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Revista Brasileira de História

Print version ISSN 0102-0188On-line version ISSN 1806-9347

Rev. bras. Hist. vol. 17 n. 34 São Paulo  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01881997000200005 

Buenos Aires, Cidade, Política, Cultura

 

Osvaldo Coggiola
Universidade de São Paulo

 

 

RESUMO:
Buenos Aires transformou-se numa das principais metrópoles do mundo, como capital de um país que caracterizou-se por ser um dos principais exportadores agrários. O paradoxo de uma sociedade urbana num país agrário marcou profundamente a paisagem urbana, a política e a cultura da cidade. Um estudo prospectivo da cidade, portanto, deverá partir do modo pelo qual a contradição histórica influiu na cultura e nos hábitos políticos de Buenos Aires, criando, em boa medida, a singularidade que caracteriza a história argentina deste século.
Palavras-chave: urbanização; política e populismo.

 

ABSTRACT:
Buenos Aires became one of the main cities in the world as the capital of an agrarian exportation country. The paradox of an urban society in an agrarian country was deeply felt in the urban landscape, the politics and culture of this city. A study in prospect of the town must therefore bear as a starting point the form in wich historical contradiction influenced cultural and political habits in Buenos Aires, wich were largely responsible for creating the singular character of Argentine history in this century.
Keywords: urbanisation; politics and populism.

 

 

Buenos Aires foi a primeira grande metrópole sul-americana, tendo ultrapassado já em 1940 a cifra de dois milhões e meio de habitantes (contra 1.800.000 do Rio de Janeiro e 1.326.000 de São Paulo, na mesma época), fato mais notável ainda se levarmos em conta que a população argentina situou-se, no século XX, em algo em torno de um quinto da do Brasil. Além disso, no século XIX (até a grande imigração do último quartel) a Argentina era um dos países menos povoados da América do Sul e, com certeza, o menos denso do ponto de vista populacional (o que continua sendo até hoje): no período da sua independência, a população mal atingia um milhão de habitantes; o Alto Peru (a atual Bolívia) possuía então 4 milhões.

As razões de seu espetacular crescimento já foram e continuam sendo estudadas pela história econômica: a mise en valeur das terras da pampa úmida em função da produção agropecuária para o mercado mundial. A década de 1880 combina os elementos do processo: econômica e militarmente, conclui a Campanha do Deserto, ou seja, a ocupação do atual território argentino; socialmente, é a eclosão da grande imigração; politicamente, Buenos Aires transforma-se na capital da República. A geração de 80 é considerada, até hoje, a única portadora de um projeto nacional e a efetiva forjadora da nacionalidade argentina.

 

A CIDADE CAPITAL

A capitalização de Buenos Aires é vista como sinônimo da transformação da Argentina em país e, se aceitarmos a definição de Eugene Linden, do seu ingresso no concerto da história universal:

o ritmo da história tem sido aquele da ascensão, colapso e ocasional renascer das cidades. Até recentemente as populações urbanas estiveram sujeitas às doenças e às mudanças no comércio e na tecnologia. Os reveses políticos favoreceram algumas cidades e penalizaram outras. O ritmo foi interrompido no mundo em desenvolvimento deste século, onde as populações urbanas estão quase sempre em crescimento. Iludido pelo brilho ofuscante das luzes, ou expulso do campo pelos problemas políticos, econômicos, pressões populacionais e crises ecológicas, bilhões de seres humanos migraram às cidades1.

Buenos Aires foi fundada pela primeira vez em 1536, pelo adelantado Pedro de Mendoza, e pela segunda e definitiva vez em 1580, por Juan de Garay; isto é, a sua origem é um século e meio anterior à de São Paulo (fundada legalmente em 1711). Seu processo de explosão urbana é também anterior, mas menos distante no tempo.

Desde a sua origem colonial (como vice-reinado do Rio da Prata) e, segundo alguns, até o presente, a Argentina nunca perdeu, nos seus quatro séculos, sua característica de país agroexportador. No entanto - este é o grande paradoxo - ela foi sempre uma sociedade urbanizada ou, como constatou Alain Rouquié, um país de cidades:

A Argentina vive da terra. Mas essa sociedade sem campesinato vive nas cidades. Os vilarejos, agrupamentos de algumas casas ao redor de um campanário, praticamente não existem. Casas isoladas e aglomerações urbanas formam o essencial do habitat. Em 1869, a população urbana não chegava a 33% do total, mas ela atinge 42% em 1895 e 58% em 1914. A título de comparação, a população rural na França gira em torno de 50% ainda em 1946. Em 1938 a Argentina, com 74% de população urbana, só ficava atrás, em grau de urbanização, de dois países industrializados: a Grã-Bretanha e a Holanda. Essa tendência completamente atípica na América Latina da época (o México, no mesmo momento, conta com 67% de população rural) se manteve. Em 1980, 85,7% dos argentinos viviam em cidades de mais de 25.000 habitantes2.

A Argentina moderna, no entanto, aquela que resultou da ocupação do seu território atual, é um produto do século XIX, em especial do processo de imigração européia, que levou ao país milhões de trabalhadores europeus - 160.000 estrangeiros lá aportaram entre 1861 e 1870, e o número de imigrantes chegou a 841.000 de 1881 a 1890, e a 1.764.000 de 1901 a 1910. No total, de 1857 a 1930, o deserto argentino recebeu 6.330.000 imigrantes, o que, levando-se em conta o retorno dos trabalhadores sazonais (ou golondrinas), deixa um saldo de 3.385.000 imigrantes. A Argentina contava, logo no seu primeiro recenseamento em 1869, com 1.737.000 habitantes. Isso demonstra o peso da imigração na formação da Argentina moderna, através de uma transfusão de população que foi, em termos relativos, a mais intensa do Novo Mundo (incluindo os Estados Unidos).

Desde o início, a urbanização esteve marcada pela sua extrema concentração em Buenos Aires, que absorveu (e isso também é válido atualmente) um terço da sua população total (hoje pouco superior a 30 milhões de habitantes) em 40 municípios que cobrem uma área de cerca de 30 mil km3. Tanto por razões demográficas quanto por econômicas, a questão da posição política de Buenos Aires dominou todo o período da chamada formação da nacionalidade, e foi o problema que esteve por trás de mais de meio século de guerras civis argentinas, ao longo do século XIX. Proclamada a Confederação Argentina em 1852 (a independência argentina ocorreu em 1810), ainda seria necessária uma década para superar a cisão política Buenos Aires-interior:

Logo depois da derrota de Buenos Aires na batalha de Cepeda em 1859, iniciou-se o processo que levaria à definitiva constituição do Estado nacional. O Pacto de San José de Flores, em novembro desse ano, significou o primeiro passo dado ao longo de um caminho que terminaria em 1880 com a federalização da cidade de Buenos Aires. As rendas da aduana portenha deixaram então de pertencer ao Estado provincial e passaram a engrossar os fundos nacionais. Concluía-se um ciclo4.

A questão do papel de Buenos Aires dominou tanto a morte do caudilhismo tradicional, simbolizado na figura de Adolfo Alsina, quanto o nascimento da política moderna, simbolizada na figura de Leandro N. Alem, fundador do mais velho partido político argentino, a Unión Cívica Radical, existente até hoje. A respeito de Alsina, já foi dito que as razões do seu declínio consistiram em que

nunca chegou a ser uma figura nacional. Sempre foi o líder de um movimento local. O Partido Autonomista recém se tornara Nacional quando Roca tomou as suas rédeas - em quanto Alsina jamais superou o localismo que foi a motivação de sua vida. Ele nunca saiu da província para o interior. Inclusive a conquista do Deserto, na sua visão, jamais passou de uma expansão da província de Buenos Aires às custas do interior, cujos comandantes de fronteira não puderam se mover. O seu pensamento, sem deixar de ser argentino, era antes de tudo e acima de tudo portenho5.

Com respeito a Alem, é sintomático o início da sua carreira política independente:

Em 1880 a sua voz foi a única que se opôs à capitalização de Buenos Aires. Autonomista acirrado, acreditava que entregar a cidade-porto ao poder presidencial significava liquidar o federalismo, dando ao presidente o instrumento de opressão das províncias. Durante várias sessões Alem se pronunciou num inesquecível contraponto a José Hernández, o autor de `Martin Fierro', que defendeu a capitalização6.

A questão da capital (termo que Henri Lefebvre associa, muito adequadamente, a capitalismo) se definiu, não por acaso, na década de 1880. Esse foi um período de acelerada expansão econômica na Argentina. O volume de investimento de capitais ultrapassou nesses anos o de todos os anos anteriores, especialmente quanto aos capitais britânicos. Os investimentos do Império Britânico em empresas de ações da Argentina, que antes da presidência de Roca chegavam à soma de 25 milhões de libras, aumentaram, em 1885, para 45 milhões, e em 1890 atingiam 150 milhões. Cabe destacar que em 1889 a Argentina absorveu entre 40 e 50% de todos os investimentos externos britânicos.

As características apontadas processaram-se num quadro histórico assim resumido por Alberto J. Plá:

No final do século XIX e início do XX, estamos em pleno período de formação da Argentina moderna. Nessa conjuntura combina-se desde o triunfo dos grupos liberais com a chamada `geração de 80' até a penetração do capital estrangeiro na formação dos laços de dependência financeira através das pautas que fixam o novo mecanismo de relação imperialista a nível internacional. Ao longo de todo esse processo corre o impacto de uma imigração massiva (especialmente italiana e espanhola), o boom de uma atividade cerealista como característica nova de uma Argentina tradicionalmente saladeirista, e a formação industrial com o aparecimento de oficinas e indústrias novas, o que implica o surgimento de um proletariado urbano enquanto um novo tipo de fenômeno social na sociedade rioplatense7.

Certamente, a crise econômica de 1890 foi responsável pela deflagração das mudanças políticas preparadas pelas mudanças econômicas, debilitando o antigo caudilhismo, preparando o nascimento da UCR e, pouco depois, do Partido Socialista; ao mesmo tempo, estimulando um revigoramento do sindicalismo operário, tudo num quadro de crise do processo de urbanização centralizado em Buenos Aires:

Suspenderam-se momentaneamente as obras públicas; entre elas, a do porto de Buenos Aires, a de abertura da Avenida de Maio, os edifícios do Congresso e do Correio, e importantes obras ferroviárias. Quanto às obras sanitárias, que durante a gestão de Juárez Celman foram arrendadas para a exploração de uma empresa privada, rescindiu-se o contrato, retornando-as ao domínio do Estado8.

Mudou também a situação do país no contexto internacional. Mal consolidada a nacionalidade, a crise de 1890 inaugurou o ciclo crônico de dependência financeira da Argentina, em especial (e até a década de 1950) com relação à Grã-Bretanha. Numa denúncia parlamentar da última década do século passado, caracterizou-se a posição dos ingleses:

Agora dominarão a crise com 41.000.000 de pesos das estradas de ferro de Buenos Aires, o que significa entregar perpetuamente ao estrangeiro três ou quatro milhões de pesos que anualmente terão que suar os filhos desse país; com os 45.000.000 de um empréstimo nacional; com 20.000.000 de um empréstimo municipal, e quem sabe com quantos milhões de papéis de crédito. Apenas no mês de março saíram para a Inglaterra 6.500.000 de pesos em ações do Banco Nacional, dos Muelles das Catalinas e Cédulas Hipotecárias. Com esses 150 ou 200 milhões de pesos, dominarão a crise.

O processo de urbanização já desenvolvido fez com que a crise se desenvolvesse num quadro histórico moderno, de acordo com as características delineadas por Manuel Castells:

A estrutura urbana expressa a estrutura de classes da sociedade e, ao mesmo tempo, o dinamismo urbano se faz, de forma mais ou menos mediatizada, dinamismo de luta de classes. Com efeito, a dicotomia cidade/campo como expressão da apropriação do produto, foi substituída por uma oposição intra-urbana, como contradição primária da qual depende a secundária cidade/campo9.

 

A CIDADE BURGUESA

De acordo com a definição clássica, a sociedade rural se converte em sociedade urbana por causa do aumento de dimensão, densidade e heterogeneidade que se produz nas coletividades territoriais que a compõem. A partir de certo nível de desenvolvimento, a sociedade urbana produz e emite valores que acabam por se impor, inclusive nas aglomerações rurais. O rural e o urbano são os pólos opostos de um continuum. De acordo com esta visão, a definição de urbanidade comporta

quatro grandes critérios: 1) que a densidade populacional constitui característica necessária; 2) que as cidades são pontos focais, ou nódulos, que centralizam e distribuem bens, serviços e comunicações; 3) que a vida social caracteriza-se por relações complexas e especializadas; 4) que os moradores têm hábitos e interesses em comum, especialmente urbanos. Em contraste, as comunidades rurais são menos densas, contêm menores proporções de assalariados, alimentam laços salariais mais simples e mais íntimos e são menos cosmopolitas em seus pontos de vista10.

A missão civilizadora da cidade afundou suas raízes históricas na própria ascensão da burguesia na Europa. Com séculos de atraso, ela chegou à América Latina onde, já na época dos novos Estados independentes, Domingo Faustino Sarmiento continuou falando, em seu Facundo (1845), das cidades como focos civilizadores opondo-se aos campos, onde via engendrada a barbárie.

Esse período de transição em direção à sociedade urbana (que coincidiu com a plena incorporação dos países sul-americanos ao circuito capitalista mundial), foi caracterizado por José Luis Romero como o das cidades burguesas, onde

o fenômeno social mais surpreendente e significativo das cidades que se transformavam ao calor das mudanças econômicas foi o crescimento e uma certa transmutação das classes médias. Certamente não faltavam classes médias antes. Elas eram constituídas por comerciantes, profissionais liberais, burocratas, militares, clero, e funcionários. Mas em todos esses setores houve uma expansão que criou novas possibilidades e expectativas. A cidade era, fundamentalmente, um centro intermediário, e as necessidades dessa função multiplicavam as da própria produção. Mais burocracia, mais serviços, mais polícia, mais militares e mais funcionários se faziam cada vez mais necessários11.

Paralelamente ao crescimento das classes médias, a configuração da força de trabalho urbana deu-se sob o impacto da imigração, o que lhe conferiu características especiais, posto que essa imigração foi vista como

disposta a aceitar qualquer tipo de trabalho, a trabalhar em qualquer tipo de condições e com qualquer salário. Como se dizia na época, só os índios era capazes de trabalhar em condições piores do que aquelas aceitas pelos italianos. Mas diferentemente dos índios, o que levava boa parte dos italianos a aceitarem qualquer trabalho era a tendência à `autodisciplina' do trabalho motivada pela expectativas de ascensão social. Efetivamente, graças a essa atitude, aceitando as piores condições de trabalho e uma situação de quase subconsumo, alguns desses imigrantes conseguiram forjar pequenas economias que lhes permitiram adquirir outra posição social12.

Isso equivale a dizer que a transição para o urbano teve características sui generis na Argentina, devido ao paradoxo de tratar-se de um país rural urbanizado: a economia girando em torno do campo, a população em torno das cidades. As lutas sindicais operárias, características da urbanização capitalista, são vítimas, segundo alguns autores, numa opinião já clássica na Argentina, de uma miragem, posto que

os proletários e intelectuais europeus que formaram o primeiro contingente do socialismo argentino (com predomínio de alemães e franceses sobre italianos e espanhóis, que eram bem mais anarquistas) acreditaram que Buenos Aires, com os seus atributos de cidade européia, era o país inteiro, e que a estratégia de luta revolucionária repetiria o aprendido na realidade européia13.

Em visita a Buenos Aires, em setembro de 1911, o deputado socialista francês Jean Jaurès confrontou-se com a miragem portenha, já suspeitanto que ela não expressava a realidade do país, ou melhor, que ela expressava toda a sua contraditoriedade:

Buenos Aires é como eu a imaginava, ainda que um pouco maior. Na verdade, não tive tempo de formar uma opinião sobre o país e provavelmente não terei esse tempo, pois devo partir logo à Europa. Confesso que quase celebro tal obrigação, pois me parece que deve ser falsa ou mal fundada a idéia que um viajante pode fazer da Argentina a partir de Buenos Aires, sem chegar ao interior.

 

LUTAS URBANAS

Como quer que seja, as lutas sindicais cresceram espetacularmente durante a primeira década do século XX, até chegarem às grandes demonstrações de 1910 (centenário da independência argentina), década que também testemunhou o desenvolvimento das primeiras lutas urbanas propriamente ditas, como a greve dos aluguéis, de 1907:

Após quarenta anos de sérios problemas habitacionais para os setores populares - superlotação, falta de higiene e aluguéis elevados -, os inquilinos decidiram realizar em 1907 uma greve que se traduziu em: 1) não pagar os aluguéis até que os mesmos fossem reduzidos em 30%; 2) conseguir melhorias sanitárias; 3) eliminar os três meses de depósito14.

O problema, no entanto, era antigo, como demonstra esta denúncia datada de 31 de março de 1876 (ou seja, quase exatamente 40 anos antes):

É tão espantosa a depreciação da propriedade raíz, que as urbanas situadas nos subúrbios e certos bairros da cidade, só se vendem a vil preço, mantendo um valor relativamente alto apenas as que se encontram situadas nas ruas principais de Florida, Rivadavia, Piedad, Cangallo e que não distam muito da Praça Vitória15.

Data desse período a formação do conventillo (espécie de cortiço), habitação típica da nova força de trabalho, de origem imigratória ou rural, cujas condições espantaram os observadores, e serviram de base para a elaboração de novas manifestações culturais. Paralelamente, desenvolveu-se um amplo sistema dedicado à contravenção e ao crime, que aos poucos foi penetrando nos centros nervosos do Estado e da economia:

Inclusive as maiores organizações delitivas tinham as suas relações com o Estado político e com o sistema social e econômico imperante. O trust da prostituição e o tráfico de brancas exercido pela Zwi Migdal se efetuava com a cumplicidade da Direção de Imigração, da Polícia e da Municipalidade, de alguns membros do Poder Judicial e Legislativo e dos grandes jornais, que mantinham o silêncio(...). Milhares de mulheres eram trazidas da França, Polônia e Áustria para exercer a prostituição. A Direção de Imigração apenas exigia uma pequena formalidade: o cafetão que tinha feito a viagem com a mulher seguia rumo a Buenos Aires, enquanto a mulher desembarcava em Montevidéu, onde a esperava uma suposta parente, outra mulher do cafetão, e um par de dias depois as duas iam para Buenos Aires num barco de carreira16.

No pano-de-fundo de uma cidade majoritariamente estrangeira desenvolveu-se a xenofobia - contra as manifestações classistas dos trabalhadores estrangeiros -, e ao mesmo tempo, a cumplicidade com o crime importado: Gladys Onega expõem, em excelente investigação, o

processo de intranqüilidade, xenofobia e retrocesso que vinha se produzindo na Argentina de 1910: "incomodam aos criollos de pura cepa as novas idéias, a preponderância na vida pública do elemento operário, estrangeiro ou de estirpe estrangeira, mas argentino de alma". A passagem do enfrentamento racial para o classista e o político foi se tornando evidente: "sempre foi mal vista toda manifestação operária, o que significa estrangeira"17.

A democratização argentina, a crise do Estado oligárquico, também precedeu a brasileira, e se processou na década de 1910, fortalecendo-se com as vitórias eleitorais da UCR em 1912 e 1916, baseadas no sufrágio universal. Esta foi a saída, pelo menos imediata, para a explosiva crise cujos elementos se concentravam em Buenos Aires. De alguma maneira, Buenos Aires incorporou-se ao processo que Riccardo Mariani universalizou para a cidade moderna:

No momento das grandes escolhas, quando se esperaria que um ou outro - burguesia ou proletariado - tomasse graves decisões, em geral ante a hegemonia, ainda jovem, mas já obsoleta, da classe dirigente, a classe média entra em campo e se apropria do poder contra uma burgesia enfraquecida e, às vezes, estéril, e um proletariado indeciso na sua vontade revolucionária. Nestes momentos, a classe média administra em seu próprio benefício tanto a revolução quanto as instituições do Estado. Com as suas mediações, arte na qual tornou-se expert com o tempo, administra o todo, tomando de tudo, sintetizando a seu modo e criando assim enormes contradições com pequenos e grandes artifícios. A classe média urbana, a partir de um certo momento, elabora determinados modelos culturais e políticos no rastro de uma formação própria, que a partir de um certo momento torna-se autônoma18.

 

CIDADE E CULTURA

Essa ilusão de autonomia dos representantes ilustrados da classe média urbana permeia o ensaio que o maior cronista argentino da primeira metade de nosso século, Ezequiel Martinez Estrada, consagra ao que chama, significativamente, de A Cabeça de Golias, onde aspira a definições universais, como a de que

as grandes urbes têm seus filhos legítimos, nos quais se tipificam os aspectos capitais de sua idiosincrasia. Quase poderia-se afirmar que o estudo de uma cidade poderia ser feito de maneira completa e fidelíssima pelo estudo de seus personagens representativos.

Na verdade, trata-se de um processo de alcance social restrito, pois como bem notou Angeel Rama,

apesar do alargamento reproduzido, continuava sendo escasso o número de letrados no início do século, os quais viviam em condições que favoreciam as comunicações mútuas, sobretudo no Prata. Na medida em que os políticos patrícios exerciam outras atividades letradas (poetas, historiadores, juristas) houve mais vínculos entre o setor político e humanístico do que hoje se pode imaginar, e na medida em que jornalistas e escritores participavam dos movimentos sindicais, houve vínculos mais reais entre eles e os quadros operários dos que foram lema das esquerdas durante os anos 3019.

Com suas características peculiares, e apesar do colchão fornecido pela classe média e por seus representantes ilustrados, Buenos Aires não conseguiu fugir do conflito histórico suscitado pela vida urbana, que passará a modelar até a sua cultura:

Onde ocorre esta metamorfose capital (da qual, muito concretamente provêm o capital e o capitalismo)? Ocorre na indústria e na vida citadina, que se constituem paralelamente à propriedade rural e não sem dela guardarem por muito tempo vestígios e estigmas. É portanto no seio da cidade, na vida citadina e por seu intermédio, frente à natureza, à vida campestre, aos campos já modelados pelo labor agrícola, que se inicia e de desenrola um conflito de conseqüências incalculáveis20.

A polarização social cindiu a intelectualidade, polarização simbolizada na década de 1920 pelas escolas literárias de Florida (com, entre outros, Jorge Luis Borges) e Boedo que, segundo o seu representante Alvaro Yunque, se sensibilizava ante" a luta social que surgia, porque o conflito social polarizava forças a tal ponto que chegava até mesmo ao campo da arte"21. Florida e Boedo eram, justamente, os nomes das ruas principais das zonas norte e sul de Buenos Aires, respectivamente.

O grande protagonista cultural da vida da cidade, e talvez a maior contribuição de Buenos Aires à cultura popular universal foi, no entanto, o tango.

O surgimento do tango é inexplicável sem considerar as mudanças urbanas trazidas pela federalização de Buenos Aires e a construção do Porto Novo, como bem explica Blas Matamoro:

O porto moderno desloca o bairro rico do sul ao norte da cidade. Pontos antes orilleros (dos bairros baixos) e depreciáveis como Retiro e Recoleta, passam a ser ocupados por propriedades aristocráticas e palácios afrancesados. O bairro alto (San Telmo), antigo centro residencial da classe alta, fica bloqueado como quase todo o sul da cidade -empobrece e envelhece de inanição. O novíssimo porto atrai a imigração, que vem de longe e fica enraizada na cidade, por falta de um destino próprio. A esta população recente e instável somam-se os miltares sem ocupação, que recém fizeram a guerra da Tríplice Aliança e lutaram pela nação contra os últimos caudillos (Peñaloza, López Jordán, os Varela). Migrantes e imigrantes se juntam nas orillas (zona baixa) da grande cidade, que passa a ser a Capital Federal. O porto aumenta o seu volume de trabalho com as crescentes exportações de produtos agrícolas. A classe que os produz se enriquece rapidamente e se encerra em seus bairros exclusivos, vivendo em seus castelos a ilusão de uma nobreza inexistente. Ao redor dessa urbe luxuosa se estende o subúrbio: Boca, Corrales Velhos, Miserere, Baixo Belgrano, Palermo. A sua população é em grande parte masculina: soldados sem ocupação, mutilados de guerra e mendigos, imigrantes gringos solitários. Uma grande indústria se vislumbra: o prostíbulo, o local de reunião dos homens solitários que não têm onde se reunir. O prostíbulo portenho, o quilombo, organizado como uma grande empresa por europeus a partir da década de 70, requer a sua música, que toma emprestada dos antigos pequenos locais de diversão orillera22.

O tango nasceu na década de 1880: o primeiro tango assinado (El Entrerriano) data de 1896. As características do tango como música de prostíbulos (significativamente chamados de quilombos em Buenos Aires, onde, na primeira metade do século XIX, o termo tinha o mesmo significado que o brasileiro) são evidentes. Mas o tango, sentimento triste que se baila (Armando Discépolo, autor de Cambalache), é sobretudo tristeza, tristeza urbana da perspectiva perdida no meio da opulenta Buenos Aires criada pelo porto, o mesmo porto em torno do qual florescia a miséria, assim retratada por Ezequiel Martínez Estrada:

Tivemos em Porto Novo uma dessas cidades e sociedades marginais. Levantaram habitações de folhas de alumínio e madeira, como as que Clemenceau viu vinte anos antes nos bairros de Ranas e Nova Pompeya, altos e amplos o suficiente apenas para uma pessoa sentada. Não eram as covas primitivas de quando a cidade não tinha construído mais do que os porões, eram mais uma espécie de barraco de madeira e zinco. Ali havia doenças de todos os tipos, como houvera na cadeia do Cabildo. Imagine o que mil ou cinco mil homens arrancados de suas famílias, demembrados, podem fazem em tais condições de existência23.

O tango, é claro, emancipou-se dessas origens até atingir a condição de grande arte, ou de arte universal, com Carlos Gardel, Anibal Troilo, Francisco Canaro, Augustin Magaldi, Azucena Maizani e outros(as). No seu fantástico escrito a respeito, Jorge Luis Borges não se esqueceu das origens do tango para elevá-lo à altura de expressão cultural típica de Buenos Aires e, através dela, de arte universal:

tangos de recriminação, tangos de ódio, tangos de desprezo e de rancor foram escritos, obstinados na transcrição e na lembrança. Todo o perfil da cidade foi entrando no tango; o subúrbio e a vida marginal não foram os únicos temas. No prólogo das sátiras, Juvenal memoravelmente escreveu que tudo aquilo que move os homens - o desejo, o medo, a ira, o prazer carnal, as intrigas, a felicidade - seria matéria de seu livro; exagerando-se, mas não demasiadamente, poderíamos aplicar o seu quidquid agut homines ao conjunto das letras de tango. Também poderíamos dizer que estas foram uma desconexa e vasta comédie humaine da vida de Buenos Aires24.

Borges: o nome tem demasiados significados. O grande escritor de Buenos Aires no século XX é, como ele mesmo reconhece, a expressão na arte erudita daquilo que o tango expressa na arte popular. Borges o diz: "Nossa realidade vital é grandiosa e nossa realidade pensada é mendiga. Aqui não se engendrou nenhuma idéia que se pareça à minha Buenos Aires... Mais do que uma cidade, Buenos Aires é um país que exige poesia e música". Ana Maria Barrenchea situa-o na história:

Os escritores argentinos, em busca de uma arte que reflita com mais fidelidade a América Latina, foram elaborando os grandes temas: a pampa e Buenos Aires. Primeiro surgiu a `llanura', criação do paisagismo romântico e, mais tarde, Buenos Aires. Na poesia, os modernistas abriram o caminho ao sentir urbano, e Evaristo Carriego, um pós-modernista, mostrou o perfil do subúrbio. Borges insistiu nos tópicos: a pampa, já fixada literariamente por Ascasubi, Del Campo, Hernández, Hudson, Güiraldes, e a cidade, que aguarda o seu Deus25.

 

AS BUENOS AIRES

Metrópole em um país rural, cidade-país, segundo Borges, fictive et pour cela fascinante Europe australe, de acordo com recente definição do jornal francês Libération, talvez Buenos Aires não seja una, mas várias, como pretende Alvaro Yunque:" Buenos Aires sempre foi uma cidade múltipla, feita de retalhos de povos transformados em subúrbios." Juan Agustín García já a via assim em "A Cidade Indiana", estudando a Buenos Aires colonial:

É como se cada bairro fosse uma cidade, com suas características próprias. Belgrano é distinto de Flores, Palermo é distinto de Constitución, Boedo, de Boca. Alguns são tranqüilos, cheios de homens trabalhando, outros, como o antigo Palermo, são silenciosamente ameaçantes26.

Mas se o porto varreu o resto da Argentina colonial e os remanescentes de Buenos Aires, como a "grande aldeia", a industrialização iria varrer a Buenos Aires cosmopolita e conventillera do tango. O tango, claro, sobreviveu à perda da sua base original, quando a urbs portuária e imigratória foi substituída pela urbs industrial, cujas etapas principais são assim resumidas por Guy Bourdé:

Desde a primeira guerra mundial, a indústria alimentícia representa o leading sector, o ramo profissional onde a expansão é a mais rápida, com os seus frigoríficos, os seus moinhos de farinha, seus fornos, vinículas, fábricas de conservas, biscoitos, etc. Depois, com a grande depressão, o setor dominante tornou-se aquele da indústria têxtil - algodão e lã - com os seus ramos anexos, a confecção, o couro e a forração de móveis. Durante a segunda guerra mundial, as tendências anteriores se confirmaram, mas outras, como o petróleo e a borracha, ruíram devido à falta de recursos do exterior. Sob o regime peronista, a alimentação, a construção, o livro, seguidos pelos setores têxtil e do couro, retomam aos poucos o seu crescimento, enquanto os novos ramos da metalúrgica, aparelhos elétricos, química, são abandonados e rapidamente sucateados 27.

O peronismo foi em última instância, a expressão da mudança social provocada pela industralização, mas também da mudança urbana provocada pela imigração interna (campo-cidade), com o surgimento de bairros e zonas da cidade situados fora da oposição norte-sul da Buenos Aires portuária, como bem compreendeu José Luis Romero:

(Buenos Aires) havia crescido rapidamente em número devido às migrações internas; viu-se formar ao redor da cidade tradicional um cordão de bairros populares; e viria se polarizar contra a sociedade tradicional a nova massa, na qual se fundiam os grupos imigrantes com os setores da classe popular e da pequena classe média, que mais sofreram a crise e a recessão econômica. A massa que se concentrou na Praça de Maio de Buenos Aires a 17 de outubro pedindo a liberdade do coronel Juan Perón, provinha em grande parte dos distritos operários do sul da capital: Avellaneda, importante centro industrial, Berisso, sede da indústria da carne, Lanús, Llavallol e outros menores, todos povoados por classes muito humildes e por trabalhadores industriais.

O mesmo autor aproxima-se da mais exata definição do populismo originado na América Latina por essas mudanças sociais e urbanas, referindo-se às

condições propostas pela nova ideologia do populismo para que a estrutura promovesse a aceleração da moderada mudança a que aspiravam aqueles que pretendiam incorporar-se a ela: eram os que compunham a nova massa urbana e que, em princípio, pareciam só querer ajuda para alcançar o nível da subsistência e da segurança, sejam quais fossem as condições impostas para tal. Mas a nova ideologia buscava mais do que uma resignada aceitação dessas condições. Buscava o consenso daqueles a quem propunha a mudança28.

Do processo resultaram novas mudanças urbanas, em especial no que diz respeito ao agrupamento urbano das classes mais despossuídas. Como bem descreve em trabalho clássico Hugo Rattier, passou-se do conventillo para a villa miséria (semelhante às mais miseráveis favelas paulistanas), levando a efeito uma mudança definitiva no papel urbano de Buenos Aires:

A década de 40 assiste à aceleração desse processo de despovoamento do campo. A cidade atrai com as suas possibilidades de emprego, seu nível de serviços, sua maior possibilidade de consumo. O campo expulsa. Em 1930, o conventillo, a pensão barata, ainda podiam ser moradia operária. Quando os frigoríficos se transferiram do litoral ao próprio porto de Buenos Aires, os peões desses estabelecimentos se instalaram nos conventillos de Ilha Maciel. Especialistas de uma indústria semi-rural passam a conviver com genoveses e descendentes de europeus em geral, que trabalham em ramos ligados à construção naval. Em pouco tempo, nem mesmo esses alojamentos - não recomendáveis do ponto de vista da higiene - se encontram ao alcance da massa imigratória interna. O ingênito do criollo busca novamente uma solução própria, apelando aos elementos de sua cultura tradicional. Há uma antiga arquitetura camponesa que, unindo técnicas indígenas e espanholas, permite a qualquer um levantar a sua própria habitação.

A villa miséria surgiu desse processo, e assumiu características que responderam à verdadeira guerra social não-declarada que ela expressava:

Duas portas garantem a fuga rápida em caso de invasão. A villa sabe que se empreende uma guerra de extermínio contra ela, e se defende. Em 1955, 80.000 pessoas as habitavam. Em 1970, os cálculos conservadores apontam para 800.000. Para muita gente, incluídos certos importantes matutinos, foi Perón quem as inventou por razões poíticas. O certo é que elas pré-existiam ao período peronista e cresceram como nunca quando este se concluiu29.

A villa também criou, lentamente, sua própria poesia e sua própria música. Uma arte realista pretendeu expressá-la, bem diferente da literatura fantástica de Borges ou Cortázar: exemplo dela é Villa Miséria también es América, de Bernardo Verbitsky. A política que ela originou também mudou: o populismo nunca voltou a se repetir e cedeu seu lugar, como experiência política mais importante, ao terrorismo de Estado, concentradamente exposto na ditadura militar de 1976-1983.

 

NOTAS

1 Linden, Eugene . "The Exploding Cities of the Developing World". In: Foreign Affairs, vol. 75, n. 1, Washington, janeiro-fevereiro 1996, p. 52.         [ Links ]

2 Rouquié, Alain. L'Argentine. Paris: PUF, 1984, p. 33.         [ Links ]

3 Cf. PMSP-CEPAL-UNV. América Latina: Crise nas Metrópoles. São Paulo: Sempla, 1985, p. 114.         [ Links ]

4 Bejar, Maria D. Buenos Aires y la Aduana 1809-1862. Buenos Aires: CEAL, 1984, p. 96.         [ Links ]

5 Luna, Félix. Buenos Aires Capital. Buenos Aires: Editora Abril, 1988, p. 109.         [ Links ]

6 Casablanca, Adolfo. La Crisis del 90. Buenos Aires: Editora Abril, 1989, p. 34.         [ Links ]

7 Prólogo a: Massé, Bialet. Las Clases Obreras a Comienzos del Siglo. Buenos Aires: Nueva Visión, 1973, p. 7.         [ Links ]

8 Panettieri, José. La Crisis de 1890. Buenos Aires: CEAL, 1984, p. 14.         [ Links ]

9 Castells, Manuel. Problemas de Investigación de Sociologia Urbana, Buenos Aires: Siglo XXI, 1972, p. 88.         [ Links ]

10 Chudacoff, Howard P. A Evolução da Sociedade Urbana. Rio de Janeiro: Zahar, 1977, p. 10.         [ Links ]

11 Romero, José L. Latinoamérica: las ciudades y las ideas. Buenos Aires: Siglo XXI, 1976, p. 273.         [ Links ]

12 Falcón, Ricardo. El Mundo del Trabajo Urbano. Buenos Aires: CEAL, 1986, p. 115.         [ Links ]

13 Spilimbergo, Jorge E. El Socialismo en Argentina. Buenos Aires: Octubre, 1974, p. 27.         [ Links ]

14 Suriano, Juan. La Huelga de Inquilinos de 1907. Buenos Aires: CEAL, 1983, p. 56.         [ Links ]

15 Panettieri, José. La Crisis de 1873. Buenos Aires: CEAL, 1984, p. 51.         [ Links ]

16 Sebrelli, Juan J. Buenos Aires: Vida Cotidiana y Alienación. Buenos Aires: Siglo XXI, 1990, pp. 117-132.         [ Links ]

17 Onega, Gladys. La Inmigración en la Literatura Argentina (1880-1910). Buenos Aires: CEAL, 1982, p. 140.         [ Links ]

18 Mariani, Riccardo. A Cidade Moderna entre a História e a Cultura. São Paulo: Nobel, 1986, p. 132.         [ Links ]

19 Rama, Angel. A Cidade das Letras. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 142.         [ Links ]

20 Lefebvre, Henri. O Pensamento Marxista e a Cidade. Lisboa: Ulisseia, s.d.p., p. 36.         [ Links ]

21 In: Alonso, F. e Rezzano, A. Novela y Sociedad Argentinas. Buenos Aires: Paidós, 1971, p. 77.         [ Links ]

22 Matamoro, Blas. História del Tango.Buenos Aires: CEAL, 1971, pp. 5-6.         [ Links ]

23 Estrada, Ezequiel M. La Cabeza de Goliat.Buenos Aires: CEAL, 1968, p. 272.         [ Links ]

24 Borges, Jorge L. "História del Tango". In: Prosa Completa, vol. 1. Barcelona: Bruguera, s.d.p., p. 93.         [ Links ]

25 Barrenechea, Ana M. Borges y la Crítica.Buenos Aires: CEAL, 1981, p. 41.         [ Links ]Cf. também Coggiola, O. "Borges e seus críticos argentinos". In: Estudos, n. 2, São Paulo: FFLCH/USP, julho 1986.         [ Links ]

26 Yunque, Alvaro. La Poesia Dialectal Porteña. Buenos Aires: Peña Lillo, 1961, p. 16.         [ Links ]

27 Bourdé, Guy. L'Industrialisation des Pays de la Plata. Paris: Université de Paris III, 1980, p. 55.         [ Links ]

28 Romero, José L. Op cit., pp. 339 e 382.

29 Rattier, Hugo. Villeros y Villas Miseria. Buenos Aires: CEAL, 1971, pp. 11 e 15.         [ Links ]

 

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