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Revista Brasileira de Coloproctologia

On-line version ISSN 0101-9880

Rev bras. colo-proctol. vol.26 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-98802006000300011 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Estudo da expressão da proteína caderina-E correlacionada com o grau de diferenciação celular e o estadiamento TNM do adenocarcinoma colorretal

 

Relationship study between the cadherin-E protein cell diferentiation and TNM staging

 

 

Marcos Vinicius Araujo DenadaiI; Armando Geraldo Franchini MelaniII; Carlos Augusto VéoIII; Sandra Regina Morini da SilvaIV

IMédico do Departamento de Cirurgia Oncológica da Fundação Pio XII-Hospital do Câncer - Barretos - SP. FUNDAÇÃO PIO XII – Hospital de Câncer de Barretos: R. ANTENOR DUARTE VILLELA, 1331,BAIRRO PAULO PRATA – BARRETOS – SP- 14784-400 – (17)33216600
IIMédico do Departamento de Cirurgia Oncológica da Fundação Pio XII - Hospital do Câncer - Barretos- SP. FUNDAÇÃO PIO XII – Hospital de Câncer de Barretos
IIIMédico do Departamento de Cirurgia Oncológica da Fundação Pio XII - Hospital do Câncer - Barretos - SP. FUNDAÇÃO PIO XII – Hospital de Câncer de Barretos
IVMédica do Departamento de Patologia da Fundação Pio XII - Hospital do Câncer - Barretos-SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a relação de uma proteína que participa do mecanismo de adesão celular com o grau de diferenciação celular e o estadiamento TNM I e IV no CCR.
MÉTODOS: Foram estudados 100 pacientes (54 homens e 46 mulheres) tratados por CCR, estádio I - 44 pacientes, estádio IV - 56 pacientes. Os cortes histológicos do tecido tumoral foram examinados por técnica de imunohistoquímica em relação à expressão da proteína caderina-E. Os cortes histológicos foram classificados como positivos ou negativos pelo método semiquantitativo.
RESULTADOS: Para o TNM, expressão da caderina-E estádio I: positiva em 72,7 % e negativa em 35,7% ; estádio IV: positiva em 64,3% e negativa em 35,7%. Em relação ao grau de diferenciação celular, expressão da caderina-E; G I: positiva em 70% e negativa em 30%; G II: positiva em 68.4% e 31,6% negativa; G III: 63.6% positiva e 36,4 % negativa.. Não houve diferença significativa entre os grupos.
CONCLUSÃO: Os resultados dessa pesquisa permitem concluir que não há relação da expressão da proteína caderina-E com o estadiamento TNM (I e IV) e o grau de diferenciação celular no CCR.

Descritores: Caderinas; neoplasias do cólon; cólon; reto; moléculas de adesão celular.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To evaluate the relationship of a protein that take part in the same mechanism of cell adhesion with the cell differentiation degree and TNM staging I and IV in CRA.
METHODS: One-hundred patients (54 men and 46 women), who have received treatment for CRA, stage I – 44 patients and stage IV – 56 patients, have been studied. Histological cuts of tumor tissue were examined by the immunohistochemical technique as to the expression of E-cadherin proteins. Such histological cuts were classified as positive or negative through the semi-quantitative method.
RESULTS: For TNM, the E-cadherin expression for stage I: positive in 72.7% and negative in 35.7%; stage IV: positive in 64.3% and negative in 35.7%. Regarding the cell differentiation degree, the expression of E-cadherin, GI: positive in 70% and negative in 30%; GII: positive in 68.4% and negative in 31.6%; GIII: positive in 63.6% and negative in 36.4%. There was no significant difference among the groups.
CONCLUSION: The results of this research come to the conclusion that there is no relationship between the expression of E-cadherin protein with TNM staging (I and IV) and cell differentiation degree in CRA.

Key words: Cadherin; Neoplasm; Colon; Rectum; Cell cadherin.


 

 

1 - INTRODUÇÃO

O carcinoma colorretal (CCR) representa um problema de saúde pública mundial. O número de casos novos de CCR estimados para o Brasil em 2006 é de 11.390 casos em homens e de 13.970 em mulheres. (1)

Pacientes portadores de CCR em estádios iniciais apresentam bom prognóstico, porém, nos estádios avançados da doença há uma redução da sobrevida (20% em 5 anos), (2) Entretanto, alguns pacientes com doença localizada morrem por recidiva tumoral, mesmo recebendo o tratamento adequado. (3)

Diante desses fatos, trabalhos na literatura foram elaborados numa tentativa de traçar um perfil prognóstico para o CCR, levando em conta não só as informações do exame anatomo-patológico e de estadiamento, mas também o conhecimento das estruturas que participam das funções básicas da célula, como o processo de adesão celular e a capacidade de angiogênese, envolvidos também na carcinogênese. (4) (5)

A proteína caderina-E desempenha um importante papel no mecanismo de adesão celular, mediando a interação célula-célula e célula-matriz extracelular, mantendo a integridade do tecido epitelial. Pertence a uma família de glicoproteínas transmembrana, presente sobre a superfície das células, cálcio dependente. (6)

Evidências indicam que a perda da função da caderina-E está relacionada com o processo de diferenciação e metástases no carcinoma de mama e de esôfago. (7) (8)

A perda da expressão da caderina-E e das cateninas foi associada com invasão tumoral e metástases, sugerindo um potencial fator prognóstico no CCR, em trabalhos de Ghadimi et al (1999) (9) e Gofuku et al (1999). (10)

Por outro lado, Kitadai et al. (1996) (11) não evidenciaram relação estatística da perda da expressão da caderina-E relacionada com metástases hepáticas no CCR, e Leme et al. (2005) (12) não relacionaram a expressão da proteína caderina-E, com o estadiamento clínico e o prognóstico.

A diversidade de resultados - até controversos - em literatura específica motivou esta investigação no sentido de procurar estabelecer a relação entre a expressão da proteína caderina-E, considerada como participante do processo de adesão celular, com variáveis histopatológicas no CCR localizado (estádio I) e avançado (estádio IV).

 

2 - OBJETIVO DA PESQUISA

Verificar a associação entre a expressão da caderina-E com o grau de diferenciação celular e com o estadiamento TNM (estádio I e IV) do adenocarcinoma colorretal.

 

3 - MATERIAL E MÉTODOS

Estudo de natureza retrospectiva, desenvolvido nos Departamentos de Cirurgia Oncológica e Anatomia Patológica do Hospital do Câncer de Barretos - Fundação Pio XII - Barretos –SP. As amostras biológicas foram coletadas do arquivo do Laboratório de Patologia da Fundação Pio XII e os dados clínicos foram coletados no SAME (Serviço de Arquivos Médico e Estatística).

3.1 - Amostra

A amostra foi constituída de 100 pacientes portadores de CCR tratados no Hospital de Câncer de Barretos - Fundação Pio XII - no período de 1993 a 2004, divididos em dois grupos de estadiamento, segundo as normas do TNM (13) : 44 pacientes estádio I (pT1 ou pT2 N0 M0) e 56 pacientes estádio IV (qualquer T, qualquer N, M1).

3.2 - Critérios de inclusão

Foram incluídos pacientes admitidos no hospital para tratamento, pertencendo apenas aos estádios I e IV, classificados de acordo com o sistema T N M, possuindo prontuário médico e blocos de parafina que representam o tumor primário ou a lesão metastática, arquivados no Departamento de Patologia.

Para definir o diagnóstico e o estadiamento, foram utilizados: biópsia do tumor colorretal, exames de imagem (RX tórax, TC abdominal, US abdominal), biopsia da lesão metastática, achado intra - operatório e laudo do exame anátomo - patológico. No grupo considerado como estádio I, 6 pacientes receberam tratamento pré-operatório com radioterapia e quimioterapia, e 2 pacientes receberam apenas radioterapia neo-adjuvante, num total de 8 (18%) pacientes em 44 casos.

3.3 - Critérios de exclusão

Foram considerados critérios de exclusão: indisponibilidade de dados clínicos e/ou anátomo-patológicos, estadiamentos TNM II e III, pacientes portadores de polipose familiar, outros tipos histológicos diferentes do adenocarcinoma e tumores metacrônicos.

3.4 - Características da amostra

Em relação ao gênero dos pacientes, ficaram distribuídos: 18 (41%) - feminino e 26 (59 %) - masculino no grupo estádio I e 28 (50%) - feminino e 28 (50%) – masculino no estádio IV. O tipo histológico predominante foi o adenocarcinoma clássico tubular.

Quanto ao grau de diferenciação celular, para o estádio I: 9 (20,4%) - grau I; 33 (75%) - grau II e 2 (4.5%) dos tumores grau III. Nos pacientes do estádio IV, 1 (1,8%) tumor foi classificado como grau I; 46 (82,1%) eram grau II e 9 (16%) tumores grau III.

Uma síntese dos resultados das variáveis está disposta no quadro 1.

 

 

3.5 - Técnica Imunohistoquímica

Para avaliação da expressão da proteína caderina-E pelo método de imunohistoquímica, foram usados anticorpos primários monoclonais: E-cadherin Novocastra NCL E-cad, clone 3 6 B 5, diluição de 1/ 100.

Os blocos de parafina foram recortados em micrótomo rotativo, obtendo-se cortes histológicos de 2 a 3 micra de espessura e depositados em lâminas previamente tratadas com silano (3 –aminopropyl -triethoxilane, SIGMA A-3648, USA) com a reação utilizando o complexo Avidina-biotina-perxidase (ABC) / Estreptavidina-biotina-peroxidase (StreptABC).

3.6 - Avaliação dos resultados obtidos pelo método imunohistoquímico

A avaliação da expressão da proteína foi realizada por leitura das lâminas histológicas em microscópio óptico (aumento de 40 x), por 3 médicos patologistas que desconheciam o estadiamento do material.

O critério adotado foi o seguinte: achados considerados positivos ou normais quando se detectou a presença da proteína caderina-E na membrana celular em 50% ou mais das células tumorais e negativos quando se verificou a ausência da proteína; localização no citoplasma; menos de 50 % de células com expressão da proteína caderina-E. Os resultados foram obtidos em consenso entre os patologistas, aplicando-se o método semiquantitativo.

As figuras 1 e 2 a seguir representam a expressão desta proteína pelo método imunohistoquímico.

 

 

 

 

3.7 - Análise estatística

Os resultados foram submetidos a tratamento estatístico com a finalidade de determinar se existe correlação entre a expressão da proteína caderina-E com o estadiamento e com o grau de diferenciação tumoral no CCR.

O teste de qui-quadrado de Pearson foi empregado para a comparação dos dados coletados com os resultados obtidos da expressão da proteína caderina-E, adotando como nível de significância p = 0,05.

 

4 - RESULTADOS

4.1 - Expressão da proteína caderina-E no estadiamento TNM

Em relação à caderina-E para o estadiamento I: expressão positiva em 32/44 (72,7 %) pacientes e expressão negativa em 12/44 (27,2%) pacientes. Para o estádio IV: expressão positiva em 36/56 (64,2%) pacientes e negativa em 20/56 (35,7%). Não houve diferença significativa entre os grupos (p= 0,37).

4.2 - Expressão da proteína caderina-E e grau de diferenciação celular

Para os tumores G I, expressão positiva em 7/10 (70%) casos e negativa em 3/10 (30%) casos. Nos tumores G II, os achados positivos totalizaram 54/79 (68.3%) casos e 25/79 (31,6%) negativos; e nos tumores G III, 7/11 (63.6%) casos com expressão positiva e 4/11 (36,3 %) com expressão negativa. Não houve diferença significativa observada entre os grupos (p = 0,94).

Os resultados encontrados das variáveis estudadas nos pacientes selecionados para esse trabalho estão dispostos no quadro 2.

 

 

5 - DISCUSSÃO

5.1 - Avaliação da expressão da proteína caderina-E

A identificação da caderina-E, pelo método imunohistoquímico, foi realizada pela detecção da coloração marrom localizada na membrana celular.

Na literatura há variação dos critérios que determinam a positividade da expressão da caderina-E. Alguns autores consideram positividade da expressão da caderina-E quando 90% das células tumorais encontravam-se coradas pelo método, enquanto que, para outros, o critério de positividade situa-se entre 25 e 50% das células coradas.(14) (15)

O resultado encontrado foi de 32% de expressão negativa para a proteína caderina-E e 68 % de expressão normal, no total dos 100 pacientes estudados, estando esse valor dentro dos parâmetros detectados pelos trabalhos da literatura (10) (16) e com diferença estatística significativa (p< 0,001).

Vale ressaltar que a expressão da proteína foi considerada normal ou positiva em todos os pacientes (8) submetidos a tratamento prévio com radioterapia e quimioterapia.

5.2 - Expressão da proteína caderina-E com o estadiamento TNM

Na literatura existem estudos que identificam correlação entre a expressão da caderina-E com o estadiamento TNM, como o de Mohri et al, 1997; (17) Ikeguchi et al, 2000 (18) ; e o trabalho de Kaihara et al, 2003 (19) , que relacionaram a perda da expressão dessa proteína com os tumores em estádios avançados.

Delektorskaya et al, 2005, evidenciaram uma importante redução ou total ausência da expressão da caderina-E em tumores colorretais com metástases hepáticas (estádio IV) quando comparada a pacientes sem metástases. (20)

Outros trabalhos revelam resultados discordantes, não encontrando relação da expressão da caderina-E com o estadiamento, como apresentado por Karatzas et al, 1999 (21) ; Hugh et al, 1999 (4) ; Jesus et al,2005 (22) ; Leme et al, 2005 (12) .

Neste estudo, não se identificou correlação entre a expressão da proteína caderina-E com o estadiamento TNM, ou seja, a perda da expressão não se relacionou com o estádio mais avançado da doença.

Existem diferenças metodológicas entre os trabalhos citados, tanto na leitura dos resultados obtidos pela imunohistoquímica, quanto na comparação com os estadiamentos do sistema TNM, não havendo, portanto, uma padronização adotada. Este fato pode interferir na análise quando se comparam os resultados da literatura.

Os trabalhos de Leme et al, 2005 (12) e Jesus et al, 2005 (22) , são equivalentes quanto à metodologia em relação ao TNM, comparando todos os estádios da doença com a expressão da proteína caderina-E, não encontrando relação estatística, reforçando a hipótese de que essa proteína não participa do processo de progressão tumoral.

5.5 - Expressão da proteína caderina-E com o grau de diferenciação celular

Em relação ao grau de diferenciação celular, neste estudo, houve um predomínio de tumores grau II (moderadamente diferenciados): 75% nos tumores estádio I e 83,9 % nos casos do estádio IV, fato também observado em outros trabalhos da literatura.(15)

Guzinska-Ustymowicz et al, 2004, estudando a expressão da caderina-E em 34 pacientes com CCR, classificados pelo exame anátomo patológico como pT1, por imuno-histoquímica, evidenciaram forte relação com a perda da expressão e o grau histológico. (23)

Outros estudos não mostraram relação da caderina-E com a diferenciação celular, conforme citados a seguir: Ilyas et al, 1997 (15), analisando 68 casos de tumores colorretais, não encontraram relação significativa com o grau de diferenciação; Kaihara et al, 2003 (19) e Jesus et al, 2005 (22) , analisando 117 pacientes, não identificaram correlação entre a proteína caderina-E com o grau de diferenciação celular.

No presente estudo, não foi encontrada correlação entre a expressão da caderina-E com o grau de diferenciação celular. Esse fato pode estar relacionado com o grande número de tumores grau II encontrados e ao reduzido número de tumores grau III nessa amostra, podendo acarretar alterações na análise estatística.

 

6 - CONCLUSÕES

Os resultados desta pesquisa sugerem a necessidade de estudos adicionais, utilizando métodos validados, padronizados e reprodutíveis, dos quais se possa lançar mão, com mais confiança; do uso de outros recursos além do estadiamento clínico-patológico para uma abordagem do adenocarcinoma colorretal.

Não há relação entre a expressão da caderina-E com o estadiamento TNM e o grau de diferenciação celular no CCR.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
MARCOS VINICIUS ARAÚJO DENADAI
Avenida Brigadeiro Eduardo Gomes, 178, Bairro Aeroporto
14.783-131 - Barretos (SP)
(17) 3325-3210
E-mail: mfdenadai@uol.com.br

Recebido em 26/07/2006
Aceito para publicação em 23/08/2006

 

 

Trabalho realizado na FUNDAÇÃO PIO XII - Hospital de Câncer de Barretos- SP. Departamento de Cirurgia Oncológica - Barretos - SP - Brasil.

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