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Revista Brasileira de História

versão On-line ISSN 1806-9347

Rev. Bras. Hist. vol.32 no.64 São Paulo dez. 2012

https://doi.org/10.1590/S0102-01882012000200009 

DOSSIÊ: TRABALHO E TRABALHADORES

 

Os retornados: reflexões sobre condições sociais e sobrevivência de trabalhadores rurais migrantes escravizados no tempo presente1

 

Returnees: some reflections on the social conditions and survival of enslaved rural migrant workers in the present time

 

 

Cristiana Costa da Rocha

Doutoranda em História Social na Universidade Federal Fluminense (UFF). Bolsista Fapepi. Universidade Estadual do Piauí (Uepi) - Campus Poeta Torquato Neto. Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL). Rua João Cabral, 2231 - Pirajá. 64002-200 - Teresina - PI - Brasil. cristianacrocha@gmail.com

 

 


RESUMO

O artigo é dedicado ao estudo de trabalhadores rurais de Barras, Piauí, que migram repetidas vezes para os estados do Pará, Mato Grosso e Goiás e vivenciam formas de trabalho análogo à escravidão. Após um longo período do ano longe de casa, eles chegam cheios de notícias sobre o trabalho duro e a exploração, o pouco salário, as ilusões, as agruras, o engodo praticado pelos empreiteiros, sobre o que os faz ter vontade de voltar para o seu mundo. E, passado o período da entressafra, partem novamente, vestidos em suas melhores roupas como em um dia de festa, imbuídos pelo desejo de materializar sonhos, maravilhados por um mundo cujos perigos lhes impõem desafios.

Palavras-chave: trabalho escravo; migração e retorno.


ABSTRACT

This article is concerned with the study of rural workers in Barras, Piauí, who repeatedly migrate to the states of Pará, Mato Grosso and Goiás and experience forms of slave-like labor. After a long period living away from home, they arrive full of news about hard work and exploitation, low wages, illusions, hardships, and the deceptions practiced by the contractors, which makes them want to return to their own world. After the end of the inter-harvest period, they go again, dressed in their best clothes as a feast day, imbued with the desire to materialize dreams, amazed by a world whose dangers pose challenges to them.

Keywords: slave labor; migration and return.


 

 

A migração para outras regiões do país tem se apresentado como uma prática transmitida a gerações sucessivas, presente também na vida de inúmeros nordestinos. Para os trabalhadores rurais que migram de Barras, Piauí, em busca de trabalho, os lugares de origem e destino se alternam permanentemente durante todo o período de vida ativa do homem, em média até os 35 anos de idade, seja na colheita de cana ou no roço de juquira.2 Para eles, o ato de migrar inclui a perspectiva de retorno após um período previamente definido, de acordo com a atividade a ser executada.

Segundo Maria Silva e Marilda Menezes,3 desde a década de 1970, vários estudos identificaram um importante grupo que migra repetidas vezes com o objetivo de encontrar meios de sobrevivência.

A categoria de migração de retorno fundamenta-se na ideia de um ponto de origem e um de retorno. Porém, o próprio migrante não identifica sua volta como retorno. O migrante não abandona a origem para se integrar no destino, ao contrário, a migração representa um ponto de contato permanente entre os dois locais (Silva; Menezes, s.d., p.6).

O presente artigo baseia-se no uso de fontes orais como metodologia de trabalho e é dedicado à análise das condições sociais e à sobrevivência de trabalhadores rurais escravizados, no tempo presente. Nesse sentido, debruço-me sobre entrevistas realizadas com trabalhadores rurais, migrantes e ex-migrantes, seus parentes e a então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) do município. As narrativas desses sujeitos evidenciam um entrelaçamento de fatores que motivam o retorno à terra natal, uma das características que definem o tipo de migração em estudo.

Conforme o Diagnóstico do Trabalho Escravo no Piauí,4

Geralmente os trabalhadores voltam trazendo algum dinheiro para casa (grupo 2,5 84,9%), que é constituído basicamente com despesas familiares ... Poucos são os que conseguem retornar com quantias suficientes para fazer despesas maiores como construir casa, comprar uma moto e investir na roça com o dinheiro obtido. (Diagnóstico..., 2005, p.8)

Como consta nesse Diagnóstico, apesar dos pontos negativos ressaltados pelos sujeitos entrevistados no que diz respeito ao itinerário migratório, eles pretendem continuar viajando. Em uma segunda entrevista concedida por Seu Francisco Lino, trabalhador ex-migrante, ele comentou que "A vida de um trabalhador nessas condições, é até 35 anos, passou disso ele não aguenta mais. A gente tem que aproveitar até os 35, passou disso nós não ganha mais nada".6

Cada vez mais é perceptível a diminuição das possibilidades de sobrevivência dessas famílias pobres nos seus lugares de origem, de modo que elas passaram a depender cada vez mais do trabalho temporário em outras regiões do país. Ao comentar sobre a saída desses trabalhadores, em particular dos assentados, apontados como a maioria dos migrantes da região, Lina,7 então presidente do STR, diz: "É difícil manter esses trabalhadores na terra aqui em Barras, porque eles já pegaram uma ansiedade tão grande em viajar, que não tem jeito, embora eles tenham meio de sobreviver aqui". Diante do exposto, perguntei quais seriam essas possibilidades de sobrevivência, e ela comentou:

Naquela época tinha, agora não tem mais porque eles acabaram com tudo [refere-se ao período em que alguns assentamentos da região foram beneficiados com créditos fundiários]. Ora, um assentamento que recebeu caminhão novo, trator novo, recebeu mais de 100 mil reais. Teve assentamento aqui que recebeu mais de 100 mil reais para investir na agricultura ... em gado, na criação, no campo agrícola, para produzir um alimento diferente. E hoje você chega lá não tem nada, as famílias continuam mais pobres que eram antes. Se eles tivessem trabalhado, eles tinham condição de ficar. Porque eles iam criar, iam plantar, produzir, eram campos irrigados para eles produzirem. (Lina, 2009)

Ao referir-se à ansiedade do trabalhador para viajar, Lina aponta a existência de uma tradição de migrações temporárias em Barras. No segundo momento, a narradora constrói explicações sobre o encolhimento das possibilidades de subsistência na região, atribuindo isso à má utilização dos recursos recebidos ou mesmo à falta de experiência do trabalhador na lida com as atividades agrícolas propostas. O processo de migração temporária em Barras antecede a formação dos assentamentos do Incra, assim como a disponibilização dos recursos citados por ela, na década de 1990.

A alternativa de permanência na terra natal envolve basicamente terra e emprego. A maioria dos trabalhadores rurais alega não ter acesso a emprego ou trabalho no local, nem condições para trabalhar na terra.

Nas duas circunstâncias em que fui ao encontro de Seu Francisco Lino em sua casa, procurei observar suas condições materiais. A construção da casa era recente, pois ele não migra desde o início dos anos 1990. Em seu discurso sobre o trabalho fora, predomina a concepção de aproveitamento do tempo para a aquisição ou acúmulo de bens. No entanto, ele comentou vagamente que, mesmo com mais de uma década de migrações anuais para o Pará, só em duas viagens teve pequeno proveito financeiro. Perguntei, então, como ele construiu a casa onde mora com a família, e ele me respondeu que seus filhos a cons-truíram. A casa tem paredes de tijolos e cobertura de telhas. Esse tipo de -construção é o sonho de parte dos moradores da região, que ainda possuem casas feitas com varas fincadas no chão, cujos espaços são preenchidos com barro. A sala da casa abrigava quatro motocicletas à espera de seus donos - - cada uma pertence a um de seus filhos.

Segundo Francisco Lino,

Eles têm uns contatos lá e vão por conta própria ... Meus filhos estão viajando, cortando cana, dois no Mato Grosso, um no Mato Grosso do Sul e um em São Paulo. Estou sozinho agora. Agora [refere-se ao período da entressafra], estão trabalhando na construção civil, amassando barro, fazendo uma coisa ou outra. Lá no Mato Grosso. No começo do ano eles voltam para o corte de cana. Eles ligaram ontem, eles estão bem. (Francisco Lino, 2008)

Seus filhos só pretendem retornar para Barras no final do ano seguinte, na próxima safra. Enquanto isso, no período de entressafra, eles atuam como peões de trecho, para garantir sua sobrevivência.

Francisco Lino foi posseiro das terras onde mora, e a posse foi reconhecida, segundo ele, ainda na década de 1980, por intermédio do Incra. Ao se referir aos demais moradores do local (localidade Angical), comenta que "o governo é que repassou para nós a posse. Todo mundo aqui é dono de sua terra. Ninguém é mandado por ninguém". A esse respeito, quando ainda criança e adolescente, ele viveu sob condição de morada com seus pais e irmãos em outra fazenda, também localizada na região da Mata do município, a qual, segundo ele, foi desapropriada pelo Incra na década de 1990. A busca por trabalho assalariado em regiões distantes se apresenta, em parte, como um meio de o trabalhador rural conservar sua propriedade no lugar de origem. Enquanto muitos retornam para o lugar de origem sem terem seus sonhos realizados, os que permanecem ali continuam no dia a dia de trabalho domiciliar e na roça, necessários para o mínimo vital.

Para além dos sentimentos de saudade, os entrevistados apresentam um lamento contido por não terem realizado alguns sonhos - não terem enriquecido, comprado uma moto, construído uma casa de tijolos com cobertura de telhas, dentre outras possibilidades.

Nesse sentido, interessa-me o modo como esse passado é reiterado pelos entrevistados como uma conquista. Para essa leitura do passado, entendo que é conveniente ressaltar que a memória se faz com base em interesses do presente: a narrativa é filtrada de forma sedutora, para que venha a melhorar suas vidas, como uma fonte de inspiração.

Para uma melhor compreensão do estudo dessas memórias dos lugares de destino, é importante destacar o pensamento de Ecléa Bosi:8

É preciso reconhecer que muitas de nossas lembranças, ou mesmo de nossas ideias, não são originais: foram inspiradas nas conversas com os outros. Com o correr do tempo, elas passam a ter uma história dentro da gente, acompanham nossa vida e são enriquecidas por experiência e embates. Parecem tão nossas que ficaríamos surpresos se nos dissessem o seu ponto exato da entrada em nossa vida. Elas foram formuladas por outrem, e nós, simplesmente as incorporamos ao nosso cabedal. Na maioria dos casos creio que esse não seja um processo consciente. (Bosi, 1987, p.331)

Esses laços de convivência, sejam familiares, sejam profissionais, favorecem o desenvolvimento de uma memória social que se compõe de vestígios, de fragmentos. Ressalto a autonomia do indivíduo no ato de recordar, considerando que ele pode recordar algo significativo só para ele.

Sônia,9 nora de Seu Francisco Lino, relatou que no ano de 1996 migrou com o marido para o Pará, por ocasião de uma empreita que ele tinha aceitado em uma fazenda da região. Assim, enquanto o marido se encontrava na lida do campo, roçando juquira, ela permanecia em barracões para cozinhar para os demais peões. Diz ela:

Lá tudo era com fartura. Entrando no Pará é farto. Lá é um lugar tão bom... Duas horas da madrugada eu tinha que me levantar pra fazer o café, em duas marmitas bem grandes. Aí eu ia fazer o cuscuz, era fazendo e os peões comendo. Aí, quando eu tirava a água do café do fogo, já botava o feijão. Aí já ia cuidar nas outras coisas. Às vezes chegava era de vaca para eu cortar todinha. Eu sozinha, às vezes o gato ia pra rua e os peões dizia: vou embora, vou embora porque não tem carne. E eu ia sozinha no açougue pegar a carne, era 18 quilômetro de onde nós estava e eu ia de pés. Ele [o gato] dizia para o açougueiro da fazenda matar a vaca e mandar para lá. (Sônia, 2009)

A narradora não descreve somente o acontecido, ela vai além, interpreta o vivido conforme um conjunto de elementos circunscritos no seu cotidiano, como desejos e necessidades, dentre outros. A busca por trabalho em outras regiões do país é o projeto de vida de muitos moradores da região. Nesses termos, a compreensão de tal projeto de vida também como um projeto familiar nos possibilita evidenciar a ânsia de esposas, mães e parentes, em termos gerais, pela ida, assim como pelo retorno bem-sucedido de seus migrantes. O sonho do trabalho fora é sustentado pela necessidade de produção em sua própria terra, pois com o dinheiro adquirido, com o trabalho nas terras dos outros, eles podem viabilizar o sustento de suas famílias e a continuidade do trabalho em suas terras.

Sônia e o marido haviam estabelecido uma relação de amizade com o 'gato', o empreiteiro, antes da partida de Barras, de modo que este acabou por contratá-la como cozinheira para trabalhar nos barracões onde os peões são comumente instalados. O dizer de Sônia ressalta o período de 3 anos que passou naqueles rincões, incluindo os retornos periódicos a Barras, como os anos mais fartos de sua vida. O medo da fome sentido por ela salta de forma quase constante em sua fala. Entendo que o dia a dia de Sônia é construído para não morrer de fome. Em vários trechos, ela retorna ao tema da alimentação diária, ressaltando, especialmente, carne e leite. Segundo ela:

Lá era bom, bom mesmo, nunca me esqueci de lá. Lá tudo era farto, aqui um litro de leite é 3 reais, e lá não, você vai só pegar no curral. Lá a gente comprava de sacos de açúcar, o povo tem confiança na gente, na gente pagar o que deve. Eu ia pegar o que faltava e o dono do comércio me dava. Às vezes o dono da fazenda ia pra rua, perguntava: "Sônia, você não vai querer nada, não?". Ele já trazia e não queria pagamento, era por conta dele. Aí às vezes eu cozinhava para o Seu Nonato, Seu Nonato era 'gato' dos peões. Aí ele dizia para trazer cinco fardos de açúcar, lá era de fardo, não era de quilo não, era de fardo, bolacha era em fardo, tudo era em fardo lá. (Sônia, 2009)

O contexto descrito por Sonia revela também parte do funcionamento do sistema de trabalho em questão: a arregimentação, a alimentação que é disponibilizada aos trabalhadores e descontada no pagamento posteriormente, a rede de estratégia estabelecida pelo 'gato' e pelos demais funcionários da unidade de produção, incluindo as relações de poder, que possibilitam o bom desenvolvimento do trabalho no campo. O contexto descrito evidencia a permanência do mito da abundância simbolizado até então nas lendas do Eldorado da região da Amazônia brasileira, graças - entre outros aspectos - às suas enormes reservas naturais.

Essa enganosa sedução da riqueza do verde da Amazônia atravessa as falas especialmente daqueles que não migram mais, é algo que remonta à coleta, pelo colono, de plantas medicinais que abundavam na floresta (Castro, 2008).

Para além das questões em torno da obra de Castro10 publicada em 1954, a qual se compromete com o regionalismo nordestino e com o discurso das disparidades regionais difundido na circunstância histórica em que foi escrita, é importante refletir sobre as condições de pobreza que assolam notoriamente a grande maioria da população de Barras, em especial da sua área rural. No dizer do autor, no Sertão Nordestino - que inclui as áreas centrais do estado do Piauí - vamos encontrar um novo tipo de fome, não mais a fome permanente, condicionada pelos hábitos de vida cotidiana, mas a que se apresenta em surtos epidêmicos, que surgem com as secas periódicas. Essa é uma área que tem como alimento básico o milho, que, associado a outros produtos regionais, permite que nos períodos de seca as populações tenham energia e vigor suficientes para sobreviver ao flagelo.

Os fragmentos da fala de Sônia me fazem refletir sobre as imagens construídas pelos errantes em torno dos lugares de destino, e sobre a circulação de suas memórias na terra natal. Ao discutir as imagens criadas em torno da região da Amazônia pelos migrantes cearenses, nos anos de 1942 e 1943, Kênia Rios11 comenta que as descrições sobre aquelas terras evidenciavam uma infinidade de narrativas fantásticas:

O nordestino, o sertanejo, o flagelado, o peregrino, o herói, o monstro, o Judas... são todas faces de indivíduos com histórias em eterna marcha. Corpos inquietos e perpetuamente seduzidos pela estrada. Habitantes de lugares onde a seca, a miséria constante, a exploração, mas também a altivez, os desejos e os delírios são partes de uma vida sofrida e fabulosa. Elementos que se entrelaçam na ordem do viver encantado de homens, mulheres e crianças que falam da luta pela sobrevivência nas formas do mundo e do além-mundo. (Rios, 2008, p.52)

Os elementos descritos por Kênia Rios são comuns nas narrativas dos entrevistados para este estudo. Desde tenra idade o migrante Bruno12 ouvia os dizeres do avô, Seu Raimundo,13 sobre o Pará, os quais foram narrados para mim em tom didático, evidenciando o que deve e não deve ser feito para ganhar e acumular dinheiro lá fora. A fartura do lugar de destino é representada, na sua fala, pelo verde da região e pela abundância em carne e leite.

Para a compreensão da presença insistente desses elementos nas narrativas, considero importante ressaltar a afirmativa de Castro (2008, p.181), segundo o qual "o sertanejo foi sempre um comedor de carne...", ao referir-se ao leite e à carne como alimentos consumidos de forma generalizada pelas populações do sertão.

No seu dia a dia, Sônia não dispõe de uma farta alimentação e evidencia isso como um sonho. Comumente, ela faz apenas uma refeição diária. A carne, tantas vezes ressaltada em sua fala, não faz parte de seu regime alimentar diário, considerando que consome basicamente arroz, feijão e ovos. Ela diz:

Eu vivo quebrando coco, só quebrando coco. Troco dias com o meu sogro, hoje eu boto pra ele, amanhã ele me ajuda a roçar. Porque ele fica só, né?! E eu estou só, aí nós dois se junta e vamos trabalhar no mutirão, nós dois. Aí quando chega o meio-dia, a gente cozinha um ovo, come, aí bebe água, deixa dar 1 hora e volta de novo. Aí, 4 horas a gente vem, chega, faz a janta... e assim eu vivo. (Sônia, 2009)

Diferentemente do que consta na obra de Castro (2008), o consumo diário da carne é privilégio de uma minoria entre os moradores de Barras. Desse modo, entendo que a fartura que Sônia diz ter vivenciado no Pará - alimentos comprados em fardos, a matança de um boi para o consumo e o leite disponibilizado no curral, por exemplo - , é trazida à tona com base em um presente de fome vivenciado na terra natal.

Francisco Lino lembra as suas idas ao Pará como tempos muito difíceis, pois foi enganado pelo 'gato' que o contratou e o levou em um caminhão de sua propriedade. O 'gato', ao qual Seu Francisco Lino se refere, trata-se de um conhecido comerciante da cidade, que atuou ali e em municípios vizinhos, na prática de aliciamento de jovens trabalhadores rurais, por toda a década de 1980:

Ele levava a gente e quando chegava lá ele soltava a gente, feito bicho no pasto. Vendia a gente como quem vende gado, por cabeça. Levava cinquenta, cem homens. Deixava lá no meio das cobras, no meio do mato, sofrendo. Levava duas, três carradas aqui, todo mundo no cativo. Ele chegava aqui e fazia a proposta. Mas eu fui só dessa vez com ele. (Francisco Lino, 2008)

Ao recordar os seus tempos de migrante, Francisco Lino comenta ainda: "em 79 enfrentei uma barra pesada, tinha onça, tinha todo tipo de cobra, mas eu era novo...". A narrativa dele está associada ao desconhecimento da região de destino, seguindo por seu estranhamento ao se surpreender com situações que até então não havia vivenciado. Francisco Lino relata sua primeira viagem ao Pará em uma sequência lógica e casual que lembra uma fábula, com ênfase no caráter aventureiro de suas vivências em uma região perigosa e desconhecida. A construção dessa narrativa evidencia o empenho do relator em fazer emergir a imagem de um homem destemido, cuja vida foi sempre dedicada ao trabalho.

Segundo ele, uma das promessas feitas pelos 'gatos' aos trabalhadores famintos da região era a disponibilidade de alimento: "quando eles queriam levar a gente, eles diziam: rapaz, lá é bom, lá a gente come carne, ganha dinheiro". Assim, abandonados no meio do mato ao deus-dará, alguns não conseguiram voltar para casa. Francisco Lino sobreviveu, mas não comeu carne por lá nem tampouco ficou rico. E, no seu retorno a Barras, passou a atuar como 'gato'.

As dificuldades vivenciadas por Francisco Lino naqueles 'rincões solitários'14 residem tanto nas condições geográficas da região, quanto nas condições de trabalho em si. Ao rememorar, ele ressalta a destreza nos relacionamentos com os patrões e com outros trabalhadores migrantes que arregimentava no trabalho e, sobretudo, a sua chegada, como um guerreiro capaz - segundo ele - de levar uma cobra até a boca para mordê-la.

Sua narrativa mostra a presença de animais que ameaçavam o bom desenvolvimento de seu trabalho, o corte de juquira. Ameaçado pela natureza e pelo patrão, ele sobreviveu como um herói e afirma não sentir medo de nada. Seu Francisco Lino iniciou seus filhos como errantes em busca de trabalho no mundo lá fora. E começou pelo mais velho, Francisco Filho,15 marido de Sônia. Com exceção deste, que está em casa por motivo de doença, hoje todos os seus filhos homens estão trabalhando fora: "só o Francisco está aqui. Ele está adoentado, nervoso. Ele é medroso, está tomando remédio". Em seguida, adverte que o filho não seguiu seu exemplo: "Porque eu não tenho medo de nada. Eu digo: 'Rapaz deixa de ser medroso, quando eu tinha a tua idade, eu mordia uma cobra viva'. A gente tem que pensar positivo. Quando eu saía daqui, eu dizia: eu não tenho medo de nada, eu vou sem medo".

A falta de medo se estende também à perspectiva de morte. O seu ideal é o trabalho a todo custo. Em certo momento da entrevista, seus dizeres sobre aqueles confins se cruzam com os dizeres de Sônia (sua nora) e de Seu Raimundo (seu tio). Segundo ele, "lá tem muita fartura, tem muita carne, leite. A gente trabalhando a gente consegue. O Pará é melhor que aqui". E faz uma ressalva, "lá tem muita coisa boa, é mais fácil para o camarada ganhar. Podendo andar bem calçado, bem vestido. A saúde é que não é muito boa". Considero importante destacar, aqui, os laços familiares que unem os retornados, para a construção de suas memórias.

A questão da saúde na fala de Francisco Lino, além da incidência de epidemias comuns na região de destino migratório, diz respeito ao dispêndio de força exigida nas atividades laborais. Isolados no meio do mato, esses trabalhadores correm o risco de morrer por falta de assistência médica, associada aos maus tratos no cativeiro.

As vivências dos sujeitos desenham várias temporalidades. Aqueles que não migram mais, em especial os velhos como Raimundo Batista e Francisco Lino, são considerados dentro do grupo social ao qual pertencem como homens que já viveram suas vidas, pensamento este que atravessa suas narrativas. Entendo que se sentem mais livres para recordar. No dizer de Ecléa Bosi (1987, p.23), esse é o momento da 'velhice social', cuja função é lembrar, e lembrar bem:

Um verdadeiro teste para a hipótese psicossocial da memória encontra-se no estudo das lembranças das pessoas idosas. Nelas é possível verificar uma história social bem desenvolvida: elas já atravessaram um determinado tipo de sociedade, com características bem marcadas e conhecidas; elas já viveram quadros de referência familiar e cultural igualmente reconhecíveis: enfim, sua memória atual pode ser desenhada sobre um pano de fundo mais definido do que a memória de uma pessoa jovem, ou mesmo adulta, que, de algum modo, ainda está absorvida nas lutas e contradições de um presente que a solicita muito mais intensamente do que a uma pessoa de idade. (Bosi, 1987, p.22)

O 'lembrar bem' de Raimundo Batista e Francisco Lino assume tom didático. A função deles é ensinar aos mais jovens os traquejos do trabalho e, assim, se (re)inventam dentro de suas falas. Ainda no início desta pesquisa, ao me aproximar dos moradores da área rural de Barras buscando informações sobre quem migrava, eles me sugeriam que eu fosse conversar com as pessoas mais velhas, que já não migravam mais, que tinham se tornado guardiões das memórias daquele grupo social. Em suas narrativas, reconheci o que Bosi (1987) define como 'velhice social': um sujeito que não vai migrar mais, que tem agora o ato de lembrar como função dentro do grupo ao qual pertence.

Os trabalhadores que vivenciaram esse vai e vem na busca por trabalho fora apresentam-se em suas falas como sobreviventes do mundo do trabalho escravo.

Em uma das reuniões realizadas pela Cáritas16 no município, trabalhadores apresentavam um discurso de sobreviventes de um sistema de exploração no trabalho. É o que podemos evidenciar na narrativa de Francisco Moreira,17 migrante durante a década de 1980 para o Pará, onde trabalhou em fazendas, roçando juquira, e na Serra Pelada, na corrida pelo ouro.

Entendo que o uso da memória como fonte histórica deve considerar o valor subjetivo, no sentido de perceber, entre outros aspectos, a natureza social da memória e o seu significado para os sujeitos. Hoje, Francisco é presidente de uma Associação de Moradores e é muito conhecido como contador de histórias. Sua história de vida está ligada à luta pela terra no município, e, assim, passa a entrelaçar presente e passado, referindo-se ao passado como algo superado pelo tempo. Esse fato ressalta também a necessidade de valorização de suas vivências como trabalhador rural migrante. Em outras palavras, ele se coloca como um atuante na luta pela terra em Barras, e como um ex-trabalhador rural escravizado:

Quando eu deixei o Pará, a gente começou um trabalho de Associação, nessa época que a gente conseguiu fundar uma Associação, até então existia o cativeiro. Só que com o trabalho da gente, o Sindicato, a CUT e a Fetag, a gente conseguiu melhorar um pouco, porque nós tomamos a iniciativa de criar a associação e conseguimos distribuir água para a comunidade, conseguimos também estrada, energia, tudo a gente consegue pela Associação. (Francisco Moreira, 2007)

Evidencio, entre outros aspectos, a necessidade de valorização do associativismo em um contexto de ruptura com o sistema de morada que havia predominado na região, o qual ele apresenta na forma de 'cativeiro'. Diferente do que aconteceu com os demais entrevistados, percebi que, na narrativa de Francisco Moreira, suas lembranças do trabalho como migrante, da exploração e dos maus tratos vivenciados, desembocam em questões relacionadas à importância do associativismo, do Sindicato. Isso se faz diante do lugar social que esse sujeito ocupa no presente, dentro da localidade onde mora, região da Mata daquele município.

Como afirma Portelli,18 "a narrativa depende de fatores pessoais e coletivos". Francisco Moreira reivindica um papel central na luta pela terra em Barras, sobretudo nos anos 1990. Observei, durante uma das reuniões da Cáritas em Barras, que ao solicitar um ponto na pauta e tecer algumas considerações, muitos dos que o escutavam murmuravam. Francisco falou sobre os problemas vivenciados pelos moradores da comunidade onde residem, ao tempo em que ressaltou sua atuação como presidente da Associação dos Moradores. Sua narrativa é marcada por sua forte tendência ao reino da fantasia e da fábula. Ele me contou uma história detalhada sobre sua infância em Barras, sua ida para o Pará a fim de trabalhar no garimpo e, posteriormente, nas fazendas da mesma região, roçando juquira. O relato de Francisco Moreira segue uma sequência lógica, na qual ressalta, em particular, suas dores, sofrimentos e riscos de morte. Sobre sua experiência no garimpo, ele comenta:

Nessa época era a fofoca da Serra Pelada [anos 1980]. Que todo mundo saía mais rico, muitos pegavam muito ouro, muitos enricavam, outros saíam sofrendo, muitos morriam, matavam lá dentro, um tempo muito sofrido, dias as pessoas melhoravam, dias entristeciam. Chegava a época, a pessoa entrava embaixo da terra com umas vigas de ferro, ficava cavando, tinha uma hora que você olhava para cima e tinha mais ou menos uns trinta metros de profundidade, da boca do buraco você ficava com distância de uns trinta metros de profundidade. Lá a gente levava uma lanterna na boca, você tirava aquelas mão cheia de terra para ver se tinha ouro, muitas das vezes eles batiam na boca da barreira e a barreira fechava com umas trinta pessoas lá dentro, uma tristeza maior do mundo. Quando chegava a trancar aquelas pessoas lá dentro aí a Polícia Federal chegava, aí peão ia cavar, meter trator pra arrancar aquelas pessoas de dentro. Quando eu tava trabalhando no garimpo, muitas vezes rolava uma pedra de cima, uma pedrinha pequena, mas devido à profundidade que era muita funda, uma pedrinha quando peitava em um de nós, era o mesmo que peitar numa galinha, caía lá já morto ... Para mim foi um dos piores tempos de escravidão. (Francisco Moreira, 2007)

No relato, Francisco Moreira se faz guerreiro. Boa parte de sua fala foi dedicada à experiência no garimpo de Serra Pelada. Entendo que esse aspecto se deve a um contexto de frustrações e anseios do entrevistado. A esse respeito, ele comenta sobre a necessidade de seu retorno ao Pará para buscar a caderneta de garimpeiro.

É importante dizer que esse quadro de necessidades se faz diante da existência de alguns projetos de leis na Câmara Federal, que reivindicam ação indenizatória do Governo e direito de aposentadoria e pensão aos garimpeiros da Serra Pelada. Esse garimpo foi fechado em 1992, pelo governo Collor, e os valores oriundos da sobra de ouro, prata ou platina, foram depositados na Caixa Econômica Federal.

Francisco Moreira evidencia um contexto de ruptura com o sistema de morada, vivenciado por ele nos seus tempos de criança e juventude. Diz ele:

Naquele tempo a gente tava deitado aqui, com o meu pai, aí chegava o patrão e chamava a gente para ir trabalhar. Se o pai da gente, porque naquele tempo eu era criança, dissesse que não ia, aí ele [o patrão] mandava desatar o nó da rede e cair no mundo. Hoje as coisas mudaram graças aos Movimentos Populares, a Associações, a Igreja, o Sindicato, CUT, Fetag. Agradeço muito a Deus e às pessoas que deram seu sangue pela terra. (Francisco Moreira, 2007)

A migração também se apresenta para esses moradores, em particular para os migrantes da década de 1980, como um meio de romper com esse sistema. Nesses termos, o ato de migrar significou uma tentativa de não se submeter ao controle dos fazendeiros da região. A esse respeito, ressalto que todos os entrevistados afirmaram ser de famílias egressas do sistema de morada, que outrora predominava na região. Hoje, vivem em assentamentos. É notória a atenção dada por Francisco Moreira aos movimentos sociais, atribuindo a estes as mudanças ocorridas na região no que diz respeito às condições de trabalho e vida.

É a partir do lugar social vivenciado que Francisco descreve o seu passado. Sua fala atende às expectativas do presente em relação ao passado, configurando um passado pelo presente. A interpretação das vivências desses sujeitos deve levar em consideração que, ao narrar, o sujeito se inventa, transforma ideias e imagens, construindo diferentes passados, atendendo às necessidades do presente.

Comumente, o tempo de trabalho de um migrante é severamente curto. As doenças, físicas e emocionais, surpreendem muitos, se não a maioria deles. No dizer de Lina, presidente do STR de Barras:

E assim, a nossa preocupação hoje, é uma questão mesmo da idade deles, porque 35 anos é um homem ainda novo, e as empresas não pegam mais. E aumentou o número de doenças, aumentou o número da perda da qualidade de trabalhador rural. Ele não tem uma atividade aqui, que possa ser reconhecido como trabalhador rural, ele não tem direito de pegar um financiamento no banco, eles perdem o direito à aposentadoria, e ainda ficam doentes. Porque a maioria destes trabalhadores que viajam, com o tempo, eles vão ficar doentes, porque eles trabalham forçado, eles têm um serviço muito pesado lá. E trabalhando com cana queimada, sem se alimentar, eles têm um padrão de vida bem diferente do que teriam, se eles estivessem aqui... porque ao invés dele durar 50 anos, ele dura só 40. Olha, quando eles viajam, vão de um jeito, quando eles voltam, faz é pena, vêm tudo magros, com a pele queimada, tudo doente, só dos maus tratos lá. Porque para eles ganhar algum dinheiro, eles forçam muito. (Lina, 2009)

Desse modo, Lina destaca o desejo de migrar vinculado à ansiedade e às cobranças da família:

Mas a ganância pelo dinheiro é tão grande que tem mulher que, quando o marido não gosta de viajar, ela fica brigando porque ele não viaja. Eu tenho visto muita mulher reclamar, dizer: "Ah, eu tenho tanta vontade que meu marido viaje, 'fulano, viaja, manda dinheiro', tem as coisas, e nós não tem nada porque ele não quer viajar...". A vaidade é grande, é a vaidade mesmo... viaja para manter um padrão de vida bem diferente, comprar uma moto. A loja de moto daqui de Barras não para. No final do ano eles já começam a abastecer a loja. Quando ele [o migrante] chega, se ele tinha uma moto velha que deixou com a mulher, ele vai lá, troca por uma nova, por uma maior. (Lina, 2009)

Esse fragmento me reporta à fala de Sônia, que expressa sentimentos de frustração por não possuir ainda uma casa feita de tijolos e coberta de telhas, e associa isso à vaidade e ao individualismo do marido, como já comentado. Francisco Filho, por consequência da doença contraída no Mato Grosso, não teve condições de continuar a empreitada. Desse modo, perguntei a Sônia se ele já tinha se curado da tal enfermidade. Ela me respondeu que o mal do marido é o medo que ele sente, que ela não entende como uma doença e sim como um 'nervoso'. Francisco Filho dizia sofrer de uma gastrite nervosa.

Ele não está doente não. Ele tem é frescura. É nervoso, é nervoso demais. Tem medo, mas ele é mal criado, quando ele quer me dizer as coisas ele diz. Se você disser alguma coisa pra ele, ele come calado. Mas quando ele se passa pra mim ele desconta, quer tirar o que você disse e o que eu disse pra ele. É coisa brava. (Sônia, 2009)

E assim ela ressalta a ambiguidade no comportamento do marido dentro e fora de casa, em um tom de indignação. Entendo que o comportamento hostil de Francisco Filho em relação à esposa, diferente do que normalmente acontece, pode ser considerado aqui como uma reação às agruras, à fome, a humilhações e dores, dentre outras questões que atravessam o cotidiano do trabalho análogo à escravidão.

Sônia comenta que o marido toma constantemente remédios controlados e apresenta outros problemas de saúde, como pressão alta, e mesmo assim migrou para trabalhar em uma fazenda no Pará. Perguntei por que ele havia mudado de destino migratório, já que o Mato Grosso fora sua opção nos anos anteriores. Sônia tratou de não deixar dúvidas, afirmou que o marido não havia saído 'sujo' do Mato Grosso:

O tio dele era quem levava, mas agora o tio dele perdeu as oportunidades de lá. Ele não saiu sujo, meu marido. O tio dele foi quem perdeu as oportunidades, como eu acabei de falar. Ele [o tio] leva, faz de tudo, eles vêm pegar aqui, saem da frente do Sindicato, saem de três carradas. E quando está com três meses querem vir embora todo mundo, aí se juntam tudinho vêm embora e aí as usinas não querem mais. Porque a despesa é grande para vir pegar de lá pra cá, vir buscar e vir deixar. Aí eles não estão mais querendo muito levar. (Sônia, 2009)

Para Lina, é notório o aumento do número de denúncias sobre maus tratos e irregularidades no local de trabalho. Quando me encontrei com um grupo que se preparava para partir daquele município com destino ao Mato Grosso, no início de 2008, tomei conhecimento de algumas estratégias, caso venham a ser vítimas de algum tipo de ilegalidade. Exemplo disso é uma lista com os números de telefones do Grupo Móvel do Ministério do Trabalho, de CPTs (Comissões Pastorais da Terra) das várias regiões do país e de Sindicatos, acompanhada por uma pequena cartilha sobre os direitos do trabalhador.

A condição de retornados em razão da entressafra é tensa para a maioria deles, e, nesse sentido, expressam-se em falas e gestos como se estivessem em uma corda bamba entre o adeus e a permanência em casa. Esta é breve, dura de 2 a 3 meses, até a próxima safra. Sônia comenta que o marido não sossega enquanto não migra novamente.

Nesse sentido, a ideia de retorno é gerada pelo desejo de se sentirem acolhidos, pois longe da terra o estranhamento invade a alma, provocando a saudade. O retorno se faz nesse caso em busca de algo imaginado. Chegam cheios de notícias, falam do trabalho duro e da exploração, do pouco salário, das ilusões, das agruras, do engodo praticado pelos 'gatos', do que os faz ter vontade de voltar para o seu mundo. Assim, todos - familiares, vizinhos e conterrâneos - inteiram-se do que acontece nos lugares de destino, e essas impressões atravessam as gerações. Desde tenra idade, essas populações são invadidas por informações sobre os lugares de destino de seus pais e parentes, de modo que o real e o irreal se misturam e se confundem nas narrativas dos que sobreviveram àqueles confins de mundo.

Muitos trabalhadores de Barras alimentam sonhos diurnos de lugares imaginários perpassados por gerações sucessivas, de modo que possam lhes proporcionar acalento, ou o mínimo para a sobrevivência vital da família, ou até enriquecer. Vão na ilusão de mais além encontrar novas possibilidades.

A propaganda gerada em torno dos lugares de destino é fortemente empreendida pelo 'gato' nas regiões de origem. A decisão de se deslocarem para outros destinos carrega fantasias de bate-papos contados à soleira das portas, nas roças e nas quitandas, mas também carrega advertências sobre os perigos do mundo lá fora. E, nesse emaranhado de sentimentos, os trabalhadores partem vestidos em suas melhores roupas como em um dia de festa, imbuídos pelo desejo de materializar sonhos, maravilhados por um mundo cujos perigos lhes impõem desafios.

 

NOTAS

1 Este artigo é parte do terceiro capítulo da Dissertação de Mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em História Social da UFC, em abril de 2010, sob o título: Memória migrante: a experiência do trabalho escravo no tempo presente (Barras, Piauí).

2 É a limpeza do mato denso que cresce em área anteriormente derrubada e formada em pasto. Utiliza-se a foice como instrumento de trabalho.

3 SILVA, Maria Aparecida de Moraes e MENEZES, Marilda Aparecida. Migrações Rurais no Brasil: velhas e novas questões. Disponível em: www.nead.org.br. p.6.         [ Links ]

4 CEPETE - Comissão Estadual de Prevenção ao Trabalho Escravo Piauí - Brasil. Diagnóstico do Trabalho Escravo do Piauí, 2003 e 2004. Teresina, 2005.         [ Links ]

5 Para esse Diagnóstico foram entrevistadas 367 famílias de trabalhadores migrantes, nos municípios considerados como os que possuem os maiores índices, dos quais União, Miguel Alves e Barras compõem o grupo 1, e Esperantina, Corrente, São Raimundo Nonato e Uruçuí formam o grupo 2.

6 FRANCISCO Lino do Nascimento Silva. Entrevista concedida a Cristiana Costa da Rocha (doravante CCR) em 6 jul. 2008, no município de Barras.

7 LINA Gonçalves da Silva. Entrevista concedida a CCR em 6 abr. 2009, na cidade de Barras.

8 BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 2.ed. São Paulo: T. A. Queiroz; Edusp, 1987.         [ Links ]

9 SÔNIA Maria de Sousa Santos. Entrevista concedida a CCR em 7 jul. 2009, na cidade de Barras.

10 CASTRO, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. 8.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.         [ Links ]

11 RIOS, Kênia Sousa. A Batalha de João nas Terras do Sem Fim. In: GONÇALVES, Adelaide; COSTA, Pedro Eymar Barbosa (Org.). Mais borracha para a vitória. Fortaleza: Mauc/Nudoc; Brasília: Ideal, 2008. p.50.         [ Links ]

12 BRUNO de Oliveira. Entrevista concedida a CCR em 11 fev. 2007, no município de Barras.

13 RAIMUNDO Batista. Entrevista concedida a CCR em 11 fev. 2007, no município de Barras.

14 Expressão utilizada por Euclides da Cunha (1999) ao descrever a Amazônia.

15 FRANCISCO Lino do Nascimento Silva Filho. Entrevista concedida a CCR em 6 jul. 2008, na cidade de Barras.

16 Na circunstância, a ONG Cáritas Brasileira, com o apoio da Fetag-PI, do SPM e da DRT-PI, coordenava um projeto de combate ao trabalho escravo em algumas comunidades rurais do município, consideradas as mais carentes e de onde sai o maior número de migrantes para o trabalho escravo.

17 FRANCISCO MOREIRA da Silva. Entrevista concedida a CCR em 2 out. 2007, na cidade de Barras.

18 PORTELLI, Alessandro. Sonhos ucrônicos: memória e possíveis mundos dos trabalhadores. Projeto História, São Paulo: PUC, n.10, 1993. p.43.         [ Links ]

 

 

Artigo recebido em 15 de agosto de 2012.
Aprovado em 26 de outubro de 2012.

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