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Revista Brasileira de História

Print version ISSN 0102-0188On-line version ISSN 1806-9347

Rev. bras. Hist. vol. 17 n. 34 São Paulo  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01881997000200008 

Um Visitante do Rio de Janeiro Colonial

 

Jean M. Carvalho França

Mestre em Sociologia da Cultura e Doutor em Literatura Comparada pela UFMG

 

 

RESUMO
O texto que se segue é a tradução de um manuscrito francês, intitulado Relâche du Vaisseau L'Arc-en-ciel à Rio de Janeiro, 1748, que se encontra na Biblioteca da Ajuda, em Lisboa. Trata-se de um relato anônimo, que dá conta da passagem do navio francês L'Arc-en-ciel pelo porto carioca. Tal relato, um curioso documento para a história dos nossos costumes, contém uma descrição da baía da Guanabara e da cidade do Rio de Janeiro, uma pequena análise do caráter da gente portuguesa do Brasil, um perfil do Governador Dom Fernando Freire e algumas considerações gerais sobre a situação do porto local e sobre os víveres disponíveis na região.
Palavras-chave
Rio de Janeiro, viajantes, Brasil colônia, franceses no Brasil, narrativas de viagem, navegação

 

ABSTRACT
The following text is a translation of a French manuscript named Relachê du Vaisseau L'Arc-en-ciel à Rio de Janeiro, 1748, which is in Biblioteca da Ajuda (Ajuda Library) in Lisbon. It is an anonymous report and relates the stay of the French ship L'Arc-en-ciel in Rio de Janeiro harbour. Such report, a curious document for the history of our customs, has a description of Guanabara bay and Rio de Janeiro city, a brief analysis of the character of the Portuguese people in Brazil, a prolife of Governor Dom Fernando Freire and some considerations of the situation of local harbour and on the provisions available in that region.
Keywords
Rio de Janeiro, travellers, Brazil as a colony, french in Brazil, travel narratives, navigation

 

 

NOTA INTRODUTÓRIA

No dia 22 de abril de 1748, ancorava na entrada do porto do Rio de Janeiro o L'Arc-en-ciel, navio francês de 50 canhões, pertencente à frota do Marquês D'Albert. O navio partira de Breste no dia 15 de janeiro e, devido ao mau tempo, perdera contato com o comboio principal. Acerca do seu destino nada sabemos, mas, segundo nos informa o relato que se segue, era intenção do seu capitão, Bellisle Pepu (Pepier?), dobrar o Cabo da Boa Esperança. A escala no Rio, ao que tudo indica, deveu-se à necessidade de reabastecimento.

Apesar do isolamento em que vivia o Brasil colonial, isolamento imposto por uma Coroa Portuguesa ciosa de suas posses, não era incomum o porto carioca receber visitantes como o L'Arc-en-ciel. Os navios em que viajavam François Froger, La Caille, James Cook, Friedrich Langstedt, Arthur Phillip, John Barrow, James Colnett e tantos outros passaram pela cidade, em diferentes períodos, pela mesma razão. O Rio de Janeiro, pelo que fazem supor algumas narrativas de viagem, era uma paragem comum para aqueles navios que se dirigiam para o Sul, sobretudo para o Cabo da Boa Esperança. Na cidade, as embarcações, além de repararem avarias, podiam, com alguma comodidade, prover-se de víveres e de água.

Ainda segundo essas narrativas, apesar das muitas restrições que as autoridades cariocas impunham à circulação de estrangeiros na cidade, as tripulações dos navios ancorados, se devidamente acompanhadas por oficiais portugueses, tinham autorização para transitar pelas ruas, freqüentar as casas de comércio, visitar as igrejas e os conventos e até mesmo excursionar pelos arredores da urbe. Não lhes era permitido, contudo, dormir em terra1.

A tripulação do L'Arc-en-Ciel parece ter gozado da liberdade de circulação referida, e isso apesar de constituir-se de franceses, povo que, desde a invasão de Duguay-Trouin2, em 1711, não era muito bem-visto nem pela população nem pelas autoridades locais. Essa liberdade permitiu ao nosso narrador, durante os vinte dias da arribada, recolher algumas informações curiosas sobre a cidade e seus habitantes. Vejamos o que ele tem para nos contar.

 

A ARRIBADA DO L'ARC-EN-CIEL EM 17483

A entrada da baía do Rio de Janeiro , formada por montanhas. Pouco antes dessa entrada, no lado direito, há um morro grande e muito elevado, em forma de pão de açúcar, ao pé do qual, caso o vento ou qualquer outra causa impeça a embarcação de atravessar o estreito que dá acesso ao porto, é possível lançar âncora.

Após ultrapassar um outeiro de mais ou menos meia légua, a embarcação penetra por uma passagem mais estreita do que aquela de Breste, defendida, à direita, por um forte de 8 peças de canhão. Esse forte é separado da Fortaleza de Santa Cruz por um pequeno canal feito na rocha, sobre o qual instalou-se uma ponte de comunicação. A Fortaleza de Santa Cruz, a mais importante do país, está situada sobre a ponta de um rochedo, num local onde todos os barcos que entram ou saem do porto são obrigados a passar a uma distância inferior ao alcance de um tiro de mosquete. A fortificação consiste numa compacta obra de alvenaria de 20 a 25 pés de altura, revestida por umas pedras brancas que parecem frágeis. Sua artilharia conta com 60 peças de canhão, de 18 e 24 polegadas de calibre, instaladas de modo a cobrir a parte externa da entrada do porto, a passagem e uma parte do interior da baía. Cada uma das peças referidas foi colocada no interior de uma canhoneira, o que gera um inconveniente: mesmo diante de um alvo móvel, como um barco a vela, elas só podem atirar numa única direção.

A baía é, talvez, a maior e a mais cômoda que há no mundo. As montanhas que a envolvem protegem as embarcações dos ventos e impedem as agitações marítimas. Pode-se ancorar em toda a sua extensão, estando ela apta para receber infinitamente mais barcos do que a baía de Breste. É igualmente possível aquartelar aí navios de qualquer dimensão, especialmente em frente à Ilha das Cobras, onde esta operação é feita com extrema facilidade pelas embarcações de guerra portuguesas que escoltam a Frota do Brasil. Os barcos conseguem chegar tão perto da terra, que uma única barcaça é suficiente para fazer o transporte de pessoas e mercadorias.

A baía conta ainda com uma série de outras ilhas e ilhotas, que oferecem as mesmas comodidades da Ilha das Cobras. Sobre tais ilhas, se o Rio de Janeiro tivesse um arsenal, poder-se-ia instalar excelentes armazéns e oficinas.

Do outro lado da passagem que dá acesso ao porto, em frente ao Forte de Santa Cruz, foram instaladas, sobre uma barbeta, 20 peças de canhão de calibre 18. Estes, porém, segundo pude observar, estão demasiado afastados do local por onde passam as embarcações e, em caso de necessidade, pouco podem fazer contra um navio inimigo. Sobre o mais baixo rochedo existente no interior da baía, a mais ou menos uma légua da terra, construiu-se um forte quadrado, guarnecido com 30 canhões de calibres 18 e 24. O fogo destes canhões pode não somente cruzar com o do Forte de Santa Cruz e com o da bateria oposta, como também pode cobrir as duas passagens que se formam nesse local e o ancoradouro em frente à vila.

Em terra, avançando um pouco em direção à cidade, encontra-se a bateria de Nossa Senhora da Glória, formada por 10 canhões de pequeno calibre. Tanto esta como uma outra bateria localizada em cima de uma quase-ilha que forma, juntamente com a Ilha das Cobras, uma espécie de rampa, são de pouca monta.

A Ilha das Cobras, que mede dois tiros de fuzil de largura por um de pistola, talvez um pouco mais, teve as suas defesas extremamente reforçadas depois da conquista do senhor Duguay-Trouin. Esta ilha hoje, além do forte de quatro bastiões, por ele mencionado nas suas Mémoires, encontra-se completamente coberta de fortificações; estimo que sejam necessários cerca de 2000 homens para aproveitar todo o seu potencial defensivo.

A perspectiva da cidade, a partir do Convento dos Beneditinos, continua tal qual a pintou o senhor Duguay-Trouin. O plano inserido nas suas Mémoires descreve com bastante precisão a localização das três elevações que dominam a cidade, a saber: a dos Beneditinos; a da Conceição, onde se situa o Palácio Episcopal; e a dos Jesuítas, esta última localizada para além do fim da cidade, do lado da entrada da baía. A estas três pode-se acrescentar mais uma, situada em relação à dos Jesuítas mais ou menos como a da Conceição em relação à dos Beneditinos, ou seja, na parte de trás da cidade.

No fundo do Convento dos Jesuítas e próximo ao Palácio Episcopal estão instaladas algumas baterias. Contudo, em razão da negligência, estas baterias encontram-se em tão mal estado que, apesar de dominarem a cidade, não seriam de grande ajuda no caso de um ataque-surpresa, pois seria necessário mais tempo para pô-las em serviço do que para executar o ataque. Penso que estas baterias poderiam ser utilizadas apenas contra a cidade, caso ela fosse tomada, e para defender o Convento dos Jesuítas.

A montanha ocupada pelo Convento dos Beneditinos não conta com nenhuma bateria. As duas peças de canhão, de calibre 12 e sem reparo, instaladas numa escarpa em frente à Ilha das Cobras, não merecem esse nome. Um desses canhões tem ainda a metade da boca arrancada, tal como o deixou o senhor Duguay-Trouin em 1711.

A cidade está localizada sobre um terreno plano e quase quadrado. O lado que dá para o mar tem cerca de trezentas toesas de comprimento, começando no pé da montanha dos Jesuítas e terminando na dos Beneditinos. A largura seria a mesma se não fosse a existência de duas montanhas: a da Conceição e a de Santo Antônio. No total, a cidade deve ter uma meia légua de perímetro. As ruas são mal pavimentadas, mas razoavelmente largas e retas. Em geral, as casas são bastante comuns e irregulares. Quase todas têm somente um único andar.

Um canal de dois pés e meio de comprimento, coberto por cantarias, e uma trincheira, feita de pedras unidas por uma argamassa cinza e preta, são as únicas fortificações existentes na parte plana da cidade. O senhor Duguay-Trouin, nas suas Mémoires, refere-se ao canal como sendo um bom fosso. Afora as péssimas baterias situadas nas elevações, o interior da cidade não conta com nenhuma peça de canhão. Sua defesa sustenta-se, pois, no valor dos habitantes locais.

As tropas regulares e a guarda dos fortes perfazem um total de aproximadamente 800 ou 900 homens de infantaria, homens bastante bem treinados. Há, entre eles, cerca de 100 granadeiros de boa aparência, encarregados da guarda do Palácio do Governador. Para este fim, os soldados são escolhidos indistintamente em todas as companhias, são divididos em destacamentos e submetidos à autoridade de um capitão e de um tenente ou um alferes. O uniforme desta guarda, composta na sua grande maioria por filhos do país alistados a contragosto, é todo branco e vermelho.

A cidade conta também com alguns destacamentos de guarda costeira, contudo, o número de soldados aí engajados é extremamente reduzido. Os oficiais de uma e de outra tropa são, em geral, homens sem berço e sem mérito, nomeados ao sabor dos caprichos do Governador. Quando da arribada do L'Arc-en-Ciel, um dos criados de quarto de Dom Fernando, ainda prestando serviço ao seu mestre, já vestia, enquanto aguardava a incorporação, o uniforme de uma companhia de cavalaria.

Além das tropas referidas, se excetuarmos os negros e os monges, que se fazem muito presentes no Rio de Janeiro, o número de homens livres e em estado de defender a sua pátria não ultrapassa os 2.000. O número de negros, entretanto, é prodigioso. Só o trabalho nas minas, chamadas Minas Gerais, empregou em 1748, segundo o registro de capitação da armada, 110.000 escravos.

Essas minas, chamadas gerais em razão da sua antiga abundância e das grandes obras que aí foram feitas, começam a se exaurir. Já muitas outras jazidas foram descobertas a 400 léguas do litoral, jazidas muito mais rendosas que as primeiras.

Todo habitante que explora as minas é obrigado a pagar cerca de 100 francos por escravo que emprega, além de pagar ao Rei uma taxa sobre o produto e de ter de arcar com as despesas com o material, ferramentas, subsistência dos trabalhadores, etc.

Apesar de as novas minas ocuparem um número significativo de escravos, o Rio de Janeiro, um verdadeiro formigueiro de negros. Esta concentração funesta traz consigo o constante perigo de uma rebelião. Contra tal inconveniente, a solução encontrada pelos portugueses foi a de adquirir escravos de diferentes proveniências e utilizar a oposição entre seus caracteres para controlá-los. Em geral, os negros são capturados na costa vulgarmente chamada da Guiné e no Reino de Angola. Os escravos provenientes da Guiné são, segundo a opinião dos portugueses, perspicazes, velhacos e preguiçosos; os de Angola são taciturnos, trabalhadores e honestos. Os primeiros não gostam dos últimos e vice-versa. Quando estas duas espécies inconciliáveis se misturam, uma não consegue nada empreender sem que a outra rapidamente não delate. É nesta antipatia natural que se funda a seguridade pública.

Vê-se, no Rio de Janeiro, uma grande quantidade de mulatos. Nesta cidade, a cada dia que passa, o sangue mistura-se mais e mais, pois o clima e a ociosidade tornam o povo fortemente inclinado à libertinagem. O desprezo pela atividade produtiva, somado à aversão generalizada ao trabalho e à busca frenética de ouro e de diamantes, lançou a cultura das terras no mais completo abandono. Nem mesmo o índigo e o cacau o país produz.

Quase todo o comércio feito no Brasil depende dos produtos vindos da Europa. Em matéria de gêneros alimentícios, o país recebe de Portugal medíocres quantidades de farinha, de vinho do Porto e de especiarias, o suficiente para satisfazer a frugalidade portuguesa. O comércio de produtos de luxo é infinitamente mais significativo. Importa-se de tudo: peças de ouro e prata, galões, tecidos finos diversos, toalhas e uma série de outras mercadorias da moda, produzidas, na sua maioria, pelas manufaturas francesas. Uma vez por ano, entre os meses de setembro e outubro, Lisboa envia para a sua colônia, sob escolta de três ou quatro navios de guerra, uma frota carregada com esses produtos. Esta frota, após distribuir a sua carga pela Bahia de Todos os Santos, Pernambuco e Rio de Janeiro, é carregada com ouro e alguns diamantes - provenientes dos Direitos do Rei ou pertencentes a alguns particulares interessados em remeter suas riquezas para Portugal - e volta a se reunir na Bahia em dezembro ou janeiro, retornando daí para Lisboa. Do país, os navios mercantes portugueses levam, além do ouro e da pedraria, somente tabaco, açúcar e algodão - este último, ao que parece, produzido contra a vontade da metrópole.

O governo do Rio de Janeiro e o das Minas, atualmente entregues a Dom Fernando Freire, formam um Arcebispado. No Rio, sob o nome de Presidência, há uma Corte Soberana de Justiça que trata de todos os assuntos relativos à jurisprudência. O Presidente dessa Corte ostenta, como emblema de austeridade, uma chibata engenhosamente presa pelo cabo no bolso de sua casaca. A cidade conta, ainda, com uma Repartição de Finanças e uma Casa da Moeda, onde são cunhados os dobrões, meios-dobrões, etc. Os Inquisidores, denominados Cavalheiros da Inquisição, também se fazem presentes nessas plagas. Contudo, sua autoridade é bastante reduzida e os castigos que aplicam, moderados: prisões e multas somente. Os infratores que cometem crimes graves são enviados para Lisboa e lá julgados com todo o rigor. Os Cavalheiros, em geral escolhidos entre os homens que gozam de um certo prestígio na sociedade, ostentam, como marca do seu ofício, uma pequena cruz de ouro e uma corrente do mesmo material.

É quase impossível, mesmo no interior das casas, contactar abertamente com as mulheres brasileiras. Pelo que pude observar, elas são muito brancas, pálidas e têm um jeito infantil, derivado da indolência tão característica de todos os naturais do país.

 

CARÁTER DOS PORTUGUESES

Os portugueses do Brasil, possuidores negligentes do mais belo país que o sol ilumina, não retiram dele nenhum dos proveitos que um povo ativo e trabalhador retiraria. O ouro e as pedras preciosas são as únicas dádivas que esses colonizadores exigem desta terra tão fecunda, terra que espera somente pelas ordens de seus mestres para prodigalizar tesouros mais úteis e mais naturais.

Inimigos, mais por princípio do que por temperamento, da atividade produtiva, mãe de todas as comodidades da vida, os portugueses parecem inclinados sobretudo à ostentação. Por esta paixão são capazes até mesmo de sacrificar os prazeres sensuais, apesar de, assim como os portugueses da Europa, eles só serem comedidos a contragosto.

A vida faustosa e frívola parece retirar a sua força de uma vaidade desmesurada. A libertinagem e o amor desordenado pelas mulheres, por sua vez, são, a meu ver, causados pela ociosidade e pelo clima terrivelmente quente que se faz sentir nestas plagas. Enfim, nada nestes portugueses do Brasil faz lembrar os seus antepassados do século XIV, aqueles homens que, em meio a mil perigos, estabeleceram a rota para um novo mundo e deram ao resto da Europa o primeiro exemplo de como conquistá-lo.

 

OS BRASILEIROS NATIVOS

Os brasileiros são muito vermelhos e de pequena estatura; seus tratos são delicados e seus cabelos, negros, longos e lisos. Na maior parte das vezes, eles preferem levar uma vida selvagem no meio das florestas a se submeterem ao pesado jugo imposto pelos portugueses. Os poucos que habitam no Rio de Janeiro foram convertidos pelos jesuítas. Estes padres, que têm tido muito sucesso no trabalho de catequese, contam com um grande número de nativos nos seus colégios da costa.

 

RETRATO DE DOM FERNANDO FREIRE-CAPITÃO-GERAL DO RIO DE JANEIRO E DAS MINAS

Apesar de Dom Fernando já contar com uma idade avançada e sofrer de gota, sua figura ainda se mantém assaz imponente. Seu ar é grave e altivo, mas sem afetação; sua conduta em nada se confunde com aquela de certos governadores portugueses que, inebriados pelos poderes do cargo que ocupam, julgam-se pequenos soberanos. Dom Fernando, pondo de lado a arrogância e a cerimônia, adotou para com o Capitão e os Oficiais do L'Arc-en-Ciel maneiras francesas e tons polidos. Ele nutria um grande interesse pela França desde que servira em Flandres, durante a Guerra da Sucessão.

O Capitão-Geral do Rio é, em suma, um homem culto e conhecedor dos interesses dos príncipes, um homem de conversa extremamente agradável e que fala muito bem o francês.

 

NOTA SOBRE A ARRIBADA DO L'Arc-en-Ciel NO RIO DE JANEIRO

O L'Arc-en-Ciel, navio de 50 canhões, era comandado pelo senhor Belliste Pepu, tenente com mandato de capitão. A embarcação fazia parte da esquadra do senhor Marquês d'Albert, da qual havia se separado em razão do mau tempo. Partindo de Breste no dia 24 de janeiro, ela avistou as montanhas da costa brasileira no dia 15 de abril e ancorou na entrada da baia do Rio de Janeiro no dia 22 do mesmo mês. Logo que chegou, o capitão enviou à cidade uma chalupa com um oficial encarregado de saudar o Governador e explicar-lhe os motivos da nossa presença.

A entrada da baía é mais estreita do que aquela de Breste. à direita, está situado o Forte de Santa Cruz, o mais importante do país. É este forte que responde às saudações que todos os navios devem às fortalezas do Rei. O número de salvas varia de acordo com a nação, a qualidade do capitão e o tipo de embarcação. Segundo o nosso costume, o navio deve salvar em movimento e não depois de já ter ancorado. Toda fortaleza tem ordem para disparar caso essa formalidade não seja cumprida.

É de se assinalar que a saudação do L'Arc-en-Ciel foi respondida tiro por tiro, e isto apesar de esse navio trazer hasteada uma simples flâmula. Segundo a Ordenança de 1689, Livro 3, Título e Artigo J8, só é digna de tal resposta a embarcação que ostentar um pavilhão de Almirante ou de Vice-Almirante; quanto às outras, o número de tiros deve ser proporcional à sua importância.

Dom Fernando Freire, Capitão-Geral do Rio de Janeiro e das Minas, respondeu da melhor maneira às solicitações do navio francês, e durante os 17 dias de ancoragem fez todos os esforços no sentido de ajudar os visitantes no que fosse preciso. Essa boa disposição de Dom Fernando foi comprovada quando circulou na cidade o boato de que três navios de guerra da esquadra do Vice-Almirante Boscaven, que tinham feito vela em dezembro de 1747 com destino a Pondichéry, aproximavam-se da cidade. Constatou-se depois que eram três navios mercantes pertencentes à Frota do Brasil. Esse incidente, no entanto, em nada tendo alterado as disposições favoráveis do Capitão-Geral, malgrado a influência dos ingleses sobre os portugueses, veio reforçar a confiança de M. Bellisle, que deixou a cidade com as melhores impressões do governante português.

Nenhum acontecimento desagradável perturbou a estada do L'Arc-en-Ciel nesta colônia estrangeira, colônia que, vale recordar, poucos anos antes fora invadida por Duguay-Trouin e ainda se ressentia dos efeitos dessa sangrenta e bem-sucedida invasão.

A harmonia entre os superiores e a conduta pacífica dos subalternos são detalhes de não menos importância dessa feliz ancoragem. Isso graças, sobretudo, ao caráter afável do oficial-comandante, que soube promover a conciliação e inspirar em todos sentimentos de amizade.

As despesas da arribada não foram pagas com o dinheiro do Rei de Portugal. Foi necessário recorrer a um particular que, a juros de 10% e mediante a garantia de uma letra de câmbio a ser sacada junto ao Cônsul em Lisboa, M. du Verne, bancou todos os gastos da embarcação francesa. Esse homem queria que o sacado fosse o Embaixador da França, e só com muito custo conseguimos demovê-lo dessa pretensão.

O L'Arc-en-Ciel zarpou do porto do Rio de Janeiro no dia 10 de maio; contudo, apanhado por uma calmaria, ficou detido até o dia seguinte no lado de fora da baía. No dia 11, aproveitando um vento de nordeste, ele fez vela em direção ao Cabo da Boa Esperança.

 

NOTAS SOBRE OS VÍVERES

O gado grosso é bastante comum no Rio de Janeiro, pois os padres Jesuítas se encarregam de cuidar da sua conservação e reprodução. Para formar os seus rebanhos, esses religiosos fazem capturar nos bosques os vitelos e as novilhas selvagens, depois mandam abater uma parcela dos primeiros e confinam o restante, juntamente com as novilhas, nos muitos currais que têm, espalhados ao longo da costa do Brasil. Este processo lhes permite fornecer carne para todo o país.

A carne produzida, no entanto, por não ser vendida fresca, é bastante cara. Um boi inteiro custa cerca de 25 escudos portugueses, e o pedaço, 4 soldos a libra. Quanto à qualidade da carne - apesar de os animais serem criados em regiões onde abundam os pastos e as bananeiras, árvores cujas folhas e caule são muito apreciados pelos bovinos -, é bastante inferior àquela que se vende na Bretanha.

A carne de carneiro é de péssima qualidade, pois os animais não são castrados. Este descuido torna a carne seca e com um sabor tão insípido que mal se consegue distingui-la da carne de ovelha. Daí elas serem vendidas juntas e pelo mesmo preço.

Os porcos abundam no país e são vendidos a um preço igual ou inferior aos praticados na Bretanha. A carne destes animais, contudo, tem um inconveniente: como os habitantes têm o hábito de alimentar os seus porcos com peixe, ela apresenta um gosto demasiado forte de pescado.

As galinhas são grandes, bonitas e de qualidade; seu preço, contudo, é bastante elevado. Em geral, são vendidas a três libras francesas. Os patos e canários também têm boa aparência, mas as suas carnes não são muito saborosas. Os primeiros são vendidos a 6 libras a unidade; os últimos, a 3.

O país produz uma grande quantidade de frutas: laranjas, limões de diferentes espécies, figos, bananas, abacaxis, batatas-doces, melões d'água, pistaches, etc. Há também muitas hortaliças e legumes variados (couves, jerimuns, ervilhas, abóboras, etc).

O peixe é tão abundante que todo mundo tem por hábito secá-lo e estocá-lo, seja para consumo dos familiares, seja para a alimentação dos escravos. Apesar dessa prática, sobra ainda uma grande quantidade de pescado para ser usada como alimento para os porcos.

O clima local é agradável e são. O calor excessivo, que poderia ter conseqüências funestas, é amenizado por duas brisas: uma que sopra pela manhã, de noroeste, e outra que sopra à tarde, de sudeste.

 

 

NOTAS

1 A respeito da presença dos viajantes no Rio de Janeiro colonial e das restrições impostas à sua livre circulação na cidade, ver: TAUNAY, Affonso de E. Visitantes do Brasil Colonial (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1933         [ Links ]; CARVALHO, Alfredo. Aventuras e Aventureiros no Brasil. Rio de Janeiro: Empresa Gráfica Editora, 1930; TAUNAY, Alfredo de E. "No Rio de Janeiro dos Vice-Reis". In: Anais do Museu Paulista. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Tomo XI, 1943.         [ Links ]

2 Sobre a invasão de M. Duguay-Trouin em 1711, ver DUGUAY-TROUIN, René. Mémoires de Monsieur Du Gué- Trouin.Amsterdam: Chez Pierre Mortier, 1723.         [ Links ]A parte relativa ao Rio de Janeiro foi traduzida por Tristão de Alencar Araripe e se encontra publicada na Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, Tomo XLVII, 1a parte, 1884.

3 Tradução do original Relachê du Vaisseau L'Arc-en-ciel à Rio de Janeiro, 1748. Lisboa: Manuscrito da Biblioteca da Ajuda. Ref. 54-XIII-4-N19.         [ Links ]

 

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