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Horticultura Brasileira

versão impressa ISSN 0102-0536

Hortic. Bras. vol.28 no.2 Brasília abr./jun. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-05362010000200020 

ARTIGO DA CAPA

 

Plantas úteis nativas do Brasil na obra dos naturalistas

 

 

 

 

Plantas medicinais são mui­to usadas pela população rural e urbana brasileira hoje. Entre­tanto, a maior parte das espécies utilizadas é nativa de outros continentes, introduzidas aqui desde os primeiros tempos da colonização portuguesa. Além disto, a contínua destruição dos ecossistemas nativos, processo em curso ainda nos dias atuais, tem levado a uma intensa ero­são genética e cultural sobre as plantas úteis nativas do Brasil. Como consequência, raras são as pessoas que de fato usam as plantas nativas do Brasil, espe­cialmente aquelas de origem Ameríndia, segundo as tradições do passado.

Minas Gerais, por exemplo, já foi um estado muito rico em plantas medicinais. As florestas cobriam 45% do seu território e os cerrados e a caatinga per­maneceram inexplorados até o final do século XVII, pois a colonização portuguesa se concentrava no litoral. Muitos povos nativos viviam aqui, até serem deslocados ou mesmo dizimados pelos colonizadores e, posteriomente, pelos próprios brasileiros. O século XVIII foi marcado por intensa atividade mineradora e, com o esgotamen­to do ouro no século XIX, houve uma intensificação das práticas agropecuárias, especialmente em áreas anteriormente cobertas pela Mata Atlântica. No século XX iniciou-se a industrialização e a urbanização do estado, com a construção das ferrovias e dos projetos siderúrgicos, se­guido do reflorestamento com a monocultura do eucalipto. Atualmente, outros projetos, como a expansão da produção de álcool, biodiesel e soja vêm ameaçando o que restou da ve­getação nativa.

Muitas informações sobre a utilidade das plantas nativas fo­ram registradas por naturalistas que viveram nos séculos XVIII e XIX. Entre os mais importantes estão os brasileiros Alexandre R. Ferreira, que percorreu a Amazônia e o Pantanal; Frei Mariano Vellozo, que descreveu a flora do Rio de Janeiro e; o português Bernadino A. Gomes. Com a transferência da Família Real para o Brasil em 1808 e a abertura dos portos às nações amigas, dezenas de outros natu­ralistas estrangeiros chegaram ao país, percorreram extensas regiões e registraram observa­ções minuciosas sobre vários aspectos da vida dos brasileiros, inclusive o aproveitamento que faziam da biodiversidade. A contribuição de todos estes naturalistas para o conhecimento da flora brasileira é incalculável: centenas de novas plantas foram descobertas e descritas. Desta­que deve ser dado aos registros do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, que redigiu a obra específica Plantas Usuais dos Brasileiros (1824; traduzido e publicado pelo DATAPLAMT em 2009) e Histoire des plantes les plus remarcables du Brésil et Paraguay (em tradução) e Karl F.P. von Martius com seu Sistema de Matéria Médica Ve­getal Brazileira (1824). Outros naturalistas que descreveram detalhes minuciosos sobre o uso de plantas foram o austríaco E. Pohl, o alemão G. Langsdorff e o inglês R. Burton.

Desde 2003 a equipe do Banco de Dados e Amostras de Plantas Aromáticas, Medici­nais e Tóxicas da Universidade Federal de Minas Gerais (DA­TAPLAMT) vem estudando, com o contínuo apoio do CNPq e da FAPEMIG, os acervos bibliográficos e botânicos dos naturalistas, depositados em Instituições nacionais e estran­geiras. Até o momento foram recuperados dados e imagens, antigas e atuais, sobre mais de 300 espécies úteis nativas de Minas Gerais, a partir dos regis­tros deixados por 18 naturalistas que percorreram o estado. A ocorrência das espécies é veri­ficada a partir de levantamento em herbários e localização pos­terior. Os empregos do alcaçuz (Periandra mediterranea (Vell.) Mart.), azedinha (Oxalis cordata A. de St.Hil) e chá de pedestre (Lippia pseudo-thea A. St-Hil.) em culinária; índigo (Indigofera suffruticosa Mill.) em tinturaria; carqueja (Baccharis trimera (Less.) DC) em veterinária e; malva-do-campo (Pavonia diuretica A. St-Hil.), gentiana (Irlbachia spp.), salsaparrilha (Herreria salsaparrilha Mart.) e verbasco (Buddleja srachyoides Cham & Schltdl.) no tratamen­to de diferentes doenças, por exemplo, foram recuperados. Informações sobre estas e outras espécies encontram-se dispo­nibilizadas no endereço www.dataplamt.org.br, construído especificamente para este fim.

No momento, o grupo está empenhado em recuperar in­formações sobre plantas úteis descritas nas demais regiões do país. Esperamos que este traba­lho contribua efetivamente para se manter vivo o conhecimento tradicional sobre as plantas, estimule sua conservação e melhor aproveitamento como assinalou Saint-Hilaire: “Seja como for, sente-se que a matéria médica dos brasileiros, baseada unicamente no empirismo, deve ser muito imperfeita. Todavia entre tantas plantas às quais se atribuem falsamente proprie­dades maravilhosas, algumas existem que realmente fornecem remédios eficacíssimos. Se exis­tisse no Brasil maior número de homens instruídos, o governo desse país faria obra de grande utilidade, nomeando em cada província uma comissão que se encarregasse de submeter a exa­me minucioso todas as plantas de que se utilizam os colonos para aliviar seus males. Por esse meio, poder-se-ia chegar a constituir, para os vegetais, uma matéria médica brasileira, que elucidaria os colonos a res­peito de remédios ineficazes ou perigosos e, ao mesmo tempo, daria a conhecer aos nacionais e estrangeiros grande número de plantas benéficas. Trabalho de tal envergadura não se poderá fazer, sem dúvida, senão daqui a longos anos. Possa ao esperar a que vier, a obra que publiquei sobre as Plantas Usuais do Bra­sil tomar o lugar, tanto quanto possível, de uma matéria médica mais aprofundada e provar aos brasileiros o desejo que tenho de lhes demonstrar meu profundo reconhecimento mediante um trabalho que lhes seja útil!”, em Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais (1824).

 

Maria das Graças Lins Brandão (Faculdade de Farmácia e Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, Av. Gustavo da Sil­veira 1035, 30180-010 Belo Horizonte-MG; mbrandao@ufmg.br)