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Revista Brasileira de História

Print version ISSN 0102-0188On-line version ISSN 1806-9347

Rev. bras. Hist. vol. 17 n. 34 São Paulo  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01881997000200003 

Familismo e Ética do Trabalho:
O Legado dos Imigrantes Italianos para a Cultura Brasileira

 

Antonia Colbari
Universidade Federal do Espírito Santo

 

 

RESUMO
O artigo analisa a contribuição dos imigrantes italianos na afirmação dos alicerces culturais e morais da sociedade brasileira. Nesta reflexão, dois aspectos foram privilegiados: o primeiro situa a imigração como componente de um projeto de gestão da população que envolvia o adensamento, branqueamento e elevação civilizatória dos habitantes do país; e o segundo destaca a importância do capital cultural dos imigrantes italianos na definição de um padrão de racionalidade, cuja contribuição foi marcante tanto na formação do mercado de trabalho exigido pela produção capitalista quanto para o sucesso dos núcleos coloniais organizados nas áreas despovoadas, como foi o caso do Estado do Espírito Santo.
Palavras-chave
Imigração italiana, família e trabalho, colonização regional.

 

ABSTRACT
This paper analyses the contribution the Italian immigrant has given to the construction of the moral and cultural basis of Brazilian society. Two aspects were emphasized: the first one was the especification of the immigration as a component of a population management project that involved density increase, the process of setting white and" civilization improvement"of Brazilian natives; the second one related the role Italian cultural capital had in the definition of rationality patterns. The latter was an important contribution to the formation of the labour market and to the success of the colonial nucleii which were organized in empty areas, as it occurred in the state of Espírito Santo.
Keywords
Italian immigrant, family and work, regional colonization.

 

 

Este ensaio1 aborda a contribuição de aspectos da cultura dos imigrantes italianos, em particular o familismo e a ética do trabalho, na constituição dos alicerces culturais e morais da sociedade brasileira, no momento em que estavam em curso tanto a formação do povo e da nação quanto a transição para o sistema de produção mercantil-exportador baseado no trabalho livre. Os estudos produzidos sobre a imigração italiana no Estado do Espírito Santo, cujo mote foi a colonização de áreas despovoadas, permitiram apreender as particularidades deste fenômeno na região, e enriquecer as explicações referentes ao sentido e ao legado da imigração na cultura brasileira.

No seu conjunto, a literatura analítica sobre o assunto, bem como os estudos que resgatam genealogias familiares e histórias de vida de imigrantes italianos no Espírito Santo forneceram a substância para a compreensão da importância do fenômeno imi-gração estrangeira com relação ao desencadeamento de processos socioculturais marcantes na história contemporânea brasileira. Assim sendo, o texto está estruturado em três seções: a primeira situa a imigração nas estratégias políticas armadas no final do sé-culo XIX e início do XX; a segunda retrata alguns aspectos da imi-gração italiana no Espírito Santo; e a terceira repõe a discussão na dimensão mais geral, destacando a importância do legado polí-tico e cultural da imigração italiana.

 

O SENTIDO DA IMIGRAÇÃO ESTRANGEIRA NO BRASIL

A literatura que aborda a concepção da política imigrantista do governo brasileiro, desde o Império, não deixa dúvidas quanto a ser componente de um projeto de gestão da população, o que envolvia o adensamento, branqueamento e elevação civilizatória dos habitantes do país. Tal política perseguia dois objetivos não-excludentes: o povoamento das regiões de fraca densidade populacional e a constituição de um mercado de trabalho para substituir a mão-de-obra escrava na produção mercantil-exportadora.

Uma das teses consagradas na referida literatura é justamente a que acopla o projeto de colonização à preocupação de forneci-mento de trabalhadores livres para a lavoura cafeeira2. No cálculo das autoridades brasileiras, a criação dos núcleos coloniais de pequenos proprietários era uma forma eficaz de atrair a imigração em larga escala que facilitaria a transição para o trabalho livre. Não podem ser desconsiderados nos propósitos da imigração os fatores de ordem geopolítica - a necessidade de proteção das fronteiras e de garantia da integridade do território nacional diante das ameaças da expansão imperialista européia, em curso no final do século XIX.

Mas a questão que nos interessa destacar é que ambos os propósitos - povoamento e formação do mercado de trabalho - estavam cimentados por uma outra questão: a necessidade de re-generação física do povo e a reforma moral da sociedade. Para tanto, um cálculo racial orientava como deveria se processar a constituição do tipo humano brasileiro, o que tinha como desdo-bramentos a definição do imigrante ideal (branco, camponês, resignado) e a do imigrante indesejável3.

O momento de constituição do Estado Republicano repõe a necessidade de elaboração das representações acerca da Nação, da identidade nacional - ambas sustentadas na questão da forma-ção do povo. O cálculo racial das elites agrárias e republicanas incorporava uma classificação elaborada a partir de ingredientes físicos e culturais e que construiu um esquema classificatório ("uma hierarquia de positividades e de negatividades") elencando os adequados e os inadequados tanto para a constituição do mercado de trabalho, em supressão à mão-de-obra escrava, quanto para os objetivos de povoamento e de construção da nação brasileira, na crença de que a integridade da comunidade política pressupunha uma unidade racial e cultural4.

Nesse ponto, o tema da imigração de população branca e com certos atributos culturais tornava-se central. Um esquema classificatório separava a população nativa em dois pólos: os bran-cos, cristãos, homens livres e proprietários, de um lado, e índios, negros e mestiços de outro. Ao branco, herdeiro da colonização portuguesa, cabia o fardo civilizador de construir a "ordem mo-ral através da fé cristã, a ordem civil através da lei e a ordem eco-nômica através da educação para o trabalho"5.

Há que ressaltar, no entanto, que nessa missão a colonização ibérica não tinha sido bem-sucedida. A ruptura do pacto colonial, com a Independência, não desmontou as estruturas tradi-cionais. O latifúndio exportador e escravista teria sido responsável por uma poderosa herança: a tradição cultural fundada na menta-lidade senhorial. Tratava-se de um sistema no qual a família patriar-cal, a propriedade territorial e o trabalho escravo constituíam os parâmetros articuladores da vida social6.

Não obstante a sua centralidade na organização social da época, Prado Júnior admite que a família patriarcal brasileira não teria desempenhado a contento a sua função de formadora do caráter de indivíduos morais. Negligente na esfera moral, era tolerante com a promiscuidade, com a instabilidade das relações sexuais e com a indisciplina mal-disfarçada na "hipócrita submissão, puramente formal, ao pai e chefe". Na visão do referido autor, a Casa Grande era uma escola de vícios e um" campo aberto e amplo para o mais desenfreado sexualismo"7.

Mesmo admitindo-se que este modelo de família não prevalecia no conjunto da sociedade brasileira, não se pode negar a sua importância na inspiração de uma ética social e política que formulou e articulou comportamentos e mentalidades, tendo marcado todas as demais formas de organização familiar, inclusive a família conjugal moderna. Autores como Holanda e Da Matta, entre outros, destacam a sua herança na esfera política, cujas marcas mais evidentes estão no clientelismo, no populismo e na formação dos feudos políticos, como também nas relações sociais fundadas no favor e na violência, disfarçados na suposta personalidade cordial do brasileiro8.

Mas, retomando o esquema classificatório da população brasileira, verifica-se que entre senhores e escravos situava-se o contingente de negros libertos, brancos e índios, e os grupos resultantes da miscigenação dessas três raças que, excluídos da ordem senhorial escravocrata, eram vistos como preguiçosos e indolentes, que viviam de forma itinerante, nômade, sem destino, subsistindo de atividades como pesca, caça e coleta, ou outros trabalhos ocasionais, refratários à produção organizada e à disciplina. Vagando pelos campos e cidades eram considerados "desclassificados, inúteis ou inadaptados" conforme Prado Júnior, ou ainda uma "corja inútil que prefere o ócio, a vagabundagem, o vício ou mesmo o crime, à disciplina do trabalho nas fazendas"9.

No Estado do Espírito Santo, o discurso das elites agrárias era muito semelhante, e reiterava essa visão negativa sobre os trabalhadores nativos. Na afirmação de Costa Pereira Júnior, a população pobre vivia em um estado de "indolência histórica que em muitas famílias se transmite como um legado"10. A indolência era considerada vocação nacional e tinha caráter hereditário, o que reforça a tese dos componentes eugenia e civilização embutidos no cálculo racial que orientava a política imigrantista brasileira: a idéia de regeneração do povo e de uma reforma moral. Assim, a questão não era somente a falta de população, os vazios demográficos, mas a falta de população portadora de certos atributos que permitissem sua incorporação ao processo de produção.

Os críticos da imigração não escapavam a essa visão negativa sobre o nativo. Apenas concebiam colônias de pequenos proprietários formadas pela população nativa, que seria uma forma de retirá-la da penúria e da apatia usando o atrativo da propriedade, da segurança e do bem-estar. Sob essa visão seria contraproducente buscar trabalhadores em outros países, com vadios aos milhares nas províncias.

Esses discursos evidenciam as dificuldades de se alavancar um processo civilizador na sociedade brasileira, na qual as representações sobre o trabalho na imaginação coletiva tinham como substrato a escravidão, o cativeiro, a degradação do trabalho manual e o aviltamento da condição de trabalhador. Configurava-se, desta forma, uma cultura do trabalho, carente dos parâmetros materiais e ideológicos da tradição artesanal e da ética puritana. O legado da escravidão no processo histórico brasileiro foi responsável pela afirmação de uma concepção negativa do trabalho na cultura nacional, com conotação pejorativa. Este fato teria favorecido a valorização do ócio, da esperteza, o desprezo pelas funções manuais e a vocação bacharelesca dos bem-nascidos.

A associação do trabalho ao cativeiro, na avaliação de Caio Prado Júnior, impregnou a "psicologia coletiva como um traço profundo e inarraigável do caráter brasileiro", sedimentando atitudes e representações nas quais o trabalho manual vinculado a uma forma degradada de existência, caracterizada pela perda de dignidade e pela ausência de liberdade, aparece como destino de negros e de brancos pobres. Ausente, no imaginário social brasileiro, o artefato ideológico que, na formulação liberal clássica, associou trabalho a riqueza, prosperidade, participação e cidadania, o trabalho não aparece como condição para uma vida melhor, mas como negação da liberdade e marca da inferioridade social.

Os impactos negativos do sistema escravista não se restringiram ao aviltamento do trabalho. Ele teria entravado o progresso do espírito ao perpetrar a indiferença e o descaso pela instrução, cujas conseqüências foram o "embrutecimento das populações" e a "degradação da sociedade11". A emancipação do trabalho cumpria, portanto, um duplo papel: garantia a" emancipação do espírito captivo" e a sua inserção na "órbita do mundo civilizado" conforme previa Tavares Bastos. A contribuição do discurso abolicionista foi de grande relevância para a elaboração de uma ideologia positiva do trabalho. Disseminou em setores significativos da opinião pública os efeitos negativos da escravidão nos valores que podiam cimentar a vida social: aviltava o trabalho, corrompia a moral familiar e os valores religiosos, além de entravar o desenvolvimento econômico e social, a urbanização e o progresso tecnológico, símbolos de uma cultura mais civilizada12.

Cabe lembrar que, além da preocupação com o resgate do sentido moral do trabalho e suas implicações na ordem social, a abolição do trabalho escravo bem como a imigração da população européia estavam investidas também de uma função purificadora da nacionalidade, pois contribuíam para modificar a composição física e cultural do povo brasileiro, produzindo um tipo racial mais eugênico e mais civilizado: um tipo humano de bom sangue e portador de valores e referentes culturais que incluíam a disciplina, a ética do trabalho, o respeito às leis, etc.

Segundo a tese de Jair Ramos, o cálculo racial que sedimentava a formação da nacionalidade incluía três componentes: eugenia, civilização e assimilação. O grau de civilização era avaliado pelo capital cultural: religião, ética do trabalho, higiene, domínio de técnicas de produção, senso de organização e de respeito às leis. Um padrão civilizatório superior deveria ser disseminado entre os nativos através da "pedagogia do exemplo" e também da mistura racial. Nesse ponto, ganha destaque o outro eixo da matriz classificatória: a assimilação, referente à propensão dos povos a se deixarem assimilar através da mistura com outras raças e com outras culturas, imprimindo nesta mistura a sua superioridade racial e cultural.

Com essa matriz de três eixos - eugenia, civilização e assimilação - a pontuação maior era obtida pelo imigrante italiano, que combinava os atributos de eugenia e de civilização com uma cultura aberta à assimilação, afastando assim os riscos de cumplicidade com interesses imperialistas do país de origem e dos ideais de constituição de comunidades políticas autônomas. Favorecia a realização dos propósitos das elites brasileiras de "regeneração física e de reforma moral" do povo brasileiro, através do casamento inter-racial e da convivência com pessoas de outra origem, seja no trabalho ou na comunidade13. A assimilação teria sido, portanto, o critério seletivo, sem o qual os demais não podiam realizar a função regeneradora da raça e reformadora da cultura.

Retomando os atributos civilizatórios do imigrante italiano, o espírito de iniciativa, a ética do trabalho, o domínio das técnicas de produção e o respeito às leis eram considerados funcionais tanto para os propósitos de constituição do mercado de trabalho livre para a lavoura cafeeira quanto para garantir o sucesso dos núcleos coloniais instalados nas áreas de fraco povoamento.

Aliás, o sentido de vazio demográfico, para alguns, referia-se menos à questão geopolítica e mais ao abastecimento de mão-de-obra para a cafeicultura. Também a falta de braços nem sempre referia-se à disponibilidade populacional e sim a um tipo de população. Na maioria das vezes era

concebida a partir do tema da civilização, uma vez que dizia respeito à ausência, no trabalhador nacional, de um conjunto de atributos civilizados como disciplina para o trabalho, posse de um saber técnico-produtivo, hábito de poupança e respeito às leis e à propriedade14.

A explicitação do cálculo racial embutido na política imigrantista favorece a compreensão das razões de certas exigências expressas pelas autoridades do Império: o imigrante devia ser

agricultor sadio, laborioso, moralizado, maior de 2 anos e menor de 45, salvo se fosse chefe de família e com tolerância de alguns pertencerem a outras profissões15.

 

IMIGRANTES ITALIANOS NO ESPÍRITO SANTO

Os imigrantes italianos subsidiados pelo governo começaram a chegar à província do Espírito Santo, a partir de 1875; eram, na sua maioria, camponeses pobres, originários de regiões do norte da Itália, como Lombardia e Vêneto. Os núcleos coloniais eram constituídos de pequenas propriedades cultivadas pelos imigrantes, com objetivo de colonizar e povoar extensas áreas desabitadas e improdutivas. Segundo Lucílio Ribeiro, faziam parte deste empreendimento a questão demográfica, a necessidade de povoamento, e o aprimoramento da raça16.

A imigração, nesse contexto, resolvia tanto o problema populacional quanto o econômico: facilitava, nas regiões despovoadas, o assentamento de núcleos coloniais constituindo pequenas propriedades em áreas de escassez de população, e em terras desertas e/ou cobertas por densas florestas e com sistema de comunicação precário.

O ingresso do Espírito Santo na economia mercantil cafeeira não promoveu o predomínio da grande propriedade, tal como em terras paulistas e fluminenses, que opusesse resistência à política imperial de formação dos núcleos coloniais. A grande propriedade predominante no sul do estado estava suficientemente abastecida de mão-de-obra escrava para opor resistência ao assentamento de colonos estrangeiros nas áreas despovoadas. E, aqui no estado, os núcleos coloniais não iriam se especializar na produção para o mercado interno; eles se integrariam à produção mercantil exportadora, contrariando a tese de que a mesma não seria acessível aos colonos. O fraco dinamismo do setor cafeeiro capixaba teria sido responsável pela possibilidade de ingresso do pequeno proprietário na economia mercantil, que dessa atividade retirava os recursos para se abastecer de bens produzidos fora do núcleo e para quitar os débitos com o estado17.

A partir da década de 80 do século passado, nos momentos que antecederam a abolição do trabalho escravo, a crise de mão-de-obra chegou à grande lavoura do sul do estado. Com a Abolição verificamos o clamor dos grandes proprietários para que os núcleos coloniais fossem criados junto às grandes fazendas, fortalecendo a tese de que a colonização não deixava de ser um canal de abastecimento de mão-de-obra para a lavoura. Os proprietários de fazendas firmavam contrato com o governo imperial para a formação dos núcleos coloniais de imigrantes próximos de suas terras18. Apesar dos esforços do governo em redirecionar o sentido da imigração para facilitar o abastecimento da grande lavoura, a imensa fronteira agrícola inexplorada dificultava a implantação do sistema de parcerias. A grande extensão de terras devolutas estimulava os parceiros ao abandono da fazenda para se estabelecerem por conta própria.

Muitos dos grandes latifundiários retalharam sua propriedade em pequenos lotes para serem vendidos a preços módicos e a longo prazo para os colonos italianos. Em contrapartida, o colono deveria vender sua produção à firma de comercialização. O pagamento era demorado, pois o café começava a produzir depois de quatro a seis anos; a produção dependia das variações atmosféricas e os preços oscilavam, aumentando as incertezas quanto ao investimento de dinheiro e de trabalho19.

A pesquisa realizada em Muniz Freire revela que muitos imigrantes trabalharam como meeiros para conseguir comprar suas próprias terras. Nessa região, a imigração italiana teve como destino as lavouras cafeeiras de regiões organizadas na forma de grandes propriedades20. Para muitos, o sonho da posse da terra só foi conseguido pelos descendentes, às vezes na terceira geração21.

As populações que imigravam para o Espírito Santo enfrentavam uma série de obstáculos: as péssimas condições de viagem, a opressão dos latifundiários, a falta de escrúpulos dos agenciadores de mão-de-obra, o suborno dos funcionários do governo, etc. Além desses infortúnios, deparavam-se com a dureza das condições materiais: as terras não eram férteis, o governo e os agentes de imigração não cumpriam as promessas ou os compromissos firmados, como o pagamento pela construção de estradas, a derrubada de árvores e edificação de casas, e o adiantamento dos instrumentos para a lavoura. Por sua vez, as cobranças que recaíam sobre os imigrantes eram rígidas. A designação de lotes de terra estava regulada por um conjunto de cláusulas como: o compromisso de que após seis meses do recebimento do lote medido e demarcado, já deveria estar roçada e plantada uma área de mil braças quadradas, além da construção de uma casa. A obtenção do título definitivo ocorreria depois do pagamento total das terras e de todas as dívidas com o governo22. Os colonos recebiam terra para plantar e construir a casa, porém enfrentavam a falta de material para construção e de ferramentas para o trabalho.

Com a proclamação da República, a situação de abandono enfrentada pelos colonos se acentuou. Os núcleos, agora transferidos para a jurisdição dos estados, tiveram a sua emancipação antecipada, o que os relegou à própria sorte.

Os relatos dos imigrantes, descrevendo seu cotidiano de trabalho, evidenciam as difíceis condições de vida: o trabalho era árduo, iniciado desde a madrugada e se estendendo até o pôr-do-sol. Plantavam café, milho, feijão, e para manter a família eram obrigados a trabalhar em outras propriedades até o início da produção dos cafezais. Quando o cafezal estava formado, as atividades aumentavam e a família toda, inclusive mulheres e filhos, era mobilizada. As mulheres ajudavam na roça e assumiam as funções da casa, que incluíam a formação de hortas e a criação de galinhas. Muitos dos imigrantes, por serem portadores de habilidades artesanais, efetuavam tarefas de pedreiro, marceneiro, carpinteiro - o que explica a construção de igrejas nos núcleos coloniais e até de pontes - e fabricavam acessórios de couro.

A marca do espírito empreendedor do imigrante revelou-se no desbravamento de matas e formação de lavouras, na construção de estradas, escolas, capelas e cemitérios, na constituição de povoados que depois se transformaram em vilas, e em outras manifestações, por exemplo, a fundação de times de futebol.

Segundo Lucílio Ribeiro, diversos lugares que antes da chegada dos imigrantes eram cobertos por extensas matas, despovoados e improdutivos, foram transformados em núcleos prósperos, e, na década de 20, já estavam dotados de luz elétrica, casas comerciais, pequenas indústrias, escolas e cinemas. Nessa época, muitas famílias começaram a encaminhar os filhos para estudar na capital, no Rio de Janeiro ou em outras grandes cidades.

Esse espírito empreendedor do italiano reforçava a crença de que a interiorização para vencer os obstáculos impostos pela floresta e pelo índio exigia a presença de homens com alguns atributos:

O homem ambicioso, tenaz, que fosse tangido pelo imperativo da sobrevivência, que tivesse no subconsciente séculos de energia criadora, ambição. Só o imigrante poderia realizar essa empresa, porque ele não representava o nômade, o pária, mas sim o descontente de uma civilização saturada de discórdia. O imigrante sonha e persegue o triunfo. Sabe pagar com abstinência e perseverança o preço da vitória23.

A representação positiva sobre os imigrantes italianos, alimentada pela dedicação ao trabalho, já está sedimentada no imaginário coletivo. Prova isso a declaração de Eliezer Batista, ex-presidente da CVRD, que atribui ao fenômeno étnico uma das vantagens do Espírito Santo em relação aos demais Estados. Referindo-se aos italianos, afirma:" Eles são engenhosos, trabalhadores, e o progresso do Estado, sem dúvida, é levado pelas suas mãos24".

Apesar dos riscos de alimentarem insinuações preconceituosas e ufanistas, esses discursos exaltadores do fator étnico na trajetória econômica e social do estado atestam a importância do capital cultural do imigrante para um projeto de colonização, que não estava dissociado da constituição de um mercado de trabalho para a lavoura cafeeira, em um momento de esgotamento da produção escravista.

Os italianos eram portadores de um capital cultural que lhes assegurava a superioridade em relação ao trabalhador nativo. Muitos eram alfabetizados, tinham assimilado uma cultura do trabalho e um forte sentimento de organização social cujo eixo estava na igreja e nos grupos de parentesco. Além disso eram brancos, o que facilitava seu trânsito numa sociedade impregnada pelos estigmas da escravidão da população negra.

Não pode ser desconsiderado, na compreensão das implicações da emigração, no Estado do Espírito Santo, o fato de a colonização ter sido um empreendimento familiar. Os grupos de parentesco sustentavam a organização comunal e definiam as estratégias de sobrevivência. As famílias italianas eram inicialmente alojadas em um barracão para depois se dispersarem cada uma para seu lote. O modelo de família era o patriarcal, onde a autoridade sobre a mulher, filhos e agregados cabia ao pai, principal provedor do núcleo familiar. As famílias eram numerosas e a emancipação dos filhos somente ocorria com o casamento, fato não necessariamente marcado pelo abandono da propriedade paterna. À mãe, a quem os filhos deviam dedicação e respeito, cabia o cuidado e a educação da prole. O nível de escolaridade possível de se atingir era o básico, muitas vezes obtido através de aulas ministradas por professor contratado pelas famílias. A família era tanto uma unidade de produção quanto de reprodução: era praticamente auto-suficiente na produção de alimentos e bens artesanais necessários ao trabalho e ao consumo pessoal.

As diversas formas de sociabilidade que constituíam o cotidiano dos imigrantes - o trabalho, a religião, o lazer, etc. - estavam estruturadas a partir da vida familiar, que foi o núcleo desencadeador das motivações necessárias ao enfrentamento das adversidades das condições físicas e sociais da região e para o mantenimento da coesão dos grupos numa vivência comunitária.

As famílias de origem italiana construíram uma racionalidade que distribuía os filhos na propriedade, nos estudos (leigo ou confessional) e nas atividades urbanas, como assalariados ou como autônomos. Uma estratégia racional orientava o encaminhamento de filhos e filhas para seminários e conventos, como forma de aliviar a pressão sobre a terra. Mesmo que não se consumasse a intenção de transformá-los em padres, os filhos, quando retornavam do seminário, portavam um capital cultural mais elevado, útil para o enfrentamento das espertezas dos comerciantes - sempre uma ameaça para os colonos agricultores. Outra maneira de preservar a propriedade, neutralizando a divisão da herança, era casar uma das filhas com o irmão da mulher de um dos irmãos (troca de casamento entre as famílias). Alguns filhos, ao se casarem, ou quando encontravam outra forma de sobreviver, renunciavam à herança; também acontecia a migração de famílias inteiras com apoio financeiro dos que ficavam. Em suma: o núcleo familiar valia-se de várias estratégias para aliviar a pressão sobre a terra e preservar intacta a extensão da propriedade. Em muitas famílias, os filhos migraram para as cidades ingressando nas atividades industriais ou no setor portuário; outros tornaram-se artesãos - barbeiros, marceneiros, sapateiros, e as filhas, empregadas domésticas.

O trabalho e a vida social em torno da religião fundavam uma moralidade pautada por valores comunitários que se sobrepunham às pretensões individualistas. A vida comunitária ter-se-ia estruturado principalmente em torno da religiosidade e de uma estratégia racional, que prescrevia a coesão e o investimento em melhorias da vida coletiva. O isolamento contribuiu duplamente para o fortalecimento do espírito comunitário: forçava a coesão, a solidariedade e a ajuda mútua no interior do grupo e minimizava a interferência de forças desagregadoras.

Todavia, isso não configurou a existência de comunidades fechadas, excludentes; a propensão para a assimilação do povo italiano favorecia a convivência interétnica. A construção de escolas, por iniciativa dos próprios imigrantes - cujos prédios não raras vezes foram ocupados pelo governo para a instalação de delegacias de polícia -, e a construção da capela e do cemitério estavam orientadas por um tipo de racionalidade indispensável para a sobrevivência física e moral dos grupos de imigrantes, num contexto de abandono e de adversidades.

A igreja teria sido o epicentro da formação dos povoados. Quase todos os povoados, na visão de Hésio Pessali, se estruturavam em torno da igreja25. O padre era uma figura central. Além da autoridade moral que lhe permitia zelar pelos preceitos cristãos - os organizadores da vida no interior da família e na comunidade -, fazia a mediação com o exterior trazendo notícias e transmitindo técnicas e ensinamentos úteis para cultivar os morros, explorar as terras, e orientava as famílias que pretendiam se desmembrar do povoado e penetrar na mata para constituir novas roças.

A missa aos domingos e, na sua ausência, a reza da ladainha ou do terço e a leitura do Evangelho, realizadas de forma coletiva, contribuíam para reforçar a integração moral da comunidade, não podendo ser vistas apenas como expressões de um forte sentimento de religiosidade. Eram práticas coletivas que, além de fomentar o fervor religioso, estimulavam a convivência social, reforçando a coesão social em um universo desconhecido e hostil. Apresentavam várias facetas, como a lúdica, a social e a moral. A missa era a ocasião de exibir a vestimenta de domingo. A disposição de homens e mulheres em lados diferentes, a condenação do carnaval e os rigores da abstinência sexual na quaresma e na Semana Santa expressavam a conjugação entre a religião e um padrão rígido de moralidade. O ensino do catecismo era uma das preocupações centrais da família na educação dos filhos. "Os pais tinham grande cuidado de ensinar aos filhos o amor de Deus e o ódio ao pecado". A preservação da religião, da comida e da língua de origem reafirmavam a intenção da preservação cultural como forma de estimular a resistência e a solidariedade do grupo26. A religião era o centro de valores morais que irradiava para a comunidade o ideal de disciplina, moralidade e ajuda mútua.

As práticas religiosas, e em particular algumas de suas instituições como o batismo e o casamento, que criavam vínculos de compadrio e parentesco, reafirmavam uma identidade cultural e intensificavam a vida comunitária e a solidariedade grupal. A preservação da integridade do grupo familiar e da identidade sócio-cultural através do trabalho contínuo, obsessivo, garantia também a inserção na organização econômica e social da região.

Nas comunidades de imigrantes italianos, o mutirão e as práticas de ajuda mútua eram orientados tanto pela cooperação quanto pela prestância. Tratava-se de comportamentos movidos não apenas por objetivos materiais comuns - a construção de casas, da igreja, da escola, etc. -, como também pelo sentido de prestar um benefício ao indivíduo ou à coletividade. Expressavam uma estratégia racional e um padrão afetivo de sociabilidade, ambos imprescindíveis à sobrevivência de pessoas sujeitas a experiências comuns de privações e de desamparo.

Apesar da acentuação do elemento afetivo, irracional ou passional na organização da vida comunitária, isso não excluiu a presença de qualidades ordenadoras, disciplinadoras e racionalizadoras. Definia-se um ethos cultural diverso daquele prevalecente no sistema cultural fundado pelos colonizadores portugueses, como veremos adiante.

Na década de 30, a crise econômica mundial atingiu duramente as comunidades agrícolas voltadas para a exportação. Segundo Geert Banck, essa situação teria criado um ambiente favorável à propagação do fascismo italiano, o que fez dessas colônias o baluarte do Partido Integralista no Espírito Santo. O material sobre a adesão ao fascismo recolhido por Lazzaro, Coutinho & Francisqueto e Bank sugere que o espírito de comunidade estruturado pelo núcleo familiar e pela religião, em um contexto de crise econômica, teria potencializado a insegurança dos imigrantes e facilitado a adesão às idéias políticas oriundas de sua pátria de origem.

Em outro momento, agora na década de 70, Geert Banck identifica focos de tensão na comunidade de Venda Nova. O aumento da divisão do trabalho, com a prática da avicultura, fomentava a diversidade de interesses entre plantadores de café e avicultores, cujo resultado foi o esmorecimento do espírito comunitário e dos ideais de solidariedade e de ajuda mútua. Por sua vez, o café já não era totalmente comercializado via cooperativa, pois os intermediários dos grandes comerciantes detinham um poderoso trunfo: recursos para financiamento da produção. Isto veio provocar desavenças no interior da cooperativa que, em 1947, tinha 26 sócios e, em 1970, 400. A crise da cooperativa é também a crise da comunidade. Tal fato sinaliza o esgotamento de um padrão de sociabilidade de caráter mais comunitário e a sua substituição por outro, mais impessoal, mais formal, no qual ganham densidade os imperativos do mercado, os interesses meramente econômicos, em detrimento dos laços grupais afetivos.

A despeito dos rumos recentes das comunidades de imigrantes, isto não compromete as análises que destacam a contribuição de seu capital cultural - em particular a sua organização familiar e a sua ética do trabalho - na definição de um padrão de racionalidade, cuja contribuição foi marcante tanto na formação do mercado de trabalho exigido pela produção capitalista quanto para o sucesso dos núcleos coloniais organizados nas áreas despovoadas, como foi o caso do estado do Espírito Santo.

Cabe lembrar que essa mesma racionalidade foi responsável pelo processo de mobilidade social que marcou a trajetória dos imigrantes italianos e deixou marcas profundas na definição de aspectos socioculturais indispensáveis à configuração de um tipo de organização econômica que integrou a economia da região no circuito nacional.

 

COMENTÁRIOS SOBRE O LEGADO CULTURAL E POLÍTICO DA IMIGRAÇÃO ITALIANA

Os depoimentos colhidos por pesquisadores ou por descendentes interessados em reconstruir genealogias e trajetórias familiares reproduzem narrativas minuciosas sobre a vida familiar e o cotidiano do trabalho27, e permitiram destacar elementos recorrentes entre grupos de imigrantes italianos: a ética do trabalho, a organização familiar dos italianos e outros atributos como a religiosidade, a honradez, a solidariedade, a resignação e o espírito comunitário. A eles se atribui a explicação para a sobrevivência desses imigrantes.

A dedicação exemplar ao trabalho - até porque foi colocado como imperativo de sobrevivência -,o espírito de família, a religiosidade e o comunitarismo que não excluiu a aculturação, permitem confirmar a realização das expectativas dos elaboradores da política imigrantista no Brasil: os imigrantes povoaram as terras vazias, cultivaram as fazendas de café, fundaram vilas e impuseram à cultura brasileira os ideais de familismo e uma ética de trabalho que não estava fundada num substrato religioso, mas na condição de provedor de família e participante de um destino comum: estavam todos relegados à própria sorte em um contexto ecológico e social hostil, onde a sobrevivência impunha o espírito de pioneirismo e de desbravamento.

Neste ponto, em que se evidencia a realização das expectativas nutridas pelas elites políticas e intelectuais brasileiras em relação à imigração estrangeira, cabe diferenciar dois padrões culturais que pavimentaram a formação do povo e da nação brasileira: o dos primeiros colonizadores portugueses e aquele dos imigrantes estrangeiros que chegaram a partir da segunda metade do século XIX. Para este propósito é bem lembrada a distinção elaborada por Sérgio Buarque de Holanda entre dois tipos - o aventureiro e o trabalhador - que, como construções puras, estão presentes em maior ou menor grau nas múltiplas combinações possíveis. Essa distinção ajuda a compreender os processos de formação e evolução das sociedades.

Segundo Holanda, o tipo aventureiro ignora fronteiras, "vive em espaços ilimitados, dos projetos vastos, dos horizontes distantes" e "seu ideal será colher o fruto sem plantar a árvore". O outro tipo - o trabalhador - é que" enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar". É industrioso e tem visão de economia, despende esforço lento e persistente, atuando em espaços restritos. Ainda, segundo Holanda:

Existe uma ética do trabalho, como existe uma ética da aventura. Assim o indivíduo do tipo trabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais e detestáveis as qualidades próprias do aventureiro - audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem - tudo enfim, quanto se relacione com a concepção "espaçosa" do mundo, característica desse tipo.

Nesta tipologia, os padrões de conduta do colonizador português estavam mais próximos do aventureiro: busca da riqueza pela ousadia e não à custa do trabalho; valorização das compensações imediatas; gosto pela aventura e pela conquista, o que estimula o nomadismo e a instabilidade incompatíveis com o empreendimento agrícola. A colonização portuguesa no Brasil não teria sido um "empreendimento metódico e racional" originado por "vontade construtora e enérgica". Seus parâmetros econômicos e morais foram definidos pela hipertrofia da agricultura monocultora, escravista e de tipo predatório, e a aversão às artes mecânicas e à industria, ambos fatores inibidores das virtudes econômicas tipicamente burguesas.

O contrário ocorria com os imigrantes que estavam mais próximos do tipo trabalhador. A imigração em si já era um empreendimento racional, com a vocação definida no sentido de realizar o processo civilizador na sociedade brasileira. Para tanto, como vimos na primeira seção deste ensaio, seguia um cálculo que comportava elementos raciais e culturais. E, segundo este cálculo, o tipo mais adequado aos propósitos das elites elaboradoras do projeto de imigração eram os italianos, cujos traços também foram de importância inequívoca para o sucesso da colonização do Espírito Santo e de sua inserção na economia mercantil-exportadora. A herança dos imigrantes se faz presente tanto na composição do tipo físico da população do estado quanto na sua organização econômico-social.

Outro aspecto digno de ser abordado refere-se à contribuição do familismo e da ética do trabalho, presentes na cultura dos imigrantes italianos, ao esforço do resgate do sentido ético e político para o trabalho na sociedade brasileira. Esse processo adquiriu visibilidade na trajetória dos imigrantes que se instalaram nas atividades urbanas e nos estados onde o setor industrial e a urbanização apresentaram maior dinamismo.

Na literatura sobre a formação da classe operária e do movimento sindical brasileiro tem merecido destaque a importância dos segmentos anarquista e socialista, nos quais é significativa a presença de trabalhadores estrangeiros, entre eles os de origem italiana. E anarquistas e socialistas convergiam no que se refere aos propósitos de afirmação da classe operária enquanto identidade política e social legítima, o que tinha como pré-condição o resgate moral do trabalho e a afirmação do trabalhador na condição de sujeito moral28.

As disposições psicológicas e culturais do trabalhador imigrante favoreceram a construção de uma identidade social que se contrapunha tanto à herança escravista, responsável pela estigmatização do trabalho no imaginário social, como também à tradição liberal que, no decorrer da Primeira República, associava as manifestações coletivas e as práticas associativas que visavam à conquista de direitos trabalhistas, às intenções de desestabilizar a ordem social.

As experiências comunitárias de anarquistas e socialistas configuram o que Edward Thompson29 caracterizou como o fazer-se da classe trabalhadora, um processo que pressupôs a sedimentação de valores e práticas na consciência popular, com as quais se definiram as coordenadas para a vida na sua integralidade - no trabalho, na família e na comunidade. A militância política e a postura moral desses segmentos foram marcantes no desenho do modelo de trabalhador que se enraizaria no imaginário social. A valorização do trabalho, da educação integral e da elevação intelectual e moral do trabalhador, assim como a ênfase na disciplina e na moralidade definiram novos valores e práticas incorporados na vivência e nas representações dos trabalhadores brasileiros30.

 

COMENTÁRIOS FINAIS

No momento de organização do mercado de trabalho livre no Brasil, o trabalhador estrangeiro, com seu capital cultural mais elevado, afirmava em relação a si próprio representações positivas em contraposição à pobreza e ao mito da indolência do trabalhador nacional, ao seu desamor pelo trabalho e ao seu apreço ao vício, ao ócio e à violência. Enquanto o trabalhador imigrante era atraído pelas áreas dinâmicas da cafeicultura e pelas nascentes indústrias paulistas, ao trabalhador nacional restaram as funções mais degradantes e mal-remuneradas.

Como visto no início deste artigo, a escravidão sedimentou o preconceito social e racial nas representações do trabalho, alimentando uma disposição favorável ao trabalhador estrangeiro, justificada pela sua superioridade técnica, moral e intelectual. Apesar da constatação de que grande parte dos trabalhadores estrangeiros (italianos, portugueses e espanhóis) provinha de regiões européias mais atrasadas, isto não abalava as convicções das correntes cientificistas de que sua presença significava uma" injeção civilizadora no organismo nacional"31.

Estudos posteriores revelaram que, de fato, a maior facilidade de integração dos imigrantes à ordem fabril ou à agricultura capitalista deve ser atribuída, em grande parte, às disposições subjetivas. Se, para o liberto e o mestiço, o trabalho estava associado à escravidão - fonte dos preconceitos social e racial -, diante da qual a dedicação e a operosidade no trabalho pouco significavam, para o imigrante a motivação para o trabalho estava definida pelo desejo de ascensão social. O sonho de fazer a América facilitava a submissão à disciplina de um trabalho árduo e obsessivo que permitiria, no campo, a aquisição da propriedade de terra e, nas cidades, o estabelecimento de um negócio próprio. Eram essas as fontes da energia canalizada para o trabalho, a qual teria facilitado o processo de adaptação às condições hostis tanto na produção agrícola quanto na produção industrial.

O trabalhador nacional seria reabilitado com os surtos anarquistas, responsáveis pela mudança na retórica do empresariado e das autoridades políticas, frustradas em suas expectativas com relação ao trabalhador imigrante, que era mais preparado objetiva e subjetivamente para o trabalho, mas tornava-se indócil quanto às condições de superexploração vigentes na indústria local. O novo discurso exaltará

o trabalhador nacional pela resistência física, pela fidelidade e pelo espírito de ordem, em contraposição aos estrangeiros anarquistas, indolentes, preguiçosos e grevistas32.

Mas este já era um novo momento: o mercado de trabalho interno estava se consolidando. A sociedade brasileira adquiria um perfil cada vez mais urbano. E as bases econômicas, culturais e morais imprescindíveis à universalização das relações de produção capitalistas estavam lançadas.

 

NOTAS

1 Este ensaio foi apresentado no seminário Imigração Italiana no Espírito Santo: uma Aventura Colonizadora, realizado em Vitória em outubro de 1995.

2 Esta tese é defendida por José de Sousa Martins e encampada por ROCHA, Gilda. Imigração Estrangeira no Espírito Santo (1845-1896). Dissertação de Mestrado, Niterói: Universidade Federal Fluminense. mimeo.1984.         [ Links ]

3 Seyferth apud RAMOS, Jair de Souza. O Ponto da Mistura: Raça, Imigração e Nação num Debate da Década de 20. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: Museu Nacional, 1994.         [ Links ]

4 Idem.

5 Idem, p. 21.

6 HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Liv. José Olympio, 1986.         [ Links ]

7 PRADO JÚNIOR, Caio. (1961). Formação do Brasil Contemporâneo. 6. ed. São Paulo: Brasiliense.         [ Links ]

8 HOLANDA, op. cit. e DA MATTA, Roberto. A Casa e a Rua: Espaço, Cidadania, Mulher e Morte no Brasil. São Paulo. Brasiliense, 1985.         [ Links ]

9 KOWARICK, Lúcio. Trabalho e Vadiagem: a Origem do Trabalho Livre no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987.         [ Links ]

10 Relatório apresentado à Assembléia Legislativa Provincial, 23 de maio de 1861, apud Rocha, G. Op. cit.

11 NABUCO, Joaquim. A Escravidão. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Ed. Massangana, 1988         [ Links ]; TAVARES BASTOS. A Província [1. Rd. 1870], 3. Parte. São Paulo/Rio de Janeiro/Recife: Cia Editora Nacional,1937.

12 Ver COLBARI, Antonia. Ética do Trabalho: a vida familiar na construção da identidade profissional. São Paulo: Letras & Letras/SPDC/UFES, 1995.

13 Na colonização da região sul, os alemães, apesar de atributos de eugenia e de civilização, não demonstravam propensão à manutenção da unidade étnica e de preservação cultural através da endogamia.

14 RAMOS. Op. cit. p. 150.

15 DERENZI, Luis Serafim. Os italianos no estado do Espírito Santo. Rio de Janeiro: Editora Artenova S/A, 1974.         [ Links ]

16 RIBEIRO, Lucílio da Rocha. Subsídios à História da Imigração Italiana nos Municípios de Ibiraçu e João Neiva, 1990.         [ Links ]

17 ROCHA, G. Op. cit.

18 RIBEIRO, L. Op. cit.

19 CAVATI, João Batista. História da Imigração Italiana no Espírito Santo, 1973.

20 Ver LAZZARO, A., COUTINHO, G. e FRANCISQUETO. C. Lembranças Camponesas: a tradição oral dos descendentes de italianos em Venda Nova do Imigrante. Vitória: Editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1992.         [ Links ]

21 Idem.

22 PUPIN, Douglas. Do Vêneto para o Brasil. Espírito Santo: s/e,1981.         [ Links ]Outras fontes consultadas sobre a imigração italiana no Espírito Santo foram MORAES, Ormando. Da Itália ao Brasil: história de uma família. Vitória: FCAA, 1981         [ Links ]; PACHECO, Renato J. "Os primeiros anos (conflito nas colônias agrícolas espírito-santenses. 1847-1882)". In Estudos em Homenagem a Ceciliano Abel de Almeida. Vitória: Editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1978         [ Links ]; A Tribuna, 31/5/75. Caderno Especial. "100 Anos de Presença Italiana no Espírito Santo"; A Tribuna, 31/7/94. Suplemento Especial:" Caldeamento Capixaba: Italianos deixaram."         [ Links ]

23 DERENZI. Op. cit.. p.162.

24 "Capixabas são cada vez mais italianos". A Tribuna, 31/7/1994. p.2.         [ Links ]

25 PESSALI, Hésio. "Italianos Um Século Depois". In Revista Agora, n. 21, dezembro de 1977.         [ Links ]

26 BANCK, Geert Arent." Estratégias de sobrevivência em duas comunidades ítalo-capixabas". In Estudos em Homenagem a Ceciliano Abel de Almeida. Vitória: Editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1978;         [ Links ]Derenzi. Op. cit.

27 Verificamos que os relatos de mulheres são mais detalhistas nos aspectos referentes à casa e à vida em família, embora as mulheres também ajudassem na roça.

28 COLBARI, A. Op. cit.

29 THOMPSON, Edward. A Formação da Classe Operária Inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.         [ Links ]

30 COLBARI, A. Op. cit.

31 BARROS, Roque Spencer M. A Ilustração Brasileira e a Idéia de Universidade. Tese de Livre Docência, FFLCH/USP, São Paulo. 1959, p. 102.         [ Links ]

32 COLBARI, A. Op. cit.

 

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