponível em: <http://www.bolivar.ula.ve/indihist.htm>. Acesso em: 29 nov. 2004, 00:17.).

17 Juan José Flores (Puerto Cabello, 1800 - Equador, 1864). General e chefe do Exército Libertador, participou das guerras de independência nos territórios da Nova Granada, Venezuela e Equador. Em 1823, assumiu o cargo executivo na província de Pasto, contrária à independência. Em 1830, quando o Equador decidiu sua saída da Grã-Colômbia, Flores assumiu a presidência da república. Enfrentou muitos golpes em virtude da situação precária do país, penalizado pelas mazelas deixadas pela guerra (Diccionario de Historia de Venezuela. Disponível em: <http://www.bolivar.ula.ve/indihist.htm>. Acesso em: 29 nov. 2004, 00:19.).

18 Nesta carta, Bolívar renunciava ao governo do Equador. Desde 1823, esse território, por uma ação militar de Sucre, foi incorporado a Grã-Colômbia. Muitos conflitos opuseram a Grã-Colômbia e o Peru, pois esse último considerava ser seu direito ter posse do território de Guayaquil. Numa rebelião liderada por um colombiano, o general Bustamante, por sua vez, comissionado pelos peruanos, Guayaquil proclamara sua independência da Grã-Colômbia, isso em 1827, em meio aos preparativos para a Convenção de Ocaña que deveria definir sobre as reformas da Constituição de Cúcuta, que vigorava desde 1821. O plano de Bustamante era anexar o sul da Colômbia ao Peru. O general venezuelano Flores, que seria futuramente o presidente da República do Equador, foi quem pôs fim aos planos rebeldes, entrando vitorioso em Guayaquil em setembro de 1827. Além de Guayaquil, o Peru queria incorporar a Bolívia, que esteve, desde 1826, sob a presidência de António José de Sucre. Em 1827, forças peruanas, lideradas pelo general Gamarra, invadiram a fronteira boliviana, entretanto, Sucre conseguiu conter a rebelião. Considerando não ser o momento de aprofundar os problemas políticos entre a Grã-Colômbia e o Peru, Sucre não puniu Gamarra e afirmou que não era o caso de hostilizar os peruanos e incitar uma guerra. Os motins não terminaram e Sucre foi preso pelos rebeldes, o que obrigou a Bolívia a entrar em acordo com os insurgentes peruanos. Pelo acordo, seriam expulsas do país as tropas colombianas. Em setembro de 1828, Sucre chegou em Quito e se instalou. Incidentes diplomáticos entre a Colômbia e o Peru pioraram a situação, o que deflagrou a guerra. Em um contexto difícil para a manutenção da unidade no interior da Grã-Colômbia, uma guerra com o Peru foi considerada desastrosa. Os peruanos, sob a presidência do general La Mar, ocuparam Guayaquil que foi retomada, após uma campanha de trinta dias, pelo próprio Sucre, na Batalha de Tarqui (27/02/1829). O Tratado de Girón, firmado em 28 de fevereiro de 1829, concedia indenizações a Grã-Colômbia e anotava o respeito à sua integridade territorial. Assim mesmo, La Mar, desrespeitando o acordo, não se dispôs a entregar Guayaquil. Bolívar já se encontrava no Sul e preparava seu exército para sitiar a cidade tomada pelos peruanos. No entanto, a situação foi solucionada pela destituição de La Mar da presidência por meio de um golpe produzido em Lima. O novo governo, liderado pelo General Andrés de Santa Cruz, ratificou o Tratado de Girón e agradeceu os serviços prestados pela Colômbia para a independência peruana. O exército colombiano ocupou Guayaquil (MASUR, 1960, p. 543-547).

19 José Bernardo de Tagle, Marquês de Torre Tagle (1779-1825). Atuou como deputado nas Cortes de Cádiz até 1817. Em 1820, declarou a independência de Trujillo e, com a ausência de San Martín, assumiu o governo peruano. Foi presidente da República do Peru entre os anos de 1823 e 1824. (Dados disponíveis em: <http://www.adonde.com/historia/1823pres_torretagle.htm>. Acesso em: 25 out. 2004, 19:30.).

20 José Fernández Madrid (Cartagena, 1789 - Londres, 1830) descendeu de uma família da aristocracia criolla, seu pai e seu avô foram funcionários da corte espanhola. Exerceu as profissões de médico, jornalista e poeta. Foi responsável pelos poemas patrióticos, inspirados pela proclamação da Primeira República na Venezuela: Aos libertadores da Venezuela de 1812 e À morte do General Atanásio Girardot. A década de dez do século XIX também conheceu seus primeiros escritos políticos. Fez parte do I Triunvirato que governaria Nova Granada em 1815. Preso por Morillo, seguiu para Espanha e, no final de 1816, já estava em Havana, onde foi liberado para exercer a medicina e dedicou-se a escrever monografias científicas. De Cuba, manteve contato com Bolívar, entusiasmado pelo plano do general em intervir na situação cubana. Em 1826, de volta à Cartagena, atuou como diplomata em missões na França e Inglaterra. Depois da morte de suas filhas, faleceu em um povoado próximo de Londres, em 28 de junho de 1830, aos 41 anos de idade (Por: Gregório Delgado García. Trabalho apresentado em Havana, Cuba, 28/11/1994). (Texto disponível em: <http://www.bvs.sed.cu/revistas/his/vol_1_95/his/11195htm>. Acesso em: 02 dez. 2004, 17:00.).

21 Referia-se ao coronel irlandês, seu ajudante de campo, Belford Hinton Wilson, filho de um veterano general das guerras européias, Robert Wilson.

22 A grafia usada na carta é "Foción". Considera-se que Simón Bolívar quis aludir à Fócio, um herói grego condenado à morte em 317 a.C. por falsas acusações de traição.

 

 

Artigo recebido em 04/2009.
Aprovado em 06/2009.

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