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Revista Brasileira de História

On-line version ISSN 1806-9347

Rev. Bras. Hist. vol.31 no.62 São Paulo Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01882011000200012 

ARTIGOS

 

Televisão e política: o mito Tancredo Neves entre a morte, o legado e a redenção1

 

Television and politics: the myth of Tancredo Neves, between death, legacy and redemption

 

 

Cássia Rita Louro Palha

Professora Adjunta, Universidade Federal de São João del-Rei, Campus Dom Bosco, Praça Dom Helvécio, 74, Fábricas, 36301-160 São João Del-Rei – MG – Brasil, E-mial: palha17@gmail.com

 

 


RESUMO

O artigo aborda a produção cultural da televisão brasileira, em especial da Rede Globo de Televisão e de seu telejornalístico Globo Repórter no desaguar da chamada 'abertura política', tendo como mote a veiculação da imagem política de Tancredo de Almeida Neves e os processos de construção simbólica que envolveram a sua mitificação. Num contexto marcado pelo 'transformismo político', a pesquisa enfoca a centralidade da mídia eletrônica como elo de contato entre a sociedade civil e a sociedade política e como privilegiado 'lugar de memória' da cultura nacional, ajudando a urdir sentidos em torno de imagens políticas e de certa concepção de história.

Palavras-chave: política; mitificação; televisão brasileira.


ABSTRACT

This paper discusses the cultural production of Brazilian television focusing in particular on Globo Network, a television network, and one of its programs called Globo Repórter, a weekly documentary show, concentrating on the rise of so-called 'political opening,' adopting as a guide the diffusion of the political image of Tancredo de Almeida Neves, as well as symbolic construction processes which involved his mythification. Against a context of 'political transformation,' this research focuses on the centrality of electronic media as a link between civil and political society and as a crucial 'place of memory' of national culture, helping to make sense of political images and a certain conception of history.

Keywords: politics; myth; Brazilian television.


 

 

Embora toda imagem política mitificada seja constantemente reatualizada na arena da disputa simbólica sob a forma de múltiplas ressonâncias e significações – basta lembrar como a imagem de Getúlio Vargas é utilizada pelas mais divergentes correntes partidárias possíveis –, é plausível dizer que as construções em seu entorno obedecem a uma arquitetura narrativa cujos traços se fundamentam numa ordenação praticamente orgânica.2

No ano em que se comemoram o centenário do nascimento e os 25 anos da morte do político mineiro Tancredo de Almeida Neves, o presente texto tem por intento abordar as construções simbólicas em torno de sua imagem nas mensagens veiculadas pela mídia nacional no desaguar da transição política do país e, especificamente, através da análise do programa Globo Repórter, da Rede Globo de Televisão.

Entendendo o período em questão a partir do que Gramsci denominou de "transformismo político",3 a transição conservadora que se seguiu rearticulando os grupos dominantes e garantindo a acumulação caminhou paralelamente ao movimento de consolidação de uma cultura midiática dentro do país, mormente em relação à hegemonia da Rede Globo de Televisão e de seu telejornalismo.

Para além das inovações tecnológicas em sua estrutura de produção, o telejornalismo da emissora se bifurcou no início da década de 1980 entre os programas de rede e os locais, intensificando o diálogo entre as afiliadas e a Central Globo de Jornalismo, integrando assim o público brasileiro a uma indústria da notícia de caráter ainda mais abrangente, através de formatos narrativos baseados na figura central de apresentadores e repórteres, verdadeiros "porta-vozes" de uma "comunidade imaginada" em bases eletrônicas.4 Com uma deliberada omissão na cobertura da participação dos diversos setores da sociedade civil junto ao processo político daquele momento,5 a programação da emissora seguiu no apoio ao processo eleitoral indireto urdindo sentidos em torno da imagem e posteriormente da mitificação política de Tancredo Neves, mediando pelas telas o espaço mais imediato de contato entre sociedade política e sociedade civil. Um espaço privilegiado de formação da opinião pública em suas muitas trocas e ressignificações simbólicas e, sobretudo, de produção de determinada memória nacional, num país que se habituava cada vez mais a se 're-conhecer' pela televisão.

Para o telejornalístico Globo Repórter, o conjunto de programas especiais sobre o político mineiro (num total de cinco entre 17 de janeiro e 15 de agosto de 1985) representou um divisor de águas em um contexto de transição interna de seus profissionais, de seu formato e sua linguagem. O logotipo do Globo Repórter foi visto pela primeira vez em abril de 1973, como desdobramento do projeto de uma série de 24 programas patrocinados pela empresa Shell, sob a direção geral de Paulo Gil Soares, o Globo Shell Especial. O programa com veiculação mensal no horário das 23 horas mostrou-se um sucesso de crítica e público, para pouco tempo depois dar forma ao Globo Repórter. Composto inicialmente por uma equipe de cineastas e profissionais que na década de 1950 para além do Cinema Novo possuía laços estreitos com os Centros Populares de Cultura (CPCs), partidos e organizações políticas de esquerda (Eduardo Coutinho, João Batista de Andrade, Renato Tapajós, Hermano Penna, Maurice Capovilla e Walter Lima Jr., dentre outros), o programa em sua primeira década imprimiu apesar de toda censura (interna e externa) um tom diferenciado frente ao telejornalismo da emissora. Organizado em equipes pequenas e trabalhando de forma isolada do setor jornalístico da Rede Globo – apesar da submissão desde 1974 ao Departamento de Jornalismo, na figura de seu diretor Armando Nogueira –, esse primeiro grupo produziu obras de caráter autoral cuja linguagem optou pela quebra de regras, inovando formas e conteúdos e ainda levantando polêmicas. Trouxe a influência do cinema documentário para as telas eletrônicas, exibindo não raro uma representação do Brasil e de suas gentes que destoava dos padrões de estética da própria emissora e de seu 'padrão de qualidade'. Já na virada para a década de 1980, paralelamente aos desdobramentos da transição política, a emissora se fechou, e apesar de novas produções do momento evidenciarem uma maior crítica social (como Carga Pesada e Malu Mulher), os programas jornalísticos sofreram severa censura. Dentre os muitos programas do Globo Repórter arquivados sem nunca terem ido ao ar e entre as muitas histórias relatadas sobre os cortes da censura, destaco aquele que seria exibido na semana do dia 19 de abril de 1982, em comemoração ao aniversário de Getúlio Vargas. Eduardo Coutinho relatou-me essa produção como um momento expressivo, no qual chegou a gravar uma entrevista com Tancredo Neves:

O primeiro programa que nós fizemos sobre o Getúlio Vargas ficou um material muito bom. Eu inclusive fiz uma entrevista com o Tancredo Neves. Você imagina o que era isso naquele momento político, e eu fui com sede ao pote, entrevistá-lo. Mas evidentemente que Tancredo não me disse nada que comprometesse o regime ou a situação em si, claro! Ele já era uma figura em quem estavam apostando para essa transição, e enquanto eu estava pensando no fubá, o Tancredo já tinha feito o angu e voltado duas vezes ... Tanto é que isso não foi o problema. Algum tempo depois nós fizemos outro programa, também sobre Getúlio, e aproveitamos parte desse material, e no fim do programa foi preparada a carta testamento do Getúlio. E aí o negócio não foi pra frente. Eu estava ao lado do Paulo Gil quando o telefone tocou. Era o dr. Roberto Marinho. Eu obviamente não ouvi o que ele estava falando com o Paulo Gil, mas pela tentativa do Gil de contornar a situação, eu já sabia que o programa não iria ao ar daquele jeito.6

Paulo Gil, até então diretor geral do programa, contou parte dessa mesma história e de sua tentativa de negociar com o próprio Roberto Marinho: "Dr. Roberto, essa carta hoje é apenas histórica. Se nem na época ela causou maiores rebuliços, por que causaria agora?". No que obteve a resposta: "Meu filho, ela não vai causar nenhum rebuliço. Getúlio está morto, mas há ainda muita gente viva a quem ela incomoda. Muito obrigado por pedir conselhos".7 Para além das implicações dos 'lugares de fala' dos sujeitos envolvidos, é importante salientar que esse episódio aconteceu em 1982, depois de a carta testamento ter ido ao ar em outro programa dois anos antes, sem nenhum problema. Estava em jogo nesse momento o processo das eleições estaduais, nas quais concorria pelo Rio de Janeiro o trabalhista Leonel Brizola, que acabou sendo vitimado na tentativa ainda que malsucedida de fraude eleitoral da qual a Rede Globo seria acusada mais tarde, como cúmplice em sua ligação com a agência Proconsult.

Após sucessivos desgastes entre a Central Globo de Jornalismo e a direção geral do programa e sua equipe o Globo Repórter se modificou. Assumindo uma forma próxima do modelo americano de 'jornalismo espetáculo', passou a adotar uma linha editorial em sintonia fina tanto com pautas políticas mais verticalizadas com o posicionamento político da emissora quanto com temas de variedades,8 apresentando ainda uma linguagem telejornalística mais padronizada, acompanhando e ao mesmo passo direcionando a ampliação de seu público alvo. Sua equipe foi trocada e passou a agregar jornalistas de formação cujos nomes até hoje fazem parte do telejornalismo nacional, como Jorge Pontual, Ernesto Paglia, Caco Barcelos, Carlos Nascimento, Ilze Scamparini, Sandra Passarinho, Marcelo Rezende, Carlos Dorneles e Sílvia Sayão. Respeitando os limites que envolvem os objetivos do presente texto, limito-me a afirmar que as mudanças internas da produção do Globo Repórter estiveram ligadas a meandros de disputas e interesses entre seus sujeitos, bem como à política de reestruturação da Central Globo de Jornalismo e dos seus estreitos diálogos com a cena política nacional, na figura de seu presidente Roberto Marinho.

Importante aqui ressaltar é o quanto essa nova configuração do programa e em especial as produções realizadas em torno do perfil de Tancredo Neves abriram uma perspectiva singular de contato com o público naquele contexto. Um perfil em muito devedor da fusão das narrativas do espetáculo com o melodrama, cujo roteiro analiso a seguir a partir dos 'capítulos' da morte, do martírio e da redenção.

 

A morte: o "homem providencial" e Tiradentes

O programa veiculado pelo Globo Repórter logo após sua morte (Tancredo Especial, de 24 de abril de 1985)9 definiu a construção do perfil de Tancredo Neves de forma a torná-lo memorável para a história política nacional, dotando a figura do político de características de uma autoridade tutelar da nação. Tal como propõe Girardet, a imagem veiculada em muito se aproximou do "homem providencial", aquele político que se afirma a partir de uma "ruptura dos tempos" (Girardet, 1987). Nessa direção, a imagem de Tancredo Neves foi associada ao legado simbólico de Tiradentes, ambos instaurando em momentos distintos um sentido de limiar da liberdade de uma nova nação.

A locução de abertura do programa já denota essa perspectiva, na voz de Eliakim Araújo:

Esta noite, quando a histórica São João del-Rei enterrou o seu presidente, reuniu num só destino dois filhos ilustres de seu chão: Tancredo de Almeida Neves e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, patrono cívico da nação brasileira.

Nesse instante, as imagens focam de baixo para cima a estátua de Tiradentes, criando um sentido de imponência e amparo paternal. O relato continua, e para além do mesmo torrão é feita a segunda analogia:

Joaquim José da Silva Xavier, o mártir da Independência, nasceu em Pombal, que pertencia a São João del-Rei, em 1746. Foi também a São João del-Rei, quatro anos após a morte de Tiradentes, que chegava o alferes José Antônio das Neves, trisavô de Tancredo Neves.

A partir dessa tomada, direto de Ouro Preto o repórter Ronald de Carvalho prossegue com a narrativa, construindo elos de intimidade do líder com o espectador. São relatos sobre a 'mineiridade' de Tiradentes, homem bem-humorado, famoso por ser um exímio contador de 'causos', alguém que conhecia os segredos da mineralogia, que tinha sido comerciante, tropeiro, vigilante de estradas por onde passava o ouro das Minas Gerais. De dentro da Casa dos Contos o repórter começa então a descrever o movimento dos inconfidentes, encenando o tempo histórico da Vila Rica do século XVIII:

Vila Rica das Minas Gerais. Daqui saíram toneladas de ouro para o rei de Portugal ... Em silêncio, os brasileiros se organizavam para dar o seu grito de liberdade ... Uma Inconfidência que se fazia pelas ruas das Minas Gerais.

Junto às palavras do repórter, as imagens constroem sentido com câmeras em traveling percorrendo solitárias as vielas estreitas de pedra da cidade histórica em meio às sombras do casario escondido pela forte neblina da madrugada. A trilha sonora escolhida é Coração de estudante, porém, ouve-se apenas a voz de Milton Nascimento pronunciando a palavra 'coração' compassadas vezes, em tom dramatizado, como numa ladainha religiosa. Um clima de suspense paira na fronteira entre a reconstituição das cenas históricas e o apelo quase fúnebre da música.

Na sequência, a tomada segue descrevendo as reuniões dos inconfidentes e o lugar 'predestinado' de Tiradentes junto ao movimento. Nesse momento, a terceira referência a Tancredo Neves e agora diretamente à própria transição política:

Mesmo entre aqueles que lutavam pela liberdade, havia traidores ... As reuniões dos inconfidentes corriam perigo. Quinze de março de 1789, uma madrugada em que Tiradentes foi denunciado...

Mais à frente Eliakim Araújo, em off, narra em meio a imagens do Congresso Nacional em festa:

Foi também num quinze de março, 196 anos depois de Tiradentes ter sido traído, que o presidente Tancredo Neves tomaria posse na Presidência do Brasil. Vitória de uma vocação política. Tancredo Neves, um homem de missões.

Aqui, a referência à traição é o mote para a ressignificação do inimigo enfrentado por Tancredo: a própria ditadura militar. A indicação explícita desse inimigo está em estreita relação com a construção da imagem do líder político, que comporta a encarnação de algumas necessidades psicológicas condicionadas por uma situação conjuntural historicamente definida. Como sugere Girardet, o mito político tende a sustentar-se como resposta a uma forma de expectativa popular, a "certo tipo de exigência" (Girardet, 1987, p.82). Nessa direção, a afirmação do mito político tende a recorrer à projeção de sentimentos hostis em direção a um regime, uma instituição ou figura transformada em referência daquilo que pode ser coletivamente abominado (basta lembrar a luta dos americanos contra os terroristas e anteriormente contra os comunistas, destes contra os imperialistas, de Hitler contra os judeus...), operacionalizando-se a partir da dimensão complementar de seu oposto. Para Ferrés, trata-se da utilização do estereótipo negativo como inversão dos processos através dos quais a sedução pelo mito passa a ser mais facilmente lida e aceita.10

Carvalho ao analisar o período militar brasileiro, por exemplo, trabalhando com a mídia impressa antes da promulgação do AI-5, mostra como de dentro do regime tanto situacionistas quanto oposicionistas se utilizaram da figura do próprio Tiradentes como catalisador de um imaginário anticomunista. A mesma estrutura dual destacada na fonte citada – tanto na comparação diretiva de distintos momentos históricos quanto na luta do herói contra o inimigo – pode ser encontrada nos registros analisados pela autora, que aborda a centralidade do inconfidente em discursos que o edificaram como o herói que vestindo a 'mesma farda militar' lutou pela liberdade da nação frente ao imperialismo soviético. Assim, a inspiração do que foi denominado como 'revolução' de 1964 estaria ligada à lição deixada pelo passado de Minas Gerais e em especial a certa 'linhagem mineira'.11

Em nosso contexto, com o aborto das "Diretas já" e os desdobramentos do pacto conservador da transição, garantiu-se a correção dos rumos criando-se em contraponto, como afirma Novais, a ilusão de que os graves problemas nacionais se deviam apenas à ditadura militar.12 Ao longo dos blocos do programa, é na luta por esse inimigo que Tancredo Neves como representante de tal 'linhagem mineira' se afasta do campo do ordinário em direção ao coroamento de sua capacidade heroica de sublimação pelo coletivo em sintonia com a imagem de Tiradentes. A referência ao 'inimigo ditadura' é certeira e frisada na locução de Eliakim:

o gesto mais simbólico de sua coerência política, foi o de ter sido o único parlamentar do PSD que não votou para a indicação do coronel Castelo Branco para a presidência em 1964.

Já na terceira parte do programa, a imagem do quadro Tiradentes esquartejado do pintor Pedro Américo (obra integrante do Museu Mariano Procópio, de Juiz de Fora, MG) ocupa as telas. A narração em off sentencia e complementa o apelo imagético do esquartejamento de Tiradentes em sua ligação simbólica com o universo católico do calvário cristão, ao mesmo tempo em que constrói novamente a analogia com Tancredo:

De todos os inconfidentes, só Tiradentes foi executado. Vinte e um de abril de 1792 ... do corpo de Tiradentes não restou nada, ele foi dividido em pedaços e exibido pelas cidades do país como exemplo a todos que quisessem a liberdade. Dez e meia da noite de 21 de abril de 1985. O martirizado corpo do presidente Tancredo Neves não aguenta mais.

Primeiramente, é necessário frisar a força simbólica consolidada no imaginário popular seja junto às datas e fatos históricos construídos oficialmente como efemérides, como é o caso da Inconfidência Mineira e em particular de Tiradentes, seja à referência religiosa de Jesus Cristo. Bretas (et al.) abordando no calor dos eventos da transição a ênfase dada pela mídia às figuras de Tiradentes e Jesus Cristo, apoia-se em Laclau para enfatizar o quanto tais elementos presentes nas tradições populares – e que em princípio são utilizados como formas de se reforçar 'a ordem e o estabelecido' – não ficaram circunscritos à sua moldura 'conservadora', estabelecendo em alguma medida um limiar de transgressão à mesma perspectiva que evocavam. Nesse sentido, as autoras citam a figura de um Tiradentes que subsistia ao lado do 'homem popular em sua luta contra a tirania' e do Cristo da 'Igreja faustosa e rica' que convivia nas reportagens com o Cristo dos pobres e oprimidos da Teologia da Libertação, assim como aquele dos crentes e umbandistas.13

Marcelino, por sua vez, vai destacar essa cobertura midiática – em que a população foi enfaticamente veiculada orando e se penitenciando pelo político durante sua doença e internação – com base na lógica da construção do discurso de um 'ecumenismo natural', que ao mesmo tempo em que apresentava uma nação sem conflitos religiosos convergia sentidos para a máxima de uma 'unidade indivisa de apoio a Tancredo'. Tanto Marcelino quanto Barbosa, que em suas pesquisas abordaram os noticiários do Jornal Nacional, ressaltam o quanto a veiculação da fragilidade do corpo de Tancredo Neves, igualando-o ao 'homem do povo', acentuava sua heroicização no âmbito de uma mídia que estabelecia seu fluxo cada vez mais a partir da comoção nacional, dos registros de dor e de fé em tons de dramaticidade.14

Embora os especiais do Globo Repórter envolvendo a comoção popular ao longo da doença do político sejam anteriores ao recorte escolhido para este artigo, essa perspectiva de maior dramaticidade ao 'calvário' de Tancredo Neves prossegue no programa aqui analisado, quando o telejornalístico reprisa parte de seu discurso feito em 21 de abril de 1984, em Ouro Preto. Comunicando aos espectadores que com base nesse discurso e no Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, o programa homenageia Tancredo Neves, a locução de Eliakim Araújo explica que se fará uma encenação com os atores Mário Lago e Rodrigo Santiago: um diálogo imaginário entre o próprio Tancredo e Tiradentes. Reproduzo aqui parte do diálogo interpretado pelos atores. O cenário é simples, duas cadeiras colocadas frente a frente, com a luminosidade centrada nos atores. Eles estão sentados com as costas apoiadas no espaldar, vestindo roupas modestas em tom pastel. A ênfase da tomada é a expressividade dramatúrgica dada à própria retórica. Mário Lago assume a fala de Tiradentes, e Rodrigo Santiago, a de Tancredo Neves:

Tiradentes: Vim trabalhar para todos, mas para mim, quem trabalha? Tombado fica o meu corpo nesta esquecida batalha ... Por onde a glória se espalha?

Tancredo Neves: Tiradentes, o teu holocausto não foi um gesto dramático e inútil. Nós nos tornaremos dignos de honrarmos a tua memória e viver pelos teus ideais. Não se apaga do coração do povo a fé que lhe incutiste ...

Tiradentes: Que fizeste da pátria pela qual sonhei? Pela qual fui enxovalhado no corpo e na alma?

Tancredo Neves: Apesar de tudo, aqui está, íntegra. A pátria que fizemos sob os alicerces do teu sangue ... A tua luta consagrou o sentido permanente da luta: "Liberdade ainda que tardia". Se quisermos, faremos do Brasil uma grande nação.

Logo após o tom redentor da encenação, as imagens que se seguem resumem o intento: há a fusão do rosto de Tancredo com a estátua do inconfidente, na identificação da 'linhagem mineira'. Uma mensagem que converge para todo um conjunto de discursos proferidos pelo próprio Tancredo Neves durante o processo de transição: a unidade da nação surge como subproduto da conciliação mineira, do espírito de tradição e da liberdade herdados das Minas Gerais. Para tanto, o tributo do sacrifício de seus filhos, que seriam os autênticos portadores dos ideais capazes de fazer da pátria 'uma grande nação'.

 

O legado: a conciliação

Ao recuperar a análise que Nietzsche faz do exercício do sacerdócio, Bourdieu mostra o apelo seminal que a noção de sacrifício ou 'abnegação pessoal' exerce na construção/legitimação da figura do mandatário: "É quando me torno Nada – e porque sou capaz de me tornar Nada – de me anular, de me esquecer, de me sacrificar, de me dedicar – que me torno Tudo".15 Ao recuperar a imagem do inconfidente que dá sua vida pelo país, a morte de Tancredo e sua martirização por semanas acompanhada e 're-atualizada' pelas telas eletrônicas tem fim no acabamento de referenciação desse político que se torna 'Tudo', a partir do último grau da abnegação pessoal possível. Em outras palavras, com a morte temos o elemento final na construção do herói: ele se torna mito.

As tomadas seguintes se desenvolvem exatamente a partir desse ponto. O apresentador, até então com expressão reservada, muda de fisionomia e num tom de renovado ânimo afirma:

O Brasil viu nascer um novo herói popular: Tancredo Neves! Nas escolas, as crianças agora já sabem: dia 21 de abril é o dia de dois heróis da liberdade: Tiradentes e Tancredo Neves.

Imediatamente após essa chamada, abre-se uma longa cobertura na Escola Parque do Rio de Janeiro, esquadrinhando as brincadeiras do recreio, os cantos cívicos, os corredores e o interior das salas de aula, onde depoimentos são colhidos em meio à espontaneidade tipicamente infantil, reforçando de várias maneiras a construção do novo herói do panteão nacional, entre eles:

Tancredo foi um político que teve vários postos, mas não conseguiu completar nenhum. Aí quando ele conseguiu ser presidente da República, ele teve que fazer muitas operações, sofreu e não resistiu e morreu.

Interessante notar a ênfase na noção do martírio e da morte do político. Nessa mesma direção, três anos mais tarde, o historiador Paulo Miceli, pesquisando na área de Ensino de História a força simbólica dos heróis, constataria o peso angariado por Tancredo Neves naquele momento: em seu levantamento, o mineiro empatou com Pedro II na preferência dos alunos, apesar de perder a dianteira exatamente para Tiradentes. Em sua conclusão:

O empate entre um dos mais venerados heróis nacionais e um político da atualidade pode, à primeira vista, até surpreender, mas existe uma razão evidente para isso: na atualidade, quem desempenha o antigo papel da história na criação do acontecimento são os meios de comunicação, e a mitificação de Tancredo Neves se deveu diretamente à TV ... As crianças tentam explicar a partir principalmente da imagem do martírio e do desfecho fatal, um dos mais fortes apelos de todas as crenças: ele lutou por uma Nova República, democrática, e por ela morreu antes de ocupar o cargo.16

Voltando ao programa e ao pensamento de Bourdieu, pode-se dizer que tal apelo ao 'desfecho fatal' potencializado pela televisão, como citado, ganha nos desdobramentos da narrativa a configuração daquilo que o teórico chama de 'efeito de oráculo'. Vejamos: em plano médio, com um fundo azul de cenário, o psicanalista Hélio Pellegrino dá seu depoimento para as câmeras. Mais que isso, empresta a credibilidade de seu lugar de especialista a essa imperativa argumentação:

Tancredo e Tiradentes são mitos. Tancredo e Tiradentes são pais da Pátria autênticos. Tancredo e Tiradentes são heróis. O herói é todo aquele que morre por uma causa nobre, e, morrendo por uma causa nobre, ele realiza um valor de vida que transcende a morte. Ele realiza e encarna essa utopia que é tão velha quanto o homem: a vitória da vida sobre a morte.

Logo após esse texto, o apresentador segue em off, com imagens de Tancredo discursando no Colégio Eleitoral: "Mas Tancredo Neves antes de virar mito, construiu por cinquenta anos uma carreira política. Desses anos ele deixa ao país várias lições". A tomada então prossegue selecionando recortes do discurso feito no dia de sua vitória. Dentre eles, reiteradamente se veicula o apelo da conciliação. Na voz de Eliakim: "Sempre que pôde, Tancredo Neves se definiu como defensor da conciliação. Ele achava que o Brasil devia seguir essa lição". Nesse momento, as imagens abrem uma chamada de fixação. Ao lado, a mesa central do Congresso e em letras garrafais, a palavra em destaque: "conciliação". Como fundo sonoro, o Hino Nacional ao piano. Após a chamada, Tancredo aparece novamente discursando:

Se o Brasil souber conter as suas posições de radicalismo que levam a confrontos desiguais e funestos, se colocarem as aspirações nacionais acima dos interesses sectários ou das ambições personalistas...

O bloco seguinte segue aliando a perspectiva da conciliação com a 'missão' do político em promover mudanças, as quais deveriam ser antes de tudo amparadas legalmente, o que implicaria uma reorganização institucional do Estado: "Vim para promover as mudanças, mudanças políticas, mudanças econômicas, mudanças sociais, mudanças culturais...". Nota-se que esses momentos narrativos se complementam. A argumentação da retórica do psicanalista deixa claro – até na imposição verbal de que se utiliza – que o mito existe e se eterniza ao vencer a morte, enquanto o apresentador enfoca o sentido dessa vitória pelas lições deixadas pelo mito. É por intermédio delas que o mito vive. É por meio delas que são canonizados símbolos capazes de torná-lo operante diante de determinada conjuntura. É nessa direção que o mito ganha o contorno do 'efeito de oráculo': "a pessoa individual, o eu, anula-se em proveito de uma pessoa moral transcendente" (Bourdieu, 1990, p.196-197). Em outras palavras, o mito político torna-se referência de valores universais, tornando-se sagrado e podendo ser acionado em circunstâncias históricas distintas, ressignificando-se no tempo e no espaço da arena de interesses em que é convocado, encerrando o que Rüsen denomina de constituição exemplar de sentido histórico.17

E na condição de porta-voz do povo ele produz, simultaneamente, a mensagem e o deciframento da mensagem. O que Bourdieu chama de uma forma geral dentro do campo político de 'ventriloquia usurpadora': o povo é, sente e quer aquilo que seu representante diz ser, sentir e querer (Bourdieu, 1990). Nessa perspectiva, a ênfase no primado da conciliação como valor da vida política de Tancredo Neves tende a ser agregada na construção midiática de uma dada 'memória nacional' desse período como um valor universal, aceito e manifesto pela própria nação. Lembrando que, tanto na abordagem dada aos programas aqui analisados quanto nos discursos proferidos pelo político em sua carreira, o conceito de conciliação aparece ligado a uma perspectiva missionária e sempre pragmática, ativa, tentando por sua vez libertá-lo de uma possível associação à ideia de conformismo. Em suas palavras: "Uma coisa é ser conciliador, outra é ser conformista. E o mineiro sendo um conciliador, foi sempre um revolucionário. Todas as revoluções do Brasil partiram de Minas, desde Tiradentes até 1964". O sentido mais amplo do legado do político mineiro veiculado pelas telas segue exatamente nessa direção: o princípio da conciliação/moderação pragmática como elemento fundamental e provedor da ordem e do equilíbrio social frente aos então chamados "interesses sectários e radicais". Leia-se: frente a partidos, grupos e sujeitos sociais de esquerda que não fariam parte do bloco dominante e do projeto político-social que então se iniciaria a partir da proclamada "Nova República". Duarte, que analisou entre 1982 e 1985 o discurso da revista Veja, demonstra nesse sentido o quanto a apologia da 'conciliação' caminhou pari passu a criação de uma imagem atemorizante da esquerda num contexto discursivo onde o caos econômico e social imperava.18

A parte final do programa traz no contraponto mais racionalizado da lição a ser apreendida através do mito uma forte referência de apelo sentimental. São resgatadas as imagens do velório e do enterro de Tancredo Neves, que foram acompanhados pela emissora em tempo real. Abro um parêntese, neste momento, para o depoimento de Carlos Nascimento ao Memorial Globo, a respeito dessa cobertura, então reprisada no programa:

O enterro foi à noitinha, às sete horas mais ou menos. Durante a tarde, o Boni queria esquentar a programação e mandou eu narrar o que estava acontecendo. Só que não estava acontecendo nada, porque os políticos iam começar a chegar depois. Mas ele mandava eu falar. Eu subia no telhado e pensava: "Vou falar o quê, meu Deus?". Aí, eu narrava as montanhas de São João del-Rei, o pôr do sol, descrevia e falava do Tancredo e o sino tocava... e ficava aquela coisa poética. E o Boni falava: "Ah, está ótimo!". E foi assim a tarde inteira. Até que, finalmente, à noite, houve o sepultamento e aquela cena incrível do sujeito com a pá. Quando eu comecei a falar o Boni disse: "A única hora que não é para falar é agora! Deixa, deixa!". Então ficou aquele som do coveiro.19

Chama atenção no depoimento não apenas a construção de contexto que ajudou a mobilizar o país que viveu nas telas o sepultamento do político, mas a projeção construída em torno de imagens que passaram a agregar valor a todo um universo simbólico do 'homem providencial'. Ao lado das canções populares, dos sinos, da faixa presidencial não colocada, do boneco que sobe a rampa do Palácio do Planalto, o coveiro e sua pá tornam-se igualmente representativos da relação do povo com o mito. As menções que o jornalista faz à descrição de contexto (com montanhas, sol, céu, sinos...) sugere o que Girardet chama de 'sintaxe' dos símbolos de purificação que são associados ao mito, em que sua imagem como redentor ou como 'aquele que liberta' quase sempre se vale de imagens de luz (o ouro, o sol ascendente, o brilho do olhar) e de imagens de verticalidade (o cetro, a árvore centenária, as montanhas) (Girardet, 1987, p.17-18). Um exercício narrativo cuja rede simbólica – para além do pragmatismo profissional ao cobrir lacunas de uma programação ao vivo – acaba por constituir, elegendo a seu modo elementos capazes de dar logicidade a todo um complexo de elementos psíquicos no qual ele se insere.

Do ponto de vista das ruas, milhares de pessoas mobilizadas em torno de um momento cívico pela perda do líder político. Pelas telas eletrônicas, a multidão se torna 'nação-audiência' e assiste aos passos do martírio do político através da suspensão de um tempo presente, ou de um 'tempo autista' como aborda Barbero,20 que se perpetuou no ritual eletrônico de potencialização da dor. A narrativa imagética foca então o choro e a comoção popular, enquanto a música Coração de estudante serve de fundo musical ao lado do Hino Nacional cantado por Fafá de Belém e o dobrar fúnebre dos sinos da pequena São João del-Rei. De todas as manifestações, a despedida dos mineiros no Palácio da Liberdade é a que ganha maior projeção. É também a que provocou quatro mortes e duzentos e setenta feridos. O jornalista Ernesto Paglia, no meio da multidão incontida, narra: "Tancredo Neves trouxe de novo os mineiros à praça da Liberdade, só que agora para uma triste despedida". Sua locução cede espaço para as fortes imagens dos populares rompendo as grades de contenção e para as cenas do pisoteamento que se seguiram: "Impossível segurar tanta gente...".

Na sequência, destacam-se a intervenção de dona Risoleta Neves para que o povo se acalmasse, as rezas e o choro em todo o país, as edições fragmentadas dos vários discursos de Tancredo, os cerimoniais oficiais em Brasília e, por fim, sua volta à pequena cidade mineira. É a volta do filho ilustre feito herói. O texto da bancada resume e reafirma a lição 'moderadora' deixada pelo mito:

E aqui acaba a viagem. A última viagem de Tancredo Neves a São João del-Rei ... Podemos estar certos que o povo não corre atrás da morte. Hoje, Tancredo Neves é a mais viva presença a nos iluminar nesta caminhada possível. Uma caminhada modesta, sem utopia, sem revanchismo, sem exagero. Uma caminhada que iremos realizar, custe o que custar. (grifos meus)

Ronald de Carvalho, direto das ruínas da fazenda de Tiradentes, fala do ideal de liberdade do inconfidente perseguido e reconquistado por Tancredo Neves. Ao fundo, a bandeira mineira cede espaço aos poucos para a sobreposição da imagem da bandeira nacional. O diálogo encenado entre Tiradentes e Tancredo é reprisado e finaliza o programa:

— Que fizeste com o sangue que dei pela liberdade e pela democracia?

— Apesar de tudo, aqui está a pátria, íntegra. A pátria que fizemos sob o alicerce de teu sangue. Havemos de fazer deste país uma grande nação!

 

A redenção: o sacro se eterniza

O processo de narrativização em torno de Tancredo Neves não teve nessa cena, porém, seu último capítulo. É no programa Romaria a Tancredo,21 exibido quatro meses depois de sua morte, que o Globo Repórter encerrou a encomenda feita pela Central de Jornalismo da emissora. Nesse programa, o tom trágico da morte ganha sua redenção. O 'efeito de oráculo' projeta contornos metafísicos no sentido próprio da palavra. Tancredo não apenas representa o povo 'que o autoriza' nas múltiplas reapropriações que sua imagem passa a angariar no universo simbólico da política, mas passa a ser também um mediador de sua própria crença religiosa. O jornalista Ronald de Carvalho em sua última visita a São João del-Rei traça a volta do povo à cidade, desta vez, como romeiros. Na centralidade da imagem das muitas cartas enviadas, sustentando a credibilidade da entrevista, ele interroga o síndico da Ordem Terceira de São Francisco, Alfredo Carvalho, ao mesmo tempo em que explica ao espectador:

Ronald de Carvalho: Essas são as mensagens, as cartas que o povo deixa em cima do túmulo de Tancredo Neves. Em algumas delas, nos envelopes há apenas a referência "Para Tancredo Neves, em mãos". O sr. Alfredo é síndico da Ordem Terceira de São Francisco, que administra a igreja e o cemitério. Ele recolhe essas cartas e pretende fazer um álbum. Sr. Alfredo, o que essas cartas geralmente dizem?

Sr. Alfredo: As cartas são variadas de acordo com a condição social e com o grau intelectual da pessoa. Umas pedem emprego para um filho, outros pedem para tirar a bebida, outros pedem a cura de uma doença e depois voltam aqui para resgatar a promessa, mandando celebrar uma missa para o Tancredo.

No conjunto da narrativa, imagens de Tancredo em meio a santos católicos, camisas, chaveiros, bonecos, bonés, salgados e doces, gritos de ambulantes e romeiros disputando espaço nas estreitas ruas históricas da cidade que se transforma diante das câmeras numa "Asa Branca" real.22 Como nos passos do calvário de Cristo, a saga do herói é exposta em quadros e em versos de cordel:

Tancredo e Tiradentes tiveram a mesma sorte
Pelo povo deram a vida
Pelo Brasil deram a morte.

O samba e os chorinhos disputam a trilha sonora com Coração de estudante, evocando o sentido de uma brasilidade mais tipicamente reconhecida, ao fazer referência à mensagem do brasileiro capaz de transitar entre a festa e a fé, o sagrado e o profano. O coveiro citado por Carlos Nascimento é então resgatado como um guardião não apenas do cemitério, mas da memória nacional em sua devoção ao líder. Daí que sua disputa com o síndico da Ordem de São Francisco pela pá utilizada no sepultamento, bem como todo um amplo relato feito em torno de objetos pessoais que se tornaram relíquias ao lado de depoimentos sobre 'graças' alcançadas por romeiros, tenham adquirido uma narratividade de quase ficção, recusando-se a separar em lugares estanques os fatos e a encenação, o imediatamente palpável e a crença. Tudo se torna fetiche de um universo maior de narrativização da nação em sua relação com o político feito mito. Em seu depoimento, o editor-chefe do programa, Jorge Pontual, ponderou ao rememorar o conjunto dessas produções:

Os programas sobre Tancredo foram encomendados pela direção da Globo. Naquele momento Tancredo virou um símbolo da cidadania, da democracia, da própria nação, e isso acabou resultando de fato numa santificação do personagem. Mais ainda quando ele morreu e fizemos um programa que foi ao ar em seguida ao enterro. Nessas condições seria difícil não santificar.23

Nesse último programa, o sentido da 'santificação' literalmente citada por Pontual ocupa finalmente seu lugar de expressão na sofisticada arquitetura dos 'enquadramentos de memória' até aqui levantados. Ao contrário da ideia de uma construção arbitrária, para Pollak a noção de enquadramento funciona pelos critérios de certas exigências de justificação e, consequentemente, de identificação com seus sujeitos.24 Nesse sentido pode-se dizer que a televisão não só ajudou a promover esse exercício de orquestração do que merecia ser registrado como memorável, mas o reforçou potencializando sua força no imaginário popular. Os símbolos aqui reiteradamente veiculados são exemplos. Dos sinos e montanhas de São João del-Rei aos prédios monumentais de Brasília (numa redescoberta do poder pela arquitetura da capital brasileira); da música Coração de estudante ao Hino Nacional tocado em novo arranjo, passando pela faixa presidencial; das imagens da multidão rompendo as grades do Palácio da Liberdade aos minutos eternizados do coveiro fechando a sepultura. E amalgamando tudo, o 'sentido preferencial' – na concepção de Hall25 – de todo o conjunto narrativo: a 'conciliação' como expressividade maior da analogia com Tiradentes, consumada na data cívica 'escolhida' para a morte do político.

Nesse processo, ficam claros os investimentos naquilo que Pollak chama de aspectos essenciais do ponto de vista da psicanálise no que tange à construção de uma identidade coletiva: o sentimento de unidade, de coerência e de continuidade (Pollak, 1989). Na narrativa midiática aqui analisada há não só a construção do vínculo do político com a nação que o autoriza – 'unidade' –, mas igualmente a de 'coerência' de seus elementos identitários cuidadosamente casados com a história política nacional e finalmente, sua 'continuidade' temporal, a partir do legado da conciliação. É quando, na catarse de purgação da dor gerada pela perda, a reapropriação da narrativa televisiva redimensiona os medos e as tristezas, recuperando no jogo de contrários o equilíbrio do prazer. Como na ficção novelesca, aqui a narrativa leva à redenção de um final feliz: o mito transcende as fronteiras da morte e consagra-se como um valor moral a ser seguido.

 

NOTAS

1 O presente texto é uma adaptação de parte do capítulo IV de minha tese de Doutoramento intitulada A Rede Globo e o seu repórter: imagens políticas de Teodorico a Cardoso. Universidade Federal Fluminense, Programa de Pós-Graduação em História. Niterói (RJ), 2008. Pesquisa financiada pela Capes.
2 GIRARDET, R. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
3 GRAMSCI, A. Maquiavel, a política e o Estado moderno. 4.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
4 ANDERSON, B. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989, p.45.
5 Refiro-me aqui à campanha das "Diretas já" com a emissora ignorando os principais comícios organizados no país até duas semanas antes da votação da Emenda Dante de Oliveira. Pode-se citar, sobretudo, o comício na Praça da Sé, em São Paulo, noticiado pelo JN apenas como uma festividade pelo aniversário da cidade. Ver, a esse respeito, LIMA, Venício. Globo e política: tudo a ver. In: BRITTOS, Valério; BOLÃNO, César. (Org.). Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. São Paulo: Paulus, 2005; e como posicionamento da própria emissora, ver MEMÓRIA GLOBO. Jornal Nacional: a notícia faz história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004, onde o leitor também pode conferir depoimentos sobre o caso Proconsult, igualmente citado ao longo deste artigo.
6 Entrevista realizada no Rio de Janeiro em 9 maio 2007.
7 Entrevista citada em MUNIZ, Paula. Globo Repórter: os cineastas na Televisão. Disponível em: www.mnemocine.com.br/aruanda/paulogill.htm; Acesso em: 23 jul. 2004.
8 Quanto aos temas verticalizados, os programas em torno de Tancredo Neves são um exemplo, mas podem-se citar ainda produções envolvendo projetos/perfis políticos em disputa como os veiculados em torno das eleições de 1989 e 1994. Cf. PALHA, 2008, cit. Já no tocante às notícias de variedades (fait divers), entendemos com Bourdieu que elas consistem numa espécie elementar da informação que mobiliza através do apelo a temas de interesse geral baseados no entretenimento mais imediato: "interessa a todo mundo sem ter consequências e porque ocupa tempo, tempo que poderia ser empregado para dizer outra coisa". BOURDIEU, P. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p.23.
9 Fita T13 – Tancredo Especial: Série Globo Repórter, 46', 24 abr. 1985, Cedoc/Rede Globo. As citações envolvendo as fontes audiovisuais utilizadas na pesquisa serão mencionadas uma única vez, por programa analisado.
10 FERRÉS, Joan. Televisão subliminar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
11 CARVALHO, Aline. A liberdade, os inconfidentes mineiros e a ditadura militar entre 1964 e 1968. Revista Tempos Históricos, Maringá (PR): Ed. Unioeste, v.12, 2008.
12 MELLO, João M. C. de; NOVAIS, Fernando. Capitalismo tardio e sociedade moderna. In: NOVAIS, Fernando (Dir.). História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.651.
13 BRETAS, Maria Beatriz et al. Meios e mitos: a morte e as mortes de Tancredo Neves. Religião & Sociedade, n.12-13, 1985. A referência teórica utilizada na obra é LACLAU, Ernesto. Política e ideologia na teoria marxista: capitalismo, fascismo e populismo. Trad. João Maia e Lúcia Klein. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
14 Cf. MARCELINO, Douglas. A morte de Tancredo Neves pela TV: algumas reflexões sobre rituais, memória e identidade nacional. Revista Mosaico, ano 1, n.1. Disponível em: cpdoc.fgv.br/mosaico; acesso em: 10 nov. 2010; e BARBOSA, M. O dia em que o Brasil parou: a morte de Tancredo Neves como cerimônia midiática. CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 27. Anais... Porto Alegre: s.n., 2004.
15 BOURDIEU. P. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990, p.196.
16 MICELI, Paulo. O mito do herói nacional. São Paulo: Contexto, 1988, p.20.
17 RÜSEN, J. História viva: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Ed. UnB, 2007.
18 DUARTE, Gesner. O herói conciliador: a construção da imagem de Tancredo Neves na revista Veja (1982-1985). In: PRATA, Nair; CAMPELO, Wanir. Tancredo Neves: 100 anos de nascimento, 25 anos de morte. Perspectivas midiáticas. Belo Horizonte, no prelo.
19 MEMÓRIA GLOBO. Jornal Nacional: a notícia faz história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004, p.174, grifos meus.
20 BARBERO, M. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2001.
21 Fita R13 – Romaria a Tancredo: Série Globo Repórter, 45', 15 ago. 1985, Cedoc/Globo.
22 A famosa cidade de Dias Gomes, na novela Roque Santeiro (1975/1985), que após ter sido censurada em 1975, estreou dois meses antes desse programa em rede nacional. Na trama, o universo econômico e político da cidade girava em torno da devoção a Roque Santeiro, um jovem coroinha que se torna santo ao salvar o povo local do bandido Navalhada.
23 Entrevista concedida a esta pesquisadora em 4 mar. 2005.
24 POLLAK, M. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.2, n.3, 1989.
25 Nas palavras de Hall: "Ao falarmos de sentidos preferenciais ou dominantes, não estamos nos referindo a um processo de mão única, que governa a forma como todos os acontecimentos serão significados ... Esse processo consiste no trabalho necessário para fazer cumprir, conquistar plausibilidade para exigir legitimamente uma codificação do evento dentro do limite das definições dominantes nas quais esse evento tem sido significado conotativamente". HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003, p.396-398.

 

 

Artigo recebido em 30 de setembro de 2010.
Aprovado em 18 de fevereiro de 2011.