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Horticultura Brasileira

Print version ISSN 0102-0536

Hortic. Bras. vol.17 no.3 Brasília Nov. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-05361999000300011 

PESQUISA

 

Época de aplicação de fungicida para controle da mancha de Mycosphaerella do morangueiro

 

Timing of fungicide application for Mycosphaerella leaf spot control on strawberry

 

 

Cleber Furlanetto1; Celso K. Tomita; Adalberto C. Café Filho

Universidade de Brasília, Departamento de Fitopatologia, 70.910-970 Brasília - DF

 

 


RESUMO

Estudou-se o efeito da época do início da aplicação de fungicida na severidade da mancha de Mycosphaerella fragariae em parcelas experimentais de morango cv. IAC-Campinas. O ensaio foi conduzido em área produtora (Brazlândia, DF) em blocos ao acaso com seis tratamentos (épocas de início de pulverização) e quatro repetições. Foram efetuadas aplicações quinzenais com o p.a. prochloraz (450 g i.a/litro) na dosagem de 100 ml/100 litros de água, e testadas as épocas de início de aplicação: Plantio (pulverização por ocasião do plantio das mudas, com um total de dez aplicações); Flor1 (após a primeira florada, oito aplicações); Flor2 (após a segunda florada, seis aplicações); Flor3 (após a terceira florada, quatro aplicações); Flor4 (após a quarta florada, duas aplicações) e Test (testemunha pulverizada com água desde o transplantio). As seguintes variáveis foram avaliadas: produção total acumulada; severidade de doença; número de folhas mortas e sadias; número de hastes lesionadas e sadias. Os resultados indicaram que os tratamentos Plantio e Flor1 foram superiores aos demais em todos os critérios (Duncan, 5%). O tratamento Flor2 apresentou controle intermediário de doença. Os demais tratamentos não apresentaram diferenças estatísticas significativas entre si.

Palavras-chave:Fragaria x ananassa Duch., controle químico, Mycosphaerella fragariae.


ABSTRACT

The effect of timing of first fungicide application on the severity of Mycosphaerella leaf spot (Mycosphaerella fragariae) on strawberry cv. IAC-Campinas was studied in field plots located in Brazlândia-DF, Brazil. The experiment was conducted as a randomized complete block design with six treatments (times of first fungicide delivery) and four replicates. The fungicide (prochloraz - 450 g a.i./L) was delivered at a dosage of 100 ml/100 L of water, on a 15-day schedule. The following periods for first application were tested: "Plant": at transplant stage; with a total of ten fungicide applications; "Flor1": at first flowering stage, total of eight applications; "Flor2": at second flowering, total of six applications; "Flor3": at third flowering, total of four applications; "Flor4": at fourth flowering, total of two applications; "Test": control plots, sprayed with water starting at transplant. Treatments were ranked accordingly to total fruit yield; disease severity; number of dead and healthy leaves; number of infected and healthy stems. Results indicated that treatments "Plant" and "Flor1" provided a most efficient control of the disease (Duncan, 5%), followed by treatment "Flor2". Treatments "Flor3", "Flor4" and "Test" resulted in poor disease control and were not statistically different.

Keywords:Fragaria x ananassa Duch., Mycosphaerella fragariae. chemical control


 

 

A mancha de Mycosphaerella Johanson é uma doença de grande importância para a cultura do morangueiro (Fragaria x ananassa Duch.), causando perdas significativas de produção, caso não seja controlada (Maas, 1998). O sintoma mais característico são manchas foliares mais ou menos arredondadas de bordas púrpuras e centro claro, que podem coalescer e necrosar toda a folha (Maas, 1998). Mycosphaerella fragariae (Tul.) Lind. (anamorfo: Ramularia brunnea Peck) é encontrado em praticamente todos os países onde se cultiva morango, inclusive no Brasil (Maas, 1998; Tanaka et al., 1997). As duas cultivares mais plantadas no país, Dover e Campinas, são suscetíveis ao patógeno. Embora não tenham sido encontrados dados de perdas de produção devidos a esta doença, Furlanetto et al. (1996a) apresentaram dados recentes de produção e controle de doenças da cultura para o Distrito Federal. A utilização de fungicidas, em curtos intervalos de aplicação, é prática rotineira e incorporada ao sistema de produção de morango em todo o Brasil.

A determinação da eficiência de agroquímicos e a otimização da época de aplicação geram informações que podem levar a uma redução do número total de aplicações e dos custos de produção. O prochloraz, pertencente ao grupo dos imidazóis, apresenta amplo espectro de ação contra ascomicetos e fungos imperfeitos. Até recentemente, sua utilização prática vinha limitando-se ao controle de doenças em cereais (Goulart, 1995), mas existem evidências que o mesmo apresenta desempenho satisfatório também contra M. fragariae, Colletotrichum acutatum Sim. e C. gloeosporioides (Penz.) Sacc. em morangueiro (Domingues et al., 1994 e Furlanetto et al., 1996b), inclusive permitindo aplicações menos freqüentes que aquelas atualmente utilizadas pelos produtores. O objetivo deste trabalho foi o de determinar a melhor época de início de aplicação deste fungicida para o controle da mancha de Mycosphaerella, utilizando-se o princípio ativo prochloraz.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido no município de Brazlândia, DF, com delineamento experimental de blocos ao acaso com seis tratamentos e quatro repetições. Cada parcela foi composta por doze plantas da cultivar IAC-Campinas (duas linhas de seis plantas) em um espaçamento de 30 cm entre plantas e entre linhas. Pulverizações quinzenais com fungicida à base de prochloraz (450 gi.a/L) foram feitas na dosagem de 100 ml/100 L de água. As plantas foram irrigadas por aspersão e adubadas de acordo com análise de solo. Não foi feita inoculação artificial dos canteiros. Os tratamentos foram os seguintes: 1) Plantio: primeira aplicação de fungicida por ocasião do plantio, com um total de dez aplicações ao longo do ciclo da cultura; 2) Flor1: primeira aplicação por ocasião da primeira florada, com um total de oito aplicações ao longo do ciclo da cultura; 3) Flor2: primeira aplicação por ocasião da segunda florada, com um total de seis aplicações ao longo do ciclo da cultura; 4) Flor3: primeira aplicação por ocasião da terceira florada, com um total de quatro aplicações ao longo do ciclo da cultura; 5) Flor4: primeira aplicação por ocasião da quarta florada, com um total de duas aplicações ao longo do ciclo da cultura e 6) Test: testemunha pulverizada com água, sem aplicação de fungicida.

Foram avaliadas a severidade da doença em todas as plantas da parcela, após cada florada, o peso e número total de frutos produzidos durante todo o ciclo da cultura, o número total de folhas mortas e de hastes lesionadas, e o número total de folhas e hastes sadias, após cada florada. Considerou-se como haste lesionada aquela com pelo menos uma lesão. Para avaliação da severidade da doença foi utilizado um índice de doença (ID) baseado na escala diagramática desenvolvida para mancha de Stemphyllium em trevo forrageiro (Clive James, 1971), variando de 1 a 6, cujos valores correspondem às seguintes percentagens de área foliar infectada: 1%, 5%, 10%, 25%, 50% e 75%. O índice foi calculado como a média aritmética das notas atribuídas a todas as plantas da parcela. Foram analisados apenas os dados de intensidade de doença coletados após a quarta florada. Os resultados foram analisados estatísticamente pelo teste de Duncan (5%).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A severidade da doença foi menor quando as pulverizações foram iniciadas mais cedo (tratamentos 1, 2 e 3), aumentando quando as pulverizações foram iniciadas a partir da terceira florada (tratamento 4). Os maiores índices de doença foram observados nos tratamentos 5 e 6 (Figura 1). A crescente eficiência do controle com pulverizações mais precoces ressalta a importância do controle da mancha de Mycosphaerella por meio da redução dos ciclos iniciais de reprodução de lesões, indicando que a taxa de progresso (VanderPlank, 1963) desta mancha foliar é provavelmente muito elevada. A produtividade, tanto em peso quanto em número de frutos, correlacionou-se negativamente com o aumento da severidade de doença: o coeficiente de correlação para a regressão linear entre índice de doença e peso de frutos foi de r = - 0,84 (P < 0,05) e entre o índice de doença e o número total de frutos produzidos foi de r = - 0,86 (P < 0,05). A alta correlação entre as variáveis para avaliação de produtividade e de severidade de doença mostra que a redução de produtividade neste experimento foi efetivamente devida à incidência de Mycosphaerella em folhas e hastes. Os tratamentos não pulverizados ou pulverizados tardiamente (tratamentos 4, 5 e 6) sofreram uma redução de cerca de 50% da produção em comparação com os tratamentos pulverizados precocemente (Figura 2). Maior número de hastes sadias e menor número de hastes lesionadas foram encontrados nos tratamentos Plantio, Flor1 e Flor2 (Figura 3). A mesma tendência foi observada com relação ao número de folhas mortas e número de folhas sadias (Figura 3).

 

 

 

 

 

 

Constatou-se alta correlação entre o peso e número total de frutos produzidos (r = 0,99). Isso indica que qualquer dessas variáveis pode ser indistintamente adotada como critério para avaliação da produtividade. De maneira análoga, encontrou-se alta correlação (r = 0,98) entre as variáveis número de folhas sadias (FS) e de hastes sadias (HS), e correlações negativas entre cada uma dessas variáveis e o índice de doença (ID X FS, r = - 0,79; ID X HS, r = -0,89). Encontrou-se alta correlação (r = 0,90) entre o número de folhas mortas (FM) e hastes lesionadas (HL) e também elevada correlação entre cada uma dessas variáveis e o índice de doença (FM X ID, r = 0,94; HL X ID, r = 0,95). Esse resultado certamente verifica a validade da adaptação da escala selecionada de Clive James (1971, Key No. 2.4) para o patossistema morango-Mycosphaerella. Entretanto, embora quaisquer dessas variáveis (FM, HL ou ID) possa ser indistintamente adotada como critério para avaliação da severidade de doença, constatou-se que o uso do índice de doença apresentou vantagens comparativas se considerada a agilidade de atribuição de notas em menor tempo.

Em conclusão, os resultados mostram que aplicações de fungicidas nas fases iniciais da cultura são essenciais ao controle da mancha de Mycosphaerella. Todos os critérios de avaliação indicaram que as pulverizações devem ser iniciadas logo no transplantio, ou no máximo até a segunda florada. Em aplicações quinzenais, prochloraz apresentou bom controle da doença e esta freqüência certamente pode servir de padrão de investigação em estudos com outros produtos. Essas informações são ainda mais importantes para o controle da mancha de Mycosphaerella pois apontam para uma significativa redução da quantidade de produto por ciclo da cultura, uma vez que a prática atual chega a ser de até 30 pulverizações por ciclo. Por exemplo, em trabalho realizado no município de Piedade, SP, prochoraz foi o produto mais eficiente em controlar M. fragariae, mas em aplicações semanais (Domingos et al., 1994). Finalmente, cabe ressaltar que, pela elevada toxicidade do p.a. e por não ser registrado para o morangueiro, estudos relativos ao efeito residual do produto precisam ser efetuados antes que seja verificada a viabilidade de utilização em campos de produção comercial. Por outro lado, prochloraz poderia ser indicado para a proteção das mudas, antes do transplantio definitivo em áreas comerciais.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem o Prof. Ricardo Montalván Del Águila pelo auxílio nas análises estatísticas. Adalberto C. Café Filho é bolsista de produtividade em pesquisa/CNPq.

 

LITERATURA CITADA

CLIVE JAMES, W. A Manual of Assessment Keys for Plant Diseases. Canada Department of Agriculture Publication No 1458. 1971.         [ Links ]

DOMINGUES, R.J.; TOFOLI, J.G.; OLIVEIRA, S.H.F. Eficiência de fungicidas no controle de Colletotrichum gloeosporioides e Mycosphaerella fragariae do morango. Summa Phytopathologica, Jabiticabal, v. 20, n. 1, p. 41, 1994.         [ Links ]

FURLANETTO, C.; CAFÉ FILHO, A.C.; TOMITA, C.K.; CAVALCANTI, M.H. Doenças do morangueiro e aspectos da produção no Distrito Federal. Horticultura Brasileira, Brasília, v. 14, n. 2, p. 218-220, novembro 1996a.         [ Links ]

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GOULART, A.C.P. Fungicidas inibidores da síntese do ergosterol. II. Imidazoles. Revisão Anual de Patologia de Plantas, Passo Fundo, v. 3, p. 365-390, 1995.         [ Links ]

MAAS, J.L. Compendium of Strawberry Diseases, 2a ed. St. Paul. APS Press. 1998. 98 p.         [ Links ]

TANAKA, M.A.S.; BETTI, J.A.; KIMATI, H. Doenças do morangueiro (Fragaria x ananassa Duch.). In: Kimati et al. (Eds.). Manual de Fitopatologia Vol. 2: Doenças das Plantas Cultivadas, 3a ed. São Paulo, Agronômica Ceres. p. 556-571. 1997.         [ Links ]

VANDERPLANK, J.E. Plant Diseases: Epidemics and Control. New York. Academic Press. 1963.         [ Links ]

 

 

Aceito para publicação em 22 de setembro de 1999
Trabalho desenvolvido em parceria com In Vitro Biotecnologia de Plantas, Brasília, DF e apoio do Programa RHAE/CNPq

 

 

1Atualmente no Departamento de Agronomia, Universidade Estadual do Oeste do Paraná C. Postal 091, 85.960 - 000 Marechal Cândido Rondon, PR

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