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Revista Brasileira de História

Print version ISSN 0102-0188On-line version ISSN 1806-9347

Rev. Bras. Hist. vol.35 no.69 São Paulo Jan./June 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1806-93472015v35n69008 

Dossiê: Pós- abolição no Mundo Atlântico

Os perigos dos Negros Brancos: cultura mulata, classe e beleza eugênica no pós-emancipação (EUA, 1900-1920)1

Giovana Xavier da Conceição Nascimento *  

*Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Faculdade de Educação, Núcleo de Pesquisa Intelectuais Negras. Rio de Janeiro, RJ,Brasil. gixavier@yahoo.com.br

RESUMO

Por meio da articulação entre história social da cultura e do trabalho, o artigo discute o processo de fortalecimento da "cultura mulata" promovido por intelectuais afro-americanos das classes alta e média no período pós-emancipação. Ao analisar o "problema da liberdade" com base nos referenciais de beleza construídos por esses "novos negros", trago à cena textos e fotografias coletados das revistas The Half Century Magazine, de Boston, e The Crisis: a record of the darker races, de Nova York. Os magazines e outros títulos evidenciam que, entre 1900 e 1930, o sistema de segregação intrarracial baseado na tonalidade da pele ("colorismo") trouxe como consequência a "pigmentocracia". Ou seja, o privilégio da pele clara (light skin) em relação à escura (dark skin) no tocante às oportunidades de mobilidade social.

Palavras-Chave: raça; respeitabilidade; pós-emancipação

Em 1907, uma "morena evidente" foi forçada a retirar-se do "ônibus para brancos". Apesar dos "protestos" e "provas visíveis", a jovem, integrante de uma "influente família sulista", foi obrigada a sentar-se no transporte do "Jim Crow". "Afiadas" para sempre "detectar o sangue Africano", as pessoas do Sul o faziam ainda que o "alisamento do cabelo" ou a "clareza da pele" disfarçasse tal descendência. Até mesmo no Norte, onde as "linhas" (de cor) não eram tão "rigidamente definidas", a questão da "identidade equivocada" preocupava a população. Lá, tanto homens como mulheres, "perto da idade de se casar", eram aconselhados a investigar a fundo o pedigree de seus amores para afastar qualquer possibilidade de terem suas vidas ligadas a "Africanos disfarçados". A despeito das "complicações sociais e familiares", no Norte e no Sul pós-emancipados tornavam-se uma "tendência crescente" os casos de "homens e mulheres de cor" que se "passavam por brancos", quando assim o podiam fazer.

Figura 1 "Vagão [trem] do Jim Crow". Fonte: Schomburg Center for Research in Black Culture, General Research and Reference Division. Impressa com a permissão de Board of Directors, The Good Life Center. (Nearing, 1929). 

Apresentado pela The Colored American Magazine, o texto "Perigos do Negro Branco" (Williams, 1907, p.423) coloca-nos diante de uma complexa trama sobre os usos e significados que afro-americanos atribuíram ao seu corpo nas primeiras décadas do século XX, quando a manipulação do cabelo e da pele em busca da boa aparência tornou-se uma prática corriqueira na comunidade Negro. Universo pouco conhecido no Brasil, o caso, de pânico e rejeição para uns, de esperança e alívio para outros, nos ajuda a contar parte do processo histórico de construção de novas imagens agenciado por pessoas negras no mundo livre. Esse processo foi diretamente influenciado pelas políticas eugênicas e pelos valores da supremacia branca, que estimularam o colorismo negro,1 um sistema de hierarquização dos sujeitos com base na cor mais clara ou escura (Du Bois, 1903). Para entender tal sistema, cabe ressaltar que durante os anos da Reconstrução, muitos mulatos tornaram-se figuras dotadas de prestígio e influência política no país. Conhecidos como "novos negros", tais personagens integravam um segmento que se autoproclamava "aristocracia da cor". Uma sociedade de classes à parte nos Estados Unidos, uma "estrutura social paralela" (Kronus, 1971, p.4) a qual Du Bois nomeou como o "décimo talentoso" da raça negra (Du Bois, 1903).

Restritas no tamanho, mas grandes no capital cultural e econômico, as fileiras aristocráticas eram engrossadas por novas e novos negros como Booker T. Washington, o ex-escravo, que, filho de pai branco desconhecido, fundou o Tuskegee Institute no Alabama no final do século XIX; o sociólogo e historiador William E. B. Du Bois, primeiro afro-americano a doutorar-se na Harvard University e também um dos primeiros negros a tornar-se membro da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP);2 Fannie Williams, a distinta oradora que numa de suas biografias assegurava nunca ter vivido "discriminação por conta da cor" (Williams, 1904), e a escritora Paulina Hopkins, que conheceremos melhor mais adiante, entre outras personagens. Para continuar narrando nossa história, uma história que se refere à saga afro-americana na busca por respeitabilidade3 no mundo livre, trabalharei com imagens publicadas entre 1900 e 1920 e selecionadas de duas revistas: a The Colored American Magazine (TCAM), publicada em Boston, e a The Crisis, de Nova York e presente até os dias de hoje.

Ambos os periódicos compõem a vasta imprensa afro-americana, iniciada em princípios do século XIX. A TCAM é uma revista criada em 1900 e que circulou até 1909, primeiro em Boston, mudando-se em 1904 para Nova York. Subsidiado pela The Colored Co-operative Publishing Company, a publicação foi um dos primeiros impressos negros do começo do século XX. Com circulação nacional e tiragem de 15 mil exemplares, o mensário trazia artigos que celebravam a "mais alta cultura" religiosa, científica, cultural e literária do mundo afro-americano letrado. Uma de suas principais editoras foi a notável escritora afro-americana Paulina Hopkins, autora do romance Contending Forces: A Romance Illustrative of Negro Life, North and South. Já The Crisisdata de 1910 e refere-se a um magazine criado e subsidiado pela NAACP. Tendo o proeminente intelectual afro-americano Du Bois como editor, além de divulgar nomes, fotografias, livros e artigos sobre história, cultura, literatura e política produzidos por intelectuais das darker races (as raças mais escuras), a revista notabilizou-se por trazer à baila discussões sobre a luta pelos direitos civis e por denunciar os problemas do "Negro Americano", dentre eles, o perigo constante dos linchamentos. Além disso, diferenciou-se de muitas outras ao publicar reflexões de intelectuais brancos sobre o "problema da Raça Negra". Também com circulação nacional, em 1918, por exemplo, a The Crisis contava com a tiragem de 100 mil exemplares.4

A Figura 2 e as seguintes são compostas por pessoas mulatas com vestimentas impecáveis e semblantes sérios e compenetrados. Dona de intensa vida social expressa em saraus, recitais, almoços e jantares beneficentes, mas, sobretudo, graças a políticas de isolamento racial, a aristocracia da cor garantia a sua manutenção como grupo de privilégios, desde o período setecentista, conforme sugerem as observações de Du Bois:

Os mulatos que vemos na rua são invariavelmente descendentes de uma, duas ou três gerações de mulatos, [neles] a infusão de sangue branco provém do século XVII, [visto que em Nova York] somente em 3% dos casamentos das pessoas de cor uma das partes era "branca". (em Green, 1978, p.151)

Figura 2 A Vida Social da America Colored: uma reunião em pleno inverno em Baltimore, MD. Fonte: The Crisis: a record of the darker races, fev. 1912, v.4, n.2, s.p. 

Tabela 1 População total de Whites e Negroes, EUA, 1850-1920 5  

Ano População Total Número Whites Porcentagem White Número Negro Porcentagem Negro
1850 23.191.876 19.553.068 84,3% 3.638.808 15,7%
1860 31.443.321 26.922.537 85,6% 4.441.830 14,1%
1870 38.558.371 33.589.377 87,1% 4.880.009 12,7%
1880 50.155.783 43.402.970 86,5% 6.580.793 13,1%
1890 62.947.714 55.101.258 87,8% 7.488.676 11,9%
1900 75.994.575 66.809.196 87,9% 8.833.994 11,6%
1910 91.972.266 81.731.957 88,9% 9.827.763 10,7%
1920 105.710.620 94.820.915 89,7% 10.463.131 9,9%

Fonte: Tabela adaptada de "Color, or Race...", 1910, Table 3, v.1, p.127, 129.6

As Tabelas 2 e 3 mostram que os Mulattoes representavam a minoria da população afro-americana, situação inalterada desde os tempos da colonização inglesa em razão de uma série de políticas de incentivo à endogamia racial iniciadas pelos escravos light skin e perpetuadas por seus descendentes no pós-emancipação. Donos de capital cultural e econômico elevado, os negros de pele clara eram um grupo à parte, conforme sugerem os dados das referidas tabelas. Durante os 70 anos apresentados, tal segmento atingiu o pico de crescimento em 1910, quando representou 2.050.686 pessoas (2,23%). Enquanto isso, Negroes totalizavam 9.827.763 (97,77%) da população Black. O Quadro 1 permite compreender melhor a história das categorias raciais por meio das quais o grupo Negro era classificado aos olhos do Censo.

Tabela 2 População total Negro, dividida em Black e Mulatto, EUA, 1850-1920 

Ano Negro Black Mulatto
1850 3.638.808 3.233.057 405.751
1860 4.441.830 3.853.467 588.363
1870 4.880.009 4.295.960 584.049
1880 6.580.793 - -
1890 7.488.676 6.337.980 1.132.060
1900 8.833.994 - -
1910 9.827.763 7.777.077 2.050.686
1920 10.463.131 8.802.557 1.660.554

Fonte: Tabela adaptada de "Color, or Race...", 1910, Table 6, v.1, p.129.

Tabela 3 População Negro e Mulatto em relação à população total dos EUA 

Ano População Total dos EUA População Negro Porcentagem Negro População Mulatto Porcentagem Mulatto
1850 23.191.876 3.638.808 15,69% 405.751 1,75%
1860 31.443.321 4.441.830 14,13% 588.363 1,87%
1870 38.558.371 4.880.009 12,66% 584.049 1,51%
1880 50.155.783 6.580.793 13,12% - -
1890 62.947.714 7.488.676 11,9% 1.132.060 1,8%
1900 75.994.575 8.883.994 11,62% - -
1910 91.972.266 9.827.763 10,69% 2.050.686 2,23%
1920 105.710.620 10.463.131 9,9% 1.660.554 1,57%

Fonte: Tabela adaptada de "Color, or Race...", 1910, Table 6, v.1, p.129.

Quadro 1 Evolução das categorias de cor para Negroes no Censo dos EUA, 1850-1960 

Ano Categorias
1850 Black e Mulatto
1860 Black e Mulatto
1870 Black e Mulatto
1880 Black e Mulatto
1890 Black, Mulatto, Quadroon, Octoroon
1900 Black
1910 Black e Mulatto
1920 Black e Mulatto
1930-1960 Negro

Fonte: United States Bureau of the Census, 1790-1990.7 8

Com o Quadro 1 em mente, percebe-se que durante a vigência do Jim Crow, as imagens aqui mostradas, cuidadosamente orquestradas pelos fotógrafos das cidades de Boston e Nova York, indicam que setores da elite mulata construíram um padrão de beleza eugênico para representação da nova negritude. Alimentado pela pigmentocracia9 - valorização da pele clara em detrimento da escura no interior da comunidade afro-americana, tal padrão pressupunha a superioridade dos mulatos em relação aos seus "irmãos" mais escuros. Isso se materializava em textos e em expressões distintivas como "massa negra", usada pelos negros light-skin para se diferenciar daqueles dark-skin (pele escura).

Em relação à produção das fotografias, assim como ocorria com pessoas brancas, as representações de afro-americanos também são oriundas de todo um preparo prévio frente às câmeras.10 Menos do que simples preocupação com a aparência, tal investimento em poses e luzes demarca uma cultura impressa negra, com o propósito pedagógico de educar leitores e leitoras da raça mediante a publicação de imagens de pessoas conectadas a histórias de sucesso de "empresários progressivos", tais como o "político" William P. Moore, o "Professor" B. H. Hawkins, "proprietário do New National Hotel and Restaurant" e William Pope, o "presidente da Square Cafe" (Moore, 1904, p.305-307), dentre outros aristocratas da cor.

Figura 3 Miss M. A. Winnar, Lestern A. Walton, Capt W. Il. Butler, Miss Anna K. Russele, Saint Louis, Missouri. Fonte: The Colored American Magazine, v.2, n.?, mar. 1901, p.381. 

Na The Colored American, por exemplo, esse projeto político-pedagógico de "melhoramento da raça" era ilustrado pelas fotos, feitos e fortunas aristocráticas somados à publicação de contos, poesias e romances, divulgação de eventos como os saraus promovidos por clubes femininos e, não menos importante, construção de mitos e heróis por meio de espaços específicos. Era o caso de "Famous Women of the Race" (Famosas Mulheres da Raça), uma coluna dedicada a homenagear, com pequenas biografias, prestigiosas mulheres negras como as ex-escravas Harriet Tubmann e Soujorner Truth. Ambas foram descritas como "educadoras responsáveis por lutar pela independência e pelo respeito à masculinidade de sua raça" (Hopkins, 1902, p.42). Apesar do chamamento às guerreiras da cor da noite, enganava-se quem pensava que a batalha pela valorização das mulheres negras estava ganha. Afinal, os tempos modernos exigiam outras representações femininas que pusessem definitivamente em xeque a memória da escravidão.

Nos passados presentes, as representações das mulheres escuras precisavam ficar de fora. Elas eram incongruentes com o projeto de feminilidade respeitada (onde se incluía a beleza eugênica) que a elite de cor edificava com suas centenas de portraits de novas mulheres. Mulatas refinadas, instruídas e sofisticadas, como a representante da "espécime de Amtour Work", registrada pela câmera de W. W. Holland em texto onde "professores" e "líderes" poderiam aprender a escolher "boas fotografias" e a disseminar a mesma prática entre os demais membros da raça (Holland, 1902, p.6).

Para observarmos a mediação dos conflitos imagéticos entre a velha e a nova mulher negra, tomemos por base uma das edições da The Colored American Magazine. Dedicada a cobrir os meses de janeiro e fevereiro de 1902, a publicação narrava a saga de Harriet Tubman na coluna "Famous Women of the Negro Race". Se olharmos atentamente, notaremos ao longo do texto a presença de três mulatas, dentre elas a haitiana Miss Theodora Holly, "autora do livro Haytian Girl" (Holland, 1902, p.214-215). Ao considerar que a ordem das imagens e dos textos de uma publicação não é escolhida ao acaso, nota-se que na quinta das 13 folhas reservadas à narração dos feitos da ex-escrava, somos apresentados a Frances Wells e a Olivia Hasaalum. Bonitas e bem trajadas, as moças de Oregon contrastam com a imagem subsequente. Provavelmente uma representação de Tubman, que ficara conhecida como "Moses", a imagem retrata uma mulher black usando pano na cabeça, vestindo trajes simplórios e segurando uma espingarda numa das mãos (Holland, 1902, p.212).

Figura 4 Do lado esquerdo "Mrs. Frances Wells e Miss Olivia B. Hassalum", dois protótipos de novas mulheres negras; do direito, representação de Harriet Tubman. 

O posicionamento das referidas imagens induz a uma comparação "natural" entre a clareza e a escuridão das personagens contrapostas. Com base em tal comparação, o público automaticamente concluiria que o estágio de primitivismo das blacks havia sido superado pela mestiçagem e refinamento das mulattoes. Embora o texto enalteça a "coragem", a "força" e o "heroísmo do caráter raramente encontrado" (Holland, 1902, p.212) da retinta Tubman, sua representação iconográfica em comparação com as duas anteriores evidenciava o abismo entre modernidade e primitivismo, abismo simbolizado pela cor. E assim os periódicos investiam em imagens condizentes com uma nova mulher negra que, na condição de "sexo da casa" (Holland, 1902, p.7), era premiada com diversos textos e notas com indicações de como decorar um ambiente ou que roupas usar nos passeios de finais de semana.

Se considerarmos a autoria do texto em homenagem a Harriet Tubman, nas mãos de Paulina Hopkins veremos que tal contraponto adquire ainda mais sentido. Extremamente engajada na luta antirracista, a escritora e editora da revista é considerada uma pioneira da literatura afro-americana e, como tal, tornou-se lutadora árdua contra os "estigmas que degradavam a [sua] Raça" (Hopkins, 1988, p.13). Hopkins, que deve ser entendida em seu tempo, lançou mão de uma série de concepções eugênicas em seus escritos.

No seu quarto romance, Contending Forces, publicado em 1900, a autora, por exemplo, enfatizava como os negros haviam progredido no vestuário, na aparência e nas maneiras. Fazendo coro com outros intelectuais afro-americanos acerca da educação como a principal solução para combater a marginalização dos descendentes de escravos, ela buscou remédios próprios para os males que lhes afligiam. Ao adaptar as premissas de aperfeiçoamento racial da eugenia ao mundo negro, a ativista pregava que o melhoramento dos blacks se daria, principalmente, mediante casamentos inter-raciais com os brancos. Isso é anunciado pela personagem Dora Smith, uma mestiça, considerada por sua mãe como alguém de "inteligência superior" graças à ancestralidade branca. Não por acaso Mrs. Smith é a mesma mãe que páginas à frente constata que nos Estados Unidos "a raça Negra tornou-se uma raça de Mulatos" (Hopkins, 1988, p.152).

Com a defesa de uma eugenia específica para os negros, Hopkins determinava que o progresso da "Raça" não era apenas cultural, mas, sobretudo, biológico. Sua percepção é um afortunado exemplo que elucida as interações entre gênero, classe e cor na comunidade negra - interações interseccionais que deram luz a um referencial de beleza eugênica que, refletido também nos anúncios da cosmética e internalizado por muitos sujeitos de cor, alimentou o clima de pânico dos brancos frente ao alastramento de "africanas disfarçadas" 11 como bem poderiam ser as senhoritas Lila Morse e Carrie Oliver, da Virgínia, e Madame Elizabeth Williams, de Nova York.

Figura 5 Miss Lila Morse e Miss Carrie M. Oliver, alunas da futura turma do Boydton Institute, Virginia, de 1901. Fonte: The Colored American Magazine, nov. 1900, p.37.12  

Figura 6 Mme. Elizabeth R. Williams, Nova York, "tutora profissional por muitos anos em várias partes do Sul". Fonte: The Colored American Magazine, v.2, n.2, dez. 1900, p.135. 

Conforme temos visto, a pesquisa na The Colored American Magazine faz concluir que, do ponto de vista comportamental, boas maneiras, devoção religiosa e prestígio eram pré-requisitos indispensáveis para que um negro fosse considerado "novo", ou seja, uma persona grata, alguém respeitável. Entretanto, as elegantes vestimentas, os cabelos arrumados, os olhares sérios e as poses compenetradas teriam um sentido muito menos importante, se analisados isoladamente. A leitura das imagens em conjunto com os textos sugere que, para ficar bem na foto, era preciso, sobretudo, estudar, qualificar-se - preparar-se, enfim - para o novo mundo, o universo da liberdade, do urbano, do industrial. E, nesse sentido, construir uma comunidade de cor, reconhecida por seu talento, sua inteligência e versatilidade era tão primordial quanto ter dinheiro.

Em termos econômicos, para ser da classe média era necessário possuir emprego fixo, bens como imóveis e carros, pequenos negócios como salões, pensões, barbearias e tipografias. No caso dos mais ricos, esperava-se que tivessem terrenos ou negócios como bancos, supermercados, funerárias, joalherias, seguradoras, consultórios médicos, dentários, escritórios de advocacia, escolas ou faculdades, e que exercessem cargos diretivos ou que exigissem formação superior.

Figura 7 Cirurgião-Chefe de cor, estagiários e enfermeiras, General City Hospital, Kansas City, Missouri. Fonte: The Crisis: a record of the darker races, set. 1914, v.8, n.5, p.231. 

Para construir uma análise que se contraponha à homogeneização da população negra na pós-emancipação como a de uma multidão de pobres degradados, com inserção restrita ao setor de serviços domésticos e aos pequenos ofícios,13 é importante articular história social do trabalho e da cultura. E observar como grupos específicos de descendentes de escravos conquistaram mobilidade social, tornaram-se pequenos, médios e grandes empreendedores frente ao racismo e à segregação. Trata-se de priorizar o estudo da formação da classe média negra, esforço pioneiro empreendido por Franklin Frazier nos anos 1950.

Para historicizar o processo de mobilidade social do grupo em questão, o antropólogo afro-americano ressaltava a fundação de 134 bancos negros entre 1888 e 1934 (Frazier, 1997, p.39). Instituições financeiras oriundas do Freedmen's Savings Bank, elas foram fundamentais para tal ascensão social ao oferecerem "suporte racial" (Frazier, 1997, p.41). Um suporte racial na forma de crédito consignado e capital iniciais para que negros comprassem terras e construíssem hotéis, lojas, igrejas, barbearias, cabarés, teatros, salões de cabeleireiro, funerárias, sinucas e outros estabelecimentos comerciais até então monopolizados pelos brancos.

Outro fator não menos importante para o alavancar do empresariado negro14 foi a grande migração para o norte do país a partir da década de 1890. Se até 1900, 90% dessa população vivia no Sul, nos anos subsequentes o quadro mudou significativamente. A chegada em massa a cidades como Chicago e Nova York traduziu-se no ingresso dos indivíduos em vultuoso mercado de trabalho urbano que estimulou a formação de uma elite profissional. Ainda que em meio às transformações, boa parte das ocupações disponíveis fossem voltadas para mão de obra não qualificada, estima-se que 3% dos negros tenham se empregado em cargos de escriturários, tais como taquígrafa, secretária, escrevente, auxiliar administrativo etc. (Frazier, 1997, p.44).

Figura 8 Dois dentistas afro-americanos e uma mulher higienista na New York Tuberculosis and Health Association, Inc., 1926. Fonte: Library of Congress, Prints and Photographs Divisions, Washington, D.C. 

No caso do Norte, onde as oportunidades educacionais eram maiores,15 isso se deu, sobretudo, no setor público. Já no Sul, ocorreu basicamente em escolas e empresas do Black Business. A Tabela 4 reúne diversas profissões exercidas pelas pessoas negras na virada do século.

Tabela 4 População Negro com engajamento mínimo de 10 anos em ocupações específicas: 1900 

OCUPAÇÃO População Negro com engajamento mínimo de 10 anos em ocupações remuneradas: 1900
População Negro (em números) Pessoas com ocupações específicas (porcentagem)
Continente norte-americano: todas as ocupações 3.992.337 -
Ocupações que dão emprego a no mínimo 10 mil Negroes em 1900 3.807.008 -
Trabalhadores agrícolas 1.344.125 33,7
Fazendeiros, plantadores e capatazes 757.822 52,7
Trabalhadores (não especificados) 545.935 66,4
Empregados e garçon 465.734 78,1
Passadeiras e lavadeiras 220.104 83,6
Carroceiros, lenhadores, caminhoneiros etc. 67.585 85,3
Empregados de ferrovias com trens a vapor 55.327 86,7
Mineiros e pedreiros 36.561 87,6
Serradores e aplainadores de madeira 33.266 88,4
Porteiros e ajudantes (em lojas etc.) 28.977 89,1
Professores e profissionais em faculdades etc. 21.267 89,6
Carpinteiros e marceneiros 21.113 90,1
Fazendeiros e trabalhadores da produção de terebintina 20.744 90,6
Barbeiros e cabeleireiras 19.942 91,1
Enfermeiras e parteiras 19.431 91,6
Clérigos 15.528 92,0
Operários de fábricas de tabaco e cigarro 15.349 92,4
Trabalhadores de albergues 14.496 92,8
Pedreiros (pedra e tijolo) 14.386 93,2
Costureiras 12.569 93,5
Trabalhadores de ferro e aço 12.327 93,8
Costureiras profissionais 11.537 94,1
Zeladores e sacristãos 11.536 94,4
Governantas e mordomos 10.590 94,7
Pescadores e catadores de ostras 10.427 95,0
Oficiais de máquinas e foguistas (não trabalham em locomotivas) 10.224 95,2
Ferreiros 10.100 95,4
Outras ocupações 185.329

Fonte: Tabela adaptada de Willcox, 1904, Table LXII, p.57.

Embora a maioria da população negra apresentada na tabela concentre-se nas atividades rurais (trabalhadores agrícolas, 1.344.125, e fazendeiros, plantadores e capatazes, 757.822), os dados também podem nos levar a conclusões mais ousadas e afinadas com perspectivas historiográficas que ressaltam as experiências diversas de trabalho livre nas Américas (Cooper et al., 2005). Aliás, não por acaso, a nomenclatura "trabalhador" foi um dos entraves apontados por Willcox, o elaborador da tabela, para que os recenseadores quantificassem as ocupações exercidas pelos negros (Willcox, 1904, p.57).

O estatístico informa que usualmente o Censo trabalhava com cinco "classes profissionais": "agricultura, serviços pessoais e domésticos, comércio e transporte, manufatura e mecânica". Entretanto, os índices de homens e mulheres afro-americanos em ocupações "não qualificadas" e que declaravam ser apenas "trabalhadores" era altíssimo, forçando os gestores a orientar os recenseadores a, nesse caso específico, perguntar de forma mais direta qual era o "ganha-pão" de cada um dos entrevistados (Willcox, 1904). Considerando esse contexto, ressalto que os debates sobre o "problema da liberdade" em sociedades pós-emancipação pontuam a persistência dos descendentes de escravos em se afirmar como trabalhadores, afirmação que evidencia a construção de uma nova linguagem de trabalho relacionada à luta pela obtenção da cidadania plena.

Para explorar mais as informações dispostas na tabela publicada em boletim do Censo de 1904, tomarei como parâmetro os 3.807.008 trabalhadores quantificados em "ocupações que dão emprego a no mínimo 10 mil negroes em 1900". E, com base nesses números absolutos, calcularei os percentuais referentes a determinados grupos de trabalhadores negroes. As porcentagens conferem mais nitidez ao fato de que apenas uma minoria seleta dos trabalhadores em questão desempenhava profissões que prescindiam de alguma instrução ou especialização prévia. São os casos de "professores e profissionais em faculdades" (21.267, 0,55% dos negroes) e clérigos (15.528, 0,4% dos negroes), aliás, duas das principais ocupações desses aristocratas.

Ainda sobre a divisão do trabalho e continuando a conversão de números absolutos em porcentagens, percebe-se que, embora em termos numéricos a classe média fosse bem mais representativa que a alta, integrar a primeira também se constituía em exceção. Os percentuais de ferreiros (0,26%), carpinteiros (0,55%), cabeleireiras e barbeiros (0,52%) e enfermeiras e parteiras (0,51%) evidenciam tal excepcionalidade. Os mesmos baixos índices de costureiras profissionais (0,3%), oficiais de máquinas e foguistas (0,26%) convidam-nos a conclusões similares.

Em termos de articulações entre raça e imagem, o quadro também nos permite notar o índice pequeníssimo de afro-americanos empregados em profissões historicamente relacionadas à "boa aparência",16 tais como: porteiros e zeladores (0,76%), governantas e mordomos (0,27%). Outro fator que reforça a raridade da mobilidade social, aspecto veementemente denunciado por Frazier, apoia-se na persistência de seus membros em exercer ocupações atreladas à história do trabalho doméstico: empregados, garçons (12,2%) e lavadeiras (5,78%), além dos 14,3% reunidos sob o rótulo de "trabalhadores não especificados".

No turbilhão da estrutura classista, respeitabilidade, instrução, refinamento, pele clara, ancestralidade branca e bens materiais perpetuaram-se como algumas das principais marcas que distinguiam os mulatos, com todo seu sucesso, dinheiro e instrução, dos blacks. Tal contexto, presente em cidades como Filadélfia, Savana, Atlanta, Nova York, Saint Louis, Boston e Nova Orleans, foi alimentado por uma lógica colorista. Uma "economia da cor" (Harris, 2009, p.1-5) que realocava os sujeitos numa nova realidade cada vez mais racializada, tendo como referência a contraposição entre ser claro ou escuro.

Ao considerar as fotografias em sintonia com o alastramento de práticas educacionais eugênicas, percebe-se que o ideário de clareamento era simultânea, mas diferentemente alimentado pelo racismo branco e pelo colorismo negro, este último valorizando a mulatice como "capital social" (Glenn, 2009). Usado pelos afro-americanos para construir suas relações internas de classe, esse capital social da pele clara como melhor, mais bonita e moderna está presente na maior parte dos periódicos até ao menos os anos 1920, quando as concepções de Garvey começam a questionar o colorismo e a pigmentocracia da imprensa negra. Também contribui para a ressignificação da cútis escura a aceitação do bronzeamento para mulheres brancas. A obtenção de uma cor "exótica" (ibidem, p.183) passa então a ser associada à melhor condição econômica expressa, por exemplo, pela possibilidade de passar férias em países tropicais.17

A despeito desse cenário de mudanças a história aqui contada refere-se a um processo de racialização próprio dos negros. Mediante experiências e percepções diferenciadas acerca da cor, tais sujeitos construíram uma noção racializada de beleza assinalada pela valorização da aparência mulata (visualmente branca), jovem, urbana, moderna, bem-sucedida. Todavia, antes de incorrer em simplificações, juízos de valor ou decepções alimentadas pela ilusão romântica de uma solidariedade intrarracial genética18 ou do que Bayard Rustin chamou de "noção sentimental da solidariedade negra",19 é pertinente pensar que a prática do colorismo derivou-se de valores criados e reforçados pela supremacia branca.

Posto então o painel de afirmações e apreensões que a existência dos mulatos ajudava a gerar, ninguém melhor para encerrar a conversa do que as personagens seguintes. Criteriosamente escolhidas, as modelos que posaram para a The Colored American Magazine eram donas de projetos próprios para reconstrução da feminilidade (Wolcott, 2001, p.3). Uma reconstrução que as reconhecesse como mulheres instruídas. Ícones de uma negritude revigorada, além da preocupação com a elegância, nossas madames negras, "posudas", importunavam-se com o futuro da sua gente de cor, mas essa é uma outra história...

Figura 9 Capa, The Colored American Magazine, ago. 1901. 

REFERÊNCIAS

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1 Esta pesquisa contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na forma de bolsa doutorado e de doutorado sanduíche, realizado na New York University em 2009. Agradeço a Barbara Weinstein, Sidney Chalhoub e aos participantes dos Grupos de Estudo e Pesquisa Cultura Negra no Atlântico (Cultna/UFF) e Intelectuais Negras pelas discussões realizadas, fundamentais para a escrita deste texto.

Recebido: 01 de Fevereiro de 2015; Aceito: 23 de Fevereiro de 2015

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