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Revista Brasileira de História

versão impressa ISSN 0102-0188versão On-line ISSN 1806-9347

Rev. Bras. Hist. vol.35 no.69 São Paulo jan./jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1806-93472015v35n69014 

Artigos

"Vivemos identificados com a civilização, dentro da civilização": autoimagens urbanas nos sertões da Bahia1

Valter Gomes Santos de Oliveira *  

*Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Departamento de Ciências Humanas (DCH IV). Jacobina, BA, Brasil. valterdeoliveira@gmail.com


RESUMO

O artigo aborda as autoimagens urbanas construídas pela pequena intelectualidade sertaneja na Bahia do início do século XX. Por intermédio de textos de memorialistas e da imprensa de suas cidades, bem como do uso que fizeram da fotografia, investigo algumas dessas autoimagens do sertão como contraponto àquelas cristalizadas no imaginário nacional, principalmente após a repercussão de Os sertões, de Euclides da Cunha. O objetivo é identificar como as cidades aparecem nessas imagens e de que forma elas contribuíram para a construção de um espaço público urbano no sertão baiano identificado com a civilização, ideia a meu ver distante daquelas construídas pelos olhares externos.

Palavras-Chave: autoimagem; sertão; civilização

ABSTRACT

The article looks at the urban self-images constructed by the petty sertaneja intelligentsia in the early twentieth century in Bahia. Drawing on texts from memoirs, the local press, and the use made of photography, I investigate some of these images of the interior as opposed to those crystallized in the national imagination, especially after the impact of Euclides da Cunha's Os Sertões. The objective was to try to identify how local towns appear in these images and how the latter contributed to the construction of an urban public space in the interior of Bahia identified with civilization, which in my opinion was different from what was built in external perspectives.

Key words: self-images; Sertão; civilization

IMAGENS DOS SERTÕES DA BAHIA

O episódio de Canudos foi sintomático no que concerne à revelação de um Brasil desconhecido.1 Às vésperas do século XX e durante a implantação do regime republicano, o país se choca diante de uma realidade social que muitos brasileiros não conheciam ou não se preocuparam em enxergar. Um dos resultados do conflito foi o surgimento do livro que marcou uma fase de autodescoberta do Brasil. Os sertões, obra máxima de Euclides da Cunha, desenvolve uma profunda análise do país com base no sertão, em seu habitante e na guerra. O autor desenvolveu suas reflexões a partir da sua presença em pleno sertão baiano na fase final do conflito, quando aí esteve como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, em 1897. Em paralelo à narrativa do escritor, um conjunto de fotografias produzidas pelo baiano Flávio de Barros também deixou imagens bastante significativas, produzidas no ambiente da guerra. Nas primeiras edições de Os sertões, algumas dessas fotografias foram veiculadas. Foi com essa obra que uma pequena intelectualidade sertaneja na Bahia estabeleceu um constante diálogo ao longo das décadas seguintes, quando desenvolveu as autoimagens de suas cidades no início do século XX.

Neste artigo, proponho uma abordagem sobre as construções dessas autoimagens pela pequena intelectualidade seja através de textos memorialistas, seja da imprensa de suas cidades, destacando o recurso que fazem da fotografia. O objetivo foi identificar como as cidades apareciam nessas fotografias e de que forma contribuíram para a construção de um espaço público urbano no sertão baiano, ideia a meu ver muito distante das imagens construídas pelos olhares externos.

Conforme Ana Maria Mauad, durante o século XIX foi o olhar estrangeiro que nos enquadrou, ao tempo em que educava nosso olhar fazendo que nos mirássemos na cultura importada de seus países (Mauad, 1997). Na fotografia oitocentista, os sertões baianos foram praticamente alvo de olhares externos, apenas. Nessa configuração, é possível notar dois tipos: o da exuberância e o da miséria. Viajantes estrangeiros, como Augusto Stahl e Augusto Riedel, e depois brasileiros, como Marc Ferrez e Ignácio Mendo, focalizaram suas lentes na ostentosa paisagem da cachoeira de Paulo Afonso. São fotografias de forte apelo estético, típico da tradição pictorialista de paisagem. Outras imagens marcantes do sertão, produzidas no final do século, são as fotografias de guerra por Flávio de Barros durante a última campanha contra Canudos. Tendo sido o único fotógrafo autorizado pelo Exército a cobrir a guerra, suas fotografias cumpriram a função de dar visibilidade ao olhar do vencedor, ou da civilização, frente àquele cenário de miséria que era a cidadela de Canudos, e ao poderio da República, representado pela infantaria militar.

Se as imagens construídas pelo sertão no século XIX foram notadamente marcadas pelo olhar externo, no qual, na maioria das vezes, prevaleceu a lógica do outro, com o advento de novas transformações ocorridas no cenário técnico e cultural das pequenas cidades sertanejas, nas primeiras décadas do século XX, essas cidades passaram a ter a oportunidade de produzir suas autoimagens mediante fotógrafos radicados nas próprias localidades, onde em geral prevalecia uma lógica de evidenciar as novidades urbanas como marcas do progresso e de civilidade de seu povo.

Considerando que neste estudo fiz uso das imagens fotográficas veiculadas em textos memorialistas e jornais, destaco algumas características desses meios. A propósito, como pensa Hans Belting, as imagens não devem ser confundidas com seus meios (Belting, 2009). As primeiras têm sempre uma qualidade mental, ao passo que as segundas são materiais. As imagens e os meios existem como dois lados de uma mesma moeda. Apesar de as imagens surgirem primeiro, é através dos meios que se elas se materializam e se estabelece a sua política de relações.

As imagens fotográficas não aparecem isoladas nos jornais. Fazendo parte de mensagens escritas, elas clamam por legendas. As fotografias acompanham os textos cumprindo a função de dar visibilidade ao que diz respeito às cidades e, também, formar opinião pública sobre elas. Portanto, para analisar o contexto onde tais imagens estavam inseridas, atento a seus usos e funções, foi necessário observá-las acompanhadas de suas respectivas legendas.

Creio que a difusão e recepção das primeiras imagens fotográficas que participaram da construção de um olhar urbano e civilizado no sertão foram realizadas no início do século XX pelos próprios jornais interioranos e pelos textos publicados nos anais do V Congresso Nacional de Geografia, em 1916. Todos os trabalhos escritos que participaram do Congresso de Geografia estão reunidos em dois volumes. Alguns desses textos veicularam fotografias que, apesar da baixa qualidade de impressão, foram importantes na divulgação das imagens produzidas sobre os sertões baianos. Com relação ao padrão gráfico, os jornais do interior na época eram bastante precários, e a impressão de clichês fotográficos exigia um investimento alto. Normalmente eram preparados em Salvador, o que impossibilitava o seu uso constante nas edições semanais. Ainda assim, foram os principais responsáveis por cristalizar no imaginário local as cenas de suas próprias cidades, contribuindo assim na educação do olhar do sertanejo.

"A TERRA DO BOM COMEÇO"

O advento dos jornais impressos nos mais diversos sertões da Bahia contribuiu de maneira significativa para a criação de uma cultura literária e visual nessas localidades. As páginas dessas pequenas mídias veiculavam as mais importantes notícias do mundo, do país e dos próprios municípios, como também produções literárias e fotografias. Aos poucos, aquele público leitor radicado no sertão passou também a participar da mesma aventura da construção do homem brasileiro que se queria civilizado, como que fazendo eco ao vaticínio de Euclides da Cunha quando disse que "ou progredimos, ou desaparecemos" (Cunha, 2003, p.52).

Era geralmente aos domingos que chegavam às mãos daquela população sertaneja os exemplares dos seus semanários. Durante algumas décadas, aquele foi um dos principais veículos responsáveis por levar as notícias mundiais, nacionais e, sobretudo locais ao indivíduo do sertão. Tendo surgido em Senhor do Bonfim, em 1898, um pequeno jornal ostentando o sugestivo título de O Futuro anos mais tarde viria a configurar um desenvolvimento mais sólido da imprensa naquela cidade do nordeste baiano e, assim, o projeto de construção pública de uma imagem de sertão civilizado. Ainda que geograficamente próxima ao sertão de Canudos, a cidade emergente de Bonfim buscava construir sua autoimagem distante daquela que se havia plasmado das terras do Belo Monte, ainda que não estivesse livre de todas as suas marcas. Para tanto, a imprensa foi convocada como porta-voz especial de sua elite letrada, desejosa de difundir esse discurso. A fotografia cumpriu também, nesse contexto, um papel especial na visibilidade de um sertão urbano ordenado.

O maior e mais duradouro jornal de Senhor do Bonfim na primeira metade do século XX foi o Correio do Bomfim. Suas atividades se iniciaram em 1º de outubro de 1912, estendendo-se até 1º de outubro de 1942. Seu proprietário e diretor, Augusto Sena Gomes, era homem das letras e considerado por não poucos de seus conterrâneos como "o maior intelectual de todos os tempos" (Silva, 1971, p.122). Exerceu as funções de intendente em 1924 e vereador em 1926, 1936 e 1947. Em torno do Correio do Bomfim, reuniu um grupo expressivo da intelectualidade regional, atingindo municípios como Morro do Chapéu, Miguel Calmon, Jacobina e Campo Formoso. Durante todo o tempo em que circulou, o jornal foi a principal voz na defesa dos interesses dos grandes produtores rurais da região frente ao estado e ao país, e um inquieto construtor de um discurso de cidade civilizada no sertão. Em vários momentos, a fotografia foi utilizada como instrumento para ajudar a difundir essa autoimagem, contribuindo para perpetuar um modo de se ver a cidade de Senhor do Bonfim.

Entretanto, a impressão de cidade civilizada não nasce com o Correio do Bomfim, ainda que tenha sido seu principal propagador interna e externamente. Esse sentimento foi sendo progressivamente construído pela pequena intelectualidade na cidade desde sua emancipação política, ocorrida em 1870, e propagado pelos seus maiores representantes. Em 1906, Lourenço Pereira da Silva publica o primeiro livro sobre o município: Apreciação circumstanciada sobre o município do Bomfim. Essa obra segue o padrão das corografias em voga na época, com descrição da geografia e de fatos históricos do município. Assim o autor descreve sua imagem da cidade:

A primeira vista desta bella cidade sertaneja communica agradabilíssima impressão, pela soberba perspectiva, principalmente se a entrada se faz pelas estradas de Jacobina e Campo Formoso.

Penetrando-se pelo lado norte é também surprehendente o panorama, que se desenrola ás vistas curiosas.

O soberbo palácio municipal, a bonita egreja do Bomfim e outras construcções lindamente architectadas, logo se apresentam como a indicar a existencia de um povo civilizado. Se, ao contrario, se entra pelo lado sul, a belleza da construcção excede á espectativa e nos encantam ainda lindos pomares, alguns dos quaes dentro da cidade; um defeito, portanto, mas um bello defeito. (Silva, 1906, p.53-54, grifos meus)

José Lourenço procura chamar a atenção do seu leitor para a existência de outro tipo de sertão diferente daquele descrito por Euclides da Cunha, dotado de uma cidade urbanizada e de hábitos refinados. Para o autor, Canudos na época era dominada por "desvairados", de ideal construído por "fanatismo grosseiro", e não poderia nunca ter sua comunidade auxiliada por Senhor do Bonfim. O autor procura estabelecer uma clara fronteira entre os diversos sertões existentes na Bahia da época. Havia o sertão da miséria, do banditismo e do fanatismo por um lado, e por outro o sertão produtivo, da ordem e da civilidade. É importante lembrar que essa obra foi publicada somente uma década após os acontecimentos em Canudos. Para José Lourenço, seu povo orgulhava-se do fato de ter sido Senhor do Bonfim a primeira cidade na Bahia a reconhecer a instauração da República, tanto é que, logo após o desfecho da guerra em Canudos, o intendente Antônio Laurindo da Silva Duarte homenageia alguns de seus heróis concedendo seus nomes a três artérias da cidade, entre eles o de Moreira César a uma de suas poucas praças.

A consagração dessa imagem de sertão foi defendida por Rui Barbosa em conferência em Senhor do Bonfim durante sua Campanha Civilista, em 1906. Trinta e três anos depois, em edição onde se destaca a presença do interventor federal Landulpho Alves e comitiva para a inauguração da 1ª Exposição Regional de Caprinos e Ovinos, o Correio do Bomfim conta que aqueles foram dois dias de festa na cidade pela visita do "maior dos brasileiros" (Figura 1). Rui foi efusivamente recepcionado na estação de trem por numerosa multidão vinda de diversos municípios da região. "O maior gênio da raça" chegou ali com sua comitiva como "um cortejo de luz condigno de acompanhar um sol de imensa grandeza". Em sua apreciada conferência, Rui Barbosa consagrou a presença dos sertanejos naquela que chamou de "capital dos estados geraes do sertão". Segundo o jornal, nas palavras daquele "excelso" homem público, "Bomfim era a Terra do Bom Começo - e que o bom começar era meio caminho andado para o bem acabar". Como consta na dita matéria, tais palavras soaram na época como uma verdadeira profecia saindo dos lábios daquele que pregou "o evangelho das liberdades democráticas".2

Figura 1  Correio do Bomfim, ano XVIII, n.1, 1 out. 1939, p.1. 

O Correio do Bomfim considera naquele momento que a profecia de Rui Barbosa estava se realizando. O êxito da exposição foi comemorado pelo jornal como um "acontecimento auspicioso". A edição saiu com seis imagens fotográficas, um número bem acima das edições normais. Dentre elas, quatro retratos de personalidades da política nacional e internacional em cujas legendas se lê: "Dr. Landulpho Alves, interventor Federal na Bahia", "Dr. J. Rocha Medeiros - secretário da agricultura", ilustrando a matéria de capa sobre a 1ª Exposição Regional de Caprinos e Ovinos; "Cons. Ruy Barbosa", ilustrando a nota relembrando sua presença durante a Campanha Civilista, e "Hitler - O homem que podia ter evitado a guerra", ilustrando a matéria sobre a Guerra da Europa. As outras duas fotografias são registros de lugares na cidade. Na primeira (Figura 2), o "reservatório d'água da Praça Telve e Argollo, local da Exposição" e na segunda (Figura 3), da "prefeitura Municipal de Bomfim em cujos salões iluminados se realizou o magnifico baile, na noite de 29, em homenagem ao Sr. Interventor Federal e illustre comitiva".

Figura 2  Correio do Bomfim, ano XVIII, n.1, 1 out. 1939, p.2. 

Figura 3  Correio do Bomfim, ano XVIII, n.1, 1 out. 1939, p.4. 

Portanto, esse modo de ver a cidade de Senhor do Bonfim como lugar da aurora de uma nova era no sertão, marcada pelo ordenamento de seu espaço urbano e instauração de programas de civilização dos costumes de seu povo, foi seguido e defendido pelo jornal Correio do Bomfim ao longo de suas três décadas. Nesse sentido, as imagens foram consideravelmente importantes. Como já dito, a sede do jornal tinha sua gráfica própria e funcionava paralelamente como estabelecimento comercial, oferecendo seus serviços gráficos, e como agência revendedora de livros e revistas do país. Revistas ilustradas de grande circulação nacional e estadual no início do século, como Eu Sei Tudo, Bahia illustrada, Fon Fon, Selecta, Renascença, O malho, Para Todos, Scena Muda, e Moda de Paris, chegavam à região por intermédio da empresa proprietária do jornal, que as divulgava em suas páginas. Cumpriam diversas finalidades como entreter, informar, integrar e, sobretudo, educar o olhar da população sertaneja através das fotografias e ilustrações veiculadas.

Segundo Paulo Knauss, as revistas ilustradas combinavam textos e imagens, estabelecendo uma ligação entre a cultura letrada e a cultura visual (Knauss, 2011, p.7-14). Pelas páginas daquelas mídias veiculavam-se fotografias que davam coberturas das tendências das modas masculinas e femininas nos salões e nos passeios públicos, cenas de artistas de cinema e do rádio, transformações urbanas e cenas esportivas. Portanto, aqueles modos de ler e de ver estabelecidos nos grandes centos urbanos, como o Rio de Janeiro e Salvador, aos poucos iam tomando conta dos meios letrados da população sertaneja, os quais passavam a se identificar com suas ideias, resvalando em conteúdos do jornal impresso local, que funcionava como principal porta-voz desse discurso. Pode-se afirmar com isso que o sertão iniciava a sua participação no espaço público nacional, sobretudo pelas imagens fotográficas, principalmente aquelas veiculadas nas revistas ilustradas e jornais.

Em 1916, o Correio do Bomfim publica duas fotografias da cidade (Figura 4). Sua importância se deve principalmente ao fato de que possivelmente aquelas fossem as primeiras imagens do centro urbano de uma pequena cidade sertaneja do nordeste baiano difundidas publicamente. Ao menos, trata-se da primeira vez no citado jornal, além de ser o mais antigo em circulação naquele momento. Não foi possível identificar uma data precisa das fotografias. Ainda que não exista referência de autoria, é bem provável que sejam de Ceciliano Carvalho, possivelmente o único fotógrafo que residia e atuava na cidade na época, inclusive com anúncio de seus serviços no próprio jornal. A qualidade das reproduções era bastante precária, o que comprometia uma melhor visualização de seus detalhes. Na primeira delas temos o enquadramento de um trecho da praça Dr. José Gonçalves; na outra, uma perspectiva da rua Conselheiro Franco, onde, segundo o jornal, eram realizados os festejos natalinos na cidade. As fotografias procuram destacar publicamente, em Bonfim, a presença de ruas e suas edificações habitacionais alinhadas. Lourenço Pereira da Silva informa que esse era o aspecto marcante da parte nova da cidade em oposição à outra, "distinguindo-se pela belleza, vastidão e elegância de construção" das duas praças existentes e das ruas "por sua extensão e belleza de alinhamentos" (Silva, 1906, p.59-60).

Figura 4  Correio do Bomfim, ano V, n.16, 24 dez. 1916, p.1. 

As fotografias seguem um padrão normativo daquelas de tipo urbano do século XIX, enquadrando detalhes de ruas largas e retas como em São Paulo ou no Rio de Janeiro, presentes nos álbuns de cidades ou nas revistas ilustradas. Esse perfil de fotografia cumpre a função de apresentação oficial de uma cidade e também atua na formação de uma opinião pública sobre ela. Graças ao seu "efeito verdade", a imagem fotográfica foi utilizada na época para as funções sociais de transmissão de informações e de ordenamento do espaço urbano, contando com a imprensa como um dos seus principais veículos difusores. Margarita Ledo afirma que o contraste informação/opinião está pautado na ideia de credibilidade construído pelo discurso jornalístico (Ledo, 1998). Por isso, a fotografia, em virtude do seu caráter mecânico e seu apelo documental, se converte no principal instrumento de autenticidade.

Quando, em 1897, Euclides da Cunha chegava finalmente ao sertão baiano, o que lhe chamou a atenção na paisagem da vila de Queimadas foi a decrepitude de sua casaria pobre, desajeitada e velha em sua única e irregular praça. Em suas andanças naquelas regiões, a impressão que o jornalista fluminense manifestou era que talvez Alagoinhas fosse "a melhor cidade do interior da Bahia" na época, com "ruas largas, praças imensas" e sem "uma viela estreita, um beco tortuoso" (Cunha, 2003, p.68). Ora, muito provavelmente, quando o jornal Correio de Bomfim veiculava aquelas fotografias da sua cidade, buscava dar credibilidade ao que seus cronistas locais já falavam sobre ela, ou seja, a existência, no seio daqueles sertões, de uma pequena urbe em vias de expansão, que buscava se identificar com os ditames de uma estética moderna e sintonizada com as novidades da época.

"A TERRA DO FUTURO"

É muito provável que as primeiras fotografias da cidade de Jacobina a alcançar circulação pública em mídia impressa fossem aquelas veiculadas na memória histórica de Afonso Costa, de 1916, publicada nos anais do V Congresso Nacional de Geografia. Antes disso, não existia jornal na cidade, e não as encontrei em nenhum dos periódicos das localidades circunvizinhas. Ainda que restrito a um seleto grupo de interlocutores, esse modo de ver a cidade acabou construindo e perpetuando uma maneira de adentrá-la em seus aspectos urbanísticos, arquitetônicos, culturais, econômicos ou políticos.

O texto intitulado "Minha terra (Jacobina de antanho e agora)" foi selecionado para participar no citado Congresso, promovido pela Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro e presidido por Teodoro Sampaio. Afonso Costa participou também emitindo pareceres sobre outros textos recebidos de diversos municípios baianos. O Congresso, entre vários aspectos, foi relevante na promoção da visibilidade e dizibilidade dos municípios que compunham o estado da Bahia, muitos deles recém-criados na época, reunindo um número de 1.057 participantes (Cardoso, 2011). Os principais representantes das elites letradas dos municípios baianos participaram apresentando suas memórias ou corografias, perfazendo um índice de 75% dos congressistas inscritos. Esse seleto grupo era composto por médicos, advogados, professores e funcionários públicos, dentre outros. Afonso Costa era o mais eminente desse círculo em Jacobina, mas, na época, já trabalhava e residia em Salvador.

O título do texto de Afonso Costa faz uma sutil referência ao poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias. Tal como o poeta, Costa escreveu aquele que pode ser considerado o maior "poema" dedicado à sua terra, quando se encontrava fora. Entretanto, ao contrário do poeta maranhense, Afonso Costa não voltou a viver em sua terra, tendo se mudado depois de Salvador para o Rio de Janeiro, vindo a integrar a Academia Carioca de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, falecendo em 1955. É possível que o intelectual lamentasse o fato de aquela pequena cidade do sertão não oferecer as condições necessárias para que um homem como ele ali permanecesse. Nacionalista e com forte sentimento nativista, sua memória histórica constitui um olhar interno do sertão, exatamente no momento em que crescia no Brasil um sentimento de autodescoberta. Sua formação intelectual foi profundamente marcada pelo prisma dominante do Positivismo reinante nos institutos da época, e sua escrita rebuscada tinha uma forte conotação parnasiana.

O termo futuro estava mesmo na ordem do dia naquelas cidades sertanejas. Um futuro promissor era o que anunciava o novo século para o sertão, nas palavras de seus cronistas. O texto de Afonso Costa é marcado ora por um discurso que enaltece o passado glorioso, ora pela esperança do futuro que prometia para sua cidade. Tendo sido a primeira vila criada nos sertões da Bahia e responsável pelo abastecimento da coroa portuguesa com a extração de ouro no século XVIII, Jacobina experimentou, no século XIX, uma longa fase de estagnação econômica, decorrente em parte da descoberta de diamantes na região das Lavras Diamantinas. Somente em 1888 foi elevada a cidade, com o título de "Cidade Agrícola de Santo Antônio de Jacobina". No texto de Afonso Costa, há um prognóstico do destino de Jacobina como o de uma "terra do futuro", principalmente depois que por ali passasse a tão aguardada estrada de ferro que promoveria sua expansão econômica (Costa, 1916).

Apesar de acreditar no desenvolvimento futuro de sua terra, a postura de Afonso Costa com relação à estética das ruas e edificações públicas denota certo desagravo por estarem distantes das "urbs modernas". No texto 200 annos depois: a então villa de Jacobina, de 1923, o autor afirma que a cidade era "elegante" pela própria paisagem serrana e pelos dois rios que a cortam ao meio, mas suas feições quanto ao urbanismo e arquitetura não correspondiam ao "bom gosto" que se esperava daquela que era "uma das mais ricas terras do Estado da Bahia" (Costa, 1923).

Em sua memória de 1916, Afonso Costa veicula quatro fotografias de Jacobina.3 Duas cenas do centro urbano abordando a praça da Matriz: uma em direção à igreja e outra em direção à praça Rio Branco; uma vista do arraial de Itapicuru e, por fim, uma vista parcial externa da cidade. Não há referência de autoria, hábito comum na época. Na sua escrita da História de Jacobina, as fotografias possuem um significado de "efeito do real". Percebo que foi por meio dessas imagens que aos poucos se construiu um padrão de visualidade urbana nessa cidade, muitas vezes repetido por outros fotógrafos. Dentre as imagens selecionadas pelo historiador, maior ênfase foi para a área próxima à praça da Matriz, possivelmente a única considerada digna de ser externada visualmente naquela ocasião. O arraial de Itapicuru foi apresentado provavelmente por ter sido uma área onde se instalaram as residências de diretores e operários da Companhia Minas de Jacobina. A última imagem, uma vista parcial do alto, pressupõe um olhar abrangente e distanciado, objetivo e científico da paisagem urbana. Na década de 1930, a imprensa local passou a veicular algumas imagens que, direta ou indiretamente, fazem eco a essas quatro.

Durante a primeira metade do século XX, a imprensa, junto à fotografia, foi uma das mídias que mais contribuiu para a formação de uma educação do olhar em Jacobina e para a construção de uma autoimagem da cidade identificada com a civilização. Entre os anos de 1933 e 1943, circulou na região aquele que foi o mais duradouro e influente jornal da cidade de Jacobina na primeira metade do século: O Lidador. A empresa era de propriedade de Nemésio Lima, empresário natural da cidade de Mundo Novo, tendo iniciado ali suas atividades como jornalista, com o jornal Mundo Novo. O Lidador merece destaque em termos regionais como o jornal que mais investiu no poder da imagem em suas páginas, principalmente a fotografia, veiculando-a em retratos, vistas urbanas e anúncios publicitários. Nesse sentido, foi um dos principais responsáveis pela difusão da fotografia no sertão de Jacobina, promovendo e educando o olhar dos sertanejos na região.

Naquelas décadas de 1930 e 1940, as fronteiras culturais que separavam os sertões do mundo externo, moderno e capitalista passaram a diminuir. Creio que foi principalmente graças às imagens fotográficas que isso se tornou possível. Participando da experiência de criação e fruição das suas autoimagens, o sertanejo se percebeu vivendo em sintonia com a modernidade do Velho Mundo. Siegfried Kracauer, marcado por um sentimento de desencanto social, denunciou na época aquela enxurrada de fotografias fazendo parte da vida das pessoas. A grande produção de fotografias estava presente em vários lugares, sobretudo nos jornais e nas revistas ilustradas, obscurecendo da sociedade a sua própria realidade econômica e cultural. Kracauer se refere a uma atitude de dominação política por parte de alguns setores da sociedade, promovendo, entre outros itens, uma varredura na memória social. Dizia que "nunca uma época foi tão pouco informada sobre si mesma. Nas mãos da sociedade dominante a invenção das revistas ilustradas é um dos poderosos instrumentos de greve contra o conhecimento" (Kracauer, 2009, p.75). A justaposição de imagens, a seu ver, impedia a formação de consciência sobre os fatos. A "ideia-imagem", como uma nevasca de fotografias, atraía indiferença em relação ao que as coisas queriam dizer. Nas revistas ilustradas o público via o mundo que elas mesmas impediam de perceber. Observando as especificidades dos sertões baianos, pode-se notar que esse tipo de controle visual midiático estava atingindo também aquelas populações.

Comparado a outros jornais da região, O Lidador tinha no uso da imagem uma marca distintiva. A edição comemorativa do seu segundo aniversário, em 7 de setembro de 1935, veicula um surpreendente número de 104 fotografias. Não encontrei em jornais de outras cidades da região uma quantidade tão expressiva de fotografias numa única edição, o que indica um caráter arrojado de seu editor naquele empreendimento. O uso maciço das imagens na imprensa, naquelas décadas iniciais do século XX, era amplamente difundido nas revistas ilustradas, o que certamente serviu de inspiração para aquela edição de aniversário em Jacobina.

Conforme anunciado pelo O Lidador, as fotografias veiculadas na edição especial tinham o propósito de fazer ver o que estava relacionado ao "progresso econômico e social" vivido pela cidade naquele momento.4 O jornal circulou com 24 páginas ilustradas, em contraposição às quatro de suas edições normais. O diretor mandou confeccionar as clicheries em Salvador para a impressão das fotografias, que contou com a colaboração direta do fotógrafo residente em Jacobina, Juventino Rodrigues, um dos homenageados na edição pelos serviços prestados à sociedade em seu estúdio, o "Ideal Photo".

Verifica-se a predominância do uso de retratos no universo das fotografias, correspondendo a 75 por cento do seu total. Entre elas, o destaque foi para os retratos individuais. No geral, são imagens de personalidades que faziam parte da vida política, econômica, profissional, educacional e artística de Jacobina e da Bahia. Em suma, prevalece a ideia de que a cidade era dotada de pessoas especiais nas mais variadas áreas, e mais do que isto, o fato de que no fundo eram aquelas personalidades as principais responsáveis pela sua fase de desenvolvimento. A imagem do sertão ali é, portanto, a de um lugar marcado por homens empreendedores. Se o sertanejo era acima de tudo um forte, como disse Euclides, quando devotava essa força no trabalho em prol da civilização, o seu progresso era inevitável. O jornal sugere essa ideia, principalmente se atentarmos para seu sugestivo nome. Na chamada inicial da matéria em destaque - "Dois annos vencidos!" - encontram-se logo abaixo quatro retratos com legendas indicando três fundadores de jornais locais e um colaborador assíduo de O Lidador: Amado Barberino, Francisco Vieira, Nemésio Lima e Paulo Bento, respectivamente (Figura 5).

Figura 5  O Lidador, n.103, 7 set. 1935, p.1. 

As fotografias que destacam vistas urbanas aparecem em segundo lugar em quantidade, estando distribuídas em algumas páginas do jornal. Em uma delas (Figura 6), intitulada "Jacobina pittoresca", aparecem quatro imagens acompanhadas de legendas: uma vista do cais do rio do Ouro, cuja legenda chama a atenção para a ponte de cimento armado ligando a praça da Matriz à rua Dr. Pedro Lago; uma vista parcial da cidade tomada do alto de uma das serras que a circundam; uma vista parcial da praça da Matriz, destacando ao fundo o coreto e a Igreja Matriz, construída com a autorização da rainha da Grã-Bretanha em princípio do século XVIII (na legenda, indica-se o XVII); por fim, uma vista parcial da praça Rio Branco, local onde se realizavam as feiras semanais e onde estava situada a sede do poder político e da segurança. É válido destacar que os lugares das imagens fazem uma clara alusão àquelas veiculadas no artigo de Afonso Costa, de 1916. Esta era a "ideia-imagem", segundo a expressão de Kracauer, que participou da construção pública de Jacobina como cidade na época. Em outras páginas estão algumas fotografias que destacam novas construções importantes no contexto de desenvolvimento econômico, social e educacional, como a estação ferroviária; a ponte de concreto armado "Manoel Novais", ligando as duas partes da cidade cortada pelo rio Itapicuru; o Hospital Antônio Teixeira Sobrinho e o prédio das escolas reunidas Luiz Anselmo da Fonseca - os três últimos como obras públicas edificadas naquela administração municipal em exercício.

Figura 6  O Lidador, n.103, 7 set. 1935, p.3. 

Pode-se perceber que na imagem propagada pela imprensa a cidade estava vivendo seus dias de progresso. Essa percepção foi sensivelmente captada pelos seus cronistas da época, que enxergavam aquelas obras como a participação no tão desejado mundo civilizado, ainda que de forma sossegada, característica de uma pequena cidade sem o "movimento infernal dos autos" que marcava a vida nas metrópoles.5Progredir sem perder suas tradições, eis o propósito defendido pela intelectualidade local. O jornal indica que tradições como "bumba meu boi, cirandinha, quilombos, dança de velho, marujada, etc." ainda se viam em Jacobina, por não terem sido afastadas pela função reformadora daqueles dias. Mesmo com a permanência das tradições, a matéria diz que "apesar de tudo isso, vivemos com a civilisação, dentro da civilisação".6 As fotografias de conjunto de jazz, filarmônicas, bailes de micareta e piquenique organizado servem de testemunhas dos novos hábitos e costumes surgidos (Figura 7). Porém, tal como Afonso Costa, a crítica do jornal dirigiu-se para a inexistência de obras públicas de estéticas condizentes com sua importância econômica e beleza natural, a exemplo de um jardim público.

Figura 7  O Lidador, n.103, 7 set. 1935, p.4. 

A imagem modernizante da cidade foi realçada pelo jornal com o uso de fotografias nas quais aparecem, direta ou indiretamente, as máquinas como símbolos do progresso, a exemplo da estação de trem ou das máquinas de beneficiamento de algodão. Uma dessas, montada na própria cidade, autentica a ideia de uma fase de prosperidade. Três fotografias reunidas numa página destacam uma matéria sobre a Companhia de Força e Luz de Jacobina (Figura 8). De acordo com o texto, "de tudo que Jacobina possue de bom e útil, ocuppa inegavelmente o primeiro plano a "Cia. de Força e Luz de Jacobina"". A imagem ao centro e logo acima das outras estampa o retrato do coronel Galdino César de Moraes, presidente da aludida companhia e considerado pelo jornal como o principal responsável pela obra. Ao lado estão o interior da usina e a barragem construída no rio do Ouro. O uso das fotografias procura associar a imagem do coronel à do progresso. Implicitamente, o jornal procurava transmitir que, no contexto daquele ufanismo de um Brasil moderno e nacionalista capitaneado por Getúlio Vargas, havia espaço para a participação das pequenas cidades sertanejas como coadjuvantes no seu crescimento. Pelo visto, no imaginário local, aquele "futuro" promissor sonhado por Afonso Costa finalmente estava se tornando realidade.

Figura 8  O Lidador, n.103, 7 set. 1935, p.7. 

VELHOS SERTÕES, NOVOS TEMPOS, OUTRAS IMAGENS

Aquelas imagens hegemônicas dos sertões baianos, cristalizadas no imaginário nacional como lugares onde predominavam seca, miséria, fanatismo e violência, principalmente com a repercussão da obra máxima de Euclides da Cunha, em grande medida foram amenizadas pelos seus interlocutores sertanejos a partir do advento, em suas pequenas urbes, de uma série de novidades identificadas com a presença da tão desejada civilização. A chegada do trem de ferro, da imprensa, de casas de diversões como o teatro e o cinema foram grandes motivadores da promoção de novos hábitos para aquelas populações, entretanto, foi sobretudo com a fotografia que elas aprenderam a construir suas autoimagens. Examinar tais imagens constitui uma janela privilegiada para visualizar as marcas desses novos tempos nos sertões baianos.

REFERÊNCIAS

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1 Este artigo é um dos resultados de pesquisa sobre o circuito social da fotografia nos sertões da Bahia, que conta com apoio financeiro da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

Recebido: 16 de Agosto de 2012; Aceito: 12 de Dezembro de 2014

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