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Horticultura Brasileira

versão impressa ISSN 0102-0536versão On-line ISSN 1806-9991

Hortic. Bras. v.25 n.3 Brasília jul./set. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-05362007000300014 

PESQUISA

 

Utilização de compostos orgânicos como substratos na produção de mudas de hortaliças

 

Utilization of organic compost as substrate for vegetable seedling production

 

 

Marco Antonio de A Leal; José Guilherme M Guerra; Ricardo TG Peixoto; Dejair L de Almeida

Embrapa Agrobiologia, BR 465, km 7, 23851-970 Seropédica-RJ; mleal@cnpab.embrapa.br

 

 


RESUMO

Visando determinar a viabilidade da utilização de compostos orgânicos obtidos com palhada de Crotalaria juncea L. e capim Napier (Pennisetum purpureum Schum.) como substratos na produção de mudas de hortaliças, realizaram-se experimentos com alface (folhosa), beterraba (raiz) e tomate (hortaliça de fruto). Estudou-se a eficiência de compostos produzidos a partir dos materiais: 100% de Crotalária Júncea; 66% de Crotalária Júncea + 33% de Napier; 33% de Crotalária Júncea + 66% de Napier; 100% de Napier; 33% de Crotalária Júncea + 66% de Napier, inoculado com 5% da massa com esterco bovino; 33% de Crotalária Júncea + 66% de Napier, inoculado com 100 L de Agrobio diluído a 5%; 100% de Napier, inoculado com 100 litros de Agrobio diluído a 5%. Como controle utilizou-se o substrato comercial Plantmax HT®. Avaliou-se altura da parte aérea, número de folhas, produção de massa fresca na parte aérea e produção de massa seca na parte aérea. O composto produzido com a mistura de 66% de Crotalária Júncea e 33% de Napier mostrou-se superior aos demais tratamentos para produção de mudas de alface, beterraba e tomate.

Palavras-chave: Crotalaria juncea L., Pennisetum purpureum Schum., compostagem, mudas, produção orgânica.


ABSTRACT

The viability of the organic compost utilization as a substrate for vegetable seedlings production, obtained from Crotalaria juncea L. and Napier grass (Pennisetum purpureum Schum.), was determined. The research was developed with lettuce (leaf vegetable), beetroot (root vegetable) and tomato (fruit vegetable). The organic composts were produced from: 100% Crotalaria Juncea; 66% Crotalaria Juncea + 33% Napier; 33% Crotalaria Juncea + 66% Napier; 100% Napier; 33% Crotalaria Juncea + 66% Napier, inoculated with 5% of the mass with cattle manure; 33% Crotalaria Juncea + 66% Napier, inoculated with 100 L of 5% diluted Agrobio; 100% Napier, inoculated with 100 L of 5% diluted Agrobio. We evaluated the height, leaf number, aerial green weight and aerial dry weight. A commercial substrate Plantmax HT® was used as control. The compost produced from the mixture of 66% Crotalaria Juncea and 33% Napier presented the best results, being adequate for the production of lettuce, beetroot and tomato seedlings.

Keywords: Crotalaria juncea L., Pennisetum purpureum Schum., composting, seedlings, organic production.


 

 

É crescente a demanda por substratos, utilizados principalmente na produção de plantas ornamentais, hortaliças em recipientes e mudas (Abreu et al., 2002). Grande parte dos substratos são produzidos utilizando-se turfa como componente principal, mas são crescentes os esforços visando a substituição deste material, devido a questões de proteção ambiental (Baumgarten, 2002). Os compostos orgânicos podem atender plenamente esta demanda, principalmente em sistemas orgânicos de produção, que impedem o uso de fertilizantes sintéticos de elevada solubilidade.

Devido ao limitado volume para o crescimento das raízes, os substratos devem ser capazes de proporcionar fornecimento constante de água, oxigênio e nutrientes para as plantas (Fermino, 2002), garantido assim ambientes estáveis para o desenvolvimento das plantas (Carlile, 1997).

Compostos orgânicos podem fornecer os nutrientes necessários ao crescimento para várias culturas. Embora os compostos orgânicos possam conter quantidades significativas de N, a maior parte se encontra na forma orgânica e não está plenamente disponível para as plantas (WRAP, 2004). Quando a demanda total de N pela planta é baixa e distribuída por um longo período de tempo, a utilização de compostos orgânicos como substratos pode fornecer todo o N necessário. Caso contrário, também devem ser utilizados fertilizantes com rápida disponibilização de N. O mesmo vale para os outros nutrientes (Hadas & Portnoy, 1997). Os compostos orgânicos geralmente possuem CTC mais elevada do que a turfa e possuem efeito corretivo do pH (WRAP, 2004).

Os compostos orgânicos devem possuir boas propriedades físicas para serem utilizados como substrato. Uma importante característica é a alta capacidade de reter a umidade e drenar o excesso de água (Corti & Crippa, 1998). O substrato também deve promover de forma adequada o fornecimento de oxigênio e a eliminação do CO2 (WRAP, 2004). Outra característica física importante para a utilização de compostos orgânicos como substrato, é estes possuírem reduzido grau de contração ou expansão.

Os compostos orgânicos possuem propriedades biológicas adequadas para seu uso como substratos. Existe na literatura a evidência de que os compostos podem estimular a proliferação de antagonistas a organismos fitopatogênicos, ajudando a controlar algumas doenças do sistema radicular (De Brito & Gagne, 1995; Mandelbaum & Hadar, 1997; Lievens, 2001).

Este trabalho visou avaliar a viabilidade do uso de compostos orgânicos obtidos com palhada de Crotalaria juncea L. e capim Napier (Pennisetum purpureum Schum.) como substratos inteiramente orgânicos para a produção de mudas de hortaliças.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A produção dos compostos utilizados nos tratamentos iniciou-se em março de 2004 e terminou após três meses de compostagem. As pilhas foram montadas com dimensões de 2,0 x 2,0 x 1,2 m (4,8 m3), a céu aberto, sob lona plástica, em quatro camadas contendo todos os materiais.

As matérias-prima utilizadas foram 1) parte aérea de Crotalaria juncea L. com três meses de idade, cortada e fragmentada em picadeira uma semana antes da montagem das pilhas; 2) capim Napier (Pennisetum purpureum Schum.) cortado e fragmentado em picadeira duas semanas antes da montagem das pilhas; 3) esterco bovino curtido; e 4) biofertilizante líquido Agrobio, produzido à base de esterco, melaço, torta de mamona e micronutrientes. A proporção de cada matéria prima foi calculada com base no seu teor de matéria seca.

A irrigação das pilhas foi realizada sempre que amostragens semanais revelavam que a umidade se encontrava abaixo de 50%. O revolvimento das pilhas foi realizado semanalmente no primeiro mês e quinzenalmente no segundo e terceiro mês.

Foram avaliados os compostos produzidos a partir dos materiais a) 100C: 100% de Crotalária Júncea; b) 66C33N: 66% de Crotalária Júncea + 33% de Napier; c) 33C66N: 33% de Crotalária Júncea + 66% de Napier; d) 100N: 100% de Napier; e) 33C66N+E: 33% de Crotalária Júncea + 66% de Napier, inoculado com mais 5% da massa com esterco bovino; f) 33C66N+A: 33% de Crotalária Júncea + 66% de Napier, inoculado com 100 litros de Agrobio diluído a 5%; g) 100N+A: 100% de Napier, inoculado com 100 litros de Agrobio diluído a 5%. Além dos compostos, foi incluído como tratamento o substrato comercial Plantmax HT® como controle. A caracterização destes materiais está apresentada na Tabela 1. A análise de pH foi realizada segundo o método descrito por Tedesco (1995), em solução de água destilada. A condutividade elétrica foi medida no mesmo extrato aquoso obtido para a medição do pH (5:1, v/v). As análises dos teores de N, Ca, Mg, K e P foram realizadas utilizando o procedimento operacional descrito por Silva (1999).

 

 

Utilizou-se as espécies: alface (folhosa) cultivar " Regina" , beterraba (raiz) cultivar " Top Early Wonder" e tomate (hortaliça de fruto) cultivar " Santa Clara" . Foi realizado um experimento para cada espécie. Os experimentos foram instalados em delineamento inteiramente casualizado, com três repetições.

Os experimentos foram realizados em casa de vegetação da PESAGRO RIO, situada em Seropédica-RJ, a 26 m de altitude e coordenadas 22º 45' S (latitude) e 43º 40' W (longitude). As mudas de tomate e de beterraba foram produzidas em bandejas de poliestireno expandido com 128 células e as mudas de alface em bandejas com 200 células. Para cada tratamento foi utilizada a metade de uma bandeja. Visando reduzir influências locais, as bandejas foram trocadas de lugar duas vezes por semana.

A semeadura ocorreu em 24/06/04 e as avaliações ocorreram 33 dias após a semeadura. Para as avaliações, foram utilizadas dez plantas por parcela. Foram avaliados a altura da parte aérea, número de folhas, produção de massa fresca na parte aérea e produção de massa seca na parte aérea.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Alface: Houve efeito significativo para todas as características estudadas (Tabela 2).

 

 

Os compostos produzidos apenas com Napier foram os que apresentaram os piores resultados, com desempenho muito inferior aos demais tratamentos. É provável que foi devido aos reduzidos teores de nutrientes (Tabela 1) e também devido à baixa estabilidade e maturidade destes compostos, que geralmente está associada à baixa capacidade de retenção de água, baixa CTC, pH muito elevado e presença de substâncias tóxicas.

O composto produzido apenas com Crotalária Júncea (100C) apresentou resultado inferior aos compostos produzidos com a mistura de Crotalária Júncea e Napier. A elevada salinidade apresentada por este composto, revelada por seu elevado valor de CE (2,80 dS m-1) pode ter ocasionado este resultado.

Os compostos produzidos com a mistura de Crotalária Júncea e Napier proporcionaram os melhores resultados, provavelmente devido apresentarem teores de nutrientes e outros sais em níveis ótimos para o desenvolvimento das mudas de alface.

Os tratamentos 66C33N, 33C66N+E e 33C66N+A resultaram em valores de produção de massa seca de parte aérea muito próximos aos valores obtidos por Martins et al. (2001) para mudas de alface produzidas em substrato de vermicomposto. Frazin et al. (2005), obtiveram valores de 122 e 59 mg planta-1 para produção de massa fresca e de massa seca, respectivamente, de mudas de alface Regina aos 20 dias após a semeadura e crescidas em substrato Plantmax sob condições controladas.

Os materiais com inoculação da mistura de 33% de Crotalária Júncea e 66% de Napier apresentaram desempenho semelhante ao tratamento 66C33N, indicando que se pode reduzir os níveis de Crotalária Júncea na mistura, desde que se efetue a inoculação (Tabela 2).

Beterraba: Houve efeito significativo para todas as características estudadas (Tabela 3).

 

 

Os compostos produzidos apenas com Napier também apresentaram os menores valores para as características estudadas.

O composto produzido com a mistura de 66% de Crotalária Júncea e 33% de Napier foi o que mais favoreceu o desenvolvimento das mudas de beterraba.

O composto produzido com a mistura de 33% de Crotalária Júncea e 66% de Napier, sem inoculação, apresentou desempenho semelhante ao substrato comercial. Os materiais com a inoculação desta mistura apresentaram desempenho inferior. O composto produzido apenas com Crotalária Júncea (100C) também apresentou desempenho inferior.

Os resultados obtidos para produção de massa fresca e de massa seca de parte aérea de mudas de beterraba estão, em média, superiores aos obtidos por Lopes et al. (2004) que, testando um substrato formado pela mistura de Plantmax e Argisol, obtiveram valores de 193,2 e 10,3 mg planta-1.

Tomate: Houve efeito significativo para todas as características estudadas (Tabela 4).

 

 

Os resultados das características altura das plantas, nº de folhas, produção de massa fresca e de massa seca observados para tomate, foram semelhantes aos obtidos para alface e beterraba. O composto produzido com a mistura de 66% de Crotalária Júncea e 33% de Napier foi o que se mostrou mais favorável ao desenvolvimento das mudas de tomate. Os demais compostos apresentaram resultados inferiores ao substrato comercial.

Os resultados observados nos três experimentos permitem concluir que compostos orgânicos produzidos com a mistura de 66% de Crotalaria juncea L. e 33% de capim Napier (Pennisetum purpureum Schum.) podem ser utilizados na produção de mudas de alface, beterraba e tomate.

 

REFERÊNCIAS

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(Recebido para publicação em 17 de maio de 2006; aceito em 11 de setembro de 2007)

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