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Horticultura Brasileira

Print version ISSN 0102-0536

Hortic. Bras. vol.28 no.1 Brasília Jan./Mar. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-05362010000100008 

PESQUISA

 

Consórcio couve-coentro em cultivo orgânico e sua influência nas populações de joaninhas

 

Performance of the kale-coriander intercropping in organic cultivation and its influence on the populations of ladybeetles

 

 

André Luis S ResendeI,*; Abraão José da S VianaII; Rafael J OliveiraII; Elen de L Aguiar-MenezesIII; Raul de LD RibeiroIV; Marta dos SF RicciIII; José Guilherme M GuerraIII

IUFRRJ, Pós-graduação em Fitotecnia, Rod. BR 465, km 07, 23890-000 Seropédica-RJ
IIUFRRJ-Instituto de Agronomia
IIIEmbrapa Agrobiologia, C. Postal 74505, 23890-000 Seropédica-RJ
IVUFRRJ-Instituto de Agronomia, Deptº Fitotecnia

 

 


RESUMO

O consórcio de culturas é comumente praticado na produção de hortaliças devido a diversos benefícios econômicos. Em alguns casos, podem reduzir infestações de pragas por favorecer a conservação dos inimigos naturais nos agroecossistemas. Avaliou-se a viabilidade agronômica do consórcio de couve e coentro, sob manejo orgânico, com base em parâmetros fitotécnicos, além de sua influência sobre populações de joaninhas (Coleoptera: Coccinellidae), na comparação com os respectivos cultivos solteiros. O coentro, representando a cultura secundária, foi utilizado com a finalidade de fornecer recursos para as joaninhas. O estudo foi realizado em área do Sistema Integrado de Produção Agroecológica em Seropédica-RJ. O experimento consistiu dos consórcios: 1) couve consorciada com coentro, cujas quatro linhas de plantas foram colhidas na fase vegetativa (consórcio I), e 2) couve consorciada com coentro, cujas plantas das duas linhas internas (próximas à linha da couve) foram colhidas na fase vegetativa e as duas linhas externas foram cortadas após floração (consórcio II). Em ambos consórcios foram avaliados os parâmetros fitotécnicos da couve e do coentro na fase vegetativa (padrão comercial), enquanto que no consórcio II, também se avaliou as populações de joaninhas, por meio de coletas semanais de adultos, em comparação com a couve em cultivo solteiro. O delineamento experimental foi em blocos ao acaso com quatro repetições. O coentro não interferiu na produtividade da couve consorciada e sua introdução contribuiu positivamente para a abundância e diversidade de espécies de joaninhas. O índice de equivalência de área para o consórcio I, com referência aos rendimentos de biomassa aérea fresca, foi superior em 92% em relação ao cultivo solteiro. Este resultado demonstra a viabilidade do consórcio I, no manejo orgânico adotado, para plantios de outono nas condições edafoclimáticas da Baixada Fluminense.

Palavras-chave: Brassica oleracea var. acephala, Coriandrum sativum, agricultura orgânica, eficiência agronômica, controle biológico.


ABSTRACT

Intercropping is commonly practiced in the production of vegetable crops due to diverse economic benefits. In some cases, it may decrease the infestations of pests by favoring the conservation of the natural enemies in the agroecosystems. This study aimed to evaluate the agronomical viability of the kale and coriander intercropping, under organic management, based on phytotechnical parameters, and its influence on the populations of ladybeetles (Coleoptera: Coccinellidae) in comparison to respective sole crops. Coriander, representing the secondary crop, was used aiming to provide resources to ladybeetles. The study was carried out in area of the Sistema Integrado de Produção Agroecológica, Seropédica county, State of Rio de Janeiro. The experiment consisted of two types of intercropping: 1) kale intercropped with coriander, whose four lines of plants were harvested at the vegetative phase (intercropping I), and 2) kale intercropped with coriander, whose plants of the two internal lines (near to the line of kale) were harvested at the vegetable phase, and the two external lines were cut after blossom (intercropping II). In both intercropping the phytotechnical parameters of the kale and the coriander at the vegetative phase (commercial standard) were evaluated, while in the intercropping II, the populations of ladybeetles were also evaluated by weekly samples of adults, in comparison to kale sole crop. The experimental design was of randomized blocks with four replicates. Coriander did not interfere in the productivity of the kale intercropped and its introduction contributed positively to the abundance and the species diversity of ladybeetles. The land equivalent ratio for the intercropping I, taking into account the yield of fresh aerial biomass, was superior in 92% in relation to kale sole crop. This result demonstrates the viability of the intercropping I, in the organic management adopted, for cultivation of autumn in the edaphoclimatic conditions of the Baixada Fluminense region.

Keywords: Brassica oleracea var. acephala, Coriandrum sativum, organic agriculture, agronomic efficiency, biological control.


 

 

O consórcio de culturas é um importante componente dos sistemas agrícolas sustentáveis, nos quais se incluem os orgânicos. É uma prática agrícola bastante comum no cultivo de hortaliças em pequenas unidades de produção de regiões tropicais, sobretudo aquelas de base familiar (Montezano & Peil, 2006). Entre os benefícios dos consórcios estão a otimização do aproveitamento da terra, água, insumos agrícolas e mão-de-obra, além da contribuição para estabilização da atividade rural, assegurando colheitas escalonadas e possibilitando renda adicional para o produtor (Cecílio Filho & May, 2002; Montezano & Peil, 2006).

O aumento da produção por unidade de área cultivada é uma das razões mais importante para o emprego de consórcios de culturas (Montezano & Peil, 2006). Todavia, de modo geral, o sistema consorciado não infere no uso de tecnologias que busquem máxima produtividade. Há consórcios nos quais as interações biológicas representam serviços ecológicos de importância acentuada, dentre eles a redução do nível de dano ocasionado por insetos-pragas, através de estímulos aos inimigos naturais, tais como as joaninhas predadoras (Santos, 1998; Patt et al., 1997; Altieri et al., 2003). Por exemplo, em estudo sobre consórcios de berinjela (Solanum melongena L.) com duas apiáceas (coentro (Coriandrum sativum L.) ou endro (Anethum graveolens L.) no controle do inseto-praga Leptinotarsa decemlineata (Say) (Coleoptera: Chrysomelidae), Patt et al. (1997) observaram nos consórcios maior abundância e diversidade de espécies de joaninhas predadoras, principalmente Coleomegilla maculata DeGeer, Coccinella septempunctata L., Harmonia axyridis (Pallas), Hippodamia parenthesis (Say), Hippodamia variegata Goeze e Propylea quatuordecimpunctata L., comparativamente ao cultivo solteiro da berinjela, bem como observaram o aumento do consumo de massas de ovos do inseto-praga pelas joaninhas.

Esses estímulos são, geralmente, proporcionados pela presença da planta "companheira"(cultura secundária) no consórcio e referem-se ao fato dessas plantas provocarem alterações microclimáticas favoráveis e/ou proverem abrigo e/ou recursos nutricionais suplementares, como pólen, néctar e presas ou hospedeiros alternativos, aos inimigos naturais, proporcionando a conservação desses agentes de controle biológico no agroecossistema (Altieri et al., 2003; Wackers et al., 2005; Montezano & Peil, 2006). Vários estudos conduzidos em sua maioria nos EUA, na Europa e na Austrália mostraram que espécies de plantas da família Apiaceae podem fornecer recursos que garantem a sobrevivência e/ou reprodução de inimigos naturais e que, portanto, poderiam compor consórcios culturais com o propósito de fornecer esse serviço ecológico (Bugg & Wilson, 1989; Patt et al., 1997).

Contudo, a eficiência agronômica dos sistemas consorciados depende da complementaridade espacial e temporal entre culturas, sendo necessário minimizar a competição entre as espécies e cultivares envolvidas (Montezano & Peil, 2006). Resultados positivos, em termos de produtividade, conferem aos consortes a condição de plantas "companheiras"(Kuepper & Dodson, 2001; Montezano & Peil, 2006).

O índice de equivalência de área (IEA) tem sido usado com freqüência como indicador da eficiência dos consórcios. Assim, o IEA estima a área física requerida aos cultivos solteiros para que se obtenha produção equivalente à do sistema consorciado. Quando o IEA é maior que 1,0 fica demonstrada a viabilidade técnica do manejo estabelecido para o consórcio (Vandermeer, 1989; Montezano & Peil, 2006).

De acordo com Montezano & Peil (2006), o consórcio de hortaliças, embora praticado com freqüência, é ainda pouco pesquisado. Segundo estes mesmos autores, as cultivares de hortaliças são selecionadas visando o monocultivo, e torna imprevisível o comportamento dos genótipos quando em cultivo consorciado, portanto, indicando a conveniência da experimentação em nível regional.

Nenhum registro específico sobre o desempenho agronômico do consórcio entre couve (Brassica oleracea L. var. acephalaD.C.) e coentro (Coriandrum sativum L.) foi encontrado. Tivelli et al. (2006) avaliaram o consórcio de couve com alface (Lactuca sativa L.), constatando aumentos significativos na produtividade da couve, na qualidade da alface e na eficiência do uso da terra, em relação aos respectivos cultivos solteiros. Pesquisas sobre consórcio de diversas hortaliças como o coentro têm apresentado resultados promissores, incluindo cenoura (Dacus carota L.) (Freitas et al., 2004), alface (Freitas et al., 2004; Oliveira et al., 2005), cebolinha (Allium fistulosum L.) (Zárate et al., 2005), taro [Colocasia esculenta (L.) Schott] (Zárate et al., 2007a) e rabanete (Raphanus sativus L.) (Grangeiro et al., 2008).

O presente estudo teve o objetivo de avaliar a viabilidade técnica do consórcio de couve e coentro, em sistema orgânico de produção, nas condições edafoclimáticas da Baixada Fluminense, com base em parâmetros fitotécnicos, assim como sua influencia sobre populações de joaninhas (Coleoptera: Coccinellidae).

 

MATERIAL E MÉTODOS

O estudo foi conduzido no período de abril a outubro de 2007 em área do Sistema Integrado de Produção Agroecológica (SIPA). O SIPA representa um projeto de pesquisa em agricultura orgânica, caracterizado pelo cultivo diversificado de hortaliças, fruteiras e cereais integrado à produção animal. Está localizado no município de Seropédica (22º46'S, 43º41'W e 33 m de altitude), Região Metropolitana do estado do Rio de Janeiro (Neves et al., 2005).

O solo da área experimental é classificado como Argissolo Vermelho-Amarelo, cuja análise, realizada na fase de pré-plantio, à profundidade de 0-20 cm, revelou: pH em água= 6,7; Al+++= 0,0 cmolc dm-3; Ca++= 3,5 cmolc dm-3; Mg++= 1,3 cmolc dm-3; K+= 517,5 cmolc dm-3 e P disponível= 179,7 mg dm-3. A adubação orgânica consistiu da incorporação de 100 kg de N ha-1 aos canteiros por ocasião da semeadura do coentro e de 50 kg de N ha-1 mensalmente, ao redor das plantas de couve, até o final do ciclo produtivo. As fontes de adubo foram, respectivamente, o esterco de bovino curtido (pré-plantio) e a torta de mamona em cobertura.

Adotou-se o delineamento experimental de blocos ao acaso, com quatro repetições. Os tratamentos foram: 1) couve consorciada com coentro, sendo este colhido aos 55 dias após a semeadura, ainda em fase vegetativa (consórcio I); 2) couve consorciada com coentro, cujas plantas correspondentes às duas linhas interiores (mais próximas à linha de plantio da couve) foram colhidas aos 55 dias após a semeadura e às duas linhas externas mantidas até o final da fase de floração (consórcio II); 3) coentro em cultivo solteiro; e 4) couve em cultivo solteiro.

Foram utilizadas a cultivar Hevi-Crop de couve (Brassica oleracea var. acephala D.C.) e a cultivar Asteca de coentro (Coriandrum sativum L.). O coentro foi utilizado como cultura secundária por possuir nectários florais (Diederichsen, 1996), objetivando suplementar recursos alimentares para as joaninhas. As mudas de couve foram produzidas em bandejas de poliestireno expandido, abastecidas com substrato orgânico. O coentro foi semeado diretamente nos canteiros, sete dias antecedendo o transplantio das mudas de couve.

A couve foi cultivada no espaçamento padrão de 1,0 x 0,5 m, enquanto o coentro foi semeado em linhas distanciadas de 0,2 m entre si, conservando-se 20 plantas por metro linear após o desbaste. Esses espaçamentos foram empregados tanto nos cultivos solteiros de cada espécie quanto nos consórcios entre elas. As parcelas experimentais ocuparam 6,0 m2 (6,0 x 1,0 m), sendo compostas por 11 plantas de couve dispostas em linha única e/ou 480 plantas de coentro dispostas em quatro linhas, independentemente do tratamento (consórcio ou cultivo solteiro).

A cada colheita semanal de couve foram aferidos: número de folhas de padrão comercial por planta; área foliar específica (relação entre a área foliar e a biomassa seca das folhas); índice de área foliar (IAF = razão entre área foliar colhida e unidade de área cultivada) e produtividade (biomassa fresca das folhas de padrão comercial por metro quadrado de área cultivada). A área foliar foi determinada pelo método de referência, usando o aparelho digital integrador (LI-COR, modelo LI 3100). No total, foram realizadas 21 colheitas semanais de couve, com início aos 40 dias após o transplantio das mudas.

Com respeito aos parâmetros fitotécnicos do coentro, foram avaliados: altura das plantas aos 50 dias após semeadura, rendimento em biomassa de parte aérea (fresca e seca), número de molhos de 100 g por unidade de área cultivada (m2) e número de hastes por planta (obtido pela média de 80 indivíduos por parcela), os quais foram determinados aos 55 dias após semeadura.

A avaliação da eficiência agronômica do consórcio I foi feita por meio do cálculo do índice de equivalência de área (IEA), com base nas produções de biomassa da parte aérea fresca da couve (produtividade total) e do coentro, sendo este último colhido no padrão comercial (aos 55 dias a contar da semeadura). Foi utilizada a seguinte equação (Vandermeer, 1989): IEA = (Icouve S-1couve) + (Icoentro S-1coentro), onde: I e S = produtividade correspondente a cada cultura no cultivo consorciado e no cultivo solteiro, respectivamente.

Para aferir a diversidade de espécies e os níveis populacionais de joaninhas predadoras, foram executadas coletas desses insetos três vezes por semana nas plantas de couve e coentro no consórcio II e de couve no cultivo solteiro. Nessas plantas também foi observada a presença ou a ausência de pulgões. Os adultos de joaninhas foram removidos manualmente ou com auxílio de aspirador bucal, durante períodos de 30 minutos para cada parcela experimental, seguindo metodologia proposta por Michels Junior et al. (1996). As joaninhas foram acondicionadas em copos plásticos transparentes (250 ml), tamponados com tela de organza para permitir ventilação, sendo as amostras transportadas ao laboratório para contagem e identificação taxonômica. A freqüência relativa das espécies de joaninhas foi estabelecida pela seguinte equação: F = n x 100/N, em que n = número de adultos de determinada espécie de joaninha e N = número total de adultos, equivalendo a todas as espécies de joaninhas coletadas.

Nos dados obtidos, as pressuposições de normalidade e homogeneidade de variâncias foram obtidas e análises univariada de variância foram realizadas através do programa SAEG 9.0. Diferenças significativas entre tratamentos foram estabelecidas pelo teste F (P = 0,05) e as médias comparadas pelo teste de Tukey (p = 0,05).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O consórcio com a couve não influenciou a maioria dos parâmetros fitotécnicos relativos ao coentro (Tabela 1). Houve diferença significativa apenas para altura da planta, superior no cultivo consorciado. Esse mesmo resultado foi observado em consórcios de coentro com outras espécies de hortaliças, os quais induziram maior porte da planta de coentro, caracterizando que houve competição por luz (Zárate et al., 2005; Zárate et al., 2007a; Grangeiro et al., 2008).

Diferindo dos resultados obtidos no presente estudo, Zárate et al. (2007a,b) e Grangeiro et al. (2008) observaram que o rendimento em massa fresca de parte aérea do coentro foi maior no cultivo solteiro, porém, as cultivares usadas por esses autores foram outras (Português e Verdão). Em experimento de avaliação de consórcios entre alface e coentro, conduzido por Oliveira et al. (2005) em Mossoró, estado do Rio Grande do Norte, a cultivar de coentro Asteca em cultivo solteiro alcançou rendimento em massa aérea fresca de 1,992 kg m-2, assim ultrapassando o valor médio obtido no presente estudo para a mesma cultivar. Tal variação pode ser atribuída a diferenças edafoclimáticas e de práticas culturais empregadas.

Todavia, nos experimentos de Oliveira et al. (2005), quando em cultivo consorciado com alface, os valores referentes a número de molhos de 100 g m-2, número de haste planta-1 e rendimento em massa fresca da parte aérea para a cultivar Asteca foram mais baixos do que no consórcio com a couve aqui relatado (Tabela 1).

Quanto à couve, o consórcio com o coentro não afetou o número de folhas por planta em qualquer das 21 colheitas semanais realizadas. Na maioria dessas colheitas, o consórcio também não mostrou influencia sobre a área foliar específica da couve.

Efeito significativo foi apenas constatado na sétima e na nona colheitas (Tabela 2), onde se observou na couve no cultivo solteiro e no consórcio I redução de área foliar específica, em comparação ao consórcio II.

O índice de área foliar (IAF) da couve também diferiu significativamente em função dos sistemas de cultivo, em apenas duas das colheitas efetuadas (Tabela 2). Na terceira colheita, o cultivo solteiro da couve resultou em valores significativamente mais altos de IAF, mas não diferindo do consórcio II. Na décima colheita, contrariamente à terceira, neste tipo de consórcio, observou-se valores de IAF inferiores aos dos dois outros tratamentos.

Em 14 das 21 colheitas de couve, não houve diferença significativa na produtividade da couve entre tratamentos, demonstrando que ambos os tipos de consórcio couve x coentro pouco interferiram na produtividade da cultura principal. A produtividade da couve em cultivo solteiro diferiu significativamente de apenas um dos consórcios com referência à terça parte das colheitas semanais (Tabela 2).

No consórcio I, em que as quatro linhas de coentro foram colhidas de uma única vez e coincidindo com a segunda colheita da couve, constatou-se uma queda significativa na produtividade da brássica nas duas colheitas seguintes, em comparação ao cultivo solteiro (Tabela 2). No entanto, da quinta colheita em diante, a produtividade da couve consorciada equiparou-se à de seu cultivo solteiro, com exceção da 15ª colheita.

No consórcio II, em que as duas linhas externas de coentro foram mantidas até o final da fase de floração, a produtividade da couve foi significativamente menor em relação aos outros dois tratamentos na primeira colheita e novamente entre as 12ª e 15ª colheitas (Tabela 2). Tal efeito possivelmente correlacionou-se à retirada do coentro florido, que coincidiu com a data da 12ª colheita.

Em termos de produtividade total da couve, quando o coentro foi colhido aos 55 dias de idade (consórcio I), não se observou interferência na comparação com o cultivo solteiro, ocorrendo o contrário com o consórcio II, em que se constatou queda de produtividade da couve (Tabela 2).

O índice de equivalência de área (IEA) referente ao consórcio I atingiu o valor de 1,92. Isto significa que os cultivos solteiros de couve e coentro precisariam de 92% a mais de área ocupada com os consórcios para alcançar rendimento equivalente. Oliveira et al. (2005) registraram valores de IEA, relacionados a consórcios de duas cultivares de alface e de cinco cultivares coentro, variando de 1,42 a 3,21, sendo que para coentro cv. Asteca, o valor de IEA para consórcio com alface Babá de Verão foi superior ao obtido para o consórcio I, o qual, por sua vez, foi inferior ao IEA do consórcio com a alface Tainá. Valores de IEA também superiores a 1,0 foram obtidos em consórcios de coentro com outras espécies de hortaliças, como cenoura (Freitas et al., 2004), cebolinha (Zárate et al., 2005), taro (Zárate et al., 2007a) e rabanete (Grangeiro et al., 2008), mas que ficaram abaixo do IEA obtido com o consórcio I. Portanto, no presente estudo, o consórcio couve x coentro mostrou-se efetivo, conforme postulado por Vandermeer (1989), bem como foi coerente com o princípio da "produção competitiva", o qual estabelece que "duas culturas consorciadas só irão produzir mais do que os respectivos cultivos solteiros se a competição mútua for suficientemente fraca"(Santos, 1998).

Não se registrou infestação de pulgões na couve durante todo o período experimental. O pequeno tamanho das parcelas pode ter contribuído para esse resultado, devido proporcionar baixa densidade de plantas de couve no experimento. Substâncias químicas secundárias, como a sinigrina e outros glucosinolatos, estão presentes em brássicas e servem como sinais para seleção da planta hospedeira pelos insetos, sendo normalmente usadas pelos pulgões como substancias atraentes e estimulantes da alimentação (Gabrys & Tjallingii, 2002). Portanto, uma baixa densidade de plantas pode resultar em baixa concentração de odores atrativos aos pulgões, dificultando a colonização das plantas, a qual pode ter sido agravada pelo confundimento das formas aladas de pulgões causado pelos odores dos óleos essenciais do coentro. Contudo, a abundante presença de joaninhas na área cultivada, principalmente nas parcelas do consórcio II, também pode ter colaborado com a ausência de infestação das plantas por pulgões, visto que a maioria das espécies de joaninhas coletadas é afidófaga (Michaud, 1998; Resende et al., 2006, 2007; Weeden et al., 2008). Hyperapis notata Mulsant e Zagreus bimaculosus Mulsant constituíram as exceções porque são consideradas coccidófagas (predadoras de cochonilhas) (Wolff et al., 2004), embora Resende et al. (2007) já tenham observado larvas de H. notata predando pulgões (Lipaphis pseudobrassicae Davis) em couve.

As populações de adultos de joaninhas no consórcio couve x coentro foram numericamente superiores às encontradas no cultivo solteiro de couve. A presença do coentro junto à couve, na forma de consórcio em faixas, aumentou tanto a abundância quanto a riqueza de espécies de joaninhas (Tabela 3). Patt et al. (1997), ao estudarem a influência do consórcio de berinjela com o coentro sobre populações de joaninhas, reportaram resultados análogos, também constatando número significativamente maior de indivíduos e de espécies desses insetos predadores no cultivo consorciado do que no cultivo solteiro de berinjela.

 

 

No presente estudo, o estímulo às populações de joaninhas no consórcio, principalmente à época da floração do coentro, provavelmente ocorreu porque a apiácea contribuiu como local adicional de abrigo para larvas, pupas e adultos desses predadores, além de prover sítios alternativos para oviposição, acasalamento e alimentação dos mesmos. Além de se alimentarem das presas, as joaninhas predadoras necessitam de recursos nutricionais além das presas, como pólen e néctar, os quais são capazes de garantir a sobrevivência dos adultos e sustentar o metabolismo e o desenvolvimento gamético de certas espécies (Wackers et al., 2005). Isto provavelmente justifica a alta freqüência de visitação das joaninhas às inflorescências do coentro, observada na área experimental. Patt et al. (1997) também assinalaram a freqüente visitação de joaninhas às inflorescências de coentro, à semelhança do aqui relatado. Ademais, no final da fase de floração, o coentro foi infestado por pulgões, os quais serviram de alimento para as joaninhas.

Assim, o arranjo espacial de uma linha central de couve e quatro linhas paralelas de coentro, mostra-se agronomicamente viável com base nos valores referentes aos índices de equivalência de área cultivada, e quando o coentro é manejado colhendo as duas linhas centrais aos 55 dias e as demais deixadas para florir estimula de modo expressivo a abundância e a diversidade de espécies de joaninhas predadoras, criando condições para o controle biológico natural.

O consórcio entre couve (cv. Hevi-Crop) e coentro (cv. Asteca), sob manejo orgânico e no arranjo espacial adotado mostrou-se viável, baseando-se no índice de equivalência de área cultivada, e o coentro em floração beneficia as populações de joaninhas predadoras, aumentando sua diversidade e abundância na área de cultivo.

 

AGRADECIMENTOS

À CAPES e à FAPERJ, respectivamente, pela concessão de bolsa de mestrado ao primeiro autor e de iniciação científica ao terceiro autor deste artigo.

 

REFERÊNCIAS

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(Recebido para publicação em 26 de fevereiro de 2009; aceito em 12 de janeiro de 2010)
(Received on February 26, 2009; accepted on January 12, 2010)

 

 

* Autor correspondente; alsresende@yahoo.com.br

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