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Revista Brasileira de História

Print version ISSN 0102-0188On-line version ISSN 1806-9347

Rev. bras. Hist. vol. 17 n. 34 São Paulo  1997

https://doi.org/10.1590/S0102-01881997000200006 

Andantes de Novos Rumos: A Vinda de Migrantes Cearenses para Fazendas de Café Paulistas em 18781

 

 

Denise Ap. Soares de Moura2
Doutoranda pela Universidade de São Paulo

 

 

RESUMO
O texto problematiza o tema da migração de cearenses para São Paulo no ano de 1878, do ponto de vista das práticas que permearam a dinâmica desse movimento.
Palavras-chave
Migração, trabalho livre, cafeicultura.

ABSTRACT
This text questions the cearenses migration theme to São Paulo in 1878 and possible practices that made part in that movement.
Keywords
Migration, free labor, coffee-growing.

 

 

26 de maio de 1878. Na estação ferroviária da Luz desembarcaram Raimundo Pereira da Silva, sua mulher Francisca e mais quatro filhos. Exaustos, chegavam da Corte, mas vinham originariamente da província do Ceará, cujas terras do interior, esturradas pela seca, já nessa época obrigavam homens, mulheres e crianças a andanças cíclicas, sempre em busca de condições para a sobrevivência3.

Especialmente a região semi-árida do sertão cearense tinha sua economia basicamente dirigida para a produção interna de algodão, pecuária e gêneros alimentícios. Diferentemente do litoral açucareiro, centro do sistema colonial brasileiro e inserido diretamente no processo de acumulação do capital metropolitano, o Ceará esteve durante todo esse período relegado a um segundo plano, pois não reunia condições para o desenvolvimento de um empreendimento açucareiro pelo fato de o solo ser muito arenoso, a água, escassa, e de não ter matas para o fornecimento de lenha. Em vista dessa situação, restava a amplos grupos de homens e mulheres da região a alternativa de se arranjarem com os proprietários locais na condição de parceiros, arrendatários, meeiros e moradores4.

A condição de penúria, a exclusão do acesso a terras férteis e o teor violento do convívio com os proprietários rurais do interior cearense - patriarcas cujos interesses e decisões revestiam-se de um caráter de lei, aplicada pela atuação da sua milícia privada - também contribuíram para reforçar o conteúdo errante da vida do sertanejo. No Congresso Agrícola do Recife de 1878, um senhor de engenho chamava a atenção para essa questão. Segundo ele,

...as nossas safras de assucar são o producto do trabalho de duas classes bem distintas entre os agricultores de canna: o proprietário ou rendeiro, que planta e fabrica, e os que em suas terras habitam, sob a condição de com elle partirem o assucar produzido pelas cannas que plantarem.

O plantador não fabricante leva vida precária; seu trabalho não é remunerado; seus brios não são respeitados; seus interesses ficam à mercê dos caprichos dos fabricantes em cujas terras habita. Não ha ao menos um contracto escripto...tudo tem base - na vontade absoluta do fabricante. Em troca de habitação, muitas vezes pessima, e de algum terreno, que lhe é dado para plantações de mandioca, que devem ser limitadas e feitas em terreno sempre o menos productivo: em troca disto, parte o parceiro todo o assucar de suas cannas em quantidades iguaes....É uma partilha leonina...o pobre plantador de cannas da classe a que refiro-me nem habitação segura tem: de momento póde ser caprichosamente despejado, ficando sujeito ver estranhos até a porta da cozinha de sua triste habitação, ou a precipitar a sua sahida, levando a familia o último infortunio5.

Entre 1872 e 1890, mais de 350.000 pessoas maiores de dez anos saíram de terras do Norte - muitas delas com passagens subsidiadas oficialmente - para regiões do Pará, Amazonas e São Paulo, incluindo o pagamento de diárias para pousadas provisórias nos caminhos. Neste sentido, num determinado momento de crise conjuntural da economia nordestina, acentuada pela seca, a própria elite e o governo local procuraram estimular a saída de segmentos pobres e livres de sua população para outras regiões6.

Com a emergência do café no cenário internacional a partir da segunda metade do século XIX, houve uma transferência do poder político e econômico do Nordeste para regiões da Zona da Mata e Vale do Paraíba: verificou-se a perda do prestígio outrora desfrutado pelos prósperos senhores de engenho e a secundarização daquela região no cenário político nacional e na economia exportadora, reforçando o processo de exclusão e miséria de pessoas pobres.

Ao mesmo tempo em que o interior nordestino sofria com a seca e a própria economia da região declinava, os pés de café se multiplicavam nas terras paulistas, passando a enriquecer muitos proprietários do oeste paulista a partir de 1870. Tal prosperidade veio acompanhada de preocupações relativas à escravidão e à introdução de trabalhadores livres na província. A mobilização dos fazendeiros no sentido de solucionar este problema incluiu: as experiências com trabalhadores estrangeiros em colônias de parceria, empreendidas pelo senador Vergueiro em 1846, o tráfico interprovincial de escravos do norte, e a criação, em 1876, da Inspetoria-Geral das Terras e Colonização, representando uma medida legal e administrativa para a centralização das funções da imigração dentro do espírito da Lei de Terras de 18507.

Conforme a crise do escravismo se avolumava, mais os cafeicultores começaram a considerar a possibilidade da imigração européia como fonte de trabalhadores para suas propriedades, mas o movimento ainda não se institucionalizara, conforme aconteceria a partir de 1885, com o subsídio total das passagens pelo governo provincial e a criação da Hospedaria dos Imigrantes, na atual Rua Barão do Parnaíba, no Brás, que funcionou como um verdadeiro mercado de trabalhadores.

Na tessitura deste cenário prévio à institucionalização da imigração européia como maneira de se criar um potencial de trabalhadores livres, muitos homens e mulheres nascidos no próprio país, e livres, passaram a trabalhar nas propriedades cafeeiras do oeste paulista. Conforme afirma Hall, em 1870 havia pouco mais de "3.000 trabalhadores livres - incluindo brasileiros" - morando e trabalhando nessas propriedades8. Neste sentido, deter-se na figura específica do trabalhador nacional livre, na perspectiva das suas escolhas e atitudes diante de um contexto de transformações nas relações de trabalho, permite uma nova possibilidade de entendimento que vem somar-se às clássicas teses de que este segmento tornou-se uma reserva latente de força de trabalho, ou que os fazendeiros paulistas tiveram um súbito interesse por esses trabalhadores a partir de 1860, em razão do declínio do movimento imigratório9.

Dentre estes brasileiros, muitos vieram de regiões do interior cearense, pois em 1878 os governos de ambas as províncias conluiaram-se no sentido de viabilizar a vinda de famílias de retirantes para as fazendas de café de diversas regiões paulistas. Um fazendeiro de Rio Claro, na sua exposição durante os trabalhos do Congresso Agrícola de 1878, no Rio de Janeiro, fez questão de salientar que

sua província natal, o Ceará...tem enviado homens para todos os pontos do Império e em sua casa acham-se 55 cearenses, que trabalham10.

Embora seja possível pensar que o Congresso Agrícola realizado no mesmo ano em Recife tenha sido uma reação dos proprietários nordestinos em relação à postura do Governo Imperial - ao excluí-los do Congresso do Sudeste e ao desempenhar uma política de descaso em relação aos problemas econômicos da região -, diversos discursos pronunciados na ocasião sugeriam o interesse de muitos desses proprietários em que os pobres livres de suas cidades migrassem. Conforme salientava de maneira indignada um fazendeiro presente ao Congresso do Recife:

...ha mais ou menos trinta annos que começou a espalhar-se nessa nossa terra a idéia de ser sua população de raça degenerada e incapaz de grandes commetimentos. D' ahy a necessidade de fluir-lhe sangue novo e introduzir-lhe o elemento estrangeiro de cabellos louros e dos olhos azues; d' ahy ainda a necessidade da colonização official, que...tem affluido e vae affluindo toda para o sul.

Apezar disso, a laoura do sul ha uns 10 annos importa a flor da escravatura do norte, e nem por isso este diminuio sua produção, nem o sul progredio com o braço europeo...11

Para muitos proprietários do Nordeste parecia incompreensível que a elite paulista estimulasse a colonização estrangeira em detrimento das inúmeras famílias que, em sua região, viviam à míngua, sem trabalho, e sofrendo penúrias provocadas pela estiagem. A iniciativa de alguns fazendeiros paulistas em trazer imigrantes europeus para suas fazendas, entre o final da década de 40 e início dos anos 50, bem como o envolvimento com questões visando à criação de condições para a vinda efetiva desses trabalhadores europeus para o país, após o fracasso das colônias de parceria, indignava muitos proprietários do Nordeste, receosos diante do volume diário de pessoas sem terra e sem trabalho. Alertava um senhor de engenho que:

...sommas fabulosas despendem os cofres publicos com o desenvolvimento da colonização estrangeira...entretanto esta população nacional que tão efficazmente ha supprido a falta do elemento servil, ahy ada exposta ás contingencias das epidemias e de outros males que poderiam ser senão evitados, ao menos grandemente minorados.

...queremos augmentar a população pela immigração estrangeira, mas não tratamos seriamente a nacional que já temos.

E se então assim pensava, hoji que da horrivel secca... tem atirado sobre a extensa zona productora do litoral milhares de braços e tão avultada somma tem sido dispendida com os socorros públicos...12

Certamente para os proprietários nordestinos do interior era preocupante a concentração nas cidades de um contingente tão grande de homens e mulheres miseráveis. As lavouras de café do Sudeste, nesse caso, pareciam uma oportunidade de empregá-los, livrando-os assim das tensões sociais que a miséria e o desemprego costumam gerar. Para um outro fazendeiro da região, esta possibilidade parecia mais explícita. Conforme enfatizava,

...a secca horrivel, que desgraçadamente o assola (norte) ha mais de dous annos, fez affluir para a zona mais povoada grande copia de braços desoccupados sobejos para as nossas necessidades e bastantes para fazer abundante supprimento ao sul, com dispendio muito inferior ao dos colonos europeus...N' um paiz onde cada um ocioso não tem dous homens occupados a vigial-o está ameaçada a segurança e a vida dos cidadãos uteis. A aglomeração de occiosos nos grandes centros de população é um perigo imminente, é uma revolução adiada...13

Neste sentido, a atitude de Raimundo Pereira e sua família, assim como de dezenas de outras famílias que optaram por enfrentar a longa viagem de trem do Ceará para a província paulista pode ser entendida à luz da articulação de interesses dos proprietários da região, de fazendeiros de café paulistas e dos próprios sertanejos, perpassada pela decadência econômica da região e pela seca de 1877-7914.

A vinda para São Paulo nessa época, longe de restringir-se às negociações e interesses das elites e autoridades das duas províncias, fez-se através de ajustes ligados a solidariedades vicinais, às formas de sociabilidade na terra natal, à afetividade e vínculo familiar e às relações de dependência. Uma carta que Raimundo trazia no bolso quando de sua chegada a São Paulo revela esses traços que permeavam o estofo social do movimento migratório:

Compadre e amigo

Limeira, 24 de maio de 1878.

Tenho presente sua cartinha datada de 22 do corrente que apresso-me em responder.

Ainda hontem estive com o fazendeiro com quem arranjei agasalho para vmê., e disse-me que está pronto a recebel-o por isso logo que esta receber pode vir para esta. O Vicente e seu genro também podem vir hem sua companhia. As quatro famílias de que me falla, se forem pessoas affeitas ao trabalho da lavoura, também podem vir, porque ainda que este fazendeiro não os queira acceitar, tenho uma encomenda de um fazendeiro importante de S. Carlos do Pinhal, de dez ou doze famílias cearenses e que estou autorizado para isso.

Se encontrar algum obstáculo da parte do Exmo. Sr. Presidente da Província em dar passagem, procure ahy o meu amigo Sr. coronel João de M. Pimentel, que mora na rua do Imperador, nº 29 e apresente-lhe esta carta que lhe prestará serviços no sentido de arranjar passagem com o Exmo. Sr. Presidente.

Aqui o espero, seu companheiro e amigo

Lucas Ribeiro do Prado

P. S. não vou mesmo lá porque agora estou só em caza. Procure hoje o Florindo na r. S. Bento, nº 71, caza do Sr. Francisco Muller15.

O trato afetuoso e a possibilidade da familiarização das relações e do convívio compuseram a personalidade da cultura brasileira. Desta manira, o parentesco por laços de amizade - no caso do compadrio - e o emprego dos diminutivos: a terminação inha(o), que além de informal aproxima e familiariza o estranho - são significativos no contexto da migração de cearenses para São Paulo, pois revelam a presença de práticas costumeiras e tradicionais permeando esse momento prévio de institucionalização de um movimento imigratório visando à configuração de um contingente de trabalhadores16.

A fonte sugere que Lucas Ribeiro também era um migrante cearense incumbido de negociar ajustes de trabalho com fazendeiros interessados em receber os migrantes, além de providenciar a vinda das famílias. O fato de se ter alguém da própria região encarregado de arranjar trabalho e agasalho familiarizava e estimulava a vinda, pois o agente assumia, assim, a função de um elo familiar que permitia o encontro com o estranho que se vislumbrava, como era a possibilidade de trabalhar nas fazendas de café paulistas.

Na teia de tratos e ajustes da viagem, Lucas era compadre de Raimundo que, por sua vez, desejava arranjar trabalho para seu genro e quatro famílias conhecidas. A formalidade de uma relação de recrutamento dava lugar a combinações propostas pelos próprios sertanejos, desejosos de estarem junto de seus familiares ou contribuírem para a vinda de vizinhos e pessoas com as quais mantinham algum vínculo de amizade. A plena realização da sociabilidade costumeira, rotineiramente refeita no prosear, no filho que se dava para batizar, no trabalho coletivo e solidário, na festa, amalgamava-se ao estofo desse movimento migratório interno, abria canais de contato facilitadores da migração financiada.

O patriarcalismo aliançado pela violência costumeira e o favoritismo, no qual sempre havia um coronel em condições de socorrer aqueles que necessitavam de algum auxílio - as passagens, no caso em questão - também perpassou a dinâmica desse movimento. Neste sentido, nessa teia de relações vicinais e costumeiras, os ajustes, as conversas, os tratos e as tramas reuniram parentes, vizinhos e conhecidos numa história comum de andanças.

Em São Paulo, a possibilidade da reelaboração desses laços familiares traduzia-se nos inúmeros ofícios enviados pelo agente oficial da colonização ao presidente da Província de São Paulo, requisitando passagens para regiões e propriedades específicas, segundo a localização de pessoas da família. Francisco de Miranda, tendo saído do Ceará com sua mulher Guilhermina e quatro filhos ainda crianças, mostrou o desejo de ir

para a companhia de seus parentes estabelecidos em uma fazenda do tenente Coronel João Ribeiro dos Santos Camargo...no Rio Claro17.

A trajetória desses retirantes em São Paulo urdia-se às teias do parentesco, imprimindo contornos afetivos ao movimento migratório desse período.

O Governo do Ceará financiava a viagem até a Corte e desta para São Paulo. Chegando à província, os retirantes tanto poderiam ser diretamente encaminhados para as fazendas cujos proprietários já os aguardavam nas propriedades, como podiam alojar-se provisoriamente na Hospedaria de Imigrantes e Retirantes Cearenses, provavelmente um estabelecimento anterior à Hospedaria inaugurada em 1885.

Os retirantes somente eram admitidos na Hospedaria sob ordem escrita do agente, e deviam obedecer a uma série de determinações, como entrada com hora marcada, a conservação dos recintos no maior aceio, tendo os hóspedes a obrigação de varrer diariamente seus respectivos aposentos e laval-os nos dias designados pelo administrador. Eram proibidos os jogos de azar e passatempos ruidosos. Aqueles que trouxessem consigo armas de qualquer natureza eram obrigados a entregal-as, na occasião de entrada na hospedaria, ao administrador, os quais as devolveriam aos seus donos assim que deixassem o local18.

A postura do Governo Provincial era a de promover o efetivo emprego dos retirantes, tanto que previa-se a expulsão da hospedaria de todo aquele que, obtendo passagem para qualquer ponto da província, não comparecesse no momento do embarque, salvo se mostrarem obstados de o fazer por força maior19. Tal fato ocorreu com 15 retirantes,

os quais já se achavam ali ha bastantes dias e não se queriam empregar, recuzando irem para Guaratinguetá com os demais que para ali seguiram com destino a fazenda do Dr. Raphael Brotero20.

Francisco Lopes e sua família recusaram-se a seguir viagem, mas procuraram contornar o problema, conforme sugere o ofício do agente Joaquim do Rego Rangel:

...o retirante cearense Francisco Lopes dos Santos tendo sido empregado n'esta capital e despedido da hospedaria no dia 10 de abril último, apresentou-me agora o incluso documento pedindo-me para solicitar de V. Sa. uma passagem até Ipanema para si e sua família, a qual se compõe de seis pessoas...21

Muitas vezes, mesmo vindo para São Paulo com destino de trabalho previamente definido, alguns retirantes decidiam mudar de rumo, conforme fez Antonio Brito Coelho, que tendo viajado com a família de Raimundo Pereira, recusou-se a prosseguir viagem para uma fazenda em Guaratinguetá...,

pois na última hora disse achar-se contractado com Antonio dos Santos, morador em Limeira...em lugar de Antonio de Britto seguio a mulher de Vicente Ribeiro Prado, que se acha no Lazareto de que pretendia ficar22.

Atentos ao movimento de chegada das famílias migrantes, os fazendeiros do oeste paulista mostravam-se bastante interessados em contratá-los, estabelecendo contatos com o agente Joaquim Rangel através do envio de telegramas. Antônio Euclides da Costa Alves, proprietário de lavouras de café em Rio Claro, foi um dos que telegrafaram apressadamente ao agente:

Os immigrantes contractados commigo vem hoji e quantos? Responda incontinenti.

Prontamente o agente oficiou ao presidente da província:

Tendo sido contractados pelo fazendeiro Antonio Euclides..., como V. S. verá do telegrama junto, os retirantes cearenses constantes da relação que a este acompanha, rogo a V S. que se digne conceder-lhes passagens no trem de hoji até a estação do Rio Claro23.

Às vezes os proprietários achavam insuficiente o número de famílias que chegavam à sua propriedade, como o caso do Sr. Brotero, fazendeiro em Guaratinguetá, que noticiou: vieram muito poucos cearenses. Mande amanhã 20 famílias24. Muito embora ainda não exista um estudo específico no âmbito da história social sobre o problema da migração interna, especialmente de cearenses, para as lavouras de café paulistas, esta parece ter sido bastante intensa e contado com efetivo interesse e articulação não só dos próprios migrantes estabelecidos e daqueles que desejavam migrar, como dos fazendeiros paulistas. O agente Joaquim Rangel, que assinou todos os ofícios desse período envolvendo a questão dos migrantes, dizia ao presidente da província:

Cumpre-me dizer a V. S. que havendo falta de braços para a lavoura e sendo preferido pelos fazendeiros os nacionaes, tenho tido diversos pedidos de retirantes cearenses, os quais com facilidade encontrarão aqui emprego nesse ramo de serviços, deixando assim o governo de fazer com elles grandes despezas, nas hospedarias da corte, onde segundo me consta existe avultado número...25

Em vista disto, o movimento de chegada e saída de retirantes na Hospedaria de Imigrantes foi contínuo durante o ano de 1878, parecendo um dado novo a merecer estudos mais aprofundados. A problemática da migração interna de cearenses para São Paulo, num contexto de crise do escravismo e de intensos debates em torno da possibilidade de se promover a migração em massa de trabalhadores europeus para a província suscita, assim, diversas inquietações. Como se deu a experiência desses retirantes nas propriedades cafeeiras? Como organizaram suas vidas, sua sociabilidade e reelaboraram seus costumes e práticas num novo meio social e sob novas condições de trabalho?

Inúmeros ofícios chegavam à mesa do presidente da província solicitando passagens para grupos expressivos de pessoas, com o seguinte teor:

Tenho a honra de remetter a V. S. a relação dos retirantes cearenses que desejam seguir para a fazenda do Dr. Raphael Brotero, em Guaratinguetá, afim de que V. S. se digne conceder-lhes passagem no trem d'amanha (segue-se uma lista com 30 nomes, num total de 5 famílias)26.

Mas houve propriedades que chegaram a receber mais de 100 pessoas, conforme mostra o seguinte ofício: "Cumpre-me participar a V. S. que chegaram da Corte, remettidos pela Inspectoria Geral das Terras e Colonização e seguem diretamente para Rio Claro, 125 retirantes cearenses que ali vão se estabelecer em uma fazenda"27.

Nem todos, entretanto, vinham com ajustes de trabalho prévios. Mesmo nesta situação não deixavam de recorrer à hospedaria e aos financiamentos de passagens do governo provincial, seguindo para regiões onde acreditavam encontrar trabalho. Em 9 de abril de 1878, o agente oficiava ao presidente da província:

Rogo a V. S. que se digne conceder passagem athé a estação de Campinas aos retirantes cearenses constantes da relação junta, os quais não tendo encontrado trabalho n'esta capital desejam procural-o ali28.

A relação entre os retirantes e os fazendeiros paulistas não foi de mero recrutamento, pois em vários ofícios aqueles expressavam seu desejo de seguir para uma determinada propriedade, não somente para se juntarem aos familiares já estabelecidos, mas possivelmente pelo que ouviam dizer do proprietário, das condições de trabalho e de moradia. Algumas propriedades se constituíram em verdadeiros focos de atração, como a do Sr. Raphael Brotero, em Guaratinguetá. Segundo oficiava o agente:

Chegaram hoji a esta capital e seguiram para uma fazenda em Rio Claro, cento e tantos retirantes cearenses. Ao chegarem á estação da Luz não quizeram seguir alguns dos mesmos retirantes, em número de cinco, dos quais peço...conceder passagem para Guaratinguetá ao de nome Manoel Francisco P. do Nascimento e a sua família que desejam ir para a fazenda do Dr. Raphael Brotero, igualmente peço...que se digne conceder passagem para o mesmo lugar ao retirante Francisco J. Ferreira e uma filha, os quais tendo sido empregados n'estas cidade, desejam também ir para a mesma fazenda29.

É possível que arquivos das localidades para as quais se dirigiram essas famílias de cearenses abriguem documentação pertinente para o estudo desta problemática ainda obscura na história paulista. Mesmo diante das inúmeras trilhas abertas e competentemente percorridas pela historiografia da crise do trabalho escravo, ainda não foi possível identificar os rastros deixados por esses retirantes. A possibilidade de se dirigir o olhar para gestos miúdos, sonhos, planos e a luta cotidiana desses trabalhadores em São Paulo parece apontar para um novo caminho de pesquisa.

 

NOTAS

1 Este texto contém algumas reflexões tecidas em um dos capítulos da dissertação de mestrado defendida em setembro de 1996 (Saindo das sombras: homens livres e pobres vivendo a crise do trabalho escravo. Campinas: 1850-1888) sob a orientação da profª. Esmeralda Blanco Bolsonaro. Contou com financiamento da FAPESP.

2 Depto. de História da Universidade de São Paulo.

3 Caio Prado Jr. notou a mudança do equilíbrio demográfico e geo-econômico do país ao longo do século XIX. Da decadência da economia nordestina, região densamente povoada desde a colônia, "vão resultar correntes demográficas fortes e constantes que dali se dirigem em demanda de regiões com melhores perspectivas. Este movimento de populações se tornará particularmente ativo depois da grande seca de 1877-80, que despovoará o interior nordestino do Ceará até a Bahia. As regiões beneficiadas por esta emigração serão o vale amazônico (graças à extração da borracha), o sul da Bahia (produção do cacau em progresso); finalmente e sobretudo S. Paulo, o grande pólo de atração." História Econômica do Brasil. 7a ed. atualizada, São Paulo: Brasiliense, 1962, p. 208.         [ Links ]

4 Alegre, Sylvia Porto. "Fome de braços - questão nacional. Notas sobre o trabalho livre no Nordeste do século XIX". Cadernos. São Paulo: Centro de Estudos Rurais e Urbanos, n. 2, 1991, p. 68.         [ Links ]

5 Trabalhos do Congresso Agrícola do Recife - out. de 1878. Ed. Comemorativa do 1o centenário: Recife: Fundação Estadual do Planejamento Agrícola de PE, 1978, pp. 323-25.         [ Links ]

6 Idem, pp. 84-85. O dado numérico citado foi extraído pela autora de Paiva, M. Arair Pinto. "A elite política do Ceará provincial". Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1979, pp. 42-3.         [ Links ]

7 Cf. Martins, J. S. A imigração e a crise do Brasil agrário. São Paulo: Ed. Pioneira, 1973, p. 55         [ Links ]

8 Sobre a crise da escravidão e a articulação dos proprietários paulistas no sentido de promover o movimento imigratório em massa de trabalhadores europeus v. Hall, Michael MacDonald. The origins of mass immigration in Brazil, 1871-1914. Columbia University, Ph. D., 1969, exemplar mimeo, p. 21.         [ Links ]Lamounier faz menção à existência de 339 brasileiros livres, dentre 688 trabalhadores, empregados nas fazendas São Jerônimo e Cresciumal, do Barão de Souza Queiróz. Em 1879, o núcleo de Santa Bárbara, do mesmo Barão, contava com 250 brasileiros, dentre 304 indivíduos. Cf. Lamounier, Maria Lúcia. Da escravidão ao trabalho livre - (a lei de locação de serviços de 1879). Campinas: Papirus, 1988, p. 127.         [ Links ]

9 Cf. Alegre, Sylvia Porto. Op. cit., p. 67; Lamounier. Op. cit., p. 71 e Stolcke, Verena. "A introdução do trabalho livre nas fazendas de café paulistas". Revista Brasileira de História. São Paulo: Ed. Marco Zero, n. 6, set. de 1983, p. 81.         [ Links ]

10 V. Congresso Agrícola. Collecção de Documentos. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1878, p. 40.         [ Links ]

11 "Trabalhos do Congresso Agrícola do Recife". Op. cit., pp. 90-4.

12 Idem, pp. 61-2.

13 Idem, pp.449-50.

14 Segundo Warren Dean, o contingente de trabalhadores brasileiros em Rio Claro era heterogêneo, inclusive migrantes que fugiam da grande seca nas províncias do Nordeste...A migração interna de trabalhadores livres de outras províncias constituía um fator tão constante do crescimento das fazendas que é surpreendente que tenha recebido tão pouca atenção. Dean, W. Rio Claro: um sistema brasileiro de grande lavoura, 1820-1920. Trad. Waldívia Portinho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, pp. 108-9.         [ Links ]

15 Colônias. APESP (Arquivo Público do Estado de S. Paulo). Ordem 7.215, 26.5.78.

16 Sérgio Buarque dizia da inclinação do brasileiro para os diminutivos: A terminação `inho', aposta às palavras, serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou os objetos e, ao mesmo tempo, para lhes dar relevo. É a maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e também de aproximá-los do coração. Holanda, S. B. Raízes do Brasil. 23a ed. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1991, p. 108.         [ Links ]

17 Colônias. APESP, ordem 7215, 1878. Ofício de 14 de junho.

18 Regulamento da Hospedaria de Immigrantes e Retirantes Cearenses da cidade de São Paulo. APESP, Colônias, ordem 7.215, 1.878.         [ Links ]

19 Idem.

20 Agencia Official de Colonização em São Paulo. Ofício de 20 de jun. de 1878. APESP, Colônias, ordem 7.215.         [ Links ]

21 Idem, ofício de 8 de jun. de 1878.

22 Idem, ofício de 24 de maio.

23 Colônias, APESP, ordem 7.215, 20.4.1878.

24 Idem, ofício de 24.5.1878.

25 Relação dos retirantes cearenses que tiveram passagem por conta do Ministério do Império, em estrada de ferro, para diversos pontos da província. Colônias, APESP, ordem 7215, 3.5.1878. Segue-se uma lista com nome, idade e fazenda para a qual se dirigiram 353 cearenses.

26 Colônias. APESP. Ordem7212, 1878. Existem mais 24 ofícios com teor semelhante.

27 Idem.

28 Idem, 24.5.1878.

29 Idem.

 

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