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Revista Brasileira de História

On-line version ISSN 1806-9347

Rev. Bras. Hist. vol.34 no.68 São Paulo July/Dec. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01882014000200015 

ENTREVISTA

 

Patrick Manning

 

 

Alexandre Fortes

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Editor da Revista Brasileira de História. fortes.ufrrj@gmail.com

 

 

Buenos Aires, 10 de agosto de 2013

Patrick Manning, professor da Universidade de Pittsburgh, EUA, é um pesquisador consagrado e pioneiro no estudo da diáspora africana e dos fluxos migratórios globais na perspectiva da História Mundial. O professor Manning tem se destacado ao longo das últimas décadas na articulação de redes continentais de pesquisadores interessados em explorar os potenciais da História Global, processo do qual resultou a criação da Network of Global and World History Organizations (NOGWHISTO), entidade afiliada ao Comitê Internacional das Ciências Históricas (CISH). A entrevista foi concedida durante o Coloquio Internacional Latinoamérica y la Historia Global.

Patrick Manning, professor at the University of Pittsburgh, is a well-known and pioneering researcher of the African diaspora as well as of the global migration flows, always from the World History perspective. Professor Manning has distinguished himself through the last decades in the setting up of continental networks of researchers interested in exploring the potentials of Global History, a process that resulted in the creation of the Network of Global and World History Organizations (NOGWHISTO), affiliated to the International Committee of Historical Sciences (CISH). The interview was recorded during the Coloquio Internacional Latinoamérica y la Historia Global (International Conference Latin America and Global History).

Professor Manning, agradeço-lhe por conceder esta entrevista à Revista Brasileira de História.

É um prazer falar com você nestas circunstâncias.

A primeira coisa que eu gostaria de fazer é lhe perguntar sobre sua trajetória intelectual: sua formação; quando e por que decidiu se tornar historiador; quais foram as decisões mais importantes que tomou em sua carreira.

Eu me criei no sul da Califórnia e entrei na faculdade em 1959, logo após o Sputnik. Assim, eu era aluno de Química em uma época em que a maioria dos meus colegas estudava Física, na tentativa de alcançar os russos. No entanto, percebi que estava mais interessado em História e descobri disciplinas de História da África quando era aluno de graduação. Então fui para a pós-graduação em 1963, em História da África, logo após ela ter sido estabelecida como campo de estudos, em Wisconsin. Mas também aconteceu que, no meu primeiro semestre na pós-graduação, nós lemos The Rise of the West, de William McNeal, que tinha acabado de ser publicado, e então realmente me iniciei tanto em História da África quanto em História Mundial logo de início. Optei por fazer história da economia e história dos países africanos de língua francesa, e não abandonei essas decisões.

Por causa de problemas familiares, pelo fato de ter me divorciado e de querer ficar perto dos meus filhos, acabei trabalhando em um community college,1 uma instituição pública, por um período bastante longo. E isso fez de mim, creio eu, alguém mais orientado para ensinar e organizar as coisas. Eu era atuante, fui presidente do sindicato dos professores por alguns anos e trabalhei por um ano como articulador para a Federação de Professores da Califórnia. Isso faz parte da minha herança familiar, meu pai também foi militante sindical.

Mas o campo de estudos da história econômica da África simplesmente não decolou. E a razão, como decidi retrospectivamente, foi que a visão da África nas mãos dos definidores de políticas públicas, especialmente das organizações internacionais, considerava esse lugar apenas como matéria-prima para ser transformada, e não como uma região com história, que tinha uma trajetória contínua de padrões com os quais era preciso se envolver. O trabalho histórico, especialmente o trabalho da história econômica, não era levado a sério.

Assim, acabei passando para a história demográfica. Interessei-me pelo impacto do comércio de escravos. Havia muitos estudos sobre o assunto naqueles tempos – os anos 1970 e 1980 e o início da década de 1990 –, e fiz um trabalho que era uma simulação demográfica do impacto do comércio atlântico de escravos sobre a população da África. Trabalhei naquilo durante certo tempo e publiquei um livro [Manning, 1990]. Ainda estou trabalhando no assunto e estou quase terminando um manuscrito que é uma estimativa da população na África de 1650 a 1950, mostrando que as populações do continente são muito maiores do que as listadas nas estimativas comuns, e assim por diante.

Passei por vários empregos e acabei na Northeastern University, onde lecionei de 1984 a 2006, e fui nomeado conjuntamente para as disciplinas de História e Estudos Afro-Americanos. Foi bom ter sido nomeado para estudos interdisciplinares, para trabalhar com colegas em outros campos. Isso me levou a estudar a Diáspora Africana, e publiquei um livro em 2009 que fala sobre ela durante, basicamente, os últimos seis séculos, incluindo o continente africano como um todo, bem como as Américas, a Europa e a Ásia [Manning, 2009]. O livro enfocou especialmente a história econômica e social, que é meu ponto forte, mas nós o chamamos de "história através da cultura", enfatizando que, até o século XX, o registro escrito das pessoas da África e da Diáspora Africana era muito esparso, embora exista o registro da cultura popular, da vestimenta, da música, da culinária e de todos esses modos de buscar a voz das pessoas naquele tempo. Essa é a "história através da cultura".

Nesse meio tempo, na Northeastern, desde pouco antes de 1990, eu de fato me formei, seriamente, como historiador mundial. Comecei a ler muito e a escrever sobre isso, e consegui que fosse aberto um programa de pós-graduação, um programa de doutorado. Nós não tínhamos um programa de doutorado na Northeastern, mas conseguimos abri-lo e, de 1994 a 2004, orientei um número considerável de teses em história mundial. Na verdade, lecionei duas disciplinas de pós-graduação por ano, então tive uma experiência que não vai se repetir, de lecionar mais disciplinas de pós-graduação em História Mundial em diferentes campos do que qualquer outra pessoa, acredito. Foi uma luta naquela época, acho. A maioria dos historiadores, inclusive os historiadores mundiais mais experientes, não achava que deveria haver estudos em nível de pós-graduação naquela área. Os doutores deveriam se formar em algum campo de estudos regional do mundo e então esperar até a crise da meia-idade para de fato assumir o trabalho em história mundial. Mas acho que nós agora demonstramos que estudantes de pós-graduação podem assumir o trabalho em história mundial, e faz diferença quando o seu primeiro modo de pensar as coisas é ligá-las ao longo do tempo, do espaço e das disciplinas, quando esse não é seu modo auxiliar de pensar as coisas. Se você fizer isso ao longo de uma carreira longa, então há esperança de que, ao final dessa carreira, você conseguirá ter percepções realmente avançadas, e não o que temos agora, que são pessoas que começam seu trabalho na meia-idade, em uma segunda língua, nos estudos globais.

Quando o programa na Northeastern se enfraqueceu, dediquei-me a resumir minha experiência e escrevi um livro chamado Navigating World History, que foi a primeira revisão abrangente do campo da História Mundial, ligando a evolução da profissão de historiador com a evolução das várias outras disciplinas com as quais a história interage, e então examinando a literatura histórica, em termos de história mundial, e com uma seção sobre metodologia ("O que penso sobre os métodos da História Mundial?") e uma sobre formação em nível de pós-graduação [Manning, 2003].

Você mencionou que seu pai foi um militante sindical e que você mesmo teve essa experiência como líder em sindicatos de professores. E disse que se interessou pela História da África em 1959. Enquanto passava por sua formação em História da África, você viveu alguns momentos muito importantes do movimento dos direitos civis. Eu gostaria de ouvir um pouco sobre essas conexões.

É claro! Eu me criei em Los Angeles, e meu pai foi um trabalhador na indústria aeronáutica durante a Segunda Guerra Mundial e, após a guerra, na indústria automotiva, como representante sindical. Ele foi demitido da indústria aeronáutica, então trabalhou na indústria automotiva; foi novamente demitido, então trabalhou na construção civil, onde há tantos empregos que a gente não pode ser demitido. Assim, ele trabalhou no Laborer's Local 300 em Los Angeles [sindicato que representa os trabalhadores da construção civil no condado de Los Angeles], um trabalho sindical de base, e isso teve seus efeitos. Aquele sindicato ainda existe, ainda dá um apoio educacional substancial aos filhos de seus membros. Quando se aposentou, ele foi trabalhar na Federação Sindical Mundial, foi o representante dos Estados Unidos nessa entidade de 1977 até 1991, e ainda vive na República Checa.

Quanto a mim, havia uma consciência das lutas pelos direitos civis na área de Los Angeles. Eu vivia em uma área operária etnicamente diversificada, de certa maneira. Não havia muita agitação, mas havia os visitantes africanos que estavam passando por Los Angeles, e eu ouvia falar deles. Eu me lembro do verão de 1960, quando eu tinha terminado o Ensino Médio e tinha arranjado um trabalho temporário no mesmo emprego do meu pai e, enquanto dirigíamos para a escola e voltávamos para casa, podíamos ouvir no rádio sobre as lutas que aconteciam no Congo, com a independência em junho de 1960. E podíamos ouvir Patrice Lumumba falar. Mesmo que ele estivesse sendo traduzido do lingala para o francês e do francês para o inglês, pelo rádio, o poder de sua retórica e sua capacidade de simplesmente seguir em frente, não importando quantas más condições houvesse na política no Congo, eram realmente impressionantes. Isso foi em junho e julho, e ao final de julho Lumumba foi afastado. A história daquele país estava seguindo seu caminho. Era interessante, e isso foi importante. Fui para a pós-graduação e minha existência se tornou muito focada, aprendendo economia, tentando estudar a história desse país com o qual escolhi trabalhar.

Mas trabalhar em um community college e sentir a mão forte do empregador me fez trabalhar no que estava ajudando a fortalecer o que na época era um modesto e pequeno sindicato de lá, e chegamos, por fim, ao ponto de sermos os representantes oficiais. Com isso eu aprendi técnicas de colaboração com pessoas, de encontrar pessoas, de publicidade e coisas assim, das quais eu gostava e com as quais tínhamos algum sucesso, e consegui pô-las em prática em termos acadêmicos mais tarde em minha vida.

Imagino que o interesse geral pela História da África tenha surgido com o movimento dos direitos civis...

Sim. Quando comecei a estudar História da África, imaginei que iria estudar a África por um tempo e que mais tarde traria isso de volta e estudaria os Estados Unidos. Mas havia simplesmente coisas demais para aprender sobre a África e, agora, com o livro sobre a Diáspora Africana, 30, 40 anos depois eu volto para incluir o lado estadunidense das coisas.

Assim, sempre que abordo essa questão eu falo não apenas sobre o movimento dos direitos civis, mas sobre o movimento dos direitos civis e sobre a descolonização ao mesmo tempo. Penso nisso como um movimento global de antirracismo, e aprendi, depois, a separar a descolonização da África e do Caribe nos anos 1930 e 1960 da descolonização da Ásia nos anos 1940 e no início da década de 1950, duas importantes ondas que são interessantes.

Então você começou a trabalhar nesse community college nos anos 1960.

Sim, trabalhei lá de 1968 a 1982. Trabalhei num community college criado em 1968 na Península de São Francisco. Era um ambiente social extraordinário, havia pessoas de todos os estratos da sociedade. Naquele tempo, quando tudo estava sendo questionado, perdi minha chance, não pensei em escrever um romance.

Como você explicaria, em termos gerais, essa passagem? Porque você falou que no começo estava interessado em História da África e em História Mundial. Mas, falando sobre essa tendência historiográfica geral, como você entende essa passagem? Por que as pessoas estão tão interessadas em história mundial? E como essas coisas mudaram durante diferentes momentos da sua trajetória, do final dos anos 1960 até seu trabalho atual?

Muito boa pergunta. Eu me dou conta de que vou dar diferentes tipos de respostas, ou que vai haver diferentes partes em minha resposta, porque elas são percepções que tive em diferentes momentos, inclusive muito recentemente. Estou em um estágio da minha carreira no qual as pessoas me pedem para escrever coisas em retrospectiva sobre o campo de estudos, e assim por diante.

Uma resposta é que eu tive uma educação internacionalista. Sabe, isso tinha a ver com uma perspectiva pessoal dos meus pais, mas também com onde eles estavam. Minha mãe era artista e estava interessada em arte de todos os lugares. E meu pai, em parte por razões políticas, mas muito por razões pessoais e culturais, estava muito interessado em lugares. Assim, eu me criei ouvindo música de todo o mundo, e isso se fixou profundamente em minha alma. Música caribenha e música da Ásia Central, e coisas desse tipo.

Mas isso também é uma questão da época. Eu me criei na era imediatamente pós-guerra. Assim, havia aquela conexão global da qual as pessoas se esqueceram gradativamente. Na medida em que me interessei por Estudos da África, percebi esse estreitamento, ao ver outras pessoas de fora do continente que também tentavam entender a história e a cultura da África. Aquilo significou apenas mais e mais foco em áreas menores, por algum tempo, antes que tivéssemos desenvolvido a coragem de ligar o que aprendemos com conexões mais amplas. Isso é uma trajetória individual e, também, certo efeito de grupo.

Estou fazendo, agora, uma comparação entre a História da África e a História Mundial. A História da África se organizou nos anos 1950 e 1960, criou instituições, programas de pós-graduação, bibliotecas, realmente trabalhou para se estabelecer integralmente. Havia textos sobre História Mundial naquele tempo, mas eram textos individuais de pesquisadores experientes trabalhando por conta própria, sem que houvesse muito em termos de instituições. Instituições voltadas à História Mundial se desenvolveram seriamente a partir da década de 1990. Os Estados Unidos tiveram um início precoce, mas foi bastante modesto. A World History Association formou-se em 1982. Sua revista começou em 1990. Havia programas que tinham alguma coisa de estudos de pós-graduação em História Mundial, mas nosso programa na Northeastern, criado em 1994, foi o primeiro curso formal em História Mundial. Mas por 10 anos tivemos de lutar contra pessoas que achavam que não deveríamos fazer aquilo.

Estou apenas narrando, não estou dando uma explicação para isso. Houve o abalo do mundo em 1989 e 1992, e o fato de as pessoas começarem a usar o termo "globalização". Não sei se o mundo em si mudou tanto assim, apesar de o fim da Guerra Fria ser muito importante, assim como o colapso do regime minoritário da África do Sul. Mas a disposição das pessoas em reconhecer padrões globais mudou em muitos níveis diferentes. É claro que o impulso inicial era fazer aquilo em termos inteiramente contemporâneos, e não concebê-lo como fatores históricos. As reflexões sobre isso levaram as pessoas a finalmente começar a fazer isso, e é nesse estágio que estamos agora, de uma tentativa séria de pensar em padrões de longo prazo em um nível global, não apenas em padrões locais. Os estudos interdisciplinares cresceram em termos de sofisticação, e talvez os historiadores tenham se tornado um pouco mais corajosos no sentido de se apresentar como cientistas sociais capazes não apenas de fornecer um pano de fundo, mas de entrar em um discurso sério com economistas e sociólogos sobre a natureza da mudança social, e de realmente afirmar que o fator tempo, em toda a sua complexidade, deve receber muito mais atenção. Estamos em uma época que é boa para os historiadores.

Não sei se você concorda, mas tenho a impressão de que em outros momentos das últimas décadas muitas escolas diferentes ou grupos tentaram estabelecer marcos para entender o que poderíamos chamar de História Mundial. Mas, em geral, eles se tornaram grupos ou redes fechados, e agora há muito mais gente disposta a explorar um campo e suas conexões, aberta a diferentes abordagens, diferentes maneiras de fazer as coisas. Parece ser mais plural.

Acho que essa é uma interpretação valiosa. Estou tentando me apegar a isso agora. Temos a percepção de que há diferentes grupos isolados que trabalham em partes da história, por exemplo, o grupo de sistemas mundiais, como grupo – quero voltar a isso, porque quero falar sobre economia política e sua relação na história econômica, e assim por diante. Mas havia o FEEGI [Forum of European Exploration and Global Interaction], é um grupo pequeno sediado na Holanda, com historiadores dos primórdios das nações, que trabalhavam por conta própria, e havia outro grupo de civilizações... Esses são grupos que eu conheço da América do Norte e da Europa, e eles faziam seus pequenos encontros. E havia, também na América do Norte, um debate entre história mundial e história global que irrompeu nos anos 1990. E ao falarmos em História Mundial você ainda ouve história global, história internacional, histoire croisée, como se fossem campos de estudo completamente diferentes. Mas nós agora temos uma percepção muito mais fácil delas. Quando você começa a falar sobre o mundo, é muito complicado. Há no mínimo tantas dimensões na História Mundial – porque estamos considerando todas as outras conexões – quanto há em todos os outros campos da história, pegando pequenas partes de cada vez. Estamos desenvolvendo uma maneira mais ampla de incorporar tudo isso, o que significa que cada indivíduo tem de desenvolver sua força e passar de uma perspectiva analítica para outra, de um conjunto de prioridades para outro. Os historiadores, no passado, tendiam a fazer isso apenas com ecletismo, recusando-se a ficar amarrados a qualquer estrutura analítica, mas isso é muito limitado, nos torna vulneráveis às declarações firmes de alguém que trabalha com base em uma teoria particular ou uma ideologia particular. Há algo se desenvolvendo no pensamento histórico que preserva o ecletismo e a devoção ao registro histórico, mas que também é analiticamente aguçado, tem conhecimento de causa e é capaz de passar de uma coisa para outra.

A observação que eu queria fazer sobre a economia política é esta: conheci André Gunder Frank bastante bem entre 1994 e sua morte, em 2005. Houve uma conferência em Pittsburgh em 2008, e publicamos um livro em sua memória, com base nisso, e coube a mim escrever os capítulos inicial e final da obra. E pensar sobre o desenvolvimento da economia política global dos anos 1960 e 1970, quando Wallerstein, Gunder Frank, Samir Amin e Laclau estavam escrevendo seus textos, até hoje, e a comparação que eu faço é com o pioneiro trabalho anti-imperialista de Lênin, Hobson, Rosa Luxemburgo, Hilferding etc. Esses primeiros foram trabalhos individuais extraordinários, mas, com exceção de Schumpeter, todos eles desapareceram, e nós temos apenas os trabalhos em si. No caso dessas últimas pessoas, todas tiveram vidas longas, tiveram discípulos, o discurso se sustentou e desenvolveu. Então aquela economia política, isto é, que ia além do olhar neoclássico voltado apenas aos fatores econômicos, mas incluía a análise social ao lado da análise econômica, agora tinha mais de meio século de desenvolvimento sofisticado e está apta a enfrentar a economia neoclássica. Ela ainda é pequena, comparativamente, e, aliás, o campo da economia tem tido que evoluir para levar em conta o trabalho da análise da economia mais crítica e inclusiva.

Essa é uma história e uma parte específica dos estudos da História Mundial. Ainda acontece de os historiadores mundiais não falarem muito com o pessoal da economia política global. Felizmente para mim, a revista científica de análise de sistemas mundiais, Journal of World Systems Research, é editada agora na Universidade de Pittsburgh, de modo que temos conexões diretas e muito intercâmbio entre a revista e nós... Acabo de fundar uma revista científica com meus colegas, chamada Journal of World Historical Information. Ela tem a ver com apoio para coletar um grande conjunto de dados históricos. Estamos trocando dados e resenhas com a Journal of World Systems Research. Assim, acho que em outros domínios das ciências a gente pode encontrar casos de ampliação e maior aprofundamento na análise das ciências sociais, e, assim, a experiência que temos tido na abertura e flexibilidade nessa conversa pode ser uma confluência de uma série de acontecimentos que são, em certo sentido, independentes, mas dão aos historiadores conforto para trabalhar em níveis que são mais amplos do que aqueles nos quais trabalhavam antes.

Então vamos falar sobre esse trabalho no qual você está envolvido, de desenvolver essas redes e suas conexões com a Unesco.

Bem, talvez eu sempre tenha tido interesse por instituições, de modo que passei algum tempo com instituições de empregados, com programas de pós-graduação, que são instituições... Basta pensar que não é o trabalho intelectual em si, mas criar instituições-chaves marca e, de certo modo, faz avançar a mudança histórica. Assim, a criação da Unesco, em 1945, resultou do consenso de que deveria haver uma organização ampla de atividades educacionais, sociais e culturais. Um biólogo britânico que a fundou, chamado Julian Huxley, verdadeiro visionário, escreveu um bom resumo de quarenta páginas sobre o que a Unesco poderia ser. Isso realmente precisa ser republicado em uma edição crítica. A visão daquele momento. Ele era um cientista da evolução, então falou sobre a evolução social e sobre a evolução biológica. Há um modo interessante de falar sobre o trabalho científico em cada campo, em termos do trabalho que há na estrutura da Unesco, pois existem, para cada uma das três áreas (ciências naturais, ciências sociais e humanidades), essas sedes abrangentes de burocracias apenas. Mas, em meio a elas, há várias disciplinas, e dentro delas há os filiados nacionais e os filiados disciplinares. Isso proporciona uma arena para todo tipo de jogos complicados.

O exemplo que geralmente dou é que Immanuel Wallerstein pôde ser eleito presidente da Associação Internacional de Sociologia, mas ele nunca poderia ter sido eleito presidente da Associação Americana de Sociologia. A interação entre as associações nacionais de países poderosos e depois a associação geral internacional dependem do que está em jogo, em cada caso.

Uma lição importante, aprendida antes de a Unesco ser formada: a predecessora da Unesco foi formada ao final da Primeira Guerra Mundial, mas não queriam deixar os alemães e os austríacos entrarem. Cientificamente, isso era ridículo, dado o poder intelectual da Europa Central naquela época. Assim, em 1931, as organizações anteriores foram abolidas e criaram-se novas, que eram exatamente as mesmas, para admitir os alemães, os austríacos e os soviéticos. E o princípio estabelecido era o da tolerância acadêmica – "Você está dentro, não importa as ideias estúpidas que sua associação nacional defenda". E isso tem sido mantido desde então, e foi uma grande mudança.

Assim, é uma arena realmente interessante. Eu perguntei: "Qual é o lugar da história nisto?". Uma coisa que posso dizer é que os desdobramentos e as mudanças nas ciências naturais têm sido cheios de vida. Muitas novas organizações foram formadas, e assim por diante. Nas humanidades, menos, e nas ciências sociais, menos ainda. As ciências sociais parecem estagnadas. Eu não acho que esse seja o caso, mas as ciências sociais têm analisado as coisas de maneira mais e mais aguçada, em escalas cada vez menores. Creio que estamos agora em uma época na qual a história pode desempenhar um papel realmente importante, ampliando as ciências sociais, utilizando todas as novas tecnologias, mas também ao utilizar as observações que foram desenvolvidas nos séculos passados.

O trabalho que estou fazendo ao construir esse grande conjunto de dados implica trabalhar com pessoas das ciências naturais e tentar me apropriar de algumas das mudanças estruturais, e parece que isso pode funcionar bem na história. Assim, o mapa da história, das ciências sociais e das humanidades pode mudar muito no futuro.

Esses são alguns dos pensamentos que tenho desenvolvido desde que mergulhei nesse simples desejo, o de que a Associação Americana de História Mundial "por favor" pense amplamente. Se você é um historiador mundial, não deveria estar pensando sobre a história mundial do pensamento? Por isso existe a Unesco. A Associação de História Mundial não deveria se tornar membro do Conselho Americano de Sociedades Científicas? E, finalmente, ela fez isso.

Isso quer dizer que a visão dos historiadores era tão estreita e isolada que eles não queriam estudar, muito menos tomar parte como lideranças em organizações. Estou falando com alguém que é de Porto Alegre, onde o tempo todo há pessoas que aparecem e falam sobre mudar o mundo. A academia não se parece muito com isso.

Bem, a história que relatei é que, por fim, a Associação Americana de História Mundial se dirigiu ao CISH – Comité International de Science Historiques – e pediu que fosse reconhecida como uma filiada mundial, e o CISH disse: "Não, vocês são apenas americanos, vocês não representam o mundo".

A propósito, tenho aprendido muito nos últimos 10 ou 15 anos sobre o que significa ser americano e tentar participar do desenvolvimento de organizações sediadas em outras regiões do mundo. É um jogo complicado e tenho tido sorte na sua evolução, mas, de vez em quando, tomo alguma medida que se mostra equivocada nesse sentido.

Em determinado ponto da minha carreira, quando eu estava me preparando para sair da Northeastern, tentando responder a essa orientação que nos foi dada pelo CISH, me dei conta de que deveríamos formar uma organização global de historiadores mundiais. E eu tive a sorte de conseguir algum dinheiro para trabalhar nisso. Contarei a história brevemente: eu tinha coordenado a produção de um CD-ROM chamado Migration in Modern World History, que nos deu dinheiro para apoiar estudantes de pós-graduação. Foi um exercício maravilhoso sobre estudos de migração. Isso realmente se tornou meu foco intelectual – a migração, as maneiras de conectar pessoas ao redor do mundo. Aqueles CD-ROMs não estavam indo a lugar algum, então isso não teve, de fato, muita influência. Não estavam sendo utilizados muito amplamente. Mas, ainda assim, trouxeram muito dinheiro de royalties, e, basicamente, temos utilizado esses royalties nos últimos 10 anos para financiar encontros na Ásia, na África e na América Latina, e alguns na América do Norte. É só conseguirmos dinheiro suficiente para comprar passagens de avião, e as coisas mais extraordinárias podem acontecer.

Assim, com base em pessoas que conheci e às quais fui apresentado..., eu tinha conversado com Mathias Medell e seus colegas em Leipzig sobre um plano para formar organizações continentais, e estava em condições de tomar a iniciativa, por isso organizei um encontro em Tianjin, na Universidade de Nankai, em 2008, onde havia oito pessoas do Japão, da Coreia, da China, de Cingapura, da Índia, da Malásia e da Austrália, além de mim. Isso era o suficiente, e formamos uma organização que acabou sendo maravilhosamente bem-sucedida. Eles promoveram dois grandes congressos, têm uma revista científica... e isso na Ásia. Mesmo em tempos de recessão econômica, há dinheiro, há boas subvenções. Essa é uma região em que as pessoas realmente estão construindo uma vida intelectual acadêmica. E isso é bom.

Mais tarde, em 2008, formamos uma estrutura da NOGWHISTO – Network of Global and World History Organizations [Rede de Organizações de História Global e Mundial] –, em um encontro em Dresden, que teve algum tipo de representação de cinco diferentes regiões continentais. Eu e Alejandra Irigoin éramos os representantes da América Latina naquela época. E aquilo criou um espaço para a América Latina, um espaço para a África. Tivemos um encontro africano em 2009, em Nilore, na Nigéria. Para a América Latina, achei que sempre seria o mais difícil. Não por falta de interesse, nem por falta de pesquisa avançada na região, mas por uma combinação de fatores. Não sou especialista, li pouco sobre a História da América Latina – tenho dificuldade de me expressar em espanhol e português – então minha visão é basicamente a de alguém de fora. A experiência diz que há uma clara consciência latino-americana, mas onde os historiadores, não obstante, trabalharam em nível nacional. Em conversas, eles falavam das coisas em nível global, mas não as colocavam no papel. O outro fator era a forte sobreposição do trabalho norte-americano no latino-americano. Eu estava determinado a que a organização começasse aqui, começasse com pessoas que se criaram e fizeram seu trabalho aqui – gastar tempo para permitir algo que pareça orgânico e não imposto por alguém de fora.

Conversamos com várias pessoas, em vários momentos. Alejandra Irigoin, por exemplo, se criou na Argentina, mas estudou fora do país, e estava trabalhando nos Estados Unidos naquele momento, e enquanto trabalhávamos juntos teve uma proposta de trabalho maravilhosa na LSE, o melhor emprego em História Econômica da América Latina fora da região. Então encontrei Sergio Serulnikov, alguém que estava interessado em assumir e tinha um excelente senso, uma abordagem realmente paciente para permitir que a coisa se desenvolvesse. Ele fez seu doutorado nos Estados Unidos, e durante anos nós trabalhamos a apenas alguns metros um do outro, porque eu lecionava na Northeastern University e ele, no Boston College. Eu não o conhecia naquela época...

Assim, a gente nunca escapa da conexão norte-americana. Sei disso pelos Estudos da África, a colaboração entre as pessoas que se criaram e vivem na região e aquelas que se tornam especialistas e aficionadas de fora pode ser muito próxima, mútua e muito favorável, mas não é a mesma coisa. As perspectivas das pessoas – quero dizer de maneira geral, não numa classificação étnica – são que as pessoas que trabalham de um ponto de vista vão olhar para a história diferentemente das pessoas que a olham de outro ponto de vista. Assim, o segredo na formação de um grupo como temos agora, da rede que está se formando para a América Latina, é que todos os diferentes pontos de vista e perspectivas sejam intercambiados, equilibrados, discutidos etc.2

Mas o que vimos no encontro de ontem é que estamos em um momento no qual há confiança e apoio mútuo, e assim por diante. Assim que você mencionou a ideia de uma reunião no Brasil, as pessoas encamparam a ideia, e houve momentos em que isso não teria acontecido dessa maneira. As vozes chilenas, peruanas e mexicanas levantaram-se imediatamente. Portanto, há uma excelente chance de que a estrutura vá se cristalizar dessa maneira, temos as vantagens de uma instituição que é formada da maneira correta. O projeto seguinte é, por um lado, a consolidação interna e, por outro, a abertura de discussões com historiadores de outras regiões. Sergio está particularmente interessado nisso, e seu interesse será extremamente útil.

Parece-me possível que um número relativamente pequeno de historiadores tenha uma grande influência nos estudos históricos. Apenas porque o campo de estudos da história é tão ingrato em sua organização nacional, a ponto de que escrevemos em termos transnacionais ainda a partir de pontos de vista nacionais. Mas a possibilidade de, ao longo dos próximos 20 anos, existir uma facção significativa que desenvolva não um discurso comum, mas um debate compartilhado sobre modos de olhar o mundo de diferentes pontos de vista, poderia ser realmente importante.

Deixe-me fazer uma última pergunta. Você mencionou João José Reis como amigo e colega, e também mencionou Luiz Felipe de Alencastro. Quanto você sabe sobre outros trabalhos e autores em História do Brasil? Você tem acompanhado alguma coisa sobre os trabalhos em geral em História do Brasil nas últimas décadas?

Não, realmente não tenho acompanhado. Tive a sorte de encontrar e conhecer bastante bem, de visitar dois pesquisadores que são importantes em áreas diferentes da História do Brasil, áreas que se sobrepõem significativamente ao meu próprio trabalho. Reis e eu estudamos juntos história quantitativa no Newberry Library Summer Institute, e isso foi em 1978-1979, em Chicago. Depois eu tenho me encontrado com ele de tempos em tempos. E conheci Luiz Felipe em uma conferência sobre escravidão em Boston, acho que no começo ou em meados dos anos 1980.

E fiz uma viagem ao redor do Atlântico em 1991. Em meio a toda a turbulência social daquela época, eu queria escrever um livro sobre intercâmbios globais – um historiador que olha as coisas que estão acontecendo neste exato momento. Vou resumir essa história: eu passei umas duas semanas no Brasil, uma semana em Salvador e outra em São Paulo, algum tempo no Rio com ele. Assim, não tenho lido, em geral, sobre História do Brasil, nem tentei acompanhá-la. Quando estive lá, só queria trabalhar duro no meu português e aprender. Porque tenho voltado ao Brasil em viagens curtas para conferências e coisas do tipo, e então parto e minha atenção é desviada pelo que mais esteja acontecendo – então vamos ver o que acontece comigo, nessa questão. Mas de vez em quando algo vem naturalmente. Assim, recebi este material de Heitor Moura, um historiador não filiado que está fazendo um trabalho interessante com projeções das populações de Pernambuco ao longo do tempo, com base em registros de lá. Esse é um exemplo do tipo de trabalho de reconstrução de dados históricos que poderia estar acontecendo no mundo todo. Assim, estamos considerando a publicação do artigo de Moura na Journal of World Historical Information. Infelizmente, esse é o retrato que tenho do Brasil e da História do Brasil, feito de pedaços e fragmentos.

O interesse em História da África tem aumentado muito no Brasil, especialmente com uma preocupação mais geral de repensar as relações de raça e com todos os programas de ação afirmativa. Também temos, agora, uma lei que prevê o ensino da História Africana e Afro-Brasileira desde o Ensino Fundamental. Temos um grande movimento de pessoas sendo formadas em História da África, então você provavelmente receberá mais convites do Brasil, com mais pessoas interessadas em seu trabalho, acho eu.

Sim, a Associação para o Estudo da Diáspora Africana no Mundo [ASWAD, na sigla em inglês] teve um encontro no Rio de Janeiro, em 2006. Tivemos a presença de ministros naquela ocasião, as emissoras de televisão estavam lá, então isso se encaixava bem no programa do governo. Foi maravilhoso ter o apoio, e aproximadamente uma centena de pesquisadores afro-brasileiros no evento. Foi um grande encontro de pesquisadores afro-americanos e afro-brasileiros, uma reafirmação em ambos os lados.

Mas também sei do começo dos anos 1990, quando houve uma grande onda de mudanças na Colômbia, na Venezuela e no Equador e, em menor grau, no Peru e acho que na Argentina. Um reconhecimento da ancestralidade africana, e isso significou mudanças na lei, no financiamento de terras, nas escolas e assim por diante. Assim, com base nisso, o currículo e a pesquisa se desenvolveram substancialmente aqui. Isso não é tão bem entendido na América do Norte, provavelmente é mais bem entendido na África do que na América no Norte. Mas isso é uma mudança significativa nos Estudos da Diáspora Africana. Acredito ter dado grande e séria ênfase a isso no meu livro sobre a Diáspora Africana, mas pude fazer isso sem realmente conhecer tudo o que está acontecendo no Brasil.

Muito obrigado!

Espero que isso seja proveitoso para vocês, e, em todo caso, foi divertido de fazer.

 

REFERÊNCIAS

MANNING, Patrick. The African diaspora: a history through culture. New York: Columbia University Press, 2009.         [ Links ]

_______. Navigating world history: historians create a global past. New York: Palgrave Macmillan, 2003.         [ Links ]

_______. Slavery and African life: occidental, oriental, and African slave trades. Cambridge, New York: Cambridge University Press, 1990.         [ Links ]

 

 

Entrevista recebida em 7 de julho de 2014.
Aprovada em 15 de outubro de 2014.

 

 

Transcrição: Maia Gonçalves Fortes; Tradução: Luís M. Sander

 

 

NOTAS

1 Community college: instituições de ensino superior que oferecem cursos de 2 anos voltados a alunos de baixa renda, os quais em geral não conseguem acesso direto a universidades de elite após concluírem o ensino médio.

2 O professor Manning se refere à Red Latinoamericana de Historia Global (http://redhistoriaglobal.wordpress.com), configurada no Coloquio Internacional Latinoamérica y la Historia Global, realizado em Buenos Aires em 7 e 8 de agosto de 2013.

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