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Revista Brasileira de Coloproctologia

Print version ISSN 0101-9880

Rev bras. colo-proctol. vol.26 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-98802006000100006 

RELATO DE CASO

 

Metástase endotraqueal e endobrônquica de adenocarcinoma de cólon

 

 

Paulo de Carvalho Contu; Cláudio Tarta; Daniel de Carvalho Damin; Ivanice Freire Duarte; Simone Santana Contu; Luís Fernando Moreira

Serviço de Coloproctologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) – Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A disseminação metastática endotraqueal e endobrônquica do câncer de cólon é um evento raro. Os autores relatam o caso de um paciente com manifestação aguda de doença metastática endotraqueal e endobrônquica, 10 anos após o tratamento do tumor primário.

Descritores: câncer, colorretal, metástase, endotraqueal, tratamento, prognóstico


SUMMARY

Endotracheal and endobronchial dissemination from a colon cancer is an excedingly rare event. The authors report a case of an endotracheal and endobronchial metastatic lesion presenting clinically 10 years after treatment of the primary tumor.

Key words: colon cancer, endobronchial metastatic, treatment


 

 

INTRODUÇÃO

O envolvimento do pulmão por neoplasias extratorácicas é observado em 30% dos casos 1. Já o comprometimento pulmonar na forma de metástases endobrônquicas é de 2% 1,4,6. Os tumores sólidos que mais freqüentemente apresentam disseminação endobrônquica são os tumores de cabeça e pescoço, rim, mama e intestino grosso 1, podendo também ocorrer em carcinoma de tireóide, testículo, bexiga, ovário, colo uterino, útero, pâncreas, esôfago, estomago, melanoma e sarcoma 1-7. O intestino grosso é responsável por 11% a 26% dos casos de metástases endobrônquicas 1.

 

RELATO DO CASO

Paciente masculino, 64 anos, foi admitido com quadro de insuficiência respiratória e estridor laríngeo. História de colectomia esquerda há 10 anos e pneumonectomia direita há 2 anos para tratamento, respectivamente, de um adenocarcinoma de cólon descendente Dukes B e metástase pulmonar. Realizou tomografia computadorizada que evidenciou lesão endotraqueal e endobrônquica à esquerda, nódulo no segmento ápico-posterior do pulmão esquerdo, lesão hepática em segmento seis e derrame pleural à direita. Foi submetido a broncoscopia rígida com ressecção parcial das lesões. O exame anatomopatológico e imunohistoquímico confirmaram adenocarcinoma de origem gastrintestinal. Metástases ósseas e hepáticas foram diagnosticadas por cintilografia e ultrassonografia, respectivamente. Foi indicado tratamento paliativo com radioterapia para traquéia e áreas de dor óssea.

 

DISCUSSÃO

A primeira descrição de metástase endobrônquica por carcinoma de cólon foi de Raine em 1941. Usualmente é acompanhada de disseminação metastática sincrônica, sendo, portanto, sinal de doença avançada e de mau prognóstico, com sobrevida, usualmente, bastante curta 1,5.

Ao contrário das metástases parenquimatosas de pulmão, as metástases endobrônquicas ocorrem ao acaso na árvore respiratória 5. A apresentação clínica é semelhante ao do carcinoma primário de pulmão, com tosse e hemoptise, ocorrendo na maioria dos casos 1,2, enquanto que dor torácica, dispnéia e sibilância são achados menos freqüentes 2,3,5. A manifestação de estridor é rara, uma vez que o comprometimento da traquéia é incomum.

Os achados radiológicos das metástases traqueais e brônquicas são bastante variáveis 6, podendo também simular um carcinoma brônquico primário 2. A radiografia de tórax pode ser normal ou apresentar múltiplos nódulos, infiltrados e atelectasias subsegmentares ou de todo o pulmão 1,6. Salud e colaboradores 7 demonstraram correlação entre os achados broncoscópicos e da tomografia computadorizada, atribuindo a esta última uma alta sensibilidade na detecção e localização das lesões endobrônquicas, podendo auxiliar na avaliação de pacientes quando a broncoscopia não é factível.

Embora o diagnóstico possa ser suspeitado pelos achados clínicos e radiológicos, a confirmação deve ser feita por broncoscopia com biópsia profunda, uma vez que a lesão é submucosa 1,5, o que explica o baixo índice diagnóstico do exame citopatológico de escarro e do lavado e escovado brônquicos 1,2,5.

Apesar das manifestações clínicas e radiológicas serem similares ao carcinoma brônquico primário, há evidências que ajudam a diferenciar estas condições, como a história prévia de tumor extratorácico primário 2. O intervalo entre o diagnóstico do tumor primário e a recidiva pulmonar endobrônquica varia de 3 meses a 25 anos, segundo as séries retrospectivas 1,4-6.

O tratamento deve ser definido individualmente, conforme o tumor primário, gravidade dos sintomas e extensão sistêmica da doença 6. A radioterapia pode oferecer bons resultados nos pacientes cuja manifestação metastática mais importante é a pulmonar 2. Outros meios terapêuticos paliativos são a fototerapia por laser e colocação de prótese endobrônquica 1. Em casos selecionados, a lobectomia ou pneumonectomia podem ser opções aceitáveis 1. Sheperd 4 descreveu uma série de 25 pacientes com metástase endobrônquica, 12 dos quais tratados cirurgicamente, incluindo três casos com lesão primária de intestino grosso, com sobrevida média de 12 meses. A cirurgia parece ser a opção que permite os maiores intervalos livres de sintomas e sobrevida, quando a lesão endobrônquica for a única manifestação de doença metastática.

O longo intervalo que pode ocorrer entre o tratamento do tumor primário e a manifestação metastática reflete o caráter indolente de tumores sólidos, como o carcinoma colorretal.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência:
PAULO DE CARVALHO CONTU
Rua Casemiro de Abreu, 900 apto. 302
Bairro Bela Vista
90420-000 – Porto Alegre (RS)
E-mail: contu@terra.com.br

Recebido em 03/10/2005
Aceito para publicação em 18/11/2005

 

 

Trabalho realizado no Serviço de Coloproctologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) – Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).