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Revista Brasileira de História

versão impressa ISSN 0102-0188versão On-line ISSN 1806-9347

Rev. Bras. Hist. v.26 n.52 São Paulo dez. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01882006000200001 

APRESENTAÇÃO

 

 

Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.

Fernando Pessoa

 

A Revista Brasileira de História pretende andar na contramão da história. Não de toda e qualquer história, mas daquela que se tem associado intelectualmente à deterioração dos elementos de integração interna das sociedades contemporâneas. Ocorre que crescentes setores do pensamento e da população passam atualmente por um processo de marginalização e de exclusão contra as quais é preciso refletir, estudar e reagir. De maneira definitiva, com a história não se coaduna uma determinada sucessão de estados e de mudanças caracterizadas pela crescente individualização da vida social.

A Revista Brasileira de História — atendendo ao alerta do poeta, de que "tudo é incerto e derradeiro, tudo é disperso, nada é inteiro" —, embora reconhecendo o limite de sua intervenção nos debates historiográficos nacionais, pretende contribuir para a visibilidade dos riscos que aquele processo tem provocado. É por isso que em seu 52º número busca privilegiar, no Dossiê, a temática da escravidão e de seus desdobramentos na vida contemporânea.

Ao longo de sua trajetória a Revista Brasileira de História vem publicando artigos de autores nacionais e estrangeiros, buscando divulgar questões importantes e polêmicas para a historiografia. Um levantamento das temáticas dos últimos vinte anos demonstra que a Revista publicou principalmente dossiês que privilegiaram discussões de teoria da história ou historiografia — cerca de 25 por cento do total —, sendo esse um desafio fundamental para o ofício do historiador. Quase na mesma percentagem aparecem os dossiês que focalizaram as temáticas políticas, seguidos, em terceiro lugar, dos assuntos de gênero e família. Mas toda uma diversidade de objetos se fez presente, enfocando o ensino da história, a história da América, das religiões, viagens e viajantes, artes, ciências e migrações, entre outros.

Desde 1988 — quando do centenário da Abolição, com a publicação do número 16 — os estudos sobre a escravidão não eram motivo de um dossiê. Aliás, aquele número foi o primeiro dedicado ao tema. Deve-se ponderar que durante todos esses anos a temática ampliou o número de seus pesquisadores, multiplicou e diversificou seus focos e suas abordagens, tornando-se um dos mais importantes assuntos necessários para se entender as tensões sociais e simbólicas contemporâneas. Assim, avaliando-a como uma das temáticas eleitas pela historiografia, o Conselho da Revista Brasileira de História procura, neste número, corroborar a conveniência da eleição desse assunto.

O presente número reúne artigos sobre a escravidão que percorrem caminhos variados: São Paulo, Bahia, Paraná, Maranhão, Pará, Espírito Santo e, até mesmo, a Roma antiga.

Contando com uma valiosa introdução do professor Manolo Florentino, o dossiê traz pesquisas sobre o tráfico negreiro e seu desdobramento interno, nos artigos de José Flavio Motta e Rafael Chambouleyron. As questões da liberdade e da alforria são trabalhadas nos textos de Geraldo Antonio Soares e Maria de Fátima Novaes Pires. A temática da família e do compadrio foi analisada por Cacilda Machado e Cristiany Miranda Rocha, e os registros dos viajantes recuperando as experiências da escravidão, no Rio de Janeiro oitocentista, constituíram o desafio enfrentado por Eneida Maria Mercadante Sela.

Mas, se a escravidão no Brasil tem importância e marca pronunciada na historiografia brasileira, a temática também permite a análise sobre outros momentos do passado — sobre o mundo romano, nos escritos de Norberto Luiz Guarinello.

Além de artigos, a Revista Brasileira de História oferece neste número duas importantes resenhas, que nos trazem comentários sobre obras recentes que privilegiam a análise da escravidão: Rafael Faraco Benthien e Miguel S. Palmeira discutem Tácito e a metáfora da escravidão, e Andréa Lisly Gonçalves destaca a obra Caetana diz não: história de mulheres da sociedade escravista brasileira.

Os artigos que se seguem ao Dossiê ocupam-se das narrativas fundadoras do feminismo (Joana M. Pedro) e das redes de compadrio na Vila Rica de fins do século XVIII (Renato P. Venâncio).

Conselho Editorial

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