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História (São Paulo)

Print version ISSN 0101-9074On-line version ISSN 1980-4369

História vol.38  Assis/Franca  2019  Epub Sep 09, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1980-4369e2019023 

Dossiê: A imprensa francófona nas Américas nos séculos XIX e XX

A Imprensa Francófona no Brasil: circulação transnacional e cultura midiática nos séculos XIX e XX

Francophone printed press in Brazil: transnational circulation and media culture in 19th and 20th centuries

Valéria dos Santos Guimarães1 
http://orcid.org/0000-0003-0614-8922

1Universidade Estadual Paulista - UNESP. Franca, SP, Brasil.


RESUMO

A francofilia esteve presente no Brasil desde fins do século XVIII, presença também materializada na circulação de periódicos tanto importados de Paris, como publicados por emigrados nos séculos seguintes. O objetivo deste artigo é discorrer sobre aspectos da produção, circulação e distribuição desses periódicos no Rio de Janeiro e em São Paulo. A hipótese é que eles tanto difundiam a cultura francófona, como foram pioneiros na inserção do Brasil na lógica da cultura midiática transnacional da modernidade. Além do levantamento de títulos importados e impressos no país em catálogos antigos de livreiros e de acervos públicos e dos locais de distribuição ao leitor, foram consultados relatórios estatísticos e dos correios franceses e brasileiros em busca de dados quantitativos. Entre os resultados está a constatação do predomínio de títulos em francês em relação aos demais idiomas estrangeiros (dada à força global da cultura francesa no período, particularmente na América Latina) e a descoberta de acordos comerciais favoráveis à entrada de impressos provenientes da França, dado inédito revelado pela análise dos relatórios oficiais, o que traz um novo elemento para explicar o seu grande afluxo para o Brasil, apontando uma nova perspectiva metodológica para os estudos da circulação da história da imprensa estrangeira.

Palavras-chave Imprensa francófona; transnacional; mediadores culturais; Brasil; História da Leitura

ABSTRACT

Francophilia has been present in Brazil since the late eighteenth century, and French-language periodicals imported from Paris as well as national newspapers and magazines published by emigrants in the following centuries were responsible for its dissemination. This article is devoted to some questions about the production, circulation and distribution of French and French-Brazilian newspapers and magazines in the cities of Rio de Janeiro and São Paulo in the 19th and 20th centuries. The hypothesis is that this printed press performed the Francophone diffusion and was between the pioneers of insertion of Brazil in the logic of transnational media that appears with rise of modernity. To this end, in addition to get lists of French printed press imported and local published titles in two capitals, achieved in old catalogs of book sellers and public collections, as well as the distribution places which made them accessible to readers, were consulted French and Brazilian statistical and postal reports to search quantitative data of subsidies the analysis. Between results were found titles French predominance (result the French power culture in this period, particularly in Latin America) and the discovery of commercial deals favorable to French printed press, which bring a new element to explain its great influx to Brazil, indicating a new methodological perspective for the studies of the foreign press circulation history.

Keywords Francophone press; transnational; cultural mediators; Brazil; History of Reading

Em uma tímida mas contundente nota da segunda página da edição comemorativa da festa nacional francesa em 14 de julho de 1895 feita pelo tri-hebdomadário carioca L’Écho du Brésil - organe français du Rio de Janeiro (RJ, 1893-95), Angelo Agostini, o conhecido editor da Revista Illustrada (RJ, 1876-1898), lamentava a situação política da recente República brasileira, instaurada anos antes por um golpe militar, em 1889. Então sob o impacto dos recentes conflitos cruentos ocorridos no governo de Floriano Peixoto, acusado de usurpar a presidência e não convocar eleições quando da queda do então Presidente Marechal Deodoro da Fonseca, Angelo se referia às sangrentas Revoltas da Armada (1891 e 1892) e Revolução Federalista (1893-1895), que legaram a Floriano o epíteto nada lisonjeiro de “Marechal de Ferro” pelos massacres perpetrados sob sua autoritária administração. Aquele que fora um contumaz crítico da política do Império escolheu o idioma francês e um jornal abertamente republicano para expressar seus protestos:

14 de julho

Sol da liberdade que ilumina o mundo com seus raios benéficos, tu te achas oculto a nossos olhos por uma nuvem sangrenta que paira, há muito tempo, sobre nosso belo país, tão belo, tão grande e tão infeliz!

Que teus raios o dissipem e penetrem até mesmo aqueles que nos governam, pois creio que no momento eles têm apenas uma vela para acender!1

Angelo Agostini

(L’Écho du Brésil, RJ, 14/07/1895)

Com o país conflagrado, depositando esperanças no novo governo civil de Prudente de Moraes em vista da decepção com os governos militares, o jornal do francês J. Cateyson trazia nessa edição a saudação aos valores republicanos instaurados em 1789, feita por colaboradores no Brasil e no exterior das mais diversas nacionalidades: franceses, brasileiros portugueses, alemães, entre outros.

A edição contava com textos de várias personalidades brasileiras além de Angelo Agostini, tais como Ramiz Galvão, Benjamim Mota, Arthur Azevedo e outros que se reuniram aos franceses para comemorar aquele que se tornou também um feriado nacional brasileiro por um decreto de1890, em vigor até 19302. Claro sintoma do quanto se entendia que o “sol da liberdade” da Revolução Francesa era visto como a esperança de dissipação da “nuvem sangrenta que paira sobre nosso belo país”, a festa era ocasião propícia à união de brasileiros, franceses e até mesmo outros estrangeiros sob a égide de ideais republicanos e iluministas que tiveram forte presença na constituição do imaginário de emancipação e consolidação da nação e da República.

O jornal franco-brasileiro atuava, assim, como um instrumento de difusão transnacional dos valores republicanos e de espaço cultural de reunião de brasileiros e estrangeiros. Seus leitores não se restringiam à colônia como seu subtítulo faria supor (órgão francês no Rio de Janeiro), e arregimentava apoiadores e colaboradores nos quadros nacionais.

Quase trinta anos depois, a difusão da imprensa estrangeira no Brasil parecia ser generalizada: “Qualquer revista, nacional ou estrangeira, qualquer livro dos assuntos em voga, ali tem, fatalmente, um exemplar” (Revista O Malho, Rio de Janeiro, 31/03/1928). É assim que um repórterda Revista O Malho, publicada no Rio de Janeiro em 1928, se referia à banca que o engraxate Raphaelo Sciciliano montou para vender livros, jornais e revistas à clientela na reportagem “A biblioteca das ruas”. Nela, se via uma série de imagens sobre os engraxates “doublés de livreiros”, segundo o repórter autonomeado “Investigador Fonseca”. Sua matéria revelava estabelecimentos curiosos espalhados pelas regiões afastadas do trecho mais nobre do centro da cidade onde tradicionais livrarias como Garnier, Casa Victor entre outras estavam instaladas, algumas delas desde meados do século XIX. Os engraxates-livreiros se espalhavam pela rua Uruguaiana ou Visconde de Rio Branco em bancas em que se poderia ver a profusão de periódicos pendurados (Figuras 01 e 02).

Fonte: Revista O Malho, Rio de Janeiro, 31/03/1928

Fig. 01 e 02 .“A biblioteca das ruas” - cobertura especial sobre engraxates-livreiros. É possível ver uma quantidade grande de periódicos disponíveis aos leitores nas bancas, inclusive importados, como a matéria revela: “Qualquer revista, nacional ou estrangeira, qualquer livro dos assuntos em voga, ali tem, fatalmente, um exemplar”. 

O repórter deixou o testemunho sobre a dupla atividade dos engraxates, que ao mesmo tempo cuidavam dos sapatos dos clientes e lhes ofereciam uma saborosa distração, e registrou um mercado que comportava a leitura de revistas em outra língua que não fosse o português. Disponíveis ali, em lugar que pode parecer improvável para o comércio de tal tipo de mercadoria, a venda de revistas importadas é indício de que não só havia mercado para impressos em língua estrangeira, como eram difundidos para além dos principais círculos da intelectualidade carioca da época, reunida em livrarias e confeitarias chiques da Rua do Ouvidor e arredores.

A lógica de desenvolvimento do mercado editorial do Rio e de São Paulo é distinta, cada cidade teve suas particularidades. O Rio, pelo fato de abrigar a Corte, assistiu à ascensão de um cenário cultural pulsante para os padrões de um país predominantemente rural desde o princípio do século XIX. São Paulo só despontou como referência editorial nacional mais tarde, em meados do século, em torno da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Na passagem do século XIX para o XX, essa relação fica mais equilibrada, com muitos novos periódicos vindo à luz. Os locais de comércio livreiro abrigavam inúmeros estabelecimentos e se consolidaram nas regiões nobres - Rua do Ouvidor e arredores no Rio, a região do Triângulo, em São Paulo. E, ao lado do crescimento e da urbanização das cidades, os locais de distribuição passam a ser numerosos e até improváveis, como no exemplo acima.

Ambas as cidades formavam o principal eixo editorial do país, com intenso compartilhamento de informações, comércio e circulação de impressos. Havia outros centros editoriais que não serão abordados aqui, até porque a diminuta imigração francesa para o Brasil se concentrou no Rio e em São Paulo. Tanto é que, embora o jornalista do Malho não especifique o idioma das publicações disponíveis, é possível supor que houvesse algum título em francês na banca de Raphaelo Sciciliano. Isso porque, desde o século XIX, uma grande quantidade de periódicos franceses consta em catálogos dos mais diversos tipos de livreiros cariocas e paulistas, padrão que se repete nos catálogos dos principais acervos públicos desde a época do Império.

Além dos importados, havia igualmente um número não desprezível de jornais e revistas franceses publicados em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo pela iniciativa de imigrantes franceses, quer por iniciativa individual, quer como órgãos representativos da colônia, a exemplo das associações. Ainda que a imigração francesa tenha sido praticamente insignificante frente a outros grupos étnicos3 que se instalaram no país, o predomínio numérico de impressos periódicos francófonos em acervos e catálogos de livrarias é inegável.

O estudo que temos levado a cabo sobre a imprensa em língua francesa tem revelado aspectos importantes da dinâmica da publicação de periódicos no país. Até o momento, foram encontrados cerca de 600 títulos diferentes de jornais e revistas publicados na França e que estavam disponíveis nos catálogos de livrarias e bibliotecas brasileiros do século XIX e XX nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Isso sem contar que alguns desses periódicos circularam aqui por décadas, como a Revue des Deux Mondes (Paris, 1829-), Le Figaro (Paris, 1826-) ou La Revue Franco-Brésilienne (RJ, 1909-1922), para citar apenas alguns casos. Para o ano de 1876, por exemplo, Affonso A. de Freitas (1915) registrou, em seu A Imprensa Periódica de São Paulo desde seus primórdios em 1823 até 1914, 23 jornais brasileiros que se publicavam em São Paulo, enquanto o livreiro francês Anatole Louis Garraux oferecia em seu catálogo do mesmo ano mais de 40 títulos franceses (Catálogo da Casa A. L. Garraux, 1876). Dez anos antes, o catálogo da mesma livraria, com sede em São Paulo, Pernambuco e Paris, tinha cerca de 90 títulos (Catálogo Garraux, de Lailhacar & Cie, 1866).

O objetivo deste artigo é discorrer sobre alguns aspectos da produção, circulação e distribuição dos impressos franceses nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo no século XIX e XX, e levantar questões e hipóteses sobre a interação entre os dois corpora formados pelos jornais franceses importados e aqueles publicados no Brasil. O foco da análise tem como objeto tanto os suportes (jornais e revistas) como seu conteúdo. São tomados dois pontos cronológicos como referência: em torno de 1850, durante o Segundo Império, primeiro momento de dinamização da imprensa periódica em tempos de relativa estabilidade política, fim da censura e renovação do parque tecnológico em consequência das primeiras inversões no café; e em torno de 1910, quando a configuração do mercado do periodismo torna-se bem mais dinâmica, com tiragens significativas para os padrões de países fora dos centros tradicionais, propiciadas por um novo incremento tecnológico, com um público maior devido à expansão urbana (do Rio, mas sobretudo de São Paulo, que conhecia um crescimento em ritmo acelerado), e com a segmentação temática, sintoma do crescimento da demanda (MARTINS; LUCA, 2008).

São dois momentos distintos, antes e depois do advento de uma nova fase da modernidade marcada pela revolução científico-tecnológica ocorrida em solo europeu e cujos efeitos se fizeram sentir também no Brasil do fim do século com profundas transformações sociais. Concomitante ao aquecimento do mercado editorial interno, a importação de títulos de jornais e revistas franceses não parava de crescer. Enquanto isso, a crescente imigração propiciava o aumento do número de órgãos publicados em língua estrangeira. Jornais e revistas de franceses radicados no Rio e em São Paulo não eram muito numerosos se comparados com a produção de outros grupos, como italianos, mas foram tão ou mais importantes e influentes no panorama da história da imprensa brasileira. Jornais franceses importados de Paris ou publicados no Brasil não só cumpriram o papel de difusão francófona, como estiveram entre os pioneiros na inserção do Brasil na lógica de uma cultura midiática transnacional surgida no bojo da ascensão da modernidade do século XIX, como se vê no exemplo do L’Écho du Brésil.

Imprensa francesa no Brasil e os intermediários esquecidos dessa história

O estudo sobre a imprensa francófona tem ocupado lugar de destaque dada a proeminência cultural francesa no longo século XIX. No que se refere ao caso brasileiro, como mencionado, desde o século XIX o mercado editorial do Rio de Janeiro e de São Paulo se viu inundado por um número expressivo de periódicos estrangeiros, em sua maioria franceses, em consequência da explosão quantitativa e qualitativa da produção periódica na França, associada a fatores internos como a liberação dos prelos e o fim do exclusivo colonial no Brasil em 1808, determinantes para que esse número aumentasse significativamente, cifras que permaneceram altas até meados do século XX. Soma-se a esses fatores um outro ponto, em geral não destacado nos trabalhos sobre o tema: a existência de acordos comerciais favoráveis à entrada de periódicos franceses no Brasil.

Sabe-se que desde o início do século XIX saíam da França, sobretudo de Paris, incontáveis exemplares de jornais e revistas em direção ao estrangeiro. Maços de papéis franceses eram exportados pelo Correio, autêntico “intermediário esquecido” nesse circuito da leitura de jornais e revistas, para usar o termo do Robert Darnton (1995). E foi em consulta aos relatórios dos correios franceses e brasileiros que foram encontrados dados que podem esclarecer alguns dos aspectos relativos a tais transações mercantis.

No Bulletin Mensuel de l’Administration des Postes (Boletim Mensal de Administração dos Correios-BMAP) francês de 1860 foi publicado um Acordo Comercial (firmado com base na Convenção de 7 de julho e no Decreto de 22 de julho de 1860) que trazia regulamentações detalhadas desse comércio. O tratado versava sobre condições especiais para a exportação da França e da Argélia para o Brasil de “impressos de toda natureza, em folha, brochados ou encadernados”, e trazia até mesmo datas e horários precisos de saída dos pacotes de periódicos impressos da França com destino ao outro lado do Atlântico. Havia duas rotas a princípio: uma direta para o Rio, partindo de Bordeaux, e outra que passava pela Inglaterra, saindo de Southampton, fazendo escalas em Calais e Havre. Depois foram inauguradas rotas que incluíam outros países da América Latina, como Buenos Aires e Montevidéu.

O ritmo das exportações era dado pela escolha da rota. Havia a alternativa da via direta que partia de Bordeaux todo dia 25 por paquetes-correios franceses. Mas, a depender da data da expedição, esta via direta por Bordeaux poderia ser mais demorada que a rota cumprida pelos paquetes-correios britânicos. (BMAP, 1860, p. 343)

A seguir, o Acordo discrimina valores de tarifas:

Os jornais, as gazetas, obras periódicas, livros brochados, livros encadernados em couro ou cartolina sem qualquer ornamento, as brochuras, papeis de música, os catálogos, os folhetos, os anúncios e os avisos diversos impressos, gravados, litografados ou autografados, que serão expedidos da França e da Argélia para o Brasil, tanto pela via direta dos paquetes-correio franceses quanto pela via da Inglaterra e pelos paquetes-correio britânicos, poderão ser liberados até o destino por 15 centavos por cada quarenta gramas ou fração de quarenta gramas4. (BMAP, 1860, p. 345)

O Acordo ainda chamava a atenção dos agentes comerciais para possíveis taxas adicionais sobre a mercadoria expedida pelos paquetes ingleses. As taxas promocionais em decorrência desse acordo comercial entre França e Brasil eram restritas às saídas do território francês.

O relator era minucioso. As datas e horários de saída de cada lugar vinham descritos em detalhes, mostrando toda a trajetória que era feita pelos periódicos de Paris ao Rio. Aliás, o itinerário incluía, além de Paris, Southampton (saídas dia 9 de cada mês), Bordeaux (saída dia 25 de cada mês) e, do outro lado do Atlântico, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro. Junto com os maços de periódicos eram incluídos telegramas5 expedidos pelas agências (dépêches closes) no dia 24 de cada mês de Paris, Londres, Havre e, por fim, de Calais (que reunia os telegramas do restante da França).

As correspondências, periódicos e telegramas que saíam de Paris e do escritório ambulante localizado em Calais, via Southampton a cada dia 9 do mês (salvo quando caísse num domingo), iam para Londres de trem do Norte, partindo de Paris, passando por Calais nos dias 7, às 19h30, e todo dia 8, 7h00 da manhã e 19h30. Se o dia 9 caísse num domingo, as notícias de Paris eram enviadas para Londres pelo mesmo trem do Norte, mas saindo de Paris para Calais nos dias 8 e 9.

Sob risco de os agentes terem as encomendas sobretaxadas como correspondência comum, o relator ditava regras aos clientes para o preenchimento correto do envelope, que não deveria conter qualquer outra coisa escrita, cifra ou sinal além do endereço do destinatário, assinatura do remetente e data. Os cuidados deveriam se estender aos pacotes que só seriam aceitos se lacrados (placés sous bande) e com a

(...) consistência necessária para poder resistir ao atrito que elas terão que suportar no curso do trajeto entre o lugar de origem e de destinação. Cada maço de jornal e outros impressos endereçados ao Brasil poderão ser embrulhados com uma folha de papel cobrindo toda a superfície, desde que as duas extremidades do pacote sejam deixadas descobertas para permitir a verificação do conteúdo. Os maços pesados e volumosos deverão, ainda, ser presos por cordões dispostos de maneira a serem facilmente desamarrados6 (BMAP, 1860, p. 346).

Estavam envolvidos nesse ciclo de distribuição agentes comerciais de exportação franceses, os correios (paquebots-poste, trens, maître de poste) e os agentes portuários - estrutura que se replica do lado de cá do Atlântico, mas na ordem inversa. Infelizmente, não é possível saber quais são os títulos que foram importados pelo Brasil a partir dessa documentação, uma vez que os pacotes vinham fechados, e seu conteúdo não era discriminado7. Mas, com base no quadro abaixo, é possível ver o preço pago para o despacho de jornais para o Brasil em 1860. A cada 40 gramas ou fração, eram pagos 15 centavos de francos para o despacho de pacotes de mercadorias variadas (échantillon de marchandises) ou de jornais, gazetas, obras periódicas, etc., ao passo que o envio de correspondências comuns e registradas (chargées) saía mais caro, de 60 a 80 centavos de franco (Figura 03).

Fonte: Bulletin Mensuel de l’Administration des Postes-France, 1860, p. 350

Figura 03 Taxas praticadas pelo correio francês para envio de cartas e encomendas ao Brasil: era mais barato enviar pacotes de impressos que correspondências. 

Os minuciosos relatórios franceses não só mostram os caminhos exatos tomados pelos jornais e revistas franceses que formaram as coleções no Brasil e permitiram sua integração ao espaço midiático francófono em ritmo contínuo e sistemático, como atestam a existência de acordos comerciais que explicitam as condições favoráveis à sua exportação8.

No caso do circuito no Brasil, é possível acompanhar o trajeto dos periódicos estrangeiros que são distribuídos junto com as demais correspondências e encomendas, pelo Almanaque Administrativo Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro (AAMICPRJ) para o ano de 1858. Os jornais e as revistas vindos do exterior eram distribuídos duas vezes ao dia para as regiões próximas à Corte e província do Rio de Janeiro. As entregas nos limites da Corte eram feitas a pé, com saídas de carteiros quatro vezes ao dia, os quais também deviam recolher a correspondência das caixas instaladas nos distritos sob pena de multa em caso de negligência. Para São Paulo, saíam de cinco em cinco dias. Para regiões mais distantes, eram distribuídas quatro vezes por semana, em dias alternados ou quinze vezes ao mês. As malas e caixas saíam da Corte sob responsabilidade do carteiro e eram levadas por “estafetas a cavalo” (carteiros a cavalo), trens e navios a vapor.

O Almanaque registra que havia tarifas privilegiadas para os periódicos franceses. Os valores dos “Portes de cartas e mais papéis” eram os apresentados na tabela 01:

Tabela 01 Valores de portes pagos aos correios brasileiros por periódicos. As tarifas para jornais nacionais são maiores que as para jornais franceses.  

Jornais brasileiros
Livros, listas de loterias, folhinhas, almanaques,
papel de música litografados e brochados
1 réis por folha
4ª parte do porte de cartas
Periódicos políticos de Portugal e domínios
Publicações literárias
10 réis por folha (qualquer tamanho)
isentas
Periódicos da França 3½ réis (via direta)
49 réis (via Inglaterra, por unidade)
Periódicos dos EUA 20 réis (por unidade)

Fonte: AAMICPRJ, 1858, p. 91 e 92.

Ou seja, periódicos franceses que entrassem no Brasil pagavam taxas menores que periódicos de outros países, mesmo os de Portugal - inclusive menores que aquelas praticadas para periódicos nacionais! As tarifas favoráveis nos dois lados do Atlântico podem explicar o grande afluxo de periódicos franceses para o Brasil. Portanto, além de outros fatores como a francofonia vigente e a dinamização do mercado editorial promovida em decorrência da conjuntura favorável e relativamente estável do Segundo Império, esses acordos e as rotas diretas França-Brasil facilitavam a entrada de material impresso em francês em maior quantidade que os de outros idiomas.

No mesmo Almanaque constam tarifas praticadas em outras regiões do mundo, como as dos Estados Pontifícios, que pagavam taxas entre 57 e 384 réis (dependendo do país que os volumes baldeavam), e as de nações isentas de tributos, como Chile, Peru, Argentina, Venezuela, Uruguai9, além de Inglaterra e Rússia. Por fim, consta a observação de que “Pela lei de 28 de outubro de 1848 ficarão isentas da taxa dos Correios todas as gazetas estrangeiras que forem dirigidas às Bibliotecas Públicas” (AAMICPRJ, 1858, p. 92), o que também pode explicar, ao menos em parte, o predomínio de periódicos em francês em grandes acervos públicos, como a Biblioteca Nacional ou a Biblioteca da Marinha, por exemplo.

Essa hipótese ganha força quando se analisam os antigos catálogos da Biblioteca da Marinha (1851, 1858, 1870, 1904 e 1906), em que constam muitos periódicos franceses. Essa hipótese é reforçada pelo relatório do Ministério dos Negócios da Marinha, publicado no próprio Almanaque Administrativo de 1858, com informações sobre sua biblioteca. Inaugurada em abril de 1847 pelo então ministro da Marinha Sr. Hollanda Cavalcanti, sediada dentro do Arsenal, possuía orçamento federal para aquisição de impressos. Nesse ano de 1858, consta que o acervo possuía 6165 volumes, além de 1276 mapas e demais materiais “competentemente mencionados em catálogos metódicos” (AAMICPRJ, 1858, p. 230), sendo gasto parte do orçamento com a assinatura de jornais estrangeiros. Em seguida, consta a lista das aquisições no ano, com 17 títulos listados, dos quais 12 eram franceses, entre jornais, revistas, anuários, anais e manuais, tais como Journal du Havre, Le Moniteur Universel, Illustration, Revue des Deux Mondes, Revue Britannique, entre outros. É provável que tais aquisições tenham se beneficiado das isenções fiscais, o que corrobora a hipótese de que as baixas taxas para importação de agentes como livreiros e as isenções total a acervos públicos favoreceram o predomínio do francês entre os periódicos disponibilizados aos leitores brasileiros.

Algumas décadas depois, ao que tudo indica, o Bulletin Mensuel de l’Administration des Postes é interrompido em 1878 e reduzido a uma publicação das tarifas telegráficas10. Foi encontrado apenas o exemplar do ano de 1889 com a menção à tarifa praticada para o Brasil, ao lado de um mapa completo das linhas telegráficas espalhadas pelo mundo em que o país aparecia sob a rubrica da Brazilian Submarine Telegraph Companye a Western and Brazilian Telegraph Company (TT, 1889).

Concomitante ao advento do telégrafo, as importações de jornais estrangeiros para o Brasil continuavam ocorrendo, como registra uma publicação da Alfândega do Rio de Janeiro, chamada Estatística de importação direta do Estrangeiro, em 1898, com dados de importação de estampas (desenhos e fotografias), obras (impressas ou litografadas - notas, faturas, envelopes, circulares, anúncios, cartazes, talões, folhinhas, rótulos, etc.), livros e periódicos, além de manuscritos e mapas, itens discriminados sob a rubrica Classe 19 - Papel e suas aplicações.

Livros e periódicos aparecem na mesma categoria classificados genericamente, como “Livros impressos ou de leitura, jornais, periódicos, revistas; músicas; brochados, avulsos ou encadernados com capas de papelão, pano, couro ou pele, ou de seda, massa, madeira, marfim, madrepérola, tartaruga ou enfeite de ouro e prata”11, não sendo possível precisar a quantidade de cada categoria.Todavia, mais uma vez se nota a superioridade da língua francesa. De um total de 264.801 quilos desses impressos, 138.964 quilos vinham da França. Os demais 126.737 quilos vinham dos Estados Unidos, Portugal, Bélgica, Grã-Bretanha, Itália, Alemanha, Argentina, Uruguai e Áustria, nessa ordem.

No mesmo Relatório da Alfândega para o ano de 1916, a França continua como principal fornecedora na maior parte do período. No quadro abaixo, foram compilados os dados para os 12 meses do ano de 1916 (Tabela 02). Dos 625.812 quilos de “papéis e suas aplicações” importados, 291.524, ou seja, quase a metade do total, era proveniente da França, enquanto Portugal não superava os 145.160, ficando em segundo lugar. Disputavam o terceiro lugar os EUA, Grã-Bretanha e Itália, ficando esses cinco países entre os principais exportadores da categoria para o Brasil.

De 1889, quando eram importados 264.801 quilos de impressos de leitura, a 1916, com 625.812 quilos, a importação aumentou em 361.001. No caso específico dos impressos importados franceses, passaram de 138.964 em 1889 a 291.524,65 em 1916, um aumento de 152.560 quilos, mesmo após o advento do telégrafo e a despeito do período que compreende a Primeira Guerra Mundial. Como se vê, essa profusão de periódicos chegava ao leitor por meio de uma rede de difusão vasta e variada, que incluía os correios, agentes importadores e distribuidores como livreiros, vendedores ambulantes, estabelecimentos comerciais de todo tipo e acervos públicos, como as bibliotecas.

Tabela 02 Na categoria de importados “Papel e suas aplicações”, quase a metade era proveniente da França. 

Mês/1916 Total da importação em quilos
Classe 19ª - Papel e suas aplicações
França Portugal
01 44.000,1 19.609,1 7.758
02 45.722,5 9.412,5 22.537
03 67.620,44 35.996 8.804
04 26.735 19.327,7 -
05 56.004,1 16.632,1 14.715
06 68.349,35 41.627,45 9.681
07 63.115,77 27.450 21.423
08 56.374,9 29.806,9 14.478
09 55.871 26.863,5 13.352
10 47.755,1 12.905,9 7.347,2
11 94.264,5 33.888 15.723
12 52.808.3 18.005,5 9.342
TOTAL 625.812,76 291.524 145.160,20

Fonte: Relatório da Alfândega do Rio de Janeiro - Estatística de importação direta do Estrangeiro em 1898

O principal mediador era o livreiro, sem dúvida. Não temos dados de como se dava a cadeia de importação desse material no início do século XIX, mas há registros de pedidos de autorização de livreiros para entrar na colônia com impressos12. Livreiros como o português de origem francesa Paulo Martin Filho, no Brasil desde 1800, e seu sucessor e primo Jean-Baptiste Bompard, provavelmente também vendiam jornais franceses. Foram sucedidos por vários outros colegas de profissão no decorrer do século XIX e XX. No Rio, foram identificados como distribuidores de revistas e jornais franceses avulsos e assinaturas as Livraria Pinto & Waldemar, Librairie Firmin Didot, Morizot et Cie.,Morange & Cie., Librairie de la Maison Impériale - MM. Fauchon et Dupont, Livraria Leuzinger, Livraria Garnier, Lombaerts, M. Buchard & Auberti, MM. Faro & Lino, Librairie Contemporaine, Besnard Frères, Librairie Reynaud, Casa Victor &Co., Livrarias Imperial, Livraria do Povo, entre outros.

Em São Paulo, o mais proeminente distribuidor era, sem dúvida, a Casa Garraux, que aparece sob o nome de Maison Garraux ou de seus representantes e sucessores, tais como Fischer Fernandes & C. e M. Pierre Martin (distribuía para toda São Paulo, com sede em Santos). Mas outros nomes igualmente ofereciam a seus clientes provisão do estrangeiro como a Livraria Brasileira-Alemã de Ricardo Matthes, Livraria Teixeira, Livraria de Achille Ferry, Charutaria do Café Internacional, Rotisserie et Librairie Scafuto, entre outros.

Ao lado dos livreiros mais famosos e conceituados, em geral situados nas ruas centrais das duas capitais e seus arredores - a rua do Ouvidor no Rio e a região conhecida como Triângulo em São Paulo, formada pelas ruas Direita, São Bento e Imperatriz (rebatizada de 15 de novembro após 1889) -, pequenos livreiros se espalhavam pela cidade no avançar do século XX, vendendo inclusive jornais e revistas estrangeiras, o que mostra a vitalidade desse comércio.

Isso para não falar de outras cidades em que representantes davam fôlego para a redistribuição por todo o país: Lailhacar (Pernambuco), Viúva Marcus, libraire (Porto Alegre), Joaquim José de Oliveira (Ceará), Costa et Richard (Santa Catarina), M. J. T. Crehuet (Pelotas - RS), MM. Ch. Dupin (Juiz de Fora), MM. Charline (Pernambuco), Maizeron, Libraire (Porto Alegre), Jeronymo Delsuc (Bahia), Genoud (Campinas), Torres et Ce., librairie et papeterie (Juiz de Fora), Paul de Roquemaure (Minas Gerais), Bezerra de Menezes (Ceará), etc. E ainda há registros de distribuição em Campos, Nova Friburgo, Petrópolis, Ribeirão Preto, Piracicaba, S. José dos Campos, Jacareí, S. Carlos do Pinhal, Ouro Preto, Fortaleza, Rio Grande.

Atesta a existência de um mercado transnacional não só a venda da França para o Brasil, mas também o contrário, fechando o ciclo de aller-retour dessas trocas culturais. Jornais e revistas franceses publicados no Brasil atravessavam o oceano, sendo vendidos por MM. Lacroix, Verboeckhoven et Ce., Librairie Internationale (Paris), MM. Morin et Ce. e M. E. Fouaignan, Librairie Moderne (Bordeaux), M. Laporte, libraire (Havre), J. B. Loubet (Buenos Aires), M. D. Merlaud (Paris), M. G. Ficker (Paris), Bd. de Strasbourg (Paris).

E, todavia fossem os livreiros os protagonistas do circuito de distribuição, não estavam sozinhos. Jornais e revistas importados da França estavam disponíveis em todo lugar, partout. Eram encontrados nos mais diversos tipos de estabelecimentos como papelarias, escritórios de redação dos jornais brasileiros e franceses publicados no Brasil, em tipografias, postos do correio, hotéis, charutarias, estações de trem (como a Estação da Luz em São Paulo), em paquetes transatlânticos, agentes de importação de vinhos, casas de câmbio e até por engraxates, tal como o exemplo mencionado pelo Malho dos livreiros-engraxates.

Parece plausível, assim, supor a existência de uma vasta rede francófona do periódico formada, entre outros, pelos registros de grandes e pequenos livreiros espalhados pelo país e cidades da América Latina a se encarregar desse comércio, cujo alcance era potencialmente multiplicado por anúncios em jornais como O Estado de S. Paulo ou Gazeta de Notícias, almanaques como o conceituado Almanaque Garnier e revistas.

Há inúmeros exemplos do gênero, entre eles o caso de A. F. Reynaud, que editava os hebdomadários franco-brasileiros L’Avenir du Brésil (1885) e Le Brésil Republicain(1890-1897) que, além de anunciar em seus próprios jornais, ainda fez doações para a Gazeta de Notícias de La Nouvelle Mode, Le Coquète e Le Pétit Écho de la Broderie.

Recebemos do Sr. A. F Reynaud os últimos números dos jornais de modas Le Coquète, Le Petit Écho de la Broderie e La Nouvelle Mode todos cheios de figurino de suprema elegância para passeio, baile, etc., sendo que o último traz um molde cortado, tamanho natural, de paletot para senhora.

(Gazeta de Notícias, RJ, 11/05/1900)

Não bastassem tais formas de difusão, outros registros dessa circulação foram encontrados em catálogos antigos de bibliotecas13, gabinetes de leitura e arquivos públicos. A formação de acervos se dava pela aquisição a partir de verbas especialmente destinadas a esse fim, como visto no exemplo da Biblioteca da Marinha. Outrossim, há registros de doação para órgãos públicos feita por editores franceses, tanto do Brasil como do exterior. As redações do jornal Nouveau Monde doavam ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1900 várias de suas edições, por exemplo.

Se as formas de distribuição eram variadas, as de comércio geralmente eram duas: vendas avulsas ou por assinaturas. As avulsas se davam em locais como os descritos acima, e as assinaturas eram feitas com base nos catálogos enviados por livreiros em anexo a livros, revistas e encomendas, ou publicados em veículos locais, como jornais, revistas e almanaques, junto aos anúncios.

A simples existência de catálogos ou mesmo de coleções em acervos não comprova a efetiva leitura; porém, fazem supor que a demanda era significativa. Somam-se a tal fator, as tarifas de importação favoráveis descritas acima, que provavelmente incentivaram a difusão francófona e a criação de um leitorado. Cabe perguntar o motivo que levaria o governo a dar subsídios aos impressos em francês. Não se tem uma resposta segura, mas pode-se conjecturar que a importância cultural da França no período favoreceu a adoção de tais políticas públicas.

Dos cerca de 600 títulos levantados entre os importados para o Brasil, pode-se classificar o corpus de forma mais genérica em políticos, literários, técnicos, científicos-acadêmicos, ilustrado, religiosos, mundanos, esportivos, de viagem, de moda, sensacionalistas, entre outros que vão surgindo, como a categoria “juventude”. Senão tudo, muito do que era produzido em Paris estava à disposição dos leitores que estavam no Rio e em São Paulo dos séculos XIX e XX.

Até aqui foram expostos alguns dos mecanismos que promoveram a formação efetiva de uma rede francófona do impresso periódico nas maiores cidades do Brasil, a partir do mapeamento da circulação de seus suportes vindos de Paris. No que toca ao conteúdo, eles serviram de modelos, e suas temáticas logo ditaram tendências mundiais, como tem documentado a historiografia específica (KALIFA et al., 2011), e o caso nacional não era diferente. Além das constantes reprises de jornais estrangeiros, na língua original ou traduzidas - repetições de trechos inteiros de outros jornais, expediente comum em toda a imprensa ocidental -, a imprensa nacional sempre teve a imprensa estrangeira como parâmetro de desenvolvimento e civilização. Isso sem contar a participação de estrangeiros diretamente nos empreendimentos nacionais, o que certamente deixou suas marcas.

Civilização, luxo, erudição, educação, ilustração, modernidade eram atributos próprios do imaginário francês, e acharam pronta recepção em ambiente tão favorável como o do Rio e de São Paulo, sobretudo no período que se estende de meados do Império aos anos de 1920.

Jornais franceses publicados no Brasil: entre local e global

Os leitores de jornais e revistas em francês também tiveram à sua disposição um conjunto de títulos publicados neste idioma no Brasil, ao que tudo indica desde 1827 com o Indépendant - feuille de commerce, politique et littéraire publicado na Corte. Os periódicos franco-brasileiros somavam cerca de 50 títulos publicados até meados do século XX. A Era de Ouro da imprensa francesa no Brasil ocorreu entre 1854 e 1924, quando a maioria dos títulos surgiram (cerca de 34), principalmente no Rio, sendo alguns muito longevos, com mais de duas décadas de duração (GUIMARÃES, 2017).

Produzido pelas pequenas colônias de franceses que se instalaram no Brasil ao longo dos séculos XIX e XX, seu número era reduzido em comparação ao fluxo de periódicos importados da França, ou mesmo em comparação com a imprensa alófona de outros idiomas, como o italiano e alemão, cuja oferta era prolífica, a depender da região ou época. A despeito disso, jornais franco-brasileiros tiveram ampla repercussão no Brasil, e novamente se pode atribuir a boa recepção ao status ocupado pela cultura francesa entre a intelectualidade da época editados por jornalistas profissionais como Jules Villeneuve ou Altève Aumont, por exemplo, mas também por exilados políticos (Adolphe Hubert), empresários (George Lardy) ou simplesmente homens que viram nos jornais maneiras de representarem certos grupos aqui radicados, como era o caso do tradutor juramentado Eugène Hollender (editor do Le Messager de São Paulo, 1901-1924), entre tantos outros mediadores que no espaço desse artigo não cabe detalhar.

Um fator que diferenciava o corpus de jornais que vinham de Paris dos periódicos franco-brasileiros é que os primeiros tinham nichos bem segmentados, e os franco-brasileiros eram de informação geral e reuniam várias rubricas em um só veículo, com exceção de um ou outro mais especializado, como a série formada pelo trio de jornais Le Figaro Chroniqueur (1859), Ba-ta-Clan (1867-71) e Le Gil Blas (1877-78). Todos os três se denominavam satíricos e tinham forte conteúdo de polêmica política. Eram próximos daquilo que era chamado “petite presse” na França não só pelas características artesanais, mas pelo conteúdo mais de opinião que de informação, predominando as “diatribes políticas” próprias de pasquins. Outro exemplo de especialização temática dos jornais franceses publicados no Brasil é a Petite Revue - financière, économique, commerciale et littéraire (SP, 1902), órgão do Crédit Général Français. Pode ser considerado um veículo de economia. Apesar de se dizer também literário, era na verdade voltado ao crédito para pequenos comerciantes, dando informações de mercado e investimentos.

Essa especialização, no entanto, não é comum, e praticamente todos os demais jornais traziam muitas rubricas, inspirados nos modelos matriciais como La Presse de Girardin, Le Figaro (na nova fase, após 1854 e sob a direção de Hippolyte de Vilemessant), e mais tarde Le Matin entre outros. Eram assim o Courrier du Brésil (RJ, 1854-1962), Écho du Brésil et de l’Amérique du Sud RJ, 1859-1860), Le Messager du Brésil (RJ, 1878-1894), Le Nouvelliste de Rio de Janeiro (RJ, 1863), L’Impartial (RJ, 1866), La Gazette du Brésil (RJ, 1867-1868), L’Étoile du Sud (RJ, 1885-1924), Le Bulletin Français (SP, 1895), Revue Franco Brésilienne (RJ, 1909-1922), entre outros.

Houve casos em que não foi possível averiguar o conteúdo, e não se deve basear somente no título para estabelecer tipologias. O caso de La Petite Revue deixa claro que nem sempre o conteúdo corresponde ao cabeçalho. Nota-se que não havia revistas em francês publicadas no Brasil que tratassem dos mesmos temas das revistas dos periódicos editados em Paris, caso das revistas de moda ou ilustradas. Não era possível concorrer com a França em quantidade, tampouco em qualidade de impressão.

Comparando os dois corpora, no caso específico das revistas francesas publicadas no Brasil e em Paris, no geral as franco-brasileiras ficavam muito atrás no quesito de qualidade (inclusive em relação às publicações nacionais) e de conteúdo. A Revue Franco-Brésilienne de 1898, por exemplo, era bem modesta quando comparada com ricas revistas ilustradas vindas de Paris e anunciadas em vários catálogos e mesmo com títulos nacionais, a essa altura já começando a se sofisticarem.

De outro lado, a despeito de sua simplicidade, condicionada pelas restritas técnicas locais de impressão (quando comparadas à tecnologia utilizada na França), a Revue Franco-Brésilienne apresentava-se bem integrada ao circuito da intelectualidade brasileira. Seus editores Alfred de Carmand e Duncan Wagner davam largo espaço para brasileiros em vias de se tornarem nomes reconhecidos como Olavo Bilac e Coelho Neto. Carmand era filho de diplomata francês, e seu irmão Raol radicou-se em Montevidéu. Não sabemos se teve atuação da imprensa desse país. Fato é que Carmand esteve muito ligado aos parnasianos cariocas e fez parte do grupo que fundou a revista Kosmos (RJ, 1904-1909). Já Duncan Wagner, quando sai da revista, vai para a Argentina, onde encetou o movimento literário modernista La Brasa na província de Santiago del Estero, nos anos de 1920, ao lado do irmão Émile Duncan e dos colegas Bernardo Canal Feijóo e Orestes de Lullo, o que demonstra como esses franceses atuavam como elos para difusão uma rede francófona, que não raro se imiscuía nos movimentos nacionais artísticos e políticos de vários países.

A Revue Franco-Brésilienne compunha uma série com outra revista literária escrita em francês publicada em São Paulo, A Tarde Ilustrada - Figaro Parisiense em S. Paulo de 1896. Ambas eram “literárias”, ou seja, tinham essa atuação para um nicho específico, ao contrário dos jornais informativos. Ainda assim, é difícil compará-las com suas congêneres parisienses tanto pela sua composição gráfica como pelo seu conteúdo. A própria definição de “literária” era duvidosa, pois tinha um caráter mais bajulador que de crítica literária genuína, por vezes. No Expediente do número 28 de 1º de maio de 1896, esse jornal bilíngue editado pelo francês Raphel Gondry e pelo brasileiro Adolpho Peixoto, dizia-se independente, órgão da elite paulista que “publica biografias e retratos dos maiores vultos do Brasil”, e que era “o único jornal de S. Paulo que tem mais de 2000 leitores em Paris, Madrid, Londres, Berlim, Lisboa e Rio de Janeiro”. Na edição consultada por A. Freitas (n. 36, 5 a 15/09/1896, o órgão reitera sua intenção de divulgação do Brasil para o estrangeiro: “A Tarde tem o fim patriótico de, por todos os meios, vulgarizar e tornar conhecidos no estrangeiro os homens ilustres do Brasil. Colaboração dos melhores escritores e escritoras parisienses e brasileiros e de um grupo de distintos moços brasileiros. Correspondentes no Rio, Lisboa, Madrid e Paris.”, sendo distribuída, então, a 6000 leitores, número significativo para a época.

Também havia diferenças significativas entre o corpus de jornais e revistas importados de Paris e o corpus de periódicos franco-brasileiros, a começar pelo reduzido número de títulos publicados no Brasil, consequência tanto da modesta imigração, como das restrições técnicas ainda existentes no país, o que faz com que essa imprensa tenha uma ligação mais estreita com os ritmos técnicos da imprensa nacional que com a imprensa importada. E não seria errado afirmar que nosso modesto público leitor, além de um vasto público analfabeto e excluído em geral, não permitiria a dinamização de um mercado editorial de periódicos em língua estrangeira, uma vez que nem mesmo para os produtos nacionais havia grande demanda. Tais fatores combinados podem explicar a pouca variedade e segmentação de títulos publicados em francês no país, mesmo em cidades maiores como Rio, e seu número muito reduzido quando comparado ao volume de periódicos nessa língua que chegavam de Paris todos os meses nos portos e se espalhavam pelo Brasil graças aos serviços de correios.

A temática em grande parte dedicada aos interesses da colônia, mesmo quando tratavam os temas locais, também era uma característica que os distinguia, enquanto que na imprensa importada isso praticamente não ocorria, salvo em alguns casos bem conhecidos como na Revue des Races Latines (Paris, 1858-1864), que tinha uma seção exclusiva para o Brasil, ou textos da Revuedes Deux Mondes, que tinham esse olhar antropológico-estratégico-político para o Brasil.

As singularidades, bem compreensíveis do corpus franco-brasileiro, não afastam essa produção das características gerais do modelo matricial francês. Vistas em conjunto, essas coleções atestam a existência de uma rede bem sedimentada do impresso periódico francófono a difundir o discurso de latinidade, o olhar colonizador e civilizador, principalmente durante o Segundo Império, na mesma lógica da expansão para o Oriente. Além, é claro, da participação dos mesmos jornalistas ou correspondentes em vários veículos diferentes pelo mundo todo, a exemplo de Victor Hugo, só para falar do nome mais conhecido, que escrevia para órgãos europeus e americanos, inclusive brasileiros.

A acentuada rivalidade comercial e cultural com britânicos no século XIX e com germânicos no século XX - um “antipangermanismo” cada vez mais presente desde a Guerra Franco-Prussiana, que chegou ao ápice durante a Primeira Guerra - estava igualmente presente nas publicações dos dois lados do Atlântico. Por trás do temor da diminuição da “influência” francesa no Brasil, tanto comercial mas também nos costumes14, os editoriais eram preenchidos por palavras de preocupação e análises para solucionar a crescente ameaça de perda de espaço. É o caso, por exemplo, da exaltação do papel da Aliança Francesa como órgão difusor de “notre influence à l’étranger”, que aparecia em vários jornais. O Journal Français du Brésil (SP, 1902-1904), de Charles Maillet, trazia na edição de 1903 editorial em que defendia ações de expansão da língua com claros fins diplomáticos: “A difusão da língua francesa fora da França oferece um meio muito eficaz e prático de estreitar relações, de facilitar as exportações do comércio francês e, por consequência, de aumentar a produção nacional”15.

De outro lado, as relações com a imprensa brasileira eram intensas, com participação de franceses nas redações locais e vice-versa, com brasileiros frequentando os bureaux espalhados pelas regiões que concentravam a crescente produção periodística de cidades como Rio e São Paulo, e assinando colunas de variados assuntos. A imprensa franco-brasileira se imiscuía nos temas locais como nas discussões sobre os rumos do Império, temas sobre a República e o fim da escravidão, questões territoriais (Guerra do Paraguai, disputas de fronteira sobretudo com a Guiana), questões comerciais (lavoura do café, desenvolvimento da indústria, possibilidades de investimento no Brasil) ou debates sobre políticas migratórias. Também apareciam assuntos mais cotidianos, como reformas urbanas e sanitárias, a violência nas ruas, críticas de teatro e literatura, e até reclamações sobre o aumento de impostos: “Dr. Cardoso de Almeida - Os novos impostos criados por S. Ex. tiveram reprovação geral devido à sua grande desproporção. Efetivamente, eles desoneram as classes afortunadas e massacram as pouco privilegiadas”16 (Le Messager de São Paulo, SP, 7/2/1916).

Havia, igualmente, seções de anúncios que revelam um universo genuinamente francês incrustado em cidades como Rio e São Paulo, a interagir com o cotidiano dos brasileiros e tantos outros imigrantes que aqui se radicavam e dos quais os maiores vetores eram os jornais franco-brasileiros, a dar essa sensação de pertencimento e familiaridade aos imigrantes então dispersos. Tal rede de contatos e trocas culturais por meio do impresso é muito mais múltipla e envolve outros países passando obviamente por Portugal e Inglaterra, devido à posição de metrópoles que ambas exerceram no caso brasileiro. Inúmeros outros países podem ser citados, inclusive de matriz francófona como suíços e belgas, ou anglófona, como irlandeses e norte-americanos, e dos demais grupos das mais diversas origens instalados em regiões e temporalidades distintas que fizeram do Brasil, afinal, um país de imigrantes. Este artigo, porém, vai se ater apenas ao caso francófono no recorte espacial indicado, e não tem pretensão de esgotar o assunto, muito menos de dar conta dessa intricada e complexa rede poliglótica.

De todo modo, a maioria dos estudos sobre história do livro ou da imprensa periódica, sejam antigos ou atuais, reconhecem como inegável a predominância francesa na atividade periodística brasileira ao ponto de que mesmo um marco cronológico da história da imprensa no Brasil pode ser questionado. É o caso de um exemplo central e que diz respeito à cronologia da imprensa ilustrada no Brasil. Werneck Sodré (1999), talvez o trabalho mais clássico e citado quando se trata do tema, e outros que o seguiram desconsideraram o Écho Français - bulletin politique, littéraire, des sciences et des arts de 1838, e a Revue Française - littérature, sciences, beaux-arts, politique, commerce de 1839 como pioneiras da história da imprensa ilustrada no Brasil pelo fato de serem publicadas em francês. Isto é, eram publicações vistas como parte da imprensa imigrante, apesar de impressas no Rio. Em geral, esse título é atribuído à A Lanterna Mágica de 1844. No entanto, já em 1839 Furcy Filho gravava estampas feitas com a técnica da calcografia (talho-doce) a serem distribuídas junto à publicação de seu pai ou adquiridas separadamente. Rafael Cardoso foi claro em afirmar que se tratava mais de uma escolha ideológica e nacionalista do grupo do ISEB - Instituto Superior de Estudos Brasileiros, ao qual Werneck pertencia, que a uma análise rigidamente técnica (CARDOSO, 2011)17.

Enfim, o desafio é tomar o estudo da imprensa estrangeira publicada no Brasil como objeto, e não apenas como fonte, e não percebê-la como mera imprensa imigrante, mas encará-la como parte da história da imprensa nacional nessa perspectiva de integração transnacional, entendendo como essas coleções eram formadas e quem eram os intermediários esquecidos nesse circuito da leitura - portanto, indo além da análise do conteúdo para entender a inserção social desses suportes.

Viu-se como os periódicos franceses, importados ou produzidos surplace, estavam por todo lado, disponíveis mesmo em locais improváveis por mais de 100 anos! Isso sem falar de almanaques, boletins de categorias específicas, publicações acadêmicas como anais, ou manuais técnicos que difundiam um mesmo conjunto de referências. E o padrão se repete em outras partes do mundo, do Oriente às Américas18, interligados pela imprensa. Tomar uma perspectiva transnacional implica perceber esse fenômeno não como meramente local, mas integrado a um movimento mais amplo e de feições globais, sem desprezar suas singularidades - como ocorre no caso brasileiro que, além da francofilia comum a várias regiões do planeta, contava ainda com taxas comerciais postais vantajosas, que provavelmente favoreceram as importações e a inserção do país em uma vasta rede francófona.

As dinâmicas nacionais e transnacionais são diferentes, mas há pontos de encontro que as tornam mais integradas do que poderíamos supor, uma história global que talvez tangencie uma tentativa de se tecer uma “narrativa da modernização”19, para além das fronteiras nacionais. Assim, o caso da imprensa francesa é emblemático como se tentou demonstrar, por colocar em marcha uma integração midiática efetiva entre vários continentes.

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TT - Tarif Télégraphique 1889 [ Links ]

Notas

DECLARAÇÃO DE FINANCIAMENTOA pesquisa que deu origem a este artigo conta com apoio Auxílio Regular FAPESP, proc. 2016/08605-7, projeto "Imprensa Francesa Publicada no Brasil (1854-1924)" e faz parte das atividades do projeto Capes-Print, proc. 88887.374171/2019-00, "Imprensa francófona publicada nas Américas: a imprensa alófona e as identidades nacionais"

114 juillet - Soleil de la Liberté qui éclaire le monde de tes bienfaisants rayons, tu te trouves caché à nos yeux par un nuage sanglant qui plane, depuis trop longtemps, sur notre beau pays, si beau, si grand et si malheureux ! Puissent tes rayons le dissiper et pénétrer jusqu’à ceux qui nous gouvernement, car je crois que, pour le moment, ils n’ont pour s’éclairer qu’une simple chandelle !”

2Vigorando até dezembro de 1930, quando é revogado sob o governo de Getúlio Vargas. Decreto 155-B, de 14 de janeiro de 1890, disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-155-b-14-janeiro-1890-517534-publicacaooriginal-1-pe.html Decreto 19.488, de 15 de dezembro de 1930, disponível em: http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoSigen.action?norma=437105&id=14416387&idBinario=15694231&mime=application/rtf

3Em dados a estimados, entre 1905-1933 entraram no Brasil 19.573 franceses, 353.018 italianos, 371.656 espanhois e 117.146 alemães.

4“Les journaux, les gazettes, les ouvrages périodiques, les livres brochés, les livres reliés en cuir ou en carton sans aucune garniture, les brochures, les papeirs musique, les catalogues, les prospectus, les annonces et les avis divers imprimés, gravés, lithographiés ou autographiés, qui seront expédiés de la France et de l’Algérie pour le Brésil, tant par la voie directe des paquebots-poste français que parla voie d’Anglaterre et des paquebots-poste britanniques, pourront être affranchis jusqu’à destination à raison de quinze centimes par chaque poids de quarente grammes ou fraction de quarente grammes.”

5Eram notícias frescas e breves dadas pelo telégrafo e publicadas em vários jornais.

6“(…) la consistance nécessaire pour pouvoir résister au frottement qu’elles auront à subir dans le cours du trajet entre le lieu d’origine et le lieu de destination. Chaque paquet de journaux et d’autres imprimés adressé au Brésil pourra être enveloppé d’une feuille de papier couvrant toute sa surface, pourvu que les deux extrémités du paquet soient laissées à découvert pour permettre la vérification du contenu. Les paquets pesants et volumineux devront, en outre, être consolidés par des ficelles disposées de manière à pouvoir être facilement dénouées.”

7Não foram encontrados documentos que registrassem seu conteúdo, e não acreditamos que esse tipo de trabalho era feito, em razão do extensor e variado número de títulos.

8Nesse mesmo boletim, vem publicada a Circular, 185 que anuncia novos serviços de paquetes-correios franceses partindo de Bordeaux para o Rio, Buenos Aires, passando por Montevidéu, a serem inaugurados nos próximos meses. Essa linha sofreu interrupção oficial em virtude de uma autorização ministerial de 15 de novembro de 1876 devido às más condições sanitárias dos portos do Rio, indo o paquete diretamente para Buenos Aires, até a suspensão em 5 de julho de 1877 (BMAP, 1877, p. 247). De qualquer maneira, aqui se vê que outras regiões passam a integrar essa rede francófona da qual o Brasil fazia parte, tal como a região do Prata, tema ainda a ser explorado.

9Aqui também há elementos para se inferir sobre a presença marcante da imprensa farancófona na região do Prata. AAMICPRJ, 1858, p. 91 e 92.

10Tarif Télégraphique sous la direction générale des Postes et des Télégraphes, mars, 1889

11Os brochados encadernados em papelão são provavelmente fardos de jornais, e as demais capas em coro, pele, madrepérola etc. devem se referir a livros.

12Mesa do Desembargo do Passo. Processos de 29/01/1818, 22/03/1824 e 22/01/1828.

13O fato de serem catálogos antigos garante que estes títulos estavam disponíveis nos acervos naquela época.

14 Recorrente mesmo durante o que Jeffrey Needell (1993) chamou de Belle Époque Tropical, quando a europeização, sobretudo de matriz francesa, era sinal de civilização, modernidade e sofisticação.

15“La diffusion de la langue française hors de France offre un moyen très efficace et très pratique d’accroître les relations, de faciliter les exportations du commerce français et, par conséquent, d’augmenter la production nationale.”.

16Dr. Cardoso de Almeida - Les nouveaux impôts crées par S. Ex. ont trouvés la réprobation générale par suite de leurs grande disproportion. Effectivement ils désonèrent les classes fortunées et écrasent celles peu fortunées.”

17O Écho Français era editado pelo francês Jules Villeneuve (mesmo editor do Jornal do Comércio e da revista ilustrada O Museu Universal), e em 1839 foi sucedido por C. H. Furcy, o qual depois passou a editar a Revue Française. Rafael Cardoso observa: “Se a recepção e a circulação são chaves para compreender a representatividade de um objeto de comunicação, a importância de sua origem deve ser relativizada. (...) Tais impressos (em língua estrangeira) também costumam ser objeto de lamentável negligência, e o maior exemplo é nada menos do que a outra das duas primeiras revistas ilustradas publicadas no Brasil : L’Écho Français, editado por J. Villeneuve et Cia. a partir de 1838, mesmo ano e mesma editora de O Museu Universal.” (CARDOSO, 2011, p. 22).

18Como atestam projetos coletivos sobre o tema, como o Transfopress - Transnational network for the study of foreign language press - XVIIIth-XXth century, sediado na CHCSC-UVSQ.

19Como se indaga Chloé Maurel em seu Manuel de l’histoire globale (2014, p. 105).

Recebido: 30 de Janeiro de 2019; Aceito: 07 de Maio de 2019

E-mail: valeria.s.guimaraes@unesp.br

>Dossiê A imprensa francófona nas Américas nos séculos XIX e XX Organizadores: Valéria dos Santos Guimarães, Guillaume Pinson, Diana Cooper-Richet

Valéria dos Santos GUIMARÃES é bacharel e doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), possui pós-doutoramento em Comunicação pela PUC de São Paulo e em História Cultural pelo Centre d'histoire culturelle des sociétés contemporaines da Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines (CHCSC-UVSQ), onde é pesquisadora associada. Atualmente é professora na Graduação e no Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, UNESP. Realiza pesquisa sobre os faits divers e os primórdios do sensacionalismo na imprensa brasileira e atualmente dedica-se à pesquisa sobre circulação e publicação de jornais e revistas franceses no Brasil. É autora do livro Notícias Diversas (São Paulo: Mercado de Letras, 2013) e organizou as coletâneas Les Transferts Culturels : l'exemple de la presse en France et au Brésil (Paris: l'Harmattan, 2011) e Imprensa em língua estrangeira publicada no Brasil: primeiras incursões (São Paulo: Rafael Copetti Ed., 2017).

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