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História (São Paulo)

versão On-line ISSN 1980-4369

História vol.31 no.1 Franca jan./jun. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-90742012000100007 

DOSSIÊ: REPRESENTAÇÕES DO MASCULINO NA HISTÓRIA

 

O imaginário sobre o militar em cartões-postais franceses (1900-1918)

 

The imaginary about the military in French postcards (1900-1918)

 

 

Marco Antonio Stancik

Professor Doutor – Departamento de História e Programa de Pós-Graduação em História – Universidade Estadual de Ponta Grosa – UEPG – Av. Gal. Carlos Cavalcanti, 4748, Uvaranas, CEP: 84.030-900 Ponta Grossa, Paraná, Brasil, E-mail: marcostancik@hotmail.com

 

 


RESUMO

Após sofrer humilhante derrota na Guerra Franco-Prussiana (1870) e ter os territórios da Alsácia e da Lorena anexados pela Alemanha, a França tendeu a alimentar intenso desejo de vingança. Situado em tal contexto, o trabalho analisa representações visuais relativas à Alsácia-Lorena e aos militares franceses e alemães, conforme veiculadas por cartões-postais produzidos e circulados na França às vésperas e durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Observa-se o emprego de imagens de caráter sentimental, nacionalista e belicoso, em sintonia com o imaginário coletivo antigermânico.

Palavras-chave: Primeira Guerra Mundial; Alsácia-Lorena; Imaginário; Cartões-Postais.


ABSTRACT

After the shameful defeat in the Franco-Prussian War (1870) and the seizure of Alsace and Lorraine, France fueled the desire for revenge against Germany. In this context, the paper analyzes visual representations concerning Alsace-Lorraine and the French and German military, as transmitted by postcards produced and circulated in France on the eve and during of World War I (1914-1918). Was observed the use of sentimental, nationalistic and bellicose images, in tune with the collective anti-German imaginary.

Keywords: First World War; Alsace-Lorraine; Imaginary; Postcards.


 

 

Introdução

No início do século XX, entre outros sentidos, a expressão cartão-postal tendeu a ser empregada como sinônimo de belas imagens de pontos turísticos, de paisagens ou vistas urbanas. Mas isso não era o suficiente para definir aquele souvenir, pois, durante a Era de Ouro dos Cartões-postais, estes tendiam ainda a apresentar imagens – e estas funcionavam como mensagens - cujo conteúdo podia ser de caráter propagandístico, político, erótico, humorístico, entre outras possibilidades (VELLOSO, 2001, p. 698; KOSSOY, 2002, p. 64-65).

A França da Belle Époque exemplifica isso, pois, no período que antecedeu o deflagrar da Grande Guerra (1914-1918) e durante o seu desenvolvimento, postais marcados pela idealização e que exibiam conteúdo patriótico e belicista foram produzidos e consumidos em grandes quantidades.

Eles enalteciam a imagem e o papel social do militar, faziam apologia ao militarismo e mesmo à guerra. Paradoxalmente, não raras vezes o faziam apresentando imagens plenas de candura, via de regra construídas a partir de românticos retratos fotográficos de homens que figuravam fardados e jovens mulheres que faziam pose, como quem procura obter segurança nos ternos e fortes braços de um militar. Em outras ocasiões, crianças compareciam fazendo pose, de forma a enfatizar esse encantamento e crença nas virtudes militares.

Seus cenários floridos, coloridos em tons suaves, contribuíam para a divulgação de uma imagem cavalheiresca e enaltecedora da guerra. Percepção esta que ainda era divulgada quando foi deflagrada a Grande Guerra, mais tarde denominada Primeira Guerra Mundial - conflito que veio a ser reconhecido como a primeira guerra moderna e a grande carnificina que deu início ao século XX. Um século verdadeiramente catastrófico, segundo descrito pelo historiador britânico Eric Hobsbawm (1995).

É necessário ter em conta, contudo, que a apologia ao uso das armas não era exclusiva da França. Às vésperas da Grande Guerra, observava-se entre os governantes europeus uma forte tendência no sentido de buscar garantir a segurança nacional mediante a superioridade militar, em detrimento do recurso à diplomacia. Ou seja, entendiam ser não apenas possível, mas necessário, alcançá-la por intermédio de crescentes investimentos na militarização, com a intensa produção de armamentos e munições, além da expansão e treinamento contínuo de seus exércitos.1

Por isso, nas palavras de Arno Mayer, o início do século XX é marcado por um evidente culto europeu à guerra. Segundo o autor:

Numa atmosfera intelectual e psicológica carregada de influências social-darwinistas e nietzschianas, a guerra era celebrada como um novo remédio que curava tudo. A violência e o sangue da batalha prometiam revigorar o indivíduo, restabelecer a nação, restaurar a raça, revitalizar a sociedade e regenerar a vida moral. Além de ser uma panacéia, a guerra era uma prova ardente que testava o vigor físico, a força espiritual, a solidariedade social e a eficiência nacional. A ideia de derrota tornou-se praticamente inconcebível, enquanto a vitória era aguardada como demonstração irrefutável da capacidade pessoal, social e política (MAYER, 1990, p. 295-296).

No presente estudo, as idealizadas representações românticas e belicistas transmitidas pelos cartões-postais franceses são analisadas tendo em vista evidenciar traços do imaginário coletivo que elas não apenas captaram, mas auxiliaram a divulgar e a reafirmar. Para tanto, foi selecionada uma pequena amostra de postais que foram produzidos e circularam na França antes e durante o conflito. Isso foi realizado mediante a análise dos exemplares pertencentes à coleção particular mantida pelo autor.2

São imagens plenas de candura e lirismo, muito ao gosto dos tempos da Belle Époque, as quais, se hoje observadas sem a devida atenção aos detalhes, parecem aludir apenas a inocentes brinquedos da infância, quando não ao romantismo de casais apaixonados. Ou, nos casos em que foi figurado o alemão, de desilusões amorosas.

Portanto, tem-se por pressuposto que a guerra não é, ou não é apenas, a continuação da política por outros meios, pois vai muito além dela, evidenciando-se como uma forma de expressão da cultura (KEEGAN, 2006, p. 18, 30). O seu fazer envolve práticas e representações que são sociais e culturais, portanto, não se explicam somente na e através da esfera política.

De tal maneira, com suas imagens e textos impressos cujo objetivo é transmitir mensagens às quais são acrescidas as manuscritas, os cartões-postais são aqui compreendidos como suportes de representações visuais. Documentação iconográfica que, por isso, pode funcionar como via de acesso a formas de organizar, ordenar e dar sentido ao mundo (SIQUEIRA; SIQUEIRA, 2011, p. 171). Ou seja, os postais são tratados como documentos cujo emprego pode tornar possível o acesso a aspectos do imaginário social (BURKE, 2004). Neste caso, daquele que ganhou forma na França, na passagem do século XIX para o XX, e que se manifestava com particular intensidade por ocasião do conflito de 1914.

Concebe-se assim que:

Imagens operam no campo do simbólico, das representações. São construções mentais, possibilitadas pela percepção dos objetos contidos nos mundos físico, social e cultural. Desse modo, a percepção do mundo exterior e objetivo – mas também interior e subjetivo – é uma das condições da construção das imagens e de sua dinâmica, o imaginário. As imagens guardam, portanto, alguma relação do mundo exterior com as consciências dos sujeitos. Não são simples cópias dos dados percebidos por nossos sentidos ou reproduções fiéis dos objetos percebidos na realidade (SIQUEIRA & SIQUEIRA, 2011, p. 172).

Assim sendo, pode-se propor que os registros fotográficos, base para a produção dos cartões-postais aqui analisados, se constituem não apenas como simples imagens com as quais se procurou captar a realidade, mas como sua construção e/ou leitura, como meio de comunicação por intermédio de mensagens de caráter não verbal, cuidadosamente elaboradas em estúdios fotográficos. Formas de expressão produzidas, tendo em vista determinados usos, individuais e/ou coletivos, e que nos revelam pistas sobre diferentes maneiras de pensar, sentir e agir. Vale insistir - mensagens de caráter não verbal que, ao serem transformadas em cartões-postais, muitas vezes com o acréscimo de mensagens escritas, exacerbam seu caráter de documentos do imaginário (BURKE, 2004; SIQUEIRA & SIQUEIRA, 2011).

 

Motivação para fazer guerra

No mês de agosto de 1914, diversas capitais europeias foram tomadas por jovens soldados que, em meio ao entusiasmo popular, carregavam as bandeiras de seus países, marchando confiantes e eufóricos para o front. Na França, onde receberam o apelido de poilus3- expressão popular e afetuosa pela qual se tornaram conhecidos os combatentes franceses que lutaram na Grande Guerra -, eles foram calorosamente saudados por escritores, acadêmicos, intelectuais, músicos, trabalhadores e donas de casa. Flores eram depositadas em seus fuzis. E assim começava a Grande Guerra.

Iniciada a mobilização, a população francesa expressou seu entusiasmo ao som da Marseillaise, bradando "Vive la France" e "Vive l'Alsace". Os militares exibiam vistosos uniformes, com suas características calças vermelhas. Os integrantes da cavalaria desfilavam com seus capacetes emplumados, portando espadas e peitorais. Suntuosos resquícios do século XIX, em sintonia com a tradicional visão romanceada da guerra, que contribuíam para o clima de festa. A crença geral era que tudo deveria se resolver com rapidez. Acreditava-se que em curto espaço de tempo os combatentes retornariam como heróis. O prazo-limite imaginado não ia além do Natal daquele ano de 1914.

Difícil, hoje, tentar compreender tal estado de espírito. Embora não seja suficiente para explicá-lo, há que se ter em consideração que a população francesa do início do século XX convivia há décadas com a ideia da revanche contra aqueles que eram pejorativamente denominados boches.4 Ou seja, contra os alemães.

Esse sentimento começou a ser gestado após 1870. Naquele ano, a derrota sofrida na Guerra Franco-Prussiana resultou não apenas na unificação da Alemanha, que se afirmou como a grande potência continental europeia, mas também em pesadas indenizações a serem pagas pela França, que perdeu ainda os territórios da Alsácia e da Lorena.5 O desejo de vingança diante da humilhação sofrida passou a ser alimentado desde então, tendendo a impregnar a política, a cultura, o imaginário coletivo - portanto, o cotidiano do povo francês.

Tal estado de espírito foi muito bem resumido por Victor Hugo, que assim expressou o ressentimento e o orgulho ferido do povo francês:

A França só terá um pensamento: reconstituir as suas forças, reunir a sua energia, alimentar a sua ira sagrada, levar a nova geração a formar um exército de todo um povo, trabalhar sem cessar, estudar os métodos e práticas dos nossos inimigos, para se tornar de novo uma grande Força, a França de 1792, a França de uma ideia com uma espada. Então um dia será irresistível. Então reconquistará a Alsácia e a Lorena. (Apud TUCHMAN, 1964, p. 41)

Para alimentar e fortalecer tais sentimentos, além das Forças Armadas da França contribuíram a Igreja, o sistema de ensino sob o patrocínio do Estado, os meios de comunicação e, não menos, o ambiente familiar. E assim, desde as últimas décadas do século XIX as crianças francesas aprendiam a manejar armas na escola primária, enquanto recitavam versos com os quais difamavam o inimigo alemão.

Conforme relato do tenente francês Robert Poustis, que combateu nas trincheiras da Grande Guerra:

Quando criança, na escola ou no seio da família, falava-se com frequência sobre as províncias perdidas – Alsácia-Lorena – que haviam sido tomadas à França após a guerra de 1870. Queríamos recuperá-las. Na escola, essas províncias eram assinaladas com uma cor especial em todos os mapas, como se estivéssemos de luto por havê-las perdido. Quando ingressei na universidade, testemunhei no meio acadêmico também esse grande sentimento de perda. Em nossas conversas, costumávamos dizer que talvez a guerra fosse iminente. Mais cedo ou mais tarde ela eclodiria, dizíamos, mas nós, os jovens da época, queríamos muito recuperar as províncias. (ARTHUR, 2011, p. 23)

A França preparava suas crianças para a vingança contra o inimigo alemão. Isso nos remete ao contexto comentado por Gérard Vincent (1994, p. 208), que aponta para a "religião da pátria" que se espraiou pelo território francês. Religião de uma pátria que se armava, sempre tendo em mente a vingança.

Mas como isso poderia figurar nos cartões-postais franceses do início do século XX? Um recurso muitas vezes empregado era propor que Alsácia e Lorena desejavam ardorosamente retornar à França. O postal reproduzido na Figura 1, expedido no ano de 1907, pode nos auxiliar a perceber isso.

No seu anverso, em imagem evidentemente construída em estúdio fotográfico, está presente um casal: um combatente uniformizado abraça uma jovem na altura da cintura e está prestes a beijá-la. Em sua mão esquerda ele porta um buquê de flores, enquanto apoia o fuzil, displicentemente, no mesmo braço. O casal está postado diante de um cenário bucólico e florido que é, na verdade, uma tela pintada que irá figurar em vários outros postais da série. Excetuando-se as calças encarnadas do militar, cuja coloração é intensa, toda a cena foi posteriormente colorida com o emprego de tons suaves.

Apesar da ênfase no sentimentalismo da imagem, evidenciado pela forma como foi construída a representação do casal e o cenário escolhido, a mensagem transmitida pelo cartão não se esgota aí. Afinal, a jovem que figura nos braços do cortês militar apresenta características muito especiais: ela é uma habitante da Alsácia. Isso é denunciado por seu traje, particularmente pelo grande laço que traz preso à cabeça. Constata-se assim que o amor expresso pelo casal é uma alegoria do sentimento alimentado na França - representada pelo militar, o elemento masculino, ativo e altivo em relação à Alsácia-Lorena - a formosa donzela que, feminina, passiva e languidamente, se faz rodear pelos braços do militar.

Para construir a mensagem, além das imagens, o cartão emprega o texto escrito. Assim, além dos trajes exibidos pelo casal, o rodapé traz legenda que acrescenta informações destinadas a orientar sua leitura. Entre outros aspectos, ele confirma as origens alsacianas da jovem e, não menos, seu desejo de reaproximação com a França. Lá está escrito: "Troquemos um beijo em frente a esta fronteira / Seja valente, bravo e forte: em você, a Alsácia deposita suas esperanças!".

Retornando à imagem, pode-se propor, além do mais, que ela indica que o pretenso desejo alsaciano de ver a França lutando para retomá-la está prestes a se realizar. Isso é sugerido pelo ramalhete de flores que o militar tem em uma de suas mãos. Elas remetem ao hábito do período de assim se representarem militares quando da partida para a guerra. Reforçam, além do mais, a imagem cavalheiresca construída a seu respeito. Entre outros significados que se podem atribuir às flores, circulava naqueles tempos a crença segundo a qual elas seriam capazes de proporcionar boa sorte aos combatentes.

Portanto, par a par com a imagem cavalheiresca do combatente, na representação se impõe a incômoda questão proporcionada pela anexação da Alsácia e da Lorena pela Alemanha. Um postal aparentemente inocente e pleno de lirismo lembrava constituir esta uma questão de honra, assunto de interesse não apenas dos combatentes, mas de toda a nação francesa, cujo orgulho fora profundamente ferido. O povo francês, bem como a população dos territórios da Alsácia e da Lorena, almejavam, de todo seu coração, reverter uma situação que durava décadas. Cartões-postais semelhantes contribuíam para impedi-los de esquecer, fomentando tais sentimentos e em busca por fazê-los permanecer vivos.

Toda a nação francesa, mobilizada por uma ética patriótica, nacionalista e belicosa, era, portanto, personificada pela imagem do militar incumbido de resgatar a desejada, inocente, formosa e indefesa Alsácia-Lorena, cujo anseio era retornar para seus braços e que, por isso, clamava por socorro. Tais sentimentos eram uma vez mais ressaltados mediante o emprego das cores da bandeira francesa - o vermelho, o branco e o azul -, que predominam na imagem.

Consciente ou inconscientemente, aquele que se deparava com a mensagem construída por imagens e palavras, conforme presentes no anverso do cartão, tomava contato com uma grande quantidade de elementos destinados a orientar seus sentimentos e ações em favor de uma causa. Elementos que estavam em sintonia com aspectos do imaginário social construído na França na passagem do século XIX para o XX.

Outro postal prenhe de exemplos com tal sentido foi manuscrito em dezembro de 1914 e é reproduzido na Figura 2. Nele, uma vez mais estão presentes as figuras de um militar francês e da formosa donzela alsaciana. A novidade é a presença de um terceiro personagem, que representa um militar alemão. A imagem traz duas cenas distintas, que tornam sua mensagem mais abrangente e enfática que o postal anterior. Se este último se restringiu a falar de uma suposta atração recíproca entre franceses e alsacianos, o cartão-postal apresentado na Figura 2 acrescenta a repulsa alsaciana à Alemanha.

A cena superior revela com clareza uma mensagem favorável à França. A imagem o faz e é reforçada pelo texto – "Française toujours". A postura corporal, a proximidade, o abraço, as mãos que se tocam, a expressão facial, entre outros elementos, repetem a mensagem transmitida pelo postal da Figura 1.

Diferente é o que se passa quando observarmos a cena inferior, na qual comparece o militar germânico. Nela, a postura e a direção assumidas pelos corpos indicam repulsão. Se o soldado se encaminha na direção da alsaciana, ela volta-lhe as costas e o afasta com a mão esquerda. Isso também é reforçado pelo texto, que propõe: "Alemande jamais".

Afeição e repulsa que estão presentes em dois postais circulados em 1907, nos quais figura não uma, mas três formosas donzelas alsacianas acompanhadas de um militar francês (Figura 3) e de um alemão (Figura 4). Note-se novamente a escolha das cores, em particular dos vestidos das jovens, que remetem às cores francesas. Observe-se ainda a postura corporal, o gestual, a expressão facial. Em relação ao alemão, as alsacianas revelam desprezo, receio, indignação, repreensão ou deboche. Suas expressões e seu gestual tendem, portanto, a demonstrar com clareza a rejeição.

 

 

 

Todos esses sentimentos são reforçados pelas legendas, presentes no rodapé dos postais. Uma delas, dialogando com a imagem da jovem de traje em cor branca e que aponta para uma placa na qual se lê a inscrição "França", exige que o soldado alemão se afaste, pois estariam em "solo francês", fazendo alusão ao território alsaciano (Figura 4).

Quanto ao francês, o simpático poilu, olhares e sorrisos denotam a atração recíproca. Sua atitude foi representada de forma extremamente favorável, no intuito de evidenciar a sedução existente entre uma insinuante França e alsacianas verdadeiramente encantadas e evidentemente receptivas. Observa-se assim que as cenas foram construídas de forma a tornar patente qual seria a opção alsaciana, caso lhe fosse possível escolher entre França e Alemanha. Segundo pode-se ler no texto e imagens do cartão-postal, tal opção seria inteiramente favorável à França.

Observa-se, contudo, que, embora não presentes na coleção analisada, mas facilmente acessíveis via internet, incontáveis postais produzidos na Alemanha também mostravam alsacianas. E elas compareciam sorridentes, aparentando satisfação e até mesmo estarem enamoradas. Contudo, em tais casos, seus sentimentos eram propostos como dirigidos não a franceses, mas a civis e militares germânicos. Isto é, à Alemanha. Assim, invertiam-se os pressupostos do discurso franco, desta vez de forma favorável aos germânicos.

 

Românticas concepções sobre a guerra e os combatentes

Voltando ao caso francês, os cartões-postais lá produzidos dialogavam com e contribuíam para reforçar um imaginário que, ao conceber a guerra, o fazia romanticamente, tendo em vista um modelo já superado ou prestes a sê-lo, o qual esteve em vigor no decorrer dos séculos XVIII e XIX. Tratava-se da guerra travada por soldados que figuravam como verdadeiros cavalheiros - embora o uso do uniforme militar, o porte de armas e o papel que lhes fora reservado os distinguissem também como homens fortes e corajosos, prontos para o autossacrifício em favor de causas consideradas nobres, dedicados a seu país e às conquistas a ele necessárias. Soldados que deveriam alcançar a vitória por intermédio da bravura e da força, do combate corpo-a-corpo, das cargas de cavalaria, prestando verdadeiro culto ao sabre e à baioneta (GUÉNO; LAPLUME, 1998, p. 9; MAYER, 1990, p. 296).

Assim, conforme resume o historiador Arno Mayer, "um oficialato aristocrático treinava regimentos de cavalaria para cargas montadas e divisões de infantaria para batalhas campais" (MAYER, 1990, p. 297). Soldados que, em lugar de trajar uniformes destinados a ocultá-los, torná-los menos visíveis no campo de combate, ostentavam orgulhosamente cores vistosas, as cores da sua bandeira!

Ou seja, o postal faz alusão e reafirma concepções segundo as quais os combates se desenvolveriam sob inteira dependência da bravura, do preparo e da disposição dos soldados, que alcançariam a vitória com suas espadas, lanças e baionetas. A Grande Guerra, mediante o largo emprego de fuzis e metralhadoras, logo em seu início demonstraria que tudo isso já fazia parte do passado, não se adequando ao modelo da guerra moderna e nada cavalheiresca a partir de então praticada (HOBSBAWM, 1995).

Isso fica muito evidente nos uniformes daqueles que figuraram nos postais como militares franceses. Uniformes que seriam empregados ainda no correr dos primeiros tempos da Grande Guerra de 1914 e que os tornariam alvos fáceis do fogo inimigo.

A longevidade do colorido uniforme adotado pela infantaria (Figuras 1, 2 e 3), composto por um curto casaco azul, utilizado mesmo sob sol escaldante (KEEGAN, 1978 p. 80), calças e quepe vermelhos, valorizando o orgulho e a vaidade militar, é mais uma evidência das concepções relativas à guerra e à carreira militar que ainda vigoravam na França naquele início de século.

Divergindo de tais concepções, outros exércitos já os consideravam inaceitáveis, diante da nova realidade da guerra. Isso porque as cores vistosas tornavam os soldados alvos facilmente visíveis à fuzilaria inimiga. Situação esta que determinou a sua substituição por tons mais discretos e capazes de confundir os combatentes com o ambiente (ARTHUR, 2011, p. 41; HERNÁNDEZ, 2008, p. 89-91; KEEGAN, 2004, p. 30, 101; TUCHMAN, 1964, p. 48; WILLMOTT, 2008, p. 53).

Apesar disso, a França insistia em dar continuidade ao uso de uniformes cuja adoção ocorreu por volta de 1830. Naquele período, lembra Barbara Tuchman, "o alcance de fogo de espingarda atingia somente 200 passos e os exércitos, combatendo a curtas distâncias, não tinham necessidade de se camuflarem". Tal manutenção, alvo de críticas também no território francês, foi assim justificada por noticiário daquele país, poucos anos antes da guerra: "Banir tudo quanto é colorido, tudo quanto dá ao soldado o seu aspecto alegre, (...) é contrário, ao mesmo tempo, ao gosto francês e à função militar" (TUCHMAN, 1964, p. 48).

Assim sendo, os combatentes trajando azul e vermelho prosseguiriam presentes nas fileiras militares e nos postais até o ano de 1915, quando foi adotada a cor cinza-azulado, bem menos ostentadora, para o uniforme militar francês. No mesmo período passou a ser empregado o capacete em substituição ao quepe. Afinal, este último era um acessório decorativo, mas incapaz de oferecer qualquer proteção aos combatentes (KEEGAN, 2004; WILLMOTT, 2008; HOWARD, 2010).

Percebendo sua obsolescência, ou mesmo seu caráter nocivo, o sargento inglês Thomas Painting relatou a impressão proporcionada pela visão dos exuberantes uniformes e adornos adotados pelos franceses, quando do início da guerra de 1914. Conforme registrou, anos após o final do conflito: "Fiquei surpreso ao dar com os olhos neles e ver o seu fardamento exótico. Sua cavalaria entrava em combate usando armaduras e capacetes emplumados; a infantaria usava calças vermelhas e um sobretudo azul, além de ostentar as medalhas conquistadas na campanha da África" (ARTHUR, 2011, p. 53). Acrescente-se ainda que, em 1914, as tropas francesas mantinham a prática de desfraldar bandeiras, enquanto seus combatentes atacavam ao som de cornetas e tambores (KEEGAN, 2004, p. 130).

O preço pago pelos franceses por insistir em adotar tais procedimentos e por seu descaso inicial com a camuflagem e o gosto pela profusão de ornamentos foi alto:

Os cavaleiros franceses, com suas espadas em mãos, caíam, destruídos pelas metralhadoras. A infantaria, uniformizada em vistosas calças vermelhas e quepes azuis, foi aniquilada pela artilharia pesada e as armas automáticas. Os últimos vestígios das guerras napoleônicas estavam destruídos pela potência das armas de fogo recém-saídas das fábricas alemãs. Em apenas 20 dias, 300 mil soldados franceses haviam perdido a vida na denominada batalha das Fronteiras (HERNÁNDEZ, 2008 p. 43). 7

O suntuoso uniforme adotado pelos combatentes franceses integrantes da cavalaria, que tanta surpresa proporcionara ao sargento inglês, pode ser observado em outro cartão do período, postado em 31 de agosto de 1915 e reproduzido na Figura 5. Nele, além das calças encarnadas, estão presentes o capacete emplumado, o peitoral, a espada, as lanças. Recursos que, diante daqueles adotados após 1914, transformaram-se em simples adornos, desnecessários, quando não prejudiciais, no contexto da guerra de trincheiras que então se estabeleceu.

 

 

A guerra moderna, inaugurada com a Grande Guerra, substituiu sua versão romântica, de forma decisiva e impiedosa. Por isso, entre 1914 e 1918, tanto no front quanto nos cartões-postais, a metralhadora inimiga e todas as inovações que a acompanhavam - tornando a guerra algo distinto daquilo que até então se concebia - contribuíram para eliminar tais insistências, tão valorizadas por militares e civis franceses.

Portanto, na representação dos militares franceses há que se considerar que a idealização não era obra de mentores que se encontravam circunscritos aos estúdios que produziam os cartões-postais. Diferente disso, estes foram elaborados de forma a se coadunar com elementos constituintes do imaginário coletivo que, em intenso diálogo com modos de pensar, sentir e agir característicos do século XIX, permeavam a sociedade francesa de então.

Por isso, pode-se afirmar que estes seriam os derradeiros cartões-postais românticos a fazer alusão à última guerra romântica, ou que assim tendeu a ser percebida, particularmente em seus momentos iniciais. Uma vez que, após o período de 1914 a 1918, tais construções não mais se adequariam a sua representação, tendo deixado de corresponder ao imaginário coletivo relativo aos campos de batalha e aos destemidos soldados - homens exuberantemente fardados, que portavam espadas e capacetes fartamente decorados. Tais combatentes não mais poderiam figurar como personagens - heróicos personagens - em plena Era do Massacre (cf. HOBSBAWM, 1995).

 

Imagens do boche: combatê-lo desde a infância

Por sua vez, o soldado germânico também compareceu em postais franceses do período em outras situações, além daquelas já apresentadas (Figuras 2 e 3). Mencionando-o em certas ocasiões como boche, as mensagens estampadas nos postais esmeravam por depreciá-lo. Isso se deu antes da guerra como durante todo seu desenvolvimento. Evidentemente, não apenas por intermédio dos cartões-postais.

Para construir sua imagem de forma depreciativa, além de expressões como boche ou "vil prussiano" (Figuras 6 e 7), os cartões-postais primavam por tentar fazê-lo assim ser apresentado. Ao final de 1914, foi remetido um postal cuja imagem era acompanhada da afirmação: "O boche morre de imediato no Aisne" (Figura 6). O texto ridicularizava a ameaça que as tropas germânicas representavam na região do Aisne, Departamento situado ao norte da França, cortado por rio de mesmo nome e que, em setembro daquele ano, já fora palco de combates.

 

 

 

Contudo, diferentemente da euforia expressa pelo postal, os resultados obtidos pela França, assim como pela Alemanha, não podiam ser considerados verdadeiramente favoráveis. A França, por sinal, tivera o norte ocupado até a linha do rio Aisne (TUCHMAN, 1964, p. 398).8

Desconsiderando tal situação, a imagem do postal expunha uma versão totalmente favorável aos franceses. Estes eram apresentados plenos de confiança, vitoriosos, diante de um impotente combatente alemão que figurava prostrado, completamente incapaz de esboçar reação. É muito evidente o contraste produzido pela expressão desdenhosa do francês que aparece em pé, altivo, com um discreto sorriso, em relação ao alemão, cujo olhar é assustado, revelador de completa fragilidade e impotência. O mesmo pode ser dito em relação à postura corporal de ambos, que estabelece uma intensa assimetria, cuja leitura propõe a superioridade da França de maneira incontestável perante uma Alemanha quase totalmente incapaz de esboçar um mínimo gesto de defesa.

Em suma, o combatente alemão é desqualificado por meio de palavras e imagens. Denominá-lo boche é desqualificá-lo com palavras não apenas como um soldado, mas como um ser humano inferior, indigno. Isso é reafirmado pela imagem, que o apresenta como um indivíduo que, propondo-se a combater, não se revela capaz de fazê-lo, sofrendo inquestionável e vexatória derrota. Por isso, a cena parece concretizar o antigo desejo de devolver a humilhação sofrida pela França no ano de 1870. Faz que, aos olhos daquele que contempla o cartão-postal, repentinamente se realize algo há muito almejado, de forma plena e incontestável.

Apesar disso, a guerra que tivera início havia poucos meses apenas começava a evidenciar uma de suas faces mais sangrentas, que ficou conhecida como guerra de trincheiras. E iria se arrastar ainda por longos quatro anos, sem vencedores nem vencidos. Durante esse tempo, em momento algum tais expectativas de glória se concretizaram. Tampouco viria a se declarar quando um dos lados foi finalmente reconhecido como vitorioso. A sensação que então se estabeleceu é que todos haviam perdido...

A Figura 7 reproduz postal manuscrito em data muito próxima da do anterior, e em vários aspectos se revela similar em sua mensagem. Nela, se insiste no trabalho de aviltamento do inimigo germânico. Contudo, se na Figura 6 este último aparece prostrado, agora ele figura imobilizado e de joelhos. Sua postura é a de quem suplica por clemência, totalmente incapaz de reação, totalmente derrotado. A legenda e a cena são enfáticas em afirmar sua incapacidade de chegar até Paris, a qual é representada, ao fundo, pelo inconfundível contorno da Torre Eiffel.

Para proteger Paris - ou seja, a França - do boche e combatê-lo com a força necessária, o aprendizado deveria ter início muito cedo. Acreditava-se que o espírito aguerrido e hostil ao inimigo germânico deveria nascer e crescer junto com a criança. É o que sugerem os postais reproduzidos nas Figuras 8 e 9, manuscritos e postados, respectivamente, no correr dos anos de 1915 e 1916.

 

 

 

Na Figura 8, temos uma imagem que remete ao ambiente doméstico, familiar. Nele, figura um pequeno e atento menino que traja uniforme militar e que, em sua mão direita, exibe uma pequena arma de brinquedo. Sua atenção é totalmente dirigida a uma senhora de cabelos brancos, que se serve de uma vassoura. Por seu intermédio, se demonstra ao jovem como se deve "apresentar armas", conforme somos informados pelo texto presente na legenda. Ela porta também um quepe militar e, na cintura, uma faixa que remete às cores pátrias, que não deixam dúvidas quanto à bandeira que ela ensina a defender.

Civil, idosa, mulher, podemos nos questionar: mesmo prestando-se ao papel de ensinar ao menino a arte militar, estaria ela impedida ao acesso às armas, elemento que remeteria ao sexo viril? A imagem presente no anverso do cartão-postal parece sugerir que a resposta é sim. Ou seja, a ela, mesmo que impregnada pelo espírito militarista, caberia o espaço doméstico e o afastamento das práticas militares.

Ao mesmo tempo, a criança que é instruída por sua avó - é o que ela aparenta ser, com seus cabelos brancos - na arte de manejar armas de fogo, o que nos remete ao contexto abordado por Gérard Vincent (1994, p. 208), que discorre a respeito de uma verdadeira "religião da pátria" que teria se espraiado por todo o território francês. Religião de uma pátria que se armava, preparando a vingança contra o inimigo alemão, desde os primeiros anos da sua infância, inclusive no ambiente familiar.

É como se o postal nos colocasse diante de uma idosa contemporânea do desastre de Sedan - a imperdoável e inesquecível derrota sofrida na Guerra Franco-Prussiana - e de tudo que lhe sucedeu, no exato instante em que ela transmitia às novas gerações - personificadas pelo jovem com sua arma de brinquedo - a responsabilidade de sanar aquela angústia que a acompanhava nas últimas décadas.

E, de fato, estudos indicam que as trincheiras da Grande Guerra estiveram repletas de jovens combatentes que, no momento de partir para o front, levavam consigo a certeza de que finalmente chegara o momento de cumprir tão patriótica e irresistível missão (KEEGAN, 1978, 2004; TUCHMAN, 1964).

É o que representa o pequeno menino aviador do postal reproduzido na Figura 9. Com sua expressão impassível, ele simplesmente observa a aeronave alemã, um biplano que ele acabara de abater. Abaixo dele, a legenda faz insultos ao boche. O pequenino poilu cumpriria seu dever. A França poderia contar com ele!

Não deviam restar dúvidas quanto à identidade daquele que era apontado como o verdadeiro inimigo da França, nem quanto aos métodos a serem empregados para abolir sua presença. Soldados engalanados em seus coloridos e patrióticos uniformes, belas donzelas alsacianas, crianças doutrinadas em favor de uma causa, todos contribuíam, nas cenas dos coloridos cartões-postais franceses, para relembrar isso a todo instante.

 

Considerações finais

Em sua simplicidade, as cenas veiculadas pelos cartões-postais analisados nos colocam em contato com sentimentos, desejos e memórias coletivas que, nos meses iniciais da Grande Guerra, ajudaram a estimular a participação dos combatentes franceses. Como vimos, de forma tanto quanto voluntária e eufórica ou, como propõe Gérard Vincent (1994, p. 208), que expressava um ingênuo ardor patriótico.

Afinal, na França, o século XX teve início sob o intenso desejo de se retaliar a humilhação que lhe fora imposta pela Alemanha, algumas décadas antes. Sentimento este alimentado por muitos cartões-postais produzidos no período. No entanto, embora fizessem apologia à guerra, apresentaram-na por intermédio de cenas românticas, que se caracterizavam pelo sentimentalismo e delicadeza, divulgando uma imagem cavalheiresca e enaltecedora a seu respeito, em termos que ainda seriam empregados durante o conflito iniciado em 1914.

Observe-se, ao mesmo tempo, que tal esforço não ficou restrito ao emprego de postais, podendo ainda ser observado na emissão de cartazes de propaganda, selos, panfletos, entre tantos outros recursos não abordados no presente trabalho e que também extrapolam seu recorte temporal. E assim foi travada outra forma de guerra, a qual concorreu também para estimular sentimentos favoráveis ao conflito armado. Ou seja, tal empreendimento, destinado a manter na ordem do dia o desejo de revanche - em meio a muitos outros elementos que também contribuíram em tal sentido -, ajudou a manter acirrados os ânimos entre os países vizinhos.

No caso específico dos cartões-postais, cumpriram eles o papel de verdadeiros souvenirs, em pelo menos duas acepções que se aplicam ao termo. Afinal, suas funções iam muito além daquelas que os faziam funcionar como pequenas dádivas ou presentes. Elas estavam também ligadas à memória, à recordação, à lembrança, ao não esquecimento, tendendo a afirmar: "je m'en souviendrai", que quer dizer: "lembrar-me-ei disso", "vingar-me-ei"! Aliadas, ambas as funções conjugaram-se de forma intensa, mas ao mesmo tempo, discreta, quase imperceptível, em torno daqueles elementos presentes no imaginário coletivo francês da passagem do século XIX ao XX.

Assim, no momento de sua produção, os postais franceses bem como seus similares estrangeiros auxiliaram na difusão de um discurso de caráter patriótico, nacionalista, ufanista, heróico, intenso e, ao mesmo tempo, extremamente delicado, pleno de sentimentalismo, emotivo, literalmente pintado com cores suaves. A guerra foi então enaltecida e abordada delicada e, diante dos novos tempos, ingenuamente, como nunca mais voltaria a ser.

Essas cores suaves emprestaram ao poilu aqui apresentado uma aparência condizente com o ideal cavalheiresco do combatente: um jovem polido, cortês, civilizado, embora forte e corajoso, sempre disposto para a luta. E assim, nas imagens analisadas não figurou o poilu barbudo, rude, que também esteve presente em postais do mesmo período, de forma talvez mais condizente com o sentido que lhe foi atribuído ainda nos tempos napoleônicos. Mas ele, embora talvez fosse igualmente mais próximo da imagem dos combatentes que experimentaram as agruras das trincheiras da Grande Guerra, não era, provavelmente, o mais adequado às ternas representações daquele que deveria resgatar as desejadas donzelas da Alsácia e da Lorena.

 

Notas

1 Sobre o caso germânico, talvez o mais notável no período, consultar Tuchman (1964).

2 A coleção que forneceu a base documental para o presente estudo é composta por 188 cartões-postais datados das vésperas, ou do contexto, da Grande Guerra, sendo 136 deles produzidos e circulados na França e 52 de origem alemã. Os postais alemães não serão analisados no presente trabalho. É grande a quantidade de postais franceses similares disponíveis na internet, os quais, embora não sejam referenciados, foram utilizados subsidiariamente, de forma a ampliar as possibilidades das reflexões aqui propostas. A título de exemplo, podem ser consultados os sites: http://www.retronaut.co/2011/10/french-postcards-wwi/; http://www.greatwar.nl/frames/default-romantic.html.

3 O termo poilu já era utilizado no período napoleônico, em alusão ao aspecto rústico dos combatentes, cujas barbas e bigodes eram tidos como atributos da virilidade conferida aos antigos gauleses. Seu significado literal é "peludo", "cabeludo", com conotação de "homem forte", "valente", "bravo", "corajoso". Ao mesmo tempo, tem relação com a aparência daqueles que retornavam do front, com a barba por fazer e calejados pelo sofrimento (PROST; VINCENT, 1994, p. 208; ARTHUR, 2011, p. 100).

4 Boche era termo pejorativo empregado na França para fazer referência aos alemães, de forma a apresentá-los como seres inferiores, toscos, pouco civilizados (HERNÁNDEZ, 2008, p. 47).

5 A Alsácia-Lorena, uma vez dominada pela Alemanha, passou a ser denominada Reichsland. Constituíam elas ricas regiões, tanto pela fertilidade dos solos quanto pela disponibilidade de recursos, como a hulha e o ferro. Segundo Willmott (2008, p. 30), "especialmente irritante para os franceses era o fato de que os vastos depósitos das minas de ferro da Lorena ajudavam a construir as florescentes indústrias de armamentos da Alemanha". Tão forte era o apelo proporcionado pela questão dos territórios tomados pela Alemanha que, no início de agosto de 1914, revidando à invasão alemã à Bélgica, o general Joseph Joffre, comandante-em-chefe das forças francesas, optou por responder mais ao sul. Ou seja, pretendendo atender ao clamor da opinião pública, desferiu sua ofensiva em direção à Alsácia-Lorena (HOWARD, 2010, p. 51).

6 Todos os cartões-postais analisados e cujas imagens foram reproduzidas pertencem a acervo mantido pelo autor, razão pela qual tal informação não constará nas demais legendas a eles alusivas.

7 Diferente daquilo que é proposto por Hernández, no trecho transcrito o quepe dos integrantes da infantaria francesa era de cor vermelha, conforme pode ser observado nas Figuras 1, 2 e 3.

8 A Primeira Batalha do Aisne ocorreu entre 12 e 28 de setembro de 1914. Sobre o assunto, consultar WILLMOTT (2008, p. 55-62).

 

Referências bibliográficas

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Recebido em Maio de 2012.
Aprovado em Junho de 2012.