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Horticultura Brasileira

versão impressa ISSN 0102-0536

Hortic. Bras. vol.18 no.3 Brasília nov. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-05362000000300014 

PÁGINA DO HORTICULTOR

 

Frutificação e crescimento de frutos em abóbora híbrida 'Tetsukabuto' tratada com alfa-naftalenoacetato de sódio

 

Fruit set and fruit growth of 'Tetsukabuto' squash treated with the sodium salt of alfa-naphthaleneacetic acid

 

 

 

Cassandro V.T. do Amarante; Alexandre F. de Macedo

UDESC - CAV, C. Postal 281, 88.502-970, Lages-SC

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A abertura de flores femininas na abóbora híbrida 'Tetsukabuto' concentra-se num período de três a quatro semanas. Este curto período de florescimento indica que uma polinização deficiente pode ocasionar grande comprometimento da produção de frutos. Este trabalho foi conduzido com o objetivo de avaliar o efeito de concentrações do fitorregulador alfa-naftalenoacetato de sódio (ANA-Na), pulverizado em flores abertas femininas, na frutificação e crescimento de frutos da abóbora 'Tetsukabuto'. O experimento foi conduzido em Lages, SC, na safra 1992/1993, seguindo o delineamento em blocos casualizados, com três repetições. A parcela foi constituída de cinco covas de 'Tetsukabuto' e uma da polinizadora Cucurbita maxima, em espaçamento de 3 x 1 m, com duas plantas/cova. Os tratamentos utilizados foram testemunha (polinização natural) e 150, 300, 450, 600 e 750 mg·L-1 de ANA-Na. Nos tratamentos com ANA-Na, evitou-se a polinização natural isolando-se as flores com sacos de papel. Avaliou-se percentagem de frutificação, peso, comprimento e diâmetro dos frutos e peso, espessura, rendimento e sólidos totais da polpa. Apenas a dose de 750 mg·L-1 do hormônio reduziu a percentagem de frutificação. Os frutos obtidos por tratamento com ANA-Na apresentaram crescimento similar ao dos frutos obtidos por polinização.

Palavras-chave: Cucurbita maxima x C. moschata, florescimento, auxina, crescimento de frutos


ABSTRACT

Anthesis of female flowers of 'Tetsukabuto' squash occurs within three to four weeks. A deficient pollination during this short flowering period may reduce the yield. The sodium salt of alfa-naphthaleneacetic acid (Na-NAA) can be used to improve fruit set when pollination is deficient. This work was conducted to investigate the effects of different concentrations of Na-NAA, sprayed in open female flowers on fruit set and fruit growth of 'Tetsukabuto' squash. The experiment was carried out in 1992-93, in South Brazil, in a randomized block design with three replicates. The plots had a proportion of five plants of 'Tetsukabuto' to one plant of pollinator (Cucurbita maxima), sowed on a spacing of 3 x 1 m. The treatments consisted of 150, 300, 450, 600, and 750 mg·L-1 of Na-NAA, plus the control (with natural pollination). Plants treated with Na-NAA had the flowers covered with paper bags to prevent pollination. The treatments were assessed for fruit set and fruit size (weight and diameter) and pulp yield (fresh weight/fruit, thickness, and total solids) at harvest. Only the highest Na-NAA concentration (750 mg·L-1) reduced fruit set. Na-NAA did not affect fruits growth and pulp yield.

Keywords: Cucurbita maxima x C. moschata, flowering, auxin, fruit growth


 

 

A abóbora híbrida 'Tetsukabuto' é resultante do cruzamento de Cucurbita maxima Duch. (genitor feminino) com C. moschata Duch. (genitor masculino) (Cheng & Gavilanes, 1980). Os frutos são considerados como padrão de qualidade para abóboras e morangas no mercado nacional (Pedrosa et al., 1982). A abóbora 'Tetsukabuto' vem apresentado constante expansão na área plantada e no volume comercializado, ocupando a mais alta cotação no mercado brasileiro de abóboras e morangas (Makishima, 1991).

A abóbora 'Tetsukabuto' produz flores femininas e algumas masculinas na mesma planta. Todavia, as masculinas são estéreis (Cheng & Gavilanes, 1980), sendo necessário o plantio de uma cultivar polinizadora em 10 a 20% da área cultivada (EMBRATER/EMBRAPA/EMATER-MG, 1980).

Em cucurbitáceas, o rendimento e a qualidade dos frutos são acentuadamente reduzidos quando a polinização é deficiente (Wills & Wearing, 1993; Stanghellini et al., 1998), podendo ocorrer reduções no rendimento de até 90% na ausência de abelhas polinizadoras (Gill, 1989). Problemas relativos à sincronização deficiente do florescimento da abóbora híbrida e da polinizadora e à menor freqüência de insetos polinizadores em períodos chuvosos ou de ventos fortes, têm sido apontados como responsáveis pela queda no rendimento da cultura. Com vistas a contornar estes problemas, pode ser adotado o uso de fitorreguladores do grupo das auxinas, que, quando pulverizados na flor aberta, diretamente sobre o pistilo, asseguram a formação do fruto pelo processo denominado de partenocarpia, sem necessidade de polinização (Krishnamoorthy, 1981; Wittwer, 1983).

O presente trabalho teve por objetivos avaliar o florescimento e a eficiência do uso do fitorregulador alfa-naftalenoacetato de sódio (ANA-Na) na frutificação e crescimento de frutos da abóbora híbrida 'Tetsukabuto'.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os experimentos de florescimento e de tratamentos com ANA-Na foram conduzidos no município de Lages (SC), em um Cambissolo Húmico Álico, na safra 1992/93. O solo foi submetido ao preparo convencional, sendo corrigido, com calcário dolomítico, para pH 6,0.

No experimento de avaliação de florescimento, a semeadura foi realizada em covas, no dia 20/12/92, seguindo um espaçamento de 3 x 3 m. Usou-se seis sementes e 250 g de adubo da fórmula 5-20-10 por cova. Três semanas após a semeadura fez-se o desbaste, mantendo-se três plantas por cova. Acompanhou-se diariamente o florescimento de doze plantas (quatro covas), no período de 8 às 12 horas da manhã, contando e marcando com fitas as flores femininas abertas.

No experimento com ANA-Na, a semeadura foi realizada em covas, no dia 07/12/92, em um espaçamento de 3 x 1 m. Usou-se três sementes e 250 g de adubo da fórmula 5-20-10 por cova. A polinizadora utilizada foi a moranga Cucurbita maxima cv. `Exposição', semeada 15 dias antes da 'Tetsukabuto', na proporção de uma cova da polinizadora para cinco covas da 'Tetsukabuto'. Duas semanas após a emergência fez-se o desbaste, mantendo-se duas plantas por cova.

Os tratamentos utilizados foram: testemunha (polinização natural) e 150, 300, 450, 600 e 750 mg·L-1 de ANA-Na. Nos tratamentos com ANA-Na, as flores foram protegidas com sacos de papel. Essa proteção foi removida na antese para a pulverização com ANA-Na, sendo em seguida recolocada, permanecendo até a abscisão da corola. Foi utilizado o delineamento experimental em blocos ao acaso, com três repetições e cinco covas (10 plantas) por parcela.

Cerca de 20 dias após o início do florescimento, foram feitas avaliações de percentagem de frutificação efetiva dos diferentes tratamentos. A seguir procedeu-se o raleio dos frutos, procurando-se deixar três a quatro frutos por planta, em todos os tratamentos.

Após a colheita, amostras aleatórias, constituídas de quatro a dez frutos por parcela, foram avaliadas em termos de peso e diâmetros equatorial e longitudinal (entre as regiões peduncular e pistilar) dos frutos e peso, espessura (nas regiões peduncular, equatorial e pistilar), sólidos totais e rendimento de polpa. Estas determinações seguiram a metodologia proposta por Chitarra et al. (1979).

Os dados obtidos foram submetidos à análise da variância e as médias comparadas pelo teste de Tukey. Os dados de percentagem de frutificação foram transformados para arco seno (x/100)1/2, para normalização, antes de submete-los à análise estatística.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O florescimento da abóbora 'Tetsukabuto' iniciou-se no 43° dia após a semeadura (1° de fevereiro), estendendo-se até o 76° dia (6 de março) (Figura 1). Incrementos maiores no número de flores abertas foram verificados a partir do 52° dia após a semeadura (10 de fevereiro). Isto mostra que a abertura de flores femininas concentra-se num período de três a quatro semanas. O número final de flores/planta foi de 6,1. Este curto período de florescimento, aliado ao fato de que a antese de flores individuais nas abóboras é restrita a apenas um dia, no período da manhã, ocorrendo o abortamento das mesmas caso não sejam polinizadas (Pedrosa et al., 1982), indica a importância de uma eficiente polinização das plantas neste período. Em situações onde a polinização seja prejudicada, por condições climáticas adversas para os insetos polinizadores ou falta de sincronismo de floração entre a abóbora 'Tetsukabuto' e a cultivar polinizadora, pode-se prejudicar o vingamento de frutos e a produtividade da cultura. Na ausência de polinização, o ovário abscide e a flor cai. Portanto, a polinização fornece o estímulo hormonal, principalmente na forma de auxinas, para o desenvolvimento do ovário e o vingamento dos frutos (Krishnamoorthy, 1981).

 

 

A aplicação de auxinas sintéticas, promove o desenvolvimento de frutos partenocárpicos (desprovidos de sementes), isto é, formados na ausência de fecundação. Neste caso, a auxina sintética substitui o suprimento endógeno de auxina do ovário fertilizado para o desenvolvimento do fruto (Krishnamoorthy, 1981; Wittwer, 1983). Mas, o uso de altas doses pode causar toxidez e queda de flores (Salisbury & Ross, 1992).

Neste trabalho, observou-se que as plantas polinizadas por abelhas apresentaram o maior índice de frutificação (95%), mas não diferiram dos tratamentos em que se aplicou ANA-Na, nas doses entre 150 e 600 mg·L-1, que apresentaram taxa de vingamento de frutos entre 76 e 84%. Porém, na dose de 750 mg·L-1, houve queda significativa da frutificação, com apenas 53% dos frutos vingando (Tabela 1). Esse fato parece confirmar as observações de que as altas doses de auxina podem induzir a síntese de etileno, o qual tem como principais efeitos biológicos a senescência e abscisão (Salisbury & Ross, 1992). A alta percentagem de frutificação nas plantas polinizadas ocorreu devido a condições favoráveis aos insetos, porém, em situações adversas, provavelmente será menor.

Nos frutos tratados com ANA-Na não ocorreu formação de sementes, mas houve o desenvolvimento de integumentos dos rudimentos seminais na cavidade interna, o que confirma a natureza partenocárpica dos mesmos.

De modo geral, não houve diferença significativa de crescimento de frutos entre os tratamentos. Portanto, os frutos partenocárpicos, obtidos pela aplicação de ANA-Na, dentro das doses testadas (150 a 750 mg·L-1), apresentaram desenvolvimento similar aos frutos polinizados (Tabela 1).

Os resultados obtidos permitem concluir que o fitorregulador ANA-Na é eficiente na indução de partenocarpia em abóbora 'Tetsukabuto', com os frutos apresentando desenvolvimento similar aos oriundos da polinização. As flores podem ser polinizadas com solução contendo entre 150 e 600 mg·L-1 de ANA-Na, já que em doses maiores (750 mg·L-1) o índice de frutificação caiu drasticamente. A menor dose (150 mg·L-1) foi eficiente, sendo recomendável testar a eficiência de doses menores, afim de reduzir os custos, já que os produtos comercializados indicam o uso de 200 a 333 mg·L-1 do fitorregulador.

A viabilidade do uso dessa prática talvez permita dispensar o cultivo da polinizadora, elevando em 10-20% a área plantada com o híbrido 'Tetsukabuto', o que pode aumentar a receita obtida pelos produtores. Porém, isto somente se justificaria após a execução de uma análise econômica, considerando os custos do ANA-Na e da mão-de-obra para a aplicação, bem como do incremento em rendimento pela eliminação da polinizadora, cujos frutos apresentam valor comercial menor do que os frutos da 'Tetsukabuto'. Mas é indiscutível que a aplicação do ANA-Na reduz as perdas decorrentes de falhas na polinização, podendo ser utilizada em situações de baixa freqüência de insetos polinizadores, devido a condições climáticas adversas e de deficiente sincronização do florescimento da abóbora 'Tetsukabuto' e da polinizadora.

 

LITERATURA CITADA

CHENG, S.S.; GAVILANES, M.L. Microsporogênese e macho-esterilidade da moranga híbrida interespecífica "Tetsukabuto". In: CONGRESSO BRASILEIRO DE OLERICULTURA, 20, Brasília, 1980. Resumos... Brasília: EMBRAPA/EMATER/SOB, 1980. p. 26.         [ Links ]

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Endereço para correspondência
Cassandro V.T. do Amarante
UDESC - CAV
C. Postal 281
88.502-970, Lages-SC
E-mail: amarante@cav.udesc.br

Aceito para publicação em 12 de setembro de 2.000

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