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Horticultura Brasileira

versão impressa ISSN 0102-0536

Hortic. Bras. v.21 n.3 Brasília jul./set. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-05362003000300021 

PESQUISA

 

Crescimento de mudas de gipsofila em diferentes substratos1

 

Development of young plants of gypsophila in different substrates

 

 

Nair BosaI; Eunice Oliveira CalveteII; Vilson Antônio KleinII; Marilei SuzinII

IEAFS, C. Postal 21, 99170-000 Sertão-RS
IIFAMV-UPF,C. Postal 611, 99001-070 Passo Fundo-RS; E-mail: calveteu@upf.tche.br

 

 


RESUMO

Dentro da horticultura um dos ramos que tem se expandido nos últimos anos é a floricultura, em função de sua rentabilidade. Neste sentido, o estudo e uso dos substratos para produção de mudas torna-se de grande importância, pois da qualidade da muda depende o resultado do produto final. Considerando que a qualidade de um substrato é o resultado de suas propriedades químicas e físicas, efetuou-se a caracterização dos mesmos. Este experimento foi realizado com o objetivo de avaliar o crescimento de plantas de Gypsophila paniculata cv. Bristol Fairy em diferentes substratos. Os tratamentos (seis substratos) foram dispostos em delineamento de blocos casualizados, com parcelas subdivididas no tempo, com quatro repetições. Cada parcela constou de 22 plantas, totalizando 588 mudas. Nos substratos, foram efetuadas as análises físico-químicas: densidade seca, porosidade total, espaço de aeração, água disponível, água facilmente disponível, pH, condutividade elétrica e capacidade de troca de cátions. As avaliações nas plantas foram realizadas semanalmente (7-35 dias) e constituíram-se da taxa de sobrevivência, volume de raízes, massa fresca e seca da parte aérea e da raiz. Os resultados indicaram que a característica disponibilidade de água otimiza a aclimatização de Gypsophila paniculata. Os melhores resultados para produção de mudas foram obtidos com os substratos FE1 (perlita + turfa) e FE4 (casca de pinus + perlita + turfa).

Palavras-chave: Gypsophila paniculata, propagação, in vitro, aclimatização.


ABSTRACT

Floriculture is one of the branches in horticulture that has expanded in the last years because of its profitability. The study and the use of substrates for producing young plants are important, once the gypsophila production depends on young plants quality. Considering that the quality of a substrate is the result of its chemical and physical properties, the characterisation of these properties was made. This trial was carried out to evaluate the growth of Gypsophila paniculala cv. Bristol Fairy plants in different substrates. The experimental design was a randomised complete blocking split-plot scheme with six treatments (substrates) and four replicates. Each plot consisted of 22 plants, totalizing 588 young plants. The following physical chemical analyses were performed: dry density, total porosity, aeration space, available water, water easily available, pH, electric conductivity and cations capacity change. Plant development was evaluated on a weekly basis and the following parameters were measured: survival rate, root volume, fresh and dry matter of aerial part and root. Substrates with higher levels of water easily available optimised the Gypsophila paniculata acclimatization. The best results for young plants production were obtained with the substrates FE1(perlite + peat) and FE4 (pine of husks + perlite + peat).

Keywords: Gypsophila paniculata, propagation, in vitro, acclimatisation.


 

 

No Brasil, a Gypsophila paniculata é considerada uma das principais flores de corte, sendo apontada como o terceiro produto mais comercializado na CEAGESP e um dos dez mais vendidos no Veiling da Holambra (Castro, 1998). Os estados brasileiros maiores produtores dessa cultura são Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, sendo que São Paulo movimenta 70% da produção nacional de flores (IBRAFLOR, 2001). A propagação dessa espécie pode ser feita por estacas, utilizando-se regulador de crescimento (Kusey & Weiler, 1980; Arteaga & Amesquita, 1990; Blanco & Barrera, 1992) e por sementes, que resulta em plantas com desuniformidade e de custo elevado, pela dependência da importação (Hartmann & Kester,1990). A técnica mais vantajosa é a micropropagação (Kusey et al., 1980; Grattapaglia & Machado, 1998) a qual permite produção de mudas em escala comercial, livres de pragas e doenças em curto espaço de tempo.

Os substratos assumem cada vez maior importância na área de Horticultura, desempenhando principalmente a função como suporte ao sistema de raízes de plantas. O desenvolvimento de raízes em um vaso é diferente daquele do campo (Kämpf, 2000). Assim, cultivos em recipientes alteram as condições entre as raízes e o substrato em razão do volume e espaços reduzidos (Bunt, 1961). Afim de compensar essas características, Bellé & Kämpf (1993) relatam que os substratos hortícolas devem apresentar elevado espaço de aeração, elevada capacidade de retenção de água, alta capacidade de troca de cátions (CTC) e baixo teor de sais solúveis (TTSS), entre outros itens. Segundo Verdonck et al.(1981), as propriedades físicas e químicas dos substratos podem variar muito; por isso, é importante conhecê-las para adaptá-las às diferentes condições de uso.

Entre as características físicas importantes na determinação da qualidade de um substrato, destacam-se densidade, porosidade total, espaço de aeração e retenção de água. Existem variações entre os valores considerados ideais para cultivo em substrato, que vão desde 170-1000 Kg.m-3, para a característica densidade; de 0,80-0,90 m3.m-3, para porosidade total; de 0,10-0,40 m3.m-3, para espaço de aeração e de 0,20-0,80 m3.m-3, para retenção de água no substrato (Grolli, 1991). Entre as características químicas mais importantes, encontram-se o valor de pH, o teor de sais solúveis e a capacidade de troca de cátions. Os valores de pH recomendados para o cultivo de plantas ornamentais, variam de 5,0-5,8 de acordo com Penningsfeld & Kurzmann (apud Fermino & Bellé, 2000); entre 5,5-6,5 para Lucas & Davis (apud Fermino & Bellé, 2000) e, entre 5,0-6,5 segundo Lopes & Alonso (apud Rodrigues & Medeiros, 2000). Os valores para teor total de sais solúveis, medidos por meio da condutividade elétrica (CE), são apresentados por Ballester-Olmos (1993) através da classificação: 0,75 mS.cm-1 muito baixo; 0,75-2,0 mS.cm-1 ideal para sementeiras e mudas em bandejas; 2,0-3,5 mS.cm-1 apropriado para a maioria das plantas e acima de 3,5 mS.cm-1 muito alto. Com relação à CTC, Conover (1967) considera satisfatórios valores entre 10-30 cmol c.L-1 de matéria seca.Verdonck et al. (1981) estabeleceram como ideal substrato com CTC superior a 12 cmol c.L-1.

Existem poucos trabalhos que relatam o estudo do substrato na fase de transplante da planta desenvolvida in vitro para as condições ex vitro. Plantas de Telopea speciosissima não enraizadas in vitro foram aclimatizadas em condições de alta umidade, sob três diferentes substratos: areia, areia + turfa (1:1v/v) e turfa + perlita (1:1 v/v). A mistura com turfa + perlita apresentou o maior número de explantes enraizados ex vitro (Offord & Campbell,1992). Por outro lado, Fior & Kämpf (1999) apontam o substrato composto por 50% de casca de arroz carbonizada e 50% de turfa como o de melhores aptidões para aclimatização de Limonium platyphyllum. Schneider (2000), ao pesquisar aclimatização da mesma espécie, concluiu que em bandejas de 242 células, com cinco cm de altura, as plantas têm maior desenvolvimento em substratos com 14% de espaço de aeração, 7% de água facilmente disponível e 47% de água disponível. Já, Calvete et al. (2000), observando as peculiaridades de cada espécie e as exigências diferenciadas da planta em cada fase de crescimento ex vitro, pesquisaram diferentes misturas durante a aclimatização de mudas de morangueiro da cv. Campinas e obtiveram plantas mais desenvolvidas, quando utilizaram casca de arroz queimada e turfa preta (mineralizada). Esses substratos apresentaram maior retenção de água e menor espaço de aeração e proporcionaram maior sobrevivência, crescimento e qualidade nas mudas. No enraizamento de estacas in vivo de crisântemos, rosas e cravos, os floricultores utilizam apenas o composto de casca de arroz carbonizada, em razão do elevado volume de aeração que esse material apresenta (Bellé & Kämpf, 1994).

Observam-se respostas diferenciadas entre espécies em relação ao substrato selecionado. Assim, este experimento teve como objetivo analisar o crescimento de mudas de Gypsophila paniculata, em diferentes substratos durante a aclimatização, visando selecionar aquela que apresenta uma melhor resposta para a produção comercial de mudas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado na FAMV/UPF, de maio a dezembro/01.

Para a fase in vitro, utilizaram-se ápices caulinares (explantes) retirados de hastes de Gypsophila paniculata cultivar Bristol Fairy, multiplicados por três subcultivos sucessivos até atingir o número necessário de mudas. Para o enraizamento, as mudas foram colocadas em meio de cultura MS (Murashige & Skoog, 1962), acrescido de 0,5 mg L-1 de AIB, 30 g L-1 de sacarose e 6,0 g L-1 de ágar, sendo utilizadas cinco mudas/frasco. Os explantes foram mantidos em frascos com capacidade de 300 cm3, cobertos com filme de PVC transparente, sob fotoperíodo de 12 horas e temperatura de 27±2°C.

Aos 25 dias de enraizamento in vitro, selecionou-se as plantas com comprimento médio de 2,5 cm, as quais foram retiradas dos frascos, lavadas e transferidas para bandejas de poliestireno expandido com 72 células de 110 cm3 cada uma, preenchidas previamente por diferentes substratos, que constituíram os tratamentos casca de arroz carbonizada (CAC) e cinco substratos comerciais da Empresa Turfa Fértil-SC denominados de Horta (casca de pinus + turfa), Jardim (casca de pinus + turfa), Ornamental (casca de pinus + turfa + sílica), FE 1 (perlita + turfa) e FE 4 (casca de pinus + perlita + turfa).

Para descrever as características físico-químicas dessas misturas foram feitas várias análises. Na caracterização química, efetuou-se o pH, teor total de sais solúveis (TTSS) expresso em condutividade elétrica (CE) e capacidade de troca de cátions (CTC), no Laboratório de Solos da FAMV/UPF. Para a caracterização física, efetuaram-se densidade do substrato (DS), porosidade total (PT), espaço de aeração (EA), água facilmente disponível (AFD) e água disponível (AD), no Laboratório de Física do Solo da FAMV/UPF, obtidas através da curva de retenção de água pelo método do funil de placa porosa, a partir das sucções de 0; 10; 50 e 100 cm (0; 1; 5 e 10 Kpa), fundamentado por De Boodt & Verdock, (1972) e Libardi, (1995) e descrito por Calvete (1998).

A aclimatização foi feita em estufa plástica sob sistema de nebulização intermitente, regulado por timer automático, sendo que a cada doze minutos as plantas recebiam irrigação de seis segundos, em forma de névoa. No decorrer deste trabalho, foram registradas alterações na temperatura e na umidade relativa do ar em termo-higrógrafo de registro semanal, instalado no interior da estufa.

Três aplicações de nutrientes e duas de fungicidas (Metalaxyl na dosagem de 3 g.L-1) foram efetuadas durante o período em que as mudas permaneceram nos substratos. A solução nutritiva foi preparada à base dos componentes da solução estoque do meio MS citado por Caldas et al. (1998) nas quantidades de 1 ml.L-1 das soluções E, F e G; 2ml.L-1 das soluções D e H; 4 ml.L-1 da solução A e 5 ml.L-1das soluções B e C. Antes da aplicação, diluiu-se esta solução na proporção de 1:5 (solução: água). Os tratamentos (seis substratos) foram dispostos em blocos ao acaso, com parcelas subdivididas no tempo em quatro repetições. Cada parcela constou de 22 plantas, com uma planta/célula, totalizando 528 plantas.

Durante a execução do experimento, foram avaliadas semanalmente (até 35 dias) as características de sobrevivência (%), volume de raiz (cm3), matéria fresca e seca da raiz (MFR e MSR) e aérea (MFA e MSA) em miligramas. A taxa de sobrevivência foi determinada semanalmente, através da contagem das plantas sobreviventes. Para a avaliação das demais variáveis, utilizaram-se três plantas/parcela. O volume foi determinado segundo metodologia descrita por Basso (1999). O procedimento consiste em colocar as raízes em proveta graduada, contendo um volume conhecido de água. Pela diferença de volume obtém-se a resposta direta por equivalência de unidades (1ml = 1cm3). O peso da matéria seca foi obtido pela de secagem em estufa a 65°C até peso constante. A matéria da parte aérea e das raízes foi determinada em uma balança digital analítica (Sartorius).

Obteve-se o grau de associação entre os dados de crescimento e as características físicas e químicas dos substratos, efetuando-se a análise de correlação.

Os dados foram submetidos à análise de variância e de regressão. O cálculo da equação quadrática foi efetuado, utilizando-se os valores da equação e aplicando-se a fórmula (-b/2c).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Observa-se com relação às características químicas, que apenas o substrato CAC apresentou-se fora dos limites considerados ideais (Tabela 1). Os substratos comerciais apresentaram-se dentro das faixas indicadas para o cultivo de plantas ornamentais (Fermino & Bellé, 2000; Ballester-Olmos, 1993; Verdonck et al.,1981). Enquanto o pH variou entre 5,1 para o substrato Horta e 5,7 para o substrato FE1, a CAC apresentou o valor de 7,1. Puchalski & Kämpf (2000) encontraram valor semelhante em estudos de substratos com hibiscos. Estes autores concluíram que este pH não limitou o enraizamento desta espécie. Com relação à condutividade elétrica, os substratos comerciais apresentaram valores ideais (0,75-2,0 mS.cm-1) para mudas em bandejas segundo Ballester-Olmos (1993), compreendidos entre 0,96-1,36 mS.cm-1 para os substratos FE4 e Ornamental, respectivamente. A CAC encontra-se abaixo da faixa ideal, com o valor de 0,30 mS.cm-1. No entanto, Kämpf (2000) salienta que a CAC é um material de baixa salinidade, o que a torna imprópria para o cultivo de plantas, sendo a mesma recomendada para enraizamento de estacas. Verdonck et al.(1981) consideraram satisfatória a CTC acima de 12 cmol c.L-1. A CTC dos substratos comerciais apresentou uma amplitude entre 41,8 cmol c.L-1 (substrato FE4) e 51,4 cmol c.L-1 (substrato Jardim). O substrato CAC ficou abaixo dessa recomendação (6,8 cmol c.L-1).

Do ponto de vista das características físicas, a densidade seca dos substratos comerciais apresentou uma amplitude de 0,22 Kg.m-3 no substrato FE1 e 0,51 Kg.m-3 no substrato Ornamental; por outro lado, a CAC apresentou 0,15 Kg.m-3. Os materiais FE1, FE4 e CAC apresentam valores considerados satisfatórios para propagação em células e bandejas (0,10-0,30 Kgm-3), ao passo que Ornamental foi o substrato com maior densidade (0,51 Kg.m-3), o que pode ter afetado o crescimento das raízes. Com relação à porosidade total, apenas a CAC foi superior ao volume recomendado (0,85 m3.m-3), apresentando valor de 0,88 m3.m-3. No entanto, os materiais FE1 e FE4 apresentam-se muito próximos ao ideal. Observa-se que a maioria dos substratos apresentaram espaço de aeração abaixo da faixa considerada ideal por De Boodt & Verdonck (1972), de 0,20-0,30 m3m-3. Apenas o material CAC apresentou valor superior, com 0,62 m3.m-3. Bellé & Kämpf (1993) encontraram o valor 0,42 m3.m-3 para essa característica. Esse material é utilizado para o enraizamento de estacas de espécies ornamentais, pois destaca-se pelo elevado volume de aeração e por resistir à decomposição, mantendo a estabilidade do material. Quanto à capacidade de retenção de água, somente os substratos FE1 e FE4 apresentam-se dentro dos valores ideais, com 0,25 e 0,27 m3.m-3. Esses materiais, provavelmente, apresentam alta macroporosidade. Entretanto, os substratos Horta e Jardim ficaram muito próximos à faixa considerada ideal. Por outro lado, os materiais Ornamental e CAC apresentam valores abaixo do limite ideal, revelando uma marcante macroporosidade.

Observou-se efeito positivo da aclimatização sobre as mudas de Gypsophila paniculata cv. Bristol Fairy, produzidas em diferentes substratos. A sobrevivência das plantas apresentou-se de forma diferenciada (p=0,0002) no decorrer da realização do experimento. Plantas desenvolvidas no substrato à base de CAC demonstraram superioridade com a maior taxa de sobrevivência (99%), seguidas das plantas do material FE4 (97%). Entretanto, no substrato Horta houve a menor taxa de sobrevivência (95%). Embora, no geral, as taxas de sobrevivência tenham sido altas, observa-se um leve declínio ao longo do período. Resultados contrários foram observados por Silva et al. (1995), pesquisando Ipomea batatas e Manihot esculenta, quando, a partir dos dez dias após a emissão das raízes, as plantas elevaram o índice de sobrevivência, embora a última espécie tenha demonstrado maiores dificuldades para aclimatizar-se.

Independentemente do substrato utilizado, para a produção de mudas de Gypsophila paniculata, o volume de raízes durante a aclimatização variou, apresentando um comportamento semelhante para cinco dos seis substratos (Figura 1). Apenas o substrato FE4 mostrou um comportamento quadrático apresentando o maior volume de raízes entre os materiais estudados aos trinta dias de enraizamento ex vitro. Provavelmente, isso tenha ocorrido devido a limitação do espaço físico das células da bandeja, as quais se encontravam completamente ocupadas pelas raízes por ocasião da última avaliação. De acordo com Reis, apud Nicoloso et al. (2000), a restrição do crescimento de raízes provocada pelo volume do recipiente pode promover o desequilíbrio na razão entre raízes e parte aérea, alterando as respostas fisiológicas da planta. Observa-se que o volume das raízes desenvolvidas nos substratos FE1 e CAC apresentou um aumento diário de 0,011 e 0,008 cm3, respectivamente, durante o período de aclimatização. Entretanto, o volume das raízes que se desenvolveram nos substratos Horta, Jardim e Ornamental, foi o mais reduzido.

A variação na massa seca das raízes durante a aclimatização foi semelhante em todos os tratamentos, porém com intensidade variada, comportando-se com um aumento linear ao longo das datas de avaliação para todos os substratos (Figura 2). Observa-se, inicialmente, a superioridade do acúmulo de massa seca de raízes na mudas que se desenvolveram no substrato com CAC até aproximadamente o 16º dia de enraizamento ex vitro. Essa superioridade inicial das raízes em CAC deve ter ocorrido por ocasião da elevação da umidade relativa do ar (71%) e redução da temperatura (21°C) verificada nesse período, pois esse material apresenta elevado volume de aeração, proporcionando maior drenagem. Em vista disso, essas condições ambientais provavelmente devem ter proporcionado menor evapotranspiração na planta e, com isso, o substrato permaneceu mais úmido. Após o 16° dia, observa-se maior biomassa nas plantas desenvolvidas no substrato FE4, mantendo-se até o final do período. Estes resultados devem ter sido favorecidos, provavelmente, pela capacidade de retenção de água deste substrato. Os dados são contrários aos encontrados por Bellé & Kämpf (1993), quando os substratos contendo CAC promoveram grande ramificação das raízes de plantas de maracujá in vivo, pois atingiram volume, comprimento e superfície duas vezes superiores aos demais substratos testados, porém concordam com Calvete et al.(2000) e Schneider (2000). Por outro lado, Kämpf (2000) cita o uso de CAC, para enraizamento de estacas de crisântemos e roseiras, em função das baixas densidades e capacidade de retenção de água, boa aeração e drenagem rápida.

Com relação à matéria de raiz fresca, apenas o substrato FE4 apresentou um comportamento quadrático; os demais obtiveram um crescimento linear ao longo do tempo. As plantas desenvolvidas no material FE4 apresentaram um desempenho superior. Por outro lado, as mudas obtidas no substrato Jardim apresentaram o menor desenvolvimento, com um crescimento diário de raiz de 5,6 mg. Possivelmente, o resultado positivo das plantas no substrato FE4 tenha ocorrido em função da boa capacidade de retenção de água deste material. Resultados semelhantes foram encontrados por Kusey & Weiler (1980), os quais encontraram superioridade no enraizamento de Gypsophila paniculata (cv.Bristol Fairy) em substratos com maior retenção de água. Também Castro et al. (1996), ao testarem areia pura e areia + turfa no enraizamento de Gypsophila, obtiveram melhor resposta em plantas obtidas na mistura. Possivelmente, o acréscimo da turfa tenha melhorado a reserva hídrica, entretanto, resultados contrários foram obtidos por Offord & Campbell (1992), no enraizamento de Telopea speciosissima.

Com relação à parte aérea, as respostas do crescimento de Gypsophila paniculata para matéria fresca e seca apresentaram um comportamento linear ao longo do tempo em todos os substratos. As plantas cultivadas no substrato FE4 obtiveram um ganho superior de massa fresca, apresentando um incremento diário de 26,64 mg, com um R2 de 0.79, seguido daquelas do FE1 (24,65mg), até o final do período. Estes dois materiais apresentam boa capacidade de retenção de água e baixa aeração.

Plantas produzidas nos substratos FE4 mostraram-se superiores em todas as características avaliadas, seguido pelo material FE1. Por outro lado, as mudas obtidas nos materiais CAC, Horta, Jardim e Ornamental apresentaram resultados inferiores. Os dados aqui encontrados sugerem que a resposta positiva das plantas aos substratos com maior retenção de água durante a aclimatização pode ser resultado de uma característica específica da planta. Resultados semelhantes foram encontrados por Calvete et al. (2000) e Schneider (2000), entretanto, são contrários aos encontrados por Aldrufeu (1987), Kämpf & Jung (1991). Nestes estudos, o maior enraizamento ex vitro ocorreu em substratos com alto espaço de aeração.

A análise do grau de associação realizada, mostrou efeito positivo apenas entre a disponibilidade de água (AFD) e a matéria fresca da parte aérea (MFA), com um grau de associação de 83%. Os substratos FE4 (casca de pinus + perlita + turfa) e FE1 (perlita + turfa) apresentam maior retenção de água e menor espaço de aeração comparados com a faixa ideal (0,20-0,30 m3.m-3), proporcionando maior crescimento nas mudas de Gypsophila paniculata cv. Bristol Fairy. Das características químicas e físicas analisadas, apenas a água disponível (AFD) tem relação com a parte aérea. Desta forma, para propagar gipsofila deve-se utilizar os substratos FE4 e FE1, pois otimizam a aclimatização.

 

AGRADECIMENTOS

O primeiro autor agradece à Coordenação de aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela concessão de bolsa de mestrado. À Empresa Turfa-Fértil-SC, na pessoa do Eng. Agr. Amilcar Seus Ferreira, pela cedência dos substratos comerciais.

 

LITERATURA CITADA

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Recebido para publicação em 20 de maio de 2002 e aceito em 30 de abril de 2003

 

 

1 Parte integrante da dissertação de mestrado do primeiro autor, realizada na FAMV/UPF.