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Revista Brasileira de História

versão impressa ISSN 0102-0188versão On-line ISSN 1806-9347

Rev. Bras. Hist. v.28 n.56 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01882008000200004 

DOSSIÊ: DARWINISMO

 

O darwinismo nas Conferências Populares da Glória

 

Darwinism in the Popular Conferences in the Glória district of Rio de Janeiro

 

 

Karoline Carula

Doutoranda em História Social, Universidade de São Paulo (USP). Av. Professor Lineu Prestes, 338 — Cidade Universitária. Caixa Postal 8105. 05508-000 São Paulo — SP — Brasil. karolinecarula@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Este artigo aborda o darwinismo exposto, entre 1875 e 1880, nas Conferências Populares da Glória — preleções públicas realizadas na escola da Freguesia da Glória, no Rio de Janeiro. As conferências que tiveram as idéias darwinistas como temática foram recebidas e repercutidas na imprensa de maneira polêmica. Apresenta-se a concepção sobre o darwinismo do médico Miranda Azevedo, o primeiro, mas não o único, a discursar sobre o tema. Com relação às conferências desse médico, analisa-se a aplicabilidade social do darwinismo por ele defendida, e as discussões na imprensa sobre a propagação do darwinismo no Brasil e sobre a possível origem símia do homem. Por fim, analisam-se as preleções de outros conferencistas que ou versaram sobre o tema mais diretamente ou perpassaram o assunto.

Palavras-chave: darwinismo; Conferências Populares da Glória; imprensa.


ABSTRACT

In this paper I examine the Darwinism that transpired, between 1875 and 1880, during the Popular Conferences in the Gloria district — public conferences that took place at the Freguesia da Glória school, in Rio de Janeiro. The Conferences that had Darwinism as a subject were received and reverberated in the press polemically. I present the conception of Darwinism held by doctor Miranda Azevedo, the first, but not the only speaker, to discuss the subject. Concerning this doctor's conferences, I analyze the social application of Darwinism defended by him, and the discussions in the press about the spread of Darwinism in Brazil, and the possible simian origin of man. Finally, I talk about other lecturers' talks that either directly broached the subject or mentioned it in passing.

Keywords: Darwinism; Popular Conferences of Glória (Rio de Janeiro); press.


 

 

O DARWINISMO SEGUNDO MIRANDA AZEVEDO

Em 1859 o naturalista inglês Charles Darwin publicou A origem das espécies, livro em que expôs a sua teoria acerca da determinação da seleção natural sobre a evolução biológica. Para Ernst Mayr, embora Darwin se referisse à sua teoria no singular, o paradigma evolucionista por ele estabelecido estava fundamentado em cinco teorias independentes, quais sejam: "evolução propriamente dita, descendência comum, gradualismo, multiplicação de espécies e seleção natural".1 Vale sublinhar que muitos contemporâneos aceitavam algumas dessas idéias e rejeitavam outras, confirmando, assim, a autonomia delimitada por Mayr.2

Segundo Regina Gualtieri, Thomas Huxley, "polemista e defensor de Darwin", criou o vocábulo "darwinismo" em 1864 para fazer referência às idéias do naturalista. Em 1889, o termo foi reforçado com a publicação da obra Darwinismo, de Russel Wallace.3 Contudo, a autora destaca que nas décadas de 1870 e 1880 essa terminologia foi adotada não apenas pelos que compartilhavam de todas as idéias de Darwin, mas também por aqueles que acolhiam apenas algumas delas, muitas vezes, mesclando-as com outras teorias, como com as de Ernst Haeckel e de Herbert Spencer.

As idéias de Darwin, permeadas por outras tantas idéias e/ou teorias, foram interpretadas e ressignificadas em diversas áreas do conhecimento, sobretudo nos estudos comportamentais das sociedades, que passaram a incorporar em seu léxico termos e conceitos extraídos da obra do naturalista. O darwinismo já nasceu cosmopolita e universalizante, ao propor uma origem única a todos os homens. Seus pressupostos causaram enorme impacto e geraram grande polêmica, alcançando diversos países, regiões e camadas sociais, com grande repercussão entre letrados e religiosos no Ocidente.

No Rio de Janeiro as idéias darwinistas ultrapassaram o circuito das instituições letradas de saber e ensino por meio das Conferências Populares da Glória, preleções públicas realizadas inicialmente na escola da Freguesia da Glória. Em 1873, o conselheiro Manoel Francisco Corrêa criou as Conferências a fim de estabelecer um novo espaço para a divulgação da ciência, das artes e da literatura na Corte. Os oradores que se apresentavam, em sua maioria médicos e bacharéis, já eram reconhecidos em outros círculos letrados e institucionais. O público freqüentador desse local, composto pela elite letrada4 carioca, recebeu de forma positiva o evento, transformando-o em mais um espaço de sociabilidade. As Conferências obtiveram força política, constituindo-se como um espaço público privilegiado para a formação de opinião pública. Elas eram anunciadas e comentadas nos grandes jornais,5 que traziam artigos debatendo as preleções e as idéias ali expostas. A repercussão na imprensa foi importante tanto por dar legitimidade ao espaço das Conferências, quanto por reverberar discussões sucedidas, colaborando assim na disseminação e cristalização das idéias apresentadas. Dentre essas idéias enfatizo o darwinismo, pois as preleções com essa temática repercutiram na imprensa de maneira polêmica entre 1875 e 1880.6

A primeira conferência a tratar da teoria de Darwin foi proferida pelo médico Augusto Cezar Miranda Azevedo, em abril de 1875. Não foi, todavia, na tribuna da Glória a primeira vez que o médico expôs o darwinismo. Em novembro de 1874, ele havia abordado o mesmo tema em sua tese apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A tese era composta de uma dissertação sobre o beribéri, e de proposições em outras três seções: "seção acessória — cadeira de botânica e zoologia", "seção cirúrgica — cadeira de medicina operatória" e "seção médica — cadeira de higiene".7

Para a seção acessória, a proposição teve o seguinte título: "Do darwinismo — É aceitável o aperfeiçoamento cada vez mais completo das espécies até o homem?".8 Nela Miranda Azevedo definiu o darwinismo como a teoria na qual todos os seres vivos, animais e vegetais, seriam originários de organismos mais simples, que se transformaram por meio de evolução; desconsiderava, dessa maneira, as cosmogonias teológicas e de criação simultânea. Fez uma breve síntese das pesquisas dos evolucionistas anteriores a Darwin, creditando a este o mérito de "sistematizar as idéias esparsas de seus antecessores". Em seguida, listou as quatro leis que, de acordo com a sua perspectiva, seriam os pontos essenciais da "teoria da seleção morfológica": "luta pela existência", "modificação e adaptação das variedades das espécies", "transformação hereditária dessas alterações" e "seleção natural".9

Ao concluir sua argüição, Miranda Azevedo assegurou ser o homem o fruto mais completo do aperfeiçoamento das espécies, princípio que constituía conseqüência da doutrina darwinista. Ele também frisou a importância do darwinismo ao romper com as explicações teológicas, que impediriam o avanço da inteligência humana. Esse trabalho acadêmico serviu de base para as conferências públicas do médico, nas quais sistematizou seus argumentos para a divulgação da teoria de Darwin.

 

DARWINISMO PARA O BEM DA PÁTRIA

Como um dos propósitos das Conferências Populares da Glória era propagar um conhecimento dito científico, discorrer sobre o darwinismo nesse local era fundamental. Com relação à primeira conferência de Miranda Azevedo sobre o tema, intitulada "Darwinismo: seu passado, seu presente, seu futuro", O Globo a anunciou destacando o fato de a teoria de Darwin já ser difundida nos "países mais adiantados", ou seja, se ela fosse discutida aqui ajudaria a colocar o Brasil no rol dos países civilizados (O Globo, 10 abr. 1875). Essa colocação do jornal dava à conferência uma conotação positiva mesmo antes de ser realizada, sugerindo a sua boa aceitação.

O Jornal do Commercio noticiou a conferência como a exposição de uma "teoria moderna de história natural, que atualmente preocupa a atenção dos mais eminentes naturalistas e sábios da Europa e dos Estados Unidos" — o darwinismo —, e salientou ainda que pela primeira vez ela seria abordada cientificamente, seja na academia seja na imprensa (Jornal do Commercio, 10 abr. 1875). Destacar que a teoria já era conhecida na Europa e nos Estados Unidos indicava que ela também deveria ser não só conhecida, mas também aceita aqui, uma vez que esses eram os locais civilizados nos quais o Brasil se inspirava.10 Havia a necessidade de se estar a par dos termos discutidos em centros mundiais considerados como "mais civilizados". Almejava-se alcançar um novo e mais alto patamar da civilização, pela via de um modelo preestabelecido que serviria a qualquer localidade do mundo. Seria este, portanto, mais um aspecto cosmopolita.

Após a realização da preleção, o Jornal do Commercio ressaltou inicialmente que o orador disse proferir aquela conferência porque estava certo de prestar um "serviço à pátria e ao povo". Segundo a folha, o médico pretendia demonstrar a serventia da doutrina darwinista para as academias e para a "massa popular" (Jornal do Commercio, 18 abr. 1875). Observo que para Miranda Azevedo o darwinismo forneceria o instrumental para se pensar e resolver os problemas da sociedade brasileira, logo, sua ação de propagar tal conhecimento só poderia ser encarada como um ato de grandeza.

Miranda Azevedo afirmou serem o sistema oficial de ensino e os preconceitos religiosos os principiais atravancadores da "propaganda desta doutrina científica". A fim de formar opinião pública11 a favor do darwinismo, O Globo destacou que o médico "Para combater o primeiro mal, encontra eficaz apoio na tribuna", pois Manoel Francisco Corrêa, idealizador das Conferências, em suas preleções preconizava uma mudança da estrutura de ensino do país (O Globo, 14 abr. 1875). Sobre os motivos que dificultavam a difusão da teoria de Darwin no Brasil, Miranda Azevedo marcou a necessidade de não se misturar a razão com a fé (Azevedo, 1876). No final de sua conferência o médico expôs sua crença na aplicabilidade do darwinismo nos diversos setores da sociedade, estendendo, dessa maneira, a teoria biológica para a sociedade.

Uma das aplicações da teoria darwinista na sociedade, apontada por Miranda Azevedo, estava relacionada à seleção do serviço militar, pois ela retirava os homens sadios da sociedade e deixava os defeituosos para procriarem:

Todo mundo grita que o gênero humano decai, que o homem de hoje não é o homem atlético e possante das eras passadas. Sabeis a razão disso? É pela aplicação da teoria de Darwin que a percebemos. Por todo mundo civilizado atualmente está grassando a preocupação do predomínio militar; e qual a causa dessa preocupação? A ignorância das leis de Darwin, na maneira por que são confeccionadas as legislações militares. Procuram para o exército os entes sadios, fortes, vigorosos e desprezam, deixam para constituir família, para organizar a sociedade aqueles que têm alguns defeitos, que são fracos fisicamente. Qual a conseqüência desse fato? A conseqüência lógica e imediata de uma lei de Darwin da hereditariedade. Todos aqueles que forem robustos e sadios não podem constituir família, porque as leis militares os roubam a seus lares para deixarem o sangue mais generoso e forte do país nos campos de batalha, e são precisamente os débeis, os que têm defeitos físicos que hão de constituir famílias, e assim transmitirem a seus filhos, à sua descendência os germes desse raquitismo, dessa degeneração que todos os estadistas proclamam.12

A questão da convocação para o serviço militar exposta foi discutida pela imprensa. Para o Jornal do Commercio, o orador acusou as leis de recrutamento militar de corroborarem com a degeneração humana, dado que os homens mais "fortes" e "robustos" eram convocados e ficava a cargo dos mais "fracos e raquíticos" a criação das futuras gerações (Jornal do Commercio, 18 abr. 1875). Ocasionava-se, dessa maneira, a degeneração da espécie humana, assunto, de acordo com Miranda Azevedo, preocupante e aterrorizante para as sociedades modernas. O Diario do Rio de Janeiro relatou que para o médico, além de o governo brasileiro se preocupar com políticas de imigração, deveria também pensar mais em como aprimorar as famílias do país, tornando-as mais "vigorosas e robustas" (Diario do Rio de Janeiro, 14 abr. 1875).

Na análise de Miranda Azevedo havia uma hierarquização do homem, na qual existiriam homens superiores, referenciados como "sadios" e "fortes" e em contrapartida os inferiores, qualificados como "débeis" e "fracos". Para ele, os descendentes dos indivíduos inferiores estariam fadados a também serem inferiores, mostrando que em sua interpretação o determinismo hereditário era fundamental. O orador vislumbrava uma aplicabilidade da teoria darwinista em prol da sociedade brasileira. A questão do recrutamento militar era aqui comprovada, por argumentos de procedência darwinista, como equivocada e prejudicial à reprodução saudável da sociedade. Houve, portanto, a apropriação de um discurso da ciência para justificar um posicionamento político.

O Globo questionou a fundamentação utilizada por Miranda Azevedo com relação ao recrutamento militar — "Notaremos em primeiro lugar que o pensador alemão [Haeckel] não apresenta a guerra e suas conseqüências como causa exclusiva dessa degeneração ... Haeckel diz realmente que a guerra é um elemento de degeneração" (O Globo, 18 abr. 1875). Para esse jornal, havia problemas no uso feito pelo médico das proposições de Ernst Haeckel. O emprego de idéias de outros evolucionistas junto às de Darwin denota que o -darwinismo concebido por Miranda Azevedo era filtrado, de modo a apresentar uma ressignificação das idéias de Darwin e de outros seguidores do evolucionismo. Para Maria Rosa Cid, as ações propostas pelo médico atestavam que seu arcabouço teórico não se restringia ao evolucionismo darwinista, chegando a apresentar propostas discordantes das de Darwin (Cid, 2004).

A crítica de O Globo foi respondida por Miranda Azevedo em sua terceira conferência, mostrando a via de mão dupla de repercussão de idéias entre as Conferências e a imprensa. A folha relatou que o orador havia retomado a questão da seleção militar, reafirmando não ser ela a única causa da degeneração humana, embora fosse uma das principais. Mesmo não tendo assistido à preleção, a redação de O Globo destacou a importância da difusão das idéias darwinistas na sociedade brasileira, explicitando já ter alguma opinião favorável sobre o assunto. Ofereceu o espaço da publicação para a discussão das idéias expostas nas Conferências da Glória, frisando, desta maneira, seu papel como veículo de informação que atuava na formação de uma opinião pública sobre os temas abordados nas Conferências (O Globo, 29 abr. 1875).

Em sua segunda conferência Miranda Azevedo, ainda discursando sobre o darwinismo, desenvolveu uma analogia entre as ciências naturais e o governo de um Estado. O objetivo de ambos seria a consagração da unidade; nas ciências naturais apenas uma única verdade explicaria os fenômenos observados, o mesmo ocorreria com os sistemas políticos, somente um regime seria autêntico e adequado. Para o conferencista, que se dizia republicano e fora um dos signatários do Manifesto Republicano de 1870, a verdade científica estaria no darwinismo, e o sistema republicano seria a forma correta de governo (Collichio, 1988). A respeito dessa conferência, o Jornal do Commercio apresentou seu resumo, enfatizando a solicitação de Miranda Azevedo feita ao público quanto à aceitação dos postulados por ele apresentados (Jornal do Commercio, 21 abr. 1875). A fim de que as idéias expostas conseguissem uma opinião positiva do público e, com isso, ganhassem amplitude,13 o orador solicitou apoio. Provavelmente, esse pedido decorreu das críticas recebidas após a primeira preleção, as quais, segundo a interpretação do médico, foram de caráter preconceituoso. Para ele, o preconceito seria um dos maiores obstáculos à difusão e aceitação da teoria darwinista e, desta maneira, ao próprio progresso.

 

DIVULGAR O DARWINISMO É CRIME

Após a segunda conferência de Miranda Azevedo sobre o darwinismo, O Apostolo se manifestou contrário às suas idéias — "Desde que o gabinete abriu a válvula do desrespeito à Igreja, era de se esperar que por ela se desprendesse também o espírito da impiedade disfarçada em ciência" (O Apostolo, 25 abr. 1875). Quando se iniciaram as Conferências Populares da Glória esse periódico já havia dispensado ríspidas críticas ao seu organizador, Manoel Francisco Corrêa, e ao governo, buscando formar uma opinião adversa ao evento. No cômputo geral e excetuando alguns casos, as conferências apresentariam, de acordo com O Apostolo, inconsistências com relação à história, à literatura e à ciência. Eram, portanto, prejudiciais seus resultados. Para a folha, a preleção do médico darwinista serviu para ratificar o seu julgamento.

Na avaliação de O Apostolo, a difusão da teoria darwinista era "condenada pela Igreja e proibida por lei", porque instituía uma nova origem do mundo, retirando de Deus o poder da criação; era, por isso, uma hipótese ateísta. Como no Brasil vigorava o sistema do padroado, as rejeições da existência de Deus e da imortalidade da alma, sustentadas por Darwin, não podiam ser difundidas porque isso seria um crime previsto pelo Código Criminal e, como tal, sujeito às devidas penalidades.

A crítica de O Apostolo direcionada não apenas à teoria darwinista, mas também ao orador e ao organizador das Conferências da Glória, foi intensificada pelo posicionamento da imprensa perante as preleções de Miranda Azevedo. O Diario do Rio de Janeiro exaltou a figura de Miranda Azevedo, afirmando ser ele o primeiro a chamar a atenção da camada letrada para a similitude entre sambaquis brasileiros e dinamarqueses (Diario do Rio de Janeiro, 21 abr. 1875). Cabe destacar que o primeiro a assinalar as semelhanças entre os sambaquis foi o conde francês La Hure, em 1864.14 Talvez, o fato de Miranda Azevedo ter feito uso de argumentos darwinistas para tal levou sua afirmação a merecer mais crédito pelo jornal.

O Globo igualmente noticiou de forma positiva a segunda conferência de Miranda Azevedo, elogiando a maneira como expôs suas idéias, referindo-se a Darwin como sábio (O Globo, 21 abr. 1875). Sublinhou que o conferencista se fundamentou nos "progressos científicos", mostrando que o médico tirara suas conclusões por meio de algo que se almejava para o Brasil — o progresso —, reconhecido até mesmo por aqueles que não eram darwinistas. Portanto, difundir o pensamento darwinista também seria uma forma de levar o país a progredir. A simpatia de O Globo pelo tema foi ressaltada quando classificou a utilização prática da teoria como "admiráveis aplicações", posicionando-se como um aliado do médico na formação de uma opinião pública simpatizante do darwinismo.

Miranda Azevedo deu prosseguimento à defesa das idéias darwinistas subindo na tribuna da Glória pela terceira vez, quando sua fala versou sobre o "Estudo e demonstração das leis fundamentais do darwinismo". O Globo explicitou aí a situação delicada do orador mediante as críticas feitas pelos jornais fluminenses, numa referência a O Apostolo, que teria feito uma "acusação violenta e apaixonada". Não obstante, segundo O Globo, o orador não se preocupou com "as frases violentas" impressas pela folha católica, já que possuía em seu favor sua tese de doutoramento, aprovada pelas comissões competentes e, logo, não era criminoso. Deixava a critério do bom senso do público instruído o veredicto final (O Globo, 29 abr. 1875). Para o Diario do Rio de Janeiro, Miranda Azevedo imputou ao público a decisão de escolher quem poderia trazer maior benefício ao povo e à pátria — O Apostolo ou o médico darwinista (Diario do Rio de Janeiro, 30 abr. 1875). Mais uma vez a decisão final pertence ao público, reafirmando o papel desse como tribunal incorruptível (Habermas, 1984). O fato de Miranda Azevedo responder às críticas da imprensa na tribuna da Glória indica que os debates nos periódicos também repercutiam nas Conferências.

Ao delegar a sentença para o público presente, entendido aqui como a elite letrada que acompanhava as Conferências e os debates na imprensa, Miranda Azevedo deixou claro que não se tratava apenas de optar entre o médico e o jornal, mas sim entre o discurso científico e o religioso. Provavelmente, nessa disputa a vantagem estaria ao lado da ciência, porque, diferentemente do discurso católico, ela traria benefícios à população e possibilitaria o progresso do país, requisito essencial para se atingir a civilização nos moldes liberais.

De acordo com O Jornal do Commercio, a fim de se defender das críticas, Miranda Azevedo ressaltou que seu doutorado foi "examinado por um lente catedrático, dos mais ilustrados e fervorosos católicos do Brasil" (Jornal do Commercio, 30 abr. 1875). Ele se referia a Joaquim Monteiro Caminhoá, professor da cadeira de botânica e zoologia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Para O Apostolo, a Faculdade poderia ter considerado o darwinismo como plausível de ser abordado no intuito de ser rebatido e destruído. Isto de fato ocorria, pois, em 1876, Joaquim de Souza Ribeiro Mendonça escolheu a temática para a sua proposição, na qual combateu o darwinismo com base nos princípios positivistas (Collichio, 1988, p.46). Os temas defendidos nas teses dessa faculdade eram sugeridos pelos docentes das cadeiras, e o darwinismo foi oferecido a Miranda Azevedo por Caminhoá.15

Após a terceira conferência de Miranda Azevedo, O Apostolo iniciou um ataque mais direcionado ao orador, apresentando-o de modo pejorativo como alguém novo demais para proferir palavras dignas de crédito: "não é muito para admirar-se que um criançola se anima a proferir semelhante blasfêmia em público" (O Apostolo, 28 abr. 1875, grifos do original). Houve também uma depreciação do diretor das Conferências da Glória, Manoel Francisco Corrêa, desta forma, atingindo o próprio evento. O debate não girava em torno das idéias pregadas pelo conferencista, mas sim sobre o seu prestígio; a folha não buscou uma contra-argumentação no campo das idéias. Antes de os outros jornais noticiarem essa preleção, O Apostolo expôs sua apreciação negativa:

o Globo e o Jornal, renunciando aos foros de imprensa séria, não se pejam de tecer pomposos elogios, ridículas louvaminhas ao moço que, em um momento de irreflexão, lembrou-se de desenvolver nesta capital as absurdas doutrinas de Carlos Darwin! Pois é razoável e justo que um jornal sério elogie pomposamente a um indivíduo que se apresenta fanático por uma doutrina inteiramente oposta às verdades reveladas da nossa santa religião? ... cumpre ainda notar que esses jornais têm sido até exagerados nos elogios que fazem ao Sr. Miranda Azevedo! Assim é que dizem eles tem sido muito numeroso o auditório, que tem assistido às preleções sobre o darwinismo; e no entanto o contrário tem sucedido, e especialmente em relação ao belo sexo! (O Apostolo, 28 abr. 1875, grifos do original)

Para O Apostolo, os principais prejudicados com a propagação da teoria darwinista seriam os "néscios e os ignorantes", considerados como uma parcela substancial da população. Partia-se do princípio de que esta não seria capaz de discernir o supostamente certo do errado. Intencionando desmentir o que havia sido publicado por parte da imprensa, O Apostolo afirmou que o número de pessoas presentes nas conferências do médico não era tão grande como havia sido noticiado. Pressupondo que muitos dos presentes às conferências eram leitores das folhas citadas, qualquer um poderia atestar a veracidade da informação sobre a quantidade do público. Apesar das críticas diretas, esses periódicos publicaram novamente o resumo da conferência e, mais uma vez, destacaram o grande auditório (Jornal do Commercio, 30 abr. 1875; O Globo, 29 abr. 1875).

Cabe ressaltar que nessa polêmica havia uma parcela dos jornais que elogiava as conferências darwinistas — O Globo, Jornal do Commercio e Diario do Rio de Janeiro. A despeito de um pretenso lugar de neutralidade, a imprensa era um lócus de disputa, em que cada periódico buscava, dentro do seu perfil jornalístico e político, argumentos e modos de convencimento de sua opinião. Dos jornais pesquisados, O Apostolo foi o único a fazer estardalhaço sobre as preleções que tinham o darwinismo como tema. Ele procurava espaço nesse embate, uma vez que os outros não condenavam a difusão da teoria.16 O próprio silêncio destes já assinalava um posicionamento político favorável.

 

É O HOMEM PARENTE DO MACACO?

Regina Gualtieri afirma que a aceitação e a generalização de algumas das idéias de Darwin demoraram. Foi o caso, por exemplo, da negação de um Criador atuando sobre o mundo biológico, da inserção do homem neste mundo, e do princípio segundo o qual os organismos descendem de um ancestral comum: "eliminar o desígnio divino das transformações orgânicas e substituí-lo por um processo natural, a seleção, foi muito mais difícil" (Gualtieri, 2001, p.15).

Das idéias darwinistas apresentadas nas Conferências Populares da Glória por Miranda Azevedo uma que provocou polêmica dizia respeito à ancestralidade do homem, que estaria ligada à do macaco. Na primeira preleção, de acordo com o Jornal do Commercio, Miranda Azevedo afirmou que a demora na difusão das idéias darwinistas no Brasil também era conseqüência do modo sarcástico como tratavam a teoria: "esta proposição: o darwinismo pretende que o homem descende do macaco aperfeiçoado — tem sido aceita pelas inteligências superficiais. A esses poucos refletidos e não versados na questão dirá o orador as palavras de Huxley, em resposta ao bispo de Oxford..." (Jornal do Commercio, 18 abr. 1875, grifo do original). Esse jornal editou a crítica do médico de modo sutil. Faço esta afirmação, pois, conforme consta em seu discurso publicado na revista Conferencias Populares e no artigo noticiado por O Globo,17 Miranda Azevedo foi mais enfático: "prefiro descender de um macaco aperfeiçoado antes do que de um Adão degenerado!..." (Azevedo, 1876, p.47). Não concebia, portanto, a hipótese das criações simultâneas, de modo semelhante ao que fizera em sua defesa de tese. Ele sintetizou os princípios darwinistas em quatro pontos: a luta pela existência, a variabilidade das espécies, a hereditariedade e a seleção natural. O Jornal do Commercio enalteceu a figura do naturalista inglês — "O orador narra a biografia do eminente sábio [Darwin], desde a sua viagem científica até a publicação da sua doutrina" (Jornal do Commercio, 18 abr. 1875, grifos meus) — dando, desta maneira, indícios de seu apreço.

Essa frase do médico darwinista e a defesa da teoria como um todo acentuaram a indignação de O Apostolo:

Que papel representaria o homem, o rei da criação, se o supuséssemos descendente direto do orangotango? E ainda mais, o Sr. Miranda Azevedo acha mais digno e nobre ser descendente de macacos, do que de Adão, a quem S. S. qualifica, não sabemos com que fundamento, de degenerado! ... Não nos admira muito o fato de considerar-se o Sr. Miranda descendente dos quadrúmanos, quando o celebérrimo literato (?) português José Palmella, a mais ratona figura que tem subido a tribuna das preleções públicas, em uma conferência que fez em Dezembro do ano findo, teve o descoco de declarar que seria muito conveniente importar grande quantidade de orangotangos aqui para o Rio de Janeiro; a fim de que eles substituíssem os serventes domésticos! Ora, eis a que nos reduziram essas duas luminárias das ciências: o literato lusitano quer que os macacos substituam os nossos famales no serviço doméstico, e o nosso patrício deseja que nos mostremos gratos a esses animais, sendo que deles descendemos em linha reta!... Eis o fruto das conferências populares!... (O Apostolo, 28 abr. 1875, grifos do original)

O Apostolo chegou ao ponto que foi uma constante em suas críticas sobre o darwinismo — a questão da origem simiesca do homem. Para o jornal, seria difícil imaginar que o ser humano não descendesse de Deus, já que foi feito à sua "imagem e semelhança". Após censuras e ásperos comentários direcionados por O Apostolo, José Palmella se manifestou contrário à designação de darwinista. Porém, a opinião do periódico sobre o literato português não mudou. Encontrei apenas uma nota anunciando a conferência de Palmella. Consoante O Apostolo, em sua preleção Palmella havia proposto que se trouxessem macacos para a Corte, a fim de substituir a mão-de-obra escrava — proposição que estaria fundamentada na teoria darwinista, já que nela o homem descenderia do macaco.

Vale ressaltar que Edward Tyson (1650-1703), considerado o criador da anatomia comparada, foi o primeiro a estabelecer uma relação de semelhança entre o homem e o macaco, que serviu de inspiração para o evolucionismo darwinista.18 Em sua analogia, os negros e os macacos eram apresentados como criaturas inferiores, inaptas à civilização (Azevedo, 2004, p.119). Nessa perspectiva, a substituição dos escravos negros por símios, proposta por Palmella, aventaria que por meio de uma lógica racial a troca ocorreria entre seres inferiores, porque a eles estava reservado o tipo de trabalho que os brancos não faziam.

O Globo, contudo, teceu comentários elogiosos a Miranda Azevedo. Destacou que as idéias apresentadas pelo médico darwinista eram quase verdades inquestionáveis, pois atestavam a falta de veracidade de outras proposições. Classificou os argumentos de Miranda Azevedo como "fatos revelados", mostrando a importância dada por esse jornal à divulgação do darwinismo. No debate sobre o darwinismo apresentado nas Conferências da Glória, O Globo se posicionou partidário à teoria, por exemplo, ao marcar os "triunfos brilhantes do darwinismo" (O Globo, 29 abr. 1875). O Jornal do Commercio, do mesmo modo, despendeu notas favoráveis a respeito dos argumentos utilizados por Miranda Azevedo, ressaltando o brilhantismo da teoria de Darwin (Jornal do Commercio, 30 abr. 1875).

Frente aos elogios publicados por parte da imprensa, O Apostolo questionou Miranda Azevedo acerca da origem dos seres primitivos que teriam gerado os seres mais complexos, como, por exemplo, o homem. Classificou a teoria como fora dos parâmetros científicos, pois Darwin não conseguira demonstrar a origem desses seres. A necessidade da prova indica que mesmo criticando o discurso científico, O Apostolo fazia uso dele. Como o darwinismo não se apresentava amparado em fatos experimentais conclusivos, não poderia ser considerado digno de confiança.19

Ao continuar as censuras específicas às conferências de Miranda Azevedo, O Apostolo comentou a terceira preleção; respondeu às palavras publicadas por O Globo, considerado pelo periódico católico o maior "defensor da doutrina macaca" e o maior defensor do "chefe darwinista". O Globo afirmou que o orador se achava diante de uma "acusação violenta e apaixonada" professada pela folha católica (O Globo, 29 abr. 1875). O Apostolo destacou que membros de sua redação haviam estado presentes à preleção do médico e, em momento algum, este havia utilizado tais palavras para se referir ao jornal (O Apostolo, 5 maio 1875). Para O Apostolo, não era apenas Miranda Azevedo a grande preocupação, mas também a imprensa, que repetia as idéias apresentadas por ele, pois havia um sistema de adesões nos jornais, no qual a gazeta católica estava praticamente isolada. A insistência de O Apostolo marca o importante papel da imprensa como construtora de opinião, já que era isso o que a publicação pretendia — formar uma opinião pública contrária às idéias darwinistas e, desta maneira, não legitimá-las.

É provável que a crítica de O Apostolo endereçada a O Globo não tenha ocorrido apenas pelo fato de o jornal noticiar de maneira elogiosa as conferências de Miranda Azevedo. Após a primeira preleção do médico, sem apresentar uma relação explicita, O Globo publicou um artigo intitulado "Antropologia. O homem e o macaco" (O Globo, 16 abr. 1875). Ao editar esse texto o jornal sublinhou seu posicionamento em prol das idéias darwinistas, inclusive no tocante à possível descendência símia do homem. Todo o argumento foi construído no intuito de demonstrar que, na realidade, o macaco deveria se envergonhar de possuir parentesco com o homem. Mas não é qualquer homem que era apresentado como inferior, apenas os africanos e os originários das Américas. Mostrava-se, assim, a existência de uma hierarquização do homem. Desde o século XVIII, com as discussões dos filósofos iluministas sobre a igualdade entre os homens, muitos delimitavam uma escala de humanidade, relacionando-a com a origem geográfica e a cor da pele. No século XIX, em especial na segunda metade, esse discurso raciológico se vestiu de argumentos científicos, criando uma atmosfera de verdade inquestionável. Em ambas as perspectivas, classificava-se o homem branco europeu no ápice do desenvolvimento e da civilização, enquanto os americanos e os africanos eram enquadrados em escalas menores e, muitas vezes, comparados aos animais.20

A quarta conferência, intitulada "Os diversos meios de reprodução dos organismos", foi anunciada pelo Jornal do Commercio como a continuação das "interessantes considerações acerca do darwinismo" (Jornal do Commercio, 15 maio 1875, grifo do original), sinalizando que as idéias expostas eram dignas de atenção. Depois disso, O Apostolo ressaltou que nos dias de preleção do médico, a escola pública da Glória se tornava ponto de encontro dos jovens, inclusive das moças; e isso deveria proporcionar grande prazer ao orador, pois, para a publicação católica, ele buscava justamente o reconhecimento do público. Evidenciou que a própria figura do médico era oposta à teoria defendida: "Pois será possível que uma figura tão importante [Miranda Azevedo], que um rapagão tão esbelto e simpático venha em linha reta, diretamente de algum mono de cauda torcida, e de focinho mascarado?!" (O Apostolo, 28 maio 1875, grifos do original).

Com tom de ironia, além de dar a entender que Miranda Azevedo era bem-apessoado, O Apostolo exibiu um dos pontos mais incômodos da teoria darwinista — a possível ascendência macaca do homem. Se o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, conforme afirma a Bíblia, essa origem apontada como corolário da teoria de Darwin se tornava uma questão profundamente problemática para a religião católica.

Ao comentar a quinta conferência do médico darwinista, na qual discorreu sobre o tema "Os embriões", O Globo salientou que Miranda Azevedo não se importou com as críticas publicadas pela imprensa, porque contava com a "simpatia de muitos homens ilustrados e inteligentes", sendo estimulado pelo apoio da "imprensa ilustrada e imparcial" do Rio de Janeiro, na qual O Globo se reconhecia, e de outras províncias (O Globo, 24 jun. 1875). O médico fez uma divisão entre a imprensa tendenciosa, no caso O Apostolo, e a imprensa dita imparcial, categoria na qual inseriu os outros periódicos que o apoiavam. Isto mostra o papel dos jornais como formadores de uma opinião pública partidária ao darwinismo. A parcela da sociedade que concordava com as idéias apresentadas por Miranda Azevedo seria aquela composta de membros "ilustrados e inteligentes", em contrapartida, os que não o apoiavam deveriam ser néscios. Portanto, o estardalhaço feito por O Apostolo era necessário não apenas para provar a problemática da teoria darwinista, mas também para se fixar como imprensa ilustrada.

Sobre a quinta conferência de Miranda Azevedo O Apostolo destacou que para mostrar não ser o único no Brasil adepto da doutrina darwinista, o médico apoiou suas afirmações nas idéias de Charles Frederick Hartt, professor americano presente no país em comissão do governo brasileiro. No entanto, o periódico afirmou que Hartt nunca havia escrito nada relacionado ao darwinismo.

Com o propósito de, por meio da embriologia, provar a tese que sustentou, Miranda Azevedo levou à sua quinta conferência desenhos de embriões humanos e de cachorros, objetivando evidenciar a semelhança estrutural de ambos. Os conhecimentos científicos do período valorizavam a prova empírica das hipóteses sustentadas. Ao buscar demonstrar empiricamente seus argumentos, o médico trouxe as referidas ilustrações. A esse respeito, O Apostolo inicialmente criticou a quantidade de desenhos, insuficiente para ser vista por todo o auditório, a ponto de o próprio Imperador não ter conseguido vê-los direito, tendo de "estender seu imperial pescoço". Considerou o argumento do médico como sofismático, pois o correto seria comparar os organismos em momentos de desenvolvimento posterior àqueles. O jornal enfatizou que, ao final da preleção, o orador havia dito ter todos os seres humanos caudas, e estas eram maiores nas mulheres — ironizou esta afirmação, questionando o modo como a Imperatriz, presente na platéia, poderia ter ficado humilhada (O Apostolo, 25 jun. 1875). O periódico tentou criar uma situação vexatória para Miranda Azevedo perante o poder imperial, sugerindo um desconforto da Imperatriz ao assistir à conferência do médico.

De acordo com O Globo, as ilustrações exibidas por Miranda Azevedo foram extraídas da obra de Haeckel (O Globo, 24 jun. 1875). O emprego dos desenhos desse autor mostra que a acepção que Miranda Azevedo tinha do darwinismo era permeada por outras teorias evolucionistas. Sua aplicação à sociedade também marca a presença do pensamento haeckeliano, que pregava a extensão das idéias biológicas — "a lei biológica de Haeckel, transferida para o mundo social, previa que os povos, durante seu desenvolvimento, recapitulariam a história de outros povos já desenvolvidos" (Gualtieri, 2001, p.45). Para o Jornal do Commercio a utilização dos desenhos foi convincente. Marcando os argumentos de Miranda Azevedo como "interessantes considerações", esse periódico apontou sua concordância com as idéias discorridas pelo médico, e tomou as ilustrações como evidências do darwinismo (Jornal do Commercio, 26 jun. 1875).

A celeuma em torno das idéias darwinistas teve como centro dois pólos, um contrário ao sistema de Darwin, representado por O Apostolo, outro partidário, tendo como figura central Miranda Azevedo e os jornais que se mostravam favoráveis — O Globo, Jornal do Commercio e Diario do Rio de Janeiro. Estes muitas vezes não se expressaram de modo explícito, mas o silêncio ao apenas resumirem as conferências do médico assinala que não eram divergentes.

Mesmo após a temática darwinista ter diminuído nas Conferências da Glória, algumas notas na imprensa contra a teoria foram publicadas. Em novembro de 1878 o Jornal do Commercio publicou o seguinte:

Homens-macacos e macacos homens — Dedicamos aos darwinistas a seguinte explicação da formação da origem, do homem que, segundo informa o Sr. de Froberville numa obra sobre a África oriental, publicada há cerca de quarenta anos, é professada naquelas regiões: "No princípio, o bom Deus 'Mouloukou' fez dois buracos redondos na terra, de um deles saiu um homem e do outro uma mulher. Fez depois mais dois buracos, de onde saiu um casal de monos, a que ele indicou as florestas e os lugares estéreis para viverem. O homem e a mulher foram presenteados por Deus com a terra cultivável, uma enxada, um machado e um prato, uma panela e um milho. Disse-lhes então o bom Deus: '- Cavem a terra, semeiem o milho, construam uma casa e cozinhem a sua comida.' O homem e sua companheira, em vez de obedecerem ao bom Deus, comeram o milho cru, quebraram o prato, encheram a panela de imundície, lançaram para longe os utensílios e foram viver nos bosques. Deus, vendo isto, chamou os monos, deu-lhes o mesmo que tinha dado ao homem e os mandou trabalhar. E eles cavaram a terra, fizeram plantações, edificaram uma casa, cozinharam o milho, lavaram e limparam o prato e a panela. O bom Deus ficou satisfeito. Cortou então a cauda do macaco e da macaca, e pô-la no homem e na mulher. E disse aos primeiros: Sejam homens! E aos segundos: Sejam macacos!" (Jornal do Commercio, 4 nov. 1878)

A parábola foi apresentada a fim de ridicularizar a teoria de Darwin, apresentando o homem como originário do macaco, e este como originário do homem. O homem e a mulher foram descritos como os traidores de Deus, pois o Criador havia lhes dado o melhor local e eles não o souberam aproveitar, optaram por uma vida semelhante à do animal. Por isso foram transformados em macacos, tendo o oposto ocorrido com estes. Interessante observar que o único aspecto questionado foi a possível origem macaca do ser humano, uma vez que não se menciona o papel criador de Deus. Cabe destacar que, durante a polêmica ocasionada pelas conferências de Miranda Azevedo, em momento algum o Jornal do Commercio se posicionou contrário ao darwinismo.

É relevante sublinhar que para atacar a teoria darwinista o artigo tem como base uma lenda criacionista da África, ou seja, se há algum parentesco entre o ser humano e os símios, só poder ser entre estes e um negro africano. Esse tipo de analogia de caráter racista já era feito desde o século XVIII, porém só nos oitocentos ela se revestiu com um discurso científico. Um exemplo que marca isso no pensamento iluminista pode ser observado neste trecho de Voltaire:

A grande questão entre eles [os negros] é se são descendentes dos macacos ou se os macacos descendem deles. Nossos sábios disseram que o homem é a imagem de Deus: eis aqui uma curiosa imagem do Ser eterno, um nariz negro achatado, com pouca ou nenhuma inteligência! Um dia virá sem dúvida onde esses animais saberão cultivar a terra, embelezá-la com casas e jardins e conhecer a rota dos astros: é preciso tempo para tudo.21

Nesse excerto, o negro aparecia retratado como mais próximo dos macacos que dos homens, pois, se ele tivesse sido criado à semelhança de Deus, teria outra fisionomia. Voltaire insinuava que seu nariz era mais similar ao dos símios que ao dos outros seres humanos, leia-se aqui branco e europeu. Outro argumento que ele utilizava para tal era a pouca inteligência que, segundo o autor francês, o negro possuía, distanciando-o ainda mais dos humanos. A dúvida com relação à capacidade do negro de cultivar a terra era a mesma da nota do Jornal do Commercio: essa habilidade era uma das características diferenciadoras entre o homem e os outros animais, logo, questionar a existência de tal competência entre os negros era o mesmo que questionar se eles eram humanos ou não.

 

OUTRAS CONFERÊNCIAS SOBRE O DARWINISMO

A temática do darwinismo também foi abordada por outros oradores nas Conferências Populares da Glória, porém suas preleções não repercutiram e nem geraram a mesma polêmica como as proferidas por Miranda Azevedo. Galdino Emiliano das Neves discorreu sobre a geração espontânea em outubro de 1875. Segundo O Globo, o conferencista dissera que os partidários da teoria da geração espontânea pretendiam mostrar que os seres, animais ou vegetais, nasciam sem um progenitor. Porém, para o orador, a teoria não podia ser considerada científica, porque não havia sido examinada pelo procedimento científico experimental (O Globo, 24 out. 1875). Nesse sentido, o problema central não era crer ou não na hipótese da geração espontânea, mas sim demonstrar ou não experimentalmente o método, ou seja, estar de acordo com os princípios científicos segundo os quais tudo tinha de ser comprovado empiricamente.

A preleção de Galdino das Neves também teve uma apreciação negativa de O Apostolo, que lamentou o desenvolvimento da conferência, criticando o domínio da gramática da língua portuguesa pelo conferencista, que repetira mais de uma vez os mesmos argumentos e frases. Comparou o discurso de Galdino das Neves com o de Palmella, até o momento classificado como o pior de todos apresentados na tribuna da Glória. Questionou o posicionamento do orador em relação à geração espontânea, pois não havia ficado claro na conferência.

Na tribuna da Glória foram realizadas algumas conferências que não tratavam explicitamente do darwinismo, mas perpassavam pelo assunto. Em 1876, ao discorrer sobre a moda e a higiene, Antonio Felicio dos Santos ressaltou: "Prova que a moda nasce da imitação servil, faculdade rudimentária e pueril que torna plausível a hipótese do Símio antropóide, nosso antepassado, segundo Darwin" (Jornal do Commercio, 19 abr. 1876, grifos do original). A fim de sustentar seu argumento, Antonio Felicio dos Santos fez uso da teoria de Darwin. Essa utilização não significava que ele conhecesse de fato a teoria nem que, tampouco, fosse considerado darwinista. Empregar as idéias darwinistas para fundamentar uma proposição aventava que, de certa forma, o darwinismo adquirira alguma credibilidade para aqueles que assistiam à preleção.

Em 1878 o tema do darwinismo pairou novamente nas Conferências Populares com João dos Reis de Souza Dantas Sobrinho, em seu discurso sobre a importância da luta pela existência para a evolução das espécies. De acordo com o Jornal do Commercio, o conferencista argumentou ter sido Darwin quem forneceu à teoria do transformismo a precisão e o valor científicos. Dantas Sobrinho afirmou que o homem realizava uma "seleção artificial" na criação de animais e no cultivo das plantas — "A seleção artificial forma uma verdadeira arte, em que entra até o capricho", e do mesmo modo ocorria a seleção natural. Desta forma, o preletor ressaltou a relevância da herança: "É fato este, o da herança, muito comum, e por isso pouco entendido, mas cuja consagração, e reconhecimento ressalta o refrão popular: 'Quem sai aos seus não degenera'" (Jornal do Commercio, 16 set. 1878). Reiterou a importância da herança e da adaptação. Para Dantas Sobrinho, a luta pela existência aconteceria em todos os seres vivos, inclusive o homem, em razão da falta de alimentos. Friso aqui que havia variações entre as concepções das idéias de Darwin para os conferencistas, mostrando as diferentes ressignificações atribuídas ao darwinismo pelos oradores.

Outros homens de letras contrários à doutrina darwinista conferenciaram. Feliciano Pinheiro Bittencourt, por exemplo, versando sobre o tema discordou das idéias do naturalista inglês. Para o orador era insustentável utilizar a embriologia para mostrar que havia uma similaridade entre os seres (Gazeta de Noticias, 9 nov. 1875). Criticou aí Miranda Azevedo, que utilizava tal argumento para sustentar sua defesa do darwinismo.

Após a repercussão das discussões sobre a teoria de Darwin, apresentadas na tribuna da Glória, o tema também foi exposto em outros espaços, como nas conferências realizadas no Ateneu Acadêmico.22 Miranda Azevedo conferenciou sobre o darwinismo em outros locais, em julho de 1876 discursou no salão do Grande Oriente Unido do Brasil sobre o tema "Das mistificações religiosas perante o estudo das ciências naturais" (O Globo, 28 jul. 1876). Não obstante, essa preleção não obteve tanta repercussão na imprensa como as proferidas na Glória. O fato de ele se apresentar nas conferências organizadas pela maçonaria indica que era membro ou tinha alguma afinidade com ela. Este pode ter sido um dos motivos para as críticas de O Apostolo terem sido constantes.

Por meio do exposto, percebo que a recepção da teoria evolucionista de Darwin na sociedade brasileira do século XIX não ocorreu de forma pacífica. Foi em 1875, após a sua divulgação nas Conferências Populares da Glória, que o darwinismo se tornou importante tema na imprensa da Corte. As idéias darwinistas aí expostas provocaram nos jornais cariocas uma polêmica entre favoráveis e contrários à teoria. Pude observar, por meio da recepção e repercussão dessa nova corrente de pensamento, que ela foi apropriada e reformulada por boa parte dos letrados do Rio de Janeiro.

O cerne da polêmica envolveu O Apostolo, jornal católico que desde o início se mostrou discordante das idéias de Darwin. O grande problema estava no fato de a teoria retirar de Deus o poder na criação da Terra e do homem. A possível origem macaca do homem, apontada como derivativa da hipótese darwinista, também foi motivo de severas críticas, porque era contraditória à Bíblia, que dizia ter sido o homem criado à imagem e semelhança de Deus. Para o jornal, o governo era culpado pela difusão das idéias darwinistas na sociedade brasileira, uma vez que não fazia nada contra as Conferências Populares. Desde a questão religiosa de 1872, as relações entre o Estado e a Igreja estavam cada vez mais tensas, e a propagação do darwinismo era encarada como mais um reflexo dessa crise. Portanto, criticar o darwinismo também era uma maneira de criticar a diminuição do poder da Igreja sobre a organização política do Estado.

Apresentar o darwinismo em um espaço como o das Conferências era estratégico, por elas se caracterizarem como um importante lugar de sociabilidade e que repercutia diretamente nos jornais. Formar uma opinião pública a respeito das idéias darwinistas era o objetivo de alguns dos oradores das Conferências da Glória e de parte da imprensa. Difundir a teoria de Darwin era fundamental, pois ela era científica, moderna e originária da Europa, um local civilizado, onde já estava sendo discutida. Deveria sê-lo aqui também, já que o modelo de civilização seguido pelo Brasil era o europeu.

 

NOTAS

1 MAYR, Ernst. Biologia, ciência única: reflexões sobre a autonomia de uma disciplina científica. Trad. Marcelo Leite. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p.115.         [ Links ]

2 A evolução afirmava que as espécies não seriam constantes, mas passíveis de transformações. Já a descendência comum estava fundamentada na hipótese de que todos os organismos descenderiam de uma espécie ancestral. O gradualismo asseverava que as transformações ocorridas nas espécies ocorriam de maneira gradual, jamais em saltos. Para explicar a gigantesca diversidade biológica, Darwin, por meio da introdução da dimensão geográfica em sua análise, estabeleceu a teoria da multiplicação das espécies. A seleção natural, contrariando explicações sobrenaturais, abordava a maneira como ocorreria a mudança evolutiva, isto é, a remoção natural dos indivíduos menos aptos (MAYR, 2005, p.116-130).

3 GUALTIERI, Regina Cândida Ellero. Evolucionismo e ciência no Brasil: museus, pesquisadores e publicações, 1870-1915. Tese (Doutorado em História) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2001. p.13.         [ Links ]

4 Nessa categoria estão enquadrados políticos, literatos, profissionais liberais, magistrados, estudantes, enfim, o que se poderia chamar de elite intelectual brasileira.

5 Dentre os jornais da grande imprensa por mim pesquisados constam: O Globo, Jornal do Commercio, O Apostolo e O Diario do Rio de Janeiro.

6 CARULA, Karoline. As Conferências Populares da Glória e as discussões do darwinismo na imprensa carioca (1873-1880). Dissertação (Mestrado em História) — Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas. Campinas (SP), 2007.         [ Links ]

7 CID, Maria Rosa Lopes. O aperfeiçoamento do homem por meio da seleção: Miranda Azevedo e a divulgação do darwinismo, no Brasil, na década de 1870. Dissertação (Mestrado em História das Ciências da Saúde) — Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, 2004.         [ Links ]

8 COLLICHIO, Therezinha Alves Pereira. Miranda Azevedo e o darwinismo no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1988.         [ Links ]

9 AZEVEDO, Augusto Cezar de Miranda. Beribéri. Tese apresentada em 3 nov. 1874. Rio de Janeiro: Typographia Academica, 1875. p.3.         [ Links ]

10 Para Roque Barros os darwinistas, assim como os positivistas, almejavam incluir o Brasil em um movimento maior, fazendo-o percorrer o seu caminho, previamente estabelecido, na história universal, visto que esta possuiria leis fatais válidas para qualquer civilização. BARROS, Roque Spencer Maciel de. A ilustração brasileira e a idéia de universidade. São Paulo: Convívio; Edusp, 1986.         [ Links ]

11 Vale ressaltar que, para Jürgen Habermas, o bom senso é a base de apoio para a opinião pública, que permite ao público julgar favoravelmente ou não os acontecimentos, as instituições, as idéias e as pessoas. O autor assevera que para isso o papel da imprensa é fundamental, uma vez que ela é por excelência um meio formador de opinião pública. HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Trad. Flávio R. Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.         [ Links ]

12 AZEVEDO, Augusto Cezar Miranda de. Darwinismo: seu passado, seu presente e seu futuro. Conferencias Populares, Rio de Janeiro: Typ. Imp. e Const. de J. Villeneuve & C., n.4, p.41-63, jan. 1876. p.60.         [ Links ]

13 Nesse sentido, Marco Morel sustenta que a formação de uma opinião pública é necessária para se conseguir legitimidade política. MOREL, Marco. As transformações dos espaços públicos: imprensa, atores políticos e sociabilidades na Cidade Imperial, 1820-1840. São Paulo: Hucitec, 2005.         [ Links ]

14 FERREIRA, Lúcio Menezes. Vestígios de civilização: a arqueologia no Brasil Imperial (1838-1877). Dissertação (Mestrado em História) — Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas. Campinas (SP), 2002.         [ Links ]

15 Collichio categoriza Caminhoá como darwinista que, porém, não desconsiderava o papel criador de Deus (1988). Vale ressaltar que Caminhoá também foi um dos freqüentadores da tribuna da Glória, proferiu duas conferências em 1874 e nove em 1876 (COLLICHIO, 1988).

16 Renato Silveira destaca que: "A ciência tinha ganho contra a Igreja a dura guerra pela prerrogativa de falar a Verdade sobre a natureza e a sociedade, tinha se associado à técnica e à indústria, tinha criado instituições poderosas nas quais produzia-se um discurso que era sinônimo de pertinência e potência". SILVEIRA, Renato. Os selvagens e a massa: papel do racismo científico na montagem da hegemonia ocidental. Afro-Ásia, Salvador: Ed. UFBA, n.23, p.87-144, 2000. p.90.         [ Links ]

17 De acordo com O Globo, de 14 abr. 1875, "prefere [Miranda Azevedo] descender de um quadrúmano aperfeiçoado, do que de um Adão degenerado".

18 POLIAKOV, Léon. O mito ariano: ensaios sobre as fontes do racismo e dos nacionalismos. Trad. Luiz João Gaio. São Paulo: Perspectiva; Edusp, 1974. p.133.         [ Links ]

19 A esse respeito, Martha Abreu assevera: "Agrupando doutrinas das mais diversas matrizes, O Apostolo as via conjuntamente, relacionando-as entre si". ABREU, Martha. O Império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro — 1830 e 1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Fapesp, 1999. p.312.         [ Links ]

20 TODOROV, Tzvetan. Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Trad. Sérgio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.         [ Links ]

21 Voltaire, Lettres d'Annabel. [17--.] (Citado em SILVEIRA, 2000, p.97).

22 O Globo, 7 jul. 1876; Diario do Rio de Janeiro, 7 jul. 1876. Nesse dia o estudante do quarto ano da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Antonio Cerqueira Leite, discutiu o tema em conferência nesse local. A respeito da reverberação dessas preleções não encontrei referência alguma nos jornais que pesquisei.

 

 

Artigo recebido em agosto de 2008.
Aprovado em setembro de 2008.

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