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História (São Paulo)

versão On-line ISSN 1980-4369

História vol.36  Franca  2017  Epub 22-Jun-2017

http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920170000000008 

Artigos Livres

A legenda Beati Petri Gundisalvi: reflexões sobre a relação entre a Ordem dos Pregadores, a Diocese de Tui e a escrita hagiográfica

The Legenda Beati Petri Gundisalvi: reflections on the relationship between the Order of Preachers, the Diocese of Tui and the hagiographic writing

Andreia Cristina Lopes Frazão da Silva1 

1UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro, andreiafrazao@pr2.ufrj.br

RESUMO

A Legenda Beati Petri Gundisalvi (LBPG) apre senta a trajetória do frade dominicano Pedro González, mais conhecido atualmente pelo nome Telmo. Baseado na discussão de aspec tos relacionados à redação desta Vita, tais como transmissão, conteúdo, datação e patrocínio, o principal objetivo deste artigo é contribuir para o estudo da presença dos frades pregadores na diocese de Tui, no século XIII. Apesar de já ter sido alvo de alguns estudos, ainda existem mui tas dúvidas sobre o processo de produção da LBPG. Além disso, em face da carência docu mental sobre a presença mendicante na Galiza, no século XIII, a referida obra não foi analisada com o intuito de relacionar a sua produção às relações estabelecidas entre frades prega dores, leigos e clérigos seculares no Noroeste peninsular no primeiro século mendicante. No decorrer do artigo, são apresentados argumen tos que buscam sustentar que a redação da referida hagiografia está conectada às relações estabelecidas entre a Catedral, o Cabido, o Concello e os frades dominicanos na diocese de Tui, em meados do século XIII, o que con figura esta obra como um testemunho singular.

Palavras-chave: Galiza; Tui; Catedral; Dominicanos; Hagiografia; Século XIII

ABSTRACT

The Legenda Beati Petri Gundisalvi (LBPG) presents the trajectory of the Dominican friar Pedro González, better known today by the name of Telmo. From the discussion of aspects related to the writing of this Vita, such as trans mission, content, dating and patronage, the main purpose of this article is to contribute to the study of the presence of the friars preachers in the diocese of Tui in the thirteenth century. Although it has been the aim of some studies, there are still many doubts about the LBPG´s production process. Moreover, given the docu mental lack of the mendicant presence in Gali cia in the thirteenth century, this text was not analyzed in order to relate its production to relations between the friars preachers, laymen and secular clergy in the peninsular Northwest in the first mendicant century. Throughout the article, I present arguments seeking to sustain that the composing of that hagiography is con nected to the relations established between the Cathedral, the Cabildo, the Concello and the Dominican friars in the Diocese of Tui in the mid-thirteenth century, what constitutes this work as a singular testimony.

Keywords: Galicia; Tui; Cathedral; Dominicans; Hagiography; XIIIth Century

Introdução

A Legenda Beati Petri Gundisalvi (LBPG), também denominada como Vita S. Pe tri Cundisalvi (BAÑOS VALLEJO, 2003, p. 208), Vita Sancti Petri Gundisalvi O. P. Tudensis (GARCÍA DE LA BORBOLLA, 1999-2000, p. 342) ou Legenda B. Petri Confessoris, Ordinis Praedicatorum (GALMÉS, 1991, p. 205), narra eventos relacionados à vida e aos milagres de Pedro González, que, a partir do século XVI, passou a ser denomina do como Pedro González Telmo ou somente Telmo. Por meio das informações presentes nesta obra, é possível traçar uma breve biografia de Pedro González. Ele nasceu por volta de 1190, em Frómista, localidade do Reino de Castela. Foi educado na escola da Sé de Pa lência, tornando-se, posteriormente, membro do cabido da catedral, chegando a alcançar o cargo de Deão. Por volta de 1220, ingressou na Ordem dos Pregadores e, após novos estudos, passou a dedicar-se a pregar e a ouvir confissões. Primeiramente, atuou como capelão junto às tropas castelhanas em Andaluzia, em expedições lideradas pelo rei Fer nando III. Posteriormente, dirigiu-se para a Galiza, onde continuou sua obra pastoral como pregador itinerante em várias localidades, vindo a falecer na cidade de Tui, em 1246, onde foi sepultado na catedral local.

O principal objetivo deste texto é contribuir para o estudo da presença dos frades pregadores na diocese de Tui, no século XIII, a partir da discussão de aspectos relaciona dos à redação da LBPG, tais como transmissão, conteúdo, datação, patrocínio, etc. Esta meta se justifica por dois motivos principais. Em primeiro lugar, a LBPG tem sido explorada pelos biógrafos de Pedro González e por aqueles que investigam sobre o seu culto, tais como Galmés (1991) e Vila-Botanes (2009b), bem como pelos que têm como escopo o estudo da hagiografia ibérica medieval e o impacto dos mendicantes nos ideais de san tidade, como Fernández Conde (2000) e García de la Borbolla (1999-2000, 2001, 2008, 2011). Contudo, ainda existem muitas dúvidas sobre o processo de produção da LBPG e o seu potencial como testemunho de uma dada conjuntura ainda não foi totalmen te explorado. Este motivo se vincula ao segundo, pois, como sublinha Graña Cid (1999, p. 177), há uma carência documental sobre a presença mendicante na Galiza, na primeira metade do século XIII, porém, a despeito dessa escassez, a LBPG não foi estudada com o intuito de relacionar a sua produção às relações estabelecidas entre frades pregadores, leigos e clérigos seculares no Noroeste peninsular, no primeiro século mendicante.

Transmissão manuscrita e edições da LBPG

A LBPG foi transmitida por um códice medieval que se encontra no Arquivo Capitular Diocesano de Tui, no Fondo Arquivo Capitular, conhecido como Pasionário. O manuscrito contém 292 fólios em pergaminho, com 457mm por 293 mm (SUAREZ GONZÁLEZ, 2009, p. 11). A LBPG foi copiada em 10 fólios, 257r. a 261v., subdividida em 15 partes, em tinta preta e com os subtítulos em vermelho. Nas letras capitulares usou-se o vermelho e o azul.

A primeira capitular possui destaque: é maior e decorada com motivos geométricos. As demais são simples. Não há iluminuras.¹

Não foram encontrados trabalhos que discutiram sobre a datação desta cópia. En rique Flórez (1767, p. 169) afirma que “es de letra del Siglo XIV, con forma usada en el antecedente, aunque no tan suelta”. O autor não apresenta argumentos para justificar sua afirmação, a não ser mencionar que Ambrosio de Morales² considerou que o texto possuía, por volta de 1572, mais de 200 anos (FLÓREZ, 1767, p. 170). No site do Arquivo Capitular Diocesano de Tui, o Pasionario é entre os séculos XII e XIII.³ O problema se coloca porque, como destaca Suarez González, esse códice tem duas partes: a primeira, o núcleo inicial, datado entre os séculos XII-XIII; e a segunda, que contém materiais diversos, que foram compostos em diferentes datas. A LBPG encontra-se nesta segunda parte, junto a outros materiais relacionados a Pedro González. A partir da datação proposta pelo Arquivo e da observação de Flórez de que a letra utilizada na cópia possui a forma usada no século XIII, conforme transcrição acima, considero que o manuscrito pode ser datado entre o final do século XIII e início do XIV.

O Pasionário não contém a LBPG completa, pois um fólio se perdeu. Quando Flórez teve acesso ao mansucrito medieval, no século XVIII, ele já estava incompleto. O historia dor informa que utilizou, para a redação de sua notícia sobre Pedro González, uma versão completa desta Vita então existente na Confraria de Bayona (FLÓREZ, 1767, p. 145). Cabe ressaltar que não foram localizadas outras notícias sobre esta cópia, salvo a informação de Flórez. O texto integral da LBPG ainda pode ser conhecido por uma cópia presente no Libro Becerro I da Catedral Tudense, datado do século XVI (NOVO SÁNCHEZ, 2006, p. 202).

A LBPG já foi objeto de duas edições impressas. A primeira foi publicada por Enrique Flórez no tomo 23 de sua España Sagrada, em 1767, baseada no manuscrito medieval. A segunda é uma tradução para o espanhol feita pelo historiador tudense Suso Vila, lançada em 2009, com base no texto fixado por Flórez. No decorrer da pesquisa não foram encon tradas informações sobre edições críticas da LBPG pautadas em estudos codicológicos, filológicos, literários e historiográficos.

Apesar de conhecida pelos bolandistas, pois a legenda foi incluída na Bibliotheca hagio graphica latina antiquæ et mediæ ætatis, sob o número 6711 (SOCIÉTÉ DES BOLLANDISTES, 1898-1901, T. 2, p. 976), não foi publicada nos Acta Sanctorum. Esta obra também compõe o inventário da hagiografia castelhana medieval elaborado por Baños Vallejo (2003) e o referen te à hagiografia ibérica (XI ao XIII), organizado no âmbito do Programa de Estudos Medievais da UFRJ.

Conteúdo, características formais e possíveis fontes da LBPG

A LBPG apresenta algumas características e episódios que têm como objetivo exaltar a figura de Pedro González e apresentá-lo como intercessor dos fiéis perante Deus. Como já sublinhado, o manuscrito da obra subdivide-se em 15 partes, provavelmente para ser lida em etapas. Seguindo a numeração dessas leituras é que, no presente artigo, serão feitas as referências ao texto.

A LBPG inicia com uma espécie de prólogo, no qual é destacado que o frade da Or dem dos Pregadores é um dos muitos santos que surgiu na Igreja para brilhar em meio aos perigos (leitura 1). De forma sintética, na leitura seguinte (2), o texto apresenta as origens familiares de Pedro, sua primeira educação e seu ingresso no cabido da catedral palentina, finalizando com a informação de que ele havia sido designado pelo próprio papa para ser Deão da diocese. Na leitura 3 é relatado um episódio qualificado como vergonhoso no texto: em um passeio pelas ruas de Palência, o jovem, ricamente trajado, cai do cavalo. Impactado por esse episódio, ele decide abandonar as vaidades do mundo e ingressar na vida religiosa.

A próxima leitura dedica-se a caracterizar a Ordem, reconhecida pelo papa Honório III em 1216, como pobre (pauperrimum Praedicatorum Ordinem) e repleta de servos de Deus (Dei famulus) que haviam abandonado a impureza (immundum evenerant) e espalhavam o odor da admirável santidade (odorem mirandae sanctitatis). É também sublinhado o im pacto sofrido pelo Santo com a entrada na ordem dominicana (leitura 4). Assim, a legenda destaca que, ao ingressar na Ordem, Pedro González voltou a estudar, dedicando-se à Sacra Teologia, para preparar-se para pregar (leitura 5). A LBPG, então, associa as mudanças de vida do novo frade à imitação de Santo Domingo de Gusmão, o fundador da Ordem dos Pregadores (leitura 6).

O fervor para ouvir as confissões é o tema da leitura seguinte (7), que realça como Pedro González preocupava-se com os fiéis e não media esforços para atendê-los, inde pendentemente do “status, conditionis & aetatis” (estado, condição e idade) do pecador, mesmo que ele fosse solicitado na hora da refeição.

Nas leituras subsequentes é informado que, em virtude da fama alcançada, Pedro González foi convidado pelo rei Fernando de Castela para acompanhá-lo na luta contra os muçulmanos ao sul da península. Mas esta aproximação ao monarca despertou dúvidas e inveja, o que motivou algumas pessoas a testá-lo. A legenda narra, então, dois episódios muito semelhantes, nos quais mulheres, com a desculpa de que queriam confessar seus pecados, aproximaram-se do santo e tentaram seduzi-lo. A narração sublinha que ele re sistiu às tentações. Desta forma, todos comprovaram sua retidão (leituras 8 e 9).

O monumento hagiográfico relata, então, quatro milagres realizados pelo santo: a multiplicação de vinho (leitura 10); a aproximação dos peixes para oferecerem-se como alimento e receber a benção de Pedro, enquanto ele caminhava pela margem do rio Minho (leitura 11); a aparição de comida para seus companheiros de viagem que estavam famintos (leitura 12); e a proteção do povo, que viera ouvir a sua pregação, de uma tempestade vinda do mar (leitura 12).

Nas leituras 11 e 12, além da narração dos milagres, é sublinhada a disposição de Pedro González para servir a população por meio da construção de pontes. Segundo o relato, com muita técnica (indústria nímia), edificou pontes, aproveitando a ocasião também para pregar. O texto informa que, nesta tarefa, o frade foi apoiado pelo rei Fernando III, que solicitou aos poderosos da terra que o ajudassem, mas também acrescenta que o próprio Pedro continuamente pedia esmolas.

Ao final da leitura 12 há um discurso fictício atribuído ao protagonista, no qual informa que seu companheiro teve um sonho e que nele Jesus se queixava, porque Pedro Gonzá lez permitia que as pessoas o seguissem por dias, por um extenso território. Assim, exorta o povo a deixar de acompanhá-lo. O discurso continua na leitura seguinte, a 13, e nele o Santo prediz que a sua morte estaria próxima e, por isto, pede aos devotos que intercedam por ele.

A partir desta leitura a trajetória do Santo é associada a Tui, cidade da Galiza, localizada às margens do rio Minho. É informado que Pedro González havia passado a Semana Santa nesta cidade, pregando na Catedral, mas ficou doente. Resolveu, por conseguinte, ir para

o convento de Santiago, contudo, por estar enfraquecido, acabou retornando. A narração sublinha que Pedro foi um presente dado à cidade por Deus (quam Deus Pater dignatus est tam pretioso dotate talento). O relato afirma, então, que o frade ficou hospedado em uma casa. Ele anunciou para o seu anfitrião que se tornaria o intercessor da cidade após a sua morte (ut meis precibus & meritis civitas ipsa ... protegantur) e entregou a ele o seu cinto, como recompensa por todo o trabalho dispensado para com ele, indicando que o objeto seria uma relíquia no futuro. Avançando no tempo, a narrativa informa que o homem que hospedara Pedro e recebera o cinto, tentou, sem sucesso, dividir a relíquia para doar uma parte à Catedral. Como não foi possível, ele resolveu entregá-lo à Sé tudense, que, ainda segundo a LBPG, já guardava outras relíquias do Santo.

A legenda informa, na leitura 14, que Pedro González faleceu em 1246, entrando ime diatamente no céu. É assinalado que o então bispo tudense, Lucas de Tui, participou de suas exéquias e ordenou que o frade fosse sepultado na Catedral, em local de honra, entre o coro e a porta principal (inter chorum & portam principalem). Também é relatado que Lucas morreu poucos anos após o santo e pediu para ser enterrado ao seu lado. Contudo, com o passar do tempo, segundo a narração, as sepulturas se separaram sem ação humana (cum sepulturae amborum à principio satis conjunctae fuerint, inventae sunt postmodum ac visibiliter quaque die inveniuntur distare amplius).

A leitura 15 destaca que foram muitos e variados os sinais da virtude de Pedro Gonzá lez. Entre os quais é salientado que de seu túmulo vertia um óleo que era guardado pelos clérigos da catedral como relíquia (quod oleum videlicet de ejus tumba ad oculos omnium). Para reforçar a veracidade desta informação, é apresentado um marinheiro, Xoán Enchanes de Castro que, apesar de devoto, duvidava de que do túmulo do frade saísse óleo. Um dia, enquanto celebrava vigílias próximo ao sepulcro, o óleo começou a minar e foi recolhido por ele mesmo.

Inicia-se, logo a seguir, o relato de outro milagre, mas como um fólio perdeu-se, a narrativa finaliza de forma abrupta.

A LBPG foi redigida em latim e em prosa. Em virtude da subdivisão do texto manuscri to, marcada por subtítulos, provavelmente foi composta ou adaptada para leitura pública no Ofício Divino (FLÓREZ, 1767, p. 169; GALMÉS, 1991, p. 206-207). As leituras possuem, porém, estilos de redação diversos, como destaca Galmés em seu trabalho (1991, p. 209), ainda que não desenvolva a sua argumentação.

Nas sete primeiras, o texto centra-se na caracterização de Pedro. Não há outros per sonagens interagindo com ele. O tom é sóbrio, destacando as qualidades do santo de for ma didática, com uma evidente intenção modelar. Desta forma, na narrativa abundam os adjetivos para realçar as virtudes e as boas ações do protagonista. Como exemplo tem-se que, após informar que Pedro ingressara na Ordem dos Pregadores, o texto destaca que ele “persistia insistentemente na oração dia e noite, do mesmo modo que desde o início do in gresso portava-se nos costumes da ordem” (orationi die noctuque vigilantissime insistens, quemadmodum à principio ingressus ordinis in consuetudinem duxerat).

Nessas leituras iniciais Pedro González é comparado a figuras bíblicas. Segundo a LBPG, portanto, o frade era engenhoso (ingeniosus) como Salomão; como Pedro, dispôs -se para Deus (disponente Deo); abraçou a extrema pobreza como um escravo de Abraão (amplectens extremam paupertatem); como Judas Macabeu, era um atleta de Deus (Dei athleta), e levantou as mãos para o céu para pedir ajuda celeste como Moisés (manus ca elestis impetrandi auxilii in Caelum elevans).

Também são encontradas nessas lectiones menções diretas e indiretas aos autores eclesiásticos e às escrituras. Destarte, logo no prólogo, é assinalado que “o egrégio doutor Gregório disse” (doctor egregius tradit Gregorius): “do justo Abel até o último eleito” (ab Abel justo usque ad ultimum electuum), expressão retirada da obra Homiliarum in Evange lia. E para enfatizar que Pedro González, quando menino, além de inteligente (ingeniosus) era dotado de uma boa alma, é feita uma referência ao texto bíblico presente em Sabedoria 8, 19.

A partir da leitura 8, os textos tornam-se mais longos e adquirem caráter mais nove lesco, relatando intrigas, tentativas de sedução do dominicano, viagens, milagres, etc. A própria forma de tratamento do protagonista também muda e ele passa a ser referenciado no texto como frater Petre. São incorporadas às narrações personagens que se relacionam com o frade. Neste sentido, nas leituras desfilam companheiros do pregador; o rei Fernan do III; mulheres maliciosas; clérigos seculares, e até multidões.

Um recurso presente nestas leituras é o diálogo. Um exemplo do uso desta estratégia é a conversa relatada entre Pedro e uma ama de chaves de um clérigo. O frade, com calor e sede, pede uma bebida à mulher, que hesita auxiliá-lo por temer reprimendas de seu patrão que saíra, mas pedira que o pouco de vinho que havia na casa fosse guardado para ele consumir ao retornar.

Outro elemento textual utilizado são as descrições. Desta forma, ao relatar um dos episódios no qual o santo é tentado por uma mulher, é feita uma descrição da fisionomia e temperamento de Pedro: ele era baixinho, mas possuía um aspecto agradável; era suave nas conversas, tinha um rosto alegre e era honesto.

Por fim, vale destacar que em uma única leitura dessa segunda parte da obra Pedro é comparado a um personagem bíblico: Eliseu. Segundo a narrativa, como esse profeta, o frade estava cheio do espírito de Elias (spiritu Eliae replebatur).

A LBPG foi elaborada por meio de memórias orais transmitidas sobre Pedro González, como a própria obra registra ao destacar que se baseia em testemunhos fiéis dos compa nheiros do santo (testimonio fideli sociorum). Além dessas informações de caráter mais específico, certamente esta obra foi influenciada pela Legendae Sancti Dominici, obra que apresenta a vida e milagres de Domingos de Gusmão, o fundador da Ordem dos Pregado res, canonizado pelo papa em 1234.

Galmés (1991, p. 207) defende que a LBPG também se inspirou na “síntesis biográfica que el Obispo diocesano envió al Capítulo General de Tolosa, doce años después de la muerte del Siervo de Dios, acompañado uma relación de milagres atribuídos a su inter cesión”. A relação de milagres a que o autor se refere é o registro do inquérito sobre os milagres atribuídos a Pedro González que foram coletados por mandato do bispo tudense Gil de Cerveira (1250-1274).

Essa notícia é corroborada na Vitae Fratrum: “O venerável bispo daquela cidade [Tui] enviou mais de 180 milagres, os quais, examinados por alguns discretos e fidedignos varões e testemunhas juramentadas, sob o seu selo foram transmitidos ao Capítulo Geral que se reuniu em Toulouse no ano do Senhor de 1258” (GERARDUS DE FRACHETO, 1967, p. 785 786).

Esse material foi preservado de forma incompleta por dois manuscritos, os mesmos que transmitiram a LBPG: o Pasionario de Tui, contendo 78 testemunhos, e o Livro Becerro I, com 126. Como a legenda, foram publicados por Flórez e Suso Vila, nas edições já refe renciadas.

No inquérito, as únicas informações biográficas relacionadas a Pedro González são: ele era um religioso da Ordem dos Pregadores e estava sepultado na catedral tudense,10 dados que também figuram na Vitae Fratrum. Ou seja, nestes textos não há qualquer indi cação sobre uma possível “síntese biográfica” sobre a trajetória de Pedro González.

Galmés não desenvolve o seu argumento. Desta forma, não é possível saber em quais dados ele se baseia para afirmar que junto aos milagres remetidos ao Capítulo Geral tam bém haveria uma síntese biográfica. Contudo, essa ideia estimulou a reflexão sobre o tema, como será discutido posteriormente.

Local de redação e Datação da LBPG

A LBPG não apresenta referências diretas sobre o local de sua redação. No decorrer das leituras são mencionadas diversas localidades: Frómista, Palência, Sevilha, Lugo, Riba dávia, Compostela, Bayona, Ramallosa. Contudo é Tui, localidade situada às margens do rio Minho, ocupada desde o período paleolítico, entre todas as demais referenciadas na obra, a que recebe maior destaque. Como já pontuado, é nessa cidade que Pedro González permanece enquanto está enfermo; morre; é enterrado; suas relíquias estão guardadas, e é venerado. Desta forma, pela associação estabelecida entre Pedro e Tui na LBPG, o presente estudo defende, concordando com Suso Vila (2009b, p. 43), que foi nesta cidade que a Vita foi composta. Mesmo que ela tenha sido redigida em outro local por motivos técnicos, teve como referencial essa localidade.

Os autores não concordam em qual momento a LBPG foi escrita. Para Garcia de la Borbolla (2008, p. 225), na segunda metade do século XIII. Para Vila-Botanes (2009b, p. 14), no último quartel do século XIII. Segundo Novo Sánchez (2006, p. 202), no século XIV, ba seando-se nos relatos das testemunhas do processo de canonização do santo. Vale desta car que nenhum desses trabalhos se propôs a discutir de forma aprofundada essa questão, limitando-se a indicar um momento aproximado para a escrita da obra.

A LBPG apresenta algumas referências com valor cronológico. Neste sentido, inicia com a informação que o santo florescera nos “nossos dias” (His novissimis nostris tem poribus), o que permite concluir que o texto foi elaborado logo após a morte do santo. Contudo, a expressão “nostris temporibus” pode ter um sentido mais amplo: de que o texto foi composto quando pessoas da geração de Pedro González ainda viviam, como seus companheiros, podendo ter sido redigido, portanto, duas ou três décadas após a morte do frade.11

A Vita também indica o ano em que Pedro González faleceu: 1246 (anno Dñi millesi mo ducentesssimo quadragesimo sexto). Vale destacar, aqui, o uso da datação de forma distinta da que era usual no momento, na Península: a Era Hispânica. Infelizmente não foram encontrados outros documentos emitidos em Tui no século XIII para que se pudesse verificar se a datação com o Anno Domini já era habitual na diocese.12

A LBPG também menciona três outros episódios que podem auxiliar a datação. Na leitura 9, é assinalada a conquista de Sevilha, que é fixada pela historiografia em novembro de 1248 (GONZÁLEZ JIMÉNEZ, 2006, p. 101). Na 14, a morte do bispo tudense Lucas Tui, ocorrida entre finais de 1248 e 1249.13 Na 11, encontra-se a referência mais complexa, rela cionada a casas dominicanas em Tui, sobre a qual se passa a discutir.

A alusão à casa é incluída no texto quando é narrado um milagre ocorrido nas mar gens do rio Minho, quando da construção de uma ponte, episódio já assinalado. Segundo o relato, durante a construção, quando não havia peixes para alimentar os trabalhadores, bastava que o Santo e seu companheiro ficassem nas margens do rio para que os animais se colocassem nas mãos dos frades. Quando é mencionado o nome do companheiro, Pedro Martínez, é incluída uma observação: “O que agora em Tui, na casa dos Pregadores, como associado em vida, é na morte venerado” (qui nunc Tudae apud domum Praedicato rum eidem sicut in vita, sic & in morte associatus veneratur).

Como já assinalado, há uma escassez de documentos referentes à presença domini cana na Galiza, na primeira metade do século XIII, e os que existem agregam dados pon tuais, provenientes, sobretudo, de testamentos. Assim, muitas vezes, como sublinha Graña Cid (1999, p. 177), “sólo podamos hacer referencias puntuales a momentos y lugares dados en que detecta la presencia de franciscanos y dominicos pero sin saber si se trata de co munidades asentadas”.

Uma dessas referências pontuais está no que registra uma doação, documento pu blicado por Pardo Villar, “El caballero don Ociro y su mujer doña Elvira donan una casa y una viña”, em 1250, “aos frayres da Orden dos Pregadores de San Domingo que moran a par da villa de Tuy”.14 Por meio deste testemunho, é possível concluir que em 1250 haviam ao menos dois frades pregadores residindo em Tui, o que não configurava um convento. Como registra o Liber Consuetudinum, um convento só poderia ser organizado com um número mínimo de irmãos e com a permissão do Capítulo Geral (DOMINGO DE GUZMÁN, 1967, p. 901).

A data de fundação do convento dominicano em Tui é fixada no início da década de 1270, ocasião em que ocorreram conflitos entre a comunidade religiosa e o cabido (FLÓREZ, 1798, p. 149-150; GRAÑA CID, 1993, p. 247; VILA-BOTANES, 2009a, p. 51-53). Segundo os autores, o Concello de Tui doou, em 1272, um terreno extramuros para que os irmãos pregadores pudessem construir um convento. O cabido e o bispo opuseram-se a tal intento,15 levando a Ordem a solicitar a interferência papal. A resposta do pontífice, que chegou em 1273, foi favorável aos dominicanos, que ergueram o convento. Assim, pode-se situar a fundação do convento em 1273 ou um pouco depois.

Essa data tem sido usada como um argumento para a datação da LBPG. No texto da LBPG transcrito, a expressão usada para designar o local no qual o companheiro de Pedro era venerado é “domum Praedicatorum”, que pode ser traduzida por Casa dos Pregadores. Entretanto, em dois outros pontos da narrativa, ao convento de Compostela, Santo Domingo de Bonaval, fundado desde a década de 1220 (PARDO VILLAR, 1953, p. 13), são utilizados os termos “Conventui Ordinis Praedicatorum” e “sui Ordinis Coenobium”. Há, portanto, uma di ferença na qualificação de um e outro local. As expressões usadas para Bonaval não deixam dúvidas de que era um espaço pertencente à Ordem, no qual vivia uma comunidade. Ao pas so que o uso de casa dos pregadores permite interpretar que o local ainda não possuía caráter institucional e era apenas uma residência dos irmãos, talvez usada ocasionalmente para os que se dirigiam à região para pregar e ouvir confissões.

Além dessas referências que podem auxiliar na datação, há que se ater a uma ausên cia: não é feita alusão no texto a Pedro de Verona, canonizado em 1254. Houve um grande esforço por parte da Ordem dos Pregadores para divulgar o culto do mártir, o segundo frade canonizado pelo papado (GOMEZ CHACÓN, 2014, p. 79-96; CANETTI, 1996, p. 165 219). Porém, o único santo dominicano referido na LBPG é Domingo de Gusmão.

Reunindo os dados apresentados é possível propor como momento de redação da LBPG a década de 1250, talvez na sua primeira metade. Como neste período, como subli nhado, foi elaborado um inquérito dos milagres do Santo, por que não pensar que esta Vita foi escrita no mesmo momento, na década de 1250? Esta obra não poderia ser a síntese biográfica sobre Pedro González feita para acompanhar a relação de milagres e não a sua fonte, como propôs Galmés?

Autoria e Promoção da LBPG

O autor da LBPG não é conhecido. Para García de la Borbolla (2008, p. 225) e Vila -Botanes (2009, p. 98), a legenda foi composta por um dominicano, o que é bem provável. Os frades pregadores estavam estabelecidos na Galiza desde a década de 1220, contando com um convento em Compostela, como já realçado. Se considerarmos a referência à casa dos pregadores na LBPG à luz da doação do casal Ociro e Elvira, também pode-se afirmar que, desde meados do século XIII, existia uma residência dominicana em Tui. São conhecidos até mesmo os nomes de alguns frades letrados que circularam pela Galiza no período, tais como: Sueiro Gomes, Fernando Pires, Gualter do Porto, Lourenço Mendes, Gil de Santarém, Raimundo de Peñaforte, Geraldo Domingues, João de Faria, Domingos de Tui (ROSÁRIO, 1990, p. 97-102). Qualquer um desses religiosos ou ainda outro frade, cujo nome não é conhecido atualmente, poderia ter composto a obra.

Os principais argumentos para sustentar a autoria dominicana da LBPG são o fato de Pedro González ter sido dominicano e as semelhanças entre essa obra e a Legendae Sancti Dominici dedicada a Domingos de Gusmão (FERNÁNDEZ CONDE, 2000, p. 503). Contudo, nenhum desses dois argumentos é definitivo para a indicação do lugar social do redator da LBPG. Em relação ao primeiro, a filiação religiosa de Pedro González era, certamente, co nhecida pelos contemporâneos e, portanto, não poderia ser omitida na legenda. E quanto ao segundo, como Domingos de Gusmão foi canonizado pelo papado em 1234, as hagio grafias e outras memórias sobre a sua vida já circulavam fora dos ambientes dominicanos, entre os letrados eclesiásticos e leigos. Assim, o autor poderia não ter necessariamente vinculação com a Ordem.

Como já destacado, a LBPG está redigida com dois estilos literários distintos, inclusive no tocante ao tratamento dado ao próprio Pedro González que, como já assinalado, é caracterizado como frater a partir da oitava leitura. Assim, é possível que essa obra tenha sofrido a ação de mais de um autor/redator ou até mesmo ter sido composta em duas etapas, ainda que separadas por um curto espaço de tempo, já que o manuscrito medieval que a transmitiu é datado de finais do século XIII ou início do XIV.

Entretanto, considero que mais relevante do que identificar o autor da LBPG é discutir qual grupo promoveu a redação desta legenda e baseado em quais motivações.

Não há evidências de que os dominicanos em geral, nem os estabelecidos na Península Ibérica, tenham promovido o culto a Pedro González. O Legendário de Rodrigo de Cerrato, composto provavelmente em Segóvia, em diferentes edições, entre 1260 a 1276, menciona 16 santos hispanos, mas não Pedro González (PÉREZ-EMBID WAMBA, 2002, p. 215-254; 2011, p. 103-106). E a notícia sobre seus milagres só foi incluída na Vitae Fratrum graças ao material remetido pelo bispo Gil de Cerveira para o Capítulo Geral, não por iniciativa direta dos frades pregadores.

Este desinteresse pode ser explicado, como sugerem alguns autores, pelo fato de que, ao menos para uma parcela dos frades, não era interessante promover o culto de seus membros de forma isolada. Gómez-Chacon (2014, p. 84) explica esse desinteresse apontando que alguns temiam que os cultos atraíssem doações, o que poderia trazer pe rigo para o cumprimento da observância da pobreza. Outros estudiosos propõem que a meta da Ordem era constituir uma identidade coletiva de santidade, que abarcasse todos os irmãos e não figuras singulares (BOUREAU, 2010). Daí a preferência pelas compilações hagiográficas, como os legendários e as Vitae Fratrum, nos quais a ênfase recai não em pessoas particulares, mas em grupos de santos. Se esta era a diretriz geral a ser seguida na Ordem, ao menos nas décadas de 1250 e 1260 (ALMEIDA, 2014, p. 108), não faria sentido patrocinar a redação de uma legenda para realçar as virtudes de um único irmão.

Se os irmãos pregadores não promoveram a redação da LBPG, qual grupo tomou esta iniciativa? Defendemos que foi a Catedral e o Cabido de Tui que patrocinaram a produção desta obra.

A diocese de Tui provavelmente foi organizada no século VI, quando o noroeste pe ninsular estava sob domínio suevo (IGLESIAS ALMEIDA, 2009, p. 23). Segundo apontam os documentos e as análises historiográficas, esse bispado sofreu um processo de desagrega ção com a chegada dos muçulmanos à Galiza, por volta de 716, que passaram a controlar parte do território. Assim, os bispos tudenses passaram a residir em outras sedes. Por volta de 860, a região foi retomada pelos cristãos e a reconstrução da cidade foi iniciada. Che gou-se a realizar uma primeira tentativa de restauração episcopal, cerca de 915 (LUCAS ALVAREZ, 1997, p. 108). Contudo, este bispado, como outras áreas da Galiza, continuou a ser alvo de diversas incursões, tanto muçulmanas quanto normandas, durante o século X e início do XI. Em virtude de sua localização na desembocadura do rio Minho, Tui ficava vul nerável frente aos ataques. Em uma dessas incursões, ocorrida por volta de 1015, a cidade foi destruída pelos normandos e seu bispo, Afonso I, foi levado prisioneiro (SÁNCHEZ PAR DO, 2010, p. 58). Desta forma, Tui foi anexada primeiramente a Lugo e, alguns anos depois, em 1024, a Iria-Santiago (FLÓREZ, 1765, p. 390-392), situação que se prolongou até cerca de 1071 (FLÓREZ, 1798, p. 245-250).

Com a restauração definitiva da diocese e a formação do senhorio episcopal em fins do século XI, durante os dois seguintes foi organizado o cabido da catedral, bem como o próprio território do bispado; a Catedral foi construída; a autoridade do arcebispo de Braga foi reconhecida e o patrimônio da Igreja tudense foi incrementado. Mas ainda não havia, no início do século XIII, um santo patrono vinculado diretamente à trajetória da igreja tudense.

A associação com santos patronos fundamentada em eventos históricos, recriados ou inventados, foi uma estratégia utilizada pelas comunidades religiosas e bispados nos séculos XI ao XIII a fim de “alterar a correlación de fuerzas en el domínio del espacio” (PÉ REZ-EMBID WAMBA, 2002, p. 365). A vinculação dos centros eclesiásticos com uma figura heroica possuía diversas funções: fundamentar a antiguidade de um centro eclesiástico; dotar de singularidade um local de culto, atraindo fiéis e ofertas; abalizar reivindicações de territórios e rendas; legitimar as autoridades locais e desqualificar possíveis oponentes; e utilizá-lo como um instrumento para o ensino de doutrinas e preceitos morais.

Como Tui era uma diocese de organização tardia, já no século VI, e só foi restaurada ao final do século XI, não havia um personagem antigo ao qual o bispado poderia vincu lar-se. Desta forma, por exemplo, a Catedral tudense, que começou a ser construída no século XII, foi dedicada a Santa Maria (CEDON FERNANDEZ, 2000, p. 24). Na falta de um personagem antigo - um mártir, virgem ou confessor -, o frade dominicano Pedro Gon zález, que pregou na região, morreu e foi sepultado em Tui, na primeira metade do século XIII, portanto, um santo recente,16 imitável, acabou por ocupar esse papel.

A escolha de um irmão pregador pode ser explicada pelas boas relações estabeleci-das entre os frades e o clero da catedral tudense. Como destaca Graña Cid (1993, p. 246), em relação à Galiza, “[…] los datos disponibles parecen indicar que son las altas jerarquías eclesiásticas las que están más pendientes - para bien o para mal - de los frailes durante el siglo XIII”. Ela salienta que os mendicantes receberam apoio dos bispos por três motivos principais: eram os prelados que tinham maior compreensão sobre quais eram os interes ses da Igreja Romana; valorizavam o papel dos frades na cura animarum; e estavam cons cientes de sua superior preparação espiritual. Assim, a despeito dos conflitos registrados entre seculares e frades em diversos pontos da Europa,17 é possível pensar também em períodos e locais de convivência pacífica e cooperação. Provavelmente foi o que ocorreu em Tui.

Segundo aponta a LBPG, Pedro pregava na Catedral tudense. Esta pregação deve ter tido um grande impacto junto à população local, o que motivou as autoridades diocesanas a impulsionar o seu culto, sepultando-o em local de destaque na catedral e, posteriormen te, instaurando o inquérito de milagres e promovendo a redação da Vita.

Como já ressaltado em diversos pontos deste texto, a LBPG confere grande destaque a Tui, em especial à sua Catedral, como local de sepultamento, culto e guarda das relíquias de Pedro González. Assim, o santo não só é associado à cidade em geral, mas de forma específica ao centro administrativo e espiritual da diocese tudense. Esta ênfase fica ainda mais evidente quando se compara as menções feitas à Catedral com as incluídas no texto sobre o convento de Compostela e a casa dos predicadores de Tui. Estas últimas são refe rências pontuais, sem grande importância para a configuração do que é central no texto: as virtudes, os milagres e as relíquias de Pedro González.

Essa exaltação da Catedral na LBPG como centro do culto a Pedro Gonzalez pode ser vinculada à iniciativa do bispo tudense Gil de Cerveira de instituir um inquérito para inventariar os milagres atribuídos ao Santo. Os mais de 180 testemunhos, prestados sob juramento, coletados por pessoas “idôneas e de boa fé”, constituem um documento que dotava de legitimidade jurídica o culto então nascente e funcionava como um instrumento para promover a Catedral como um centro de peregrinação. Segundo apontam os espe cialistas, Tui era uma das etapas de pelo menos duas rotas portuguesas para Santiago de Compostela que partiam do Porto; a que passava por Braga e a que ia em direção à Ponte de Ave (MORENO, 1986, p. 78). Logo, existia um contingente de fiéis próximo para ser atraído.

Talvez o projeto final fosse pleitear o reconhecimento papal do referido culto. O envio do processo para o capítulo dominicano em 1258, pelo Bispo Gil de Cerveira, pode ter sido uma estratégia para conseguir o apoio da Ordem dos Pregadores para a sua causa. Neste momento dois santos dominicanos já haviam sido canonizados: Domingos de Gusmão e Pedro de Verona. Contudo, como realçado, o material chegou em um momento no qual, provavelmente, a opção dos irmãos era investir no reconhecimento de todo o grupo como santo, não de figuras isoladas.

Justamente porque é possível supor que a realização do inquérito dos milagres foi uma das ações do episcopado tudense visando dar início a um processo de canonização, pode-se considerar que, a par deste projeto, foi redigida a LBPG. Segundo Vauchez, a partir de 1250, para a Igreja Romana não bastavam feitos maravilhosos e milagres comprovados; era necessário sublinhar as virtudes dos veneráveis (VAUCHEZ, 1981, p. 89). E é justamente por meio da LBPG que Pedro González é caracterizado repleto de virtudes: casto, discipli nado, dedicado à pregação e à pastoral, pobre voluntário, estudioso, entre outras.

Tui, no início do século XIII, era uma diocese rica, que detinha o senhorio sobre diversas regiões. Como a geografia eclesiástica não coincidia com a divisão política, com a formação do Reino de Portugal na primeira metade do século XII, Tui configurou-se como um bispado de fronteira, já que abarcava paróquias localizadas nas duas margens do Minho. E, com as instabilidades na fronteira entre os reinos, este episcopado enriqueceu com doações e privi légios das realezas e nobrezas castelhano-leonesa e portuguesa. Desta forma, segundo um documento datado entre 1258-1259, em meados do século XIII existiam na diocese 196 igre jas, divididas por 19 arciprestados, 12 em Castela-Leão e 7 em Portugal (IGLESIAS ALMEIDA, 2009, p. 166-172). Logo, o cabido e a catedral reuniam as condições materiais para financiar a redação de uma legenda.

Uma conjuntura específica pode ter estimulado o desenvolvimento de ações em prol de fixar por escrito as memórias sobre Pedro González, contribuindo para organizar e con solidar o seu culto. Ao final do governo de D. Lucas (1239-1249), o bispo que antecedeu Gil de Cerveira no governo episcopal, houve mais um episódio da luta que opunha o Concello de Tui ao prelado e cabido tudenses, na busca por maior autonomia municipal face ao senhorio episcopal.18 Segundo os testemunhos contemporâneos, este novo embate foi especialmente marcado pela violência para com o clero da catedral: homens do Concello entraram na igreja com armas e acurralaram os homens atrás do altar, derrubando lâm padas. A questão foi submetida ao arbítrio real e a solução do pleito foi encaminhada por Fernando III, em 1250, quando já governava Gil de Cerveira, prevendo punições e buscando reorganizar as relações entre o Senhorio episcopal e o Concello (VILA-BOTANES, 2009a, p. 552).

Como Pedro González, em sua atividade pastoral, provavelmente teve contato com muitos habitantes de Tui, que, certamente, já o consideravam como um homem santo. Neste sentido, o inventário de milagres e a redação da hagiografia para uso no Ofício Divino podem ter sido elaborados para apaziguar as tensões com a população de Tui, canalizando as atenções para o projeto de construção do novo culto. Essa hipótese pode explicar o mi lagre no qual as sepulturas do dominicano e do bispo Lucas de Tui, colocadas inicialmente lado a lado, separaram-se sem ação humana. Como Lucas era o prelado no momento da revolta do Concello, pode ter sido estratégico desvincular as duas figuras apontando para a superioridade de Pedro face ao Prelado. Ou seja, a redação da obra pode também ter tido motivações políticas visando articular os interesses do Concelho, da Catedral e do Cabido de Tui e, certamente, dos dominicanos que habitavam na cidade.

Considerações finais

O clero episcopal e a população de Tui, segundo o que aponta a própria LBPG, aco lheram os dominicanos que atuaram na região, em especial Pedro González. Ainda que a construção do Convento de Santo Domingo de Tui tenha ocorrido por volta de 1273, pe quenos grupos de frades dominicanos já residiam na cidade, mesmo que por temporadas, desenvolvendo atividades pastorais junto à população tudense e em cooperação com a Catedral. O conflito entre dominicanos e cabido tudense, ocorrido no início da década de 1270, foi pontual e se relacionou ao quadro maior de tensões entre o senhorio episcopal e o Concello da cidade.

Não há evidências de que os dominicanos em geral, nem os estabelecidos na Penín sula Ibérica, tenham promovido o culto a Pedro González. Por outro lado, até o início do século XIII, não havia um santo patrono vinculado diretamente à igreja tudense. Entretanto, Tui era uma diocese rica e reunia as condições materiais para patrocinar o culto e a redação de documentos relacionados à memória de santidade do dominicano no século XIII.

A LBPG foi redigida em meados do século XIII, mais propriamente na década de 1250. Com grande probabilidade, o texto atual resulta de ação de mais de um autor/redator, dentre os quais algum frade pregador. A redação da LBPG reforçou alguns comportamen tos e repreendeu outros, assim como exaltou determinadas figuras enquanto outras foram desqualificadas, em diálogo com as disputas locais no momento de sua redação.

Como o texto concede grande destaque à Catedral de Tui como o local de sepulta mento e guarda das relíquias de Pedro González, é provável que os promotores da redação da LBPG foram o Cabido e a Catedral tudenses. A composição de uma memória textual sobre Pedro González como intercessor de Tui pode ter sido impulsionada com o objetivo imediato de amainar os conflitos entre a Catedral com o Concello de ocorridos ao final da década de 1240. Contudo, para além das motivações imediatas, a LBPG construiu uma memória que dotou a Catedral de Tui de singularidade face aos outros centros de culto, por ter se tornado o local de guarda das relíquias e da veneração a Pedro González.

A composição da LBPG, portanto, está conectada às relações de poder estabelecidas entre a Catedral, o Cabido, o Concello e os frades dominicanos na diocese de Tui, em me ados do século XIII, configurando-se como um testemunho de tais relações.

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1A análise dos fólios foi feita por meio de uma cópia digitalizada cedida pelo Professor Suso Vila-Botanes.

2Ambrosio de Morales realizou, por ordem do rei Felipe II, uma crônica a partir da viagem que empreendeu por Leão, Asturias e Galícia, entre 1572 a 1573, para recolha de informações sobre relíquias, livros manuscritos de catedrais e mosteiros e sepulturas. A obra completa está disponível para consulta em: <http://fondosdigitales.us.es/fondos/autores/523/>. Acesso em: 2 maio 2015.

3Cf. <arquivos.depontevedra.es/?1,6408>. Acesso em: 5 jun. 2015.

4Os materiais são uma relação de milagres atribuídos a Pedro González, que será abordada no decorrer do texto, e uma missa.

5Disponível em: <http://www.pem.historia.ufrj.br/arquivo/hagiografiaehistoria_v1.pdf>. Acesso em: 9 jul. 2016.

6Em Sabedoria 8, 19, na edição da Vulgata, lê-se: “puer autem eram ingeniosus et sortitus sum animam bonam”.

7Segundo o texto latino editado por Flórez: “cum esset quamquam non longus corpore, aspectu attamen placidus, naturali suavis alloquio, hilaris facie, ac adeo cuncta morum interiori & exteriori honestate compositus”.

8A Legendae Sancti Dominici foi escrita entre 1234 a 1236 ou 1238, quando foi aprovada pelo Capítulo Geral. A grande maioria dos estudiosos atribui a sua autoria a Pedro Ferrando, um frade de origem hispana.

9Texto latino: “Unde et venerabilis eiusdem civitatis episcopus plus quam CLXXX miracula, per discretos et fide dignos examinata et per testes iurata sub sigillo suo transmisit capitulo generali, quod celebratum Tolose anno domini M CC LVIII” (REICHERT, 1896, p. 297).

10Texto latino: “Venerabilem virum Fratem Petrum Gunsalvi Ordinis fratrum Praedicatorum, qui in nostra est sepultus Ecclesia” (FLÓREZ, 1767, p. 263).

11Para uma discussão sobre a ideia de geração no medievo, ver Freitas (2004, p. 104-109).

12Esta forma de datação figura em documentos papais e reais recebidos, publicados por Flórez e Vila-Botanes. Este dado permite discutir se o autor/redator por estar familiarizado com essa forma de datação seria alguém oriundo de fora da Península Ibérica ou que permaneceu longos períodos em regiões nas quais essa datação era frequente. A questão da autoria será abordada adiante.

13Esta datação é deduzida por um documento emitido pelo rei Fernando III para a diocese de Tui, datado de julho de 1250, publicado em Vila-Botanes (2009a, p. 551-552).

14Infelizmente só foi obtido acesso à notícia deste documento por meio do estudo de Graña Cid (1999, p. 178 179).

15Vila-Botanes (2009a, p. 51-53) apresenta dois motivos principais para essa oposição: a disputa entre o cabido e os religiosos pela assistência aos fiéis ou porque a atitude do Concello afetava o senhorio episcopal. Tendo a considerar que a oposição do clero local à fundação do convento tenha sido motivada, sobretudo, pela aliança estabelecida entre dominicanos e Concello, que poderia afetar a autoridade do epíscopo e seus cônegos.

16Recente é usado aqui no sentido que é empregado por Vauchez, morto a menos de 60 anos antes das ações almejando o reconhecimento de sua santidade (VAUCHEZ, 1981, p. 68).

17Como o conflito já mencionado, ocorrido quando os dominicanos decidiram fundar um convento na cidade, a convite do Concello, no início da década de 1270, e houve oposição por parte do bispo e do cabido. Contudo, este enfrentamento pode ser explicado pela conjuntura específica e não invalida o interesse da catedral tudense por promover o culto a Telmo após a sua morte.

18A obra de Vila-Botanes (2009a), A cidade de Tui durante a Baixa Idade Média, apresenta os diversos episódios desta longa contenta que se iniciou em 1170, transcrevendo documentos em apêndice.

Recebido: 18 de Agosto de 2016; Aceito: 04 de Fevereiro de 2017

Andréia Cristina Lopes FRAZÃO DA SILVA. Professora Titular do Instituto de História da UFRJ. Cientista do Nosso Estado-Faperj e Bolsista de Produtividade em Pesquisa - Nivel 2- CNPq. Largo de São Francisco de Paula, nº1, Salas 201 e 203 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, Brasil, CEP 20051-070

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