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Revista Brasileira de História

versão On-line ISSN 1806-9347

Rev. Bras. Hist. vol.31 no.62 São Paulo dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01882011000200003 

Maria Yedda Leite Linhares (1921-2011)

 

 

Maria Yedda Leite Linhares foi acima de tudo uma formadora de gente. Sua alegria, a grande satisfação, era ter em seu redor jovens com quem dialogasse – sempre de forma igual, buscando em cada um deles um talento, uma vocação. Em torno de sua sala de aula e de seus gabinetes de pesquisas passaram gerações. A primeira delas com nomes como Arthur e Hugo Weiss, Valentina Rocha Lima, Francisco Falcon e Helena Lewin. A estes se agregou uma segunda turma, formada pelos jovens Ciro Cardoso, Barbara Levy, José Luis Werneck da Silva, Norma Fraga e Berenice Brandão. E então veio a vocação irresistível de participar, de 'viver no mundo', e fazer a mudança: as lutas políticas e sociais tomaram vulto, e assim seria por toda sua vida: luta contra as oligarquias, contra os 'entreguistas', contra as burocracias e as velhas lideranças acadêmicas carcomidas. Sua integral participação nas lutas do seu tempo a levaria, em 1964, a viver a cada dia no coração da crise do Brasil moderno.

Contra todos os conselhos, inclusive do bom senso e sabedoria do dr. José Linhares, ou "o José" simplesmente, ela insistira. Não havia conserto, era da sua natureza. Nascera assim. Lá no Ceará, em 3 de novembro de 1921. Nascera – para usar a expressão do poeta que ela tanto amaria – para ser "gauche na vida". Meninota, contra a vontade dos pais, colocara um imenso laço vermelho nos cabelos para ver a passagem das tropas revolucionárias que adentravam o Calçamento de Messejana para conquistar Fortaleza em 1930. Aí consolidaria sua vocação: rebelde, teimosa, voluntariosa, humana e generosa.

Com a família, seguindo o rastro da crise mundial que derrubara os preços do algodão, mudou-se para Porto Alegre. Lá ficou pouco tempo. Sofreu uma infecção no ouvido, que mais tarde martirizaria sua vida e vaidade. Mudaram-se para o Rio. Aqui, na capital federal, abriram-se o espaço e as redes sociais que permitiriam a Maria Yedda ser a mulher que marcou seu tempo. Autodidata, com uma letra incompreensível, adaptou-se mal ao colégio de freiras, o São Paulo de Ipanema. Estudou ainda mais, em especial português – que se tornou uma obsessão e quase a nos rouba para o jornalismo – e história, naturalmente. Na Maratona de Educação, em 1938, alcançou o primeiro lugar, tendo como prêmio o único livro que jamais emprestou a nenhum de nós: a História Geral, de Varnhagen.

A criação da Universidade do Distrito Federal, a UDF, facilitou sua ascensão ao curso de 'filosofia' – entendida, então, bem mais como um curso humanista para a formação de professores. Lá conheceu os amigos que marcariam sua vida. Com o dr. Anísio Teixeira, uma presença poderosa, apreendeu e acreditou, por toda vida, que somente a educação para todos, laica e pública, mudaria o país. Aí encontrou também seu amigo de vida, Darcy Ribeiro – o que não quer dizer, de forma alguma, que não brigassem como cão e gato. Conviveu como jovem estudante, em sala de aula ou em reuniões e debates, com homens como Hermes Lima, Brochado da Rocha, San Thiago Dantas – todos jovens professores e oponentes da ditadura varguista. Yedda ouvia, apreendia e preparava-se também para participar.

Por fim assistiu à derrocada da UDF, ao golpe do Estado Novo e à prisão de Pedro Ernesto e de seus jovens professores.

Sua excelência em português, já naquele momento conhecida de todos, a aproximou de uma severa senhora americana encarregada da formação de quadros do Dasp. Era a chegada ao Brasil da política de boa vizinhança. Maria Yedda foi para os Estados Unidos, jovem, corajosa e sozinha. Um fenômeno em sua época. Estudou no Barnard College, na Universidade Columbia.

Nada seria igual depois disso. Creio que mesmo o amor e a gratidão que viria a ter pela França não igualariam jamais a admiração pelos Estados Unidos. Sozinha, e precisando viver, tornou-se, ainda uma vez, professora de português para americanos e, depois, em inglês, locutora da rádio universitária.

Travou laços de amizade com uma geração de exilados da guerra civil espanhola, odiou Franco e ouviu os relatos das atrocidades dos fascismos em ascensão. Conheceu a poesia americana e espanhola e a arte deslumbrante de um México insurgente. Amava Lorca. Frequentou o Radio City Hall e apaixonou-se pelo jovem Frank Sinatra. O inglês tornou-se uma língua fluente, na qual amava dizer poesias. Todas modernas, nunca amou Shakespeare, mas ficaria para sempre fascinada pela sonoridade de Walt Whitman.

Então veio a guerra e a decisão de voltar ao Brasil. Três dias de avião, porto por porto, até mesmo no Caribe, com o piloto perseguindo um submarino alemão. O Rio mudara, o Brasil se cansava da ditadura nativa. Voltava para a universidade, agora a Universidade do Brasil, com a FnFi, a gloriosa universidade da qual seria a mais jovem mulher catedrática. 

Travava amizade com Delgado de Carvalho, o decano da história moderna e contemporânea. Mais do que tudo: conhecia José, jovem rábula, que a traria, ainda mais, para o coração da crise, casando-se e convivendo com os atores do poder. Data daí a amizade e o respeito por Alzira Vargas – o que importava que fosse oposição, tratava-se de "Alzirinha", tão somente. Jamais esqueceria a desobediência do comandante Amaral Peixoto, o pai da nossa "França Livre", Niterói!

Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do "Departamento Cultural": amava o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e os debates. Talvez fosse sempre disso que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. Múltiplo. Formou frente das manifestações pela entrada do Brasil na guerra mundial, contra todos os fascismos. Lá estava ela – foto memorável –, na primeira fila, de braços com Marighella! O escritório da Reuters, na Cinelândia, tornar-se-ia seu próprio escritório, onde lia em primeira mão os telegramas que relatavam a guerra – creio que aí, a política internacional e a história contemporânea afloraram como uma vocação. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu coração, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com João Saldanha à frente, seriam parceiros de caminhadas na então estreita calçada de Copacabana.

O casamento deveria ter equilibrado sua vocação revolucionária; creio, contudo, que foi o dr. José que se acostumou a viver aos sobressaltos. Calmo, observador sagaz, ele aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: "Minha filha, não diga nada, espere para ouvir...". Inútil, Yedda não era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na direção certa, guiada por seu instinto contrário a toda injustiça. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.

Do casamento teve Maria Teresa, "Teca", e José, "Zequinha". Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles. Uma das maiores revoltas foi vê-los envolvidos na insidiosa e malsã campanha da imprensa golpista nos idos de março de 1964. Creio também que ambos pagaram algum preço – o preço de serem filhos de Yedda, o preço das horas roubadas, o preço de partilhá-la com todos nós, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perdão por isso, perdão por tê-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presença de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irmã.

Na casa, a velha Virgínia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, incluindo o insistente Falcon.

Vieram os concursos, provas, cerimônias, becas e arminhos. Substituiria Delgado de Carvalho como catedrática: foi o dia em que mais chorou na vida. Não queria a cátedra, ao menos não queria 'aquela cátedra' – lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.

Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o chão fugidio. Yedda namorava o PCBR, respeitava e ouvia Apolônio de Carvalho, tinha Renée como amiga. Apoiara o ministro da Educação, assumia a direção da Rádio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer. Ao seu lado estaria como fiel escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de protegê-la, inclusive dela mesma.

Usou o espaço da Rádio MEC para fazer cultura, afastou-se do ambiente malsão da FnFi daqueles dias. Adorava as óperas e a música erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. Só detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na própria rádio. Novos rostos a rodeavam, em especial Alberto Coelho, amigo que seria um consolo e uma fonte permanente de atualização e de novidades.

Então veio o pior: as "forças alarmadas", como dizia "o José", tomaram o poder. A "Revolução Brasileira em curso", como diziam os amigos do Iseb, era feita de papel. Yedda colocaria a rádio em "campanha pela legalidade". As consequências seriam terríveis. Prisões, cassações, aposentadorias compulsórias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na mídia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.

Queria proteger amigos – advertia Falcon, em razão do projeto da história nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim estaria à frente da resistência. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil – Vladimir, Gabeira e Jean Marc estariam lá. Enfim, o ar tornou-se irrespirável. As prisões se sucederam... Tirada do hospital, foi levada para o 1º RCC. Era hora de partir. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.

O exílio seria na França. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso e todos que lá estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolomé Bennassar a aceitariam com carinho e respeito. Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: desde logo Albert Soboul e o amigo Frédéric Mauro.

Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patrícia, a primeira neta, seriam limite: queria voltar. Forçava seu retorno, antes do decreto da anistia, em 1976. A pressão seria tremenda, obrigando-a a um exílio interno, em Vassouras, e impossibilitando toda pesquisa e docência em entidades públicas.

Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, onde abriria o campo de estudos da história agrária, depois a UFF – ao lado de Eulália Lobo e de Aidyl Preis – e, enfim, o retorno para casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova geração, da qual João Fragoso e Hebe Mattos são os mais amados.

Enfim a redemocratização: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro é a secretária municipal de Educação, depois, por duas vezes, secretária estadual de Educação. Então, ao lado de Darcy Ribeiro, lançariam mão da herança do dr. Anísio Teixeira. Os Cieps, brizolões – a mais generosa e igualitária proposta de educação que o país produziu – são, em verdade, a versão moderna da escola-parque.

Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia Kamache, Silas – todos embalados pelo mesmo sonho: "A educação para todos, pública, laica e de qualidade". Ao seu lado, como amparo, crítico e amigo, teria a presença permanente de Paulo Sérgio Duarte, mais um filho muito amado. "Escolas, escolas para todos" seria a chave de construção de um Brasil melhor.

Isto é um pouco de Maria Yedda, só um pouco, porque tão poucas pessoas conseguiram em uma só vida viver tanto. Hoje não estou triste, não quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembrança, um título de Pablo Neruda: "confesso que vivi"!

 

Francisco Carlos Teixeira da Silva
Universidade do Brasil